Seder Tehorot · Massechet Tehorot · Perek Hei · Mishná 9 de 9

Uma testemunha contra a própria palavra: encerrando o Perek Hei

עֵד אוֹמֵר נִטְמָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma testemunha contra a palavra do próprio interessado, ele é declarado puro; duas testemunhas contra ele — controvérsia entre Rabi Meir e os sábios; testemunhos equilibrados decidem-se conforme o domínio: impuro em privado, puro em público

Se uma testemunha diz: “tornaste-te impuro”, e ele diz: “não me tornei impuro” — é puro. Se duas testemunhas dizem: “tornaste-te impuro”, e ele diz: “não me tornei impuro” — Rabi Meir declara impuro; mas os sábios dizem: ele é confíavel quanto a si mesmo. Se uma testemunha diz: “tornou-se impuro”, e duas testemunhas dizem: “não se tornou impuro” — seja em domínio privado, seja em domínio público, é puro. Se duas testemunhas dizem: “tornou-se impuro”, e uma testemunha diz: “não se tornou impuro” — seja em domínio privado, seja em domínio público, é impuro. Se uma testemunha diz: “tornou-se impuro”, e outra testemunha diz: “não se tornou impuro”; ou uma mulher diz: “tornou-se impuro”, e outra mulher diz: “não se tornou impuro” — em domínio privado, é impuro; em domínio público, é puro.

Esta mishná encerra o Perek Hei tratando de dúvidas de impureza determinadas não por objetos ou caminhos, mas pelo testemunho de terceiros contra a palavra do próprio interessado. O princípio geral, já estabelecido nas mishnayot anteriores do tratado, de que a dúvida de impureza em domínio privado se resolve para a impureza, e em domínio público para a pureza, aplica-se aqui aos casos em que os testemunhos se equilibram numericamente (um contra um, ou duas mulheres uma contra a outra). Quando os testemunhos são desiguais — uma testemunha isolada contra a negação do próprio interessado, ou dois testemunhos contra um —, decide a maioria num sentido ou noutro, independentemente do domínio.

עֵד אוֹמֵר נִטְמָא, וְהוּא אוֹמֵר לֹא נִטְמֵאתִי, טָהוֹר. שְׁנַיִם אוֹמְרִים נִטְמֵאתָ, וְהוּא אוֹמֵר לֹא נִטְמֵאתִי, רַבִּי מֵאִיר מְטַמֵּא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, הוּא נֶאֱמָן עַל יְדֵי עַצְמוֹ. עֵד אוֹמֵר נִטְמָא, וּשְׁנַיִם אוֹמְרִים לֹא נִטְמָא, בֵּין בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד בֵּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, טָהוֹר. שְׁנַיִם אוֹמְרִים נִטְמָא, וְעֵד אוֹמֵר לֹא נִטְמָא, בֵּין בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד בֵּין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, טָמֵא. עֵד אוֹמֵר נִטְמָא וְעֵד אוֹמֵר לֹא נִטְמָא, אִשָּׁה אוֹמֶרֶת נִטְמָא וְאִשָּׁה אוֹמֶרֶת לֹא נִטְמָא, בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד, טָמֵא. בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, טָהוֹר׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tehorot 5:9
זֶה כֻּלּוֹ מְבֹאָר וְעָבַר עַל הָעִקָּר הַקּוֹדֵם שֶׁסְּפֵק טֻמְאָה בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד טָמֵא…

Tudo isto está explicado, e baseia-se no princípio anterior de que a dúvida de impureza em domínio privado é impura, e em domínio público é pura. E a halachá não é como Rabi Meir.

Bartenura · Tehorot 5:9
רַבִּי מֵאִיר מְטַמֵּא. שֶׁאִם הֱבִיאוּהוּ שְׁנַיִם לִידֵי מִיתָה חֲמוּרָה, לֹא יְבִיאוּהוּ לִידֵי הַקַּל…

“Rabi Meir declara impuro”: pois se duas testemunhas o teriam levado a uma morte grave (por comer coisas sagradas em impureza), não o levarão a uma pena mais leve (a mera impureza). “Mas os sábios dizem: ele é confíavel quanto a si mesmo”: pois interpretamos suas palavras — o que quis dizer com “não me tornei impuro” é “não permaneci em minha impureza, mas imergi”; e sendo assim, ele é confíavel quanto a si mesmo. “Em domínio privado, é impuro; em domínio público, é puro”: pois se considera como qualquer outra dúvida de impureza em geral.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Tehorot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Hei · סִיּוּם הַפֶּרֶק

Com esta mishná, encerra-se o Perek Hei de Massechet Tehorot. O perek abriu com a lista dos sete casos de dúvida em domínio público entre um objeto impuro e um puro colocados lado a lado — o réptil e a rã, a azeitona e o osso de cadáver e de carniça, os torrões de bet haperás e da terra dos povos, os dois caminhos —, opondo Rabi Akiva, que exige purificação cautelar da própria pessoa, aos sábios, que resolvem a dúvida para a pureza (5:1–2). Seguiu com os casos em que uma única pessoa, ou dois homens diferentes, passam por dois caminhos ou tocam em dois objetos duvidosos, um após o outro, com ou sem purificação intermediária — e a controvérsia entre Rabi Yehudá e Rabi Yosei sobre se a pergunta simultânea ou separada altera o resultado, aplicada tanto ao caminho quanto ao alimento impuro por decreto rabínico (5:3–6). Tratou em seguida das dúvidas envolvendo o próprio corpo e as roupas — a saliva encontrada, o pisão em domínio público, o sono, o contato noturno com alguém encontrado morto pela manhã (5:7), e o caso extremo da cidade com uma única louca, gentia ou cuteia, onde toda saliva encontrada é declarada impura (5:8). Encerrou-se o perek com as regras de testemunho contraditório sobre a impureza de alguém, aplicando novamente o princípio de que a dúvida se resolve conforme o domínio — impura em privado, pura em público (5:9). O Perek Vav dá continuidade ao tema, desenvolvendo sistematicamente a distinção entre domínio privado e público — inclusive a diferença, central para o restante do tratádo, entre o domínio quanto ao shabat e o domínio quanto à impureza.