Seder Tehorot · Massechet Tehorot · Perek Zayin · Mishná 9 de 9

A mulher, o pão para o pobre e a panela de teruma: encerrando o Perek Zayin

הָאִשָּׁה שֶׁנִּכְנְסָה לְהוֹצִיא פַת לְעָנִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mulher que sai para dar pão a um pobre e encontra alguém junto a pães de teruma, ou a colega mexendo brasas sob a panela de teruma: controvérsia entre Rabi Akivá e os sábios, explicada pela gula das mulheres

A mulher que entrou para trazer pão a um pobre, e ao sair o encontrou parado ao lado de pães de teruma; e também a mulher que saiu e encontrou a sua amiga recolhendo brasas debaixo de uma panela de teruma: Rabi Akivá declara impuro, e os sábios declaram puro. Disse Rabi Elazar ben Pilá: e por que Rabi Akivá declara impuro e os sábios declaram puro? Porque as mulheres são gulosas, pois ela é suspeita de descobrir a panela de sua amiga, para saber o que ela está cozinhando.

Os dois casos finais do perek tratam da suspeita de contato indevido com teruma no ambiente doméstico. No primeiro, uma mulher sai de junto de pães de teruma para dar esmola de pão a um pobre, e ao voltar encontra alguém parado ao lado dos pães — sem tê-lo visto tocá-los. No segundo, uma mulher sai e encontra sua vizinha atiçando as brasas sob uma panela de teruma que preparava. Em ambos, Rabi Akivá declara a teruma impura, presumindo contato durante a ausência; os sábios, cuja opinião é normativa, declaram-na pura, não bastando a mera oportunidade para presumir o contato. Rabi Elazar ben Pilá explica a razão da controvérsia: Rabi Akivá suspeita que a curiosidade alimentar das mulheres — o desejo de saber o que a vizinha está cozinhando — as levaria a destampar a panela alheia, gerando um motivo concreto e verossímil para o contato, distinto da suspeita genérica que os sábios normalmente rejeitam.

הָאִשָּׁה שֶׁנִּכְנְסָה לְהוֹצִיא פַת לְעָנִי, וְיָצָאת וּמְצָאַתּוּ עוֹמֵד בְּצַד כִּכָּרוֹת שֶׁל תְּרוּמָה, וְכֵן הָאִשָּׁה שֶׁיָּצָאת וּמָצָאת אֶת חֲבֶרְתָּהּ חוֹתָה גֶחָלִים תַּחַת קְדֵרָה שֶׁל תְּרוּמָה, רַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא, וַחֲכָמִים מְטַהֲרִין. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן פִּילָא, וְכִי מִפְּנֵי מָה רַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא וַחֲכָמִים מְטַהֲרִין. מִפְּנֵי שֶׁהַנָּשִׁים גַּרְגְּרָנִיּוֹת הֵן, שֶׁהִיא חֲשׁוּדָה לְגַלּוֹת אֶת הַקְּדֵרָה שֶׁל חֲבֶרְתָּהּ, לֵידַע מַה הִיא מְבַשֶּׁלֶת׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tehorot 7:9
גרגרניות. הומות לאכול מן הגרגרת…

“Gargueraniot” (gulosas): que anseiam por comer da garganta — que é o topo da laringe — e no targum de “pois me tornei uma glutona” (Lamentações 1:11), no targum yerushalmi: “ari havêti gargueranit”. E a halachá é como os sábios.

Bartenura · Tehorot 7:9
גַּרְגְּרָנִיּוֹת. זוֹלְלוֹת וּמִתְאַוּוֹת לְמַאֲכָל…

“Gulosas”: são vorazes e desejosas de comida. É o targum de “pois me tornei uma glutona” (Lamentações 1), “ari havêti gargueranit”. E a halachá é como os sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Tehorot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Zayin · סִיּוּם הַפֶּרֶק

Com esta mishná, encerra-se o Perek Zayin de Massechet Tehorot. O perek voltou-se para os limites da impureza causada pela presença do am haaretz — pessoa não cuidadosa quanto às leis de pureza — dentro da casa de um chaver, tema já latente nos capítulos anteriores mas agora tratado sistematicamente. Abriu com o oleiro cujos potes externos se tornam impuros por exposição ao público, e com o princípio de que a mera entrega da chave não torna a casa impura (7:1); seguiu com o am haaretz deixado dormindo ou acordado, cuja impureza se limita, segundo os sábios, ao alcance de sua mão quando ele acorda inesperadamente (7:2), regra estendida aos artesãos que trabalham na casa (7:3) e à esposa do am haaretz que mói grãos, com a distinção entre o moinho em funcionamento e parado, e o caso agravado de duas mulheres (7:4). Tratou em seguida do am haaretz deixado explicitamente para vigiar a casa, distinguindo entre a impureza leve dos alimentos e utensílios abertos, sempre presumida, e a impureza mais grave dos leitos e assentos, que só se presume quando ele não pode ver quem entra e sai (7:5); e dos cobradores de impostos e ladrões que invadem a casa, com regras de confiabilidade quando acompanhados por um gentio (7:6). A mishná seguinte cuidou das roupas deixadas no vestiário do balneário, com a controvérsia entre Rabi Elazar ben Azariá e os sábios sobre as garantias necessárias, e dos utensílios de vindima confiados de um lagar a outro (7:7); depois, do cohen que desiste mentalmente de comer teruma, e do princípio de que as mãos, por serem sempre “atarefadas”, tornam-se impuras pela simples distração de mente (7:8). Encerrou-se o perek com os dois casos da mulher que se ausenta de junto de teruma e encontra outra pessoa nas proximidades, resolvidos a favor da pureza pelos sábios, contra a suspeita de Rabi Akivá fundada na gula alimentar (7:9). O Perek Chet, ainda a ser traduzido, dará continuidade ao tratado.