Seder Tehorot · Massechet Tehorot · Perek Alef · Mishná 1 de 9

Treze leis sobre a carcaça da ave pura

שְׁלשָׁה עָשָׂר דָּבָר בְּנִבְלַת הָעוֹף הַטָּהוֹר. צְרִיכָה מַחֲשָׁבָה, וְאֵינָהּ צְרִיכָה הֶכְשֵׁר, וּמְטַמָּא טֻמְאַת אֳכָלִין בְּכַבֵּיצָה, וְכַזַּיִת בְּבֵית הַבְּלִיעָה, וְהָאוֹכְלָהּ טָעוּן הֶעֱרֵב שֶׁמֶשׁ. וְחַיָּבִים עָלֶיהָ עַל בִּיאַת הַמִּקְדָּשׁ, וְשׂוֹרְפִין עָלֶיהָ אֶת הַתְּרוּמָה. וְהָאוֹכֵל אֵבָר מִן הַחַי מִמֶּנָּה סוֹפֵג אֶת הָאַרְבָּעִים. שְׁחִיטָתָהּ וּמְלִיקָתָהּ מְטַהֲרוֹת אֶת טְרֵפָתָהּ, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵינָן מְטַהֲרוֹת. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, שְׁחִיטָתָהּ מְטַהֶרֶת, אֲבָל לֹא מְלִיקָתָהּ׃
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Treze leis regem a carcaça da ave pura — abertura de Massechet Tehorot, tratado sobre os graus de impureza de alimentos e líquidos

Treze coisas (há) na carcaça da ave pura: ela requer intenção; e não requer preparo; e transmite impureza de alimentos no tamanho de um ovo, e no tamanho de uma azeitona na garganta; e quem a come necessita esperar o pôr do sol; e há culpa por causa dela pela entrada no santuário; e queima-se por causa dela a teruma; e quem come um membro dela enquanto viva recebe as quarenta (chibatadas). Seu abate e seu degolamento por unha purificam-na mesmo que seja tereifá — palavras de Rabi Meir. Rabi Yehudá diz: elas não purificam. Rabi Yosei diz: seu abate purifica, mas não seu degolamento por unha.

A mishná de abertura de Massechet Tehorot não trata, como o nome do tratado sugeriria, das leis mais graves de impureza, mas justamente do caso especial e intermediário da nevelá da ave pura — a ave pura que morreu sem abate ritual válido. A Torá não menciona essa carcaça explicitamente; a halachá deriva-a, por proximidade textual, do versículo (Vayikrá 17:15) que fala de quem come um animal morto (nevelá) ou dilacerado (tereifá). Ao contrário da carcaça comum de animal — que é um “pai da impureza” capaz de contaminar pessoas e utensílios por simples contato ou carregamento — a carcaça da ave pura ocupa um lugar único: não contamina por toque, mas apenas transmite impureza de alimentos (uma categoria mais leve), e só contamina a pessoa que a engole quando o bocado, do tamanho de uma azeitona, ainda está na garganta.

Por isso ela é tratada por meio de treze leis específicas, listadas nesta mishná: requer intenção prévia de comê-la para que passe a transmitir impureza (diferentemente dos alimentos comuns); dispensa o preparo com água ou outro líquido, exigido normalmente para sementes e alimentos; contamina outros alimentos puros que a tocarem, no tamanho de um ovo; contamina quem a engole, e suas vestes, quando um bocado do tamanho de uma azeitona ainda está na garganta; exige que quem a comeu espere o pôr do sol para se purificar; gera culpa por entrar no santuário depois de comê-la; faz com que a teruma que ela tocar seja queimada; e sujeita às quarenta chibatadas quem come dela um membro enquanto ainda está viva. Por fim, a mishná encerra com a disputa entre Rabi Meir, Rabi Yehudá e Rabi Yosei sobre se o abate ritual (shechitá) e o degolamento por unha (melicá, método usado nas ofertas de aves) removem a ave da categoria de nevelá mesmo quando ela é tereifá (fisicamente danificada de modo fatal) — a halachá segue Rabi Yosei, que distingue entre o abate, que purifica, e o degolamento por unha, que não purifica.

שְׁלשָׁה עָשָׂר דָּבָר בְּנִבְלַת הָעוֹף הַטָּהוֹר. צְרִיכָה מַחֲשָׁבָה, וְאֵינָהּ צְרִיכָה הֶכְשֵׁר, וּמְטַמָּא טֻמְאַת אֳכָלִין בְּכַבֵּיצָה, וְכַזַּיִת בְּבֵית הַבְּלִיעָה, וְהָאוֹכְלָהּ טָעוּן הֶעֱרֵב שֶׁמֶשׁ. וְחַיָּבִים עָלֶיהָ עַל בִּיאַת הַמִּקְדָּשׁ, וְשׂוֹרְפִין עָלֶיהָ אֶת הַתְּרוּמָה. וְהָאוֹכֵל אֵבָר מִן הַחַי מִמֶּנָּה סוֹפֵג אֶת הָאַרְבָּעִים. שְׁחִיטָתָהּ וּמְלִיקָתָהּ מְטַהֲרוֹת אֶת טְרֵפָתָהּ, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵינָן מְטַהֲרוֹת. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, שְׁחִיטָתָהּ מְטַהֶרֶת, אֲבָל לֹא מְלִיקָתָהּ׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tehorot 1:1
דַּע שֶׁנִּבְלַת עוֹף טָהוֹר אֵינָהּ בְּבֵאוּר בִּלְשׁוֹן הַתּוֹרָה… אָמְרוּ צְרִיכָה מַחֲשָׁבָה שֶׁיַּחְשֹׁב עָלֶיהָ לְאָכְלָהּ…

Saiba que a carcaça da ave pura não está explicitada literalmente na Torá — já explicamos isso na introdução — mas é derivada por proximidade textual do versículo (Vayikrá 17:15): “E toda pessoa que comer um animal morto ou dilacerado, seja natural da terra ou estrangeiro, lavará suas vestes e se banhará em água, e ficará impura até a tarde, e então se purificará” — e a tradição (Chulin 100b) ensina que este versículo trata especificamente da carcaça da ave pura, que não é proibida senão por (ser considerada) nevelá e tereifá, e é ela que transmite impureza.

“Ela requer intenção” — que se pense nela para comê-la, e só então transmite por si mesma impureza de alimentos: pois os alimentos permitidos, que os homens costumam comer — como figos, tâmaras e carne abatida — não requerem intenção, por já estarem preparados para o consumo; mas o que não é permitido comer, como a carcaça da ave, não pode senão exigir que se pense nela para comê-la, e só então passa a integrar a categoria dos alimentos e transmite impureza de alimentos.

“E não requer preparo” — ela mesma é, por si, primeiro grau de impureza, e transmite impureza como alimentos impuros mesmo sem que a preceda o preparo com água ou outro líquido — pois o preparo é exigido apenas conforme o versículo (Vayikrá 11:38) “e se água for posta sobre a semente…”, e a impureza de alimentos é leve, pois não contamina pessoa nem utensílios; mas a carcaça de ave pura contamina pessoa e vestes na garganta, o que é impureza grave — e por transmitir, ela mesma, impureza grave, cai dela a exigência do preparo, conforme ensina o Sifrê: assim como as sementes, cujo destino não é contaminar com impureza grave, requerem preparo, tudo o que tem por destino contaminar com impureza grave não o requer.

“E transmite impureza de alimentos no tamanho de um ovo” — se do tamanho de um ovo dela tocou alimentos puros, eles se tornaram impuros. “E do tamanho de uma azeitona na garganta” — quem come dela o tamanho de uma azeitona torna-se impuro, e suas vestes tornam-se impuras quando o bocado alcança a garganta, pois não há “comer” menor que o tamanho de uma azeitona.

“E quem a come necessita esperar o pôr do sol” — pois está escrito “e se banhará em água, e ficará impura até a tarde”. “E há culpa por causa dela pela entrada no santuário” — como em todas as demais impurezas, pois está escrito, sobre a impureza do santuário e de seus objetos sagrados (Vayikrá 5:2): “…para toda a sua impureza com que se contaminou” — e expomos este versículo para incluir quem engole a carcaça de ave pura.

“E quem come um membro dela enquanto viva recebe as quarenta” — pois a proibição do membro do vivo deriva de “somente a carne com sua alma, seu sangue, não comereis”, e mesmo que o membro seja menor que uma azeitona, os membros não têm medida mínima, como já explicamos em Ohalot.

“Seu abate e seu degolamento por unha purificam-na mesmo que seja tereifá — palavras de Rabi Meir”: pois o degolamento por unha (melicá) permite o consumo interno aos sacerdotes, do mesmo modo que o abate permite o consumo externo a todos; e assim como o abate a purifica, também o degolamento a purifica. Rabi Yehudá diz que não purificam, pois não se deriva a tereifá da ave da tereifá do animal. Rabi Yosei diz que o abate purifica, mas não o degolamento — e a halachá segue Rabi Yosei.

Bartenura · Tehorot 1:1
שְׁלֹשָׁה עָשָׂר דָּבָר. צְרִיכָה מַחֲשָׁבָה. שֶׁיַּחֲשֹׁב עָלֶיהָ לַאֲכִילַת אָדָם…

“Treze coisas”. “Requer intenção” — que se pense nela para consumo humano; pois todos os alimentos permitidos não requerem intenção, mas esta, sendo proibida para comer, requer intenção, e só depois transmite impureza — e isto é específico das aldeias, onde não há multidão de pessoas; mas nos mercados não requer intenção, pois havendo muita gente, há muitos que comem a carcaça de ave pura, como se explica no fim de Uktzin.

“Não requer preparo” — mas transmite impureza de alimentos como qualquer outro alimento que tocou um réptil (sheretz) e se tornou primeiro grau de impureza; não é necessário que caia água ou outro líquido sobre ela, nem que toque um réptil — pois o preparo é exigido para as sementes, e se expõe: assim como as sementes, cujo fim não é contaminar com impureza grave, requerem preparo, tudo o que tem por fim contaminar com impureza grave — como esta, que contamina pessoa e vestes na garganta — não requer preparo.

“E transmite impureza de alimentos no tamanho de um ovo”: se um tamanho de ovo dela tocou alimentos puros, eles se tornaram impuros. “E do tamanho de uma azeitona na garganta”: quem come dela o tamanho de uma azeitona torna-se impuro, e suas vestes tornam-se impuras quando o bocado alcança a garganta, conforme está escrito (Vayikrá 17:15), e está escrito “comer”, e não há comer menor que o tamanho de uma azeitona.

“E há culpa por causa dela pela entrada no santuário”: como em todas as demais impurezas, pois está escrito, sobre a impureza do santuário e de seus objetos sagrados (Vayikrá 5): “…para toda a sua impureza com que se contaminou” — e expomos para incluir quem engole a carcaça de ave pura.

“E queima-se por causa dela a teruma”: se a carcaça de ave pura tocou a teruma, esta é queimada, pois quando ainda não está na garganta, tem o estatuto de primeiro grau de impureza, e contamina a teruma por contato, tornando-a segundo grau.

“E quem come um membro dela enquanto viva recebe as quarenta”: mesmo que o membro seja menor que uma azeitona. E a mishná anônima não segue Rabi Meir, pois se seguisse Rabi Meir, saberíamos disso pelo fim do capítulo do Nervo Isquiático (Chulin 102a), onde ele diz que a lei do membro do vivo aplica-se apenas ao gado puro.

“Seu abate e seu degolamento por unha purificam-na mesmo que seja tereifá”: e a retiram da categoria de carcaça, para que não transmita impureza — pois o degolamento por unha permite o consumo por dentro aos sacerdotes, assim como o abate permite por fora; e assim como o abate a purifica, também o degolamento a purifica. Rabi Yehudá diz que não purificam, pois não se deriva a tereifá da ave da tereifá do animal. Rabi Yosei diz que o abate purifica, mas não o degolamento — e a halachá segue Rabi Yosei.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Tehorot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.