"A Essência de Israel" (Mahut Knesset Yisrael) abre as Luzes de Israel, uma das partes mais densas de Orot. Rav Kook tenta dizer o indizível: o que é a "Comunidade de Israel" (Knesset Yisrael) na sua raiz mais profunda. A resposta, lida com calma, é surpreendentemente moral e universal. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
A essência de toda a realidade
A Comunidade de Israel é a quintessência de toda a existência; e, neste mundo, essa quintessência se derrama concretamente na nação de Israel — na sua materialidade e na sua espiritualidade, na sua história e na sua fé. A história de Israel é a essência ideal da história universal: não há movimento algum no mundo, em qualquer dos povos, que não encontre o seu correspondente em Israel. E a sua fé é a essência mais fina, a fonte que faz fluir o bem e a idealidade para todas as crenças — e, com isso, a força que examina todos os conceitos de fé, até elevá-los ao grau de "uma língua clara", para que todos invoquem o nome de D'us; e o teu D'us, o Santo de Israel, será chamado o D'us de toda a terra.
A Comunidade de Israel é a revelação espiritual mais alta do ser humano. Assim como não nos espantamos de que no cérebro e no coração existam manifestações de vida sem paralelo no resto do corpo, também não há por que espantar-se com as manifestações de vida das maravilhas, da profecia, do espírito de santidade no seu grau supremo, da esperança eterna, da vitória sobre todo obstáculo — que se revelam de forma elevada, e que assombram todo coração que medita e toda mente que pensa.
Não se define em fronteiras
A essência da Comunidade de Israel não se deixa definir em limites particulares nem em atributos restritos. Ela inclui tudo; e tudo se funda no anseio da sua alma por D'us, no sentir, em toda a profundidade da sua alma, a doçura e a suavidade suprema d'Ele. E o desejo pela divindade, num entusiasmo verdadeiro da alma, revela-se em todos os seus cantos: revela-se na Torá e nas mitsvot, revela-se na ética e no caráter, revela-se na elevação da alma, no canto interior, na santidade da vida, numa sede insondável.
כָּלְתָה נַפְשִׁי... לְאֵל חָי
"A minha alma desfalece de anseio... pelo D'us vivo."
cf. Tehillim (Salmos) 84:3 e 42:3
Esse anseio revela-se também numa entrega contínua, no carregar o jugo do exílio por amor — apenas para não abandonar a ordem da vida, prática e espiritual, pela qual a luz divina se apega ao seu interior. É essa força de trovão que lhe trará, no fim dos dias, a salvação absoluta: "Aquele que dispersou Israel o reunirá, e o guardará como o pastor ao seu rebanho" (Yirmiahu 31:9).
O núcleo: ser bom para todos
O âmago do desejo de ser bom para todos, sem limite algum no mundo — nem na quantidade dos que recebem o bem, nem na qualidade do bem que se dá — eis o germe interior da essência da alma da Comunidade de Israel. Esta é a sua herança, o legado dos seus pais. E esse sentimento do bem, conforme a sua grandeza, o seu alcance e a sua profundidade, precisa estar coroado de grande sabedoria e de força imensa, para que se saiba como traduzi-lo em ato, em todos os seus matizes.
Este é o segredo do anseio pela redenção que pulsa na nação, o que lhe dá força para viver e perdurar de um modo que assombra todo o que pensa. A Comunidade de Israel, no fundo do seu querer, não está de modo algum separada da divindade: ela veste a divindade que se revela no mundo como um todo, e deseja, no seu próprio existir, o desejo divino de que o bem do Senhor alcance a todos, e a Sua misericórdia, a todas as Suas obras. Esse bem é o segredo da redenção, que é forçoso vir — o bem há de vencer tudo. E o desejo profundo e inato do bem, o anseio interior por ele no íntimo da alma da nação, que transparece na oração interior do povo, é o que aproxima a redenção:
"וְהַטּוֹב בְּעֵינֶיךָ עָשִׂיתִי" — זֶה שֶׁסָּמַךְ גְּאֻלָּה לִתְפִלָּה
"'E fiz o que era bom aos teus olhos' — isto é, aquele que une a redenção à oração."
Talmud, Berachot 10b (sobre Yeshayahu 38:3)
Viver pela meta moral
Nós — isto é, a Comunidade de Israel — queremos viver justamente por causa da finalidade moral que há na existência como um todo. E porque reconhecemos, dentro de nós, que a concentração da vida é, para nós, essa meta moral universal, por isso estamos certos de que, ao vivermos, estaremos ajudando a realizá-la. Se de uma só vez a meta moral da existência se perdesse por completo de nós, então perderíamos inteiramente o desejo de viver — e, com isso, a vida universal cessaria sem reparo. Mas a meta moral, na sua totalidade, não se perderá de todo de nós: mesmo uma única centelha que reste dela no fundo da alma, em total ocultamento, fará tudo voltar à vida.
Amamos a meta moral suprema do ser tanto quanto amamos a nós mesmos — e mais do que amamos a nós mesmos; pois no nosso íntimo sentimos apenas uma centelha da meta universal que tudo abrange, e o "todo" dessa meta amada nos é muito mais precioso do que a centelha que há em nós. A meta moral pura da existência transparece nos Nomes sagrados, dos quais o Nome supremo, que se escreve mas não se pronuncia, é o centro. E por isso nele repousa o feixe da vida, para nós e para todos:
וְאַתֶּם הַדְּבֵקִים בַּד' אֱלֹהֵיכֶם חַיִּים כֻּלְּכֶם הַיּוֹם
"E vós, que vos apegais ao Senhor, vosso D'us, estais todos vivos hoje."
Devarim (Deuteronômio) 4:4
Este é o coração da seção, e desfaz um mal-entendido comum. A "essência de Israel" não é, para o Rav Kook, uma reivindicação de superioridade — é uma vocação moral: o desejo de ser bom para todos, sem limite de quantidade nem de qualidade. E note-se o seu universalismo radical: ama-se a meta moral do ser mais do que a si mesmo, porque o "todo" vale mais do que a centelha individual. Eleição, aqui, é responsabilidade pelo bem do mundo inteiro — não privilégio sobre ele.
Duas inclinações na alma
Duas inclinações em conflito encontramos na alma humana, voltadas a dois alvos opostos. De um lado, a inclinação a saciar todo desejo do mal, todas as paixões mais baixas — do corpo ou do espírito —, que ainda se alargam e enredam o homem na sua força, como a inveja e o ódio. De outro lado, não podemos deixar de ver a aspiração ao bem, que às vezes desperta no espírito do homem, e para a qual o mundo inteiro vale a pena — para esclarecê-lo, fazer-lhe bem e enchê-lo de bondade, de amor e de luz. Mas cada inclinação quer reinar sozinha e ser senhora do coração. Esse conflito sacode o coração e enche a vida de pavores; e o homem se esforça sempre por alcançar dentro de si uma paz interior, para que cessem os tormentos da sua alma.
Essa paz se firma de dois modos: ou pela submissão de um dos lados ao outro; ou — o que é mais alto — por um pacto e uma união completa, em que o lado oposto inteiro se converte, com todas as suas forças, ao lado contra o qual lutava. Por isso há dois caminhos no anseio de harmonizar os desejos sobre os quais se constroem os fundamentos da vida, individual e social. Um é o caminho da descida: educar o homem até que, por fim, se cale dentro do seu coração a voz de D'us, e ele se entregue por inteiro às paixões impressas na profundeza da sua matéria — a ira, o desejo, o ódio, a maldade. Este é o pensamento da impiedade, que envolve a parte mais forte dos agrupamentos humanos.
O outro é o caminho da subida: educar o homem até que chegue ao alvo supremo, em que só a voz de D'us se ouça no seu coração, e só o bem, a luz, a bondade e o amor sejam a sua porção. Esse caminho avança e se conquista devagar, em passos medidos e de modo discretíssimo. Entre as nações, foi em Israel que se encarnou a aspiração à paz suprema, à paz verdadeira — segura da sua vitória, ainda que o seu caminho seja longo e ela esteja em guerra contra a aspiração oposta, cujo fim é cair e provar a sua própria nulidade aos olhos de todos. E então:
וְהָיָה ד' לְמֶלֶךְ עַל כָּל הָאָרֶץ; בַּיּוֹם הַהוּא יִהְיֶה ד' אֶחָד וּשְׁמוֹ אֶחָד
"E o Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia o Senhor será Um, e o seu Nome, Um."
Zecharyah (Zacarias) 14:9
Duas luzes em Israel
Duas luzes brilham em Israel: a moral pura, em todas as suas aspirações pelo mundo inteiro — pelo homem, por tudo o que vive e por todo o ser —; e o saber de que tudo brota da invocação do nome de D'us e de todas as Suas luzes. A moral sem a sua fonte é uma luz interior, central, sem alcance, sem um meio que a sustente — e o seu fim é definhar. E a aspiração da alma ao vínculo divino, quando a moral e o seu valor não brilham como devem, é um conteúdo que abrange muito, mas a que falta um centro. Israel reúne o alcance e o íntimo, a moral e a sua fonte divina — e é isso que vencerá e decidirá o mundo inteiro, e fará raiar a luz do Mashiach.
A luz da Shechiná
A luz da Presença Divina (Shechiná) é a Comunidade de Israel — o ideal de Israel que paira sobre a nação inteira e a faz uma só unidade em todas as suas gerações. Quando essa grande luz se revela na terra, encarnando-se na vida prática e intelectual, tudo se abençoa. As almas escondidas no alto acrescentam luz e deleite; toda alma viva se eleva; o mundo e tudo o que nele há se exalta; os orvalhos guardam em si abundância de bênção; tudo se alegra e exulta — porque a Comunidade de Israel desceu para habitar na terra.
שִׂמְחוּ בַד' וְגִילוּ צַדִּיקִים וְהַרְנִינוּ כָּל יִשְׁרֵי לֵב
"Alegrai-vos no Senhor e exultai, ó justos; cantai de júbilo, todos os retos de coração."
Tehillim (Salmos) 32:11
A união do querer
A união perfeita da Comunidade de Israel com o Santo, bendito seja Ele, é o alinhamento da vontade que se revela na nação como um todo, no fundamento da sua alma, com a manifestação da inclinação divina no fundamento de todo o ser. E quanto mais se traduz em ato a revelação da Comunidade de Israel, e o seu alinhamento com a luz divina do desejo de que o ser se aperfeiçoe, mais admirável é essa harmonia. Cada ato bom feito por qualquer membro de Israel torna o indivíduo e a coletividade aptos a se elevar a essa harmonia suprema — e essa elevação, por sua vez, torna mais apta a manifestação da inclinação divina em todo o ser, e o aperfeiçoamento da sua plenitude.
É a isto que aspiramos em todas as nossas obras. Revestimo-nos de amor, pela inclinação cósmica presente na totalidade do ser, na qual o temor se anula diante do amor — pois a totalidade do ser está distante de qualquer mudança para o mal, e nela há somente "força e alegria no seu lugar" (I Crônicas 16:27). E, do lado da Comunidade de Israel, revestimo-nos também de temor, para que a luz não se feche para nós; e, ao nos elevarmos ao fundamento da unidade, enchemo-nos de amor e temor reunidos num só. E os pensamentos e sentimentos que vêm da iluminação divina universal só são acolhidos pela Comunidade de Israel para dar fruto e ramo, e gerar belos frutos duradouros, quando vêm entretecidos com as ideias próprias da Comunidade de Israel, com a natureza da nação na sua essência interior.
Vencer pelo espírito
A Comunidade de Israel vence o mundo pela sua força espiritual, cujo fundamento é a elevação moral absoluta, que se ergue acima das inclinações do espírito humano — até mesmo acima das melhores e mais belas. Ela revela a sua força no saber de uma condução do mundo acima do curso da natureza. Pois é impossível ao homem, individual ou coletivo, elevar-se acima da sua própria natureza enquanto pensar que tudo o que está impresso na natureza não tem sobre si poder algum capaz de transformá-lo numa elevação. Por isso não há escapatória da baixeza moral na profundeza do espírito senão pelo pensamento da fé, que comprova as suas ações pelo domínio do nome de D'us no mundo, numa revelação ideal da vontade — e esta é a revelação do Nome do Ser na Torá de Israel.
O judaísmo do milagre e o judaísmo da natureza estão entrelaçados um no outro, presos um ao outro como a alma ao corpo. E, tal como na guerra interior do indivíduo — em que às vezes a alma se fortalece e ilumina, mas o corpo padece em excesso, e então surge uma inclinação contrária a fortalecer o corpo, e a alma sofre com a treva da matéria, até que a inclinação da alma volta a despontar, e em todas essas subidas e descidas o equilíbrio vai se aproximando —, assim também é no judaísmo como um todo. Quando as ideias do judaísmo do milagre se fortalecem, o judaísmo da natureza padece; e quando este se eclipsa, perde a sua base também o esplendor da estatura espiritual do judaísmo. Mas, pela força do retorno constante, que vem e volta ao longo de épocas diversas, a estatura plena da nação vai se aproximando do equilíbrio — e a eternidade e o esplendor, juntos, derramam a sua força; e a Comunidade de Israel se eleva acima de ambos, pois é a fonte do judaísmo inteiro nos seus dois valores, de tal modo que cada uma das duas formas, a do milagre e a da natureza, alarga a fronteira da outra.
Inseparável da Rocha
"É impossível ao homem separar-se do apego ao Divino, e é impossível à Comunidade de Israel separar-se da Rocha da sua salvação, a luz do Senhor, D'us de Israel. Mas essa impossibilidade, que se manifesta em todas as gerações, traz consigo uma necessidade natural que não dá lugar à clareza do conhecimento para mostrar a sua obra. Por isso vêm dias em que um sono profundo cai sobre o homem, e as faces se separam uma da outra, até que a separação completa se torne possível; e em meio a esse sono, no lugar de um lado preso ao outro por união natural, dorso a dorso, ergue-se a beleza do homem em todo o seu esplendor — quando a escolha consciente reconhece e diz: 'Esta, agora, é osso dos meus ossos e carne da minha carne' (Bereshit 2:23), e o mundo se estabelece numa manifestação de vida e de gerações que perduram para sempre."
"As possibilidades de falar 'altivamente, altivamente' — de apostasia, de descrença, de separações absolutas — são fruto dessa 'serração' que conduz à união completa, formal e livre: 'como o noivo se alegra com a noiva, assim se alegrará contigo o teu D'us' (Yeshayahu 62:5). O fenômeno se revela na relação da Torá com a nação: a união natural vai-se separando pela serração do sono, e o fim dessa serração é o conteúdo da construção, que leva a uma unidade plena; e a Torá volta para os que a estudam:"
וְכָל בָּנַיִךְ לִמּוּדֵי ד', וְרַב שְׁלוֹם בָּנָיִךְ
"E todos os teus filhos serão discípulos do Senhor, e grande será a paz dos teus filhos."
Yeshayahu (Isaías) 54:13
O dever que nasce do saber
Tudo o que é digno de ser feito já está impresso na essência do intelecto e na realidade espiritual ligada a todo o fundamento da existência; e, uma vez feito o contrário do que se devia fazer, a coisa arruína o mundo — como quem trata do seu corpo de um modo que contraria as condições da sua vida. Mas, se a revelação dessa ordem não chega a deixar uma marca na alma, a ruína não atua. A Torá inteira é a conclusão última do efeito da luz divina que flui pelos mundos e chega até a penetração mais íntima da vida. Israel se purificou a tal ponto que chegou a sentir a impossibilidade de inverter a ordem suprema que tudo abrange e penetra. Os Patriarcas já traziam isso impresso na altura do seu espírito, e os seus filhos se purificaram no forno de ferro até alcançar, num mistério interior, essa qualidade.
E esse saber interior é um saber que sente; e, quando ele amadurece, as condições da vida são forçadas a andar conforme ele. Se não houver um guia supremo que traduza em ato a manifestação da vida segundo esse saber interior, então o mundo desaba, e grande é a aflição da vida. E a iluminação veio: a luz do Senhor revelou-se sobre o Monte Sinai; a Moshé Ele mostrou o tesouro da sua bondade e o segredo do esplendor do seu brilho, para ensinar uma Torá que é herança da congregação de Yaakov, e para perfumar o mundo e tudo o que nele há. Daí que todo homem piedoso, todo o que busca a moral e a justiça — uma vez que o seu entendimento chegou a desvendar um segredo moral — eis que o mundo inteiro lhe cobra o cumprimento do dever revelado.
לֹא עָשָׂה כֵן לְכָל גּוֹי, וּמִשְׁפָּטִים בַּל יְדָעוּם
"Não fez assim a nenhuma outra nação; quanto aos seus juízos, eles não os conhecem."
Tehillim (Salmos) 147:20
O testemunho e o ponto de Sião
Quando se fala da vocação de Israel no mundo, chegamos logo ao reconhecimento do testemunho da exaltação de D'us que vem pela Comunidade de Israel — que comprova, na sua própria existência, o fundamento divino que rege os povos e os reinos e, com isso, toda a realidade. E daí chegamos à exigência da santidade e da pureza na vida prática e na vida do pensamento.
Ser bom para todos, sem limite — eis o germe da alma de Israel.
A elevação da Comunidade de Israel ao seu grau supremo, enquanto ainda houver divisão de povos no mundo, é o grau a que se chama o ponto de Sião.
A seção fecha onde começou: numa visão moral e universal. O "ponto de Sião" não é o fim da história dos outros povos, mas o ponto em que a Comunidade de Israel cumpre a sua função — ser testemunha viva da exaltação de D'us, e exigir de si santidade e pureza "na vida prática e do pensamento". Tudo no texto converge para o mesmo germe que o Rav Kook pôs no centro: a vontade de ser bom para todos, sem limite. Não é uma teoria sobre a grandeza de um povo — é um chamado à responsabilidade pelo mundo inteiro.