Seder Tehorot · Massechet Tehorot · Perek Zayin · Mishná 8 de 9

Aquele que desviou o coração de comer teruma

מִי שֶׁהָיָה טָהוֹר וְהִסִּיעַ אֶת לִבּוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Aquele que desviou o coração de comer teruma: controvérsia sobre a pureza do corpo e das mãos; as mãos são sempre consideradas “atarefadas”

Aquele que estava puro e desviou o seu coração de comer: Rabi Yehudá declara puro, pois é costume dos impuros se afastarem dele. Mas os sábios declaram impuro. Se as suas mãos estavam puras e ele desviou o seu coração de comer, ainda que diga “sei que as minhas mãos não se tornaram impuras”, as suas mãos estão impuras, pois as mãos são atarefadas.

Um cohen que estava puro para comer teruma, mas desistiu mentalmente de comê-la, sem mais se preocupar em se manter puro para tal fim, é objeto de controvérsia. Rabi Yehudá mantém a presunção de pureza, raciocinando que as pessoas impuras, sabendo que ele é cuidadoso, evitam tocá-lo por respeito — de modo que não há razão concreta para temer contaminação. Os sábios, cuja opinião prevalece, discordam: uma vez que ele mesmo abandonou a intenção de comer em pureza, deixa de haver vigilância ativa sobre seu próprio estado, e ele é considerado impuro por essa distração de mente (hesach hadaat), independentemente do comportamento alheio. Já quanto às mãos — cuja impureza, por decreto rabínico, é mais leve e mais facilmente contraída —, todos concordam: mesmo que a pessoa afirme categoricamente saber que suas mãos permaneceram puras, a mera distração de mente as torna impuras, pois, como explica a mishná, “as mãos são atarefadas” — estão constantemente em movimento e contato, tocando coisas sem que a pessoa perceba ou se lembre.

מִי שֶׁהָיָה טָהוֹר, וְהִסִּיעַ אֶת לִבּוֹ מִלֶּאֱכֹל, רַבִּי יְהוּדָה מְטַהֵר, שֶׁדֶּרֶךְ טְמֵאִין פּוֹרְשִׁין מִמֶּנוּ. וַחֲכָמִים מְטַמְּאִים. הָיוּ יָדָיו טְהוֹרוֹת וְהִסִּיעַ אֶת לִבּוֹ מִלֶּאֱכֹל, אַף עַל פִּי שֶׁאָמַר יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁלֹּא נִטְמְאוּ יָדָי, יָדָיו טְמֵאוֹת, שֶׁהַיָּדַיִם עַסְקָנִיּוֹת׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tehorot 7:8
רצה לומר כהן טהור לאכול בתרומה…

Quer dizer: um cohen puro para comer teruma, se desviou seu pensamento de se preparar para comer teruma, e não vigiou a si mesmo, e também não sabe de si mesmo se houve impureza — Rabi Yehudá diz que ele permanece na presunção de pureza, pois os impuros não o tocam, sabendo que ele está puro para comer teruma; e os sábios dizem que ele se torna impuro pela distração da mente quanto à teruma. E a razão disso é o que mencionaram, que “as mãos são atarefadas”, isto é, muito ocupadas, e às vezes tocam em algo impuro sem que ele saiba; e isso está entre os dezoito decretos que decretaram que as mãos invalidam a teruma, ainda que não se saiba de impureza nelas, como se explicou no final de Zavim. E a halachá é como os sábios.

Bartenura · Tehorot 7:8
מִי שֶׁהָיָה טָהוֹר. כֹּהֵן שֶׁהָיָה טָהוֹר לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה…

“Aquele que estava puro”: um cohen que estava puro para comer teruma, e desviou sua mente de comer mais teruma.

“Pois é costume dos impuros se afastarem dele”: os impuros que sabem que ele é puro se afastam dele; por isso não receamos que tenha tocado em uma pessoa impura e se tornado impuro.

“Mas os sábios declaram impuro”: uma vez que desviou sua mente. E a halachá é como os sábios.

“Se as suas mãos estavam puras”: nisto Rabi Yehudá concorda, mesmo que diga “sei que minhas mãos não se tornaram impuras”.

“As suas mãos estão impuras”: e invalidam a teruma, uma vez que desviou sua mente de comer, pois as mãos são atarefadas e tocam sem que ele perceba.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Tehorot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.