Seder Tehorot · Massechet Tehorot · Perek Yud · Mishná 8 de 8

Domínio público e privado na vindima, e a purificação dos utensílios — encerrando Massechet Tehorot

בֵּין הָעִגּוּלִים לַזַּגִּין, רְשׁוּת הָרַבִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o tratado: domínio público e privado entre as rodas de prensar e os bagaços, na vinha antes e depois dos vindimadores, e a purificação dos utensílios de madeira e de junco da casa da prensa e do lagar

Entre as rodas (igulim) e os bagaços (zagim), é domínio público. A vinha diante dos vindimadores é domínio privado; a que está atrás dos vindimadores é domínio público. Quando? Quando o público entra por um lado e sai por outro. Os utensílios da casa da prensa, e do lagar, e o eikel — quando são de madeira, secam-se e ficam puros; quando são de junco, deixam-se de lado por doze meses inteiros, ou os escaldam em água quente. Rabi Yosei diz: se os colocou na corrente do rio, basta.

A oitava mishná — a última do perek e do tratado — trata primeiro da classificação do espaço da vindima e da pisa como domínio público ou privado, questão relevante para resolver dúvidas de impureza a favor da leniência, pois dúvidas de impureza em domínio público tendem à pureza. O espaço sob a grande roda de pedra (igul) usada para espremer os bagaços de uva (zagim) já pisados é domínio público, pois exige muitas pessoas para operá-la; já a vinha, enquanto os vindimadores ainda trabalham nela, é domínio privado — quem ali entra é tido por ladrão —, tornando-se domínio público somente depois que a vindima termina e o acesso se abre a todos. A segunda metade da mishná volta-se para a purificação dos próprios utensílios da casa da prensa e do lagar: os de madeira purificam-se apenas com a secagem, pois não absorvem líquido de modo permanente; os de junco trançado, como o eikel que envolve o bagaço das azeitonas, absorvem o líquido impuro de modo mais persistente, e por isso exigem um ano inteiro de descanso ou escaldamento em água quente antes de qualquer imersão ser eficaz, para que expulsem por completo o que impregnaram.

בֵּין הָעִגּוּלִים לַזַּגִּין, רְשׁוּת הָרַבִּים. כֶּרֶם שֶׁלִּפְנֵי הַבּוֹצְרִים, רְשׁוּת הַיָּחִיד. שֶׁלְּאַחַר הַבּוֹצְרִים, רְשׁוּת הָרַבִּים. אֵימָתַי, בִּזְמַן שֶׁהָרַבִּים נִכְנָסִים בָּזוֹ וְיוֹצְאִים בָּזוֹ. כְּלֵי בֵית הַבַּד, וְשֶׁל גַּת, וְהָעֵקֶל, בִּזְמַן שֶׁהֵן שֶׁל עֵץ, מְנַגְּבָן וְהֵן טְהוֹרִין. בִּזְמַן שֶׁהֵן שֶׁל גֶּמִי, מְיַשְּׁנָן כָּל שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ, אוֹ חוֹלְטָן בְּחַמִּים. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אִם נְתָנָן בְּשִׁבֹּלֶת הַנָּהָר, דַּיּוֹ׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tehorot 10:8
עיגולין. הן הכלים אשר בהן הענבים מוכנים לגת…

Igulim (rodas): são os utensílios em que as uvas são preparadas para o lagar, e tinham a forma de roda entre eles, e por isso se chamam “igulim”, e são os que chamamos de “almansur”. E zagim (bagaços): são o refugo, os bagaços que restam depois da pisa. E também “diante dos vindimadores” é o que está à frente deles na vinha quando vindimam, e “atrás dos vindimadores” é o que já se completou sua vindima. E já sabes o assunto de um lugar ser domínio privado ou domínio público quanto à impureza.

Eikel bet habad (o cesto trançado da casa da prensa): é o cerco ao redor das azeitonas no momento da pisa, para uni-las e reuni-las. E disse que, se estes utensílios estavam impuros, sem dúvida entrará em suas partes líquido impuro; e se eram de madeira, seca-os; se eram de junco e semelhantes, que não secam, deixa-os um ano inteiro até que o ar os seque, ou os lava em água quente até que saia o que absorveram de líquidos impuros. E Rabi Yosei diz que os pendura na corrente do rio e são lavados até o fim da lavagem, e depois os imerge, sem dúvida. E a linguagem da Tosefta diz: quem tinha seus lagares e suas casas de prensa impuros e busca purificá-los — as tábuas, os ramos e as lentilhas de junco, seca-os, etc. E a halachá não é como Rabi Yosei.

Bartenura · Tehorot 10:8
הָעִגּוּלִים לַזַּגִּים. עִגּוּל כְּמִין רֵיחַיִם גָּדוֹל…

“Entre as rodas (igulim) e os bagaços (zagim)”: um igul é uma espécie de grande mó que colocavam sobre os bagaços depois de pisarem as uvas com o pé, para que se espremessem e saísse todo o vinho que restava neles; e, por causa do peso e do tamanho desta roda, são necessárias muitas pessoas para levantá-la sobre o monte de bagaços — feito como uma espécie de maçã — e para baixá-la; por isso se considera domínio público para purificar uma dúvida de impureza, porque ali costuma haver multidão de pessoas.

“A vinha diante dos vindimadores é domínio privado”: pois as pessoas temem entrar ali, porque seriam presas como ladrão.

“Atrás dos vindimadores é domínio público”: pois há licença para toda pessoa entrar.

“Os utensílios da casa da prensa, e do lagar”: quer dizer, e do lagar — pois a casa da prensa é para azeite, e o lagar é para vinho.

“E o eikel”: feito como uma espécie de cesto trançado semelhante a uma rede; e depois de espremerem as azeitonas, colocam o bagaço de azeitona (guefet) naquele eikel, e põem sobre ele algo pesado para extrair o que resta.

“Secam-se”: pois, antes disto, a imersão não vale de nada, se estavam impuros, até que saia deles o líquido impuro que a eles se apegou.

“Escaldam-nos”: derrama sobre eles água fervente, e depois os imerge.

“Na corrente do rio”: lugar onde as águas correm, para extrair o líquido que se apegou a eles. Mas a halachá não é como Rabi Yosei.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Tehorot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.
הֲדַרָן עֲלָךְ מַסֶּכֶת טְהָרוֹת

Com esta oitava mishná, encerra-se não apenas o Perek Yud, mas toda a Massechet Tehorot — o quinto tratado de Seder Tehorot, com seus 10 perakim e suas 92 mishnayot (84 nos Perakim Alef a Tet, mais as 8 deste Perek Yud de encerramento).

O tratado percorreu, do início ao fim, as leis da impureza de sete días por contato com um sherets ou com um cadáver aplicadas às situações cotidianas mais comuns da vida agrícola e doméstica em Israel: a definição de dúvida de impureza e os lugares e momentos em que ela se julga pura ou impura (Perek Alef); as leis do forno, da massa e das mãos, e a suscetibilidade de alimentos e utensílios (Perek Bet); a impureza da saliva, da urina e de outros fluidos do corpo, e as presunções sobre pessoas suspeitas (Perek Guimel); as regras de credibilidade do am haaretz e do chaver em questões de pureza e teruma (Perek Dálet); o processo de secagem e preparação de figos, e a suscetibilidade de frutas à impureza (Perek Hei); as medidas de tempo e as presunções de pureza em espaços públicos e privados (Perek Vav); a credibilidade dos am haaretz sobre vinho e azeite destinados à teruma, e as regras da casa em que há dúvida de impureza (Perek Zayin); a suscetibilidade da água e dos líquidos, e as regras do banho público e da fonte (Perek Chet); o processo de produção do azeite de oliva desde a colheita até a prensagem, e o momento preciso em que as azeitonas se tornam suscetíveis à impureza (Perek Tet); e, por fim, este Perek Yud, que fechou o tratado voltando ao mesmo cenário da casa da prensa e do lagar — agora sob o ângulo dos trabalhadores amei haaretz, de sua imersão e credibilidade (10:1–10:3), da suscetibilidade das uvas conforme a finalidade da colheita e o princípio do volume de um ovo (10:4–10:5), da dúvida resolvida a favor da pureza (10:6), das regras de retroatividade da impureza ao esvaziar uma cisterna (10:7), e, por fim, da classificação do domínio público e privado na vindima e da purificação dos próprios utensílios da casa da prensa (10:8).

Como os demais tratados de Seder Tehorot com exceção de Massechet Nidá, Massechet Tehorot não possui Guemará no Talmud Bavli: é um tratado de mishnayot puras, do início ao fim, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados — e assim permaneceu, com Rambam e Bartenura acompanhando cada mishná, do Perek Alef ao Perek Yud.

Massechet Tehorot é assim o quinto tratado completo de Seder Tehorot neste site, depois de Massechet Keilim, Massechet Ohalot, Massechet Negaim e Massechet Pará. O estudo da Mishná prossegue agora para Massechet Mikvaot, o sexto tratado da Ordem, dedicado às leis das águas de imersão e às condições que as tornam válidas para a purificação.