Rabi Yosê diz: a dúvida dos líquidos é impura quanto aos alimentos, e pura quanto aos utensílios. Como assim? Duas talhas, uma impura e uma pura, e fez massa com o conteúdo de uma delas: se há dúvida se a fez com a impura, se há dúvida se a fez com a pura — este é o caso de “a dúvida dos líquidos é impura quanto aos alimentos, e pura quanto aos utensílios”.
Rabi Yosê acrescenta uma distinção própria à regra da mishná anterior, fundada em sua posição de que contaminar outros objetos por meio de líquidos tem base bíblica quando se trata de alimentos, mas é apenas de origem rabínica quando se trata de utensílios. Por isso, no exemplo dado — duas talhas de água, uma impura e outra pura, e não se sabe com qual delas se amassou a massa —, a própria massa (o alimento) é considerada impura por dúvida, seguindo o rigor da lei bíblica; mas a amassadeira (o utensílio em que se misturou a massa) permanece pura, pois a contaminação de utensílios por líquidos é apenas de origem rabínica, e em matéria de decreto rabínico duvidoso a lei é mais leniente. A lei não é como Rabi Yosê.
Rabi Yosê diz que a massa é impura, por ser alimento, e a amassadeira em que se amassou esta massa é pura, por ser utensílio. E, quanto à impureza dos líquidos, há três opiniões: uma diz que a impureza dos líquidos não tem base na Torá de nenhum modo, nem mesmo para contaminarem a si mesmos, sendo apenas de origem rabínica; e o que Ele, bendito seja, disse (Vayikrá 11:34): “e toda bebida que se bebe em qualquer utensílio se contaminará” — quer dizer que os líquidos destacados do solo tornam os alimentos aptos a receber impureza, mesmo estando em utensílios, e a intenção de “se contaminará” é que se prepara para a impureza, ou torna apto. E há quem pense que a impureza dos próprios líquidos tem base na Torá, como parece do sentido do versículo, e a impureza de outra coisa por meio deles é de origem rabínica — esta é a opinião do tanná anônimo; por isso ele disse que, se caiu a dúvida sobre a impureza dos líquidos em si mesmos, sua dúvida é impura, e se caiu a dúvida sobre a impureza de outra coisa por meio deles, sua dúvida é pura, por ser isto de origem rabínica. E há quem pense que mesmo contaminar outros por meio dos líquidos tem base na Torá, e que o que disse, bendito seja, “se contaminará”, refere-se a outra coisa — e esta é a opinião de Rabi Yosê; por isso ele disse que, se caiu a dúvida sobre a impureza dos líquidos quanto aos alimentos, os alimentos são impuros; mas se caiu a dúvida sobre a impureza deles quanto aos utensílios, estes utensílios são puros, pois que os líquidos impuros contaminem os utensílios é de origem rabínica segundo todos, como já mencionamos na introdução desta ordem. E a lei não é como Rabi Yosê.
“A dúvida dos líquidos quanto aos alimentos é impura”: entende Rabi Yosê que a impureza dos líquidos, para contaminar outros, tem base na Torá, pois interpreta o versículo “e toda bebida que se bebe em qualquer utensílio se contaminará” como referindo-se a contaminar outros; por isso a dúvida dos líquidos quanto a contaminar alimentos é impura. “E quanto aos utensílios, é pura”: pois que os líquidos contaminem utensílios é de origem rabínica, um dos dezoito decretos que os sábios fizeram naquele dia. E o tanná anônimo, que discorda de Rabi Yosê, interpreta “e toda bebida que se bebe em qualquer utensílio se contaminará” como referindo-se apenas a si mesma, e não a contaminar outros; e a impureza dos líquidos, para contaminar alimentos e utensílios, é toda de origem rabínica; por isso a dúvida da impureza dos líquidos, quanto a contaminar outros, é pura. E a lei não é como Rabi Yosê.