O quinto tratado de Seder Tehorot — os graus de impureza de alimentos e líquidos
Massechet Tehorot é o quinto tratado de Seder Tehorot, a sexta e última das seis Ordens da Mishná. Seu nome — que significa literalmente “purezas” — é enganoso: o tratado não trata das impurezas mais graves, como a do morto ou a do zav, já cobertas em outros tratados da Ordem, mas sim de um tema mais sutil e técnico — os graus de impureza que se transmitem entre alimentos e líquidos, e as regras de combinação, contato e separação que determinam como essa impureza se propaga ou se dilui. Por essa razão, alguns explicam que o nome do tratado é irônico ou eufemístico — assim como se chama de “abenççoado” quem está de luto — enquanto outros o entendem no sentido de que o tratado trata, precisamente, das situações-limite em que a pureza é preservada ou perdida por uma margem mínima.
O Perek Alef, completo com suas nove mishnayot, abre o tratado com a carcaça (nevelá) da ave — um caso intermediário entre a impureza grave dos animais terrestres e a impureza leve dos alimentos comuns. A primeira mishná lista as treze leis específicas da carcaça da ave pura, incluindo a disputa entre Rabi Meir, Rabi Yehudá e Rabi Yosei sobre se o abate e o degolamento por unha a purificam mesmo quando é tereifá (1:1); a segunda distingue as asas e a penugem, que não se combinam com a carne para a medida, do bico e das garras, que se combinam (1:2); a terceira inverte o quadro para a carcaça da ave impura, que ao contrário exige intenção e preparo, mas não contamina na garganta (1:3); a quarta passa ao animal terrestre, com o couro, o caldo, os ossos e os chifres que se combinam para a impureza de alimentos mas não para a de carcaça (1:4); e as cinco mishnayot finais desenvolvem, por meio de uma série de casos aritméticos, como se combinam alimentos contaminados em diferentes graus — meio ovo com meio ovo, um ovo com um ovo, dois ovos com dois ovos (1:5–6); pedaços de massa e pães grudados que compartilham o mesmo grau mesmo depois de separados (1:7); um pedaço já impuro ao qual se grudam outros, cujo destino após a separação difere do original (1:8); e, por fim, os pães sagrados com água consagrada em suas reentrâncias, que se contaminam em cadeia sem limite — ao contrário dos pães de teruma, cuja cadeia de contaminação para no terceiro grau (1:9).
O Perek Bet, também completo com suas oito mishnayot, abandona a carcaça da ave e passa ao tema central do tratado: os cinco graus de impureza (do primeiro ao quinto) e como se propagam de modo distinto no chulin, na teruma e no alimento sagrado. Abre com o caso da mulher que conserva verdura de teruma numa panela e toca numa folha, seca ou molhada, e com a dúvida da tevulat yom (2:1); segue com a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre o grau que assume quem come alimento impuro (2:2); estabelece os três graus no chulin e o “guisado de dema” (2:3), os quatro graus na teruma e o “guisado do sagrado” (2:4), e os cinco graus no próprio alimento sagrado (2:5); explica como o segundo e o terceiro grau contaminam os líquidos de chulin, teruma e sagrado, com efeitos distintos conforme a pureza em que os alimentos foram preparados (2:6); traz a posição minoritária de Rabi Eliezer, que equipara os três âmbitos (2:7); e encerra com a proibição de quem come alimento de segundo grau trabalhar na casa da prensa de azeite, e a disputa sobre o chulin preparado na pureza do sagrado (2:8).
O Perek Guimel, também completo com suas oito mishnayot, retoma inicialmente os líquidos que coalham e se dissolvem — o caldo, as papas de grão triturado, o leite, o azeite, o mel, o vinho e o bloco de azeitonas que cai no forno — todos julgados pela medida de um ovo e pela regra de que a primeira gota contamina o restante (3:1–2); segue com os casos de contaminação por prensagem de azeitonas e uvas e por ordenha, distinguindo a impureza por contato, que exige a medida de um ovo, da impureza por carregamento (massá), que dispensa medida (3:3); estabelece o princípio de que toda medida se afere pelo tamanho encontrado no momento — alimentos que diminuem ao sol e incham na chuva (3:4). As três mishnayot seguintes desenvolvem o princípio geral da dúvida em impureza: tudo se decide pelo estado — puro ou impuro, coberto ou descoberto — encontrado no momento em que a coisa é achada, como a agulha cheia de ferrugem ou quebrada (3:5); quem não tem entendimento para ser interrogado — o surdo-mudo, o louco e o menor — tem sua dúvida sempre decidida como pura, mesmo no domínio privado (3:6); e a criança achada junto ao cemitério com lírios na mão, presumida pura porque outro pode tê-los colhido para ela (3:7); e encerra com a criança achada junto à massa com um pedaço na mão, disputa entre Rabi Meir e os sábios, e as regras de distância entre líquidos impuros e pães quanto às galinhas, à vaca, ao cão e aos demais animais (3:8).
O Perek Dálet, completo com suas treze mishnayot, aprofunda o tema da dúvida em impureza já introduzido ao final do Perek Guimel. Abre com o princípio de que a impureza em trânsito — lançada de um lugar a outro, ou carregada na boca de um animal em movimento — não tem lugar de repouso, e por isso sua dúvida é sempre pura (4:1–3); segue com os casos em que a dúvida se decide pelo próprio objeto em que nasceu, como os dez baldes e o utensílio derramado (4:4); e lista os seis casos graves em que, apesar da dúvida, a teruma é queimada — o bet haperás, a terra dos povos, as vestes do am haaretz, os utensílios achados, as salivas achadas e a urina duvidosa — com a disputa entre Rabi Yosê e os sábios sobre o domínio privado, e o caso das duas salivas, uma pura e uma impura (4:5–6). A partir da sétima mishná, o perek lista e depois detalha, uma a uma, as onze dúvidas que os sábios declararam puras: a água extraída e a impureza flutuante sobre a água, com a disputa entre Rabi Shimon, Rabi Yehudá e Rabi Yosê (4:7–8); os líquidos, quanto a se contaminarem e quanto a contaminarem outros, com a posição própria de Rabi Yosê sobre alimentos e utensílios (4:9–10); as mãos, o domínio público e as palavras dos escribas (4:11); o chulin (a “pureza da separação” dos perushim), os répteis, as pragas, o voto de nazíreu e os primogênitos (4:12); e encerra com a dúvida dos sacrifícios, no caso da mulher com dúvida de cinco partos e cinco fluxos duvidosos, que traz um único sacrifício para todas as suas dúvidas (4:13).
O Perek Hei, completo com suas nove mishnayot, dá continuidade ao tema da dúvida em impureza. Abre com a lista dos sete casos de dúvida em domínio público entre um objeto impuro e um puro colocados lado a lado — o réptil e a rã, a azeitona e o osso de cadáver e de carniça, os torrões de bet haperás e da terra dos povos, os dois caminhos —, opondo Rabi Akiva, que exige purificação cautelar da própria pessoa, aos sábios, que resolvem a dúvida para a pureza; e a mishná seguinte trata da dúvida da própria pessoa quanto a ter tocado, com a distinção de Rabi Yosé entre o costume de andar e o de tocar (5:1–2). Seguem-se os casos em que uma única pessoa, ou dois homens diferentes, passam por dois caminhos ou tocam em dois objetos duvidosos, um após o outro, com ou sem purificação intermediária — e a controvérsia entre Rabi Yehudá e Rabi Yosé sobre se a pergunta simultânea ou separada altera o resultado, aplicada tanto ao caminho e ao contato quanto ao alimento impuro por decreto rabínico (5:3–6). O perek trata em seguida das dúvidas envolvendo o próprio corpo e as roupas — a saliva encontrada, o pisão em domínio público, o sono, e o contato noturno com alguém encontrado morto pela manhã (5:7); e o caso extremo da cidade com uma única louca, gentia ou cuteia, onde toda saliva encontrada é declarada impura, e o caso da mulher cujo contato com as roupas de um homem pode transmitir impureza (5:8). Encerra-se com as regras de testemunho contraditório sobre a impureza de alguém, aplicando novamente o princípio de que a dúvida se resolve conforme o domínio — impura em privado, pura em público (5:9).
O Perek Vav, completo com suas dez mishnayot, desenvolve sistematicamente o princípio da dúvida por domínio. Abre com o domínio que muda ao longo do tempo, e o moribundo levado do domínio privado ao público e de volta, com a controvérsia de Rabi Shimon sobre a interrupção retroativa do juízo (6:1); segue com as quatro dúvidas — quem está parado e quem passa, a impureza e a pureza divididas entre domínios, e as dúvidas de contato, sombra e deslocamento — que Rabi Yehoshua declara impuras e os sábios declaram puras (6:2); trata da árvore e do buraco, cujo topo e interior contam como domínio privado mesmo dentro do domínio público, e da loja impura aberta ao público, contrastada com o caso de duas lojas (6:3). Leva ao extremo o princípio da multiplicação de dúvidas sobre dúvidas, com a distinção de Rabi Elazar entre dúvida de entrada e dúvida de contato (6:4), aplicada ao caso do vale na época das chuvas (6:5); esclarece que apenas a palavra segura do próprio interessado afasta a presunção do domínio, e introduz a distinção entre o domínio quanto ao shabat e o domínio quanto à impureza, exemplificada pelos caminhos de Bet Guilgul (6:6). As quatro mishnayot finais percorrem uma série de espaços em que essa dualidade se repete — domínio privado para o shabat, domínio público para a impureza: o vale entre o verão e as chuvas (6:7); a basílica, com a exceção de Rabi Yehudá para portas visíveis entre si (6:8); o parán e seus lados, com a posição isolada de Rabi Meir (6:9); e a colunata e o pátio de passagem (6:10).
O Perek Zayin, completo com suas nove mishnayot, volta-se para os limites da impureza causada pela presença do am haaretz — pessoa não cuidadosa quanto às leis de pureza — dentro da casa de um chaver. Abre com o oleiro cujos potes externos se tornam impuros por exposição ao público, e com o princípio de que a mera entrega da chave não torna a casa impura (7:1); segue com o am haaretz deixado dormindo ou acordado, cuja impureza se limita, segundo os sábios, ao alcance de sua mão quando ele acorda inesperadamente (7:2), regra estendida aos artesãos que trabalham na casa (7:3) e à esposa do am haaretz que mói grãos, com a distinção entre o moinho em funcionamento e parado, e o caso agravado de duas mulheres (7:4). Trata em seguida do am haaretz deixado explicitamente para vigiar a casa, distinguindo entre a impureza leve dos alimentos e utensílios abertos, sempre presumida, e a impureza mais grave dos leitos e assentos, que só se presume quando ele não pode ver quem entra e sai (7:5); e dos cobradores de impostos e ladrões que invadem a casa, com regras de confiabilidade quando acompanhados por um gentio (7:6). A mishná seguinte cuida das roupas deixadas no vestiário do balneário, com a controvérsia entre Rabi Elazar ben Azariá e os sábios sobre as garantias necessárias, e dos utensílios de vindima confiados de um lagar a outro (7:7); depois, do cohen que desiste mentalmente de comer teruma, e do princípio de que as mãos, por serem sempre “atarefadas”, tornam-se impuras pela simples distração de mente (7:8). Encerra-se com os dois casos da mulher que se ausenta de junto de teruma e encontra outra pessoa nas proximidades, resolvidos a favor da pureza pelos sábios, contra a suspeita de Rabi Akivá fundada na gula alimentar (7:9).