אוֹרוֹת
Orot — Luzes
Escritos de pensamento e visão
Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook
הרב אברהם יצחק הכהן קוק
Tradução ao português · Edição integral

Sumário

  1. 1. Os Cavalos de Fogo: as letras da Torá
  2. 2. Antes da Torá, a Decência
  3. 3. A Torá que Transforma a Pessoa
  4. 4. Toda a Torá é Um só Nome
  5. 5. Fazer e Ouvir: a ação e o estudo
  6. 6. Os Dois Ritmos da Teshuvá: o relâmpago e o passo a passo
  7. 7. Os Dois Retornos: a teshuvá do pecado e a da alma
  8. 8. Torá Lishmá: o estudo por amor
  9. 9. O Bem sobre Alicerces Verdadeiros
  10. 10. O Sagrado Oculto no Mundano
  11. 11. A Santidade do Corpo
  12. 12. As Três Forças: o sagrado, a nação e a humanidade
  13. 13. Conhecer D'us como o Bem Absoluto
  14. 14. A Tolerância e os Guardiões do Espírito
  15. 15. As Duas Compreensões: a moral e a causal
  16. 16. As Almas do Mundo do Caos
  17. 17. A Expansão da Alma
  18. 18. A Alma de Israel
  19. 19. O Renascimento
  20. 20. O Retorno a Si Mesmo
  21. 21. A Sede do D'us Vivo
  22. 22. Os Quatro Cânticos da Alma
  23. 23. As Três Vias do Retorno
  24. 24. O Caminho das Ideias em Israel
  25. 25. O Grande Chamado — Kriá Gedolá
  26. 26. Orot HaMilchamá — As Luzes da Guerra
  27. 27. Orot HaTechiyá — Seleções III
  28. 28. Orot HaTechiyá — Seleções II
  29. 29. O Indivíduo e a Coletividade
  30. 30. A Singularidade de Israel
  31. 31. A Santidade de Israel
  32. 32. Israel e as Nações
  33. 33. Amor a Israel (Ahavat Israel)
  34. 34. Orot Eretz Israel — As Luzes da Terra de Israel
  35. 35. As Duas Luzes: a Torá Escrita e a Torá Oral
  36. 36. O Todo em Cada Detalhe: os pormenores da Torá e a sua grande luz
  37. 37. O Alimento e o Ar da Alma: por que estudamos a Torá
  38. 38. A Fonte Oculta: quando e como estudar os segredos da Torá
  39. 39. A Torá da Terra de Israel: o todo, a unidade e a paz
  40. 40. Os Caminhos do Estudo: cada alma e a sua Torá
  41. 41. O Amor ao Trabalho: como toda obra resgata o mundo
  42. 42. O Sol que Cura: o fim da guerra contra a natureza
  43. 43. A Fé e o Amor: as duas forças mais profundas da alma
  44. 44. Fogo Estranho: como o sagrado pode virar fanatismo
  45. 45. A Centelha em Todo Ser: o apego a D'us e o bem do mundo
  46. 46. O Sábio é Superior ao Profeta
  47. 47. A Guerra das Ideias: a luz escondida em toda fé
  48. 48. O Anseio Mais Natural: o apego a D'us e o despertar do mundo
  49. 49. A Força Escondida: o poder secreto do bem que fazemos
  50. 50. Razão e Mistério: por que a crítica precisa do oculto
  51. 51. A Alma do Escritor: a pureza que se vê na escrita
  52. 52. A Grande Teshuvá: o retorno que transforma o todo
  53. 53. Não Só a Mente: a santidade que abraça o ser inteiro
  54. 54. Os Sofrimentos que Purificam: a alma adoece de uma ideia tosca de D'us
  55. 55. A Essência de Israel: a missão de ser bom para todos
  56. 56. A Ligação com o Todo: quando a alma do indivíduo toca a de toda Israel
  57. 57. A Nação e a sua Alma: a soberania de Israel
  58. 58. Alma e Corpo da Nação: o ideal e a sua encarnação
  59. 59. A Alma de Israel e o seu Renascimento
  60. 60. O Ideal Divino e o Ideal Nacional — no ser humano
  61. 61. O Ideal Divino e o Ideal Nacional — em Israel
  62. 62. A Dissolução dos Ideais
  63. 63. A Situação no Exílio
  64. 64. O Primeiro e o Segundo Templo: a ideia divina e a "ideia religiosa"
  65. 65. A Unificação dos Ideais: o divino e o nacional reunidos no renascimento
  66. 66. A Escada entre o Céu e a Terra: o ideal e os atos que o encarnam
  67. 67. A Luz que Revive: tirar das profundezas a força da nação
  68. 68. A Visão do Coração e os seus Limites
  69. 69. Sede de D'us: o que distingue a alma de Israel
  70. 70. Quando a Vida Floresce: as ideias livres e o bem para todos
  71. 71. Um Fragmento do Grande: a centelha dos pais
  72. 72. O Intelecto Divino: a alma de Israel e o seu anseio mais profundo
  73. 73. A Luz que Desce ao Nosso Encontro
  74. 74. Não Dividir a Nação: a lição do julgamento de Salomão
  75. 75. A Unidade que Redime: contra a divisão de Israel
  76. 76. Não Afastar, mas Elevar: o fogo do amor e as centelhas dispersas
  77. 77. Ver Só o Bem: o amor sem limites por cada filho de Israel
  78. 78. O Espírito Não Foge do Mundo: a obra prática como corpo de Torá
  79. 79. A Santidade na Natureza, não Contra Ela
  80. 80. A Beleza do Céu que o Exílio Velou: o poeta e a natureza
  81. 81. A Santidade do Ginásio: o corpo dos jovens e a luz divina
  82. 82. Semente de Homem, Semente de Animal: os dois tipos do renascimento
  83. 83. A Alma do Construtor e o Espírito do Devoto
  84. 84. Alargar a Tenda: engajar o mundo a partir da força
  85. 85. A Sabedoria que Nasce da Inveja Apodrece
  86. 86. Não Temer a Onda: o renascimento natural e a teshuvá do amor
  87. 87. A Luz Oculta: D'us no renascimento que ainda não O nomeia
  88. 88. O Amor à Nação que Amadurece em Amor à Torá
  89. 89. A Unidade Escondida sob as Brigas
  90. 90. O Deus Próximo e o Deus Estranho: conhecer D'us é amá-lo
  91. 91. Os Guardiões da Muralha: os justos que libertam a nação para construir
  92. 92. Nascer de Novo: o renascimento que começa do fundo
  93. 93. Carne Santa: a teshuvá também é do corpo
  94. 94. Da Santidade à Literatura: a alma do escritor
  95. 95. A Literatura Será Santificada: o estilo não esconde a alma
  96. 96. A Tempestade que Revela: a crise espiritual do renascimento
  97. 97. O Vinho e a Borra: a força tosca que sustenta a vida
  98. 98. O Sagrado Escondido no Profano
  99. 99. Luz Demais, Vasos de Menos: a raiz da descrença
  100. 100. A Torá que Rompe o Negrume
  101. 101. Os Gémeos Reencontrados: a Torá Escrita e a Oral
  102. 102. Queimar a Escória: a negação que purifica a ideia de D'us
  103. 103. Quando o Bem se Apoia no Mal
  104. 104. Halachá e Agadá: o pensamento estreito e o largo
  105. 105. A Torá Interior: a sabedoria que só se ouve no alto
  106. 106. A Luz do Mashiach e a Gratidão
  107. 107. A Luz Divina que se Concentra em Israel
  108. 108. A Nação Viva e o Indivíduo: de onde vem a força espiritual
  109. 109. O Exílio Não Destruiu Nada
  110. 110. O Oculto e o Revelado: por que um precisa do outro
  111. 111. Os Segredos que Redimem: a Torá interior e o retorno à terra
  112. 112. A Luz que Jorra: quando o melhor da nação se acende
  113. 113. A Sede da Profecia: o universal e o que vai além
  114. 114. A Teshuvá que Brota do Espírito de Santidade: a profecia na sua nascente
  115. 115. A Volta da Profecia: as pegadas da redenção
  116. 116. A Delícia da Torá: o grande tecido vivo
  117. 117. A Sabedoria de D'us na Nação
  118. 118. A Liberdade da Alma
  119. 119. A Alma do Mundo e o Corpo
  120. 120. A Chutzpá da Geração: a insolência que não é destruição
  121. 121. A Geração que Prepara o Corpo
  122. 122. As Almas que Voltam
  123. 123. A Grande Teshuvá da Luz dos Segredos
  124. 124. O Espírito de Israel e o Espírito de D'us são Um
  125. 125. A Inclinação Nacional: o Campo que D'us Abençoou
  126. 126. A Via Longa: a grandeza que não se deve esquecer
  127. 127. A Alma que Não se Profana: o santo dos santos no íntimo
  128. 128. O Retorno ao Núcleo: a crise que chama Israel à teshuvá
  129. 129. A Terra de Israel Não é uma Coisa Externa
  130. 130. Quando a Santidade da Terra se Turva
  131. 131. A Criação Só é Possível na Terra
  132. 132. O Ar da Terra de Israel
  133. 133. A Imaginação Pura da Terra
  134. 134. A Santidade que Não Cessa, e o Anseio que Redime
  135. 135. As Letras Vivas da Alma
  136. 136. A Chama que Não se Apaga
  137. 137. A Sede do D'us Vivo
  138. 138. O Goral de Israel: a testemunha da Glória no mundo
  139. 139. O Mishpat como Qodesh Qodashim
  140. 140. O Veneno Espiritual e a Luz Nova sobre Sião

Os Cavalos de Fogo: as letras da Torá

É um capítulo breve, mas de uma imagem inesquecível. O Rav Kook fala das próprias letras da Torá — não como sinais mortos no pergaminho, mas como portadoras de uma luz viva; e compara o ato de estudar o texto a cavalgar: as palavras carregam o pensamento mais longe do que ele iria por suas próprias pernas. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A luz escondida nas letras

As letras da Torá: quando a alma se liga à sua luz suprema, todos os pequenos pormenores se tornam queridos com um amor de alma, e o desejo da Torá se espalha sobre cada letra, sobre os mínimos detalhes [da lei] e sobre todas as suas ramificações.

הַשִּׂמְחָה שֶׁהַתּוֹרָה מְשַׂמַּחַת אֶת הָאָדָם, בָּאָה מֵרֹב הָאוֹרָה שֶׁבְּאוֹתִיּוֹת הַתּוֹרָה "A alegria com que a Torá alegra o ser humano vem da abundância de luz que há nas suas letras." Orot HaTorah, cap. 5

A alegria com que a Torá alegra o ser humano vem da abundância de luz que há nas suas letras — que estão cheias de uma vida de deleite divino e enchem a alma, na sua plenitude, de luz de vida e de uma alegria deliciosa. E, mais do que da própria essência das letras já absorvidas na alma, essa alegria brota da vida espiritual poderosa que se derrama das fontes supremas — muito mais sublimes do que as letras [já] captadas pela alma consciente. E a luz da sua alegria oculta é grande, cheia de um contentamento e de um deleite admiráveis, com que nada do que se deseja se iguala.

Quando a luz excede as letras

Às vezes é impossível ao homem estudar, porque ele está num grau tão [elevado] que a iluminação geral — aquela que está acima das letras — resplandece sobre ele, e ele não consegue contrair-se nas letras do estudo. E, quando recebe essa iluminação em santidade e humildade, merece depois estudar com grande alegria e com uma compreensão muito límpida.

Os cavalos de fogo

סוּסֵי אֵשׁ — אִינּוּן אַתְוָון דְּאוֹרַיְתָא "Cavalos de fogo — estas são as letras da Torá." Zohar (sobre a carruagem de Eliyahu)

"Cavalos de fogo — estas são as letras da Torá." Naquilo que o homem não alcança, da profundeza do pensamento, pela sua própria força, a sua capacidade criadora cresce ao ligar-se à letra da Torá, e sobe muito além do seu próprio poder — como a rapidez e a segurança da viagem aumentam por meio do veículo.

Há o "pedestre": aquele que caminha pela força do seu próprio raciocínio nas questões teóricas da Torá, sem ser ajudado, no sentido das coisas, pelas letras. Há quem não tem força para andar a pé, e vai "montado nas letras da Torá" mesmo naquilo que é simples — onde um homem são deveria caminhar pela própria força. E há quem, em todo lugar em que pode ir a pé, vai a pé; e usa as "letras da Torá" não por fraqueza, mas como quem cavalga por honra — para mais ornar as coisas, ou para chegar a um lugar aonde é impossível ir pela própria força, senão pela ligação da investigação às letras da Torá.

A imagem é tão sábia quanto bela. O texto — a letra concreta, e não apenas a ideia abstrata — é um veículo: ele leva a mente aonde ela, sozinha, não chegaria. Mas o Rav Kook traça um equilíbrio fino: usar o "cavalo" por preguiça (deixar de pensar por si onde se poderia) empobrece; usá-lo por honra e para alcançar o que excede as nossas forças, enobrece. O ideal não é nem o orgulho de quem dispensa o texto, nem a indolência de quem nunca caminha — é caminhar com as próprias pernas e saber cavalgar quando o caminho exige.

O texto é um veículo: leva a mente aonde ela, sozinha, não chegaria.

Eis, então, por que a Torá alegra: não só pelo que entendemos com a nossa força, mas pela luz que as suas próprias palavras carregam — e que, ao nos ligarmos a elas, nos eleva mais alto do que poderíamos subir a sós.

Antes da Torá, a Decência

Há quem imagine que a religião dispensa, ou até substitui, a ética comum — a honestidade, a bondade, a decência que qualquer pessoa reconhece. O Rav Kook ensina o contrário, com uma força que surpreende: a moral natural precede a Torá e é o chão sobre o qual ela se ergue. E a Torá, longe de ser uma luz fechada em si, é uma luz para o mundo inteiro. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A decência precede a Torá

דֶּרֶךְ אֶרֶץ קָדְמָה לַתּוֹרָה "O derech eretz [a decência] precedeu a Torá." Vayikrá Rabá 9:3

"O derech eretz [a boa conduta] precedeu a Torá." Essa precedência é uma necessidade de todas as gerações. A moral, na sua naturalidade — em toda a sua profundeza e força —, precisa fixar-se na alma e servir de leito para as grandes influências que vêm da Torá. E, assim como o temor [de D'us] é a raiz que precede a sabedoria, a moral natural é a raiz que precede o próprio temor e todos os seus ramos. E esta regra vale para o indivíduo, para a nação inteira e para toda a humanidade.

E, se às vezes é necessário trazer a abundância da Torá sem a precedência do enraizamento da moral natural na sua pureza, isto é apenas uma "medida da hora" [uma exceção provisória]; e a vida há de fazer com que o curso volte à sua ordem firme — a moral natural primeiro, em toda a sua perfeição, para sobre o seu leito edificar o palácio da Torá e do temor supremo. Por isso, toda coisa da Torá precisa que o derech eretz a preceda: aquilo com que o intelecto e a justiça natural concordam — a recusa do roubo e da imoralidade, o valor da modéstia, que se podem aprender "até da formiga, da pomba e do gato" [da própria natureza] — deve passar pela inclinação do coração e pelo assentimento da vontade pura que há no homem.

Eis um princípio que corrige um erro perene: a santidade não substitui a decência — repousa sobre ela. Não se constrói uma vida religiosa verdadeira sobre uma pessoa (ou um povo) que não tenha primeiro a honestidade e a bondade básicas. E note a largueza: a moral natural é "herança de toda a humanidade" — ela vale para todos, antes e independentemente da Torá. Uma religiosidade que pula a ética comum está construída sobre a areia.

Toda sabedoria se liga à luz da Torá

A Torá faz, propriamente, a alma de Israel; e a sabedoria em geral — aquela que está fora do conceito de "Torá" — faz a alma humana. E, quando contemplamos a interioridade da alma humana na sua essência, achamos o espírito de Israel vivo dentro dela; e, do mesmo modo, na essência interior de toda ciência e de toda sabedoria, achamos a luz da Torá.

Uma luz para o mundo — não contra o mundo

A Torá foi dada a Israel para que portões de luz — mais claros, mais largos e mais santos do que todos os portões de luz da razão natural e da moral natural que há no homem — se abrissem para nós, e, por nosso intermédio, para o mundo inteiro.

יִפָּתְחוּ לָנוּ, וְעַל יָדֵינוּ — לְכָל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ "...que se abram para nós, e por nosso intermédio — para o mundo inteiro." Orot HaTorah, cap. 12

E, se tapamos os ouvidos para não ouvir a voz simples de D'us, que clama com força por todos os portões naturais de luz — herança de toda a humanidade —, por pensarmos que encontraremos a luz da Torá numa Torá arrancada de toda a luz da vida espalhada pelo mundo, na sua interioridade e na alma do homem em seu esplendor — então não entendemos o valor da Torá; e sobre isto se disse "povo insensato e não sábio" (Devarim 32:6), que Onkelos traduz: "um povo que recebeu a Torá, e não se tornou sábio".

Este é um dos avisos mais ousados do Rav Kook — e o coração do espírito racionalista. A Torá não deve ser separada da razão, da moral natural e da sabedoria do mundo; ela vem coroá-las, não negá-las. Quem imagina possuir a Torá enquanto fecha os ouvidos à voz de D'us que fala pela razão, pela ciência e pela consciência ética de toda a humanidade — esse "recebeu a Torá e não se tornou sábio". A luz da Torá e a luz do mundo têm a mesma fonte (cf. ciência e Torá e a Torá e a humanidade).

A Torá veio coroar a razão e a moral do mundo — não fechar os ouvidos a elas.

A terra espiritual da alma

E, no entanto, não pense ninguém que é possível viver uma vida espiritual sem a luz da Torá. Assim como não se vive sem luz e ar, sem comida e bebida, mais ainda não se vive sem a vitalidade da Torá. E, se vemos pessoas distantes da Torá e ainda assim espiritualmente vivas, a medida da sua espiritualidade corresponde àquilo em que estão ligadas à Torá — diretamente, ou através dos que a vivem, ou por algum tesouro de herança que os seus antepassados lhes legaram.

Assim como a Assembleia de Israel só realiza as suas qualidades na terra de Israel, assim o homem de Israel só realiza as suas qualidades espirituais por meio da Torá — que é a "terra espiritual" adequada à índole da alma. A moral natural é o alicerce indispensável; mas a Torá é a casa que sobre ele se ergue, e na qual a alma, enfim, habita.

A Torá que Transforma a Pessoa

Estudar não muda apenas o que sabemos — muda quem somos. Neste capítulo de Orot HaTorah, o Rav Kook descreve a ação da Torá sobre a alma: como ela funda a confiança em si, ensina a humildade, purifica o caráter e dá conta do mau impulso. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Crer na própria vida

O homem reto precisa crer na sua [própria] vida. Isto é: crer na sua própria vida e nos seus sentimentos que seguem o caminho reto, desde o fundamento da sua alma — [crer] que são bons e retos, e que o conduzem por um bom caminho. A Torá deve ser uma lâmpada para os seus pés, pela qual ele veja onde o erro pode espreitar — pois, às vezes, a alma se extravia num caos sem rumo. Mas o estado constante deve ser a confiança da alma. O homem de Israel é obrigado a crer que uma alma divina habita nele; que toda a sua essência é uma letra da Torá — e uma letra da Torá é um mundo inteiro, que se multiplica sem medida.

Esta é uma das frases mais libertadoras do Rav Kook: "crer na própria vida". A religiosidade pode adoecer quando vira desconfiança de si — suspeita de cada impulso, culpa constante. O Rav Kook inverte isso: a postura normal do homem reto é confiar que a sua alma, no seu fundamento, é boa e o guia bem; a Torá é a lâmpada que mostra onde o erro espreita, não uma fonte de autocondenação. Cada pessoa carrega "uma letra da Torá" — um valor infinito e único (cf. "À imagem de D'us"). Conhecer-se com confiança é parte de servir a D'us.

A humildade que recebe

A Torá faz descer o mundo espiritual até o ser humano, e com isso todos os deleites supremos se lhe abrem — e esta é a felicidade do homem e a finalidade da sua criação. Mas, para que o mundo espiritual desça até ele, é preciso que ele sinta que lhe falta; e é este o sentido de "[habito] com o contrito":

אֶת דַּכָּא וּשְׁפַל רוּחַ "...[habito] com o contrito e humilde de espírito." Yeshayahu 57:15

Por isso o Santo, bendito seja, preteriu todos os montes e colinas do mundo e não fez repousar a Sua Presença senão sobre o monte Sinai — e nem sequer o Sinai era alto. [A grandeza espiritual repousa sobre a humildade, não sobre a soberba.]

A Torá refina o caráter

Quando o homem está próximo, no seu espírito e nos seus pensamentos, da Torá, iluminam-no as luzes supremas, e as suas qualidades e toda a sua índole se elevam, enchendo-se do esplendor de uma vida superior; e sentimentos de uma delicada proximidade de D'us o animam. Por isso deve cuidar em todos os seus caminhos e atos, nas suas palavras e nos seus gestos, para que nada de mau saia da sua mão e não se erga uma barreira entre ele e a luz suprema.

Pois a Torá purifica as qualidades de caráter e todas as disposições do corpo e da alma: pelo estudo, a vida anímica recolhe-se à fonte da retidão viva e divina — a raiz da Torá —, e ali adquire a natureza elevada e santa do seu próprio ser; e, ao voltar a operar no corpo, retorna com grande abundância de nobreza e delicadeza, e os seus efeitos práticos fazem-se abençoados e refinados — "não é a Minha palavra como o fogo?, diz o Eterno" (Yirmiyahu 23:29). E [a Torá] conduz à humildade — pois "sinal de arrogância é a pobreza de Torá"; e [os Sábios] ensinaram que não é igual quem revê a sua lição cem vezes a quem a revê cento e uma (Chaguigá 9b): o pouco a mais faz a diferença.

O remédio para o mau impulso

E é justamente a Torá o "tempero" [o remédio] para o mau impulso (yétzer hará) — não qualquer outra compreensão do mundo, nem quaisquer sentimentos elevados: precisamente a Torá.

בָּרָאתִי יֵצֶר הָרָע, בָּרָאתִי לוֹ תּוֹרָה תַּבְלִין "Criei o mau impulso; criei-lhe a Torá como tempero [antídoto]." Talmud, Kidushin 30b

E a Torá precisa difundir-se em todas as suas dimensões; então a sua luz ilumina todas as percepções e qualidades. E o próprio mau impulso vai-se elevando, santificando-se e convertendo-se em bem — "o próprio acusador torna-se defensor", e "naquilo mesmo em que [a pessoa] se fere, ela se cura". A Torá é, assim, uma cura geral para toda a carne, que conserta a vida em profundidade.

Repare na delicadeza: o Rav Kook não diz que a Torá elimina o mau impulso, mas que o tempera — e, mais ainda, que o transforma. A energia que poderia destruir, bem orientada, torna-se força para o bem; "o acusador vira defensor". É a visão racionalista do yétzer (cf. o ensaio sobre o mau impulso): as paixões não são para serem extirpadas, mas educadas e postas a serviço — e a Torá é o que as educa.

A Torá não arranca o impulso — ensina-o; e o acusador torna-se defensor.

A sede com que a alma anseia pela sua perfeição geral aplaca-se com qualquer iluminação espiritual que sobre ela venha; mas a sede [mais] específica — a do cumprimento da própria vocação — só se aplaca pela plenitude da Torá.

Toda a Torá é Um só Nome

A Torá pode parecer uma multidão de coisas dispersas: narrativas, leis, debates, pormenores. O Rav Kook, em Orot HaTorah, ensina a ver o contrário — uma unidade profunda, em que tudo é expressão de uma só luz. E daí extrai uma ideia de largueza surpreendente: todo bem e toda sabedoria, onde quer que se encontrem, refletem essa mesma luz divina. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Uma só voz por toda a Torá

Toda a Torá — a grande percepção da meta divina que há nela, na profecia e no espírito de santidade — conduz o pensamento a contemplar a sua unidade. Assim, os Profetas e os Escritos estão incluídos na Torá, e a Torá permanece inteira e unificada na sua santidade suprema, na voz do D'us vivo — de modo que todo aquele cuja alma está viva escuta essa grande voz, que perpassa toda a Torá. E sabe-se que "a Torá do Eterno é perfeita" (Tehilim 19:8), e que a luz do D'us Uno nela aparece com clareza, "fogo negro sobre fogo branco".

שֶׁכָּל הַתּוֹרָה כֻּלָּהּ הִיא רַק שֵׁם אֶחָד שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא "...que toda a Torá é apenas um Nome do Santo, bendito seja." Orot HaTorah, cap. 4

Está-se seguro de que toda a Torá é apenas um Nome do Santo, bendito seja — um só Nome, uma só palavra, um só dito, fora do qual nada há, e no qual tudo está contido.

Todo bem e toda sabedoria são luz divina

Toda a Torá são os Nomes do Santo, bendito seja. Toda boa qualidade de caráter e todo derech eretz [boa conduta] estão incluídos na Torá; toda sabedoria está nela enraizada; e em todo lado bom que há no ser humano ou numa coletividade, ali brilha o Nome do Santo, bendito seja. Há, porém, diferença entre quem sabe que tudo é luz que cintila do Nome de D'us e quem não o sabe — mas essa diferença é apenas de grau. A essência da coisa depende da interioridade do ponto da vontade: de quanto ela está firmada no lado do bem — pois só aí repousa a luz [divina], que se reveste no fundamento de tudo, na sabedoria e na bondade, para completar tanto a visão ideal da existência quanto a sua realidade concreta — sendo esta a realização daquela.

Eis uma das ideias mais largas do Rav Kook, e profundamente afim ao espírito racionalista: todo bem genuíno e toda sabedoria verdadeira — em qualquer pessoa, em qualquer povo — são faíscas da mesma luz divina. O que distingue o sábio não é possuir um bem que os outros não têm, mas reconhecer a sua fonte. É o mesmo princípio do Rambam — "aceita a verdade de quem quer que a diga" —, e da afirmação de que os justos de todas as nações têm parte no bem do mundo. A verdade e a bondade não têm dono.

A luz no menor detalhe

Cada coisa da Torá brota de toda a Torá inteira — da Torá escrita e da oral, de todo bom estudo, de toda mitsvá e de toda boa qualidade. Há diferenças entre os graus; mas o amor e a alegria no cumprimento das mitsvot e no estudo da Torá por si mesma devem ser amor pelo Todo — amor por toda a luz, a vida e a santidade que estão guardadas dentro daquele detalhe particular de que a pessoa se ocupa, e que vêm à tona, através dele, em toda a imensidão do seu esplendor.

הַמּוּסָר הָאֱלֹהִי הַמֻּחְלָט הוּא מוּצָץ מִכָּל דִּין פְּרָטִי "A moral divina absoluta é haurida de cada lei particular." Orot HaTorah, cap. 4

Em cada coisa da Torá, em cada lei particular, brilha a luz suprema e ilimitada. A moral divina absoluta é haurida de cada lei particular. E, para quem contempla — habituando a sua alma à irradiação dessa luz —, revela-se em cada lei o seu conteúdo interior, cheio do mundo do esplendor; a ponto de, sobre cada lei e cada capítulo, poder-se entoar um cântico novo, cheio de sentido — que se derrama até sobre cada pormenor do debate, até que uma leitura poética, que deleita e enleva, possa estender-se sobre toda a Torá, mesmo a prática e a legal.

Até a lei mais miúda abre-se para a luz infinita — e merece um cântico novo.

E quando se estuda em santidade e elevação de alma, desenha-se diante de nós a amplidão de toda a Torá: como ela sai da fonte da sua santidade, e como todas as leis particulares se ramificam — qual ramos de uma só luz de vida — da fonte de vida que a todos nutre.

Há aqui uma resposta luminosa a quem vê na lei judaica apenas regras áridas. Para o Rav Kook, cada lei é uma janela: olhada com atenção, abre-se para a "moral divina absoluta" e para a luz infinita. Estudar não é decorar normas, mas ouvir o cântico que cada detalhe entoa — descobrir, no particular, o universal que ele guarda (cf. "Torá Lishmá").

Fazer e Ouvir: a ação e o estudo

Quando receberam a Torá, os israelitas responderam com duas palavras que a tradição nunca cansou de meditar: naaseh ve-nishma, "faremos e ouviremos" — pondo o agir antes do entender. Em Orot HaTorah, o Rav Kook extrai disso uma lição sobre a relação entre a ação e o estudo, entre os meios e o fim. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Dois valores da Torá

נַעֲשֶׂה וְנִשְׁמָע "Faremos e ouviremos." Shemot 24:7

O estudo e a ação — "faremos e ouviremos". Pôr o "faremos" antes do "ouviremos" assinala a valorização da Torá pela sua preciosidade divina [intrínseca], acima do quanto ela merece ser valorizada pela utilidade prática que há no seu estudo. Pois, uma vez dito "faremos", o vínculo com o valor do estudo prático já está incluído; e o "ouviremos" assinala o vínculo com o valor intrínseco da Torá — o seu valor em si mesma.

[Os comentadores discutem o sentido exato de "guardareis e fareis" (cf. Devarim 4:6): para uns, "guardar" é o estudo e "fazer" é pô-lo em prática; para Rabbenu Chananel, o próprio estudo já inclui a conclusão prática, e "fareis" se refere ao próprio ato. De um modo ou de outro, o estudo e a ação aparecem entrelaçados.]

Unir o cotidiano e o sublime

O profundo espírito sagrado do judaísmo — que se empenha por igualar, na prática, a vida do dia a dia à vida ideal e nobre — é a força anímica que fecunda as leis (halachot) e os seus pormenores, e que dá vigor ao estudo aprofundado que alarga as suas fronteiras nos domínios práticos da vida.

Aqui está uma das marcas do pensamento do Rav Kook: o judaísmo não quer fugir do mundo prático em nome do ideal, nem rebaixar o ideal ao prático — quer uni-los, fazendo da vida cotidiana a própria expressão do sublime. A lei miúda e o anseio mais alto não são rivais: a primeira é o corpo em que o segundo se realiza (cf. "A Sede do D'us Vivo" e "A Santidade do Corpo").

Todos os conhecimentos espirituais da Torá são como fronteiras assinaladas, às quais se chega pelo esforço com os meios que a elas conduzem, segundo as preparações devidas. E quem quiser alcançá-los sem atenção ao fundamento das preparações trará para si, em lugar de verdades, meras fantasias:

טָמַן עָצֵל יָדוֹ בַּצַּלָּחַת גַּם אֶל פִּיהוּ לֹא יְשִׁיבֶנָּה "O preguiçoso enfia a mão no prato, e nem à boca a leva de volta." Mishlei 19:24

Por que a Torá insiste nos "meios"

O que há de admirável não está propriamente em atingir o fim da perfeição espiritual, mas no modo de chegar a ele, pelos caminhos adequados. Por isso o homem precisa esclarecer para si quais são esses caminhos — os que mantêm as suas concepções interiores num bom nível e fazem elevar-se todos os seus atos, desejos e sentimentos — e a eles apegar-se. Assim também no estudo da Torá, necessário como o pão para o corpo, e em especial no seu lado teórico, que é o principal a elevar a alma.

E, no entanto, a Torá não podia declarar abertamente que o lado teórico é o principal. Pois a ênfase sobre os meios — que parecem inferiores ao fim — precisa de reforço maior do que a ênfase sobre o próprio fim; porque, por natureza, a alma é atraída para o fim mais do que para os meios. Por isso a exortação moral e a orientação geral (o fim) puderam ser reveladas por todos os profetas; mas as coisas práticas da Torá — os meios que preparam para o fim — tiveram de ser reveladas precisamente pela profecia de Moshé, mestre dos profetas. [Do mesmo modo, a vida do mundo vindouro é apenas aludida, e não detalhada: a sua força de atração é tão grande que, explicitada em excesso, sufocaria outras motivações também valiosas — o bem do todo e do indivíduo já neste mundo, e o amor de D'us por si mesmo, que está acima de tudo.] E é justamente por esse equilíbrio que a Torá se sustenta devidamente em Israel e brilha com a sua grande luz.

A maravilha não está só em chegar ao alto — está no caminho por onde se sobe.

O valor próprio do estudo

No estudo há dois tipos. Há aquele cujo valor é grande porque o seu tema é, em si, importantíssimo — como a contemplação de D'us, da alma e do intelecto, e de outros assuntos sublimes. E há aquele cujo tema não tem valor próprio elevado, mas é importante pela utilidade que dele resulta. E há ainda um terceiro: trazer ao campo do conhecimento tudo o que for possível — pois alargamos o intelecto ao acrescentar qualquer saber; por isso há coisas sem grande valor próprio que, ainda assim, vale a pena conhecer, pelo proveito de exercitar a mente e completar o saber. Mas não se devem confundir umas com as outras.

Assim também nas partes do estudo da Torá: há matérias cujo estudo é, em si, um grande fim; há matérias cuja investigação vale ainda mais do que a sua aplicação prática, pelo próprio trabalho do intelecto; e todo assunto da Torá — até um pormenor leve ou uma conduta correta — tem valor importante. E, se mesmo nos estudos seculares (os detalhes da história, o conhecimento de línguas antigas) cada parte acrescenta ao "esplendor do intelecto", quanto mais cada pormenor da nossa Torá inteira — quão precioso e querido ele deve ser.

Note a abertura intelectual do Rav Kook: ele valoriza não só o estudo dos temas sublimes, mas também o conhecimento "útil" e até o saber que serve apenas para exercitar e alargar a mente — incluindo as ciências e as letras seculares. Para ele, todo conhecimento verdadeiro acrescenta ao "esplendor do intelecto"; e o estudo da Torá, longe de fechar a mente, é a coroa de uma vida de aprendizado (cf. "Torá Lishmá").

Os Dois Ritmos da Teshuvá: o relâmpago e o passo a passo

No livro Orot HaTeshuvah, o Rav Kook classifica o retorno (a teshuvá) de vários modos. Num capítulo, distingue-o pela sua origem (natural, de fé, intelectual); noutro, pelo seu alvo (um pecado específico ou a alma inteira). Aqui, distingue-o pelo seu tempo: o retorno que vem de repente e o que vem aos poucos. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

תְּשׁוּבָה פִּתְאוֹמִית וּתְשׁוּבָה הַדְרָגִית "Teshuvá súbita e teshuvá gradual." Orot HaTeshuvah, cap. 2

Quanto à sua duração, a teshuvá divide-se em duas: a súbita e a gradual.

O relâmpago

A súbita vem de um certo relâmpago espiritual que entra na alma: de uma só vez, a pessoa reconhece o mal e a fealdade do pecado, e torna-se outra; já sente em si uma mudança completa para o bem. Esta teshuvá vem por meio de alguma manifestação de uma virtude interior, de uma grande influência da alma, cujos caminhos é digno buscar nas profundezas do mistério.

וְנֶהְפַּךְ לְאִישׁ אַחֵר "...e torna-se outra pessoa." Orot HaTeshuvah, cap. 2

O passo a passo

E há a teshuvá gradual: nenhum relâmpago fulgurou nela para virar, do fundo do mal, ao bem; mas a pessoa sente que precisa ir melhorando os seus caminhos e o rumo da sua vida, a sua vontade, o curso dos seus pensamentos. E, nesse seu caminhar, vai conquistando, devagar, as veredas da retidão: corrige as suas qualidades, melhora os seus atos, ensina a si mesma a tornar-se cada vez mais digna — até chegar a um alto grau de purificação e de reparo.

Os dois ritmos são igualmente verdadeiros — e o Rav Kook não exalta um à custa do outro. Há quem precise (e receba) o choque de um instante que vira a vida; e há quem cresça pela disciplina paciente de cada dia. Saber qual é o seu ritmo é uma libertação: o que muda devagar não deve invejar o relâmpago alheio, nem se acusar de "pouca fé" — o seu caminho, feito de pequenos passos firmes, chega ao mesmo cume.

A teshuvá suprema: o reencontro com o Todo

E a teshuvá suprema vem do fulgor do bem geral — do bem divino que repousa em todos os mundos, a luz da Vida dos mundos. A alma de toda a realidade desenha-se diante de nós no seu esplendor e na sua santidade, tanto quanto o coração é capaz de absorver. E, afinal, não é verdade que tudo é tão bom e tão reto? E a retidão e o bem que há em nós, não vêm justamente da nossa harmonia com o Todo? Como, então, seria possível estar dilacerado, arrancado do Todo — um fragmento estranho, separado como um pó fino que por nada se conta?

E dessa percepção — que é, na verdade, uma percepção divina — nasce a teshuvá, na vida do indivíduo e na vida da coletividade.

Voltar é descobrir que nunca se esteve, de fato, separado do Todo.

Aqui o Rav Kook eleva a teshuvá acima da culpa. No seu nível mais alto, voltar não é só lamentar erros: é reconhecer que a pessoa pertence ao todo do bem, e que o pecado foi uma espécie de ilusão de separação. A retidão é a nossa sintonia com a realidade; o mal, um desafinar-se dela. Por isso a teshuvá mais profunda é menos um castigo e mais um regresso a casa — o reencontro da alma com aquilo de que ela nunca esteve, em verdade, apartada.

Os Dois Retornos: a teshuvá do pecado e a da alma

Em Orot HaTeshuvah — talvez o seu livro mais amado —, o Rav Kook descreve a teshuvá (o retorno, o arrependimento) não como um peso, mas como a maior das curas. Neste capítulo, distingue dois modos de retornar: um voltado a uma falta concreta, e outro a um mal-estar mais profundo, sem nome. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A teshuvá de um pecado específico

Há uma teshuvá voltada contra um pecado específico, ou contra muitos pecados. O homem põe o seu pecado diante de si, arrepende-se dele e aflige-se por ter caído no laço da culpa. E a sua alma trepa e sobe, até libertar-se da escravidão do pecado e sentir em si a liberdade santa, tão doce à alma fatigada; e vai-se curando. Os raios do sol da bondade suprema enviam-lhe os seus feixes, e ele se enche de prazer e de viço interior — junto com um coração quebrantado e uma alma contrita; pois até esse mesmo sentimento de contrição, próprio do seu estado, lhe acrescenta um prazer espiritual íntimo e uma verdadeira plenitude. Vai sentindo que se aproxima da fonte da vida, do D'us vivo que, não há muito, lhe parecia tão distante. E, recordando com júbilo a sua miséria interior, enche-se de gratidão e ergue a voz em louvor: “Bendize, ó minha alma, ao Eterno, e não te esqueças de nenhum dos Seus benefícios: Ele perdoa todas as tuas iniquidades, sara todas as tuas enfermidades, resgata da cova a tua vida, coroa-te de bondade e misericórdia” (Tehilim 103:1-4).

Ah, quão oprimida estava a alma, enquanto o peso do pecado — a sua escuridão e o seu fardo terrível — pesava sobre ela! Quão abatida estava, ainda que riqueza e honra exteriores lhe tivessem tocado em sorte! De que serve toda a riqueza, se o âmago da vida está mirrado e seco? E quão feliz ela está agora, ao sentir que a sua culpa foi perdoada, que a proximidade de D'us vive e brilha dentro dela, que o seu fardo se aliviou, que ela já está inteira — cheia de descanso e de paz serena:

שׁוּבִי נַפְשִׁי לִמְנוּחָיְכִי כִּי ה' גָּמַל עָלָיְכִי "Volta, ó minha alma, ao teu repouso, pois o Eterno te fez bem." Tehilim 116:7

Repare na tonalidade: para o Rav Kook (como para o Rambam, em Hilchot Teshuvá), a teshuvá não é, no fundo, sofrimento, mas libertação — sair da "escravidão do pecado" para uma "liberdade santa". E há uma fineza psicológica: até o coração quebrantado traz consigo um prazer interior, porque é o primeiro sinal de que a alma já está voltando para casa.

A teshuvá geral da alma

E há ainda um sentimento de teshuvá geral, indefinido. Nenhum pecado do passado lhe vem ao coração; mas, em geral, ele sente que está profundamente abatido, que está cheio de culpa, que a luz de D'us não brilha sobre ele. Não há nele um espírito generoso; o coração está fechado; as suas qualidades e a sua índole não seguem o caminho reto, digno de encher de vida nobre uma alma pura. O seu entendimento está grosseiro; os seus sentimentos, turvados de escuridão e de uma sede que lhe desperta repugnância espiritual. Envergonha-se de si mesmo; sabe que não há D'us dentro de si. E esta é, para ele, a maior aflição e o pecado mais terrível; amargura-se consigo, e não encontra saída do laço em que caiu — um laço sem conteúdo específico, no qual ele todo está como que preso num cepo.

Esta segunda teshuvá fala diretamente à nossa época. Não é a culpa por um ato isolado, mas um vazio difuso — a sensação de estar distante, de que "a luz não brilha", de que falta algo essencial, sem se saber bem o quê. O Rav Kook não a trata como doença a suprimir, mas como o próprio começo da cura: esse desconforto é a alma a sentir a falta de D'us — e, portanto, já a buscá-Lo.

A cura que renova o mundo

E dessa amargura da alma vem a teshuvá, como o bálsamo de um médico mestre. O sentimento da teshuvá, e a profundeza do seu saber — o seu grande apoio no fundo da alma, no segredo da natureza e em todas as câmaras da Torá, da fé e da tradição —, flui com toda a força para dentro dele. Uma confiança forte na cura, na renovação universal que a teshuvá estende a todos os que a ela se apegam, faz passar sobre ele um espírito de graça e de súplica:

כְּאִישׁ אֲשֶׁר אִמּוֹ תְּנַחֲמֶנּוּ כֵּן אָנֹכִי אֲנַחֶמְכֶם "Como um homem a quem a sua mãe consola, assim Eu vos consolarei." Yeshayahu 66:13

E sente, a cada dia que passa, crescer em si a adesão a essa teshuvá suprema e universal; o seu sentimento torna-se mais seguro, mais claro, mais iluminado pela luz do intelecto e mais bem fundado nos princípios da Torá. E eis que ele vai-se iluminando: a face da ira passou; vem e raia uma luz de boa vontade; ele enche-se de vigor, os olhos enchem-se de fogo sagrado, o coração mergulha em ribeiros de delícias, santidade e pureza pairam sobre ele, um amor sem fim enche todo o seu espírito, e a sua alma tem sede de D'us — saciando-se dessa própria sede como de leite e fartura. E recebe a boa nova de que todos os seus pecados — os conhecidos e os desconhecidos — foram apagados; que foi criado de novo, uma criatura nova; que o mundo inteiro se renovou com ele, e tudo entoa um cântico.

Foi criado de novo, uma criatura nova — e o mundo inteiro se renovou com ele.
גְּדוֹלָה תְּשׁוּבָה שֶׁמְּבִיאָה רְפוּאָה לָעוֹלָם, וַאֲפִלּוּ יָחִיד שֶׁעָשָׂה תְּשׁוּבָה מוֹחֲלִין לוֹ וּלְכָל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ "Grande é a teshuvá, que traz cura ao mundo; e mesmo um indivíduo que faz teshuvá — perdoa-se a ele e ao mundo inteiro." Talmud, Yomá 86a

Eis a esperança que o Rav Kook deixa: o retorno de uma única pessoa não a salva apenas a ela — acrescenta cura ao mundo todo. Ninguém está tão longe que não possa voltar; e nenhum retorno é pequeno demais para importar ao universo inteiro.

Torá Lishmá: o estudo por amor

Há um ideal antigo no judaísmo: estudar a Torá lishmá, "por si mesma" — não para ser chamado de sábio, não por recompensa, mas pela própria coisa. Em Orot HaTorah, o Rav Kook dá a esse ideal uma profundidade nova e surpreendente: quem estuda por amor participa de um ato cósmico, trazendo a luz da sabedoria à existência. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Estudar pelo amor da luz

תּוֹרָה לִשְׁמָהּ — לְשֵׁם הַתּוֹרָה "Torá lishmá — pelo amor à própria Torá." Orot HaTorah, cap. 2

Torá lishmá [significa estudar a Torá] "em seu nome" — por amor à própria Torá. Pois a existência da sabedoria é a vontade de D'us, bendito seja, de que ela exista em ato; e ela é uma existência mais preciosa e elevada do que tudo o que se possa imaginar — a falta está apenas do nosso lado, pois, imersos no corpo, não reconhecemos toda a grandeza e a sublimidade da sua existência.

E a sabedoria da Torá é a revelação divina, conforme a vontade de D'us, que vem por meio do nosso serviço e do nosso estudo. Eis, então, que todo o que estuda a Torá traz, da potência ao ato, a existência da sua sabedoria a partir da própria alma — e, com certeza, a luz que se renova pela união da Torá com esta alma não é igual à que nasce da sua união com outra alma. Sendo assim, ele engrandece a Torá, realmente, com o seu estudo. E, já que o Santo, bendito seja, deseja que a Torá se engrandeça, o caminho reto é que o homem estude movido pelo amor àquela grande luz que D'us quer revelar — para que ela cresça cada vez mais; e, mais ainda, [estude para] inovar na Torá, o que é, sem dúvida, um engrandecimento duplo da sua luz.

Eis a virada do Rav Kook: o estudo não é apenas receber — é criar. Cada mente que entende uma ideia da Torá traz à existência uma luz que nenhuma outra mente traria exatamente igual. Por isso o motivo importa: estudar "por amor à luz" (e não por vaidade ou recompensa) é o que torna o estudo um ato generoso, que acrescenta luz ao mundo. É a mesma intuição do racionalismo da Torá — o conhecimento como o mais alto dos bens (cf. o Rambam) —, levada ao seu ápice.

A luz oculta em cada detalhe

Nos assuntos espirituais, isso se dá no seu sentido simples, pois neles a proximidade de D'us e a sublimidade da santidade são manifestas, e por elas o homem se eleva. Mas, nos assuntos práticos — as leis —, é preciso entender que todos eles são ramos e vestes da luz da retidão e da justiça divina; e que, dentro de todos os detalhes juntos, está a alma divina do aperfeiçoamento do mundo — na vida, na matéria e no espírito, na sociedade e no indivíduo. Assim, a luz penetra e desce também em cada detalhe.

E quando o sentimento do coração e o intelecto interior se entregam à iluminação divina geral, oculta em toda a multidão dos estudos práticos, gera-se uma revelação interior em cada detalhe, que vem à luz conforme o talento de cada um. É isto:

כָּל הָעוֹסֵק בַּתּוֹרָה לִשְׁמָהּ זוֹכֶה לִדְבָרִים הַרְבֵּה "Todo o que se ocupa da Torá por si mesma merece muitas coisas." Avot 6:1

— e, sobre a iluminação geral, foi acrescentado: "e não só isso, mas o mundo inteiro vale a pena por causa dele".

O encontro de duas luzes

Quando alguém se ocupa da Torá, mesmo em coisas simples, verá como a luz suprema desce de modo admirável, a ponto de assentar-se tão belamente no mundo da ação. E alargará o seu coração pela grande preciosidade e pela força desta vida, que jorram da fonte mais sagrada. E saberá com clareza que esta luz — tão contraída em palavras e letras, em costumes, atos, leis, debates e raciocínios — encontra a luz suprema, elevada acima de tudo isso, e nela se banha; e ambas se deleitam juntas, e a luz da Vida dos mundos enche-se de esplendor e de grande prazer com esse encontro contínuo.

A luz contraída numa lei encontra a luz suprema — e as duas se deleitam juntas.

Esse encontro, diz o Rav Kook, é o que "faz a paz na corte de cima e na corte de baixo" — pois reconcilia o céu e a terra, o ideal e o detalhe, mostrando que a coisa mais elevada e a mais miúda são, no fundo, a mesma luz.

Estudar é dar vida ao povo

Um dos caminhos do estudo lishmá é enriquecer a comunidade de Israel com grandes forças espirituais. Quanto mais cresce a luz da Torá — e, com ela, o seu amor e a sua honra — no coração de uma pessoa, mais a força fundamental do povo se fortalece; e a própria alma daquele que opera essa bênção comum também se engrandece e se enobrece, lançando "ramos viçosos" e "raízes poderosas", enraizando-se na verdadeira árvore da vida.

Pois, quando se estuda a Torá lishmá, faz-se bondade (chesed) com a comunidade inteira: o espírito do povo se fortalece pelo alimento espiritual que os seus filhos haurem do fruto do próprio espírito; e cada um que estuda revela uma força de vida nova na alma do povo. E quanto mais o estudo é iluminado por entendimento amplo e bom juízo, e quanto mais a ele se somam generosidade de coração e pureza de alma, mais essa força de vida se revela, dando ao povo ânimo e alegria para erguer-se. E todas as fraquezas que sobrevêm ao espírito do povo têm a sua origem no esquecimento da Torá e no afrouxar das mãos diante dela.

Há aqui uma ideia generosa: estudar não é um ganho apenas privado. Quem aprende e cresce enriquece a comunidade inteira — o conhecimento de um torna-se vida para muitos. O estudo, assim, é também uma forma de serviço e de bondade: ao elevar-se, a pessoa eleva o todo a que pertence.

A preparação do coração

Por fim, o Rav Kook adverte: o verdadeiro estudo lishmá não pode vir senão por meio de uma preparação — a compreensão, e o sentimento que a acompanha, de como cada detalhe da Torá é amado com um amor sagrado, e de como a luz geral, cheia de vida e que traz vida ao mundo, se difunde por todos os detalhes.

Não basta, portanto, a inteligência: é preciso também o amor. O estudo mais alto é aquele em que a mente que compreende e o coração que ama trabalham juntos — e então o estudante já não busca nada para si, porque o próprio estudo, feito por amor, já é a luz.

O Bem sobre Alicerces Verdadeiros

Esta passagem breve encerra uma das intuições mais finas do Rav Kook — e uma das mais úteis para a vida. Ele observa que muitas coisas boas, no mundo como ele é, não se sustentam por motivos bons: a modéstia pode apoiar-se no medo, a fé na ignorância, a honestidade na falta de oportunidade. E pergunta: o que acontece quando esses apoios caem? A resposta é surpreendente e libertadora. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Quando o bem se apoia no que é feio

יֵשׁ דְּבָרִים טוֹבִים וּקְדוֹשִׁים, שֶׁהַסִּבּוֹת הַמַּחֲזִיקוֹת אוֹתָם בָּעוֹלָם הֵן כְּעוּרוֹת "Há coisas boas e santas cujas causas que as sustentam no mundo são feias." Orot — Luzes do Renascimento, 52

Há coisas boas e santas cujas causas que as sustentam no mundo são feias — como a fraqueza, a mentira, a maldade —, e que às vezes escoram o fundamento de bens como a vergonha [sadia], o pudor, a fé e outros semelhantes. Mas, assim como o "favor" dos ímpios é, aos olhos dos justos, um mal, assim também o bem que o que é bom e santo recebe do que é mau e impuro acaba gerando muitos males. [Um bem sustentado por uma base corrompida traz, consigo, a corrupção da sua base.]

O exemplo torna a ideia concreta: se alguém é honesto apenas por medo de ser pego, ou modesto apenas por timidez, ou fiel apenas por não ter conhecido a dúvida — o bem está ali, mas escorado em algo frágil e indigno. No dia em que o medo, a timidez ou a ignorância caírem, esse "bem" desaba junto. Um bem que depende de um mal não está, ainda, verdadeiramente seguro.

A queda que é, na verdade, subida

Por isso — diz o Rav Kook — a luz da redenção só se realiza quando se desfazem todos os fundamentos maus, inclusive aqueles que [agora] sustentam o bem e o santo. E, embora com isso o bem, o santo e a fé sofram, e pareçam declinar e empobrecer, esse declínio e essa descida são, na verdade, uma subida e um fortalecimento:

דִּלְדּוּל זֶה וִירִידָה זוֹ עֲלִיָּה וְהִתְעוֹדְדוּת הֵם בֶּאֱמֶת "Este empobrecimento e esta descida são, na verdade, uma ascensão e um revigoramento." Orot — Luzes do Renascimento, 52

Pois, depois de apodrecerem aqueles fundamentos maus, logo começará a brotar a luz do esplendor e da santidade sobre alicerces verdadeiros — de conhecimento, sabedoria, força, beleza, perenidade e majestade. E assim se fundará o reino eterno para a luz de D'us e para o Seu bem, no fim dos dias, "nas fiéis mercês de David", que são uma aliança eterna que jamais falhará. E o texto fecha com ternura:

בְּאַהֲבָתוֹ וּבְחֶמְלָתוֹ הוּא גְאָלָם וַיְנַטְּלֵם וַיְנַשְּׂאֵם כָּל יְמֵי עוֹלָם "No Seu amor e na Sua compaixão Ele os redimiu, e os tomou, e os carregou todos os dias da antiguidade." Yeshayahu 63:9
Um bem que depende de um mal ainda não está seguro. A verdade é o único alicerce firme.

A lição vale para a alma de cada um. Não basta fazer o bem — importa por que o fazemos. A virtude que repousa sobre o medo, a vaidade ou a ignorância é uma casa construída sobre a areia; quando o vento muda, ela cai. A tarefa do amadurecimento é dolorosa, mas redentora: deixar ruir os falsos motivos e reerguer o mesmo bem sobre o único alicerce que não cede — a verdade. É a mesma exigência de Saadia Gaon, que pedia que a fé recebida por hábito se tornasse fé fundada na compreensão: o bem, como a fé, só está seguro quando descansa sobre o que é verdadeiro.

O Sagrado Oculto no Mundano

Eis um dos paradoxos prediletos do Rav Kook: a grandeza maior costuma esconder-se onde menos se espera. Em poucas linhas, ele une duas ideias — a alma humana, mais alta que os anjos, e o sagrado escondido dentro do mundano — para ensinar que descer não é, necessariamente, cair: às vezes, é o caminho para uma subida ainda maior. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A alma, mais alta que os anjos

כְּשֵׁם שֶׁנִּשְׁמַת הָאָדָם הִיא יוֹתֵר עֶלְיוֹנָה וְיוֹתֵר פְּנִימִית מֵהַמַּלְאָכִים "Assim como a alma do homem é mais elevada e mais íntima do que os anjos..." Orot — Luzes do Renascimento, 46

Assim como a alma do homem é mais elevada e mais íntima do que os anjos — e justamente por causa da sua grandeza desceu até o degrau mais baixo, e de lá tornará a subir com um ganho grande e poderoso, preparando consigo o mundo inteiro para uma ascensão suprema e original —, assim também o sagrado que há no profano (ha-kodesh she-ba-chol), que desceu até a completa secularidade, é mais sublime e santo do que o sagrado que há no [próprio] sagrado; só que está muito escondido.

A afirmação de que a alma humana é mais alta que os anjos é uma das marcas da dignidade que a tradição confere ao ser humano. O anjo é puro, mas fixo; a alma humana, capaz de descer e errar, é também capaz de escolher, crescer e reerguer-se — e por isso traz consigo, na subida, um "ganho" que o anjo não tem. A queda possível é o preço da liberdade; e a liberdade é o que torna a ascensão real, e não automática.

O sagrado escondido no comum

E não há limite nem fim para os reparos do mundo que virão de todo o bem que chega ao mundo pela via do profano [da vida comum] — bem que revelará a sua glória e o seu esplendor no tempo venturoso, do qual se disse: "não haverá luz preciosa, mas frio e geada [...]; e ao tempo da tarde haverá luz" (Zechariá 14:6-7).

וְהָיָה לְעֵת עֶרֶב יִהְיֶה אוֹר "E ao tempo da tarde haverá luz." Zechariá 14:7

Antes da luz do Mashiach — que se revele depressa, em nossos dias —, despertará a força do sagrado que há no profano; e, no seu primeiro despertar, ela despertará [primeiro] o próprio profano, e todos falarão "na língua dos homens, e não na língua do Santo" (Zohar) — isto é, a renovação começará a exprimir-se em termos comuns, humanos, antes de revelar a sua raiz sagrada. E sobre isto se disse: "também a minha língua, todo o dia, meditará a Tua justiça" (Tehilim 71:24).

Descer não é, necessariamente, cair: às vezes é o caminho de uma subida maior.

A lição, para a vida de cada um, é luminosa: não se deve desprezar o que parece "comum" — o trabalho, o corpo, a vida prática, a linguagem cotidiana. É justamente aí, no mundano, que dorme um sagrado profundo, à espera de quem saiba despertá-lo. O caminho de volta para o alto passa por dentro do mundo, não por fora dele.

A Santidade do Corpo

É um trecho breve, mas dos mais célebres e ousados de Orot. Numa época em que a religiosidade tendia a desprezar o corpo, o Rav Kook faz o contrário: declara que o corpo é santo, que a saúde e a força física são uma exigência espiritual, e que um povo que renasce precisa renascer também na carne. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Temos carne santa

שָׁכַחְנוּ שֶׁיֵּשׁ לָנוּ בָּשָׂר קֹדֶשׁ, לֹא פָחוֹת מִמַּה שֶּׁיֵּשׁ לָנוּ רוּחַ הַקֹּדֶשׁ "Esquecemo-nos de que temos carne santa — não menos do que temos espírito santo." Orot — Luzes do Renascimento, 33

Grande é a nossa exigência corporal: precisamos de um corpo são. Ocupamo-nos muito com o que é da alma, e esquecemos a santidade do corpo; abandonamos a saúde e o vigor físico; esquecemos que temos carne santa, não menos do que temos espírito santo. Deixamos a vida prática, e o apuro dos sentidos, e o vínculo com a realidade física concreta — por um temor decaído, por falta de fé na santidade da terra.

Os Sábios já liam, na própria palavra "fé", esse elo com o trabalho da terra: "‘fé’ — esta é a ordem [das leis sobre] as sementes (Zera‘im): pois [o lavrador] crê na Vida dos mundos, e semeia" (Shabat 31a). Plantar é um ato de fé; cuidar do corpo e da terra não afasta de D'us — aproxima.

Isto não é materialismo, mas integração. A tradição racionalista nunca desprezou o corpo: o Rambam ensina (Hilchot Deot 4) que "manter o corpo são e íntegro está entre os caminhos de D'us, pois é impossível compreender ou conhecer [o Criador] estando doente". O corpo é o instrumento da alma; cuidá-lo é parte do serviço divino. O Rav Kook leva essa ideia ao seu auge: a carne, bem cuidada, é santa.

A teshuvá também é física

Por isso, toda a nossa teshuvá (o retorno, a renovação) só se cumprirá se for, com todo o esplendor da sua espiritualidade, também uma teshuvá física: que gere sangue são, carne sã, corpos firmes e bem formados; um espírito ardente a brilhar sobre músculos fortes. E, pela força da carne santificada, voltará a brilhar a alma que se havia enfraquecido.

Pela força da carne santificada, volta a brilhar a alma que se enfraquecera.

O Rav Kook chama a isso "uma lembrança da ressurreição corporal dos mortos" — pois recuperar a dignidade e o vigor do corpo, na vida deste mundo, é já um sinal, uma antecipação, da reunião plena de corpo e alma que a tradição promete. Cuidar do corpo, então, não é fuga do sagrado: é prepará-lo para ser, ele também, morada da luz.

As Três Forças: o sagrado, a nação e a humanidade

Esta é uma das passagens mais famosas e mais necessárias do Rav Kook. Diante das correntes que disputavam (e disputam) a alma do povo, ele recusa tomar partido de uma contra as outras. Identifica três grandes forças — o sagrado, a nação e a humanidade — e ensina que cada uma só se torna saudável quando se une às demais, deixando que elas a corrijam dos seus próprios excessos. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Três forças que precisam se unir

שְׁלֹשָׁה כֹּחוֹת מִתְאַבְּקִים כָּעֵת בְּמַחֲנֵינוּ "Três forças lutam, neste momento, dentro do nosso acampamento." Orot — Luzes do Renascimento, 18

Três forças lutam, neste momento, dentro do nosso acampamento; a guerra entre elas é mais perceptível na terra de Israel, mas a sua ação é uma ação que flui da vida da nação em geral, e as suas raízes estão fixadas na consciência que penetra por toda a amplidão do espírito humano. Seremos desventurados se a estas três forças — que têm de unir-se em nós, cada uma ajudando e aperfeiçoando a outra, cada uma contendo o extremismo que a outra poderia trazer de forma corrompida, caso o seu caminho não fosse delimitado — as deixarmos dispersas, em rebelião umas contra as outras, dividindo-se cada uma num acampamento próprio que se ergue como inimigo do outro.

הַקֹּדֶשׁ, הָאֻמָּה, הָאֱנוֹשִׁיּוּת "O Sagrado, a Nação, a Humanidade." Orot — Luzes do Renascimento, 18

O sagrado, a nação, a humanidade — estas são as três exigências essenciais de que toda a vida (a nossa e a de cada ser humano), sob qualquer forma, é composta. Quaisquer que sejam as proporções dessa composição — ocupando uma das partes um lugar mais ou menos central, neste indivíduo ou naquela coletividade —, não se encontra, nem se poderia encontrar, qualquer forma estável de vida humana que não seja composta das três. A fusão necessária dessas três grandes exigências tem de vir a toda coletividade que tenha esperança de uma vida futura. E quando olhamos para a nossa vida e vemos que essas forças, apesar do seu destino de fusão, vão-se separando, somos chamados a vir em socorro.

A raiz da divisão: enxergar só o lado negativo

A raiz da separação está nos lados negativos que cada força vê na outra. Mas esses lados negativos, em si mesmos, não merecem de fato esse nome: pois em toda força isolada, em cada singularidade da alma, é inevitável que haja lados negativos — sobretudo na sua expansão excessiva, à custa das outras forças. E nisto não há diferença entre o sagrado e o profano: tudo entra sob a linha da medida, e tudo precisa de peso — "até o espírito de santidade que repousa sobre os profetas só repousa por medida".

Mas a separação, onde é preciso unir, leva a isto: pouco a pouco o espírito se esvazia; a consciência positiva, na posição de cada força isolada, vai-se reduzindo, por causa do mirrar que cresce naquela força solitária — mantida à força contra a natureza do espírito, que é unir-se aos demais elementos que a completam. E em seu lugar vem apenas uma consciência negativa a sustentar a vida: cada possuidor de uma força fica cheio só de uma energia ardente em relação à negação da outra força, ou das outras que não quer reconhecer. E, num modo de vida assim, o estado é terrível: o espírito se esvazia, a posição da verdade — o seu reconhecimento interior junto com o seu amor — desmorona e vai-se perdendo, por se fazer [o povo] em "bandos e bandos" [facções].

As três correntes do nosso tempo

As três correntes mais marcantes na vida da nossa nação são:

É claro que, num estado saudável, há necessidade das três forças, juntas; e devemos sempre aspirar a esse estado saudável, em que as três nos governem em toda a sua plenitude e bondade, numa harmonia bem ordenada, sem falta nem excesso — pois o sagrado, a nação e o homem hão de unir-se num amor nobre e prático. E juntos se congregarão os indivíduos e também as correntes — cada qual encontrando os seus talentos mais aptos a uma das três partes — na devida amizade, reconhecendo com bons olhos, cada um, o papel positivo do outro.

Reconhecer o bem do outro — até no que te contraria

Então esse reconhecimento irá amadurecendo: não bastará que cada um reconheça o lado positivo que há em cada força como algo digno e útil — tanto para o bem geral da mescla do espírito quanto para o bem particular da própria corrente a que pertence. Irá mais longe: chegará a reconhecer como bom até o conteúdo positivo que há no lado negativo de cada força, na medida certa; e saberá que, para o bem da força a que mais se inclina, precisa ser influenciado, em alguma medida, também pelo lado que a nega — porque, ao negá-la, [a outra força] a põe na sua medida justa e a salva do defeito perigoso do acréscimo e do exagero.

Eis a ideia mais ousada do texto: você precisa não só tolerar quem o contraria, mas aprender com ele. A crítica do outro, na medida certa, é o que impede a sua própria causa de se deformar pelo excesso. Quem ama uma verdade deve agradecer a quem a equilibra — pois é assim que ela se preserva inteira.

Esta é a tarefa comparável a um dos serviços mais difíceis do Templo — a kemitzá (tomar a porção exata na mão): "que não falte e que não sobre". E assim, quando olharmos com bom senso para as fermentações que tanto nos fazem sofrer na nossa geração, saberemos que só há um caminho diante de nós: que cada um — indivíduo ou coletividade — tome a peito esta lição moral. Junto com a defesa que cada um é chamado a dar à força particular a que está ligado, por natureza da alma, por hábito e educação, saiba também servir-se das forças que encontram o seu refúgio em outras pessoas e em outras correntes, para completar a si mesmo e à sua corrente — tanto no lado positivo das outras forças quanto na parte boa dos seus lados negativos, que de fato fortalecem a sua própria força, guardando-a da corrupção do exagero, que causa enfraquecimento e perda de forma. Deste modo poderemos esperar alcançar um estado de vida digno de "uma nação una na terra".

O sagrado, livre de todos os limites

Entenda-se: o fato de termos posto o sagrado na fileira das três forças — cada qual devendo, às vezes, limitar-se para dar lugar à outra — só se aplica ao lado técnico e prático do sagrado, e aos aspectos de pensamento e sentimento ligados a isso. Pois a essência do Sagrado supremo é o sujeito universal de tudo; e essa própria limitação [voluntária] faz parte do seu serviço, como todos os serviços que vêm aperfeiçoar o mundo e a vida em todos os sentidos — pois todos eles trazem do sagrado a sua bênção.

Por isso, o pensamento ideal e elevado, o pensamento divino, é em si verdadeiramente livre de todas as limitações; e a proximidade divina está sempre cheia de uma expansão suprema, acima de todos os limites — "a toda perfeição vi um fim; [mas] o Teu mandamento é amplíssimo" (Tehilim 119:96). E, quando o homem e a nação caminharem pelas veredas da justiça, prática e intelectual, medidas nos seus limites, anunciar-se-á a paz para subir também à ampla emanação:

מִן הַמֵּצַר קָרָאתִי יָּהּ עָנָנִי בַמֶּרְחָב יָהּ "Da estreiteza chamei a D'us; Ele me respondeu com a amplidão de D'us." Tehilim 118:5

Conhecer D'us como o Bem Absoluto

Este é o capítulo que abre Orot HaTechiyá (as "Luzes do Renascimento"), e ele começa não pela política nem pela história, mas pelo mais fundo: como conhecer D'us. O Rav Kook descreve a forma mais elevada desse conhecimento — ver D'us como a alma que vivifica o mundo, e como o Bem absoluto que é bom para tudo — e mostra que esse conhecimento, quando verdadeiro, gera amor antes de temor. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

D'us e o mundo: como a alma e o corpo

הַבִּינָה הַיּוֹתֵר שְׁלֵמָה וּמְתוּקָה שֶׁל דַּעַת הָאֱלֹהוּת הִיא הַכָּרַת הַיַּחַשׂ הָאֱלֹהִי אֶל הָעוֹלָם "A compreensão mais perfeita e doce do conhecimento da Divindade é o reconhecimento da relação divina com o mundo." Orot — Luzes do Renascimento, 1

A compreensão mais perfeita e mais doce do conhecimento da Divindade é o reconhecimento da relação de D'us com o mundo em geral e com cada um dos seus detalhes — os materiais e os espirituais — à semelhança da relação da alma (neshamá), o lado espiritual que vivifica e enche de luz, de existência e de florescimento, com o corpo, com aquilo de que a vida precisa para a sua luz e o seu florescer.

Amor, mais do que medo

הוּא מְמַלֵּא אוֹתָם אַהֲבָה יוֹתֵר מִיִּרְאָה "[Esse reconhecimento] enche [o coração e a alma] de amor mais do que de temor." Orot — Luzes do Renascimento, 1

Quando essa relação se enche no coração e na alma, ela os enche de amor mais do que de temor, e de uma doçura de pensamento e de serenidade mais do que de amargura e sobressalto. E o reconhecimento culto da ilustração mais bem aperfeiçoada vai justamente refinar, cada vez mais, esse doce reconhecimento.

Na vida do indivíduo, é fácil chegar a essa medida: pela melhoria da moral prática e intelectual, e pela elevação da luz do conhecimento em geral. Quando o caráter humano se relaciona com simpatia ao sublime, ao Bem absoluto — no intelecto e na vida —, de imediato esse reconhecimento anímico da Divindade se prende nele com beleza, é absorvido em todos os seus pensamentos e se funde com todos os seus sentidos e sentimentos, para enobrecê-los.

Também o organismo coletivo — a nação, que tem uma psicologia própria — se também ele, no fundo do seu fundo, se inclinar a uma simpatia moral superior, e o amor ao bem nobre estiver gravado na sua própria natureza (por sua escolha, ou ao menos por herança dos seus pais), então esse reconhecimento anímico se difundirá também no seio da nação; e a doçura do amor divino, com um temor reverente doce e sadio, repousará sobre todo o povo e endireitará todos os seus caminhos.

O D'us verdadeiro e o "deus estranho"

Mas, na medida em que a alma de uma coletividade estiver distante do amor interior ao Bem absoluto, a relação anímica não conseguirá penetrá-la na sua ligação com o divino; e a sua conexão com D'us tornar-se-á uma conexão estrangeira — D'us será para ela um "deus estranho e alheio". E a esse deus estranho ela atribuirá traços distorcidos e caricatos, que deturpam a vida muito mais do que conseguem endireitá-la.

Por ora, a cultura humana ainda não alcançou essa medida — a de plantar, na profundeza da alma das coletividades, uma simpatia divina pelo Bem absoluto —, e por isso ainda vemos nelas sinais de maldade e de tirania, e a substância da moral indo-se diluindo e sendo abandonada pelo coração comum dos povos.

Note bem o que é o "deus estranho" (el zar): não é o D'us de outro povo, mas uma concepção distorcida do divino — um "deus" de domínio duro e força bruta, despido do amor e da reverência delicada. É o mesmo combate de toda a tradição racionalista: corrigir a ideia de D'us. Quando se imagina um D'us tirânico, "ele" deforma a vida; quando se conhece o D'us que é o Bem absoluto, a vida se endireita. O erro não está em crer, mas em crer mal.

O Bem que alcança tudo

Mas há, para a humanidade, uma "herança que sobreviveu" na Assembleia de Israel (Knesset Israel), em cujo círculo interior se encontra essa simpatia divina. O sentimento testemunha, e o entendimento esclarece, que o D'us eterno — o Único e singular — é o Bem completo, a vida, a luz, o Todo; exaltado acima de tudo e acima de toda exaltação; melhor do que todo bem; bom para todos, e a Sua misericórdia sobre todas as Suas obras; que dá vida a tudo e a tudo guarda, e faz brotar salvação para todos. E essa simpatia universal penetra nesta nação não apenas nos seus indivíduos, mas justamente na sua coletividade.

טוֹב ה' לַכֹּל וְרַחֲמָיו עַל כָּל מַעֲשָׂיו "Bom é o Eterno para todos, e a Sua misericórdia está sobre todas as Suas obras." Tehilim 145:9

E se aconteceu de a nação esquecer a sua alma, a fonte da sua vida, a profecia lhe foi dada para a recordar, e os exílios foram preparados para endireitar as suas tortuosidades — até que, no fim de tudo, a simpatia do Bem absoluto vença dentro dela.

Bom para todos, e a Sua misericórdia sobre todas as Suas obras.

O despertar para o renascimento

Essa sede viva e palpável — que enche com a sua luz e com a força do seu ser a vida prática, social e nacional, assim como enche nelas as forças do pensamento e da visão — vai abrindo o seu caminho, e chama a nação, quando chega o seu tempo, a animar-se, a erguer-se, a sacudir o pó da baixeza, a romper as cadeias do exílio e a buscar um novo florescimento na terra em que começou a cultura anímica divina — pela nação e por todo o mundo.

E essa demanda divina não se revela em toda a sua luz logo no começo. Pelo contrário: revela-se primeiro de modo negativo, expulsando os sentimentos divinos estranhos — os que não enchem a alma com uma relação de amor, mas com um senhorio duro e uma força brutal, vindos dos "nomes dos ídolos", desprovidos da luz delicada do temor reverente e do amor puro e santo de aceitar o reino dos Céus, impresso em Israel, "semente de Avraham, que Me amou" (Yeshayahu 41:8). E, conforme cresce a negação dessas falsas imagens, vai vindo a força da afirmação, de um grande acampamento como o acampamento de D'us — das cabeças do povo dotadas de alma elevada; e o sentimento anímico, divino e nacional, floresce e se liga a todas as luzes ocultas na história concreta, que brilham na terra da herança: terra preciosa, terra santa, terra de beleza e terra de vida. "O nosso Redentor — o Eterno dos Exércitos é o Seu nome, o Santo de Israel" (Yeshayahu 47:4).

A Tolerância e os Guardiões do Espírito

Este capítulo de Orot HaTechiyá (as "Luzes do Renascimento") enfrenta um medo antigo e muito atual: o de que, ao mergulhar na vida prática — no trabalho, na economia, na política, na construção de uma sociedade —, um povo perca a sua alma. O Rav Kook responde com uma tese luminosa: o espírito não precisa fugir do mundo material; quando ele está bem ancorado, liberta o povo para viver plenamente, e é então que florescem a tolerância, a bondade e a humildade. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A tolerância precisa de uma raiz profunda

הַסַּבְלָנוּת... מִדַּת הַחֶסֶד וְהָעֲנָוָה, הַמַּמְתֶּקֶת אֶת כָּל הַדִּינִים וּבוֹנָה אֶת הָעוֹלָם "A tolerância... a qualidade da bondade e da humildade, que adoça todos os juízos e constrói o mundo." Orot — Luzes do Renascimento, 4

A tolerância (savlanut), tão necessária a um agrupamento humano orgânico — a qualidade da bondade (chesed) e da humildade (anavá), que adoça todos os rigores e constrói o mundo no seu aperfeiçoamento —, precisa, para ser cultivada, de uma raiz mais funda: a grande devoção (chassidut), que brota de um entendimento divino superior e intenso.

Justamente porque há, no seio da nação, devotos altíssimos — pessoas cuja existência inteira é preenchida pelo entendimento e pela vida divinos —, a nação se sente segura da sua força espiritual, guardada nesses seus indivíduos. E, apoiada nisso, ela pode olhar com olho aberto e coração firme para todas as suas necessidades práticas, sem nenhum tremor interior de que venha a secar a seiva e a arruinar-se a fonte da sua espiritualidade — aquela que lhe dá a força da alma e constitui os seus ideais, que a fazem um povo e uma entidade singular.

O medo de secar a alma

Especialmente no nosso povo — cuja alma tem por base uma idealidade espiritual que está muito, muito acima de todo o mundo presente — acontece que, a cada movimento de liberdade material e de entrega ao trabalho em assuntos concretos, práticos e sociais, logo lhe entra um tremor: e se a azáfama prática diminuir a minha fonte?

כָּל מַה שֶּׁיּוֹסִיף הַיִּשּׁוּב תִּקּוּן, יוֹסִיף הַשֵּׂכֶל חֻרְבָּן "Tudo o que a construção do mundo acrescenta de aperfeiçoamento, acrescenta o intelecto de destruição." — um dito que o Rav Kook cita para refutar

Por causa desse temor, o povo acaba fazendo as suas ações práticas com metade da energia — e o resultado é o pior dos dois mundos: a espiritualidade se perturba por causa do enredo material, e a materialidade se enfraquece por causa da espiritualidade que se mete, a contragosto, dentro dela. O medo de manchar a alma paralisa tanto a alma quanto as mãos.

Aqui está o cerne do texto: a vida material e a vida espiritual não são inimigas. O erro é tratá-las como rivais — entregar-se ao mundo "pela metade", com medo. O Rav Kook recusa tanto a fuga do mundo quanto a perda da alma: ele quer as duas coisas inteiras, e mostra como isso é possível.

Os que guardam o tesouro

A solução não é todos temerem o mundo, mas alguns guardarem o espírito. Por isso a nação precisa erguer grandes devotos, distinguidos pela grandeza do entendimento, que fortalecem dentro de si o estado espiritual de todo o povo. Esses elevados sabem que o tesouro do espírito da nação está guardado neles; por isso não se inquietam, em nada, com a aparente escassez da fonte espiritual durante a azáfama dos trabalhos práticos.

A espiritualidade positiva já se difunde pela nação por si mesma, pela sua índole interior, pela luz desses poucos — que são "enviados do público" (shluchei tzibur) e carregam no coração o tesouro vivo de todo o povo. A nação reconhece neles o lugar honrado dos seus bens mais preciosos, e por isso os honra com um temor de reverência. Então a tolerância se desenvolve e a vida prática floresce. E até as poucas palavras que às vezes saem da boca dos santos dão mais alimento do que uma multidão de sermões e de livros longos e medíocres.

Quando o espírito está seguro nos seus guardiões, o povo pode abraçar o mundo sem medo — e a tolerância floresce.

O sacerdócio como o que há de mais alto em nós

O Rav Kook chama esse princípio de kehuná (sacerdócio): a mediação entre o ser humano e D'us pelos mais elevados entre os homens. Mas atenção — não é uma mediação que separa; é uma aproximação genuína. Quando o indivíduo se aproxima de D'us, não o faz pelas suas forças inferiores, pelas suas inclinações baixas, mas pelo que há de mais alto em si — e esse lado superior puxa todo o resto para a luz clara e divina.

Assim também a coletividade — nacional e humana — não consegue aproximar-se de D'us na sua pequenez, nas suas forças fracas, nos seus sentimentos atordoados entre as ondas da vida dos sentidos. A luz de D'us, quando reduzida ao pequeno, empequenece; e, pelo seu reflexo, o mundo inteiro se torna menor e mais pobre. Por isso o ser humano consagra uma parte elevada de si — e a comunidade consagra os seus melhores — para que tudo se aproxime de D'us através do que há de mais alto.

É a mesma lógica do indivíduo aplicada ao povo: assim como uma pessoa se eleva pelo melhor de si, uma nação se eleva pelos seus membros mais nobres — "como os sentimentos mais elevados do ser humano se revelam pelos órgãos mais altos do corpo". Não é elitismo: é o reconhecimento de que o melhor de alguns puxa o todo para cima.

Rumo a um "reino de sacerdotes"

וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים וְגוֹי קָדוֹשׁ "E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa." Shemot 19:6

Tornar a nação inteira "sacerdotal" — toda ela sábia, consagrada e conhecedora de D'us, cada um por si mesmo, sem graus — não é possível por ora, no mundo tal como o conhecemos. Por isso devemos aspirar, agora, ao espírito divino geral que repousa sobre a totalidade da nação, e que se revela através dos seus membros mais excelentes — assim como os sentimentos mais nobres de uma pessoa se manifestam pelos seus órgãos mais elevados.

E o capítulo termina num chamado: dai força à ideia suprema, à devoção divina mais alta e radical — e, com isso, estendei a mão à tolerância e à humildade, à coragem e ao trabalho prático, social e político livre, que há de caminhar com largueza em Israel e brilhar em todos os matizes da sua vida sobre a terra que floresce e aguarda um renascimento real e uma salvação próxima.

As Duas Compreensões: a moral e a causal

Este é um dos trechos mais filosóficos de Orot. O Rav Kook distingue duas grandes maneiras de compreender a realidade — a causal (que vê o mundo como uma cadeia de leis e causas, ao modo da ciência) e a moral (que vê o mundo como uma trama de valores, do "dever-ser") — e mostra como a compreensão moral, sem anular a causal, eleva-a e lhe revela o sentido. Ao fim, aplica essa visão à história e ao renascimento de Israel. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Duas compreensões que abarcam tudo

שְׁתֵּי הֲבָנוֹת כְּלָלִיּוֹת הֵן, הַמַּקִּיפוֹת אֶת הַהֲוָיָה וְאֶת הַתּוֹרָה "Há duas compreensões gerais que abarcam a existência e a Torá." Orot — Israel e o seu Renascimento, 2

Há duas compreensões gerais que abarcam a existência e a Torá, e toda a contemplação em todas as variações dos seus caminhos: a compreensão moral e a compreensão causal. E, dentro da compreensão causal — que, para o espírito humano, vem primeiro no tempo —, está contida, como uma alma superior que a vivifica, a compreensão moral.

A compreensão causal: a cadeia das leis

A compreensão causal apresenta leis presas umas às outras por toda a amplidão do existir. Começa no mundo material e nas suas forças, e vai abrangendo, trepando e subindo até a altura dos mundos espirituais, analisando os seus ramos — conforme a grande riqueza de espírito que há no ser humano, cuja grandeza se destaca ao estar ligado à liberdade da sua imaginação, mesmo com toda a sua pequenez ao tentar afirmar algo com certeza sobre o que se passa fora do âmbito da sua interioridade.

Nessa cadeia causal repousa uma espécie de pressão geral, um impedimento, que retém as leis e o seu conteúdo para que não sigam por outros caminhos senão aqueles a que a cadeia as liga. Essa pressão é, ela mesma, um enigma oculto; e, no entanto, apesar de toda a dificuldade que a constituição do nosso intelecto encontra para penetrar nas profundezas desse enigma do mundo, isso não nos fecha o caminho de desdobrar racionalmente toda aquela grande construção da compreensão das leis.

Note que o Rav Kook não despreza a compreensão causal — a visão científica, legal, do encadeamento de causas. Ele a reconhece como verdadeira, vasta e legítima, e até admite o seu "enigma" (por que as leis são como são). O que ele fará a seguir não é negá-la, mas mostrar que há um andar acima dela.

A compreensão moral: o mundo da liberdade

Mas, quando ascendemos a um grau mais elevado de liberdade sublime, então nos libertamos de toda aquela pressão causal, e toda a construção das leis se nos figura como laços morais presos uns aos outros — cuja firmeza e força não são menos robustas, e são ainda mais bem talhadas, do que as do conteúdo da compreensão causal; e o seu valor geral é sublime e elevado acima dela, sem comparação.

Então estamos num mundo de liberdade. Quando o mundo moral se nos revela, ele eleva todo o mundo legal-causal e o atrai a si, derrama sobre ele a sua luz — e eis que tudo fica imerso num mar de luz viva: a luz dessas leis morais, muito superiores e mais sublimes do que as leis causais. E, quando aprofundamos a questão, encontramos depois também todos os pormenores do mundo causal, todos eles erguidos na sua forma mais alta dentro do mundo moral cheio de esplendor, que se ergue acima deles.

A compreensão moral não apaga a causal — ela a recolhe, eleva e ilumina.

A história de Israel: a aliança e a queda

Quando contemplamos a ligação da Torá com a nação — uma aliança firmada com a terra e com o povo —, vemos que, quando se apegam ao Eterno, seu D'us, prosperam, sobem e se desenvolvem, lançam raízes na sua terra e fazem proezas; e, quando se desviam atrás de deuses estranhos da terra, definham e caem, e sobrevêm a ruína da nação e da terra, as angústias e as devastações.

Quando buscamos a explicação no mundo causal, encontramos que o espírito de Israel está preso numa forte cadeia orgânica. As suas concepções, os percursos da sua vida, a direção do seu espírito, a verdade suprema que nele e por ele se revela, a índole da sua terra e as suas bênçãos, o esforço das almas individuais e a seiva das suas vidas, a graça derramada sobre o todo e sobre cada um, os conselhos e as inclinações que constroem o edifício comum, a clareza das visões, o repouso interior, a firmeza do espírito e a tranquilidade da vida — tudo está preso, um ao outro. Naquele apego ao Eterno, o D'us dos seus primeiros pais, que o fez subir da terra do Egito, da casa da servidão, e o conduziu à terra da aliança, ensinando-lhe os caminhos da vida — nesse apego estão atados todos os elos; e dele a nação haure todo o tesouro da vida e da fecundidade.

E, ao separar-se da fonte da sua vida, o espírito estremece. A abundância da vida comum — presa aos vínculos do povo e da terra, da herança e do santuário, da moral e da fé — enfraquece. Um espírito estranho vem e o agita, e ele se torna "uma planta que não dará farinha" (Hoshea 8:7): nada retém e nada faz brotar. E vemos a maldição vir e devastar — até que o povo retorne ao D'us da sua vida, à fonte da sua salvação; devolva a Ele o seu espírito; ligue-se, com firmeza de coração e espírito de entendimento, ao Nome do Eterno, D'us de Israel — e então, das correntes do pensamento geral, profundo e robusto, afinado com o espírito dos mundos e com a singularidade própria de Israel, a salvação retorna iluminada. Tudo isto é um entendimento revelado, um reconhecimento prático que vivifica e restaura o espírito.

Acima da cadeia: "assim deve ser"

Mas logo somos levados a elevar-nos a uma penetração mais interior: acima de toda esta tessitura de leis há posta uma tessitura moral. Na moralidade viçosa que dá vida a essa grande cadeia causal — ali repousa toda a força, todo o esplendor desta vida que se manifesta com tamanho vigor e tamanha precisão.

A manifestação moral desperta em nós um modo de dizer diferente: "assim convém que seja", "assim deve ser" — e não apenas "assim é" e "assim será".

לֹא רַק "כָּךְ הוּא", אֶלָּא "כָּךְ צָרִיךְ לִהְיוֹת" "Não apenas 'assim é', mas 'assim deve ser'." Orot — Israel e o seu Renascimento, 2

E, a partir do reconhecimento de que "assim deve ser" — na revelação do entendimento moral —, voltamos depois a reconhecer a cadeia das leis em todos os seus pormenores, em toda a sua profundidade e altura, largura e abrangência, por dentro e por fora. Uma dupla exaltação, viva e viçosa, desperta então no nosso íntimo; e fontes de conselho e discernimento, traços vivos e caminhos retos, vão-se revelando no fundo de cada coração e de cada mente. O espírito da nação desperta para o renascimento (techiyá), e no recôndito da vida resplandece uma luz de santidade e pureza — a luz do Mashiach.

Eis a tese, numa frase: a ciência descreve como o mundo é; a moral revela como ele deve ser. Para o Rav Kook, a segunda não contradiz a primeira — é a sua alma. O "é" e o "deve ser" não são dois mundos rivais; o mundo moral abraça o mundo das leis e mostra-lhe o sentido. E, quando uma pessoa (ou uma nação) descobre o "deve ser" que pulsa por dentro do "é", desperta nela uma vida nova — "a luz do Mashiach".

As Almas do Mundo do Caos

Entre as "Sementes" (Zer'onim) de Orot, esta é talvez a mais audaciosa — e a mais facilmente mal compreendida. O Rav Kook olha para as épocas de grande agitação e ruptura, e enxerga nelas algo que os olhos comuns não veem: por trás de muita destruição há, às vezes, almas grandes demais, idealistas que não suportam a estreiteza do mundo. Ele não justifica o mal que fazem — di-lo, sem rodeios, mal. Mas discerne, dentro daquela energia inquieta, uma centelha que precisa ser resgatada e reconduzida à construção. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Dois mundos: o reparo e o caos

A orientação habitual da integridade e da retidão — na guarda das boas qualidades de caráter e de toda lei e norma — pertence ao curso do mundo do reparo (olam ha-tikún). E todo romper-se disso — seja pelo lado da leviandade e da licenciosidade, seja pelo lado de uma elevação do pensamento e do despertar de um espírito superior — pertence ao mundo do caos (olam ha-tohu). Mas há uma grande diferença nos pormenores do próprio mundo do caos, e nas suas inclinações para a esquerda ou para a direita.

Os grandes idealistas querem uma ordem tão bela e boa, tão firme e poderosa, que o mundo não tem dela modelo nem fundamento; por isso destroem o que está construído segundo a medida do mundo. Os superiores entre eles sabem também reconstruir o mundo destruído; mas os inferiores — aqueles em quem a inclinação ideal mais alta tocou apenas de leve — apenas estragam e demolem; e são esses os enraizados no mundo do caos, no seu grau mais baixo.

A distinção é tudo. A mesma recusa em aceitar o mundo "como está" pode vir de uma aspiração grande demais ou de mera irresponsabilidade — e, mesmo entre os aspirantes, há os que sabem reconstruir e os que só sabem derrubar. Reconhecer a raiz não é absolver o estrago.

As almas que pedem demais

נְשָׁמוֹת דְּתֹהוּ גְּבוֹהוֹת הֵן מִנְּשָׁמוֹת דְּתִקּוּן "As almas do caos são mais altas do que as almas do reparo." Orot, Zer'onim — As Almas do Mundo do Caos

São muito grandes; pedem muito da existência — mais do que os seus vasos podem suportar. Buscam uma luz imensa; e tudo o que é limitado, medido e proporcionado, não conseguem suportar. Desceram da sua altura desde o primeiro impulso do existir para vir a ser; ergueram-se como uma chama, e se apagaram. O seu anseio infinito não se extingue: revestem-se de vasos diversos, aspiram muito além da medida, aspiram e caem. Veem que estão aprisionadas em leis, em condições limitadas que não as deixam expandir-se sem fim, a cumes que nunca lhes bastam — e caem na tristeza, no desespero, na ira; e, da fúria, no mal: na malícia, na baixeza, na fealdade, na abominação, na destruição, em todo o mal.

A sua efervescência viva não sossega — manifestam-se nos insolentes da geração. Os ímpios "de princípios" — os que transgridem por princípio, e não por apetite — têm uma alma muito alta: são luzeiros do caos. Escolheram a destruição, e destroem; o mundo se embaça por eles, e eles com ele. Mas a essência da coragem que há na sua vontade é um ponto de santidade. Quando essa essência é absorvida pelas almas equilibradas, medidas no seu curso, ela lhes dá um vigor de vida. E manifestam-se sobretudo em algum "fim dos dias", no período que precede um novo parto do mundo — antes de uma existência nova e admirável —, no âmbito que está acima do alargamento dos limites, antes de nascer uma lei que está acima das leis.

"Mais altas" não quer dizer "melhores". O Rav Kook fala da magnitude da alma — da força do seu anseio —, não do valor moral dos seus atos. Uma alma grande mal canalizada faz estragos maiores que uma alma pequena; e é justamente por ser grande que vale a pena resgatar a sua energia. O elogio é à força; o juízo sobre o uso dela permanece severo.

A insolência dos tempos de redenção

בְּעִתּוֹתֵי גְאֻלָּה מִתְגַּבֶּרֶת חֻצְפָּה "Nos tempos de redenção, cresce a insolência." Orot, Zer'onim — As Almas do Mundo do Caos

Uma tempestade se levanta, cada vez mais furiosa; brechas após brechas se abrem; a insolência cresce da insolência — por não haver contentamento em todo o bom tesouro da luz limitada e reduzida, porque ela não preenche todos os desejos, não retira todos os véus de sobre a face encoberta, não revela todos os segredos nem sacia todos os anseios. Dão coices em tudo: na porção boa, nos grãos de felicidade que conduzem ao repouso e à tranquilidade dos mundos, às delícias sem fim, à exaltação dos séculos. Escoiceiam e enfurecem-se, quebram e consomem, descem a pastar em campos alheios, contentam-se com filhos estranhos, profanam o orgulho de toda beleza — e não há sossego.

Mostram, essas almas ardentes, a sua força — que nenhuma escória e nenhuma limitação as podem conter; e os fracos do mundo construído, os homens da medida e da boa etiqueta, espantam-se diante do seu porte:

מִי יָגוּר לָנוּ אֵשׁ אוֹכֵלָה, מִי יָגוּר לָנוּ מוֹקְדֵי עוֹלָם "Quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com as labaredas eternas?" Yeshayahu 33:14

Mas, na verdade, não havia o que temer: apenas os pecadores de almas fracas e os hipócritas é que temem, e o tremor os tomou. Os fortes de vigor, porém, sabem que esta revelação de força é um dos fenômenos que vêm para o aperfeiçoamento do mundo — para fortalecer as forças da nação, do ser humano e do mundo. Apenas que, no princípio, a força se revela na forma do caos; e, no fim, será tomada das mãos dos ímpios e entregue às mãos dos justos — fortes como leões — que revelarão a verdade do reparo e da construção, com vigor de espírito de um intelecto límpido e valente, e com firmeza de alma, num sentir e numa ação prática constante e clara.

A força aparece primeiro como caos; no fim, passa das mãos dos que destroem às mãos dos que constroem.

As tempestades que trazem chuva

Eis a esperança em que tudo desemboca. A energia desencadeada não é um fim em si — é matéria-prima de um bem ainda por vir, quando for redimida e reconduzida ao seu propósito:

Estas tempestades hão de gerar chuvas de bênção. Estas névoas de treva serão os instrumentos de grandes luzes.

וּמֵאֹפֶל וּמֵחֹשֶׁךְ עֵינֵי עִוְרִים תִּרְאֶינָה "E, da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos verão." Yeshayahu 29:18

Lido até o fim, o texto não é um elogio à destruição — é uma teologia da esperança. O Rav Kook olha para a turbulência de uma era e recusa-se ao desespero: discerne, sob a tempestade, uma força que ainda não encontrou a sua forma. A tarefa dos justos não é temer essa força nem imitá-la, mas resgatá-la — tomá-la das mãos que só sabem derrubar e pô-la a serviço da construção. Da treva, a luz; do caos, o reparo.

A Expansão da Alma

Em Orot HaKodesh — "As Luzes da Santidade" — o Rav Kook reúne a sua visão mais ampla da vida espiritual. Esta passagem, conhecida pelas suas primeiras palavras, "Im tirtzeh, ben adam" ("Se quiseres, ó filho do homem"), é um dos seus textos mais amados: um convite direto, quase de voz a voz, para que a alma se alargue até reconhecer a presença divina em toda a realidade — e dentro de si mesma. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico (de domínio público).

O convite

אִם תִּרְצֶה, בֶּן אָדָם, הִסְתַּכֵּל בְּאוֹר הַשְּׁכִינָה בְּכָל הַיְקוּם "Se quiseres, ó filho do homem, contempla a luz da Presença Divina em toda a existência." Orot HaKodesh I, Or HaRazim

Se quiseres, ó filho do homem, contempla a luz da Presença Divina em toda a existência. Contempla o deleite da vida celestial — como ela se difunde por cada canto e cada recanto da vida, espiritual e material, diante dos olhos da tua carne e diante dos olhos do teu espírito.

Contempla as maravilhas da criação, a vida divina que há nelas — não como um esquema apagado que de longe te apresentam aos olhos, mas conhece a realidade em que vives.

Conhece a ti mesmo

Conhece a ti mesmo, e ao teu mundo; conhece os pensamentos do teu coração, e os de todo aquele que medita e pensa. Encontra a fonte da vida que há dentro de ti — e acima de ti, e ao teu redor —, as belezas e as glórias da vida em que estás imerso.

O amor que há em ti — eleva-o à raiz da sua força e à delicadeza do seu esplendor; estende-o a todos os seus ramos, a toda a torrente da alma da Vida dos Mundos, cujo brilho só se reduz pelo aperto do lugar do pensamento. Olha para as luzes, no seu íntimo.

Eis o sentido da "expansão da alma" para o Rav Kook: não fugir do mundo, mas alargar a percepção até que o coração veja a vida divina pulsando em cada coisa — e até que o amor, antes estreito, se estenda a toda a existência.

Não sejas prisioneiro das palavras

Que não devorem a tua alma os nomes, as expressões e as letras: elas estão entregues nas tuas mãos — e não és tu que estás entregue nas mãos delas. As vestes das imagens e dos conceitos são-nos preciosas e necessárias, sobretudo para quem é limitado no seu olhar espiritual; mas, no instante em que nos voltamos para a vida do conhecimento, não nos é permitido afastar-nos do ponto mais alto — aquele do qual, só a partir do que não se deixa captar, a luz se difunde no que pode ser captado.

Sobe nas asas do espírito

Sobe, sobe para o alto, pois tens grande força. Tens asas de espírito — asas de águias poderosas. Não as negues, para que elas não te neguem; busca-as, e logo as encontrarás.

עֲלֵה לְמַעְלָה עֲלֵה, כִּי כֹחַ עַז לָךְ, יֵשׁ לְךָ כַּנְפֵי רוּחַ, כַּנְפֵי נְשָׁרִים אַבִּירִים. אַל תְּכַחֵשׁ בָּם, פֶּן יְכַחֲשׁוּ לָךְ; דְּרֹשׁ אוֹתָם — וְיִמָּצְאוּ לְךָ מִיָּד. "Sobe, sobe para o alto, pois tens grande força; tens asas de espírito, asas de águias poderosas. Não as negues, para que elas não te neguem; busca-as — e logo as encontrarás." Orot HaKodesh I — texto do livro (Or HaRazim)
"Sobe, sobe para o alto, pois tens grande força — tens asas de águias poderosas."

Há, nesta breve passagem, toda uma pedagogia da alma. O Rav Kook não pede que abandonemos a razão nem o mundo concreto; pede que os olhemos com profundidade, até reconhecer neles — e em nós — a luz que tudo sustenta. Conhecer a si mesmo, alargar o amor, não se aprisionar nas formas e ousar elevar-se: este é o caminho da alma que se expande. E, para o Rav Kook, essa força já está em nós; basta querer, buscar — e ela se revela.

A Alma de Israel

Em Orot Yisrael — "As Luzes de Israel" — o Rav Kook tenta dizer o indizível: o que é a alma de um povo. Ele recusa as definições estreitas e aponta para duas coisas que, para ele, estão no centro: a sede de D'us e a vontade de fazer o bem sem medida. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico (de domínio público).

Uma essência que não cabe em definições

Não se pode definir a essência de Knesset Yisrael — a comunidade de Israel — por limites particulares nem por atributos restritos. Ela abrange tudo, e tudo se funda no anelo da sua alma por D'us; no seu sentir da doçura e da suavidade suprema em toda a profundidade da alma, em todo o esplendor das suas delícias.

E o desejo pela Divindade, com verdadeiro ardor, revela-se em todos os seus cantos: revela-se na Torá e nas mitsvot; revela-se na ética e nas boas qualidades; revela-se na elevação da alma, no canto interior, na santidade da vida, numa sede sem fim.

צָמְאָה נַפְשִׁי לֵאלֹהִים לְאֵל חָי "A minha alma tem sede de D'us, do D'us vivo." Tehilim 42:3

Revela-se ainda na entrega contínua, no carregar o jugo do exílio por amor — apenas para não abandonar a ordem da vida, prática e espiritual, pela qual a luz divina a ela se adere por dentro. E é essa força — trovejante — que lhe traz, no fim dos dias, a salvação plena.

מְזָרֵה יִשְׂרָאֵל יְקַבְּצֶנּוּ וּשְׁמָרוֹ כְּרֹעֶה עֶדְרוֹ "Aquele que dispersou Israel o reunirá, e o guardará como o pastor ao seu rebanho." Yirmiyahu 31:9

O núcleo: o bem para todos, sem limite

A própria essência do desejo de ser bom para com todos — sem limite algum, nem na quantidade dos que recebem o bem, nem na qualidade do bem — esse é o grão interior da alma de Israel. Essa é a sua herança, o legado dos seus pais.

Mas esse sentimento do bem, conforme a sua grandeza, a sua amplitude e a sua profundidade, precisa ser coroado de grande sabedoria e de força poderosa — para que se saiba como realizá-lo, em todos os seus matizes. E esse é o segredo do anseio pela redenção que pulsa na nação, o que lhe dá força para viver e perdurar de um modo que assombra todo coração pensante.

"O desejo de ser bom para com todos, sem limite algum — eis o grão da alma de Israel."

Não separada da Divindade

Na profundidade do seu desejo, Knesset Yisrael não está separada da Divindade. Ela reveste a Divindade que se revela no mundo, e deseja, no seu próprio ser, o desejo divino do bem de D'us para todos, e da Sua compaixão sobre todas as Suas obras.

Esse bem é o segredo da redenção que há de vir, necessariamente: o bem precisa vencer tudo. E o desejo profundo, inscrito na natureza, desse bem — e o anelo íntimo por ele, no âmago da alma da nação — é o que transparece na sua oração mais interior.

Note-se onde o Rav Kook coloca a "essência" de Israel: não num privilégio que rebaixa os outros, mas num encargo — a vontade de fazer o bem a toda a criação. A grandeza, aqui, mede-se pela amplitude do amor, não pela distância em relação aos demais.

O Renascimento

Orot HaTechiyá — "As Luzes do Renascimento" — é talvez a parte mais conhecida de Orot. Nela o Rav Kook lê o retorno de Israel à sua terra não como um evento meramente histórico ou político, mas como o despertar de uma alma. O que segue é uma tradução inédita ao português da sua passagem de abertura, feita a partir do hebraico (de domínio público).

O conhecimento mais doce

A compreensão mais plena e mais doce do conhecimento de D'us é reconhecer a relação do Divino com o mundo como um todo — e com cada um dos seus detalhes, materiais e espirituais — tal como a relação da alma com o corpo: o lado espiritual que vivifica e enche o corpo da luz de existir e florescer, daquilo que é necessário à vida, à luz e ao florescimento.

הוּא מְמַלֵּא אוֹתָם אַהֲבָה יוֹתֵר מִיִּרְאָה "Esse conhecimento enche o coração de amor mais do que de temor." Orot HaTechiyá, 1

Quando essa relação se enche no coração e na alma, ela os preenche de amor mais do que de temor, e de uma serenidade contemplativa mais do que da amargura do tremor. Na vida do indivíduo, é fácil chegar a essa medida: pelo aprimoramento da conduta — prática e intelectual — e pela elevação da luz do conhecimento. Quando o caráter humano se inclina com afeto ao sublime, ao bem absoluto, na mente e na vida, logo esse reconhecimento da Divindade se enraíza nele, impregna todas as suas ideias e se funde com todos os seus sentidos, refinando-os.

A alma de um povo

Mas o organismo coletivo — um povo — tem uma psicologia própria. Se, no fundo do seu ser, ele também se inclinar a uma simpatia moral elevada, e o amor ao bem nobre estiver bem gravado em sua natureza — seja por escolha, seja por herança dos pais —, então esse reconhecimento da alma penetrará também no interior da nação, e a doçura do amor divino, unida ao temor reverente, ficará impregnada em todo o povo e endireitará os seus caminhos.

Porém, na medida em que um povo está distante desse afeto íntimo pelo bem absoluto, a relação da alma com o Divino não consegue penetrá-lo: e então a sua ligação com D'us torna-se uma ligação estranha; D'us passa a ser, para ele, um deus alheio — e esse "deus" estrangeiro adquire traços distorcidos, quase caricatos, que torcem a vida muito mais do que a endireitam. É por isso que ainda vemos, entre as nações, sinais de crueldade e tirania, e a moral a se esvair pouco a pouco do coração coletivo.

O refúgio guardado em Israel

Mas a humanidade tem um refúgio herdado em Knesset Yisrael: nela, no seu círculo mais íntimo, encontra-se a simpatia divina. O sentimento atesta e o entendimento esclarece que o Senhor único do mundo é o bem completo, a vida, a luz, o Todo — exaltado acima de tudo, melhor que todo bem, bom para com todos, e cuja compaixão se estende sobre todas as suas obras. E essa identificação não permeia apenas os indivíduos deste povo, mas a sua própria coletividade.

E quando aconteceu de Israel esquecer a sua alma — a fonte da sua vida —, foi-lhe dada a profecia para lembrá-la, e foram-lhe preparados os exílios para endireitar as suas tortuosidades, até que, no fim, a simpatia pelo bem absoluto vencesse dentro dela.

O chamado do renascimento

Essa sede viva e palpável, que enche de luz a vida prática — também a social e a nacional —, segue abrindo o seu caminho. E chama a nação, quando chega o seu tempo, a animar-se, a erguer-se, a sacudir de si o pó da humilhação, a romper as cadeias do exílio, e a exigir um novo florescer na Terra em que começou a formar-se a cultura da alma divina — pela nação e pelo mundo inteiro.

"Sacudir de si o pó da humilhação, romper as cadeias do exílio, e exigir um novo florescer na Terra."

E essa exigência de proximidade com o Divino não se revela, no princípio, em toda a sua luz. Pelo contrário: aparece primeiro de modo negativo — expulsando os sentimentos estranhos a respeito de D'us, aqueles que não enchem a alma como a alma enche o corpo, mas que dominam com a dureza de um senhor severo. À medida que essa negação avança nas mãos dos que a ela se inclinam, vem também, com força, o lado positivo, vindo dos grandes do povo, cuja alma é do mundo da emanação; e o sentimento nacional-divino floresce e se liga a todas as luzes ocultas da história — luzes que brilham no que essa história traz consigo: a Terra da herança, a Terra desejada, a Terra da santidade, a Terra da beleza e da vida.

גֹּאֲלֵנוּ יְהוָה צְבָאוֹת שְׁמוֹ קְדוֹשׁ יִשְׂרָאֵל "O nosso Redentor — o Eterno dos Exércitos é o Seu nome — o Santo de Israel." Yeshayahu 47:4

O Retorno a Si Mesmo

Costumamos pensar a teshuvá — o retorno — como o arrependimento de uma falta concreta: fiz algo errado, reconheço, corrijo. O Rav Kook conhece bem esse retorno, mas aponta para outro, mais profundo: o retorno de quem se sente vazio sem saber de qual pecado, distante de si mesmo e da própria origem. Este é, talvez, o coração de Orot HaTeshuvá. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico (de domínio público).

O retorno súbito e o retorno gradual

Quanto à sua duração, a teshuvá divide-se em duas: a súbita e a gradual.

A súbita vem de um relâmpago espiritual que penetra na alma: de uma só vez, a pessoa reconhece o mal e a feiura da falta e se transforma em outro homem, sentindo já dentro de si uma mudança completa para o bem. É uma teshuvá que chega por uma aparição íntima, por uma grande influência da alma, cujos caminhos vale a pena buscar nas profundezas do mistério.

E há a teshuvá gradual: não um relâmpago que num instante o vira do fundo do mal ao bem, mas a percepção de que precisa ir, dia após dia, melhorando os seus caminhos, os seus desejos, o rumo dos seus pensamentos. Pouco a pouco, nessa caminhada, vai conquistando as veredas da retidão, corrigindo as suas qualidades, melhorando os seus atos, ensinando a si mesmo a tornar-se mais digno — até alcançar um alto grau de purificação e de reparo.

A teshuvá que vem do Todo

Mais alta que ambas é a teshuvá suprema. Ela vem de um lampejo do Bem geral — do Bem divino que repousa em todos os mundos, a luz da Vida dos Mundos. A alma de toda a existência se desenha diante de nós em seu esplendor e santidade, tanto quanto o coração é capaz de absorver. Pois não é verdade que o Todo é, em si, tão bom e tão reto — e que a retidão e o bem que há em nós vêm justamente da nossa harmonia com o Todo?

וְאֵיךְ אֶפְשָׁר לִהְיוֹת קָרוּעַ מִן הַכֹּל? "E como seria possível estar arrancado do Todo?" Orot HaTeshuvá 2

Como poderia alguém estar dilacerado, separado do Todo — qual migalha estranha, qual grão de pó que de nada conta? Dessa percepção, que é uma percepção verdadeiramente divina, nasce a teshuvá, na vida do indivíduo e na vida do povo. Voltar, aqui, não é consertar um ato: é reconhecer que nunca estivemos realmente apartados da fonte — e despertar para essa pertença.

Quando a alma se sente longe

Há, então, uma teshuvá geral e indefinida. Nenhum pecado do passado lhe sobe ao coração; e, no entanto, a pessoa sente-se profundamente oprimida, cheia de culpa, como se a luz de D'us não brilhasse sobre ela. Não há nela um espírito generoso, o coração está fechado, as suas qualidades não seguem a vereda reta e desejável que conviria a uma vida digna e a uma alma pura. O entendimento parece grosseiro; os sentimentos, turvos de escuridão e de uma sede que provoca enjoo espiritual. Ela se envergonha de si mesma e sabe, lá no fundo, que não há D'us dentro dela.

E esta — diz o Rav Kook — é a maior das aflições, a falta mais terrível: revoltar-se contra si próprio sem encontrar saída de uma armadilha que não tem nome nem objeto, sentir-se apenas como que preso no cepo. Não é a culpa por um ato; é a angústia de estar longe da própria alma.

Repare na inversão: para o Rav Kook, sentir esse vazio não é sinal de queda — é já o começo do retorno. A dor de perceber a distância é a própria alma chamando de volta para si mesma.

A cura

E é do meio dessa amargura que vem a teshuvá — como o remédio de um médico perito. O sentir do retorno brota na alma com toda a sua força, com a profundidade do seu saber, com as suas raízes nos segredos da natureza e nas câmaras da Torá, da fé e da tradição. Sobre a pessoa passa um espírito de graça e de súplica: "como um homem a quem a sua mãe consola, assim Eu vos consolarei" (Yeshayahu 66:13).

E eis que ela caminha e resplandece: a face da ira passou, vem a luz da vontade e raia, ela se enche de vigor, os olhos se enchem de fogo sagrado. O coração inteiro mergulha em rios de delícias; santidade e pureza a envolvem; um amor sem fim preenche todo o seu espírito. É-lhe anunciado que foram apagadas todas as suas faltas — as conhecidas e as desconhecidas —, que ela foi criada de novo, criatura nova, e que o mundo inteiro, com todos os mundos, se renovou junto com ela. E tudo entoa cântico.

"Volta, minha alma, ao teu repouso, pois o Eterno te fez bem."
שׁוּבִי נַפְשִׁי לִמְנוּחָיְכִי כִּי יְהוָה גָּמַל עָלָיְכִי "Volta, minha alma, ao teu repouso, pois o Eterno te fez bem." Tehilim 116:7

Os Sábios disseram: "Grande é a teshuvá, que traz cura ao mundo; e mesmo um único indivíduo que faz teshuvá — perdoa-se a ele e ao mundo inteiro" (Yomá 86a). Voltar a si mesmo, descobre o Rav Kook, nunca é um gesto solitário: quem reencontra a própria alma reencontra a sua ligação com tudo o que existe — e, por essa porta, com D'us.

A Sede do D'us Vivo

Entre as "Sementes" (Zer'onim) de Orot, esta é a primeira e talvez a mais célebre. O Rav Kook descreve com uma honestidade quase dolorosa a inquietação do espírito humano — a sensação de que nenhuma conquista, por mais alta, basta — e mostra que essa inquietação não é doença: é sede. Sede do D'us vivo. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico original (de domínio público).

A inquietação do espírito

É impossível encontrar um pouso firme para o espírito senão no ar divino. O conhecimento, o sentimento, a imaginação e a vontade — com todos os seus movimentos internos e externos — exigem que o ser humano seja divino, e nada menos que isso. Só então encontra a sua plenitude, a sua relação equilibrada e satisfatória com a existência.

Se a pessoa busca para si algo um pouco aquém dessa grandeza, eis que é logo lançada como um navio sacudido no mar: ondas tempestuosas, opondo-se umas às outras, roubam-lhe para sempre o sossego; é arremessada de vaga em vaga e não conhece a paz. Pode até afundar num lodo espesso de grosseria de espírito e embotamento do sentir, e assim conseguir, por algum tempo, reduzir a luz da própria vida — até imaginar, lá dentro, que enfim encontrou repouso. Mas os dias não se alongam: o espírito se solta das suas amarras, e a inquietação recomeça a sua obra com toda a força.

"Nosso lugar de repouso está somente em D'us."
מְקוֹם מְנוּחָתֵנוּ הוּא רַק בֵּאלֹהִים! "O nosso lugar de repouso está somente em D'us!" Orot, Zer'onim — Tzima'on le-El Chai

O paradoxo do que busca

Mas D'us está acima de toda a realidade da qual algum sentimento ou ideia poderia entrar em nós; e tudo o que está acima de todo sentimento e ideia em nós é, em relação à nossa medida, "nada" — e no nada a mente não consegue descansar. Por isso, na maioria das vezes, encontramos os estudiosos que buscam a D'us cansados e fatigados de espírito.

Quando a alma clama pela luz mais clara, já não se contenta com a luz que existe na justiça, mesmo nos melhores atos; nem com a luz que existe na verdade, mesmo nos estudos mais límpidos; nem com a beleza, mesmo nas visões mais magníficas. Então o mundo se lhe torna estreito: ela se expande tanto por dentro que o mundo inteiro — com toda a sua materialidade e espiritualidade, com todas as suas revelações — lhe parece uma "casa de aflição", uma casa apertada, cujo ar se faz sufocante. Buscam o que está acima de suas forças, o que diante deles é nada; e, como não há poder — nem mesmo na vontade — de querer trazer algo do nada, às vezes enfraquece a própria força de querer, e todo o vigor da vida, justamente nas pessoas cuja meta mais íntima é a busca de D'us.

O portão: a Divindade revelada no mundo

É preciso mostrar o caminho de como se entra no palácio — pelo portão. E o portão é a Divindade que se revela no mundo: no mundo em toda a sua beleza e esplendor, em cada espírito e alma, em cada ser vivo, em cada planta e flor, em cada povo e reino, no mar e nas suas ondas, nos toldos do céu e na majestade das luminárias, nos talentos de quem fala, nas ideias de quem escreve, nas imaginações de cada poeta e nas reflexões de cada pensador, no sentir de quem sente e no ímpeto de coragem de cada herói.

Eis a virada do texto: não se chega ao infinito saltando para fora do mundo, mas atravessando-o. O mundo não é obstáculo a D'us — é o portão para Ele. Cada coisa bela, verdadeira e viva é uma fresta por onde a luz divina entra.

D'us desce até nós

A Divindade suprema, que ansiamos alcançar — ser absorvidos nela, recolhidos à sua luz — e que não conseguimos atingir na medida plena do nosso desejo, ela mesma desce, por nós, ao mundo e para dentro dele; e nós a encontramos, e nos deleitamos no seu amor, e achamos sossego e paz no seu repouso. E, de tempos em tempos, ela nos visita com um relâmpago supremo, do resplendor do alto, da luz suprema que está acima de toda ideia e pensamento. Os céus se abrem, e vemos visões de D'us —

mas sabemos que, para nós, esse é um estado passageiro: o relâmpago passa, e descemos a habitar de novo — ainda não no interior do santuário, mas nos átrios do Eterno.

Tudo é um: a unidade de toda a luz

E quando o clamor pela luz chega ao ponto mais alto, então a alma começa a haurir uma abundância de grande luz do luzeiro oculto que há dentro dela; e do seu mais íntimo se lhe revela que tudo haure luz da fonte mais suprema — que todos os mundos e tudo o que neles há não passam de revelações, que nos parecem faíscas particulares da manifestação da luz suprema, mas que em si mesmas são todas uma só unidade, uma só revelação, na qual se inclui toda a beleza, toda a luz, toda a verdade e todo o bem.

Essas revelações seguem o seu curso e se elevam, tornando-se cada vez mais manifestas aos olhos de todos como aquilo que verdadeiramente são: revelações do Todo-Bem. E a mesma abundância que flui no Todo-Bem — que ergue a raiz da alma à sua altura e que faz pequeno, a seus olhos, o mundo material e espiritual com toda a sua glória — essa mesma abundância renova sobre ela todos os mundos: cada criatura veste uma forma nova, cada visão de vida desperta júbilo e salvação, cada boa ação alegra o coração, cada estudo alarga a mente. Os estreitos limites de todas as coisas já não comprimem a amplidão da alma, que de imediato contempla e vê que todas aquelas pequenas faíscas estão sempre a ascender, sempre a unir-se e a serem atadas no feixe da vida plena.

Os Quatro Cânticos da Alma

De toda a obra do Rav Kook, poucos trechos foram tão recitados, musicados e amados quanto este. Em poucas linhas, ele desenha um mapa da alma: a vida espiritual não é estática — ela se expande. E, à medida que a alma cresce, o seu canto abraça círculos cada vez maiores da existência, até que todos os cantos se fundem num só. É um texto sobre identidade, pertencimento e a unidade última de tudo o que vive.

O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico original (de domínio público).

O primeiro canto: a alma

יֵשׁ שֶׁהוּא שָׁר שִׁירַת נַפְשׁוֹ, וּבְנַפְשׁוֹ הוּא מוֹצֵא אֶת הַכֹּל "Há quem cante o canto da sua própria alma — e na sua alma encontra tudo." Orot HaKodesh, Arba'ah Shirot

Há quem cante o canto da própria alma — e é na própria alma que encontra tudo, a plenitude do seu contentamento espiritual. É o primeiro grau: a pessoa voltada para o seu mundo interior, que descobre dentro de si uma riqueza que lhe basta. Um canto íntimo, recolhido, inteiro.

O segundo canto: a nação

E há quem cante o canto da nação. Sai do círculo estreito da sua alma individual — que não lhe parece suficientemente ampla, nem suficientemente serena — e ascende a alturas poderosas. Une-se com ternura ao conjunto de Israel, à Knesset Yisrael: canta com ela os seus anseios, embeleza-se com as suas esperanças, sofre as suas dores, alegra-se com a sua glória. A sua vida já não é só a sua — pulsa com a vida de um povo inteiro.

O terceiro canto: a humanidade

E há aquele cuja alma se expande ainda mais, até transbordar para além das fronteiras de Israel, para cantar o canto do homem. O seu espírito se alarga na grandeza da humanidade toda e na sua dignidade; ergue-se para o ideal universal, contempla o futuro da espécie humana, e bebe da sua aspiração mais íntima de elevação. É o canto da pessoa que ama o ser humano onde quer que ele esteja.

O quarto canto: o cosmos

E há aquele que se expande mais e mais, até se unir com toda a existência, com todas as criaturas, com todos os mundos — e com todos eles entoa o seu canto. É este o canto do cosmos: aquele que canta com cada folha, cada estrela, cada ser, reconhecendo em toda a criação uma única melodia que ascende ao seu Criador.

Repare na geometria do texto: não são quatro cantos rivais, mas quatro raios de uma mesma luz, em círculos concêntricos. Cada um inclui o anterior. Quem canta o cosmos não abandonou a sua alma, a sua nação ou a humanidade — ele os carrega consigo, ampliados.

O quinto canto: a harmonia que reúne todos

E há, enfim, aquele que se eleva com todos esses cantos juntos, numa só harmonia, de modo que todos dão a sua voz, todos vertem a sua seiva, todos cantam os seus cantos. O canto da alma, o canto da nação, o canto da humanidade e o canto do cosmos — todos se entrelaçam dentro dele, a cada instante e a cada hora.

E essa plenitude, em toda a sua amplitude, é que se eleva para tornar-se o canto sagrado — o canto de D'us, o canto de Israel. Não quatro vozes separadas, mas uma só voz integral, que abarca o eu e o todo, o particular e o universal, a terra e os céus.

"Todos dão a sua voz, todos vertem a sua seiva — e os quatro cantos tornam-se um."

O Rav Kook liga esse canto integral ao Shir HaShirim, o Cântico dos Cânticos — o cântico que a tradição chama de "simples, duplo, triplo e quádruplo". Pois o canto mais alto não é o que renuncia aos demais, mas o que os contém a todos: aquele em que a alma singular, sem se perder, ressoa junto com tudo o que existe, numa única sinfonia diante de D'us.

Há aqui uma ética inteira. O perigo da espiritualidade é encolher — fechar-se no próprio eu, ou no próprio grupo, e chamar a isso de devoção. O Rav Kook aponta o caminho inverso: a verdadeira elevação é a expansão. Quanto mais a alma ama — a si, ao seu povo, à humanidade, à criação inteira — mais alto e mais verdadeiro é o seu canto.

As Três Vias do Retorno

O Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook foi o primeiro Rabino-Chefe ashkenazi da Terra de Israel e, talvez, o pensador mais original do judaísmo no século XX: um homem em quem a profundidade haláchica, a paixão mística e uma sensibilidade quase poética se fundiram numa só voz. Sua obra Orot HaTeshuvá — "As Luzes do Retorno" — é amada por gerações porque faz algo raro: transforma a teshuvá, que muitos sentem como peso e remorso, na força mais luminosa e vital da existência.

Abrimos esta coleção pelo seu primeiro capítulo, no qual o Rav Kook distingue três níveis, ou três vias, pelas quais o ser humano retorna. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do original hebraico (de domínio público) e cotejada com a tradução comunitária de licença aberta do Sefaria.

תְּשׁוּבָה טִבְעִית, אֱמוּנִית, שִׂכְלִית "Teshuvá natural, teshuvá da fé, teshuvá do intelecto." Orot HaTeshuvá 1 — título

Encontramos a teshuvá em três ordens: a) a teshuvá natural; b) a teshuvá da fé; e c) a teshuvá do intelecto.

I. A teshuvá natural

A teshuvá natural tem duas faces: uma física e outra anímica. A face física abrange todas as transgressões contra as leis da natureza, contra a ética e contra a Torá naquilo em que esta se entrelaça com as leis naturais. Pois toda conduta má termina por trazer doenças e dores, e delas sofre muito o indivíduo — e a coletividade. E depois que se torna claro à pessoa que ela mesma, por sua má conduta, é responsável por todo aquele empobrecimento da vida que lhe sobreveio, então ela volta a atenção para reparar a situação: para retornar às leis da vida, para guardar as leis da natureza, da ética e da Torá, a fim de tornar a viver — e de fazer com que a vida, em todo o seu frescor, retorne a ela.

A medicina, é verdade, ocupa-se muito disso; mas, ao que parece, essa grande obra ainda não foi inteiramente aperfeiçoada, e ainda não se encontrou a solução plena para todas as questões da teshuvá física — até onde é possível, dentro dos limites da vida, devolver ao ser humano tudo o que perdeu por causa dos atos que destroem o corpo e suas forças. Por isso, fica evidente que este ramo da teshuvá depende, e fortemente, dos demais: do anímico-natural, do religioso e do intelectual.

Mais interior é a teshuvá natural da alma e do espírito. É aquilo a que se chama "o remorso da consciência" — literalmente, o musar kelayot. A natureza da alma humana é caminhar pela vereda reta; e quando se desvia do caminho, quando cai no erro — desde que a alma ainda não esteja inteiramente corrompida —, esse senso de retidão aflige o coração, a pessoa se desfaz de dor e se apressa a retornar para reparar o que distorceu, até sentir que sua falta foi apagada. Esta parte da teshuvá é muito complexa, depende de inúmeras condições internas e externas, e há nela vários caminhos de engano dos quais é preciso resguardar-se; mas, ainda assim, ela é um dos fundamentos sobre os quais repousa toda a essência do retorno.

II. A teshuvá da fé

Depois da teshuvá natural vem a teshuvá da fé. Ela vive no mundo a partir da fonte da tradição e da religião, que tanto se ocupam do retorno. A Torá promete perdão aos que se voltam da transgressão; as faltas do indivíduo e da comunidade são apagadas pela teshuvá. Os Profetas estão repletos de palavras sublimes sobre o retorno — e, de fato, todo o valor da repreensão da Torá está edificado sobre a teshuvá da fé. Em suas profundezas há detalhes sem fim; só os seus princípios fundamentais já exigiriam longas explanações.

Note-se a ordem do Rav Kook: ele não começa pela religião. Começa pelo corpo e pela consciência — pela teshuvá que está inscrita na própria natureza do ser. A fé não substitui esse movimento natural; ela o eleva e o ilumina.

III. A teshuvá do intelecto

A teshuvá do intelecto é aquela que já adquiriu para si a natural e a da fé, que já chegou ao grau supremo — no qual a causa do retorno não é mais o sofrimento físico, anímico ou espiritual, nem apenas a influência da tradição recebida (seja o temor do castigo, seja a marca que cada lei e cada juízo deixam no interior da alma). A causa, agora, é um reconhecimento claro, que brota de uma visão íntegra do mundo e da vida — visão que se elevou ao seu auge depois que a tarefa natural e a tarefa da fé já gravaram nela, com beleza, as suas marcas.

Esta teshuvá, que contém em si as anteriores, já está plena de luz sem fim. Ela vem para converter todos os erros em méritos: de cada equívoco, extrai lições elevadas; de cada humilhação, ascensões maravilhosas. Esta é a teshuvá para a qual todos os olhos se erguem — a que necessariamente há de vir, e que, no fim, virá.

"De cada erro, ela extrai lições elevadas; de cada humilhação, ascensões maravilhosas."

Há, neste capítulo de abertura, toda uma visão de mundo. O retorno não é um castigo imposto de fora, mas a tendência mais íntima da realidade — o corpo que quer curar-se, a consciência que quer endireitar-se, a alma que quer reaproximar-se de sua fonte. A teshuvá mais alta não nasce do medo, mas da clareza: do dia em que enxergamos a totalidade da vida e compreendemos que voltar a D'us é, no fundo, voltar a nós mesmos.

O Caminho das Ideias em Israel

Esta é a peça que abre Orot — densa, arquitetônica, quase um sistema inteiro em poucas páginas. A sua tese: existem duas ideias humanas fundamentais que voltam em todos os ciclos da vida — a ideia nacional (a forma como uma sociedade organiza a sua vida em comum) e a ideia divina (a aspiração do espírito ao Absoluto). A história do mundo é a história da relação entre as duas. Traduzo a seção inteira do hebraico de domínio público, condensando os trechos mais densos sem perder o argumento, dividida nas seis partes do original.

I · As duas ideias, no ser humano

O estilo de vida e o estilo de pensamento de um povo revelam-se em duas grandes ideias que voltam sempre, no privado e no social, no espiritual e no prático: a ideia nacional — como estilo da vida ordenada da sociedade — e a ideia divina — como estilo do pensamento espiritual. Por vezes elas trocam de lugar (um "sentimento nacional" e uma "ideia divina"; ou uma "ideia nacional" e um "sentimento divino"), mas estão sempre em jogo.

A predisposição à ideia divina existe — de modo aberto ou oculto, reto ou distorcido — em todos os corações da humanidade, em todos os povos e famílias. Dela nascem religiões, sentimentos de fé, ordens e costumes, que movem grandes feitos na vida das nações e na política. São degraus do movimento rumo ao aperfeiçoamento da ideia divina.

Mas eis o ponto decisivo: quando uma sociedade, já desenvolvida nas suas estruturas, sente a luz divina como algo "longínquo e apagado" e decide caminhar sem ela — voltando-se para trás, fechando-se na sua ideia nacional isolada, sem mais buscar a fonte de onde brotou —, então ela encontra a velhice e a fraqueza. A máquina ainda gira por inércia algum tempo, mas "a seiva da vida vai minguando". Perdido o valor espiritual, perde-se o caráter do todo; os apetites do indivíduo levantam a cabeça acima da harmonia; vem o tédio, o desespero, a náusea — "não há verdade, nem bondade, nem conhecimento de D'us na terra" (Hoshea 4:1).

E quando a sociedade, sufocada sob o peso de uma vida sem alvo, procura a cura no materialismo — em sistemas fundados sobre riqueza efêmera e prazeres grosseiros —, é em vão: "a morte negra, muda e fria, não pode dar vida". E o Rav Kook sela a primeira parte com a ironia do profeta sobre o ídolo:

הוֹי אֹמֵר לָעֵץ הָקִיצָה! עוּרִי! לְאֶבֶן דּוּמָם... הִנֵּה הוּא תָּפוּשׂ זָהָב וָכֶסֶף, וְכָל רוּחַ אֵין בְּקִרְבּוֹ "Ai daquele que diz ao madeiro: 'Desperta!', e à pedra muda: 'Acorda!'... Eis que está revestido de ouro e prata, mas dentro dele não há sopro algum." (Chavakuk 2:19) Mahalach HaIdeot I

Só da fonte da vida podem brotar águas vivas. Uma cultura que corta a sua raiz divina é um ídolo dourado: belíssimo por fora, sem sopro por dentro.

II · As duas ideias, em Israel

Em Israel, a ideia divina encontrou a sua expressão viva em forma nacional, no mais alto grau. Desde a sua origem, este povo — que soube proclamar a ideia divina clara e pura "no tempo do domínio terrível da idolatria, na sua impureza e selvageria" — trouxe consigo uma aspiração: erguer uma grande coletividade humana que "guarde o caminho do Eterno, para fazer justiça e retidão" (Bereshit 18:19).

O essencial. A meta não era apenas alguns indivíduos santos vivendo à luz da ideia divina — eremitas, ascetas, sábios. Era um povo inteiro: com Estado, política, economia, exército, cultura — "um povo sábio e entendido, uma grande nação" (Devarim 4:6) — em que a ideia divina governa e "dá vida ao povo e à terra". Mostrar que não só santos isolados, mas sociedades inteiras, com todas as suas camadas, podem viver à luz de D'us. É o oposto da fuga do mundo: é a santificação do mundo.

Por isso a ideia divina preparou Israel — no temperamento, na "linhagem", na geografia — para que servisse a esse fim. E, nos seus dias de florescimento, "nos dias da bondade da sua juventude e do amor dos seus esponsais" (Yirmiyahu 2:2), Knesset Israel alcançou, na sua alma resplandecente, a fonte da luz superior, e enraizou o seu caráter nacional nas profundezas da ideia divina. No tesouro da sua ideia nacional ficou semeada e guardada a ideia divina — apta a iluminar o mundo inteiro com a sua glória. E mesmo nas suas quedas posteriores, "nunca se apagou do caráter nacional o selo da sua origem": no segredo da sua essência, ela segue mamando do canal superior da ideia divina.

III · A separação entre as ideias

Houve um tempo em que "os dois luzeiros se serviam de uma só coroa" em Israel — a ideia nacional de pé, em toda a sua estatura, ao lado da ideia divina. Foi a era de ouro do Primeiro Templo, o florescer dos dias de Shelomó, "a lua na sua plenitude". Naquela época curta em quantidade e longa em qualidade, a riqueza nacional somou esplendor à ideia divina, e a vida divina, na sua forma israelita, deu vida de honra e de elevação a todo o povo. Por isso os sábios disseram que "o mundo inteiro não valia tanto quanto o dia em que foi dado a Israel o Cântico dos Cânticos — pois todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é santo dos santos" (Mishná, Yadayim 3:5).

Mas só o espírito nacional, no seu conjunto, se elevou àquela altura; a moral do indivíduo ainda não se purificara o bastante para acompanhá-la. Em torno da "rosa superior" cresceram "espinhos e abrolhos": as culturas idólatras despertaram as paixões grosseiras, e a ideia nacional começou a separar-se da sua amamentação no seio da ideia divina. "Então começou a vacilar aquele trono firme, o trono do Eterno para a casa de David." E Israel, arrancado do seu modo de vida original, não teve mais força para se sustentar numa "nacionalidade seca", separada da fonte divina — e caiu numa queda terrível. "A fonte da ideia divina secou nele; a moral cessou de jorrar; e a ideia nacional deixou de dar o seu fruto." Tornou-se "uma vinha vazia" (Hoshea 10:1).

Os pecados foram tantos que a ideia nacional se afastou ao extremo da ideia divina, até o profeta exprimir a repreensão mais amarga ("Contendei com vossa mãe... pois ela não é minha mulher, e eu não sou seu marido" — Hoshea 2:4). Mas, nas profundezas onde nem o olhar do profeta alcança, "a última centelha divina nunca se apagou" — e a promessa permanece:

וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי לְעוֹלָם, וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי בְּצֶדֶק וּבְמִשְׁפָּט וּבְחֶסֶד וּבְרַחֲמִים, וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי בֶּאֱמוּנָה וְיָדַעַתְּ אֶת ה׳ "E te desposarei para sempre; desposar-te-ei em justiça e em retidão, em bondade e em misericórdia; desposar-te-ei em fidelidade, e conhecerás o Eterno." (Hoshea 2:21-22) Mahalach HaIdeot III
IV · A situação no exílio

Quando o espírito de D'us se retirou da nação — ao separar ela o seu caráter nacional da fonte da sua vida —, tornou-se "devida" a obrigação do exílio. A vida coletiva, corrompida até o fundamento, teve de ser quebrada. Mas — e este é o segredo de toda a seção — a ideia divina e a ideia nacional israelita são tão correspondentes que cada uma carrega dentro de si a raiz da outra. Por isso, no exílio, a ideia divina contraiu-se e refugiou-se "num ninho pequeno e pobre": o mikdash me'at, o pequeno santuário das sinagogas e casas de estudo, da vida familiar pura, da observância da Torá. Estes são "marcos no exílio, sobreviventes de algo que foi vivo e inteiro e que voltará a viver na plenitude quando D'us restaurar o cativeiro do Seu povo". A ideia divina, pela sua altura, "pode reanimar até ossos secos" (cf. Yechezkel 37) — e só ela guardou o "ponto interior de Sião" da nação, para que estivesse pronta a ressuscitar quando viesse o tempo.

Sem lugar para influir sobre a ideia nacional, a ideia divina, no exílio, "elevou-se para além das fronteiras de qualquer povo particular" — rumo à aspiração moral universal, à ciência, à sabedoria abstrata — e dali lançou ao mundo "alguns raios de luz", que penetravam sobretudo nas tendas de Yaakov pelos restos da Torá e da profecia, e se espalhavam aqui e ali entre indivíduos buscadores de D'us, em todo povo e língua. Assim cumpriu a "missão de Israel", que "venceu todos os seus vencedores" e abrandou muito a maldade do homem idólatra.

Mas — adverte o Rav Kook — "não é este o repouso". A influência tênue de uma moral dispersa, sem lugar de honra na vida de um povo, não é o alvo. A fratura entre a ideia divina e a nacional "é a causa de toda a confusão no mundo social e político" — e só pode ser sarada no lugar da sua unidade natural: em Israel, no seu renascimento pleno na sua terra.

V · Primeiro e Segundo Templo; a ideia religiosa

Por que teve de ruir aquela grandeza do Primeiro Templo? Porque "a alma do indivíduo ainda não estava preparada" para receber toda a força da ideia divina. O Segundo Templo já não teve a robustez coletiva do primeiro: apareceu nele "a força de indivíduos" — "os que se separaram da impureza dos povos da terra" —, não a força nacional plena.

E aqui o Rav Kook faz a sua distinção mais original. Toda aquela dimensão particular — a observância detalhada dos preceitos, e as crenças sobre "a vida eterna do indivíduo" e "a recompensa" pessoal — que antes estava contida dentro da grande luz geral da ideia divina (como "uma vela diante de uma tocha", invisível ao lado do seu fulgor), agora, com o recolhimento daquela luz geral, passou a destacar-se e a fixar-se. Nasceu então, da ideia divina recolhida, a sua "filha": a ideia religiosa (a "religião") — que veste a ideia divina e nunca renega a raiz da sua alma, mas que assume um caráter particular, voltado ao indivíduo. Foi um imenso bem educativo: deu à nação "alimento" para atravessar o exílio.

"A escuridão da noite" — diz ele numa imagem bela — "é que faz o homem erguer os olhos e contemplar a vastidão infinita dos céus." Assim, a escuridão da destruição alargou o horizonte do pensamento da nação: temas antes reservados a poucos (a vida do mundo vindouro, a ressurreição, a eternidade) tornaram-se patrimônio de todos.

Nota — uma leitura honesta. Nesta parte o Rav Kook critica o que chama de "religiosidade da qual D'us se retirou": uma combinação histórica, segundo ele malsucedida, de fragmentos da luz divina de Israel — já desfocados da sua fonte — com elementos do antigo paganismo. É uma tese filosófico-histórica sobre a separação das ideias, não desprezo por pessoas: o seu próprio argumento insiste que a luz divina é "universal e desejada por toda alma bela", "preparada para todo povo e todo ser humano". A crítica é à fratura (a religião sem a sua raiz divina-nacional, ou o nacionalismo sem alma), e o remédio que ele propõe é a reunificação — nunca o ódio. Lê-se aqui também o seu diagnóstico do Ocidente moderno: quando "o sentimento religioso" toma o lugar da ideia divina inteira, a heroica idealidade da alma "desce dez degraus", e a ideia nacional cai a um mero "cálculo político" — "o Estado como uma grande companhia de seguros". Dessa dupla queda "esvaiu-se o brilho da vida do mundo".

Por isso, conclui ele, nenhuma humanidade conseguiu criar "um centro nacional em que a ideia divina seja a aspiração interior da ideia nacional" — "para isso só é apto este povo". E a tendência religiosa que se desviou da sua raiz "não poderá subsistir" quando a cultura social amadurecer: pessoas capazes de consciência moral exigirão uma moral mais pura do que a que ela pode dar. A própria necessidade espiritual geral fará passar "as partes turvas" depois de cumprido o seu papel — e então "restará a questão divina em toda a sua pureza", e a luz religiosa, "tirada diretamente da luz da ideia divina-nacional viva na fonte de Israel", subirá à altura da sua raiz, levando consigo "toda a riqueza espiritual acumulada justamente naqueles dias de escuridão". A quinta parte fecha com o verso e o poema do próprio Rav Kook:

וְנִשְׂגַּב ה׳ לְבַדּוֹ בַּיּוֹם הַהוּא, וְהָאֱלִילִים כָּלִיל יַחֲלֹף "E só o Eterno será exaltado naquele dia, e os ídolos de todo passarão." (Yeshayahu 2:17-18) Mahalach HaIdeot V

"Mudará e de todo passará / todo reino de idolatria; / a Tua força é eterna, de geração em geração os Teus consagrados."

VI · A reunificação — o renascimento

A capacidade do espírito nacional de Israel de "se sacudir e ressuscitar" depende da sua aptidão para receber a luz divina superior como alma da sua vida. E "o tempo fez a sua obra, e a escuridão do exílio também produziu o seu efeito". A dispersão de Israel pelo mundo "inclinou muito para o bem o curso geral do mundo": a abolição do centro nacional interrompeu o erro de pensar a ideia divina como "herança limitada a um território geográfico" — "e os vossos olhos verão, e direis: engrandecido seja o Eterno para além das fronteiras de Israel" (Malachi 1:5).

O exílio foi "a fornalha de ferro" em que a alma geral da nação se purificou. Agora que "Jerusalém recebeu da mão do Eterno o dobro por todos os seus pecados" (Yeshayahu 40:2), a nação começa a sentir a sua pureza e "o seu desejo de voltar ao renascimento". Os seus sentimentos nacionais anseiam por retornar; o desejo de voltar ao seu lugar e à sua terra cresce sem parar — "mas ela ainda não se conhece, não sabe de onde lhe veio o espírito": "no segredo do coração procura o seu amado, anseia pela luz divina".

E então — a imagem culminante — "as duas ideias, a divina e a nacional, batem como ondas rumo à sua reunificação natural no renascimento da nação que volta à sua fortaleza":

"A iluminação dos dois Templos — o Primeiro e o Segundo — encontra-se agora, junta, no retorno à Terra de Israel."

Não apenas a luz divina na forma que tomou entre as nações; nem só a ideia religiosa sozinha; nem só a ideia nacional separada — "mas a tudo isso, junto, estamos agora sendo preparados para receber". Na terra do renascimento "as forças se encontrarão, e cada uma achará na outra a cura do defeito da sua alma": da era antiga, "a força e o vigor divinos"; da posterior, "a fundamentação particular e a elaboração detalhada"; e a própria vida "acrescentará ainda novos bens". "Virão com pranto" (Yirmiyahu 31:9) — algum luto sombrio ainda enche o coração dos que voltam —, "mas, assim que uma centelha de redenção começa no espírito", logo "a nova canção cintila", e começa a ouvir-se o eco de:

וּפְדוּיֵי ה׳ יְשׁוּבוּן וּבָאוּ צִיּוֹן בְּרִנָּה, וְשִׂמְחַת עוֹלָם עַל רֹאשָׁם "E os resgatados do Eterno voltarão e virão a Sião com júbilo, e alegria eterna haverá sobre as suas cabeças." (Yeshayahu 35:10) Mahalach HaIdeot VI

Quando a ideia se encher dessa influência unificada, "então a luz se revelará sobre todos os caminhos da vida da Torá de Moshé" — e especialmente sobre os preceitos que não têm relação direta com a moral humana geral (os chukim, os mandamentos "ouvidos"): neles brilhará "a luz divina que é, na verdade, universal e desejada por toda alma bela", oculta no propósito interior do caráter nacional de Israel. Cada indivíduo então saberá que "se soma ao todo", e a luz divina voltará a brilhar sobre ele em cada ato seu. E "todos os que abandonaram a luz de D'us — e por ela foram abandonados — porque deixaram o alimento fundamental (a observância prática do judaísmo e o reconhecimento do seu valor mais sublime, o sentido divino que se revela em nós justamente por meio desse sustento concreto) — todos esses voltarão a nós", para restaurar a Israel, no seu renascimento, "o judaísmo prático em toda a sua plenitude e esplendor".

Aquelas grandes ideias, antes guardadas "no segredo mais íntimo de Knesset Israel, onde a mão da destruição não chegou", eram "segredos da Torá", transmitidos só em sussurro aos dignos. Mas agora que "o mundo se perfumou e Knesset Israel começa a sentir a sua retidão e a olhar para o exílio com vergonha e desprezo", a exigência interior pela reunificação das ideias cresceu — e todos esses tesouros ocultos "precisam revelar-se, para reanimar o fundamento do renascimento da nação desde a sua fonte". E daí, conclui, "a sabedoria de Israel e a sua verdadeira literatura podem começar a sair em socorro do nosso povo, para reanimá-lo com o orvalho do seu renascimento". O ensaio fecha com o salmo:

תִּכָּתֶב זֹאת לְדוֹר אַחֲרוֹן, וְעַם נִבְרָא יְהַלֶּל יָהּ "Escreva-se isto para a geração futura, e um povo que será criado louvará o Eterno." (Tehilim 102:19) Mahalach HaIdeot VI

O Grande Chamado — Kriá Gedolá

O título — Kriá Gedolá, "o Grande Chamado" — anuncia o tom: este é o convite final de Orot. O Rav Kook olha para os dois grandes lemas da modernidade — a necessidade (ha-hechrech) e a liberdade (ha-chofesh) — e, em vez de combatê-los, mostra como ambos, levados ao fundo, devolvem o ser humano a D'us. A "heresia" (kefirá) de que ele fala não é uma pessoa nem um povo: é o materialismo árido da sua época, personificado como uma serva que usurpou o lugar da senhora — e que, sufocada na própria secura, prepara o seu próprio fim. Traduzo a seção inteira do hebraico de domínio público.

§1–2 — A serpente que vira cajado

"A necessidade" é hoje o lema mais corrente do mundo; e justamente este "clamor da multidão" será transformado, pelas mãos dos sábios de coração e dos santos de pensamento, em "voz do Todo-Poderoso". Justamente a serpente se converterá no cajado de D'us — "com o qual se farão sinais e prodígios, para que se saiba que do Eterno é a terra". A necessidade — a necessidade da vida e a amargura do seu sofrimento — trará ao mundo a luz divina; ela preparará os corações para se abrirem e receberem "a grande luz do esplendor da fé, em toda a sua majestade".

§3 — A chama que não se deixa sufocar

Parece que o mundo se desmorona e tropeça, derretendo-se sob "a mão dura da heresia grosseira" — o monstro gasto, seco e cruel que se acocora sobre ele. Mas a chama divina se acende dentro do coração, em todo espírito e em toda alma, "levantando ondas maiores que todas as ondas do mar"; sobe aos céus e desce aos abismos nas câmaras de cada alma. E a heresia, "a serva gasta, filha da escravidão desprezada", tranca os seus ferrolhos para não ser vista por fora — pois teme muito a luz clara, sabendo que "uma só centelha pura das fagulhas da chama divina a consumirá por inteiro". Mas quanto mais ela sufoca essa alma, mais a alma "ajunta a sua força por dentro", até que, cheia a sua medida, irromperá "com trovão e estrondo, com som de fragor e torrente".

§4 — O fim do jugo de ferro

Vem um dia, e o seu prazo não tarda, em que a humanidade despertará para lançar de si os grilhões da heresia — buscando "a vingança da boa vida, da serenidade e da delícia das ideias puras" que dela lhe foram roubadas. O pânico com que a heresia confundiu o mundo, "para atordoar as mentes e os corações, afastando o homem da sua própria razão e da razão do seu Criador", passará e se aquietará; e então o entendimento sereno e ponderado — "que sabe viver e contemplar, sabe sossegar e inflamar-se" — e a força divina, que sabe fundar "uma nação firme e um povo poderoso em santidade", tomarão o seu lugar na vida.

Nota. A "serva que ousou herdar a senhora" e o "escravo que se ergueu a rei" (cf. Mishlê 30:22-23) são metáforas do materialismo que tomou o trono da cultura — não pessoas. O alvo do Rav Kook é uma ideia (o ateísmo árido da sua época), descrita com a linguagem dramática dos profetas, e o desfecho não é o ódio, mas o retorno à "razão do Criador".

§5 — A liberdade que só vive em D'us

"A liberdade — eis a aclamação (teru'á) que acompanha o toque (teki'á) da necessidade." O desejo de liberdade chegará ao seu auge, e o ser humano reconhecerá que tem o direito de viver no seu próprio espírito, "conforme a vontade poderosa e natural da sua alma viva — e esta alma só vive em D'us":

וְהַנְּשָׁמָה הַזֹּאת חַיָּה רַק בֵּאלֹהִים. בְּאֵין אֱמוּנָה עֲמֻקָּה זוֹהֶרֶת, אֵין לָהּ חַיִּים וְאוֹרָה "E esta alma só vive em D'us. Sem uma fé profunda e radiante, ela não tem vida nem luz." Kriá Gedolá §5

Quem a impede de viver em D'us? Quem prende "esta ave do céu" numa gaiola, impedindo-a de voar pela largura dos céus, "lugar do esplendor e do ar fresco, cheio de luz e de vida"? A própria alma reconhecerá o seu inimigo assim que lhe for arrancada a máscara. "A relva já desponta à boca da terra" — esse reconhecimento verdadeiro se aproxima. "Ásia, América, a Europa esclarecida e todo o mundo culto" já se cansaram de carregar o jugo pesado da heresia, "que pesa sobre o homem mais do que qualquer fé, e nada lhe dá em troca".

§6 — Águas puras, não lodacentas

Nesse estado de sede ardente, o ser humano se lançará sobre a fonte da fé — mas já foi provado, já sabe "qual foi o seu fim quando bebeu as águas da fé com todo o lodo e a lama que este grande mar lançou ao longo dos dias". Por isso desejará haurir, de todo o coração, "águas puras do regato de D'us" — não a fé turva pela superstição, mas a fé límpida.

§7 — Israel está mais perto da fonte

O espírito que toma toda a humanidade tocou também parte dos nossos. Mas "estamos mais perto do lugar da luz, mais perto da fonte da vida". Ainda que pareça que o jugo da heresia subiu ao pescoço de milhares dos nossos filhos — que se debatem "entre a vida e a morte" — "os olhos estão perto de se abrirem". Eles batem às portas da teshuvá, que só lhes parecem fechadas, "quando basta um único empurrão para abri-las de par em par":

פִּתְחוּ שְׁעָרִים וְיָבֹא גוֹי צַדִּיק שֹׁמֵר אֱמֻנִים "Abri as portas, para que entre a nação justa que guarda a fidelidade." (Yeshayahu 26:2) Kriá Gedolá §7
§8 — Uma confissão aos sábios

Aqui o Rav Kook se volta para dentro, numa confissão notável: "Nossos queridos irmãos, sábios da Torá e escritores influentes! Também nós fomos tolos e pecamos." Estudamos e pesquisamos, debatemos e inovamos, escrevemos e descrevemos — "mas esquecemos D'us e a Sua força". Não ouvimos a voz dos profetas da verdade, dos justos e dos sábios da ética e do pensamento, que clamavam que "o rio do Talmud meramente prático acabará seco e ressecado, se não trouxermos sempre para dentro dele águas do mar — as águas da sabedoria, do conhecimento de D'us e da pureza da fé que brota da nossa própria alma".

§9–10 — Chamados a iluminar o mundo

"Agora chegou o fim": somos chamados, no nosso renascimento nacional, a reivindicar "a afronta de toda a humanidade, a afronta da alma divina que foi confiada às nossas mãos para elevar e exaltar". A alma do D'us vivo "precisa espalhar-se sobre o mundo inteiro, para iluminá-lo e dar-lhe vida — a luz que sai da luz da Torá e da luz da profecia, igual para toda alma e dando vida a todo ser vivo". E a própria necessidade, "dentro da iluminação do renascimento", nos devolverá à luz da vida e libertará a fé das suas amarras — "à sabedoria original de Israel, livre de todo jugo estranho".

§11 — O Grande Chamado

E tudo culmina num único versículo — o "Grande Chamado" que dá nome à seção:

בֵּית יַעֲקֹב לְכוּ וְנֵלְכָה בְּאוֹר ד׳! "Casa de Yaakov, vinde, e andemos na luz do Eterno!" (Yeshayahu 2:5) Kriá Gedolá §11
"A serpente se converterá no cajado de D'us, para que se saiba que do Eterno é a terra."

Orot HaMilchamá — As Luzes da Guerra

Esta é a seção de Orot mais citada fora de contexto. Escrita durante a Primeira Guerra (c. 1914–18), ela é, lida por inteiro, três coisas ao mesmo tempo: (1) uma teodiceia da história — a tentativa de achar a mão oculta da redenção dentro da catástrofe; (2) um ideal anti-crueldade — o Rav Kook afirma que Israel se afastou de propósito da política sangrenta e só deseja governar "sem maldade e sem barbárie"; e (3) um clímax universalista — a renovação de Israel renova todas as culturas, e a bênção de Avraham alcança todos os povos. Traduzo a seção inteira do hebraico (domínio público), com notas honestas, porque é facilmente mal lida.

§1 — Sentido na convulsão

Quando há uma grande guerra no mundo, desperta a força do Mashiach. "Chegou o tempo da poda" — a poda dos tiranos: a maldade é extirpada do mundo, e o mundo se "perfuma", "e a voz da rola ouve-se na nossa terra". Os indivíduos que perecem sem julgamento, na convulsão da torrente da guerra, têm neles algo da "morte dos justos que expia"; e, ao fim da guerra, o mundo se renova com um espírito novo, e os "passos do Mashiach" se revelam mais. E é preciso receber — "com grande discernimento, com profunda reflexão e com sede de verdade" — o conteúdo elevado da luz de D'us que se revela mesmo nestes acontecimentos.

Nota. Isto é teodiceia, não glorificação. Diante da maior matança que vira, o Rav Kook busca um sentido na catástrofe — a imagem da "poda" (Shir HaShirim 2:12) lida como o corte da tirania. Ele não celebra o sofrimento: chama os inocentes mortos de "expiação como a morte dos justos" — linguagem de consolo diante do horror, não de aprovação dele.

§2 — A força de alma dos antigos

Olhamos para as primeiras gerações, narradas na Torá e nos Profetas — gerações que se ocuparam de guerras, e que são, ainda assim, "os grandes a quem nos ligamos com amor e santidade". O fundamento, compreendemos, era a centelha da alma: aquele estado do mundo, em que a guerra era tão necessária, fez surgir almas cujo sentir interior era inteiro. A sua luta pela sobrevivência da nação era, em consciência íntima, "a guerra de D'us"; eram fortes de espírito e sabiam, "no vale da sombra da morte", escolher o bem e afastar-se do mal (Tehilim 23:4). Ao contemplá-los, ansiamos pela sua firmeza e pela força de vida sólida que neles habitava.

§3 — Governar sem crueldade

Aqui está a chave da seção:

עָזַבְנוּ אֶת הַפּוֹלִיטִיקָה הָעוֹלָמִית מֵאֹנֶס שֶׁיֵּשׁ בּוֹ רָצוֹן פְּנִימִי, עַד אֲשֶׁר תָּבוֹא עֵת מְאֻשָּׁרָה שֶׁיִּהְיֶה אֶפְשָׁר לְנַהֵל מַמְלָכָה בְּלֹא רִשְׁעָה וּבַרְבָּרִיּוּת "Deixamos a política mundial por uma compulsão que contém uma vontade interior — até que venha um tempo feliz em que seja possível governar um reino sem maldade e sem barbárie." Orot HaMilchamá §3

"A nossa alma teve nojo dos pecados terríveis de governar um reino num tempo mau." Por isso o afastamento foi um adiamento necessário; e o que esperamos é o tempo em que possamos governar "sobre os fundamentos do bem, da sabedoria, da retidão e da clara luz divina". É o sentido de Yaakov cedendo a Essav as honras do reino — "passe o meu senhor adiante do seu servo" (Bereshit 33:14): não convém a Yaakov ocupar-se de um poder que precise estar "cheio de sangue", que exija o "talento da maldade".

Nota. Longe de exaltar a guerra, este é um ideal anti-crueldade: a vocação de Israel é um poder purificado da violência — quase o oposto do que o título "Guerra" sugere. Israel se manteve fora da política sangrenta das nações, e só quer voltar a governar quando isso puder ser feito sem barbárie.

§4 — A guerra vem do pecado; a paz é o ideal

Não fosse o pecado do bezerro de ouro, as nações que habitavam a Terra de Israel teriam feito as pazes com Israel e o reconhecido, pois o Nome de D'us sobre ele despertaria nelas temor reverente, e nenhum sistema de guerra prevaleceria — a influência seguiria "por caminhos de paz, como nos dias do Mashiach". Só o pecado causou o atraso de milhares de anos; mas o pecado do bezerro será de todo apagado, e "o mundo se reparará em paz e em sentimentos de amor", e a doçura de D'us será sentida em cada coração.

§5–7 — As nações, as guerras e o despertar de Israel

A "repressão moral" da cultura secular acumulou nas profundezas das almas dos povos muitos traços maus, que irrompem nas guerras sangrentas, próprias de uma natureza ainda não refinada. Cada nação se desenvolve pelos seus movimentos naturais, e as guerras acentuam o caráter próprio de cada uma; e Israel é o espelho geral de todo o mundo. Enquanto isso, na própria Knesset Israel, a sua cor essencial vai-se revelando: voltam a sabedoria, a coragem, a retidão e a pureza interior; a nação se reconstrói rumo à redenção. Das ondas de aflições que sobre ela passam, ela recolhe sabedoria e visão de longo alcance — "já sabe que tem uma terra, uma língua, uma literatura, um exército", e, acima de tudo, que tem "uma luz de vida própria" que a coroa e, por ela, coroa o mundo inteiro.

§8 — O fim de uma civilização de mentira

É o trecho mais difícil — e o mais facilmente abusado. O Rav Kook escreve que a culpa dos derramadores de sangue, dos "reis arrogantes da terra", está selada, e que "a terra não se expia do sangue nela derramado senão pelo sangue de quem o derramou". Daí, diz ele, a civilização presente — "que se gaba com címbalos de mentira" — terá de ser anulada, e em seu lugar se erguerá um "reino de santidade"; a luz de Israel aparecerá, para fundar um mundo de povos "de um espírito novo". E Israel "verá a queda dos ímpios" e "pisará sobre as ruínas" dos que se gabam dos "novos ídolos", como pisou sobre as ruínas da antiga Babilônia e Assíria. Mas isto, adverte ele, "é um estado momentâneo nos momentos da história": a luz da teshuvá necessariamente aparecerá, "cada um lançará fora os seus ídolos de prata e de ouro", e tudo retornará ao bem de D'us — até cumprir-se: "E acontecerá, no fim dos dias, que o monte da casa do Eterno será estabelecido no cume dos montes... e a ele afluirão todas as nações" (Yeshayahu 2:2).

Nota — leitura honesta e necessária. Esta é a passagem que mais exige cuidado. Lida em contexto, é escatológica e filha do seu momento: diante do massacre sem precedentes da 1ª Guerra, o Rav Kook argumenta que uma civilização capaz de tal carnificina — "com toda a sua sabedoria vangloriada" — provou-se fundada na mentira, e dará lugar ao "conhecimento de D'us" e à visão de paz de Yeshayahu 2. O "pisar sobre as ruínas" e a "queda dos ímpios" são idioma profético-bíblico para a queda de impérios corruptos (Babilônia, Assíria), não um programa de violência. O texto culmina não em conquista, mas em teshuvá universal e na paz de Isaías 2 — e jamais pode ser lido como licença para ódio, o que contradiria o próprio ideal de §3 (governar sem crueldade) e §4 (a paz como caminho divino).

§9 — A renovação que alcança todos os povos

A construção do mundo, que agora se desmorona sob as tempestades terríveis da espada cheia de sangue, exige a construção da nação de Israel — e isso é uno com a construção do mundo, que se despedaça e espera "uma força plena de unidade". Ninguém cuja alma palpita pode ficar quieto nesta hora grande, sem chamar a todas as forças ocultas da nação: "despertai e levantai-vos para a vossa tarefa!". A cultura mundial vacila, o espírito humano enfraquece, "a treva cobre a terra" (Yeshayahu 60:2) — e chegou a hora em que a luz do D'us verdadeiro, revelada por meio do Seu povo, precisa manifestar-se. Israel é chamado a "não beber de cisternas estranhas, mas a haurir das suas próprias profundezas".

כָּל הַתַּרְבּוּיוֹת שֶׁבָּעוֹלָם יִתְחַדְּשׁוּ עַל יְדֵי חִדּוּשׁ רוּחֵנוּ... וְכָל הָאֱמוּנוֹת יִלְבְּשׁוּ בְּגָדִים חֲדָשִׁים "Todas as culturas do mundo se renovarão pela renovação do nosso espírito... e todas as fés vestirão roupas novas." Orot HaMilchamá §9

Todas as fés "despirão as vestes sujas" e se unirão para haurir "dos orvalhos das luzes sagradas, preparados desde sempre para todo povo e todo ser humano no poço de Israel". E "a bênção de Avraham a todas as famílias da terra começará a sua obra, em força e abertamente" — e sobre esse fundamento recomeçará a nossa construção na Terra de Israel. "A destruição de agora é a preparação de uma vida nova, profunda" — uma luz de bondade suprema cintila.

"A bênção de Avraham a todas as famílias da terra começará a sua obra."
§10 — O pranto pela Presença Divina

O Rav Kook encerra não em triunfo, mas em lágrimas. Da descida do mundo e do rebaixamento da alma de Israel, a Unidade suprema separou-se da sua fonte e subiu ao alto, e no mundo só aparece "um pálido brilho da unidade inferior, haurida de cisternas quebradas". E Knesset Israel clama em dores: "ai de mim, pois a minha alma desfalece!". "Os segredos da Torá foram entregues a estranhos; a Torá arde — os pergaminhos queimam e as letras voam." Os sábios de coração levantam-se à meia-noite, "com as mãos sobre os lombos como quem dá à luz", e choram a aflição do mundo, de Israel, da Torá e da Shechiná. E sabem que todo o sangue derramado, todo o exílio e todo o ódio, são apenas "um eco fraco" daquela aflição suprema — a dor da Presença Divina separada da fonte das suas delícias. E chamam à teshuvá; "e quanto a nós, os nossos olhos estão voltados para D'us".

Orot HaTechiyá — Seleções III

Estas são algumas das páginas mais características — e mais controversas — do Rav Kook: a sua leitura do renascimento nacional do seu tempo, em que pioneiros muitas vezes não-religiosos reconstruíam a Terra. Ele vê nesse movimento uma dimensão oculta de santidade, sem por isso elogiar a transgressão. Traduzo do hebraico (domínio público), com notas honestas, pois são trechos facilmente mal lidos.

§40 — Primeiro a matéria, depois a luz

A primeira geração dos "calcanhares do Mashiach" (ikveta de-meshicha), no início do "fim revelado" do assentamento da Terra de Israel, prepara a matéria de Knesset Israel — e a espiritualidade, nessa fase, serve para guardar a vida interior. E quando a força material da nação se fortalecer, então se revelarão todas as suas qualidades espirituais sagradas, e a Torá, com todas as suas luzes, voltará ao seu vigor — para ser "coroa de glória na mão de D'us".

§43 — A nefesh e o ruach: cada um completa o outro

Esta é a passagem mais conhecida — e a mais delicada. O Rav Kook distingue duas dimensões da alma: a nefesh (a alma vital, do sentimento e da ação) e o ruach (o espírito, da fé e da Torá). E afirma: a nefesh dos "transgressores de Israel" desta época — aqueles que se ligam com amor às causas da coletividade, à Terra e ao renascimento da nação — é mais "consertada" do que a nefesh dos fiéis que não têm essa dedicação ativa ao bem do todo. Mas o ruach é muito mais íntegro nos tementes a D'us, guardiões da Torá e das mitsvot — ainda que neles o ímpeto de ação pelo coletivo ainda não seja tão forte.

E qual o reparo? Que Israel se torne uma só união: a nefesh dos tementes a D'us será curada pela inteireza dos "bons transgressores" no que toca ao todo; e o ruach desses será curado pela influência dos tementes a D'us e grandes na fé. Então virá uma grande luz a uns e a outros, e uma teshuvá completa ao mundo — "os Teus sacerdotes se vestirão de justiça, e os Teus piedosos exultarão" (Tehilim 132:9).

Nota — leitura honesta. Isto não diz que "o secular é superior ao religioso". É uma dialética de complementaridade: cada lado tem uma parte que falta ao outro — a devoção ativa ao coletivo e à Terra, de um lado; a integridade da fé e da Torá, do outro. O Rav Kook nomeia explicitamente o "espírito de desvario" e o dano dos atos que mancham; não elogia a transgressão. A sua visão é de unidade: a redenção integra as duas virtudes numa só alma.

§44 — A "rebelião" como dor de parto

Temos por tradição que uma rebelião espiritual virá em Eretz Israel, no período em que o renascimento da nação começar a despertar. O sossego material que chegará a uma parte do povo — que imaginará já ter alcançado toda a sua meta — diminuirá a alma; virão dias dos quais se dirá "não há neles prazer"; a aspiração aos ideais sagrados cessará, e o espírito afundará — até que venha uma tempestade e provoque uma reviravolta, e então se veja claramente que o vigor de Israel está na santidade eterna, na luz de D'us e na Sua Torá.

"O vigor de Israel está na santidade eterna — na luz de D'us e na Sua Torá."

A necessidade dessa fase, diz ele, é a volta à materialidade — que precisa renascer na nação com força, depois de tantos séculos de exílio em que lhe foram negadas a terra e a vida prática. Ao nascer, essa inclinação marcha com ímpeto e provoca tempestades — e estas são as dores do Mashiach (chevlei mashiach), que, por seus sofrimentos, hão de adoçar o mundo.

§45 — O vinho e as borras

Assim como não há vinho sem borras (shemarim), não há mundo sem os seus elementos grosseiros. E assim como as borras assentam o vinho e o preservam, também a vontade rude tem, paradoxalmente, um papel de sustentação no fluxo da vida. O exílio empobreceu a força vital da nação — e as suas "borras" diminuíram demais, a ponto de a própria existência ficar em risco por falta de uma vida concreta, enraizada na terra.

O retorno de Israel à sua terra, por sua existência essencial, é um evento necessário; e essa existência também "produz as suas borras": as energias turbulentas e a chutzpá dos calcanhares do Mashiach, cuja lembrança faz tremer o coração. São lados turvos — mas é através deles que se forma a existência clara e alegre. E o desfecho é: as borras assentam no fundo do barril, as forças rudes baixam às profundezas, e todo o seu conteúdo doloroso se dissolve. Por ora, enquanto sobem junto com o vinho — a vida da nação que desperta —, turvam-no, e os corações se agitam ao ver a fermentação; o coração só repousa ao contemplar o futuro, que segue o seu curso pelas maravilhas do "Perfeito em conhecimento".

מִי יִתֵּן טָהוֹר מִטָּמֵא? לֹא אֶחָד "Quem fará sair o puro do impuro? — o Único [D'us]." (lido pelos Sábios como: só o Um pode fazê-lo.) Iyov 14:4

Nota. A imagem das borras não santifica o mal — diz que, num momento histórico, energias rudes têm um papel de sustentação, mas que precisam assentar, e que o conteúdo doloroso se dissolverá. É uma teologia da história: o Rav Kook lê a sua geração turbulenta com paciência e esperança, confiando que o processo "vai fazendo o seu caminho" rumo à pureza.

Orot HaTechiyá — Seleções II

Depois da abertura de Orot HaTechiyá (traduzida em O Renascimento), esta é uma seleção de três das suas passagens mais amadas. Traduzo-as do hebraico (de domínio público), buscando preservar a sua força. Por serem trechos longos e densos, condensei a redação em alguns pontos, mantendo o argumento.

§16 — O trabalho é sagrado

É evidente que o justo faz todos os seus atos em santidade, e que todas as suas ações físicas se elevam para o reparo do mundo (tikun olam). Eis o "amor ao trabalho" (melachá), cuja grandeza é tão alta que foi dado em aliança, como a Torá foi dada em aliança. Não há dúvida, então, de que a reparação do mundo e a expansão da luz sagrada se encontram em todo trabalho: cada gesto que resgata uma parte da existência do domínio do caos é algo grande e universal.

Quando há justos na geração, sobre quem a luz de D'us repousa, eles unem a sua alma à alma de toda a coletividade, e o pensamento íntimo das multidões que trabalham se une ao deles. E o lado de "maldição" que há no trabalho — o que nasce da inveja e do ódio alimentados pela luta da vida na sua forma amarga — vai-se purificando, e passa do âmbito do maldito ao do bendito: "Maior é quem desfruta do fruto do seu próprio trabalho do que o temente do Céu" (Berachot 8a).

E assim como há força para fazer fluir a santidade em todos os ofícios, há força para trazer luz sagrada a todas as línguas e a todas as ciências do mundo. Por isso os grandes justos devem orar para que a luz da bondade de D'us se estenda por todas as ciências e línguas — de modo que de todo lugar apareça a glória de D'us, e de todo lugar se espalhem os raios de luz da Torá. E quanto mais se amplie o trabalho na Terra de Israel, mais a lavoura e o ofício sairão, por meio de Israel, da sua baixeza amaldiçoada — e a vida eterna e a vida do instante se entrelaçarão num laço firme.

É notável: o Rav Kook não opõe o "sagrado" ao "trabalho", à ciência ou à cultura. Pelo contrário — ele quer que a luz divina penetre todo ofício, toda língua e toda ciência, até que "de todo lugar apareça a glória de D'us".

§17 — A fé e o amor

A fé e o amor estão sempre unidos: quando ambos brilham na alma em plenitude, e a luz de um se completa, desperta o outro com força. O ser humano não é capaz de nenhuma força espiritual com perfeição tão grande quanto a da fé e do amor — sinal de que neles repousam os fundamentos de toda a sua essência. Deles emanam todas as luzes espirituais do mundo, que iluminam todos os caminhos da vida.

הַתּוֹרָה הִיא הָאַהֲבָה, וְהַמִּצְווֹת – הָאֱמוּנָה "A Torá é o amor; e as mitsvot, a fé." Orot HaTechiyá §17

A fé e o amor são a própria vida, neste mundo e no vindouro: nada permanece vivo quando se lhe arrancam essas duas luzes. A cultura do tempo, como hoje se assenta no mundo, está construída sobre a descrença e o ódio — que negam a vida essencial; e não há como vencer essa doença senão revelando os tesouros de bem guardados na fé e no amor. A Torá e as mitsvot são os canais por onde elas fluem sempre.

Por isso ansiamos pelo renascimento da nação e da Terra: para reerguer o estado da nossa alma, para manter Israel vivo, para reavivar a fé e o amor com o vigor da Torá e das mitsvot. Pedimos, por isso, muita Torá; aspiramos a uma saúde plena e a um corpo forte; e buscamos muitas mitsvot — para termos vasos suficientes que contenham a grande luz da fé e do amor, com todo o seu deleite e toda a sua força.

§18 — As três forças: o sagrado, a nação e o humano

Talvez a passagem mais célebre desta seção. Três forças se digladiam hoje no nosso meio — e a sua guerra é mais visível na Terra de Israel. Seríamos infelizes se deixássemos essas três forças — que precisam unir-se em nós, cada uma fortalecendo a outra e contendo os exageros que a outra poderia trazer — dispersas, em rebelião umas contra as outras, divididas em campos inimigos.

הַקֹּדֶשׁ, הָאֻמָּה, הָאֱנוֹשִׁיּוּת "O Sagrado, a Nação, a Humanidade." Orot HaTechiyá §18

O Sagrado, a Nação e a Humanidade — eis as três exigências fundamentais de que toda a vida, a nossa e a de todo ser humano, se compõe; não há forma de vida humana que não seja composta das três. O Rav Kook identifica três grupos no povo: o ortodoxo, que carrega a bandeira do sagrado — pela Torá, as mitsvot e a fé; o nacional, que luta por tudo a que a aspiração nacional anseia, e que acolhe o bem que reconhece no espírito de outros povos; e o liberal, que ergue a bandeira da cultura e busca o conteúdo humano universal.

É claro — diz ele — que, num estado saudável, há necessidade das três forças juntas; e devemos sempre aspirar a esse equilíbrio, "sem falta nem excesso", em que o sagrado, a nação e o homem se unam "com amor nobre e prático". Mais ainda: cada um deve reconhecer não só o lado positivo da força do outro, mas até o valor que há no lado negativo de cada força — porque a oposição de uma à outra a põe na sua justa medida e a salva do excesso perigoso. É como o serviço difícil do Templo, a kemitsá: "que não falte e que não sobre".

"O sagrado, a nação e o homem hão de unir-se — com amor nobre e prático."

E quando colocamos o sagrado entre as três forças — cada uma cedendo às vezes para dar lugar à outra —, isso vale apenas para o lado técnico e prático do sagrado; pois a essência do sagrado supremo é o portador universal de tudo, e até esse "recolher-se" faz parte do seu serviço. A ideia divina, em si, é livre de todo limite — e quem caminha com retidão nas veredas medidas da justiça acaba conduzido, também, à amplidão sem fronteiras: "Do aperto clamei a D'us; respondeu-me com amplidão" (Tehilim 118:5).

O Indivíduo e a Coletividade

Esta seção responde a uma pergunta antiga: o que liga uma pessoa ao seu povo? O Rav Kook dá uma resposta que distingue Israel de toda outra nação — e que tem uma consequência ética imediata: como o vínculo é moral, cada gesto de elevação de um indivíduo fortalece o todo, e cada queda o enfraquece. Traduzo os oito capítulos do hebraico (domínio público).

Capítulos 1–2 — Um vínculo feito de moral

Knesset Israel está fundada inteiramente sobre a base da moral divina suprema. Por isso, toda elevação moral encontrada nos seus indivíduos lhe acrescenta força; e, ao contrário, a queda moral, na medida da sua feiura, enfraquece a sua força e o vínculo dos indivíduos com o todo. É por isso que a salvação de Israel depende da teshuvá — da melhora moral no ato, no sentimento e no intelecto — diferentemente de outros povos.

Há povos cuja força de coesão é justamente uma aspiração de domínio sem ideal de justiça — e que podem, por isso, fortalecer-se até pela intensificação do mal. Não assim Israel: o vínculo dos seus indivíduos com o todo não se pode fundar em outra lei senão na lei suprema do amor ao bem mais elevado. Por isso, todo ato que brota — direta ou indiretamente — desse bem supremo fortalece a sua força; e abandoná-lo a enfraquece. E como a ideia-alma de Knesset Israel é a moralidade, toda falha moral, conforme o seu grau, afasta o indivíduo da sua ligação com a alma da nação.

Capítulo 3 — A alma haurida do todo

Aqui está o coração da seção. A relação de Knesset Israel com os seus indivíduos é diferente de toda relação de uma coletividade nacional com os seus. Todas as coletividades nacionais dão aos seus indivíduos apenas o lado exterior da essência; a essência mesma, cada pessoa a haure da alma do Todo, da alma de D'us — não por meio da coletividade, pois esta não tem em si uma entidade divina própria. Em Israel, não: a alma dos indivíduos é haurida da fonte da Vida dos Mundos no tesouro do coletivo, e o coletivo dá alma aos indivíduos.

"A alma dos indivíduos é haurida no tesouro do coletivo — e o coletivo dá alma aos indivíduos."

E os canais dessa nutrição da alma passam, em Israel, pelas mitsvot, a palavra de D'us: o grande espírito, em que repousa a luz divina, encarnou-se — desde os Patriarcas — em atos concretos que caminham com a vida. Cada indivíduo, ao cumprir as mitsvot, acrescenta luz à alma do todo, com o selo que nela imprime do que é seu; e essa ação é viva, que vivifica e acrescenta força — até que a santidade se eleva, a forma humana se enche de luz, e os mundos se enchem de alegria, "da luz da Torá e da lâmpada da mitsvá".

Capítulo 4 — Por que o vínculo precisa ser nutrido

A verdadeira relação de cada um em Israel com a coletividade — no sentido espiritual pleno, que abarca a vida moral, espiritual e natural — precisa de nutrição constante, mais do que precisa o membro de uma nação natural para a sua ligação ao povo. As inclinações naturais não exigem tanto reforço quanto as morais, que pedem cultivo contínuo no estudo e no ato. Por isso as nações cuja existência se volta sobretudo às inclinações naturais influem nos seus indivíduos sem necessidade de nutrição especial; mas em Israel, onde o laço se volta para o lado moral e ideal, esse vínculo precisa de fortalecimento contínuo. E o melhor alimento é o estudo da Torá em todos os seus lados — incluindo o estudo histórico — e o cumprimento das mitsvot com fé profunda, iluminada pela luz do conhecimento.

Capítulos 5–6 — A beleza interior que atrai

Quando cresce a força material da nação, a sua alma se expande e cresce, e todos os indivíduos haurem, cada um conforme o seu canal, vida da sua fonte geral. E o que atrai o coração de cada filho é a beleza interior de Knesset Israel — a graça divina derramada sobre ela, uma suavidade suprema que nenhuma nação e nenhum indivíduo isolado consegue alcançar. Como dessa graça se estende um "fio de bondade" até cada indivíduo, é por esse pequeno fio que ele sente a beleza elevada do todo — e a ela se liga com um laço firme.

Capítulos 7–8 — Elevar o todo

Quanto mais cresce o ruach hakodesh na nação, mais cresce o laço entre os indivíduos e o todo. E o movimento é de mão dupla: assim como a vontade divina suprema, que habita na totalidade da nação, dá da sua força o espírito sagrado aos indivíduos dignos dela, também cada indivíduo que se torna apto — pelo bem absoluto, pela moral pura, fortalecida com conhecimento — eleva a alma de toda a nação, na medida em que anseia por elevá-la, e a faz passar da potência ao ato.

כָּל הָעוֹסֵק בַּתּוֹרָה וּבִגְמִילוּת חֲסָדִים וּמִתְפַּלֵּל עִם הַצִּבּוּר... מַעֲלֶה אֲנִי עָלָיו כְּאִלּוּ פְּדָאַנִי לִי וּלְבָנַי מִבֵּין אֻמּוֹת הָעוֹלָם "Todo aquele que se ocupa da Torá e de atos de bondade e reza com a comunidade — diz o Santo, bendito seja — considero como se ele Me tivesse redimido, a Mim e aos Meus filhos, dentre as nações do mundo." Talmud, Berachot 8a

Eis a grandeza ética desta visão: o indivíduo nunca está sozinho. Quando estuda, faz bondade e reza com a comunidade, ele não apenas se aperfeiçoa — participa da elevação de todo o povo, e, por assim dizer, da própria redenção.

A Singularidade de Israel

"Segulá" é uma palavra difícil de traduzir: a qualidade própria, o tesouro singular de algo. Nesta seção o Rav Kook explora o que seria a segulá de Israel — e o faz de um modo que surpreende: não opondo fé e razão, mas exigindo as duas em plenitude; e não opondo Israel à humanidade, mas mostrando que o amor a todos só é saudável quando brota da clareza, e não do apagamento. Traduzo os nove capítulos do hebraico (domínio público).

Capítulo 1 — Fé e intelecto, cada um em plenitude

A fraqueza humana faz com que, quem é apto à investigação intelectual, enfraqueça a inclinação à fé; e quem é pleno na fé tenda a diminuir no intelecto. Mas o caminho reto é que nenhuma força diminua a outra: a fé deve ser tão completa como se não houvesse possibilidade alguma de investigação; e a sabedoria, tão aguçada como se não houvesse fé alguma na alma. Para Israel, diz o Rav Kook, a fé firme é natural — herança da revelação da Shechiná —, ao passo que a negação lhe é antinatural. Por isso é tão boa a simplicidade da fé na sua pureza, "clara como o sol". E é por isso que Pessach se liga a Shavuot pela contagem do omer: ela une a oferta de cevada (alimento animal, o sentimento natural) ao trigo (alimento humano, a elevação intelectual) — pois ambas as forças revelam todo o seu valor quando aparecem inteiras e, depois, se unem numa só ordem.

Capítulo 2 — Dois sistemas no serviço de D'us

O serviço de D'us divide-se em dois. O primeiro nasce do reconhecimento de que se deve honrar o Criador, agradecer-Lhe e glorificar o Seu Nome — e disso resultam os atos religiosos definidos. O segundo vem não só manifestar a honra de D'us, mas melhorar a vida do indivíduo e do todo: "ordenou-nos o Eterno cumprir todos estes estatutos para o nosso bem". Mesmo aos povos, a quem não foi revelada a legislação prática, pode formar-se uma religião com expressões de santidade. Mas a tarefa específica de estabelecer na prática a vontade de D'us no mundo — o lado do mishpat, da justiça concreta — exige a força da profecia completa, que se deu a Israel pelo senhor dos profetas, a quem a palavra de D'us se revelou "face a face".

Capítulos 3–4 — O valor que não se vê de imediato

Há um valor que não se mede pela utilidade imediata. Honrar um talmid chacham (sábio da Torá), por exemplo, não é só pela sua utilidade prática, mas pela santidade que a própria Torá opera pela existência dos sábios em Israel. É como "uma vela ao meio-dia": inútil pela luz que dá, mas valiosa pela honra que expressa. É como a lua, cujo brilho de dia não serve para iluminar, mas que ainda assim marca os tempos e anuncia a glória do Nome. Assim também Knesset Israel atua muito pelo seu valor espiritual no mundo, mesmo quando, sob o domínio das nações, as suas ações não são reconhecidas no plano material.

Capítulo 5 — O amor universal de Avraham

Eis um capítulo que precisa de atenção. A amplitude do coração, que às vezes vem para incluir toda a humanidade no amor especial revelado a Israel, precisa ser examinada — diz o Rav Kook. Quando ela brota da clareza do reconhecimento da santidade de Israel, e dessa luz se espalha o amor "com bom olho" sobre todo povo e toda pessoa, essa é a medida de Avraham, nosso pai, "pai de uma multidão de nações":

וְנִבְרְכוּ בְךָ כֹּל מִשְׁפְּחֹת הָאֲדָמָה וּבְזַרְעֶךָ "E em ti se bendirão todas as famílias da terra — e na tua semente." Bereshit 12:3; 28:14

Mas há também — adverte ele — um "amor universal" que nasce do apagamento da clareza, da diluição do reconhecimento da raiz sagrada; e esse, diz o Rav Kook, é "venenoso" e destrutivo. Em outras palavras: o amor a toda a humanidade é o ápice — quando é o amor de Avraham, que ama os povos a partir da sua fé firme, e não às custas dela.

Repare na dialética: não é a particularidade contra o universal, nem o universal contra a particularidade. É o universal que se sustenta sobre uma identidade clara — como em Avraham, cuja bênção alcança "todas as famílias da terra" justamente porque ele sabia quem era.

Capítulo 6 — A diversidade contida num só povo

Os muitos caracteres distribuídos entre os povos estão contidos, juntos, em Israel. Por isso ele é mais propenso a divisões internas — e, por isso mesmo, pode ser "um povo que habita à parte", sem que lhe falte nenhuma inclinação ou talento: "uma cidade que tem tudo — dela os seus sacerdotes, dela os seus profetas, dela os seus príncipes, dela os seus reis". E o que protege contra a fragmentação é a Torá inteira: de todas as diferenças de opinião e tipo, ela faz surgir o bem geral que une a todos — a multiplicidade das forças é boa para a nação quando se unem na raiz da sua existência, que é a Torá.

Capítulo 7 — Não suportamos a desunião

Mais do que qualquer povo, não conseguimos suportar a contradição e a falta de unidade interior. A segulá eterna em nós é a paz e a união na sua forma ideal. Por isso toda a nossa dispersão é apenas temporária — e estamos destinados a unir-nos e a ser "uma só nação na terra".

Capítulo 8 — A dignidade e a influência do ser humano

Há uma revelação que, segundo o Rav Kook, é peculiar a Israel: a do grande valor do ser humano — da influência real do seu espírito, da sua vontade e do seu intelecto sobre a existência. O mundo, em geral, está longe disso: quase todos pensam que o homem é apenas passivo diante da realidade, influenciado e não influente. Mas quanto mais o homem conhece o seu valor, mais o seu valor realmente cresce. E a moral de Israel não é só individual, nem só familiar e nacional, nem só humana universal — embora tudo isso esteja nela: na sua raiz, ela é divina, a Torá de D'us, Criador do mundo — uma Torá que é, por assim dizer, a continuação da própria criação.

Capítulo 9 — Unir o espírito e a matéria

A unidade revelada entre o mundo moral, espiritual e intelectual e o mundo material, prático e social exprime-se no mundo por meio de Israel; e a segulá da Terra de Israel é estabelecer essa unidade, que dá uma face nova a toda a cultura humana. E quando a singularidade do renascimento de Israel se revelar na sua plenitude na Terra, há de cumprir-se, à vista de todos os povos: "somente um povo sábio e entendido é esta grande nação".

"E em ti se bendirão todas as famílias da terra."

A Santidade de Israel

Esta seção tem uma surpresa para quem imagina a santidade como fuga do mundo: para o Rav Kook, o sagrado desce ao corpo, à terra e à vida prática. A santidade de Israel não é um espírito que despreza a matéria — é a luz que a penetra e a eleva. Traduzo aqui os nove capítulos a partir do hebraico (de domínio público).

Capítulos 1–2 — O presente tão sagrado quanto o futuro

Quando o essencial é a nação — quando Israel é reconhecido como um centro a partir do qual irradia a luz universal de toda a existência —, então cada coisa particular se eleva à sua meta divina, e as centelhas sobem por cada ação e cada pensamento; e o presente da vida torna-se tão sagrado quanto o futuro. E pelo fato de haver muitos em Israel que sempre abarcam o conteúdo espiritual da nação na sua raiz sagrada, acrescenta-se a todo o povo um espírito de vida e uma luz interior que o anima e o liga.

Capítulo 3 — Quando a própria carne se santifica

A aliança da carne — a brit milá — é o sinal de que a santidade alcança o corpo, literalmente. E o mesmo vale para o mundo: tirar a terra da sua maldição, fazer penetrar a luz do conhecimento, da retidão e da santidade em todas as camadas práticas da vida, no fundo da sua interioridade — assim como ocorre no ser humano, ocorre no mundo inteiro, que se prepara para a alegria de D'us nas Suas obras. O intelecto pode pairar e abarcar; mas penetrar a profundeza da carne, refinar a vontade fundamental para que os seus valores sejam plenos de verdade e justiça — isso só se dá pelo conselho de D'us sobre a herança que é Sua: Israel, semente de Avraham que O amou.

Capítulo 4 — A imagem divina em cada um

Em cada um de Israel, do maior ao menor, arde e ilumina a luz do D'us vivo, em esplendor sagrado. Os Sábios chegam a dizer que "quem fere o rosto de um israelita é como se ferisse, por assim dizer, o rosto da Presença Divina". Enxergar em cada pessoa uma manifestação do divino é fruto da centelha profética.

Capítulo 5 — A saúde do povo como alicerce

Aqui está uma das ideias mais características — e surpreendentes — do Rav Kook:

כְּשֶׁעַם הַקֹּדֶשׁ יִהְיֶה בָּרִיא וְחָזָק בְּגוּפוֹ, תִּתְגַּבֵּר וְתִתְחַזֵּק הַקְּדֻשָּׁה בָּעוֹלָם "Quando o povo sagrado for saudável e forte no seu corpo, a santidade se fortalecerá no mundo." Orot · Kedushat Israel 5

Quando as crianças de Israel forem fortes, saudáveis e firmes, o ar do mundo será santo e puro. A saúde e o vigor físico da coletividade são fundamento para a luz do mundo, para a pureza das qualidades, para a elevação da justiça e a vitória da moral. O desenvolvimento da força corporal em Israel fará brotar, da potência ao ato, forças anímicas maravilhosas — e a luz suprema da Torá encontrará a base firme que merece.

É o Rav Kook que vê valor espiritual no corpo são e no exercício da força — não como fim, mas como base sobre a qual a alma se ergue. A santidade, para ele, não despreza a vida; ela a quer inteira.

Capítulo 6 — A força a serviço da santidade

É verdade que o mundo, e também Israel, precisam de homens de força. Mas o que dá ao heroísmo um curso vivo, afinado com a natureza original da nação, é justamente a exigência da santidade, da Torá e da mitsvá: a grandeza da compreensão, a pureza da vida e a sua santidade. A força sem essa raiz não basta.

Capítulos 7–8 — Uma falta que é doença a ser curada

Na verdade, a ausência de ruach hakodesh em Israel não é mera imperfeição: é um defeito, uma doença — e em Eretz Israel, uma doença dolorosa, que necessariamente há de ser curada.

כִּי אֲנִי יְהוָה רֹפְאֶךָ "Pois Eu sou o Eterno que te cura." Shemot 15:26

E é em Eretz Israel que se pode perceber como a própria carne do corpo é santa, como a santidade da alma. Ali não é tão necessário afligir o corpo, mas elevá-lo e fazê-lo provar o sabor verdadeiro da vida sagrada que flui da santidade da Terra — embebida no ar de Eretz Israel que torna sábio.

Capítulo 9 — O convite ao retorno

É uma mitsvá saborear, de boca cheia, a doçura do esplendor da santidade viçosa de Eretz Israel. E é preciso anunciar a todo o mundo — aos humilhados do exílio escuro — que o canal da vida plena, cheia de luz e de doçura sagrada da terra amada, começou a abrir-se.

הַנִּצָּנִים נִרְאוּ בָאָרֶץ עֵת הַזָּמִיר הִגִּיעַ וְקוֹל הַתּוֹר נִשְׁמַע בְּאַרְצֵנוּ "As flores apareceram na terra, chegou o tempo do canto, e a voz da rola ouve-se na nossa terra." Shir HaShirim 2:12

A terra amada chama pelos seus filhos; estende os braços com amor e sobre todas as faltas cobre com o seu afeto. "Voltai, voltai, filhos exilados, ao colo de vossa mãe." E se, no princípio da revelação, vemos apenas raios finos de luz, em breve a claridade irromperá e encherá toda a largura da nossa terra.

"As flores apareceram na terra; chegou o tempo do canto."

Israel e as Nações

Esta seção precisa ser lida junto da anterior, Amor a Israel, onde o próprio Rav Kook afirma que "o amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano", e que odiar qualquer parte da humanidade é sinal de alma ainda não purificada. É essa a chave de leitura: a "distinção" de Israel, aqui, é uma distinção de missão — um encargo de servir e elevar — e não um pretexto de desprezo. Alguns trechos desta seção estão entre os mais citados fora de contexto na obra do Rav Kook; traduzo-os fielmente do hebraico (domínio público) e, onde necessário, acrescento uma nota honesta.

Capítulo 1 — Três centros que irradiam

Tudo o que diz respeito a Israel não é coisa limitada a um círculo privado e estreito: está concentrado num centro especial e, do centro, influencia toda a circunferência. Israel entre os povos, a Terra de Israel entre as terras, a Torá de Israel entre todas as doutrinas e fés — são três centros nos quais se guardam tesouros de vida e luzes eternas, para nutrir, elevar e santificar o mundo inteiro. Israel, como nação singular, abençoada na profundidade da sua santidade e do seu anseio divino, influencia toda a circunferência dos povos para refinar a alma nacional de cada povo e aproximar todos de uma estatura mais sublime e nobre. A Terra influencia todas as terras, para elevá-las; e a Torá há de lançar uma grande luz sobre as várias correntes de fé, removendo delas a escória e iluminando-as com a santidade.

Capítulo 2 — Os dons foram espalhados

D'us fez uma bondade com o Seu mundo: não pôs todos os talentos num só lugar — nem num só homem, nem num só povo, nem numa só terra, nem numa só geração. Os dons estão espalhados, e a busca da perfeição é o que atrai à unidade elevada que há de vir: "naquele dia o Eterno será Um e o Seu Nome Um" (Zechariá 14:9). Por isso, para unir o mundo, certos talentos faltam de propósito em Israel, para serem completados pelos povos — "a beleza de Yefet nas tendas de Shem". Há, então, lugar para Israel receber do mundo; mas o receber é exterior, e a influência é interior: a vida interior é plena em Israel, e dessa plenitude ela só dá, não recebe.

Capítulo 3 — Recolhimento na prática, amplitude no espírito

A disposição universal sempre enche o coração dos mais refinados de espírito; por isso eles se sentem sufocados quando os fecham apenas no círculo do seu próprio povo. Mas a nação em cuja alma a universalidade plena está escondida — "os nobres dos povos, o povo do D'us de Avraham" — precisa de atos concretos que gravem o seu caráter por dentro, e sobre eles repousam ideais universais elevados. Recolhimento prático e amplitude espiritual juntos — eis a marca de Israel: "um povo que habita à parte" e "luz para as nações", ao mesmo tempo. Por isso Knesset Israel não silencia o seu canto interior: com a sua força geral, abraça a multidão dividida, adoça a sua amargura e une toda a nação.

Capítulo 4 — Conhecer a D'us pela humildade

Toda ideia falsa que arruína o mundo nasce, em geral, do desejo de ascender sem limite e sem o devido preparo — o que provoca a queda. A idolatria quis aproximar-se de D'us pelos sentidos e caiu na sua baixeza, porque quis subir aonde não se pode subir sem adquirir as preparações necessárias. O cume do conhecimento de D'us é aquele que Moshé alcançou pela sua grande humildade — "nenhum homem Me verá e viverá", "não poderás ver a Minha face": saber a porção que se conhece e a impossibilidade de conhecê-Lo plenamente.

Daí o Rav Kook avalia as grandes religiões pela sua concepção de D'us: o cristianismo, diz ele, supôs "conhecer" D'us, medindo o Imensurável pela medida moral humana — e, dessa ilusão de conhecer o que não se pode conhecer, aproximou-se de conceitos que beiram a corporificação do divino. O Islã, por sua vez, supôs reconhecer a essência divina pela sabedoria e pela força. O argumento de fundo é filosófico: toda concepção positiva de D'us por uma medida criada é, em si, uma forma de idolatria conceitual; o conhecimento verdadeiro e duradouro é o que transcende toda razão e todo sentimento, selado pela humildade e pela impossibilidade de apreensão.

Nota. Este capítulo é uma crítica teológica, na linha racionalista (a "teologia negativa" do Rambam): o alvo não são pessoas, mas conceitos de D'us. Rav Kook sustenta que qualquer descrição positiva do Infinito por medidas humanas distorce — e que mesmo "desvios da linha de Israel" carregam esse risco. É um argumento sobre ideias, não um chamado ao desprezo de quem quer que seja.

Capítulo 5 — Por que "a névoa cobre os povos"

Nutrir-se da luz divina pura — cuja grandeza é a humildade do "fim do saber é não saber" — exige que todos os sentimentos e pensamentos estejam afinados com essa fonte. E isso só é possível quando a própria nação de onde o indivíduo vem está fundada, na sua espiritualidade, sobre o bem divino. O Rav Kook é honesto também quanto a Israel: a queda pelo pecado trouxe também a nós uma "rudeza", e a negação áspera dos "calcanhares do Mashiach" (ikveta de-meshicha) tem, paradoxalmente, a função de purificar a luz de toda imagem positiva indevida. Ainda assim, no mundo, nenhum povo está, por ora, preparado para essa luz pura — por isso "a névoa cobre os povos"; e só quando formos o que devemos ser, a singularidade suprema retornará a toda a humanidade.

Capítulo 6 — Uma luz que não se turvou

Nenhuma das imagens do mundo deixou marca na essência interior de Knesset Israel. Nenhuma cultura que dominou o espírito humano conseguiu turvar um só ponto do esplendor da sua luz divina livre. "Ela é íntegra (temimah)... caiu e não tornará a cair — levanta-te, virgem de Israel."

Capítulos 7–8 — A distinção é da alma, não só dos atos

Poderíamos pensar que a única diferença entre Israel e os povos está nas mitsvot práticas. Mas isso é um engano: o fundamento anímico sobre o qual a ideia se constrói é a substância essencial que distingue Israel — e dela é que fluem todas as distinções práticas. Mesmo quando estas se ferem, não alcançam o fundamento supremo. E há um percurso: parecia que primeiro a forma humana universal se aperfeiçoaria, e só então se acrescentaria o espírito singular de Israel; mas o espírito humano decaiu, e foi preciso o exílio do Egito como "forno de ferro" para refinar o lado humano em Israel, até torná-lo uma nova criatura — "Yaakov e Israel".

Capítulos 9–10 — O ponto que distingue

Comparando o homem e os outros animais, podemos listar muitas semelhanças; e, no entanto, o ponto de que depende a superioridade humana abarca toda a dignidade do homem, que ele não trocaria por riqueza alguma. Assim também — diz o Rav Kook — a diferença entre a religião de Israel e as demais, mesmo as que dela derivaram: há muitas semelhanças exteriores, mas o ponto interior que as distingue não se apaga; a semelhança é externa, e o interior é inteiramente diverso. E é nesse sentido que ele escreve a frase mais debatida da seção:

הַהֶבְדֵּל שֶׁבֵּין הַנְּשָׁמָה הַיִּשְׂרְאֵלִית... וּבֵין נִשְׁמַת הַגּוֹיִם כֻּלָּם... גָּדוֹל וְעָמֹק יוֹתֵר מֵהַהֶבְדֵּל שֶׁבֵּין נֶפֶשׁ הָאָדָם וְנֶפֶשׁ הַבְּהֵמָה "A diferença entre a alma de Israel... e a alma de todos os povos... é maior e mais profunda do que a diferença entre a alma do homem e a alma do animal — entre estes há diferença quantitativa; entre aquelas, uma diferença qualitativa, de essência." Orot Yisrael 10

Sobre esta passagem — leitura honesta. É um dos trechos mais citados fora de contexto do Rav Kook, às vezes para acusá-lo de racismo. No seu próprio sistema, "alma" (neshamá) aqui é uma categoria metafísica e coletiva — a vocação espiritual de Knesset Israel como entidade —, não uma afirmação biológica ou de superioridade de indivíduos. A própria comparação que ele usa (homem/animal) é técnica: aponta uma diferença de tipo, de papel, não de valor humano. E lê-la como desprezo contradiz o mesmo autor, que poucas páginas antes escreveu que o amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano, e que toda esta seção tem por tese a missão de elevar e unir os povos. É assim — e só assim — que a tradição a entende.

Capítulo 11 — A humanidade como uma só família

A humanidade é digna de unir-se toda numa só família, cessando as contendas que nascem das divisões entre os povos. Mas o mundo precisa do refinamento pelo qual a humanidade se aperfeiçoa na riqueza dos caracteres próprios de cada nação. Essa falta Knesset Israel a completa — pois a sua natureza é como um grande tesouro de espíritos, que abarca todo talento e toda inclinação elevada. Na sua plenitude, todo o bem que vem da diversidade dos povos será preservado no mundo, e então não haverá mais necessidade de divisão: todos os povos serão uma só unidade, e sobre eles, como um tesouro sagrado, "um reino de sacerdotes e uma nação santa".

"A humanidade é digna de unir-se toda numa só família."
Capítulos 12–13 — Todas as luzes, de uma vez

Em cada época, Knesset Israel revela uma das muitas formas das suas luzes; o seu futuro é a expansão de todas as luzes ao mesmo tempo — incluindo as que se manifestaram entre os diversos povos por meio dela. Tudo o que parece separado ou oposto a ela só assim parece enquanto separado da sua fonte; quando tudo retornar a aparecer nela como um, ver-se-á que tudo se harmoniza. A criação divina aspira sempre a uma forma mais completa; e, enquanto entre os povos essa luz é "fogo consumidor" das formas que passam, só em Israel a natureza nacional encontra repouso, e o fogo de D'us nela é luz que aquece e ilumina — não que queima. "E vós, que vos apegais ao Eterno vosso D'us, estais todos vivos hoje."

Capítulos 14–15 — Um remédio de vida para o mundo

Temos nas mãos um remédio de vida (sam chayim) para o mundo inteiro, no sentido nacional. É regra da história que as nações morrem e passam — quase todos os povos antigos desapareceram. Mas ser um povo vivo e atuante, firme o bastante para vencer crise após crise, não se viu no mundo senão em Israel — pelo Nome de D'us a ele ligado e pelo remédio da Torá de vida que traz consigo; e esse remédio há de sair de nós para todo o mundo. Até a redenção futura, influenciamos o mundo apenas com o ensino dos deveres — e o mundo resiste a deveres; mas, quando a luz se revelar, o mundo saberá que dela recebe os caminhos da verdadeira alegria de viver — e a alegria todos desejam.

Capítulo 16 — A liberdade suprema

Knesset Israel caminha para a sua libertação suprema — a libertação espiritual da sujeição aos reinos e às imaginações dos povos, que nascem da cegueira de quem vê o mundo só por fora. E a sede de liberdade sentida em todas as camadas, mesmo nos mais distantes, no fundo se nutre desse anseio pela libertação maior, pelo "mundo da liberdade" (alma de-cheiru) — em que "a voz, a voz de Yaakov" não sofrerá mais influência alguma de Essav; e do nascente ao poente o Nome de D'us será grande.

Amor a Israel (Ahavat Israel)

Poucos temas são tão centrais — e tão mal-entendidos — quanto o amor ao próprio povo. Há quem o confunda com fechamento e desprezo aos outros. O Rav Kook faz o contrário: mostra que o amor verdadeiro a Israel exige o amor a toda a humanidade, e que até as nossas divisões e ódios, quando elevados, podem tornar-se construção. Traduzo aqui os dez capítulos da seção Ahavat Israel, a partir do hebraico (de domínio público).

Capítulo 1 — Não é só sentimento

O amor a Israel — e a obra de defesa (advocacia) em favor da coletividade e de cada indivíduo — não é apenas um trabalho do sentimento. É um grande ramo da Torá, uma sabedoria profunda e ampla, de muitos ramos, todos brotando e sugando da seiva e do orvalho da luz da Torá de bondade.

Capítulo 2 — A luz oculta em cada alma

O amor a Israel é fruto da fé na luz divina de Knesset Israel — uma qualidade essencial (segulá) que não se afasta dela em todas as mudanças dos tempos. Esse amor supremo precisa despertar, sobretudo, no tempo da decadência da nação: quando se veem o desprezo do sagrado e o aviltamento da fé com toda a força, é então que cabe discernir que, apesar de tudo, a força de Israel diante do seu D'us permanece grande; e contemplar a luz interior que penetra o espírito da coletividade — e que tem morada também em cada alma de Israel, revelada ou oculta, mesmo na alma que muito se desviou.

Quem defende com verdade essa luz — o tzaddik que ama a essência da nação com toda a força da sua vida — é ele próprio elevado acima da baixeza da vida grosseira; e a sua ação retorna sobre toda a nação e os seus indivíduos, despertando neles a graça e abrindo-lhes um caminho para a teshuvá por amor.

Capítulo 3 — Criticar sem deixar de amar

O grande amor com que amamos a nossa nação não cegará os nossos olhos para criticar todos os seus defeitos; mas, mesmo depois da crítica mais livre, encontramos a sua essência limpa de toda mácula.

כֻּלָּךְ יָפָה רַעְיָתִי וּמוּם אֵין בָּךְ "És toda formosa, minha amada, e não há mácula em ti." Shir HaShirim 4:7
Capítulo 4 — As contradições são provas

Tudo o que aparece na Torá escrita e oral capaz de enfraquecer um pouco o amor a Israel — mesmo em relação aos mais perversos — são provas e clarificações: degraus para que a pessoa suba a um nível elevado do amor a D'us, até achar um caminho entre todas as contradições, e o amor a Israel e o amor às criaturas permaneça vivo no seu coração, sem nenhuma diminuição.

Capítulo 5 — O amor que se abre a toda a humanidade
אַהֲבַת יִשְׂרָאֵל מְחַיֶּבֶת אַהֲבַת כָּל הָאָדָם "O amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano." Orot · Ahavat Israel, 5

O amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano. E quando ele imprime ódio a alguma parte da humanidade, é sinal de que a alma ainda não se purificou da sua impureza — e por isso ainda não pode unir-se ao deleite do amor supremo.

Capítulo 6 — Transmutar até o ódio em construção

Até a medida do ódio gratuito (sinat chinam) precisa ser elevada — para que não impeça a teshuvá nem a redenção plena de Israel. É preciso desenvolver grandes luzes para compreender que mesmo das fragmentações das opiniões resulta um bem geral: o lado bom se une e o lado mau se dispersa. E mais: até no lado bom, pelas divisões, cada bem particular ganha um tom próprio — sem que um tom, ao se misturar a outro, lhe apague a forma —, e assim Knesset Israel se enriquece com a multiplicidade de luzes. E essa própria multiplicidade gerará a paz maior e mais interior. Ainda assim, é preciso esforçar-se muito para que a paz seja visível também por fora, e a sucá da paz se estenda sobre todo Israel.

Quando os grandes tzaddikim percebem a grandeza das luzes que se geram da disputa entre justos — disputas pelo amor do Céu, que constroem mundos, cada um aperfeiçoando o seu sistema de moral, retidão e santidade —, então se cumpre: o teu povo, todos eles são justos. Cada um de Israel traz em si uma centelha de luz sagrada, herança dos pais. Disso resulta que toda disputa entre um e outro de Israel, entre um grupo e outro, também constrói mundos. E, como tudo é aperfeiçoamento e construção, não há por que falar palavras amargas — mas fazer conhecer a grandeza que ambos os lados realizam. Então, conforme cresce o conhecimento, cresce o amor na medida em que era grande o ódio, e cresce a união na medida em que era grande a divisão.

וְעַמֵּךְ כֻּלָּם צַדִּיקִים "E o teu povo, todos eles são justos." Yeshayahu 60:21
Capítulo 7 — Amar o povo é temor do Céu

O amor delicado pelos bens espirituais da nação diz, no fundo, exatamente o mesmo que dizem o temor do Céu simples e a fé íntegra; só a falta de compreensão leva quem usa essas linguagens diferentes a pensar que se opõem. Às vezes, a expressão da estima pela nação e do amor à sua honra diz mais "temor do Céu e fé" do que a própria expressão direta de temor e fé.

Capítulo 8 — Um amor que precisa ser cultivado

O amor a Israel precisa ser nutrido. Não se parece com o amor natural que existe em cada nação, presente nos seus indivíduos. Toda nação tem por fundamento apenas o natural simples — a necessidade da vida e da agregação, o preenchimento das vontades naturais que se realizam pela união —, e essa vontade não precisa ser despertada por ensino ou educação. Mas a ligação de Knesset Israel se constrói sobretudo sobre anseios espirituais comuns, que em si mesmos requerem muito reforço espiritual no coração de cada um — e mais ainda na vida de toda a coletividade.

Capítulo 9 — Os Patriarcas, Moshé e a alma de Israel

Os Patriarcas influenciam o lado natural de Knesset Israel; Moshé Rabenu, o lado do estudo. Ambos se mesclam e se influenciam mutuamente. No porvir, Moshé se unirá inteiramente aos Patriarcas e se revelará no Mashiach numa forma que tudo abrange; o lado natural de Knesset Israel se elevará ao alto — "o pensamento de Israel precede tudo" — e se verá que ele é a raiz de toda a Torá. E quanto mais cresce esse lado natural, mais cresce o deleite da vida, e a santidade se fará farta de prazer sem fim.

Quem traz em si o aroma dessa pureza não vê culpa em nenhum de Israel; o seu amor por cada um é grande, sem fim. Vê a grande luz na sua alma, o brilho da teshuvá que sempre paira sobre eles, e a luz da Shechiná que deles não se afasta — "Eu, o Eterno, que habito com eles em meio à sua impureza". E, de um jeito ou de outro:

בָּנִים אַתֶּם לַיהוָה אֱלֹהֵיכֶם... אַשְׁרֶיךָ יִשְׂרָאֵל "Filhos sois do Eterno, vosso D'us... Feliz és tu, Israel." Devarim 14:1; Devarim 33:29
Capítulo 10 — Do amor a D'us ao amor da Terra

Do amor a D'us, gravado em toda alma reta — assim que ela se desperta da confusão embriagante dos sentidos —, brota no coração o amor a Israel em toda pessoa culta que conhece bem o curso da história e como esta nação atuou, para o bem, sobre o pensamento divino na humanidade. E se essa pessoa é filha de Israel, essa inclinação se une ao amor à própria origem e se torna uma chama ardente e luminosa.

Porque o pensamento divino de Israel não deixou o mundo afundar apenas na especulação metafísica sobre D'us e a unidade, mas alargou os passos da moral e da cultura sob o leito do pensamento divino, também o senso moral gravado no coração do homem que não perverteu o seu caminho o desperta para o amor a Israel. E quando a história ensina com clareza que tudo isso Israel realizou por meio da sua terra particular, esse amor há de estender-se também à Terra de Israel.

"O amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano."

Orot Eretz Israel — As Luzes da Terra de Israel

Quando o Rav Kook abre Orot, ele não começa por D'us em abstrato, nem pela alma individual: começa pela Terra. Para ele, Eretz Israel é o ponto onde a alma de Israel toca o mundo. Os oito capítulos a seguir formam um único movimento — da essência da Terra à sua santidade, do exílio ao retorno, e do retorno à chama que arde em todo coração de Israel. Traduzo-os aqui na íntegra, a partir do hebraico original (de domínio público), buscando preservar a densidade e o calor do texto.

Capítulo 1 — A Terra não é algo externo

Eretz Israel não é uma coisa exterior, uma posse externa da nação, um mero meio para o fim da união coletiva e da manutenção da sua existência — material, ou mesmo espiritual. Eretz Israel é uma unidade essencial, ligada por um laço de vida à nação, entrelaçada por qualidades internas com a sua própria existência.

Por isso, é impossível apreender o conteúdo da singularidade (segulá) da santidade de Eretz Israel — e realizar a profundidade do amor por ela — por meio de qualquer raciocínio humano racional; isso se dá apenas pelo espírito de D'us que repousa sobre a nação como um todo, pela impressão natural e espiritual gravada na alma de Israel. Pensar que Eretz Israel é só um valor externo, destinado a firmar a união do povo — mesmo quando se invoca isso para fortalecer a ideia judaica no exílio, guardar o seu caráter e robustecer a fé — não dá o fruto digno de permanência, porque esse fundamento é frágil diante da força sagrada da Terra.

צְפִיַּת יְשׁוּעָה הִיא כֹּחַ הַמַּעֲמִיד שֶׁל הַיַּהֲדוּת הַגָּלוּתִית, וְהַיַּהֲדוּת שֶׁל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל הִיא הַיְשׁוּעָה עַצְמָהּ "A espera pela salvação é a força que sustenta o judaísmo do exílio; e o judaísmo de Eretz Israel é a própria salvação." Orot · Eretz Israel, 1

O verdadeiro fortalecimento da ideia do judaísmo na diáspora virá somente do lado da profundidade do seu enraizamento em Eretz Israel; e é da esperança de Eretz Israel que ele recebe, sempre, todas as suas qualidades essenciais.

Capítulo 2 — Quando se perde a dimensão interior

Quando alguém se afasta do conhecimento dos mistérios (do sod, a dimensão interior da Torá), o reconhecimento da santidade de Eretz Israel chega de forma turva e desbotada. Tornando-se estranho ao "segredo de D'us", as qualidades supremas da profundidade da vida divina viram coisas secundárias, que não penetram no âmago da alma — e então falta a força mais poderosa na alma da nação e do indivíduo, e o exílio passa a parecer agradável em si mesmo. Pois, para quem só enxerga a superfície visível, nada de fundamental parece faltar na ausência da Terra, do reino e de toda a estrutura da nação.

Não rejeitamos nenhuma forma de compreensão fundada na retidão, no sentimento de conhecimento e no temor do Céu, sob qualquer feitio. Rejeitamos apenas o aspecto pelo qual uma abordagem assim queira excluir os mistérios e a sua grande influência sobre o espírito da nação — pois isso é uma desgraça que temos o dever de combater: com conselho e discernimento, com santidade e com bravura.

Capítulo 3 — O exílio, a fonte e o retorno

Uma criação genuinamente israelita — no pensamento, no vigor da vida e na obra — só é possível a Israel em Eretz Israel. Lá, tudo o que Israel faz tem a sua forma meramente geral suplantada pela forma própria e singular de Israel, e isto é uma grande ventura para Israel e para o mundo. Os pecados que causam o exílio são os que turvam a fonte própria; e, com a fonte ferida, a originalidade essencial se refugia naquela parte mais alta e concentrada que Israel possui enquanto participa do humano universal — e isso se haure justamente no exílio, enquanto a Terra se desola, e a sua ruína serve de expiação.

A fonte cessa de jorrar e passa a gotejar lentamente; as manifestações da vida e do pensamento saem pelo canal geral, espalhado por todo o mundo — "como os quatro ventos dos céus vos espalhei" (Zechariá 2:10) — até que os escoamentos impuros se esgotem e a força da fonte retorne à sua pureza. Então o exílio se torna detestável, supérfluo; a luz geral volta a brotar da fonte própria em toda a sua força, e começa a despontar a luz do Mashiach, que reúne os dispersos. E o pranto amargo de Rachel, que chora pelos seus filhos, é adoçado por consolações:

מִנְעִי קוֹלֵךְ מִבֶּכִי וְעֵינַיִךְ מִדִּמְעָה... וְשָׁבוּ בָנִים לִגְבוּלָם "Contém a tua voz do pranto e os teus olhos das lágrimas... pois há recompensa para o teu trabalho — e os filhos voltarão ao seu território." Yirmiyahu 31:16
Capítulo 4 — A fidelidade do pensamento na Terra

É impossível a um homem de Israel ser tão entregue e fiel aos seus pensamentos, raciocínios, ideias e imaginações fora da Terra quanto o é em Eretz Israel. As manifestações do sagrado, em qualquer grau, são relativamente puras em Eretz Israel; fora da Terra, vêm misturadas a muitas escórias. Ainda assim, na medida da grandeza do desejo e do vínculo de uma pessoa com Eretz Israel, os seus pensamentos se purificam pela força do "ar de Eretz Israel" que paira sobre todo aquele que anseia por vê-la — "Alegrai-vos com Jerusalém e exultai nela, todos os que a amais" (Yeshayahu 66:10).

Capítulo 5 — O ar que torna sábio

A imaginação ligada a Eretz Israel é límpida e clara, pura e apta à manifestação da verdade divina; preparada para revestir o desejo elevado e sublime do ideal que há na santidade suprema, pronta para a clareza da profecia e das suas luzes, para o resplandecer do ruach hakodesh. Já a imaginação na terra das nações é turva, mesclada de trevas e sombras de impureza — não consegue elevar-se aos cumes do sagrado nem servir de base à abundância da luz divina. E porque o intelecto e a imaginação estão entrelaçados, agindo um sobre o outro, o próprio intelecto, fora da Terra, não pode brilhar com a luz que tem em Eretz Israel.

אֲוִירָא דְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל מַחְכִּים "O ar da Terra de Israel torna sábio." Talmud, Bava Batra 158b
Capítulo 6 — A santidade que acompanha o exilado

A ação do espírito de santidade absorvida em Eretz Israel não cessa de operar, mesmo que a pessoa venha a sair da Terra — por engano ou por alguma causa forçosa. Tal como a profecia que, uma vez acontecida em Eretz Israel, não cessa nem fora dela. A abundância do sagrado, iniciada na Terra, recolhe todos os fragmentos de santidade dispersos fora dela e os atrai com a sua força.

E eis um sinal: quanto mais difícil é suportar o ar de fora da Terra, quanto mais se sente a estranheza de um solo que não é o seu — mais profunda foi a absorção da santidade de Eretz Israel. Essa estranheza ata ainda mais o anseio interior à Terra e à sua santidade; e a expectativa de vê-la cresce. E quando o desejo profundo de chibat Tzion — o amor de Sião — se intensifica numa alma, ainda que numa só, ele se torna uma fonte que brota para toda a coletividade, para as miríades de almas ligadas a ela. Então o som do shofar da reunião dos dispersos desperta, as misericórdias se multiplicam, e a esperança de vida para Israel cintila — e a luz da salvação e da redenção se espalha como a aurora estendida sobre os montes.

Capítulo 7 — As letras da alma crescem na Terra

A alma está repleta de "letras" cheias de luz de vida, de conhecimento e de vontade, de visão e de realidade plena. Quando nos achegamos a uma mitsvá, ela está sempre cheia do resplendor de todos os mundos — cada mitsvá é repleta de letras grandiosas e admiráveis. No instante em que nos aproximamos para cumpri-la, todas as letras vivas do nosso ser se engrandecem: crescemos, ganhamos força, somos preenchidos de luz de vida e de uma existência superior, rica da riqueza da santidade eterna.

E é em Eretz Israel que crescem as letras da nossa alma — lá elas revelam o seu brilho, sugando vida essencial do esplendor de Knesset Israel. O ar de Eretz Israel produz o viço dessas letras de vida, em beleza e em alegria poderosa. A expectativa de contemplar o esplendor da terra desejada — o anelo íntimo por Eretz Israel — engrandece as letras sagradas da nossa essência:

אֶחָד הַנּוֹלָד בָּהּ וְאֶחָד הַמְצַפֶּה לִרְאוֹתָהּ "Tanto aquele que nela nasceu quanto aquele que espera vê-la." Talmud, Ketubot 75a

E no centro de tudo está o mishpat — a justiça —, o pilar central sobre o qual todo o edifício se apoia: a essência do desejo da alma impregnada na alma do Mashiach, que revelará a luz da justiça de D'us na terra com força suprema — uma força que exclui toda guerra e todo derramamento de sangue.

Capítulo 8 — A chama em todo coração de Israel

No interior do coração, nas câmaras da sua pureza, intensifica-se a chama de Israel — a que exige, com vigor, a ligação firme e contínua da vida a todos os mandamentos de D'us; verter o espírito de Israel, que enche toda a amplitude da alma, em cada um dos seus muitos instrumentos, e exprimir o ser israelita pleno, prático e ideal. As labaredas crescem no coração dos justos; um fogo sagrado arde e sobe.

אֵשׁ תָּמִיד תּוּקַד עַל הַמִּזְבֵּחַ לֹא תִכְבֶּה "Fogo contínuo arderá sobre o altar; não se apagará." Vayikra 6:6

E esse fogo arde no coração de toda a nação, dia após dia — e até no coração dos "vazios" de Israel, e mesmo dos que transgridem, o fogo arde no mais íntimo. Em todo o povo, cada anseio de liberdade, cada desejo de vida, cada esperança de redenção brotam apenas desta fonte: o desejo de viver a vida israelita em plenitude, sem contradição e sem limite. E essa é a sede de Eretz Israel — o solo sagrado, a terra de D'us, onde todos os mandamentos ganham corpo e relevo.

"Por isso amei os Teus mandamentos mais que o ouro, mais que o ouro fino."

Essa é a bravura oculta: a elevação de uma vida que jamais se extingue. Se causa espanto a alguém de fora — como pode ser que mesmo espíritos aparentemente distantes da fé pulsem, no seu íntimo, não só por uma vaga proximidade com D'us, mas pela vida israelita verdadeira? —, não se espantará quem está ligado, nas profundezas do seu espírito, ao âmago de Knesset Israel, e conhece as maravilhas das suas qualidades. Como está escrito: "e guardareis os Meus estatutos e os Meus juízos, que o homem fará, e por eles viverá" (Vayikra 18:5) — "viver" que os Sábios leram como "andar diante de D'us nas terras da vida — esta é Eretz Israel."

As Duas Luzes: a Torá Escrita e a Torá Oral

A tradição judaica fala de duas Torás: a Torá Escrita (o texto dado no Sinai) e a Torá Oral (a tradição viva que a interpreta, da Mishná e do Talmud até cada nova compreensão). O Rav Kook, na abertura de Orot HaTorah, descreve-as não como dois livros, mas como duas luzes — dois canais por onde o divino alcança a alma. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro, a partir do hebraico original (de domínio público).

Dois canais da alma

תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב וְתוֹרָה שֶׁבְּעַל פֶּה "A Torá Escrita e a Torá Oral." Orot HaTorah, cap. 1

A Torá Escrita nós a recebemos por meio da imagem mais elevada e mais abrangente que há em nossa alma. Sentimos, de dentro dela, o fulgor do esplendor da luz viva e universal de todo o universo. Por ela voamos para além de toda lógica e de todo intelecto; sentimos um espírito divino supremo pairando sobre nós — tocando e não tocando —, sobrevoando as nossas vidas, acima delas, e irradiando-as com a sua luz. A luz brilha, cintila e penetra em tudo; sob todos os céus ela se estende. Não foi o espírito da nação que gerou esta grande luz — foi o espírito de D'us, que forma tudo, que a formou; esta Torá de vida é o fundamento da criação de todos os mundos.

Na Torá Oral, porém, já descemos à vida. Sentimos que recebemos a luz suprema por um segundo canal da alma — o canal que se aproxima da vida da ação. Sentimos que o espírito da nação, ligado como a chama à brasa à luz da Torá da verdade, é o que fez, pelo seu caráter próprio, que a Torá Oral se formasse na sua forma particular. E, com certeza, esta Torá do homem está incluída na Torá de D'us — ela também é a Torá de D'us. Pois do olho aberto daquele que contempla no espelho que ilumina, o fiel em toda a casa de D'us, não poderia estar oculta essa torrente de vida em todos os seus desdobramentos. Por isso disseram: até aquilo que um discípulo veterano um dia haverá de inovar, tudo já foi dito a Moshé no Sinai. E estas duas luzes fazem um mundo inteiro, em que o céu e a terra se beijam.

A imagem é precisa: a Torá Escrita chega pelo canal mais alto da alma — recebemo-la "acima da lógica", como quem recebe uma luz que vem de cima. A Torá Oral chega pelo segundo canal, o que toca a vida da ação — por isso ela tem a marca do espírito humano, do caráter da nação que a desenvolve. E, no entanto, ela não é menos divina por isso: o que o sábio descobre amanhã já estava contido na revelação do Sinai. As duas luzes não competem; juntas fazem "um mundo inteiro".

A mais baixa que é, na raiz, a mais alta

A Torá Oral repousa na própria essência do caráter da nação — daquela nação que encontrou a sua bênção por meio da revelação celeste da Torá Escrita. Na sua manifestação [exterior], a Torá Oral é mais baixa do que a Torá Escrita; pois o fator principal para que ela encontre o seu caminho é a Torá Escrita — a relação suprema da nação com a Divindade suprema, com o fim de todos os fins, com a eternidade e a majestade que há nos mundos e acima de toda a sua totalidade.

Mas, na sua forma interior, a Torá foi dada a Israel por causa da sua qualidade interior, suprema e oculta — a segulá; e foi essa segulá divina escondida que fez descer sobre eles a Torá vinda do céu. De modo que a Torá Oral se encontra, na sua raiz, mais elevada do que a raiz da Torá Escrita. E por isso disseram os Sábios:

חֲבִיבִין דִּבְרֵי סוֹפְרִים יוֹתֵר מִדִּבְרֵי תוֹרָה "Mais amadas são as palavras dos Escribas do que as palavras da Torá [Escrita]." cf. Talmud, Avodá Zará 35a; Yerushalmi Berachot 1:4

Eis o paradoxo que o Rav Kook resolve: por fora, a Torá Oral parece "menor" — ela depende da Escrita para achar o seu rumo. Mas, por dentro, é mais alta, porque brota da segulá, a qualidade oculta de Israel que foi a própria razão de a Torá ter sido dada. A contribuição humana — o estudo, a interpretação, a inovação — não rebaixa a Torá; é a sua revelação mais profunda. Aquilo que parece "só humano" é, na verdade, o lugar onde o divino chega mais fundo.

Os gêmeos separados — e o reencontro

A nutrição da Torá Oral está em ser escondida do céu e revelada da terra. E é preciso que a Terra de Israel esteja edificada, e todo o Israel habitando sobre ela, ordenado em todas as suas ordens — santuário e realeza, sacerdócio e profecia, juízes e magistrados e todos os seus arranjos —, para que então a Torá Oral viva em todo o esplendor da sua glória, florescendo, levantando o seu botão e unindo-se à Torá Escrita em toda a medida da sua estatura.

No exílio, os gêmeos separaram-se: a Torá Escrita elevou-se aos cumes da santidade, e a Torá Oral desceu às profundezas mais baixas. Ainda assim, ela recebe um sustento secreto da luz da Torá Escrita — da rebrota do passado —, o bastante para mantê-la numa vida reduzida. E ela desce e definha a cada dia, até que o dia desponte e a luz da vida venha do tesouro da redenção dos mundos; e Israel prospere, plantado na sua terra, florescendo em todo o esplendor das suas ordens.

No exílio, os gêmeos separaram-se; na redenção, reúnem-se sob um só dossel.

Então a Torá Oral começará a brotar da profundidade da sua raiz, subirá cada vez mais alto, e a luz da Torá Escrita fará raiar sobre ela raios de luz renovados, novos a cada manhã. E os amados reunir-se-ão na morada do seu dossel; e a luz da alma do D'us vivo dos mundos — revelada no renascimento de Israel e no erguer-se da sua glória — brilhará com a luz dos sete dias, a luz do sol e a luz da lua juntas, penetrando e atraindo de uma à outra, e respondendo à terra e ao povo com toda a beleza da vida:

וְהָיָה אוֹר הַלְּבָנָה כְּאוֹר הַחַמָּה, וְאוֹר הַחַמָּה יִהְיֶה שִׁבְעָתַיִם כְּאוֹר שִׁבְעַת הַיָּמִים "E a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes maior, como a luz dos sete dias — no dia em que D'us atar a fratura do seu povo e curar a chaga da sua ferida." Yeshayahu (Isaías) 30:26

O capítulo termina numa visão de cura. As duas Torás são "gêmeas": no exílio foram arrancadas uma da outra — a Escrita subindo a uma santidade abstrata, a Oral encolhendo-se a uma sobrevivência mínima. Mas a Torá Oral é a Torá da vida: ela só floresce de verdade quando há uma vida inteira para ordenar — terra, sociedade, justiça, trabalho. Por isso, no reerguer-se do povo na sua terra, ela volta a brotar, e as duas luzes se reúnem. É, no fundo, a reconciliação do céu com a terra: a prova de que o mais elevado e o mais concreto eram, desde sempre, uma só luz.

O Todo em Cada Detalhe: os pormenores da Torá e a sua grande luz

Há um risco no estudo minucioso da lei: perder-se nos detalhes e esquecer o todo a que pertencem. No capítulo 3 de Orot HaTorah, o Rav Kook enfrenta esse risco de frente e oferece o remédio: ligar a "Torá de baixo" — a dos pormenores — à "Torá do alto" — a da grande luz geral. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro, a partir do hebraico original (de domínio público).

Ligar a Torá de baixo à Torá do alto

A ligação da Torá ao Santo, bendito seja — eis o fundamento do serviço sagrado das pessoas de segulá. Ocupamo-nos das leis (halachot), das suas análises e dos seus detalhes, sabendo, de modo geral, que todas as palavras da Torá são os caminhos de D'us, brotando da fonte da vida suprema. Ora, na alma vive o anseio divino: a doçura de D'us pulsa dentro dela, e a proximidade de D'us é-lhe melhor do que todos os deleites; e esse anseio delicado é sentido também no coração da vida:

לִבִּי וּבְשָׂרִי יְרַנְּנוּ אֶל אֵל חָי "O meu coração e a minha carne cantam de alegria ao D'us vivo." Tehillim 84:3

E elevar aquele sentimento nobre, escondido no interior de todas as dobras da Torá e de todos os seus detalhes, até a medida daquele sentimento supremo e abrangente que jorra na alma a partir da doçura do alto — esta ação, que vem de um grande arroubo da alma, pertence à ligação da Torá com o Santo, bendito seja; isto é, ligar a Torá particular de baixo (tora dilatata) com a Torá geral do alto (tora dile'eila).

Eis a chave de todo o capítulo. Há duas faces da Torá: a dos detalhes (cada lei, cada distinção — a "Torá de baixo") e a do todo (a grande luz una de onde tudo brota — a "Torá do alto"). O serviço mais elevado não é abandonar os detalhes pela luz geral, nem afogar-se nos detalhes esquecendo a luz: é ligar os dois — sentir, dentro de cada pormenor, a luz do todo. O detalhe sem o todo emudece; o todo sem o detalhe não toca a vida.

Quando o detalhe se solta do todo

Quando se elevam as coisas para o alto, com clareza de intenção, acrescenta-se sempre conhecimento na riqueza da existência suprema, e o desejo do amor ao mundo e o grande amor à luz do Infinito se adoçam no Éden da vida — "olharam para Ele e ficaram radiantes" (Tehillim 34:6). Mas, na distração e na sua pobreza, escurece-se a face dos céus, e o esplendor converte-se em enfermidade e num nada esvaziado; e a depuração celeste, que exige a sua tarefa com força, oprime toda a grandeza do homem e ofusca a luz do intelecto e todos os conteúdos plenos da vida. E, porque essa busca da raiz de todo o ser é algo necessário, inato e que se prolonga sem cessar, secam-se as fontes da abundância da vida no mundo pelo afrouxar das mãos diante da "Torá do alto". E tudo volta à sua luz e à sua vida cintilante por meio de uma teshuvá suprema, cheia de saber e de bom senso, iluminada pela luz da Torá que há na sabedoria de Israel, herança dos pais, plena da nobreza dos mundos — "e a vida eterna plantou em nosso meio: esta é a Torá Oral" — em todos os seus graus e na coroa da sua glória.

O essencial do conhecimento é que a generalidade da Torá esteja aderida ao coração com tal força e reconhecimento claro que, da força da influência do todo, flua a força do cuidado particular com cada mandamento e cada minúcia da Torá. E então a coisa assemelha-se à força de vida que brota do coração e se espalha por todos os membros. O que não acontece sem o verdadeiro conhecimento geral: nesse caso, cada coisa da Torá é um assunto isolado em si mesmo — e isto lança confusão no próprio fundamento da percepção da Torá, e impede o serviço de amor e de doação espontânea:

וְהָיָה לָהֶם דְּבַר ד' צַו לָצָו קַו לָקָו "E a palavra de D'us tornou-se para eles preceito sobre preceito, linha sobre linha" — fragmentos sem alma. Yeshayahu 28:13

Pois é preciso que as palavras da Torá sejam reconhecidas como um só estatuto e um só mandamento [um todo unificado].

A imagem é fisiológica: o detalhe solto do todo é como um membro sem irrigação. Quando a visão geral da Torá "adere ao coração", ela bombeia vida a cada pormenor — e o cuidado com a menor lei deixa de ser obsessão árida e torna-se amor. Sem isso, a Torá vira uma pilha de regras desconexas, "preceito sobre preceito": cumprida talvez, mas sem a alma que a unifica.

O coração saudável e o estudo por amor

Quando o coração é saudável, espalha-se com a forte força da pressão a corrente do sangue por todas as artérias finas e distantes; e, quando o intelecto é forte para compreender o fundamento da Torá e as suas generalidades — e como os seus muitos detalhes decorrem necessariamente do seu todo —, a visão torna-se clara e abrangente, e vêm um grande amor, sentimentos de honra e o esplendor da santidade a cada coisa e a cada leve minúcia da Torá.

Quando se estuda a Torá lishmá (por si mesma), atrai-se da [divina] Vontade o propósito sublime da Torá, que se difunde por todo assunto particular, e uma bondade suprema vai crescendo sobre quem estuda e sobre o mundo inteiro com ele. Mas, quando se estuda não-lishmá, então as manifestações particulares revelam-se sobre os detalhes tais como eles são em si mesmos, e o intelecto neles contido fica acanhado; e, conforme a medida do intelecto, a vontade é curta, cheia de rigidez e de irritação — e melhor lhe fora não ter vindo ao mundo.

O mesmo estudo, dois resultados opostos. Feito por amor, ele rega cada detalhe com a luz do todo e transborda bondade sobre o estudante e sobre o mundo. Feito por interesse, encolhe-se ao tamanho do interesse: vê só o detalhe nu, e produz uma alma "curta", impaciente e severa. Não é a matéria que muda — é o coração que se aproxima dela.

A sede de quem estuda por amor

Cada coisa da Torá, seja na Agadá, seja na Halachá, reclama a sua tarefa: ser regada com o orvalho de uma revivescência suprema, do tesouro dos sentimentos mais altos e dos saberes mais elevados, que jorram da poderosa generalidade de onde brota aquele detalhe estudado. Esta é a natureza da sede dos que se ocupam da Torá lishmá — sede que sempre cresce neles, e os leva, de um lado, a uma amargura da alma e, de outro, a uma elevação da alma e a uma expansão da mente numa santidade suprema.

Em todo estudo há uma centelha da luz geral que se revela em tudo; e a preciosidade dessa centelha está na sua relação com o todo — ainda que esteja muito oculta, e a sua revelação só se dê pelo lado do detalhe. E aquele que se ocupa da Torá lishmá tem a mente e o coração voltados à sua visão geral; por isso a sua luz geral se revela sobre ele, e ele alcança grandes graus na compreensão.

Quão grandes — e quão pequenas — são as tuas obras

מַה גָּדְלוּ מַעֲשֶׂיךָ ד' · מַה קָּטְנוּ מַעֲשֶׂיךָ ד' "Quão grandes são as tuas obras, ó D'us!" — e também: "Quão pequenas são as tuas obras, ó D'us!" cf. Tehillim 92:6

Nas ciências e nos conhecimentos do mundo, na realidade sensível, vemos que cabe dizer, junto com "quão grandes são as tuas obras, ó D'us", também, com igual assombro, "quão pequenas são as tuas obras, ó D'us". Isto é: assim como nos enchemos de espanto com a grandeza dos luzeiros, com os vastos espaços cheios de estrelas admiráveis e com as imensas forças naturais, igualmente nos maravilhamos ao contemplar a profundidade da criação na sua pequenez — nos órgãos minúsculos dos seres vivos mais ínfimos, na finura das matérias e na precisão das forças nos lugares mais recônditos. E, pelo conhecimento completo dos dois extremos — o grande e o pequeno —, completa-se no coração do homem a imagem da realidade na sua justa medida.

E assim é também na Torá. A generalidade das compreensões supremas que há nela — nas ideias gerais, nas vias supremas da justiça e nas sabedorias espirituais elevadas — mostra ao homem um mundo cheio de grandeza, de conceitos abrangentes que são como as estrelas do céu. Mas é justamente a partir dessa elevação que o homem deve concluir: assim como achou grande riqueza nas grandes generalidades, achará também montes e montes de coisas novas e ocultas "sobre cada espinho e espinho" [cada traço de cada letra], em cada detalhe-dos-detalhes da Torá; pois as definições precisas e as ramificações que nascem em cada ramo e ramo — que se vai dividindo em folhas e gavinhas — não têm medida. E então, mesmo quem se incline muito para a grandeza do saber nas vastidões das generalidades achará prazer em ocupar-se da Torá lishmá nos pormenores mais minuciosos, e colherá, unidos, o grande e o pequeno:

"Coisa grande: a Obra do Carro Celeste; coisa pequena: os debates de Abaye e Ravá."

Pois o Talmud (Sucá 28a) chamou de "coisa grande" o Ma'asé Merkavá — a mais alta especulação sobre o divino — e de "coisa pequena" as havayot, os debates jurídicos minuciosos dos mestres; e, no entanto, ambos são Torá, e o sábio os recolhe juntos, como quem conhece a um tempo a galáxia e a célula.

A alma da nação em cada lei

Na hora em que o espírito sagrado, que flui da Comunidade de Israel (Kneset Yisrael), repousa sobre uma pessoa, ela vê com os próprios olhos como toda a Torá Oral, em todos os seus detalhes, é uma ramificação da raiz do espírito sagrado da nação; e como todos eles juntos — os detalhes e os detalhes-dos-detalhes — apresentam, em plena vida e luz, a sua alma em toda a sua estatura. E, do grande amor que se revela na alma pela nação inteira e por toda a segulá da sua alma, espalha-se um amor puro, constante e supremo sobre toda a Torá Oral; e o amor faz resplandecer a percepção dos detalhes, e aguça o talento de extrair "uma coisa de dentro de outra" com verdadeiro discernimento. E desse amor regressa a afeição, na sua santidade suprema, à Torá Escrita, no auge do seu esplendor. E ambas, juntas, cintilam em cores luminosas, como a raiz da alma da nação e os seus ramos.

O capítulo fecha o círculo aberto no cap. 1: as duas Torás — Escrita e Oral — reencontram-se, e a ponte entre elas é o amor. Quando se ama a Torá como se ama a alma do próprio povo, a mente se aguça (o amor torna inteligente), o detalhe ganha vida, e a "Torá de baixo" volta a brilhar junto com a "Torá do alto". Estudar, no fim, é um ato de amor que ilumina: ama-se o todo, e cada detalhe acende.

O Alimento e o Ar da Alma: por que estudamos a Torá

Este é um dos capítulos mais ricos de Orot HaTorah: uma meditação sobre o que o estudo da Torá faz na alma de quem estuda. O Rav Kook recorre, sem cessar, a imagens orgânicas — sangue, alimento, ar, saúde — para descrever uma transformação espiritual. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (dezesseis seções), a partir do hebraico original (de domínio público).

A luz que enche o ser inteiro

O estudo da Torá — aquilo que se estuda em santidade — refina, por meio dele, a vontade e o intelecto juntos; e a luz divina vem da fonte essencial da alma e enche todo o seu ser, e a vida espiritual difunde-se por todos os confins da essência, tal como o sangue se difunde, na sua corrida, por todos os confins do corpo. Mas todo estudo profano, de qualquer ciência do mundo, não vivifica senão aquela parte particular a que se dirige. E este é o fundamento da diferença entre o sagrado e o profano do lado quantitativo — além da diferença, incomparavelmente mais sublime, do lado qualitativo.

Na medida da clareza da teshuvá que precede o estudo, crescerá a clareza da compreensão do estudo. O intelecto eleva-se segundo a elevação da vontade, e clareia-se na medida em que a vontade se clareia. Uma teshuvá superior, que vem de um grande amor e de um reconhecimento claro, eleva todo o conteúdo do estudo a um grau de fertilidade e de fluência que não tem paralelo em nenhum conteúdo de estudo tomado em si mesmo.

Duas ideias se cruzam aqui. Primeiro: o estudo profano ilumina a faculdade a que se aplica; o estudo sagrado vivifica a alma inteira, como o coração irriga todo o corpo. Segundo, e surpreendente: o que prepara a mente para entender não é só mais inteligência — é a vontade. Um retorno sincero ao bem, antes do estudo, clareia a própria compreensão. O coração prepara a mente.

Voltar à raiz: aprender é recordar

Quando o homem se eleva a ideias supremas e ajusta os seus caminhos por elas, nas profundezas do seu espírito, ele chega à raiz da Torá, na sua forma suprema, cuja meta é elevar o mundo à altura que lhe está destinada. E, por isso mesmo, tudo o que ele aprende dos detalhes da Torá não é, para ele, coisa nova, mas como uma recordação daquilo que já está na sua potência. Este é o segredo do dito:

מִתּוֹךְ שֶׁחֲסִידִים הֵם, תּוֹרָתָם מִשְׁתַּמֶּרֶת "Porque são piedosos, a sua Torá se preserva [neles]." expressão talmúdica (cf. Eruvin 54a)

Há uma meta da Torá: despertar o lado espiritual supremo do homem, para que ele se ocupe de conceitos sagrados e se afaste do mergulho animalesco e corporal que enfraquece a força da sua essência. E, do lado dessa meta negativa — afastar-se do mal —, todos os assuntos da Torá são iguais. Mas, do lado da revelação positiva da luz divina, que sacia a alma, há grande diferença entre uma coisa grande e uma coisa pequena.

Eis uma ideia luminosa: para a alma que já se elevou à raiz, aprender Torá não é tanto adquirir o novo quanto reconhecer o que já lhe era latente — como quem reencontra algo que sempre soube. O estudo, então, não enche um vazio: revela uma riqueza que já estava lá. Por isso, "porque são piedosos, a sua Torá se preserva": quem vive o bem descobre, no estudo, a si mesmo.

Alimento e ar: como a alma se nutre

Os estudos práticos [as leis] são o alimento da alma: constroem-na nas suas partes, na forma que lhe é fixada pela sua própria natureza, tal como os alimentos materiais constroem o corpo. E as contemplações superiores — o raciocínio das ideias, a poesia, a elevação do espírito — são o ar que a alma respira. Quanto mais o organismo for sustentado com alimento saudável, mais receberá a boa abundância que o ar puro lhe transmite.

Os estudos práticos são o alimento da alma; as contemplações elevadas, o ar que ela respira.

Às vezes o homem não consegue estudar porque anseia demais pela oração; e, enquanto não tiver orado como convém, a alma permanece sedenta — como quem, com muita sede, não consegue comer até beber primeiro, e só então pode comer. Esse sentimento é desenvolvido em quem tem alma grande, com a raiz da luz dos justos habitando nela. Em geral, a oração será, nisto, como uma preparação para a Torá — como o beber das águas que ajudam a levar o alimento por todas as partes do corpo. Mas, se o alimento não estiver dado, de nada servirão as águas que o transportam: "quem desvia o ouvido de escutar a Torá, até a sua oração é abominação".

מֵסִיר אׇזְנוֹ מִשְּׁמֹעַ תּוֹרָה, גַּם תְּפִלָּתוֹ תּוֹעֵבָה "Quem desvia o ouvido de escutar a Torá, até a sua oração é abominação." Mishlei (Provérbios) 28:9

O estudo da Mishná e das leis decididas opera, no sagrado, a mesma ação que o estudo da geografia opera no profano: endireitar o intelecto e assentá-lo num fundamento sólido e concreto — bom preparo para as coisas mais elevadas e abstratas. Por meio disso, o homem adquire a capacidade de apreender toda grandeza com plena simplicidade, sem que nenhuma coisa leve e pequena se borre por causa da grandeza. E isto é à imagem do que há no alto, onde a idealidade, no voo da grandeza suprema, é a mesma que se volta para toda a pequenez do existente, para aperfeiçoá-la em todos os seus detalhes mais finos.

A metáfora é precisa e equilibrada: a lei prática constrói a alma (dá-lhe estrutura, como o alimento ao corpo); o pensamento elevado é o ar sem o qual ela não respira; e a oração é a água que faz o alimento circular. Precisa-se dos três. E há um elogio do estudo "concreto" (Mishná, leis): ele assenta a mente, ensina a segurar o grande sem perder o pequeno — a mesma atenção que, no alto, junta a galáxia e o detalhe.

A alma saudável ama a Torá

Assim como o homem saudável deseja a vida e não busca para isso razões e provas — ao passo que o doente da alma, próximo de pôr fim à própria vida, vive mergulhado em dúvidas sobre o sentido de viver —, assim quem tem alma saudável ama a Torá e as suas investigações, de coração e alma; e uma só coisa da Torá, ainda que das minúcias dos Escribas, é-lhe mais preciosa do que toda riqueza. Só quando adoece o fundamento da alma é que se chega a dizer: "esta lição é bonita, e aquela não é".

Mesmo o pensamento abstrato mais ousado tem o seu valor. Uma "torre que flutua no ar" — imagem talmúdica do raciocínio que se ergue sem apoio visível — é difícil de conduzir por rotas precisas; e, contudo, grande foi o mérito intelectual daqueles que, mesmo sem chegar a uma conclusão, souberam levantar grandes problemas nessa "torre flutuante". Pois a dúvida, bem posta, é o começo das soluções.

Um belo critério: o amor à Torá — e, no fundo, ao aprender — é sinal de saúde da alma. A alma adoecida julga as ideias pelo paladar ("esta é bonita, aquela não"); a alma sã trata cada detalhe como um tesouro. E há lugar para a audácia intelectual: levantar a pergunta difícil, mesmo sem resposta pronta, já é serviço — "a dúvida é o começo das soluções". (O Rav Kook evoca aqui figuras que os Sábios lembravam pela agudeza extraordinária, ainda que tenham falhado na conduta — o louvor é estritamente ao vigor da pergunta.)

A Torá e o humano universal

O estudo da Torá — na halachá, na agadá, no pilpul e em toda palavra de Torá — introduz nas nossas almas o luzeiro que há na vida de Israel, e desperta nelas as ideias nobres e os bons sentimentos ali guardados, próprios do caráter singular de Israel — assim como os estudos universais despertam em nós as ideias e os sentimentos do homem universal. E, no entanto, a Torá dá-nos vida não só uma vida nacional particular, mas também uma vida universal: pois a melhor qualidade humana chega-nos na sua forma mais aperfeiçoada quando vem a nós cunhada num molde de Israel — e isto se obtém pela dedicação à Torá.

A dedicação à Torá esculpe belamente na alma o caráter de Israel e a sua forma singular, e com isso enche a nação de vida — quando há, no seu conjunto, muitos dedicados ao estudo; e, por consequência, cada um, agindo conforme a sua parte, constrói um mundo inteiro. Há nisso uma ética interior, que nasce do amor à nação e à sua honra: como não haveria de querer um filho de Israel conhecer toda a Torá do seu povo — a amada e santa Torá — em todos os seus detalhes, tanto quanto a sua mão alcançar, com amor fiel? E este caminho é uma porta para a Torá lishmá no seu sentido mais sublime.

Aqui está o coração universalista do capítulo: a Torá não dá apenas "vida nacional", mas "vida universal". O particular (o "molde de Israel") não é o oposto do humano universal — é o vaso em que o melhor do humano chega à sua forma mais perfeita. Estudar a própria tradição, com amor, não fecha a pessoa: abre-a ao que há de mais elevado em toda a humanidade.

O choque que gera luz

Quando a alma percebe o quanto o homem de Israel precisa, antes de tudo, conhecer a Torá, e o quanto toda a vida espiritual precisa assentar-se sobre fundamentos práticos — na vida pública e na vida do indivíduo —, desperta um grande desejo pelo estudo prático, que ensina os caminhos da vida. E o desejo espiritual luta pela sua posição, e não deixa que o desejo prático reine sem limite sobre as ordens do estudo e os caminhos da vida e do pensamento. E do choque dessas duas paixões ardentes sai uma luz fulgurante, que guarda em si uma riqueza recôndita, trançada das duas forças juntas — a espiritual e a prática; e de ambas se reconstroem almas desoladas, e se firma um povo eterno, que vai renovar a sua juventude sobre a terra do seu plantio.

No estudo das minúcias da Torá, nos detalhes-dos-detalhes, tudo se vai integrando numa só tocha, com a meta geral do fundamento da fé e do anseio do sagrado que há dentro dela. Se de fato se borrasse a luz fulgurante dos detalhes, arruinar-se-ia todo o mundo prático. Por isso é preciso que se estenda um véu: ele dá lugar à elucidação de cada detalhe, num mundo que parece escuro em relação à luz geral; e esse trabalho de elucidação, em saber e em prática, aperfeiçoa a vida. E, por cima do véu, a luz resplandece em toda a glória da sua generalidade e, ao atravessá-lo, faz gotejar orvalhos de luz sobre cada saliência particular — até que o mundo de baixo se nutre do de cima, e ambos se vão unindo.

E a própria abundância do estudo já liga a santidade suprema ao espírito do homem, ainda que ele não desça à profundidade das coisas; às vezes age sobre ele para um bem supremo mesmo quando não entende o sentido simples do que estudou — basta que esteja sedento pela palavra de D'us, e sacie a sede com muito estudo, e a alma se eleva. E mesmo no estudo dos segredos da Torá, ainda que não compreenda os assuntos em detalhe, e lhe pareça ocupar-se de imagens que afligem a sua alma sedenta de clareza — ainda assim, depois do estudo, a luz aparece sobre ele; e ele se inclui entre os que se ocupam da Torá de noite, sobre quem o Santo, bendito seja, estende um fio de bondade de dia:

יוֹמָם יְצַוֶּה ד' חַסְדּוֹ, וּבַלַּיְלָה שִׁירֹה עִמִּי "De dia o Senhor ordena a sua bondade, e de noite o seu cântico está comigo." Tehillim 42:9

Assim, do atrito entre a aspiração ao alto e a exigência do concreto, o Rav Kook não pede que se escolha um dos lados: pede que se deixe os dois arderem juntos — porque é desse atrito que salta a luz mais plena, "trançada das duas forças".

A Fonte Oculta: quando e como estudar os segredos da Torá

Há, na tradição, uma Torá "revelada" (a lei, o estudo, o debate) e uma Torá "oculta" (a sua dimensão interior e contemplativa). O capítulo 10 de Orot HaTorah trata desta segunda — mas de um modo que talvez surpreenda: o Rav Kook insiste que os segredos só se abrem, sem se corromper, a quem os procura com razão, conhecimento e humildade. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (dezessete seções), a partir do hebraico original (de domínio público).

סוֹד ד' לִירֵאָיו, וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם "O segredo do Senhor é para os que o reverenciam, e a sua aliança, para lhes dar a conhecer." Tehillim 25:14

Quando estudar os segredos

Quando é bom estudar os segredos da Torá? Quando o anseio interior pela proximidade de D'us é forte, eleva-se e cresce, até não dar descanso à alma — e nada de espiritual e sagrado no mundo lhe sacia o desejo, nada senão o raciocínio interior que fala dos segredos do mundo. Esta é a marca de quem se ocupa da Torá lishmá (por si mesma); e sobre isso ensinaram: "todo o que se ocupa da Torá, eis que se eleva".

Nem todo momento o homem está apto a revelações espirituais supremas; e os muitos momentos em que não há iluminação suprema são justamente os que devem ser consagrados aos estudos revelados, aos corpos da lei e ao trabalho prático. Mas, quando a luz da alma irrompe, é preciso dar-lhe imediatamente a sua liberdade — que ela vá e se alargue, imagine, conceba, compreenda e alcance; que o homem aspire e anseie pelas alturas das alturas, à fonte da sua raiz, à vida da sua alma, à luz da vida da alma de todos os mundos, à luz do D'us supremo, à sua bondade e ao seu esplendor.

Cada alma, o seu caminho

Assim como é regra firmada que, se alguém vê que o seu êxito está na espiritualidade da Torá e na sabedoria da verdade, e lhe é difícil o estudo haláchico, então o seu dever interior é consagrar a parte mais essencial do seu tempo àquele estudo que convém ao seu espírito — assim também, se alguém vê que o estudo dos segredos o santifica, eleva o seu espírito e o aproxima da santidade, ao passo que do estudo revelado não colhe esse fruto precioso, então é prova plena de que a sua correção está no estudo desta parte, a luz interior da Torá. E, quando sentir em si tal polimento e pureza que mesmo o estudo revelado o anime no grau da santidade, poderá alargar o seu âmbito, até cumprir bem a sua tarefa — e tudo em nome do Céu, com intenção pura.

Mesmo que existam homens grandes em Torá, em reverência e em sabedoria, a quem os segredos não tocam — pela própria grandeza, por terem riqueza farta nos tesouros revelados —, nem por isso desanime o coração daquele que sente em si um senso interior e a pressão de um anseio da alma pelos caminhos dos segredos. Pois, ainda que esse anseio lhe viesse de pouco talento para os assuntos revelados — que importa? No fim, esta é a sua porção, e cabe-lhe alegrar-se com o seu quinhão:

קָרוֹב ד' לְכׇל קֹרְאָיו, לְכֹל אֲשֶׁר יִקְרָאֻהוּ בֶאֱמֶת "Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade." Tehillim 145:18

— e diante d'Ele o nobre não tem preferência sobre o pobre.

Um princípio generoso de pedagogia espiritual: não há um único caminho de estudo para todos. Quem floresce na lei deve dedicar-se à lei; quem floresce na contemplação deve dedicar-se a ela. E o anseio pela dimensão interior não é motivo de vergonha — ainda que viesse de menos aptidão para o debate técnico, é uma porção legítima, e "D'us está perto de todos os que o invocam em verdade", sem distinção entre o erudito e o simples.

Os segredos entram em todo coração

Os segredos da Torá, por virem de uma fonte suprema — do recôndito poderoso da interioridade da alma, "porção de D'us lá do alto" —, podem entrar em todos os corações, mesmo nos que não chegaram a uma mente ampla, a um saber largo e profundo. E quando essas pessoas usam esse seu dom, a inclinação aos segredos, junto com a consciência da sua fraqueza intelectual — que as enche de humildade —, então trazem bênção ao mundo, e revelam, no seu desejo puro, uma grande luz do conhecimento dos santos, não tocada por nenhuma das doenças que há nos estreitos da sabedoria humana. Mas, se não reconhecerem a sua falha, e em vez disso se exaltarem com soberba — como se todos os segredos lhes fossem manifestos —, então corromperão o calor do sentimento, e não terão força para revelar as pérolas sagradas do abismo da alma, que só se revelam aos de espírito contrito e aos humildes da justiça.

Mesmo quem não é capaz de representar no intelecto a finura dos assuntos sublimes pode, ainda assim, sentir o sentimento geral e a delícia da alma — pela própria natureza da alma que entende e pelo senso de fé inato. E o uso do intelecto poderá, para ele, servir apenas para purificar os conceitos, de modo que não produzam efeitos enganosos, contrários à opinião límpida e à fé pura. E então permanecerão nele os traços espirituais como pensamentos que elevam o espírito à esfera divina suprema, fonte da felicidade e do esplendor da alma, para o indivíduo e para a coletividade.

Eis um traço raro do pensamento do Rav Kook: a Torá interior não é um clube de eruditos. Por brotar do fundo da alma — e não da erudição —, ela pode tocar qualquer coração sincero, mesmo o do simples. Mas há uma condição inegociável: a humildade. Usada com a consciência da própria pequenez, ela traz bênção; usada com arrogância ("eu domino os segredos"), apodrece. E ao intelecto cabe um papel de guardião: purificar as imagens, para que a devoção não vire ilusão.

Mas a razão vem primeiro

Há um grande defeito nos estudiosos comuns da Cabalá: não percorrerem primeiro, com o intelecto, as fontes da Torá, para compreender as coisas divinas. Em vez disso, empanturram-se de alusões e códigos escritos nos livros — e com isso o intelecto não se eleva; apenas um sentimento embotado brilha dentro deles. Mas não é aí que está o repouso: só depois de o homem percorrer com o intelecto o caminho de conhecer a D'us, juntando a isso uma dedicação adequada às parábolas e enigmas dos sábios sobre os segredos, em todos os seus detalhes — só então ele se eleva, e o mundo inteiro se eleva com ele.

Às vezes a pouca [verdadeira] inteligência leva o homem aos estudos ocultos — não porque o oculto combine com a ignorância, mas porque a centelha intelectual suprema fica escondida pela falsa esperteza. Quando se apaga a luz baça e enganadora dessa esperteza, desperta o anseio da centelha suprema do intelecto. Mas ele não chega à sua plena solução senão quando volta a aprofundar-se na sabedoria, no conhecimento e no talento; então alcança a medida de conhecer o valor — e também a fraqueza — da esperteza humana, e a sua inclinação resta voltada apenas para a ligação com o Intelecto supremo, que brota do esplendor divino.

Pois os segredos da Torá esclarecem-se por meio de todas as sabedorias do mundo e pela reverência natural ao Céu — aquela que está belamente explicada no clássico Deveres do Coração. E esse fundamento de baixo é a matéria apta a receber as formas mais elevadas, vindas da santidade do alto.

Este é o coração racionalista do capítulo — e o que torna o Rav Kook herdeiro de Saadia e do Rambam. O misticismo desligado da razão, adverte ele, não passa de "um sentimento embotado": decorar códigos e gematrias sem antes conhecer a D'us pelo intelecto não eleva ninguém. O caminho correto inverte a ordem usual: primeiro a razão e a "reverência natural" (a do Deveres do Coração, de Bachya ibn Pakuda, lido na chave filosófica); só sobre esse alicerce as formas mais altas se assentam. A fonte oculta dá água limpa — mas só a quem cavou o poço com a razão.

A fonte que sacia

A fonte suprema — manancial de verdade infinita, beleza sem fim, força sem limite — corre e jorra na nascente dos segredos da Torá. E quando a alma está exausta de todos os estreitos das ciências do finito, das aspirações presas a limites apertados, então encontra refúgio à sombra fresca do raciocínio dos segredos do mundo e das maravilhas sagradas. E, de entre os montes escarpados que parecem ásperos rochedos — combinações de números, cálculos de gematrias, alusões de Nomes, correntes de Escritura, halachá e agadá —, nasce o sol em toda a sua força, para ser justiça e cura; eis que aparece, e todos os que para ele olham resplandecem, e voltam a viver:

וְזָרְחָה לָכֶם יִרְאֵי שְׁמִי שֶׁמֶשׁ צְדָקָה וּמַרְפֵּא בִּכְנָפֶיהָ "Para vós que reverenciais o meu Nome nascerá o sol da justiça, com cura nas suas asas." Malachi (Malaquias) 3:20

Feliz de todo aquele que prova o sabor do Éden de D'us e dos seus rios de delícia, do favo de mel dos segredos sagrados. Pois eis uma das maravilhas deste estudo: quando o homem estuda estes assuntos elevados com amor e sentimento interior, ainda que não consiga apreendê-los com clara compreensão, mesmo assim eles elevam todo o seu ser; e depois lhe irradiam a sua luz, até que rios de sabedoria se espalham sobre ele — e, pela própria obscuridade interior, ele acrescenta intelecto límpido e pensamento claro. E quando se contemplam os puros segredos com coração fiel, embora as coisas se representem pela imaginação, depois elas se explicam por todos os caminhos do intelecto e concordam com a lógica límpida — e, contudo, permanecem sempre maiores do que todas as explicações, tornando-se a fonte de onde brotam todos os rios da lógica.

Permanecem sempre maiores do que todas as explicações — a fonte de onde brotam todos os rios da razão.

O esforço que parece descanso

Estudar os ocultos sem [plena] explicação, mas com coração bom e fiel, é como a descida das chuvas por meio das nuvens — e "difícil é o dia de chuva como o dia do juízo" —, mas depois é grande a abundância de bênção que daí sai, "dos preciosos frutos trazidos pelo sol, e das dádivas das luas" (Devarim 33:14). E as pausas em alguma forma de estudo aplicado, que vêm da pureza da alma e da sua saudade de imagens espirituais supremas, não contam como interrupção da Torá: são antes um grau elevado pelo qual se sobe à Torá suprema — à medida de Rabban Yochanan ben Zakkai, que nunca o encontraram sentado em silêncio, mas sentado e estudando, mesmo quando ocupado numa coisa grande como o Ma'asé Merkavá.

E quem tem dificuldade de estudar os detalhes revelados por causa do seu anseio supremo pelos princípios gerais e ocultos — ainda que essa dificuldade venha da elevação da alma — deve, mesmo assim, vencer também esse obstáculo. Pois, ao subjugar uma "boa inclinação" dessas, que vem de um grau superior, ele subjuga a medida do juízo na sua raiz, e multiplica em todo o mundo a bondade e a misericórdia supremas — que se revelam a toda criatura, para alegrar todas as obras, salvar todos os oprimidos, e abrir as portas do retorno a todos os distantes e desesperados.

Por que o mundo precisa da Torá oculta

Vemos que, quando se olha para o mundo julgando-o só pela influência das partes reveladas da Torá, sem a influência da "Torá de bondade" que brota da fonte do entendimento divino oculto, cresce enormemente a medida do juízo — o ódio às criaturas e o desespero de todo lado; e não há como manter-se firme, com a alma temperada de santidade, numa geração em que ocorrem muitas brechas, senão pela junção do rigor que sobe da Torá revelada com a bondade e a luz do rosto da Torá oculta. Pois então as bondades e os rigores se mesclam, e chegam a um doce equilíbrio.

E até a própria ousadia que marca os "calcanhares do Mashiach" — a geração turbulenta que precede a redenção — tem o seu papel: sem ela não seria possível explicar os segredos da Torá em plena revelação; só pelo adensamento dos sentimentos torna-se possível receber iluminações intelectuais muito elevadas. E, no fim de tudo, tudo voltará a uma correção completa.

O fecho do capítulo é, no fundo, uma defesa do equilíbrio. A Torá revelada, sozinha, tende ao rigor — e o rigor sem amor azeda em julgamento, em desprezo e em desespero diante de um mundo cheio de falhas. A Torá oculta é "Torá de bondade": ela traz a luz que adoça o juízo. As duas, juntas — a exigência e a compaixão, o rigor e o amor —, é que tornam a santidade habitável. O segredo, no fim, não afasta do mundo: cura-o.

A Torá da Terra de Israel: o todo, a unidade e a paz

O capítulo que encerra Orot HaTorah contrapõe duas maneiras de viver a Torá. Não se trata de geografia, mas de amplitude: a Torá "do exílio" cuida, com zelo, da alma do indivíduo; a Torá "da Terra de Israel" alcança o todo — a alma da nação inteira e o universal. Como se verá, o Rav Kook honra a primeira (foi a luz que cresceu na escuridão e aproximou os distantes), mas aponta para a segunda como a fonte. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (oito seções), a partir do hebraico original (de domínio público).

Da escuridão, uma grande luz

Quando se estuda muito do [lado] oculto, então tudo o que se compreende e se aprende do [lado] revelado brilha com uma luz preciosa. Esta é a via do Talmud de Jerusalém (o Yerushalmi): "porque eram piedosos, a sua Torá era abençoada" — e não apenas, como diz o Talmud da Babilônia (o Bavli), "a sua Torá se preserva". Há, nisto, uma diferença entre o "ar da Terra de Israel", onde o espírito sagrado pode influir até no conteúdo das leis (halachot), e o exílio, onde ele se manifesta abertamente só nas narrativas (agadot), e as leis são julgadas pela razão humana. "Em lugares escuros me fez habitar" — este é o Talmud da Babilônia. E, no entanto, da escuridão brotará uma grande luz:

הָעָם הַהֹלְכִים בַּחֹשֶׁךְ רָאוּ אוֹר גָּדוֹל "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam na terra da sombra da morte resplandeceu a luz." Yeshayahu (Isaías) 9:1

Porque, ao fazer descer a luz da Presença suprema às camadas mais baixas da vida, iluminam-se muitíssimas entradas escuras — e isso estende a mão a muitos que estão distantes, para que venham, se aproximem e se unam à luz suprema do esplendor da Torá na sua essência, que é a Torá da Terra de Israel.

Note-se a generosidade do Rav Kook: a Torá do exílio não é desprezada. Pelo contrário — é "a luz que cresce na escuridão", aquela que, justamente por trabalhar nas "entradas escuras" e julgar a lei pela razão humana, consegue baixar a luz divina aos níveis mais simples da vida e aproximar os distantes. O exílio tem a sua grandeza própria. A diferença que se vai descrever é de alcance, não de valor: o particular contra o todo.

A Torá do indivíduo e a Torá do todo

וּזֲהַב הָאָרֶץ הַהִוא טוֹב — אֵין תּוֹרָה כְּתוֹרַת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל "'E o ouro daquela terra é bom' — não há Torá como a Torá da Terra de Israel." Bereshit 2:12, com Bereshit Rabá

Em toda geração deveríamos amar muito a Torá da Terra de Israel; e tanto mais na nossa — geração da decadência e do renascimento, filha de um tempo de treva e de luz, de desespero e de coragem. Para ela precisamos de um remédio de vida, justamente o da Torá da Terra de Israel: mostrar-lhe a verdade e a clareza que há no nosso tesouro divino, e o que há de belo e de sublime nos seus mandamentos práticos — o quanto ela é, a um só tempo, Torá de verdade e Torá de vida. E provar isso, desde a sua profundidade, só é possível na Terra de Israel.

Tudo o que, na Torá do exílio, está no registro do particular, eleva-se, na Torá da Terra de Israel, ao registro do geral. A Torá do exílio ocupa-se da correção da alma privada — do seu cuidado com a matéria e o espírito, da sua purificação e elevação —, mas apenas enquanto alma privada. Não assim a Torá da Terra de Israel: esta cuida sempre do todo, da totalidade da alma de toda a nação. Os particulares reúnem-se nela, elevam-se na sua elevação, coroam-se na sua coroa. E até essa própria passagem, do particular ao geral, é, ela mesma, uma inovação sublime da Torá da Terra de Israel.

Eis o coração do capítulo. A Torá do exílio pergunta: como eu, indivíduo, me corrijo e me elevo? A Torá da Terra pergunta: como o todo — a alma da nação, e através dela a humanidade — se eleva? Não é que o particular seja abandonado: ele "se reúne no todo, e se eleva na sua elevação". É a diferença entre cuidar de uma árvore e cuidar da floresta inteira — sabendo que cada árvore floresce melhor quando a floresta vive.

Quando os muros caem

E não só a agadá é iluminada pela ideia clara da Torá da Terra de Israel, mas também a halachá: os fundamentos dos raciocínios, a análise das decisões, as raízes das escolas e o seu sentido geral, enraizado nas profundezas da vida espiritual e prática. Da profundidade do renascimento espiritual, os limites e os "muros de ferro" entre um assunto e outro irão diminuindo; todo o mundo espiritual será contemplado num só olhar. O esplendor da vida e o amor dos mistérios, a fineza do pilpul e o reerguer-se de Israel na terra santa, o esclarecimento das leis e a expansão da visão e do canto, o desejo do estudo e o anseio do desenvolvimento físico — tudo isto, que no exílio era tratado como distante e contraditório, eis que agora se une num feixe de verdadeira ligação, cada parte ajudando a outra a alargar-se e a aprofundar-se.

A corrente divina geral, que flui em cada parte da Torá e lhe dá vida, só aqui, na terra santa, pode ser bem apreendida. O esplendor supremo e abrangente, que brilha do mais íntimo dos princípios gerais, ao descer aos particulares faz neles tudo o que deseja, com retidão e sabedoria: pode expor "sobre cada traço e traço montes e montes de leis". Ela não é obrigada a alongar-se no pilpul para estabelecer uma lei clara — alcança a verdade e o conteúdo puro e interior a partir do sentido divino íntimo que ilumina os que habitam o solo sagrado.

Talvez seja a imagem mais bela do capítulo: a queda dos "muros de ferro". No exílio, a Torá fragmenta-se em compartimentos que parecem rivais — a halachá contra a agadá, o pilpul contra a poesia, o estudo contra o corpo. A Torá do todo cura essa fratura: tudo volta a ser um só organismo, em que cada parte alimenta a outra. É a mesma intuição da unidade que percorre todo o pensamento do Rav Kook — a verdade é uma, e os seus aparentes opostos se reconciliam no alto.

Do geral para o particular

Precisamos elevar-nos àquele grau de compreensão dos princípios gerais — e dos princípios dos princípios —, com os particulares apoiados sobre eles. Esta é a medida própria da Torá da Terra de Israel. Aquele grande espírito, em que toda aspiração escondida no fundo da alma não tem alvo privado, mas geral; aquela vontade sublime, oculta na alma interior da Comunidade de Israel, de onde se ramificam todos os princípios e detalhes da Torá — só na Terra de Israel ela repousa devidamente sobre a alma. Por isso, só ali estão os sábios preparados (se quiserem usar o seu privilégio) para entrar nas profundezas da Torá de cima para baixo, do geral ao particular.

Mas, enquanto não reconhecerem o seu grau elevado, e quiserem conduzir-se no estudo só do modo que convém aos filhos do exílio, tornam-se debilitados e diminuídos; e não só o seu privilégio sublime não se revela, como até parece que os sábios do exílio os superam em agudeza — e tudo isso porque ainda não chegaram ao reconhecimento de si mesmos.

No exílio, uma luz emprestada

A Comunidade de Israel, no seu conjunto, vive no exílio uma vida que não é original [enraizada na sua fonte]; quanto mais os sábios, cujo fundamento de vida é a vida espiritual. Por isso, ali, cada fio que sai de um mesmo ponto empurra o outro: a ação e a contemplação, a halachá e a agadá, o revelado e o oculto, a pesquisa e a Cabalá, o mussar e a poesia, a gravidade e o gracejo — coisas que só por fora se dividem, e não por dentro (pois na corrente interior da vida tudo flui num só curso, em unidade) — tornam-se fragmentadas e afastadas, como se cada uma tivesse de guardar-se da outra. Uma unidade verdadeira e uma paz suprema, cheia de vida — que vêm do próprio Nome do Santo, bendito seja, "o Senhor é Paz", pois "o seu próprio Nome se chama Paz" — não podem desenvolver-se plenamente no exílio.

Por isso a vida espiritual ali não pode ser original; é apenas haurida do tesouro de vida guardado no que restou da Torá — escrita e oral —, que desceu ao exílio junto com Israel. Mas só o lado externo da santidade vai para o exílio: as palavras e as letras podem ser tomadas na mão e levadas de lugar a lugar. A sua alma interior, porém — a alma do D'us vivo, unida à luz suprema e à esperança geral, enraizada em cada palmo do solo sagrado — só se revela no seu lugar, na Terra de Israel. E o próprio reconhecimento de que somos "um povo admirável, filhos de reis, nobres entre os povos" — reconhecimento que no exílio se cobre de um véu de tristeza —, aparece, no solo sagrado, na clareza da alma e no esplendor da vida.

Estas páginas sobre o exílio devem ser lidas como o Rav Kook as pensou: uma metafísica da dispersão, e não um juízo sobre os lugares ou os povos entre os quais Israel viveu. O que ele descreve é a condição de quem está "fora do seu lugar" — a alma da Torá que viaja com o povo, mas cuja raiz viva ficou na terra. O exílio, aqui, é símbolo da fragmentação e do desenraizamento espiritual; o retorno, símbolo da reunificação e da paz. E a dignidade de Israel — "filhos de reis, nobres entre os povos" — é afirmada, não negada.

O mussar ao contrário: a coragem de ser grande

Os sábios da Terra de Israel precisam de um mussar [admoestação] forte — mas o conteúdo deste é o oposto de todo mussar comum. As qualidades duras, que levam a pessoa a afirmar o seu valor privado e a reforçar o seu poder, fazem o mundo adoecer pelo seu excesso, a ponto de cada nação dizer "eu, e nada além de mim", querendo engolir o mundo todo. Por isso os mestres do mussar de sempre se esforçaram por abrandar a dureza do coração, enfraquecer a soberba e humilhar o orgulho. Mas o mussar de que precisam os elevados — os chamados, pela luz da sua alma, a serem grandes — é o contrário disto: a generosidade refinada alarga tanto o coração que a pessoa sente tudo, percebe toda a dor do mundo, e quer ajudar e salvar, esquecendo-se só de si mesma.

As inclinações da alma nobre correm ao contrário das da maioria: vão do geral ao particular.

As faltas do mundo, a alma nobre vê-as em si mesma, como num espelho límpido; e a sua própria luz fica-lhe oculta. Estes são os "humildes da terra", que, depois de se elevarem em saber, luz e santidade, enchem o mundo inteiro de luz e de vida. Desta espécie são os sábios da Terra de Israel: toda a dor do mundo — e mais ainda a dor profunda da Comunidade de Israel — está gravada no fundo do seu coração, a ponto de não conseguirem reconhecer a própria grandeza. Pois esta é a medida de todos os grandes do mundo que salvaram mundos pela sua influência: serem humildes e quase apagados — e até demasiado tímidos — antes que se lhes torne clara a sua missão, a que os coroa de força e lhes põe a coragem na mão.

A estes devemos dirigir um grande chamado: anunciar-lhes, dos próprios montes de Sião, que vivem uma vida grande e que há força poderosa em suas mãos. "Não é imitando o estilo do exílio que mostrareis as vossas forças admiráveis, ó habitantes da terra da vida: tendes uma missão muito mais alta — devolver-nos a coroa da força da Torá, desde a santidade da nossa vida antiga, e elevar-vos ao cume da alma divina que paira sobre os montes de Sião." A coragem e a humildade, a Torá e o serviço, a reverência sublime do Infinito e o esplendor do amor ao D'us vivo encherão o vosso coração como o orvalho do Hermon que desce sobre Sião; o revelado e o oculto, o Talmud e a ação, a beleza e a força encherão o vosso espírito. E da nossa paz interior estender-se-á uma tenda de paz sobre todo o Israel:

הַפּוֹרֵשׂ סֻכַּת שָׁלוֹם עָלֵינוּ וְעַל כׇּל עַמּוֹ יִשְׂרָאֵל וְעַל יְרוּשָׁלָיִם "[Bendito é Aquele] que estende a tenda da paz sobre nós, sobre todo o seu povo Israel e sobre Jerusalém." da liturgia (bênção do Hashkiveinu)

O "mussar ao contrário" é uma das mais finas psicologias do Rav Kook. A moral comum combate a soberba — e faz bem, pois é da soberba que vem o "eu, e nada além de mim" que adoece o mundo. Mas há um perigo oposto, próprio das almas grandes: o apagar-se demais, a timidez que esconde de si o próprio dom e, com ele, a missão de servir o todo. A verdadeira humildade dos grandes não é encolher-se — é esquecer-se de si para sentir a dor de todos e, então, ter a coragem de erguer-se e iluminar. Humildade e grandeza, aqui, são a mesma coisa.

Os Caminhos do Estudo: cada alma e a sua Torá

Este é o capítulo mais prático de Orot HaTorah: um guia de estudo. O Rav Kook fala de método, de ordem, de ritmo — mas, acima de tudo, de respeito à alma de cada estudante. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (treze seções), a partir do hebraico original (de domínio público).

Cada alma, o seu caminho

Cada um deve ocupar-se do seu próprio trabalho, naquilo para que tem preparo; e isto vale em especial para o estudo. Ainda que, por vezes, as circunstâncias tornem difícil manter aquilo que o coração deseja, mesmo assim a pessoa deve ser firme e não abandonar o que especialmente apura o seu espírito.

Houve quem se desviasse para o mal porque, no seu modo de estudo, traiu a sua natureza individual. Veja-se: um é talhado para a agadá, e os assuntos da halachá não são da sua índole, para neles se ocupar de modo constante; e, não sabendo avaliar o seu talento próprio, mergulha na halachá segundo o costume corrente, e sente em si uma resistência a esses assuntos — não por falta alguma nesses estudos sagrados, mas porque a sua alma busca outro ramo. Tivesse ele achado o seu papel — ocupar-se do ramo que convém à sua alma —, permaneceria fielmente devotado à Torá, prosperaria nele, e ainda ajudaria os que têm a mão mais forte na halachá, dando-lhes a provar a doçura da agadá. Mas, como não reconhece a causa do seu mal-estar e se força contra a sua natureza, no momento em que se lhe abrem caminhos de licenciosidade, rompe e torna-se inimigo da Torá e da fé, indo de mal a pior. E, na divisão dos vários ramos conforme as várias índoles, há também quem tenha forte inclinação para certas ciências: esse igualmente deve seguir a sua inclinação interior e fixar tempos para a Torá; e ambos prosperarão na sua mão —

יָפֶה תַּלְמוּד תּוֹרָה עִם דֶּרֶךְ אֶרֶץ "Belo é o estudo da Torá com uma ocupação no mundo (derech eretz)." Pirkei Avot 2:2

Uma pedagogia da individualidade, rara e generosa. Forçar uma pessoa contra a sua índole — obrigar o de vocação contemplativa a viver só de minúcias, ou vice-versa — não a aproxima da Torá; gera resentimento, e pode até afastá-la de tudo. O remédio não é estudar "menos", mas estudar o que é seu. Cada alma tem o seu ramo na Torá — e floresce quando o encontra.

Estudar por amor, não por vaidade

No estudo prático das leis está embutido um "orvalho de vida" oculto — os propósitos que há no íntimo da ação —, e a alma nutre-se desse esplendor no seu estudo. Mas, se o estudo é não-lishmá, em nome da vaidade e da contenda, o pensamento esvazia-se, as coisas ficam secas e, por vezes, cheias de um veneno interior. E, contudo, mesmo num pensamento ainda tosco pulsa alguma seiva de vida, conservada na medida em que o próprio estudo não foi desviado da busca da verdade e da retidão. É a torção do intelecto que arrasta consigo os tropeços do coração e a secura da alma. Mas, às vezes, tudo retorna ao bem, se o amor pela santidade do estudo se tornar a força que age sobre o sentimento.

E quando ao pilpul se mistura o desejo de alegrar-se com a discussão da Torá, isto não se chama, D'us nos livre, "Torá não-lishmá": pois a própria alegria, e o afastar a tristeza, são também uma grande mitzvá — incluída na "melhoria das qualidades", que é a virtude própria da Torá. Por isso, quem quer apegar-se à Torá lishmá e brilhar no pilpul das finezas práticas precisa aprofundar o seu sentimento sagrado pelo valor da Torá, até que esse sentimento geral ganhe tamanha força que dê vida até aos "ramos distantes" gerados pela agudeza do pensamento — de modo que também eles sejam atraídos pela ideia sagrada da Torá lishmá.

Note-se o equilíbrio: a alegria de raciocinar não é vaidade — é, ela mesma, uma mitzvá. O Rav Kook não pede um estudo sombrio e penoso; pede um estudo cuja agudeza esteja ancorada no amor. Quando o sentimento pela santidade da Torá é forte, até as elaborações mais técnicas e "distantes" do pilpul ficam ligadas à sua raiz — o estudo por amor.

Um plano de estudo

Os estudiosos cuja Torá é o seu ofício devem ter o caminho claro diante de si e o alvo bem definido, para que o espírito seja firme e a mente serena. Grande é o princípio que dá repouso ao coração:

לֹא עָלֶיךָ הַמְּלָאכָה לִגְמֹר, וְלֹא אַתָּה בֶן חוֹרִין לְהִבָּטֵל מִמֶּנָּה "Não te cabe completar a obra, mas também não és livre para dela te afastar." Pirkei Avot 2:16

Assim a pessoa ocupa-se de cada assunto com tranquilidade, sem que a angústia de uma completude impossível a impeça de encontrar prazer no seu trabalho. Ainda assim, deve traçar para si um caminho em que o panorama geral esteja à vista — tanto nas ideias quanto no lado prático, abrangendo, quanto possível, a soma de toda a Torá prática. Pois o dito "não há fim para a Torá" aplica-se só sob certas condições; na verdade, indo pela via reta, é possível abarcar um panorama claro de todo o lado prático.

Os grandes não precisam de explicações; os medianos precisam de ajuda. Depois de chegar a uma boa compreensão da profundidade da halachá — pela convivência com os sábios —, até saber estudar cada sugiá e levantar perguntas e respostas, deve primeiro abranger todas as leis do Rif (Rabi Yitzchak Alfasi) no seu sentido simples, com boa fluência (bekiut), o que se alcança com regularidade calma. Este trabalho é muito agradável, pela imagem deleitosa do panorama: conhecer a soma de todas as leis, o mais perto possível da sua fonte no Talmud, até que, da reunião dos detalhes, se erga diante dos olhos a grande beleza do edifício de toda a Torá prática. A isso junte porções da Torá escrita; tempos diários para a agadá, os midrashim, os livros de mussar, a filosofia e a Cabalá, guardando os graus; espaço para o pensamento próprio; uma medida fixa de estudo corrente; e tempos para aprofundar a halachá com amplitude e pilpul. E, ao adquirir fluência abrangente, multiplicará o estudo do Talmud — Bavli e Yerushalmi, Tosefta e as palavras dos Sábios. Poderá então fixar tempos também para as ciências úteis ao homem no mundo, que alargam a mente e dão força para a vida — e será bem-aceito pelas pessoas, e achará graça aos olhos de D'us e dos homens.

Quanto mais claras [bem elucidadas] estão as leis, mais elas alegram o coração de quem as cumpre. A falta dessa clareza traz uma sensação de peso, e disso pode nascer um tremor de fraqueza que leva — D'us nos livre — ao desdém da Torá. Mas, para quem tem entendimento amplo, a precisão não oprime; pelo contrário, a precisão é fruto da perfeição — assim como o rigor da gramática corresponde à perfeição de quem fala bem a língua. Por isso é grande dever ocupar-se da Torá lishmá no esclarecimento da lei (libun hilchetá), até que ela fique "clara como uma túnica", estudando os pormenores a partir do deleite do intelecto supremo. E esta é uma condição preciosa entre os quarenta e oito modos pelos quais a Torá se adquire: "na alegria, na pureza".

O plano é notavelmente equilibrado: primeiro a largura (bekiut — abranger o todo, começando pelo Rif), e sobre ela a profundidade (iyun, pilpul). E não só halachá: Bíblia, agadá, mussar, filosofia, Cabalá, pensamento próprio — e até "as ciências úteis ao homem no mundo". Tudo coroado por uma exigência de clareza: a lei bem elucidada alegra; a lei obscura pesa. Estudar bem é estudar com alegria e com precisão — que, longe de oprimir, é o próprio sinal da perfeição.

A coragem de inovar

Assim como, no mundo sensível, as criaturas surgem por combinações — umas naturais, outras feitas pela arte —, também em todos os conceitos do intelecto há combinações naturais e combinações intelectuais; e a força criadora pode crescer sem fim, para multiplicar vida e bem. Por isso é muito louvável aquele que inova (mechadesh) à maneira da Torá — contanto que pela via de D'us, em acordo com a retidão do intelecto e a boa moral, cujo conjunto é a verdadeira reverência a D'us, "o princípio do conhecimento". É preciso compreender que os princípios, com todas as suas derivações, são, quanto à força divina que neles há, uma só criação dotada de membros, que pela multiplicação das suas partes cresce em perfeição. E, às vezes, contra a liberdade de inovar levanta-se uma força de "temor vão" (yirat shav), que pretende guardar o bom fundamento; mas é preciso vencê-la e caminhar com amplitude — pois, firme a pessoa sobre o bom fundamento, tudo o que buscar fará "crescer a Torá e engrandecê-la". E do mesmo modo se deve inovar, como convém, em todas as descobertas do mundo, nas coisas naturais e nas artes — pois "tudo fez o Senhor para o seu fim" —, amando as criaturas e desejando o seu aperfeiçoamento; e esta atitude conduz ao amor de D'us.

Eis o Rav Kook racionalista e afirmador do mundo: a Torá é viva, e renová-la (com retidão e moral) é mérito, não ousadia indevida. Há um "temor vão" que se disfarça de piedade e trava o pensamento — e que se deve vencer. E o mesmo vale para a ciência e as artes: investigar a natureza, criar, aperfeiçoar o mundo é serviço divino, "pois tudo fez o Senhor para o seu fim". Amar as criaturas e querer o seu bem é um caminho para o amor de D'us.

Quando o detalhe parece pequeno demais

Por vezes a alma, apta a grandes contemplações, entristece-se ao ocupar-se dos detalhes das leis, e sente os seus "estreitos", como que aprisionada neles. Mas a sua cura não vem por abandonar a Torá prática, e sim por preparar o espírito para elevar o valor de cada detalhe à riqueza da sua fonte espiritual, abrangente e geral. Essa elevação dá-se, às vezes, por um lampejo do intelecto; às vezes, por um sentimento interior profundo que se ramifica das irradiações do conhecimento de D'us; e, às vezes, pelas duas forças juntas, que "regam" os detalhes práticos até que se encham de seiva e deleite — de modo que a alma, ao ocupar-se deles, não fique desolada, mas se alargue e se refine.

Às vezes, ao estudar coisas pequenas com uma exaltação tão grande que a sua marca na alma age como se aquela coisa pequena fosse a mais alta de todas, o entendimento "corporifica-se", e as asas do espírito ficam cortadas. A orientação reta é estudar cada assunto com a exaltação da alegria, que tem um sentimento duplo: o de uma grandeza suprema (pois cada pequeno ramo espiritual completa toda a árvore da vida, e por isso tudo é grande) e o de que, na própria particularidade de cada saber — sobretudo o da Torá —, há um valor muito positivo, digno de ser estimado com alegria honrada conforme a sua medida.

O fogo do alto e o fogo de baixo unem-se para iluminar e aquecer a alma.

Pois, embora o mundo inteiro esteja cheio da luz de D'us — para os de coração reto que se deleitam na sua doçura —, ainda assim a nascente da luz fundamental está guardada na Torá. Por isso, quem caminha estudando e interrompe o seu estudo para dizer "que bela é esta árvore, que belo é este campo", a Escritura o considera "como se atentasse contra a própria vida" (Avot 3:7) — porque, no fim, de todo o mundo brilha uma luz de vida, mas da Torá jorra a "luz de vida da própria vida", e não se abandona uma santidade original e densa para tomar, em seu lugar, uma santidade leve e derivada.

O conselho para a alma "grande demais para os detalhes" é fino: a cura não é fugir da minúcia, mas elevá-la — ver, em cada lei pequena, a sua fonte luminosa. E a chave é a alegria, com a sua "dupla face": o pequeno é grande (porque completa o todo) e o pequeno vale por si (porque é uma peça real do edifício). É o mesmo ensino do capítulo sobre o todo e o detalhe — aqui, transformado em conselho prático para a vida do estudante.

O caminho de quem busca a D'us

Diz-se que "só passeia no pardes [o pomar da especulação divina] quem encheu o ventre de carne e vinho" — isto é, quem já dominou a halachá. Mas isso vale para quem vem cumprir apenas o dever da lei. Já quem sente no coração o anseio de estudar as coisas interiores, para compreender a verdade de D'us, está incluído em:

לְעוֹלָם יִלְמַד אָדָם תּוֹרָה בְּמָקוֹם שֶׁלִּבּוֹ חָפֵץ "Sempre estude a pessoa a Torá no lugar que o seu coração deseja." Talmud, Avodá Zará 19a

— pois decerto tem para isso um talento especial, e isto mesmo prova que é vontade de D'us que ele se ocupe do conhecimento do seu Nome. E mais: para aquele que percebe que esses assuntos estabelecem nele a reverência, e que sem eles ela lhe faltaria, eles são a própria "carne e pão" — e não se incluem no "passeio pelo pardes". Por isso, quem sente o intelecto e a inclinação verdadeiramente voltados para conhecer a D'us deve ser firme no seu caminho: que fixe tempos para o sentido simples da Torá e das suas leis, mas que a sua ocupação principal, em profunda alegria, seja naquilo que a sua alma anseia — o conhecimento do Nome divino. E, se vir que a maioria não se conduz assim, saiba que para eles é adequado não se lançarem ao sagrado antes de subirem por graus; isto não é superioridade nem vaidade, mas aspectos distintos das almas. Quem é levado pelo coração às coisas elevadas não se assuste: saiba que esta é a sua obrigação, e que, sem um olhar particular para o que a sua alma lhe pede, nem o caminho comum lhe será pleno.

E, segundo a via dos contemplativos, o clássico Deveres do Coração ensinou que os antigos valorizavam imensamente o seu tempo, evitando deter-se nas questões miúdas: punham o essencial da atenção na generalidade do serviço divino e na pureza das ideias, e, quando precisavam decidir um caso prático, faziam-no com brevidade, pelos fundamentos que tinham. Assim também o Rambam ordenou ao seu discípulo, por carta, que, ao abrir uma yeshivá, se ocupasse do Mishné Torá e da obra do Rif, e só em caso de dúvida recorresse ao Talmud. E não temiam não saber "deduzir uma coisa de outra", porque o endireitar do intelecto, vindo da contemplação elevada — da fonte da reverência clara a D'us —, endireita o raciocínio ainda mais do que a ocupação com os pormenores das discussões. Os jovens, e os que ainda não chegaram a essa medida, precisam mais do trato particular das discussões; mas os estudiosos amadurecidos, que queiram dedicar-se à depuração das ideias e das qualidades, devem ser fortes em repetir as leis pelas fontes mais claras, sem se prenderem demais às minúcias — para que a sua grande alma não sinta a dor do apequenamento das suas luzes. E, com a fluência e a revisão constante, subirão a um grau elevado também na retidão da halachá, até "que em todo lugar a lei seja como eles, pois D'us está com eles".

O fecho do capítulo é uma das passagens mais ousadas — e mais "racionalistas" — do Rav Kook. Para quem é assim chamado, conhecer a D'us pela razão não é um luxo a ser adiado até "encher o ventre" de halachá: é "a própria carne e pão", o centro do estudo. E ele ancora isso nos maiores: o Deveres do Coração de Bachya ibn Pakuda e a célebre carta do Rambam, que punham a contemplação dos fundamentos acima da erudição casuística — porque a mente iluminada pela reverência clara raciocina melhor do que a mente afogada em detalhes. É o coração da tradição racionalista, posto como conselho de vida.

O Amor ao Trabalho: como toda obra resgata o mundo

Num único e denso parágrafo dos Orot, o Rav Kook constrói uma das visões mais generosas de toda a sua obra: a santidade do trabalho — e, a partir dela, a santidade possível de todas as ciências, de todas as línguas e de toda a cultura humana. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Toda obra resgata o mundo do caos

É coisa simples que o justo (tzaddik) faz todas as suas obras em santidade, e que todas as suas ações físicas se elevam à reparação do mundo (tikkun olam). A isto se chama o amor ao trabalho (ahavat ha-melachá) — cuja grandeza é tão alta em si mesma que foi dada numa aliança, assim como a Torá foi dada numa aliança. E, a partir disso, não há dúvida de que a reparação plena do mundo e a expansão da luz sagrada se encontram, de fato, em toda obra: cada movimento que resgata alguma parte da existência do domínio do caos (tohu) — há aqui algo grande e universal. E o mais elevado de tudo é o resgate geral: preparar a vida interior da realidade, tirá-la da sua rudeza e repará-la como vasos completos, que cumprem bem a sua função.

Toda obra que resgata uma parte da existência do domínio do caos — eis algo grande e universal.

A afirmação inicial é radical: o trabalho — qualquer trabalho honesto — foi dado "numa aliança, como a Torá". Não é castigo nem mero meio de sobrevivência; é um modo de reparar o mundo. Cada gesto que arranca um pedaço da realidade do caos e o organiza em algo útil e belo participa da obra divina da criação. A bancada do artesão e a mesa do sábio fazem, cada uma à sua maneira, a mesma coisa: ordenam o mundo.

Do amaldiçoado ao abençoado

O pensamento dos grandes em entendimento une-se também à inclinação popular — e tanto mais à inclinação do amor ao trabalho e ao labor concreto, que já é uma inclinação de nobreza de espírito, sobre a qual paira o espírito de D'us. E, quando há justos na geração, sobre quem a luz de D'us sempre brilha, eles unem a sua alma à alma de todo o conjunto, e o pensamento íntimo das multidões de trabalhadores une-se ao pensamento do seu coração. E o lado de maldição que há no trabalho — que vem da inveja de um homem contra o seu próximo, e do ódio às criaturas, tão alimentado pela luta pela vida na sua forma amaldiçoada — vai-se aclarando, e sai da categoria do amaldiçoado para a do abençoado. Às vezes têm os justos o poder de pôr uma luz de santidade na própria essência do trabalho, até que nele haja uma força semelhante à da Torá — que traz à vida do mundo vindouro, repara as falhas e conduz os que o praticam a um retorno completo. Como disseram:

גָּדוֹל הַנֶּהֱנֶה מִיגִיעַ כַּפָּיו יוֹתֵר מִירֵא שָׁמַיִם "Maior é quem desfruta do fruto do seu próprio trabalho do que [aquele que apenas] teme o Céu." Talmud, Berachot 8a

O que torna o trabalho uma "maldição" não é o trabalho em si — é a inveja e o ódio que crescem em torno dele, na luta de todos contra todos. Purifique-se isso, diz o Rav Kook, e o labor passa de maldição a bênção. E ele cita uma frase ousada do Talmud: quem vive do fruto das próprias mãos é, em certo sentido, maior do que o piedoso que só teme o Céu — porque junta à reverência a dignidade de quem constrói.

A luz em toda ciência e toda língua

E, assim como há poder para fazer descer a santidade e a luz divina em todas as artes — tirando-as da categoria do mero esforço físico vazio —, também há poder para trazer uma luz sagrada em todas as línguas e todas as ciências do mundo. Os grandes justos devem orar para que a luz da doçura de D'us se estenda por todas as ciências e por todas as línguas, de modo que de toda parte apareça a glória de D'us, e de toda parte se espalhem os raios da luz da Torá. E isto especialmente quando se vê que a inclinação para as línguas e as ciências [do mundo] é grande, e não é possível combater todos os que a elas se voltam, e o tempo e os seus sinais mostram a necessidade: então erguem-se justos interiores para a salvação, num trabalho silencioso, e abrem os canais bloqueados, para pôr "o segredo de D'us" nos seus ensinamentos — pois os "ensinamentos de D'us" são tudo o que há no mundo, em especial tudo o que contém reparação do mundo.

E despertam a santidade que há em cada língua pela força de Yosef — que tudo incluiu na letra heh acrescentada ao seu nome — e pela força da palavra dita no Sinai, que veio multiplicar uma luz cada vez maior: pois [ensinaram os Sábios que] cada palavra do Sinai se dividiu em setenta línguas. E assim Moshé "explicou bem a Torá" (Devarim 1:5) — e este "bem" (heitev) significa que ele achou o valor do bem verdadeiro que há em cada língua, a força que a emana em santidade. Então a língua vai-se clareando, e uma "língua clara" vai-se voltando a todos os povos:

אָז אֶהְפֹּךְ אֶל עַמִּים שָׂפָה בְרוּרָה, לִקְרֹא כֻלָּם בְּשֵׁם ד', לְעׇבְדוֹ שְׁכֶם אֶחָד "Então transformarei os povos numa língua clara, para que todos invoquem o nome do Senhor e o sirvam de comum acordo." Tzefaniá (Sofonias) 3:9

Aqui está o coração universalista da passagem — e a sua atitude diante do saber do mundo. O Rav Kook não pede que se combata a ciência e as línguas dos povos; reconhece que isso seria inútil e que "o tempo mostra a necessidade". Pede o oposto: que se encha de luz todo o saber humano, porque "os ensinamentos de D'us são tudo o que há no mundo". Cada língua é um vaso capaz de portar o sagrado — e o horizonte é uma "língua clara" partilhada por todos os povos, que juntos invocam o mesmo Nome. É o mesmo princípio do estudo dos segredos: a verdade esclarece-se "por todas as sabedorias do mundo".

Até as maneiras mais modernas

E todas as artes brilharão com a luz da vida por meio do trabalho sagrado. À medida que crescer no mundo a influência da língua sagrada, e à medida que se elevar a força da Torá e da oração pura — que se empenha em expandir no mundo a luz da emanação divina, dando a conhecer à humanidade o esplendor da sua glória por todos os modos de exposição e explicação —, mais e mais a luz se revelará sobre toda língua e idioma, e sobre toda sabedoria e ciência. E, com muito mais razão, a luz de D'us repousará sobre tudo o que tem gosto e sentido: sobre a beleza e a poesia, sobre os usos da boa convivência (derech eretz) e as regras de cortesia — e até sobre os ornamentos, os refinamentos e os modos de conduta mais modernos (entenda-se: os mais escolhidos e delicados entre eles). E em todos eles a luz de D'us começará a pulsar.

Talvez nada revele tanto a amplitude do Rav Kook como esta frase: a luz divina pode pousar "até sobre os modos de conduta mais modernos". Nada do que há de bom e fino na civilização humana — a arte, a poesia, a boa educação, o gosto, e sim, até a moda no que tem de mais delicado — fica de fora. O sagrado não se opõe à cultura; aspira a habitá-la inteira. A única condição é o discernimento: "os mais escolhidos e delicados entre eles".

A vida eterna e a vida do instante

E a ideia que liga tudo isto ao bem e à retidão, à delicadeza e à nobreza do espírito, ao amor ao trabalho no esplendor da confiança em D'us, e ao amor supremo que verte luz e vida sobre cada alma — revelar-se-á em todos esses ramos distantes. A vida eterna (chayei olam) e a vida do instante (chayei sha'á) ligar-se-ão num laço firme, recebendo uma da outra; e todos os particulares brilharão com a luz do todo. E todas as manifestações práticas e intelectuais do mundo hão de receber da luz suprema da Torá — aquela que iluminou o "pai de uma multidão de nações" [Avraham], o firme nativo que "despertou a justiça desde o oriente":

וְהִנֵּה כְּבוֹד אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל בָּא מִדֶּרֶךְ הַקָּדִים... וְהָאָרֶץ הֵאִירָה מִכְּבֹדוֹ "E eis que a glória do D'us de Israel vinha do caminho do oriente... e a terra resplandeceu com a sua glória." Yechezkel (Ezequiel) 43:2

E até os conteúdos mais decaídos serão erguidos e santificados: "e uma fonte sairá da casa do Senhor" (Yoel 4:18). Assim, do trabalho das mãos à mais alta sabedoria, da bancada à poesia, do gesto comum à oração — tudo se reúne sob uma só luz, e a terra inteira resplandece com a glória do seu Criador.

O Sol que Cura: o fim da guerra contra a natureza

Esta é uma das páginas mais ousadas e libertadoras do Rav Kook. Há uma suspeita antiga de que a religião seja inimiga da vida — do corpo, do prazer, da força, do mundo. O Rav Kook responde com uma reinterpretação surpreendente: a longa "guerra contra a natureza" nunca foi contra a natureza como tal, mas contra a sua crueldade; e o seu desfecho não é a derrota da natureza, mas a sua cura e a sua paz com o sagrado. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Uma longa guerra — mas contra o quê?

Vejo com os meus olhos: a luz da vida de Eliyahu sobe; a sua força para o seu D'us vai-se revelando; a santidade que há na natureza rompe os seus limites e vai, por si mesma, unir-se à santidade que está acima da natureza grosseira — àquela santidade que [outrora] combatia a natureza.

O judaísmo do passado, do Egito até aqui, foi uma longa guerra contra a natureza — mas contra o seu lado feio: o da natureza humana em geral, e até a natureza da nação e a natureza de cada indivíduo. Lutámos com a natureza para vencê-la, para dominá-la dentro da sua própria casa; e ela rendeu-se diante de nós.

Aqui está a chave de tudo. O "inimigo" nunca foi a natureza — o corpo, a vitalidade, o desejo, o mundo material —, mas o seu lado feio: a crueldade, a voracidade, o "cada um por si" que a natureza bruta ensina. A Torá não veio extinguir a natureza humana, mas domá-la dentro da sua própria casa — civilizá-la, refiná-la, pô-la a serviço do bem. É o oposto do ascetismo que despreza a vida: trata-se de elevar a vida, não de fugir dela.

O sol que veio curar

Lutámos com a natureza, e saímos vitoriosos. A natureza grosseira fez-nos coxos — tocou-nos na articulação da coxa —, mas o sol, não foi para nós que raiou, para nos curar da nossa claudicação?

וַיִּזְרַח לוֹ הַשֶּׁמֶשׁ כַּאֲשֶׁר עָבַר אֶת פְּנוּאֵל, וְהוּא צֹלֵעַ עַל יְרֵכוֹ "E o sol nasceu para ele ao passar por Penuel, e ele coxeava da sua coxa." Bereshit (Gênesis) 32:32

É a imagem de Yaakov: ao lutar a noite inteira com o anjo, sai vencedor — mas mancando, com a coxa tocada. E logo "o sol nasceu para ele". O Rav Kook lê esse nascer do sol como cura: a luta com a natureza deixa uma marca, um coxear; mas a luz que se ergue depois vem sarar a ferida. Os mundos vão-se adoçando, e na própria profundeza da natureza cresce uma grande demanda por santidade e pureza, por delicadeza de alma e por depuração da vida.

Na própria profundeza da natureza cresce uma grande demanda por santidade e pureza.

A luta com a natureza tem um custo — o "coxear" de Yaakov é a marca de toda batalha real contra os instintos brutos. Mas a guerra não é eterna: tem um amanhecer. O Rav Kook anuncia o momento em que a luta cede lugar à reconciliação — quando a natureza, já refinada, deixa de ser adversária e se torna aliada do espírito. A ferida não é o fim da história; o sol que nasce é.

A natureza que busca o sagrado

Eliyahu vem anunciar a paz; e, na alma interior da nação, irrompe uma corrente de vida natural que vai-se aproximando do sagrado.

הִנֵּה אָנֹכִי שֹׁלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא... וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים וְלֵב בָּנִים עַל אֲבוֹתָם "Eis que vos envio o profeta Eliyahu... e ele fará voltar o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais." Malachi (Malaquias) 3:23-24

A recordação da saída do Egito vai-se tornando a recordação da saída da servidão dos impérios, que se vai tecendo; e todos nós vamo-nos aproximando da natureza, e ela de nós — vai-se rendendo diante de nós, e as suas exigências vão-se harmonizando com as nossas exigências nobres, vindas da fonte do sagrado. O espírito jovem, que reclama a sua terra, a sua língua, a sua liberdade e a sua honra, a sua literatura e a sua força, os seus bens e os seus sentimentos — tudo isso é levado por uma torrente de natureza cuja interioridade está cheia de fogo sagrado.

O fecho é uma reconciliação total. As aspirações mais "naturais" e terrenas — uma terra para habitar, uma língua viva, liberdade, dignidade, arte, força, até os bens materiais — não são, para o Rav Kook, o oposto da santidade. São uma "torrente de natureza" cujo núcleo interior é fogo sagrado. Eliyahu, o profeta da reconciliação ("o coração dos pais aos filhos"), anuncia a paz entre o céu e a terra: o sagrado deixa de combater a vida e passa a habitá-la. É a mesma intuição do amor ao trabalho — a matéria não é inimiga do espírito; é o seu lar.

A Fé e o Amor: as duas forças mais profundas da alma

Esta seção dos Orot é, no fundo, uma teoria do que mantém a vida humana viva. O Rav Kook identifica duas forças — a e o amor — como o núcleo da alma, e lê tanto a saúde quanto a doença das civilizações à luz delas. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

As duas forças mais profundas da alma

A fé e o amor estão sempre unidas: quando ambas brilham na alma em plenitude; e, quando a luz de uma se completa por inteiro, ela desperta a outra na sua força, e esta sobe das profundezas da alma para iluminar em toda a sua amplitude. O homem não está apto a nenhuma força espiritual no mundo com uma plenitude tão grande como está para a e o amor — e isto é um sinal de que nelas repousam todos os fundamentos do seu ser essencial.

Tudo o que o indivíduo e a coletividade fazem — em todas as voltas das causas, e em todas as forças que se manifestam na vida da cultura — tudo vai, no fim, aperfeiçoar, no grau mais alto, a fé e o amor. Delas emanam todas as luzes espirituais do mundo, que iluminam todos os caminhos da vida e da existência. A fé e o amor são a própria vida, neste mundo e no porvir: nada permanece vivo quando se lhe roubam estes dois luzeiros.

A fé e o amor são a própria vida — nada permanece vivo quando se lhe roubam estes dois luzeiros.

Eis uma afirmação profundamente humanista. Entre todas as faculdades — a razão, a arte, a vontade, a memória —, o Rav Kook aponta duas como a raiz de todas: a capacidade de crer (de confiar, de se abrir ao que nos transcende) e a de amar. E observa um sinal revelador: é justamente para estas duas que o ser humano é mais capaz — prova de que é nelas que está o seu fundo. Tudo o que fazemos, no fim das contas, busca aperfeiçoá-las.

A doença da cultura: negação e ódio

A cultura do tempo presente, tal como agora se assenta no mundo, está construída inteira sobre a negação (a descrença) e o ódio — que são os que negam a vida essencial. E não é possível vencer esta doença senão revelando todos os tesouros de bem que jazem guardados no cofre da fé e do amor; e este é o objetivo de revelar os segredos da Torá.

O diagnóstico é severo e atual: quando uma civilização adoece, a sua doença tem dois nomes — a negação (que esvazia o sentido) e o ódio (que rompe os laços). São o avesso exato da fé e do amor. E a cura não é mais negação nem mais ódio "do outro lado": é desenterrar os tesouros de bem que a fé e o amor guardam. Combater a escuridão com escuridão não funciona; só a luz a dissolve.

A Torá é amor, a mitzvá é fé

הַתּוֹרָה הִיא הָאַהֲבָה, וְהַמִּצְווֹת — הָאֱמוּנָה "A Torá é o amor, e os mandamentos, a fé." Orot, Luzes do Renascimento §17

A Torá é o amor, e os mandamentos [as mitzvot] são a ; e são também os canais pelos quais o fluxo da fé e do amor corre sem cessar. E toda a cultura, espiritual e material, no despertar da vida nacional, deve concentrar-se em torno deste centro duplo e unificado — "dois que são quatro": a Torá e a mitzvá, a fé e o amor. E a plenitude da fé e do amor fortalece-se pela ligação da alma aos sábios e aos seus discípulos — aquela "ligação aos justos" de que tanto se ocupou a tradição —, pois a vida dos sábios justos é, na sua essência, a própria revelação da fé e do amor, firmada na força da Torá e da mitzvá.

A equação é elegante: a Torá — o ensinamento, a sabedoria que aproxima — é a forma do amor; a mitzvá — o ato fiel, a fidelidade cotidiana — é a forma da . Não são quatro coisas, mas duas vistas por dentro e por fora: "dois que são quatro". E os mandamentos não são gaiolas: são canais — os condutos por onde a fé e o amor correm para a vida concreta.

O orvalho que revive

Os "cultos" perversos, carentes de fé e de amor, não são capazes de ligação alguma — nem mesmo entre si —, e assemelham-se à cinza que não se deixa amassar; e por isso a sua vida não é vida, e são, em vida, chamados mortos. Mas, por uma grande fé e um amor abundante, faremos descer um orvalho de revivescência, para com ele reviver até os mortos:

יִחְיוּ מֵתֶיךָ נְבֵלָתִי יְקוּמוּן, הָקִיצוּ וְרַנְּנוּ שֹׁכְנֵי עָפָר, כִּי טַל אוֹרֹת טַלֶּךָ "Os teus mortos viverão... despertai e cantai, vós que habitais no pó, porque o teu orvalho é um orvalho de luzes." Yeshayahu (Isaías) 26:19

O "morto em vida" do Rav Kook não é um julgamento sobre pessoas — é um diagnóstico do que acontece a uma alma esvaziada de fé e de amor: torna-se incapaz de se ligar, "como cinza que não se amassa". Sem laços, não há vida verdadeira. Mas o tom não é de condenação, e sim de cura: a resposta à morte espiritual não é o desprezo, é o "orvalho de luzes" — a fé e o amor que descem para reviver até o que parecia perdido. Quem tem fé e amor não despreza os "mortos": ressuscita-os.

Vasos para uma luz grande

Aspiramos à revivescência da nação e da Terra para reviver o estado da nossa alma — para reviver a fé e o amor na força da Torá e da mitzvá, em toda a sua plenitude. Reconhecemos a luz do D'us de Israel, D'us do mundo, e o deleite que está "sobre D'us" — acima de toda expressão e de todo conceito, além de toda bênção e cântico, oculto e guardado, que se revela na luz da fé e do amor. Por isso buscamos muita Torá; e, para isso, aspiramos a uma saúde plena e a uma força física robusta; buscamos muitas mitzvot — para termos vasos suficientes em que conter a grande luz da fé e do amor, com todo o seu deleite, a sua pureza, a sua força e a sua coragem. E tudo o que temos das memórias antigas, do mandamento e do preceito, nos é caro com o amor da vida — porque são, para nós, vasos da fonte da vida, e com eles está a própria fonte da vida; e os ideais neles ocultos vivem com eles e com a sua observância.

O fecho dá a chave de toda a obra prática: Torá, mandamentos — e até a saúde do corpo — são vasos, não fins em si. Servem para conter uma luz que de outro modo se derramaria sem forma: a luz da fé e do amor. Por isso o Rav Kook pede "muita Torá e muitas mitzvot" — não por legalismo, mas porque uma luz tão grande precisa de muitos vasos para caber no mundo. A forma existe para guardar o fogo; e o fogo é o amor que crê e a fé que ama.

Fogo Estranho: como o sagrado pode virar fanatismo

Esta é uma das páginas mais penetrantes — e mais atuais — do Rav Kook: uma anatomia do fanatismo. Ele mostra que o ódio "em nome do sagrado" não nasce de fé a mais, mas de um modo errado de querer possuir a verdade. E aponta o remédio. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A luz que aquece de longe

Os enredos do pensamento e as divergências de opiniões que não se reconciliam — na vida e na ideia — vêm de uma só fonte: de um pensamento apenas esboçado, não esclarecido. As sombras do pensamento, que envolvem as suas luzes, são mais amplas e mais ideais do que a luz clara e definida — mas muito menos nítidas. E, por isso, enquanto o pensador se aquece de longe ao brilho dessas sombras, a sua mente alarga-se, a sua vontade refina-se, o seu sentimento enobrece-se; e uma vida serena, cheia de majestade sagrada e de uma confiança feita de grandeza e de humildade, mescla-se a todo o seu espírito. E uma comunidade regada por tantas influências de graça caminha pela estrada da vida eterna, e a bênção da paz, a pura paciência, o despertar espiritual e o esplendor da pureza vão crescendo.

A intuição inicial é sutil e bela: as verdades mais altas são "sombras de luz" — vastas, ideais, mas nunca inteiramente nítidas. E é assim que devem ser captadas: de longe, com humildade, como quem se aquece a uma fogueira distante sem querer tocá-la. Quem assim as recebe torna-se mais largo, mais sereno, mais paciente. A grandeza convive, nele, com a humildade — e disso nasce a paz.

Quando se quer agarrar a luz

Mas, muitas vezes, uma inclinação estranha infiltra-se no espírito, e aquela escuta distante — pela qual a pessoa ouve o tinir da voz ideal vinda daquelas distâncias sublimes — já não lhe basta. Ela quer alimentar os ouvidos com uma audição estrondosa, os olhos com uma visão nítida, a imaginação com cores, o intelecto e o sentimento com conceitos sólidos, agarrados com força. Então o bem supremo converte-se-lhe em tropeço: daquela contração da luz clara mas estreita que entrou no seu saber, ela tira cercas e tenazes — que se tornam cercas opressoras e tenazes que apertam as grandes sombras, os clarões distantes e amplos da luz. E dessa pressão nasce um calor fumacento de fogo estranho, cheio de amargura: uma ira grande e tempestuosa, um zelo raivoso sem limite, sem sossego e sem paz.

וַיַּקְרִיבוּ לִפְנֵי ד' אֵשׁ זָרָה אֲשֶׁר לֹא צִוָּה אֹתָם "E ofereceram diante do Senhor um fogo estranho, que Ele não lhes havia ordenado." Vayikrá (Levítico) 10:1
Aquece-te de longe à luz, e ela te dá paz; tenta agarrá-la à força, e ela vira fogo estranho.

Eis o diagnóstico, e ele é contraintuitivo: o fanatismo não vem de fé demais, mas de uma exigência errada — a de agarrar o ideal infinito como se fosse um objeto sólido, nítido, possuído com total certeza. Quem não suporta a humildade do "de longe" e quer apertar a luz vasta dentro de fórmulas estreitas acaba por espremê-la — e da pressão sai fumaça, não luz. O "fogo estranho" (a expressão da Torá para a oferta não pedida) é a imagem exata: um zelo que se crê sagrado, mas que ninguém ordenou.

O nascimento da violência

E, no lugar da grande fé, da confiança serena e da contemplação deleitosa, entra um espírito de desvario: o desejo de poder e de domínio, cheio de crueldade e despido de pudor, de modéstia e de retidão. Brigas constantes inflamam-se, guerras de sangue nascem, o assassínio e a abominação rastejam como serpentes dos seus esconderijos; toda majestade se converte em doença, e tudo aquilo que se arroga um nome sagrado se contamina —

כִּי הִנֵּה הַחֹשֶׁךְ יְכַסֶּה אֶרֶץ, וַעֲרָפֶל לְאֻמִּים "Pois eis que a treva cobre a terra, e a densa escuridão, os povos." Yeshayahu (Isaías) 60:2

A observação mais terrível está numa frase: a crueldade veste "um nome sagrado". O pior fanatismo não se apresenta como maldade — apresenta-se como santidade. Por isso o Rav Kook não diz que a cura é "menos religião"; a doença é uma fé deformada — a luz boa "que virou tropeço". E a cura não pode ser mais escuridão do outro lado: só uma fé mais humilde e mais ampla desfaz a fumaça do fogo estranho.

O caminho da escuta refinada

E é do meio desse turbilhão de aflição que se ergue o caminho da cura: um retorno à escuta refinada. [O povo que saiu da casa da servidão] volta à sua fonte, e adapta-se a uma escuta delicada — a tinidos supremos que vêm voando de mundos altos e emanados —, recebendo cada um conforme a sua medida; e de todas as medidas juntas se revelará o esplendor da paz e o brilho da verdade, o fundamento do deleite e a plenitude da vida, cheia de trabalho e de um anseio ideal puro e firme. Como está dito:

וְלֹא יִכָּנֵף עוֹד מוֹרֶיךָ, וְהָיוּ עֵינֶיךָ רֹאוֹת אֶת מוֹרֶיךָ "O teu Mestre não mais se ocultará, e os teus olhos verão o teu Mestre." Yeshayahu (Isaías) 30:20

E essa delicadeza vai-se estendendo a toda fileira, a toda força que trabalha, descendo até ao bom trato com a alma do animal, como convém a uma nação justa: "e os bois e os jumentos que lavram a terra comerão forragem temperada, joeirada com a pá e o garfo" (Yeshayahu 30:24).

A cura é o oposto exato da doença. Contra a exigência de uma certeza única, rígida e possuída por um só — a "escuta refinada", em que cada um recebe a verdade "conforme a sua medida", e é da soma das medidas que se revelam a paz e a verdade. A pluralidade não é ameaça; é o modo como a luz vasta cabe no mundo. E o sinal de que se chegou lá é delicado e concreto: a ternura alcança até os animais de trabalho. Onde há fé verdadeira, há paz — e a paz desce até ao cocho do boi.

A Centelha em Todo Ser: o apego a D'us e o bem do mundo

Esta seção, que encerra as "Luzes do Renascimento", é uma das mais luminosas do Rav Kook. Ela define o que é o apego a D'us (devekut), mostra como ele se traduz num dever para com o mundo inteiro, e culmina numa das afirmações mais universais de toda a sua obra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Quatro vias, um só apego

O apego [a D'us] — o da vontade e o do conhecimento, o da imaginação e o da ação —, quando se entrelaçam, abre os canais da vida: os orvalhos da vontade própria da vida refinada, a vida verdadeira, cuja riqueza de glória e cuja doçura de esplendor não têm fim — e da qual os justos, que "veem o seu mundo ainda em vida", conhecem e sentem um pouco do valor.

Note-se a definição: o apego a D'us não é só um sentimento, nem só uma ideia. É a convergência de quatro faculdades — a vontade (o que queremos), o conhecimento (o que entendemos), a imaginação (o que somos capazes de vislumbrar) e a ação (o que fazemos). Quando as quatro apontam para a mesma luz, "abrem-se os canais da vida". O ser humano inteiro — e não uma parte dele — é que se une a D'us.

Chamados a fazer o bem ao mundo

E quão grandemente somos chamados a fazer o bem a nós mesmos e a todo o mundo: a endireitar o caminho de D'us, a afastar todo obstáculo da luz do deleite supremo, da vida verdadeira do apego divino genuíno — que é, ela só, a fonte da felicidade e a meta de toda a vida e de toda a existência.

Eis o ponto decisivo, e o oposto de toda piedade egoísta: o apego a D'us não se fecha sobre si — transborda. Quem de fato se une à fonte da vida sente-se "chamado a fazer o bem a si mesmo e a todo o mundo", a remover os obstáculos que impedem os outros de chegar à mesma luz. A devoção verdadeira não produz indiferença ao mundo; produz responsabilidade por ele.

A dor pelos que andam na treva

Quão desventurados são os que andam na escuridão! Quão dignos de dó os que não têm o D'us verdadeiro — no seu saber e na sua vontade, na sua imaginação e nas suas obras! E quão felizes os que caminham diante de D'us, que se alegram na luz do seu esplendor:

בְּשִׁמְךָ יְגִילוּן כׇּל הַיּוֹם, וּבְצִדְקָתְךָ יָרוּמוּ "No teu Nome se rejubilam o dia todo, e na tua justiça se exaltam." Tehillim 89:17

O coração contrai-se de tanta dor pela escuridão terrível em que estão postos os que habitam as trevas; e a retidão interior pressiona a alma a acender o facho da vida verdadeira, a erguer um estandarte para os muitos.

Repare-se no tom: diante de quem vive sem luz, o Rav Kook não sente desprezo — sente dor. "O coração contrai-se." A resposta correta à escuridão alheia não é o julgamento, e sim acender uma chama: "erguer um estandarte para os muitos". Quem tem a luz é chamado a partilhá-la, com compaixão — não a guardá-la como privilégio.

A centelha adormecida em todo ser

Israel é o tesouro de vida no mundo: no seu próprio ser está mesclado o conhecimento do D'us verdadeiro. No seu renascimento, dará vida ao mundo — removerá o véu da descrença estendido sobre os povos, essa "morte" espiritual que é a desgraça do mundo inteiro, e despertará para a vida as sementes da vida divina adormecidas no coração de cada ser humano e de cada vivente. Erga-se Israel sobre os seus pés, levante-se com vigor na sua terra amada, profira a sua palavra de profecia desde a fonte da vida da sua alma, e desperte para a vida os grãos de vida divina que dormem no coração de todo homem e de todo ser vivo:

Despertar as sementes da vida divina adormecidas no coração de cada ser humano e de cada vivente.
כֹּל הַנְּשָׁמָה תְּהַלֵּל יָהּ, הַלְלוּיָהּ "Toda alma louve a D'us — Halleluyá!" Tehillim 150:6

Eis o ápice universalista. A missão de que o Rav Kook fala não é impor algo de fora a ninguém — é despertar algo que já está dentro: "as sementes da vida divina que dormem no coração de cada ser humano e de cada vivente". A centelha do divino já habita todos; o que falta é acordá-la. Por isso o verso de fecho não diz "todo judeu", nem "todo crente", mas kol ha-neshamátoda alma louve a D'us. A luz que une a D'us é a mesma que reconhece o divino em cada criatura.

O Sábio é Superior ao Profeta

O Talmud (Bava Batra 12a) faz uma afirmação ousada: "o sábio é superior ao profeta". Em Orot (na coletânea das "Sementes", Zer'onim), o Rav Kook dá a essa sentença uma das suas leituras mais profundas — uma meditação sobre a diferença entre a inspiração que vê o todo e a sabedoria que domina o detalhe. O que segue é uma tradução inédita ao português da passagem inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A visão geral e o detalhe que cura

É costume no mundo que os poetas e os oradores descrevam belamente o esplendor da vida em geral — todos os seus aspectos formosos, sobretudo os que contêm uma corrente vasta e um grande "orvalho de vida"; e sabem também expor a feiura geral das corrupções da vida e protestar contra elas com toda a força. Mas penetrar no íntimo de todos os fatores particulares — como se torna a vida saudável e se a assenta sobre boas bases, e como se a guarda de toda corrupção, mesmo a menor das menores, que no fim formaria um grande baixio e destruiria muitíssimo — isto já não é tarefa da imaginação ardente e impetuosa, mas da sabedoria precisa. Aqui começa o trabalho dos médicos, dos economistas, dos agrimensores, dos juízes — e de todos os sábios práticos.

A distinção é certeira. A inspiração — do poeta, do orador, e logo se verá, do profeta — vê o quadro geral: a beleza da vida e a feiura dos seus males, e troveja contra eles. Mas manter um mundo de fato saudável, guardá-lo das pequenas corrupções que, com o tempo, causam grandes ruínas, é outra coisa: exige a sabedoria precisa, paciente, dos que cuidam dos detalhes. O médico, o juiz, o legislador — não o orador inflamado — é que sustentam a vida.

O que o profeta viu — e o que lhe escapou

E, mais alto do que isso: a profecia viu a grande corrente de corrupção da idolatria e protestou contra ela com todo o vigor; viu o esplendor da doçura do D'us Único e descreveu-o em toda a beleza; e viu a devastação das perversões morais — o esmagamento dos pobres, a opressão dos necessitados, o assassínio e o adultério, a violência e o saque — e encheu-se do espírito de D'us para salvar e erguer uma cerca, em sublime discurso sagrado.

Mas os fios finíssimos de que se trançam as grossas cordas do pecado, os delicados tendões da vida de que se formam os grandes vasos do sangue — esses são os segredos ocultos aos olhos de todo profeta e vidente. Os mandamentos práticos, todos eles, e os detalhes das suas leis, em todo o seu rigor — como, ao longo do tempo, pelo seu cumprimento e estudo, pelo hábito e pelo amor, sai à luz a doçura interior neles escondida, e a pura corrente da vida divina expulsa com força a treva da corrupção, de modo que ela não mais se possa erguer; e como o abandono lento, que despreza os atos, os "ramos" e os pormenores, abre um caminho de destruição, perdendo os vasos em que se capta o espírito supremo — isso não foi dado à profecia em geral (a do "espelho que não ilumina").

וְלֹא קָם נָבִיא עוֹד בְּיִשְׂרָאֵל כְּמֹשֶׁה, אֲשֶׁר יְדָעוֹ ד' פָּנִים אֶל פָּנִים "E não se levantou outro profeta em Israel como Moshé, a quem o Senhor conheceu face a face." Devarim (Deuteronômio) 34:10

Foi dado à profecia de Moshé — aquela "de face a face", a do "espelho que ilumina", a única que pode ver, a um só tempo, a força dos princípios gerais e o rigor dos detalhes. Mas não se levantou outro como ele; e foi preciso que o trabalho dos princípios fosse confiado aos profetas, e o trabalho dos detalhes, aos sábios.

O que o fogo não fez, a paciência fez

חָכָם עָדִיף מִנָּבִיא "O sábio é superior ao profeta." Talmud, Bava Batra 12a

E o sábio é superior ao profeta: o que a profecia não conseguiu fazer, com as suas armas que lançavam labaredas de fogo — extirpar de Israel a idolatria e arrancar pela raiz as mais vis baixezas da opressão e da violência, do assassínio e da devassidão, da cobiça do suborno —, fizeram-no os sábios, ao expandir a Torá, ao formar muitos discípulos e ao aguçar as leis particulares e os seus desdobramentos. Como ensinaram: "as veredas (halichot) do mundo são d'Ele" — não leias halichot ["veredas"], mas halachot ["leis"].

O que a profecia não conseguiu com o fogo, os sábios fizeram com a paciência da lei.

Eis a tese central, e ela é profundamente racionalista. Os profetas trovejaram contra a idolatria e a injustiça por séculos — e, contudo, não as extirparam. Quem as desarraigou, no fim, foram os sábios: não com o trovão, mas com a paciência — expandindo o estudo, formando gerações de discípulos, fixando as leis no detalhe. A indignação inflamada comove; mas é o trabalho miúdo e constante da sabedoria que de fato transforma um povo. Por isso "o sábio é superior ao profeta": a razão paciente faz o que a inspiração ardente não pôde.

Profecia e sabedoria, reconciliadas

Com o correr do tempo, o trabalho dos sábios prevaleceu sobre o dos profetas, e a profecia retirou-se. Passados longos dias, os princípios gerais começaram a afrouxar, foram absorvidos pelos detalhes e deixaram de ver-se por fora. Por isso, no fim dos dias, quando começar a despontar o reflorescer da luz da profecia — "derramarei o meu espírito sobre toda carne" (Yoel 3:1) —, crescerá, por um tempo, o desdém pelos detalhes, até que, não como fruto verde, mas como primícias cheias de orvalho e de vida, saiam da sua bainha as centelhas do início da luz profética. E esta, na sua generalidade, reconhecerá a grandeza da obra da sabedoria, e, em justa humildade, declarará: "o sábio é superior ao profeta".

חֶסֶד וֶאֱמֶת נִפְגָּשׁוּ, צֶדֶק וְשָׁלוֹם נָשָׁקוּ "A bondade e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram." Tehillim 85:11

"A verdade brota da terra, e a justiça olha desde os céus; também o Senhor dará o bem, e a nossa terra dará o seu fruto" (Tehillim 85:12-13). E a alma de Moshé voltará a aparecer no mundo.

O fecho não opõe para sempre a sabedoria à profecia — reconcilia-as. O futuro que o Rav Kook entrevê é o reencontro das duas: a visão ampla (a profecia) e o rigor do detalhe (a sabedoria) abraçando-se, "a verdade [que] brota da terra" e "a justiça [que] olha dos céus". É o retorno do espírito de Moshé — o único que teve as duas juntas, o geral e o particular. A inspiração sem detalhe é vaga; o detalhe sem visão resseca; mas quando se beijam, "a bondade e a verdade se encontram", e o mundo dá o seu fruto.

A Guerra das Ideias: a luz escondida em toda fé

Este é um dos textos mais célebres do Rav Kook sobre a tolerância e a pluralidade das fés. Diante da "guerra das ideias", ele recusa tanto a polêmica raivosa quanto o relativismo morno, e propõe uma terceira via: reconhecer a centelha de luz divina presente em toda crença sincera, e responder não com a rejeição, mas com mais luz. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira (sete trechos), a partir do hebraico original (de domínio público).

O grito que não basta

As ideias ficam atônitas diante da torrente de concepções estranhas que avança e inunda. Elas irrompem como uma enxurrada para dentro do acampamento, conquistam muitos corações, distorcem os caminhos e desviam muitos dos nossos jovens das veredas da vida. Os que defendem as ideias do judaísmo erguem um grito, refutam as concepções que julgam más, desmascaram a sua falsidade esclarecendo os limites do judaísmo. Mas é muito duvidoso que, neste estilo, consigam fazer recuar aquilo que começou a irromper como uma torrente que rompe diques.

O Rav Kook começa por uma constatação honesta: a polêmica — refutar, desmascarar, traçar fronteiras — não detém uma maré de ideias. Pode ter razão e, ainda assim, fracassar. É preciso outra coisa. O resto do texto procura essa "outra coisa".

Não se define o que é infinito

Erram, sobretudo, os que procuram definir o judaísmo por definições fixas quanto à sua alma e ao seu conteúdo espiritual. Ele inclui tudo na sua alma; todas as inclinações espirituais, reveladas e ocultas, estão nele guardadas numa inclusão suprema — como tudo está incluído na Divindade absoluta. Toda definição estreita é, para ele, um "cortar das suas plantações", e como que erguer um ídolo no lugar do caráter divino.

Nisto, o valor de Israel — que porta o judaísmo entre os povos — é como o valor do ser humano entre todas as criaturas. Muitas criaturas têm vantagens que o homem não tem; mas a combinação geral das qualidades, e a elevação espiritual por meio delas, é o que faz do homem uma unidade suprema no mundo. Assim também há muitos povos cujo talento particular é maior do que esse mesmo talento em Israel; mas Israel, como a quintessência de toda a humanidade, reúne em si as qualidades de todos os povos, e nele elas se unem numa forma ideal e sagrada.

Note-se a generosidade da imagem: assim como o ser humano não é a criatura mais forte, nem a mais veloz, mas a que reúne e eleva as qualidades de todas, Israel é descrito não como superior em cada talento, mas como o que "reúne as qualidades de todos os povos". É uma visão inclusiva, não excludente: a vocação não é negar os outros, mas integrá-los. Por isso o judaísmo não se deixa "definir" em fronteiras estreitas — definir o infinito seria fazer dele um ídolo.

A tolerância que nasce da certeza

Precisamos, sobre tudo isto, de uma contemplação mais penetrante — geral e abrangente, e capaz, ao mesmo tempo, de chegar ao íntimo de toda a multidão de ideias de fé que há no mundo. Pois toda revelação geral do espírito, quanto mais forte a generalidade que há nela, tanto mais se fortalece a sua certeza; e, na medida da sua certeza, assim como não dá lugar à dúvida, também não admite associar-se a outras concepções: a generalidade, a certeza e a unicidade dependem uma da outra. (É como na ciência: enquanto a astronomia antiga descrevia só fenômenos limitados, dizia-se que os seus modelos eram apenas um modo possível de explicar os céus; mas a gravitação, por ser uma lei geral do cosmo, lançou de si a dúvida — e já não admite que se explique parte dos fenômenos por ela e o resto por modelos antigos.)

Assim também nas coisas do espírito: a idolatria era tolerante, e o reconhecimento da Unidade [o monoteísmo] parecia "zeloso" — porque é geral e não particular, certo e não duvidoso, e portanto único. Mas a generalidade não é tolerante na forma exterior da tolerância; dentro do seu zelo, esconde-se o grão do verdadeiro fundamento da tolerância. A tolerância fraca, que enfraquece a vida [o relativismo], vem de visões particulares não regadas pelo orvalho da generalidade; e o zelo maligno [o fanatismo] vem da grosseria de espírito, que toma uma visão particular como se fosse a verdade inteira — e, por ser apenas particular, não consegue dar vida ao que está fora do seu círculo, e, na sua inveja, apenas diminui a vida.

ד' בָּדָד יַנְחֶנּוּ, וְאֵין עִמּוֹ אֵל נֵכָר "O Senhor sozinho o conduz, e não há com ele deus estranho." Devarim (Deuteronômio) 32:12

Mas a inclusão suprema dá, justamente pela sua amplitude e pela sua certeza, o zelo louvável — o que remove toda pequenez, toda dúvida e toda associação. E, justamente por ser geral — porque dentro dela tudo está incluído —, ela não pode, por sua natureza, excluir coisa alguma: a tudo dá lugar. Mas, ao fazê-lo, apenas multiplica as aparições da luz dentro de todos os estilos de vida; e o seu desejo fundamental é dar lugar a toda inclinação de luz, de vida e de espírito.

Esta é a distinção genial do capítulo, e desfaz um falso dilema. Há a tolerância fraca (o relativismo: "tudo dá no mesmo"), que não vem de largueza mas de frouxidão, e empobrece a vida. Há o zelo maligno (o fanatismo), que toma a sua parte pelo todo e por isso precisa esmagar o resto. E há uma terceira coisa: a verdade verdadeiramente geral, que é, ao mesmo tempo, certa e acolhedora — porque, abraçando tudo, não tem nada a excluir. A tolerância mais profunda não nasce da dúvida; nasce de uma certeza tão ampla que cabe nela toda luz.

A centelha em toda fé

Ela sabe que em tudo há uma centelha de luz: a centelha divina interior brilha em cada uma das diversas fés — que são como diferentes ordens de educação para a cultura humana, para a reparação do espírito e da matéria, do indivíduo e da comunidade —, embora em graus diversos. Assim como a força vegetativa é uma e se manifesta tanto no cedro do Líbano quanto no hissopo da parede — no primeiro de modo rico e abundante, no segundo de modo pobre e escasso —, assim a luz da centelha divina vem nas mais altas das fés de modo rico e elevado, e nas mais humildes de modo turvo e pobre.

מִן הָאֶרֶז אֲשֶׁר בַּלְּבָנוֹן, וְעַד הָאֵזוֹב אֲשֶׁר יֹצֵא בַּקִּיר "Desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota na parede." Melachim I (I Reis) 5:13

A maldade e a ignorância humanas distorceram os caminhos da inclinação humana geral, que aspira ao bem, à verdade e à felicidade espiritual no seu sentido mais profundo. Mas mesmo nas profundezas das "cascas" mais grosseiras está oculta e guardada aquela centelha do bem — a luz de D'us, a luz das luzes, que não podemos exprimir, e que não se deixa vestir nas letras de nenhuma palavra, nem sequer de nenhuma ideia. E o mundo vai-se adoçando: a opinião reta alarga o seu caminho, a lógica sã e as muitas experiências vão desobstruindo a via, os erros vão diminuindo. E começam a cintilar as poeiras de verdade e de luz espalhadas por entre todas as diversas fés — que todas brotam da única fonte viva.

A força vital é uma só — rica no cedro, escassa no hissopo; assim a centelha divina, em toda fé.

Eis o coração do texto, e uma das mais generosas teologias das religiões já escritas. Não se trata de dizer que "todas as fés são iguais" (o relativismo que o Rav Kook recusou), mas algo mais fino: a mesma luz brilha em todas, em graus diferentes — como a única seiva da vida sobe tanto no cedro majestoso quanto no humilde hissopo. Até "nas cascas mais grosseiras" há uma centelha do divino. Quem aprende a vê-la deixa de ver, no outro, só o erro a combater — e passa a ver a luz a resgatar.

Aumentar a luz, não rejeitar

Por isso, em vez de rejeitar todo o tecido de pensamento de onde as pequenas centelhas do bem começam a brilhar — coisa que, na verdade, não há de funcionar —, cabe-nos aumentar a luz original: revelar a amplitude e a profundidade, a generalidade e a eternidade que há na luz de Israel; e mostrar como cada centelha de bem revelada em outro mundo de ideias brota da mesma fonte e a ela se liga por uma ligação natural. Então, de todas as centelhas que de novo se revelam, somar-se-ão luz e vida; e os corações sedentos de luz olharão e resplandecerão, e não irão mais procurar noutro campo aquilo que afinal tem aqui a sua raiz.

A conclusão prática inverte o instinto polêmico. Diante de uma ideia que nos parece errada, a tentação é rejeitá-la em bloco. O Rav Kook propõe o oposto: procurar a centelha de verdade que nela brilha, mostrar de onde ela vem, e aumentar a luz em vez de multiplicar a sombra. Não se vence a escuridão alheia com mais escuridão própria — vence-se com luz. É a mesma lição de "Fogo Estranho", aplicada agora ao encontro entre as fés.

Uma língua clara para todos

E a tolerância há de espalhar-se, até que o espírito humano, no seu conjunto, possa encontrar a centelha oculta em todas [as fés]; e então toda a escória será lançada fora:

וַהֲסִרֹתִי דָמָיו מִפִּיו וְשִׁקֻּצָיו מִבֵּין שִׁנָּיו, וְנִשְׁאַר גַּם הוּא לֵאלֹהֵינוּ "Removerei o sangue da sua boca e as abominações dentre os seus dentes — e ele também restará para o nosso D'us." Zechariá (Zacarias) 9:7

E todas as centelhas se juntarão num facho ainda maior; e então "transformar-se-ão os povos numa língua clara, para que todos invoquem o nome do Senhor". Como está dito: "tira da prata a escória, e sairá um vaso para o ourives" (Mishlei 25:4).

O horizonte final não é a vitória de uns sobre os outros, nem a uniformização — é a reunião: que cada centelha de verdade, dispersa por todas as fés, seja recolhida "num facho ainda maior", depurada da escória que a desfigurava. O verso escolhido é eloquente: removida a violência ("o sangue da boca"), até o antigo inimigo "restará para o nosso D'us". E o fim de tudo é "uma língua clara para todos os povos" — não que todos pensem igual, mas que todos, juntos, reconheçam a mesma luz.

O Anseio Mais Natural: o apego a D'us e o despertar do mundo

Esta passagem das "Sementes" começa com uma das afirmações mais belas e universais do Rav Kook — o anseio por D'us como o impulso mais natural da alma — e desdobra-a num grande arco: do bem escondido na infância da humanidade, à figura de Avraham, até um chamado dirigido a toda criatura. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira (nove trechos), a partir do hebraico original (de domínio público).

Tão natural quanto viver

O apego a D'us é o anseio mais natural do ser humano. Aquilo que, em toda a existência, está numa forma muda e surda, em estado latente, desenvolveu-se no homem numa forma consciente e sentida. O anseio pelo apego absoluto ao D'us vivo, à luz infinita, não é algo cujo contrário pudesse existir na natureza do ser. Assim como precisamos viver, ser nutridos e crescer, assim precisamos apegar-nos a D'us. Esse apego, exigido de nós com toda a plenitude da alma, há de ir-se desenvolvendo em nós, aprofundando-se no sentimento, clareando-se na consciência e no entendimento. De modo algum poderiam a humanidade — e toda a existência — viver sem a corrente do anseio pelo apego divino, que nelas vive sempre, ainda que de modo oculto e velado.

Assim como precisamos viver, ser nutridos e crescer, assim precisamos apegar-nos a D'us.

É uma tese profundamente humanista: o desejo de D'us não é uma convenção que se ensina nem uma muleta para os fracos — é uma necessidade da natureza humana, como a fome ou o crescimento. Ele já está, mudo, em toda a criação, e acorda no homem como sede consciente. Por isso, segundo o Rav Kook, nem a pessoa nem o mundo conseguem viver de verdade sem essa corrente — mesmo quando ela corre escondida, sob outros nomes.

Quando os poços foram tapados

A infância da humanidade — os dias da treva espessa — deixou no mundo fundamentos que impediram esse apego divino de revelar-se em toda a sua luz. Não há como medir a dor da alma universal, e a dor interior de todo vivente, diante dessa opressão espiritual — diante do bem escondido em seu íntimo, que tanto ilumina e enobrece, e que dá uma vida de largueza, de eternidade e de vigor. Essa vida é-lhe necessária — é a sua própria natureza; e, no entanto, veio a fraqueza humana e fez ídolos mudos, divindades materiais, grosseiras e mesquinhas, e tapou todas as frestas por onde a luz entraria.

E imaginamos uma alma grande, imensa nas suas aspirações — a sua sede poderosa de liberdade e de luz, a sua dor aguda diante da humilhação do mundo: a alma de Avraham. Como ela se amargura ao ver a felicidade, a luz preparada para todos — para todo vivente, para toda alma —, a largueza divina que clama à existência "haja luz" e chama cada ser a encher-se de grandeza e de paz —, e [ao ver] que os poços foram tapados:

וְכָל הַבְּאֵרֹת... סִתְּמוּם פְּלִשְׁתִּים וַיְמַלְאוּם עָפָר "E todos os poços... os filisteus os taparam e os encheram de terra." Bereshit (Gênesis) 26:15

Como o leão irrompe da jaula, como toma o seu bastão com ardor, despedaça os ídolos e clama com força pela luz — por um D'us único, D'us do mundo.

Note-se o quanto a imagem é universal. A luz que Avraham luta por libertar é descrita como "preparada para todos, para todo vivente, para toda alma". Os ídolos não são apenas o erro de um povo — são a "terra" que tapou os poços de água viva da humanidade inteira. Avraham, o quebrador de ídolos, não funda um clube fechado: reabre uma fonte que era, desde sempre, de todos.

A moral é o anseio do bem

A índole de Israel tomou este anseio como fundamento da sua vida, segundo o seu destino histórico. Por isso, é da moral livre, a moral humana, que se erguem os alicerces da fé — tão necessária a nós e ao mundo inteiro. Pois a moral não se concentra apenas nos bons atos de sentido social: a moral é, antes de tudo, uma disposição interior delicada, que habita na alma, de buscar o bem — o bem absoluto —, de ser, ela própria, boa, de apegar-se ao bem. E esse espírito sagrado chega-nos pelo conteúdo do apego divino, na prática e na contemplação; e, por uma necessidade espiritual e moral interior, estamos enraizados no nosso povo, em cujo conjunto — em todas as suas gerações — está guardado o tesouro da vida verdadeira.

Eis uma definição de moral que vale para todo ser humano: ela não começa nos atos sociais — começa numa inclinação da alma para o bem, no desejo de "ser bom" e de "apegar-se ao bem". E, no pensamento do Rav Kook, esse anseio pelo bem e o anseio por D'us são, no fundo, o mesmo anseio: apegar-se ao bem absoluto é apegar-se a D'us. A ética e a fé brotam da mesma raiz.

No meio da nossa fala

O sentimento, poderoso em nós, de manter a continuidade da vida do nosso povo — nas suas ideias e nos seus atos, junto com o seu corpo e a sua terra — brota da consciência de que ainda nos resta muito caminho para concluir o que começámos. Começámos a dizer algo grande — entre nós e aos ouvidos do mundo inteiro — e ainda não o terminámos. Estamos no meio da nossa fala, e interrompê-la não queremos nem podemos. Pois os ideais que dão vida ao todo são a própria alma da vida; quando se retiram, retira-se a alma da vida. E, ainda que gaguejemos tanto ao exprimir o que a alma busca, a falha não está na verdade da ideia — esta é forte em nós; mas é tão rica, e de tal modo nos inunda, que ainda não a sabemos dizer em língua clara. Por isso não retrocederemos: com o tempo, também a nossa fala sairá do exílio em que está cativa. Começar e não terminar é coisa que, na verdade, não existe.

E a alma do povo eterno tece numa só trama todos os seus tempos; e, como num relâmpago, passam diante dela as gerações, desde os sonhos da sua juventude até os dias do florescer que se segue ao longo definhar. Ela desperta para renovar a sua juventude, segundo um plano antigo-e-novo — pequeno ainda e débil, mas fortalecido por correntes poderosas de um passado que flui para os cumes do futuro. É como o cedro do Líbano cuja glória foi saqueada, e cujo broto recomeça a brotar rebentos tenros e frágeis, como hissopos de parede — mas que não são hissopos, e sim cedros de D'us, no início do seu crescimento.

A imagem é comovente e modesta: um povo que se sente "no meio de uma frase" e se recusa a deixá-la pela metade. O que parece pequeno e frágil — brotos finos "como hissopos de parede" — é, na verdade, o reinício de algo grande, "cedros de D'us". E vale para qualquer renascimento humano: o que recomeça parece sempre débil ao lado do que foi; mas a força não está no tamanho do broto, e sim na raiz que o alimenta.

O chamado que volta a todos

E das profundezas da alma, Israel ainda há de clamar aquilo que a sua Rocha clamou — das profundezas da compaixão por toda alma que sofre, por todo ser que se contorce, pela vida que segue por veredas cheias de espinhos, por falta de uma fonte viva em seu meio. É o clamor que a alma de todo o universo grita nas suas dores: "buscai-me, e vivei" (cf. Amós 5:4). Em caminhos de treva, [os povos] gravaram leis, e com o coração cheio de temor servil aproximaram-se para engrandecer o Rei do mundo, cuja grandeza ouviram apenas de fora. Não assim Israel: de uma alma ardente, cheia de vida, ele se ergue e clama: eis a luz — a voz do D'us vivo que me chama desde o fundo da minha vida; eis a luz da liberdade eterna para todo o universo, que vem refulgindo da luz de D'us sobre Sião.

Ainda hão de ouvir todos os rebeldes da terra, ainda hão de escutar todos os que negam o mundo; voltarão todos aqueles em quem há uma centelha de vida; elevar-se-ão almas das profundezas:

וּבָאוּ הָאֹבְדִים בְּאֶרֶץ אַשּׁוּר וְהַנִּדָּחִים בְּאֶרֶץ מִצְרָיִם, וְהִשְׁתַּחֲווּ לַד' בְּהַר הַקֹּדֶשׁ בִּירוּשָׁלָיִם "E virão os perdidos na terra da Assíria e os dispersos na terra do Egito, e se prostrarão diante do Senhor no monte santo, em Jerusalém." Yeshayahu (Isaías) 27:13

Prostrar-se-ão e levantar-se-ão cheios de força; renovar-se-ão, firmes em luz e em vigor; e legiões de coração valente se erguerão e clamarão: eis que se levantou um povo, começou a viver uma nação que dá curso à corrente da vida divina na plenitude dos mundos — traçando estradas eternas para o vigor renovado do apego a D'us. "O D'us de Israel — Ele dá força e robustez ao povo; bendito seja D'us" (Tehillim 68:36).

O fecho recolhe todo o arco e devolve-o ao universal. A "centelha de vida" que pode voltar não é de Israel apenas — está em "todos os rebeldes da terra", em "todos os que negam o mundo". A vocação descrita é a de uma fonte que jorra "vida divina na plenitude dos mundos", não a de um privilégio guardado. Como em "A Centelha em Todo Ser", o renascimento de um povo é apresentado como um serviço à humanidade inteira: reabrir, para todos, os poços que a "terra" havia tapado.

A Força Escondida: o poder secreto do bem que fazemos

Esta passagem das "Sementes" começa com uma promessa silenciosa — a de que nenhum ato bom se perde — e termina numa das visões mais consoladoras do Rav Kook: a de que o divino habita até o que parece humilde, pobre e imperfeito. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

O bem que se entesoura em silêncio

Uma luz de vida e de bem, de força ativa e de vigor universal, sai para o indivíduo e para a nação inteira a partir da beleza, do bem, da força e da eternidade que estão guardados, de modo oculto, no poder dos sentidos secretos dos mandamentos feitos com fé, em nome do Céu. Quem se afrouxa das palavras da Torá — mesmo de um mandamento leve — não tem força para se manter firme na hora da aflição. E quem cumpre os mandamentos e se apega à Torá sem afrouxar, a força de vida guardada no fundamento dos seus sentidos faz nele a sua obra — ainda que, no momento de cumprir e de estudar, ele não sinta acréscimo algum de vigor, físico ou espiritual. E, sempre que for preciso uma força de vida manifestar-se, sai uma força de vida entesourada, que foi guardada pela Torá e pelos mandamentos, e que aquece o coração e ilumina a alma.

Sai uma força de vida entesourada, guardada pelo bem que se fez — e ela aquece o coração na hora da aflição.

Eis uma ideia profundamente encorajadora, e universal. Tantas vezes praticamos o bem — uma palavra gentil, um dever cumprido, um pequeno gesto de fidelidade — e nada parece acontecer; nenhum brilho, nenhuma recompensa visível. O Rav Kook diz que isso é uma ilusão dos sentidos: cada ato bom feito com sinceridade deposita em nós uma reserva oculta de vida. Não a sentimos no momento — mas ela está lá, e aflora "na hora da aflição", quando, sem saber de onde, encontramos forças para resistir. O bem que fazemos nunca se perde; apenas espera.

Elevar o coração sem fingir que se compreende tudo

Os pensamentos elevados, guardados nos mandamentos, podemos atraí-los para dentro do nosso coração sob uma veste de imagens do intelecto que caminham com a vida. Não erraremos ao ponto de imaginar que, se essas coisas elevadas — as metas divinas — se nos revelam, já poderíamos medir todo o seu valor; mas sabemos que o nosso coração tem sobre o que se elevar, e a nossa força de vida tem sobre o que assentar as suas ações, num querer livre e cheio de prazer.

Um equilíbrio fino entre humildade e aspiração. Por um lado, não devemos fingir que esgotámos o sentido de um mandamento só porque entrevimos algo dele — o seu valor excede sempre a nossa medida. Por outro, isso não nos paralisa: já temos "sobre o que nos elevar", já podemos agir com alegria e liberdade, apoiados naquilo que entrevimos. Não é preciso compreender tudo para começar a subir.

A Presença escondida no humilde

De longe, vemos a Comunidade de Israel coroada de toda a sua glória, como sonhamos com ela e esperamos vê-la — avançando com nobreza para ser plena em todas as suas forças, por si mesma e, por isso mesmo, também por todos. Na sua grandeza, ela não chega das suas formas de vida às suas ideias, mas o inverso: de cima para baixo — das suas reflexões sobre si e sobre o mundo é que chega ao seu tesouro prático, e ali encontra o seu repouso, ao dar corpo, na vida, à sua espiritualidade. E este é o segredo da teshuvá que traz a redenção: o edifício começa do seu interior, do ponto de Sião expandindo-se para fora.

הֵיטִיבָה בִרְצוֹנְךָ אֶת צִיּוֹן, תִּבְנֶה חוֹמוֹת יְרוּשָׁלָיִם "Faze o bem, na tua boa vontade, a Sião; edifica os muros de Jerusalém." Tehillim 51:20

Basta elevarmo-nos um pouco, purificarmos um pouco os sentimentos e o intelecto, e já estamos perto do futuro — já vemos o tremular dos seus raios de luz, ainda velados. E, dentro da vida visível, que muitas vezes toma a forma de uma "sucá humilde", cheia de pobreza material e espiritual — uma vida que recomeça por forças pequenas, movidas por ideias ainda obscuras, por corações cheios de sombras, de desânimo e até de dúvida e descrença —, dentro do seu próprio âmago esconde-se a Presença (Shechiná) do D'us vivo:

מַה גָּדְלוּ מַעֲשֶׂיךָ ד', מְאֹד עָמְקוּ מַחְשְׁבֹתֶיךָ "Quão grandes são as tuas obras, ó Senhor; quão profundos são os teus pensamentos!" Tehillim 92:6

O fecho é de uma generosidade rara. O Rav Kook olha para um recomeço pobre, hesitante, cheio de falhas e de dúvidas — uma "sucá humilde" —, e, em vez de o julgar, enxerga ali a Shechiná escondida. É a mesma lição da força entesourada, agora no plano da história: o que parece pequeno e imperfeito pode carregar a maior das profundidades. Por isso "quão profundos são os teus pensamentos" — não desprezar o humilde começo, porque dentro dele pode estar a obra mais alta de D'us.

Razão e Mistério: por que a crítica precisa do oculto

Há uma briga antiga, e falsa, entre a razão e o mistério — entre a crítica rigorosa, que analisa e mede, e a intuição do que transcende toda medida. Numa página densa e luminosa, o Rav Kook recusa essa oposição e propõe uma aliança: o oculto e a crítica não se anulam — fundam-se um ao outro. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

O oculto que dá a medida

O oculto [a dimensão que transcende a consciência] há de vencer o mundo pela sua liberdade, que não conhece o limite da opressão; e, justamente ele, conhece com extremo rigor o limite da honra, da sabedoria e da retidão do coração. Só a disposição para a visão oculta dá a conhecer à humanidade o seu próprio valor e o valor do mundo.

הַנִּסְתָּרֹת לַד' אֱלֹהֵינוּ, וְהַנִּגְלֹת לָנוּ וּלְבָנֵינוּ "As coisas ocultas pertencem ao Senhor, nosso D'us; e as reveladas, a nós e aos nossos filhos." Devarim (Deuteronômio) 29:28

Há um paradoxo fecundo aqui. Seria de esperar que o "oculto" — o ilimitado, o que escapa à medida — fosse fonte de excesso e desmedida. O Rav Kook diz o contrário: é justamente quem tem acesso ao ilimitado que sabe, "com extremo rigor", onde está o limite — da honra, da sabedoria, da retidão. E mais: é o senso do transcendente que dá ao ser humano a noção do seu valor. Sem um horizonte maior do que ele, o homem não tem como medir a sua própria grandeza.

A razão repousa no que a transcende

A racionalidade só se desenvolve porque, para além do limiar da sua consciência, o oculto realiza a sua obra — científica e moral. É falsa a suposição corrente de que o oculto turva a ciência clara e a crítica rigorosa. Pelo contrário: é justamente por meio do oculto — pela força do seu canto e pela profundidade do seu raciocínio — que se assenta, sobre fundamento firme, a posição da ciência que sempre se renova e da crítica precisa, que analisa e penetra.

A racionalidade floresce porque, além do seu limiar, o oculto faz a sua obra.

Eis a tese central, e é surpreendentemente moderna. A objeção habitual diz: a mística "embaça" a ciência; quanto menos mistério, mais clareza. O Rav Kook inverte: a própria razão crítica repousa sobre algo que ela não produz — um senso de ordem, de valor, de verdade, que vem "de além do limiar da consciência". O cientista que confia que o mundo é inteligível, o crítico que crê que a verdade importa, já estão amparados por um pressuposto que a razão não demonstra a si mesma. Longe de turvar a ciência, esse fundamento oculto é o que a sustenta. Razão e transcendência não competem: a primeira cresce no solo da segunda.

Os dois rios, um alicerce

E da união destes dois fluxos, na sua grande riqueza — o oculto e a crítica —, edificar-se-á o alicerce firme da luz divina suprema, que está acima de todo pensamento e de toda consciência. Esse grande espírito bate às nossas portas, e vai soprando no nosso acampamento; e forma, no seu recôndito, a luz do Mashiach, em todos os seus valores, sentidos e manifestações.

A imagem é a de dois rios que, juntos, irrigam um só solo. Não se trata de escolher entre o coração e a mente, entre a poesia do mistério e o bisturi da análise — mas de deixar que ambos, "na sua grande riqueza", construam o mesmo alicerce. É a mesma sabedoria de outras páginas do Rav Kook: o sábio que domina os detalhes (a crítica) e o que anseia pela fonte oculta (o mistério) não são rivais; o futuro pleno é o seu encontro.

Renovar o homem primordial

Esse espírito dará força nova e renovação de alma a Israel — para voltar a fazer brotar o chifre da salvação e a plantar-se de novo no solo sagrado, como nos dias antigos, com largueza de conhecimento e um caráter livre e original, digno de ser reconhecido por todos os confins da terra, para honra e glória; para redimir os esmagados dos exílios e os oprimidos na justiça, e resgatar as almas oprimidas e sombrias dos sofrimentos das suas trevas; e para renovar ainda o esplendor do homem primordial, na pureza da sua natureza — com toda a bênção acrescentada da cultura nova e boa.

כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת ד', כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים "Porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Yeshayahu (Isaías) 11:9

Repare-se na amplitude do horizonte. O renascimento de que o Rav Kook fala não é um fim em si, nem um bem de um só povo: o seu alvo é "renovar o esplendor do homem primordial" — o ser humano como tal, na pureza original da sua natureza —, e fazê-lo "com toda a bênção da cultura nova e boa". Ou seja: não um retorno nostálgico que rejeita o progresso, nem um progresso que esquece a raiz, mas a reconciliação dos dois — o homem de sempre, renovado, abraçando o melhor do novo. E o sinal de que se chegou lá é universal: "a terra cheia do conhecimento de D'us, como as águas cobrem o mar".

A Alma do Escritor: a pureza que se vê na escrita

Num par de seções breves e penetrantes, o Rav Kook escreve sobre a ética da escrita — um tema raro e atual. A sua tese é exigente: não há grande literatura sem grandeza de alma em quem a produz; e o leitor atento sente, sob as palavras, o que o autor é. O que segue é uma tradução inédita ao português das duas seções, a partir do hebraico original (de domínio público).

Não há literatura sem alma purificada

Não é possível que a literatura prospere sem a santificação das almas dos que escrevem. Todo escritor que não se esforça por purificar as suas qualidades, por depurar os seus atos e pensamentos — até que o seu próprio mundo interior se encha de luz, e a perfeição interior se faça sentir nele, junto com o cuidado de completar o que lhe falta, e de encher-se de uma humildade mesclada de força e de serenidade, com um forte despertar intelectual e emocional para fazer o bem e para iluminar-se a si mesmo, e um desejo sublime de manter-se no auge da pureza — enquanto não estiver nesse estado, não poderá ser chamado, em verdade, de "escritor" (sofer).

Pois [como disseram os Sábios] "os antigos eram chamados soferim porque contavam (sofrim) as letras da Torá" — e a contagem das letras da Torá elevou-os a um grau supremo de pureza de espírito e de força de alma, até que o nome "soferim" lhes ficou bem. E, se queremos reavivar a literatura, devemos ir por este caminho sagrado: vir da santidade para a literatura.

וְהָיָה שָׁם מַסְלוּל וָדֶרֶךְ, וְדֶרֶךְ הַקֹּדֶשׁ יִקָּרֵא לָהּ "E ali haverá uma estrada e um caminho, e chamar-se-á o Caminho da Santidade... e por ele andarão os redimidos." Yeshayahu (Isaías) 35:8-9

Há uma etimologia luminosa aqui. Sofer — "escritor", "escriba" — vem da mesma raiz de contar (sofer ↔ sofrim): os primeiros "escritores" eram os que contavam, uma a uma, as letras da Torá, com um cuidado tão reverente que o próprio ofício os santificava. O Rav Kook recupera esse ideal: escrever não é só ter talento com palavras — é uma disciplina da alma. E inverte a ordem habitual: não se vai da literatura à eventual elevação; vai-se "da santidade para a literatura". Primeiro a pessoa; depois a página.

O estilo não esconde a alma

A literatura há de santificar-se, e também os que escrevem; o mundo elevar-se-á para reconhecer a força grande e delicada da literatura — o erguer do fundamento espiritual no mundo, em toda a sua elevação. A luz irá rompendo, e a exigência firme há de reclamar o que lhe é devido. Os que a reclamam são muitas almas sedentas e sensíveis, que reconhecem — pela "fisionomia" das expressões e do estilo — a impureza da ideia em muitos escritores: impureza que nenhuma retórica moral, nenhuma veste poética, consegue cobrir.

עָקֹב הַלֵּב מִכֹּל וְאָנֻשׁ הוּא, מִי יֵדָעֶנּוּ "O coração é enganoso, mais do que tudo, e está doente; quem o conhecerá?" Yirmiahu (Jeremias) 17:9

Esta é a observação mais aguda — e mais inquietante — das duas seções. Há, diz o Rav Kook, uma espécie de "fisionomia" da escrita: assim como um rosto trai o caráter, o estilo trai a alma. O leitor sensível sente, por trás das frases, quem as escreveu — e nenhuma eloquência, nenhum verniz "moral" ou "poético", consegue esconder uma ideia impura. O coração humano é capaz de muito disfarce ("o coração é enganoso"), mas o que se escreve do fundo dele acaba por aparecer. Daí a responsabilidade: escrevemos sempre mais do que dizemos.

Pensar a teshuvá antes de criar

Mas este espírito de impureza, como todo espírito de impureza, há de passar, anular-se do mundo e desaparecer por completo; e a literatura santificar-se-á, e cada escritor começará a conhecer a sublimidade e a santidade que há no seu trabalho, e não molhará a sua pena sem pureza de alma e santidade de ideia. Que ao menos preceda, antes de toda criação, o pensamento da teshuvá — fundos arroubos de retorno. Então a obra sairá na sua pureza; o espírito de D'us repousará sobre ela.

Não molhar a pena sem pureza de alma — que o pensamento de retorno preceda toda criação.
רוּחִי אֲשֶׁר עָלֶיךָ וּדְבָרַי אֲשֶׁר שַׂמְתִּי בְּפִיךָ, לֹא יָמוּשׁוּ מִפִּיךָ "O meu espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão da tua boca... desde agora e para sempre." Yeshayahu (Isaías) 59:21

O conselho final é simples e vale para qualquer um que crie — escritor, artista, ou quem apenas escreve uma mensagem: que um instante de clarificação interior preceda o ato. Não se trata de censura nem de pose piedosa, mas de lembrar que a pena é, à sua maneira, sagrada — que aquilo que lançamos ao mundo carrega a nossa alma. Quem escreve a partir de um coração esclarecido escreve outra coisa. E então, promete o Rav Kook, a obra "sai na sua pureza", e algo do espírito de D'us repousa sobre ela.

A Grande Teshuvá: o retorno que transforma o todo

A palavra teshuvá — "retorno", e não apenas "arrependimento" — guarda mais do que costumamos ouvir nela. Nestas duas seções, o Rav Kook distingue a pequena teshuvá, feita de cálculos miúdos, da grande teshuvá que transforma a pessoa e o mundo; e termina com uma das promessas mais consoladoras de toda a sua obra. O que segue é uma tradução inédita ao português das duas seções, a partir do hebraico original (de domínio público).

Mais do que um livro de contas

A teshuvá que brota da luz dos segredos da Torá — que desperta de um raciocínio interior, desenvolvido a partir da fonte viva nas profundezas da alma, e que abrange toda retidão e toda razão, toda moral, toda lei e todo mandamento — é grande e sublime, incomparavelmente mais do que toda teshuvá particular, que sai dos pequenos cálculos privados da alma: aqueles que só dizem respeito ao seu lugar, à sua hora e ao seu pormenor, e "não bastam para cobrir todas as obras". O grande mar da teshuvá, com o tumulto das suas ondas, é apenas aquela enchente que vem da compreensão do coração, da liberdade do mundo, que vai iluminando das frestas dos segredos do mundo — os que estão nos mistérios da Torá, em toda a manifestação espiritual e em todo o tesouro de poesia e de raciocínio que há na luz da Torá. A esta luz aguarda Israel; e nesta grande luz verá a luz da redenção.

שׁוּבוּ אֵלַי וְאָשׁוּבָה אֲלֵיכֶם, אָמַר ד' צְבָאוֹת "Voltai a mim, e eu voltarei a vós, diz o Senhor dos exércitos." Malachi (Malaquias) 3:7
O grande mar da teshuvá não é um livro de contas — é uma enchente que arrasta a alma inteira.

A distinção é libertadora. A pequena teshuvá é um inventário: cada falta no seu lugar, cada hábito na sua hora — e nunca "basta para cobrir todas as obras", porque a lista não acaba. A grande teshuvá é de outra ordem: não soma reparos, mas é uma só "enchente" que vem da "compreensão do coração, da liberdade do mundo" — o reconhecimento súbito e amplo de que pertencemos a algo infinitamente maior. Não conserta a pessoa peça por peça; volta-a inteira para a fonte. Não é menos rigorosa — é mais profunda: muda a raiz, e os ramos seguem.

O retorno que faz reviver

A grande teshuvá, que há de fazer reviver a nação e trazer a redenção a ela e ao mundo, será uma teshuvá que brota do espírito sagrado (ruach ha-kodesh) que nela se multiplica. Pois o dom da profecia, na sua fonte — antes de se desenvolver em plenitude —, é o espírito sagrado, que se uniu a Israel desde o início: "e o teu bom espírito deste para os instruir" (Nechemiá 9:20). Esse espírito não se aparta dos melhores da nação; pulsa em todos os de coração reto, cada um segundo a sua medida. Eleva e refina o espírito dos grandes em saber, dos que se ocupam da Torá por amor, dos generosos cuja vida inteira é um grande rio de bondade, dos poetas cheios de espírito moral e sagrado, dos que pensam bons pensamentos sobre Israel e sobre o mundo inteiro. E, no seu fundamento, está guardado nas almas que sentem o esplendor dos segredos da Torá, e escutam a voz da santidade da vida e os cânticos de toda a criação — dos céus e da terra, dos mares e dos abismos, da alma de todo ser e do sentir de tudo o que sente —, que se elevam na sublimidade da unidade suprema.

Note-se quem porta esse "espírito sagrado": não uma elite fechada, mas "todos os de coração reto, cada um segundo a sua medida" — os sábios, sim, mas também os generosos, os poetas, e todos os que "pensam bons pensamentos sobre Israel e sobre o mundo inteiro". A grande teshuvá não é um fenômeno privado nem tribal; é uma corrente que percorre toda alma sensível, e cujo alvo é o bem de todos. Quem se volta de verdade para D'us volta-se, no mesmo gesto, para o mundo.

A luz que não se apaga

E este profundo amor supremo, este lampejo que cintila em purezas elevadas, em qualquer modo que se revele — mesmo de uma forma natural e simples, mesmo nos pedidos mais comuns da vida, e mesmo na hora da falha e do pecado —, a luz divina não se apaga.

נֵצַח יִשְׂרָאֵל לֹא יְשַׁקֵּר וְלֹא יִנָּחֵם "A Eternidade de Israel não mente, nem se arrepende." Shmuel I (I Samuel) 15:29

Eis a promessa que torna a teshuvá possível, sempre. Há um instinto de desespero que sussurra: "depois do que fiz, a porta fechou-se". O Rav Kook responde com uma das suas afirmações mais consoladoras: a luz divina não se apaga — nem na forma mais comum da vida, nem mesmo "na hora da falha e do pecado". A centelha não morre com a queda; fica acesa, à espera. É por isso que o retorno é sempre possível — não porque a falta seja pequena, mas porque a luz é maior do que ela. "A Eternidade de Israel não mente": o que é eterno em nós não se perde no que fizemos de errado.

Não Só a Mente: a santidade que abraça o ser inteiro

Esta seção trata de um tema que pode parecer técnico — as leis de pureza —, mas guarda uma das intuições mais importantes do Rav Kook sobre a vida espiritual: a de que a santidade não pode ficar só na mente. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Quando a pureza importa

Tudo o que abrange a realidade em todos os seus graus, com uma influência espiritual, moral e sagrada, requer uma pureza maior. O Templo e os seus objetos sagrados incluem tanto a altura da nobreza do intelecto quanto o nível mais baixo — a pureza do sangue, da carne, da imaginação e do sentimento; e é por causa desses graus inferiores, ligados ao todo num laço vivo, que se exige a pureza precisa e prática. A influência suprema, sozinha, dirigida apenas ao intelecto — cumprindo a sua tarefa na esperança de que, da fonte espiritual, tudo se purifique —, não precisa de tantos pormenores de pureza prática:

הֲלוֹא כֹה דְבָרִי כָּאֵשׁ נְאֻם ד' "Não é a minha palavra como o fogo?, diz o Senhor — e, assim como o fogo não recebe impureza, também as palavras da Torá não recebem impureza." Yirmiahu 23:29; cf. Talmud, Berachot 22a

Eis o princípio. Uma santidade que só se dirige à mente — pura ideia, puro intelecto — não precisa de cuidados com o corpo: "o fogo não recebe impureza". Mas uma santidade que pretende abranger toda a realidade, que quer descer até a carne, o sentimento e a imaginação para torná-los sãos, essa precisa de uma pureza concreta, atenta aos detalhes. Quanto mais a luz desce, mais cuidado o degrau de baixo exige.

Os degraus do meio, esvaziados

A corrente chassídica recente voltou-se mais para o sentimento e a imaginação do que para o intelecto e a ação, e por isso despertou muito a exigência da pureza do corpo. Originalmente, nos dias de Ezra, a meta era ligar Israel à santidade do Templo também no seu lado mais baixo — que é um dos modos gerais de educar a nação —, e a pureza foi enfatizada. O exílio, porém, empobreceu as forças do sentimento e da imaginação, junto com o vigor da vida e o repouso estético; restou a influência do intelecto, no seu "salto" espiritual, unida à ação. E o lugar dos graus intermédios — o sentimento e a inclinação corporal — ficou vazio: "não nos restou senão esta Torá". A precisão da pureza saiu da categoria da obrigação geral e ficou ligada a uma aspiração ideal, a um conceito de santidade para alguns indivíduos.

Um diagnóstico fino da história espiritual: o exílio, ao comprimir a vida do povo, comprimiu também a sua espiritualidade, reduzindo-a a intelecto + ação ("não nos restou senão esta Torá") e deixando "vazios" os degraus do meio — a emoção, a imaginação, a vitalidade do corpo. Foi uma sobrevivência heroica, mas parcial. Uma alma inteira tem mais do que mente e mãos; tem também sentimento e corpo — e esses ficaram, por séculos, à margem da santidade.

Um corpo são para uma alma sã

Há aqui, sem dúvida, um grão saudável, que precisa de limite e de desenvolvimento; e é especialmente apropriado que cresça junto com o renascimento da nação na Terra de Israel — na união entre a grandeza da imersão no espiritual e uma sede saudável, com um alvo firme e definido: tornar sã a nação inteira, e a raiz da sua alma, em toda a constituição da sua vida — da qual a pureza do corpo é uma das forças. Como está dito: "quando saíres como acampamento contra os teus inimigos, guarda-te de toda coisa má" (Devarim 23:10); e sobre tudo isso se diz:

כִּי ד' אֱלֹהֶיךָ מִתְהַלֵּךְ בְּקֶרֶב מַחֲנֶךָ... וְהָיָה מַחֲנֶיךָ קָדוֹשׁ "Pois o Senhor, teu D'us, anda no meio do teu acampamento, para te salvar... portanto o teu acampamento será santo." Devarim (Deuteronômio) 23:15

Em todo lugar onde cresce o vigor de um povo, deve logo vir, e unir-se a ele, o fortalecimento da pureza do corpo e do sentimento, com todo o seu entendimento; e tudo isto prepara a base para uma postura viva e orgânica, que abrange a vida inteira — desde o início da mais alta abstração até o fim alegre da vida e o trovão da sua força. "E porei beleza na terra da vida."

A santidade não é fuga do corpo — é a saúde do ser inteiro.

Eis a conclusão, e ela é profundamente afirmadora da vida. O ideal não é um espírito que paira acima de um corpo desprezado, mas uma integração orgânica: a santidade que liga "a mais alta abstração" ao "fim alegre da vida". O "acampamento santo" da Torá não é um mosteiro que renega o corpo — é um povo cujo viver inteiro, físico e anímico, está permeado de santidade. Uma alma sã num corpo são; uma elevação que não foge da terra, mas a sacraliza. É a mesma luz que percorre estas páginas do Rav Kook: o sagrado não se opõe à vida — quer habitá-la por inteiro.

Os Sofrimentos que Purificam: a alma adoece de uma ideia tosca de D'us

Esta seção das Sementes (Zer'onim) leva, no original, o nome de Yissurim Memarkim — "os sofrimentos que escovam, que purificam". O leitor que espera um tratado sobre a dor encontra outra coisa: um diagnóstico do que mais adoece a alma humana — uma imagem confusa do Divino — e a sua cura. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Toda confusão começa numa névoa

Todos os emaranhados de ideias entre os homens, e todas as contradições internas que cada pessoa sofre nas suas opiniões, vêm apenas das névoas que pairam sobre o pensamento a respeito do conceito do Divino — que é um mar sem fim, do qual todos os pensamentos, práticos e teóricos, brotam, e ao qual retornam. Errado o ponto de partida, erra-se em tudo; turvada a fonte, turvam-se todas as águas.

Purificar o pensamento

É preciso, sempre, purificar o pensamento, para que seja claro, sem a escória de imaginações falsas, de medos vãos, de maus traços, de carências e privações. A fé em D'us só torna o ser humano feliz na exata medida em que a grandeza divina é investigada e aprendida por aquela parte digna que há nele. Então a alma se ilumina da luz suprema, pelo apego em amor e em conhecimento pleno à Vida das vidas, e todos os sentimentos, ideias e atos se refinam. Quanto mais se purifica este fundamento dos fundamentos no interior da alma, maior se torna a força com que o próprio apego a D'us — no sentimento e na emoção do coração — conduz todo o percurso da vida por um caminho reto.

Pois o cerne da fé está na grandeza da perfeição infinita. Tudo o que entra no coração é uma centelha absolutamente nula diante do que se deveria conceber; e o que se deveria conceber nem sequer chega a contar como "nulo" diante do que verdadeiramente é. Quando dizemos "o bem", ou "a bondade, a justiça, a força, a beleza", e tudo o que é vida e esplendor da vida — ou quando dizemos "fé" e "divindade" —, tudo isso é o que a alma, na sua origem, anseia acima de tudo. Até os nomes e as designações, hebraicos ou de outras línguas, dão apenas uma centelha pequena e baça da luz escondida pela qual a alma suspira, e à qual chama: "Elohim".

כָּל הַגְדָּרָה בָּאֱלֹהוּת מְבִיאָה לִידֵי כְּפִירָה; הַהַגְדָּרָה הִיא אֱלִילִיּוּת רוּחָנִית "Toda definição na divindade conduz à descrença; a definição é idolatria espiritual." Rav Kook, Orot, Sementes — "Yissurim Memarkim"

Até a definição "intelecto" e "vontade", até a própria "divindade" e o nome "Elohim" são definições; e, sem o saber supremo de que tudo isto não passa de irradiações de centelhas vindas daquilo que está acima de toda definição, também elas conduziriam à descrença. Nas pessoas inteiramente arrancadas desse saber de origem, elas conduzem, de fato, a uma descrença grosseira. Se o reconhecimento do coração é cortado da sua fonte, empobrece e perde todo o valor; só pode voltar a brilhar com vida quando está ligado à luz da fé — uma luz geral, acima de todos os valores, e que por isso mesmo dá fundamento a todos eles.

Aqui está o coração racionalista do texto, e ele é puro Rambam: nenhuma definição alcança D'us. Atribuir-Lhe um contorno, uma forma, uma "essência" do nosso tamanho — ainda que a chamemos "intelecto" ou "vontade" — é já um modo sutil de idolatria, um ídolo feito de palavras. Os nomes e os atributos são apenas centelhas que apontam para uma luz que está acima deles. Quem se esquece disso não adora D'us: adora a sua própria imagem d'Ele.

O vazio que vira ousadia

A desolação do pensamento, nascida da falta de estudo e de conhecimento, leva a pessoa a especular demais sobre a essência da divindade. E quanto mais afundada nessa ignorância — uma ousadia terrível e uma tolice pavorosa do pensamento —, mais imagina que assim se aproxima do conhecimento divino elevado, aquele pelo qual, ouviu dizer, anseiam todas as grandes almas do mundo. Acumulado esse hábito ao longo de gerações, tecem-se daí muitas vaidades, cujo fruto são maldades grandes e terríveis — a ponto de até o indivíduo perder a sua força material e espiritual, de tanta aflição e treva. O maior obstáculo do espírito humano, quando ele vem ao conhecimento, é que o pensamento sobre o Divino está fixado, entre as pessoas, numa forma particular e conhecida, por força do hábito e da imaginação infantil. Isto é uma centelha do mesmo defeito de "fazer escultura e imagem" — do qual sempre precisamos nos guardar muito, e ainda mais numa época de conhecimento mais claro.

De onde vêm os sofrimentos da alma

Todas as aflições do mundo — e em especial as aflições espirituais: a tristeza, a impaciência, o tédio da vida, o desespero, que são na verdade as aflições essenciais do ser humano — também elas só vêm da falta do conhecimento que permite contemplar com clareza a exaltação de D'us. Pois a submissão diante da divindade — algo natural em toda criatura, em todo ser no qual desperta alguma individualidade, o anular-se diante do todo, e tanto mais diante da fonte de onde o todo provém — não traz consigo dor nem abatimento, mas deleite e firmeza, domínio e força interior coroada de toda beleza.

Quando esse reconhecimento da exaltação de D'us se desenvolve no interior da alma, em todos os seus caminhos, ele torna a vida desejável até na sua sujeição natural, enchendo-a de contentamento — na medida em que a parte reconhece a grandeza do todo e o esplendor da sua fonte. E aquela "diminuição" natural, em que a alma se faz pequena diante do seu Criador, faz brotar justamente uma grandeza poderosa. Mas quando ela é natural? Quando a grandeza divina se desenha bela dentro da alma — na forma de um conhecimento puro, de um intelecto que se eleva acima de toda "essência", e de uma imaginação saudável, cheia de esplendor. Aí, sim, a entrega é pedida de todos os cantos da alma.

Uma psicologia espiritual de notável atualidade: a tristeza crônica, o tédio, o desespero — Rav Kook os lê não como acidentes, mas como sintomas de uma raiz comum, uma ideia doente de D'us. Quando o Divino é concebido como uma força sombria e ameaçadora, curvar-se diante d'Ele é humilhação e medo. Quando é concebido como a perfeição infinita, o mesmo curvar-se vira deleite e libertação. A cura da alma passa, antes de tudo, por corrigir a imagem que ela faz do seu Criador.

O D'us imaginado que oprime

Por causa do abandono geral do estudo espiritual das questões divinas, o conceito do Divino vai-se obscurecendo, à falta de um trabalho intelectual e emocional purificado. Ao mesmo tempo, o medo exterior, a fé instintiva e a sujeição da submissão permanecem em muitos corações como herança das épocas em que o conhecimento divino brilhava com vigor. Mas, uma vez que o ponto central desse reconhecimento ficou apagado, a "essência divina" fica concebida pela multidão — e até por indivíduos que deveriam ser guias — apenas como uma força esmagadora, da qual não há escapatória e à qual é forçoso submeter-se.

Quando se vem servir a D'us a partir desse estado vazio — da imagem escura e caótica que se forma na mente quando se pensa em D'us sem instrução e sem Torá, um "temor inferior" arrancado da sua fonte, que é o "temor superior" —, a pessoa vai perdendo o brilho do seu mundo, ao prender-se à pequenez da mente. Não é a exaltação de D'us que então se revela na alma, mas a baixeza de imaginações desvairadas, que pintam uma realidade fictícia, borrada, mesquinha e irada, que aterroriza quem nela crê e esmaga o seu espírito, embota o coração e impede que a delicadeza da alma humana se eleve. E ainda que diga o dia inteiro que essa fé é "no D'us Único", é palavra vazia, da qual a alma nada sabe — e todo espírito refinado é forçado a desviar dela o pensamento. Esta é a descrença dos "calcanhares do Mashiach": quando as águas se retiram do mar do conhecimento divino, em Israel e no mundo inteiro.

Por que a descrença tem um papel

O assentamento grosseiro da alma — a ideia de que o conteúdo divino reside nas meras palavras e letras, e em nada mais — é o que envergonha a humanidade. E a descrença vem como um grito arrancado pela força das dores, para resgatar o ser humano desse poço de aflição estranha, para erguê-lo da treva das letras e dos ditos à luz da ideia e do sentimento, até encontrar lugar para se firmar no próprio centro da moral. A descrença tem um direito temporário de existir, porque precisa digerir a sujeira que se grudou à fé por falta de conhecimento e de serviço. Esta é toda a sua missão na realidade: remover as formas particulares do pensamento essencial de toda a vida, raiz de todos os pensamentos.

Mas a que "arrancamento" visa a Providência suprema? A arrancar a escória que apenas faz barreira entre o homem e a luz do D'us verdadeiro. E sobre os escombros que a descrença derruba, o conhecimento sublime de D'us erguerá o seu palácio. Para purificar o ar da imundície da ousadia e da impiedade de especular sobre a "essência" divina — uma espreita que leva à idolatria —, vem a descrença absoluta, que também não é melhor que a primeira, mas se lhe opõe de modo total. Do choque desses dois opostos a humanidade recebe uma grande ajuda, para se aproximar de um conhecimento luminoso de D'us, que a conduz à sua felicidade temporal e eterna.

וִידַעְתֶּם כִּי אֲנִי ד' בְּפִתְחִי אֶת קִבְרוֹתֵיכֶם וּבְהַעֲלוֹתִי אֶתְכֶם מִקִּבְרוֹתֵיכֶם עַמִּי "E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer subir delas, ó meu povo." Yechezkel (Ezequiel) 37:13–12

O vento forte virá das quatro direções e, na sua tempestade, levantará — mesmo contra a vontade deles — os que jazem nas covas do pavor de uma divindade imaginária e doentia. O vento das brechas da descrença purificará toda a imundície acumulada na camada inferior do espírito da fé; e assim os céus se limparão, e aparecerá a luz clara da fé suprema — que é o cântico do mundo e a verdade do mundo.

O mel escondido na descrença

Quem reconhece o cerne que há dentro da descrença, por este lado, suga o seu mel e a devolve à raiz da sua santidade; e contempla o esplendor do gelo terrível — a geada dos céus.

Quando se extrai a fundo o juízo da rebeldia e da descrença — a que diz abandonar o bem herdado dos pais por alguma visão nova do coração —, descobre-se que ela é, na verdade, uma ideia geral de teshuvá que faz ondas: encontra-se nela o lado bom, que é o germe universal do retorno de toda baixeza e de toda corrupção. E daí se chega também a retornar da grande corrupção que há na própria destruição — e então se retorna a D'us de verdade, e a redenção vem ao mundo. A reparação do mundo (tikkun olam), que saiu da fonte de Israel, é o ideal da teshuvá. Enquanto a pessoa fixa a sua vida por uma medida rígida, não consegue livrar-se das falhas do intelecto, do caráter e da ação — e como então aperfeiçoaria o seu ser? Por isso, longe de nós que o hábito seja a força principal a conduzir a vida, individual ou coletiva; o indivíduo, e a sociedade inteira, precisam estar sempre a corrigir-se e a curar as suas fraturas, espirituais e práticas. Toda renovação da vida, e toda pergunta que vira de cabeça para baixo as ordens do mundo a fim de melhorá-lo, são apenas caminhos de teshuvá — e a teshuvá deve estar sempre no alto cume da escada do aperfeiçoamento humano.

A última casca a cair

De época em época, vai-se esclarecendo a mistura entre a fé pura na unidade e as trevas da corporalização. Cada vez que uma parte conhecida dessa corporalização cai, parece que a fé está caindo — e depois se revela que não foi a fé que caiu, mas que ela se esclareceu. Nos últimos tempos do retorno do espírito humano à esfera da fé límpida, cai a última e fina casca da corporalização: a de relacionar "a existência", em geral, com a divindade — pois, na verdade, tudo aquilo que definimos como "existência" está tão distante da divindade quanto o incomparável está do que se pode comparar. As sombras dessa negação parecem descrença, quando são, de fato, o grau mais alto da fé, uma vez bem esclarecida: o saber de que a divindade faz existir a realidade e, portanto, está acima da própria existência. Assim, a descrença imaginária, ao purificar-se, retorna da sua impureza às alturas da fé mais pura.

A fé de Israel está enraizada no Infinito

É certo que a fé fica ferida quando se anula a Torá suprema, aquela que conduz ao reconhecimento da grandeza de D'us — a perfeição superior sem fim nem medida —; então ela não dá o bom fruto que deveria dar, não eleva as almas, e os que a desprezam se multiplicam. Mas a fé de Israel está fincada no Infinito (Ein Sof), que está acima de todo conteúdo de fé; e por isso a fé de Israel é considerada, em verdade, o ideal da fé — a fé do porvir:

אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה "Serei o que serei." — o Nome que não se fixa em conteúdo algum do presente, infinitamente mais alto do que qualquer ideia que dele façamos. Shemot (Êxodo) 3:14

Na fé enquanto tal, pode pegar o defeito da descrença; mas o ideal da fé, o defeito da descrença não o alcança de modo algum. Ele está acima do conceito de descrença, assim como está acima do conceito de fé. A descrença não tem ideal verdadeiro — "o outro deus é estéril e não dá fruto" —; o desespero e o vazio nada produzem, e por isso não há lugar para um "ideal" oposto ao ideal da fé. O "quinquagésimo portão" — o ideal da fé, que foi um ideal até para Moshé, e que não lhe foi dado — não existe no domínio da casca. E a influência desse quinquagésimo portão, do ideal da fé, dá vida suprema a todos os portões e subjuga a casca da descrença, que não tem ideal, diante da santidade da fé ligada a um ideal eterno: "pois contigo está a fonte da vida" (Tehillim 36:10).

Quando as luzes tremem

Diante de tremores de luz como estes, pensa-se que a fé está caindo, que o mundo se inverte. Mas, na verdade, são as sombras que se movem e se deslocam, que fogem e se retiram para dar lugar à luz. É necessário — para voltar à fortaleza da fé, e para que ela reviva dentro de cada alma — despertar com força para elevar o conhecimento de D'us em toda a sua largura e profundidade, dedicando-se aos caminhos do intelecto mais oculto, no qual se sobe acima de toda definição. Pois, assim como é loucura e fraqueza desviar a mente e fechar os olhos para o que é revelado — para a beleza e o vigor da vida concreta —, também é tolice sacudir o intelecto da inclinação ao que está oculto nas profundezas da alma, sem o qual é impossível reconhecer o sublime, tudo o que, na vida e no ser, está acima dos nossos sentidos embotados.

E é precisamente assim que a alma se enche de vida plena, de conhecimento e talento; e por meio de pessoas de tanta profundidade o mundo se enche de luz e do orvalho da ressurreição. Os tzadikim mais elevados, os mais fortes e sábios no conhecimento de D'us, hão de se esforçar grandemente para intensificar o anseio de investigar a grandeza do Senhor por todos os caminhos, intelectuais e morais. Então a fé voltará ao seu vigor, sairá da sua treva para uma grande luz, e se tornará fonte de vida para todas as almas mais altas e refinadas do mundo. E, em Israel, esta é toda a âncora de salvação da nação num tempo como este: restituir-lhe a preciosidade da fé divina pura — que é todo o fundamento da sua vida.

Mas não despreze os vasos

E, no entanto — justamente quando as luzes tremem e, por força delas, os vasos pensam que vão se quebrar —, é preciso uma firmeza imensa, para anunciar isto: que as letras, as palavras, os fatos, não são, de fato, o corpo das luzes — mas são vasos, são membros de um corpo vivo que carrega dentro de si o esplendor da alma. E ai, ai de quem lhes retira até o valor de vasos; de quem queima a santidade das letras, das palavras, dos atos e das imagens, mesmo dentro do âmbito que é o delas. Sem elas, ficará mudo, sem voz; atônito, sem imagem interior do pensamento; e inteiramente despedaçado, por falta de força prática — varrido por correntes desoladoras que desolam tudo o que há nele: o corpo e a alma, o espírito e a neshamá.

Eleve a fé, levante a ideia — e dê grandeza à vida concreta.

Elevem a fé, ergam a ideia, e deem grandeza à vida concreta — aquela que se vive segundo o revestimento da luz suprema na imagem que a mente concebe, vestida na força da imaginação e no tesouro da vida prática: o trabalho da vida, a Torá e toda a mitsvá.

É o equilíbrio que tantas vezes falta ao racionalismo apressado. Rav Kook acaba de demolir toda imagem grosseira de D'us — e logo adverte: não confunda demolir o ídolo com desprezar as formas da tradição. As letras, as palavras, as mitsvot não são D'us; mas são os "vasos" que carregam a luz, os membros vivos pelos quais ela chega até nós. Purificar a ideia do Divino não é abandonar a prática — é dar-lhe a sua alma de volta. O fim do texto é, por isso, profundamente afirmativo: eleve a ideia, e honre a vida que a veste.

A Essência de Israel: a missão de ser bom para todos

"A Essência de Israel" (Mahut Knesset Yisrael) abre as Luzes de Israel, uma das partes mais densas de Orot. Rav Kook tenta dizer o indizível: o que é a "Comunidade de Israel" (Knesset Yisrael) na sua raiz mais profunda. A resposta, lida com calma, é surpreendentemente moral e universal. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A essência de toda a realidade

A Comunidade de Israel é a quintessência de toda a existência; e, neste mundo, essa quintessência se derrama concretamente na nação de Israel — na sua materialidade e na sua espiritualidade, na sua história e na sua fé. A história de Israel é a essência ideal da história universal: não há movimento algum no mundo, em qualquer dos povos, que não encontre o seu correspondente em Israel. E a sua fé é a essência mais fina, a fonte que faz fluir o bem e a idealidade para todas as crenças — e, com isso, a força que examina todos os conceitos de fé, até elevá-los ao grau de "uma língua clara", para que todos invoquem o nome de D'us; e o teu D'us, o Santo de Israel, será chamado o D'us de toda a terra.

A Comunidade de Israel é a revelação espiritual mais alta do ser humano. Assim como não nos espantamos de que no cérebro e no coração existam manifestações de vida sem paralelo no resto do corpo, também não há por que espantar-se com as manifestações de vida das maravilhas, da profecia, do espírito de santidade no seu grau supremo, da esperança eterna, da vitória sobre todo obstáculo — que se revelam de forma elevada, e que assombram todo coração que medita e toda mente que pensa.

Não se define em fronteiras

A essência da Comunidade de Israel não se deixa definir em limites particulares nem em atributos restritos. Ela inclui tudo; e tudo se funda no anseio da sua alma por D'us, no sentir, em toda a profundidade da sua alma, a doçura e a suavidade suprema d'Ele. E o desejo pela divindade, num entusiasmo verdadeiro da alma, revela-se em todos os seus cantos: revela-se na Torá e nas mitsvot, revela-se na ética e no caráter, revela-se na elevação da alma, no canto interior, na santidade da vida, numa sede insondável.

כָּלְתָה נַפְשִׁי... לְאֵל חָי "A minha alma desfalece de anseio... pelo D'us vivo." cf. Tehillim (Salmos) 84:3 e 42:3

Esse anseio revela-se também numa entrega contínua, no carregar o jugo do exílio por amor — apenas para não abandonar a ordem da vida, prática e espiritual, pela qual a luz divina se apega ao seu interior. É essa força de trovão que lhe trará, no fim dos dias, a salvação absoluta: "Aquele que dispersou Israel o reunirá, e o guardará como o pastor ao seu rebanho" (Yirmiahu 31:9).

O núcleo: ser bom para todos

O âmago do desejo de ser bom para todos, sem limite algum no mundo — nem na quantidade dos que recebem o bem, nem na qualidade do bem que se dá — eis o germe interior da essência da alma da Comunidade de Israel. Esta é a sua herança, o legado dos seus pais. E esse sentimento do bem, conforme a sua grandeza, o seu alcance e a sua profundidade, precisa estar coroado de grande sabedoria e de força imensa, para que se saiba como traduzi-lo em ato, em todos os seus matizes.

Este é o segredo do anseio pela redenção que pulsa na nação, o que lhe dá força para viver e perdurar de um modo que assombra todo o que pensa. A Comunidade de Israel, no fundo do seu querer, não está de modo algum separada da divindade: ela veste a divindade que se revela no mundo como um todo, e deseja, no seu próprio existir, o desejo divino de que o bem do Senhor alcance a todos, e a Sua misericórdia, a todas as Suas obras. Esse bem é o segredo da redenção, que é forçoso vir — o bem há de vencer tudo. E o desejo profundo e inato do bem, o anseio interior por ele no íntimo da alma da nação, que transparece na oração interior do povo, é o que aproxima a redenção:

"וְהַטּוֹב בְּעֵינֶיךָ עָשִׂיתִי" — זֶה שֶׁסָּמַךְ גְּאֻלָּה לִתְפִלָּה "'E fiz o que era bom aos teus olhos' — isto é, aquele que une a redenção à oração." Talmud, Berachot 10b (sobre Yeshayahu 38:3)

Viver pela meta moral

Nós — isto é, a Comunidade de Israel — queremos viver justamente por causa da finalidade moral que há na existência como um todo. E porque reconhecemos, dentro de nós, que a concentração da vida é, para nós, essa meta moral universal, por isso estamos certos de que, ao vivermos, estaremos ajudando a realizá-la. Se de uma só vez a meta moral da existência se perdesse por completo de nós, então perderíamos inteiramente o desejo de viver — e, com isso, a vida universal cessaria sem reparo. Mas a meta moral, na sua totalidade, não se perderá de todo de nós: mesmo uma única centelha que reste dela no fundo da alma, em total ocultamento, fará tudo voltar à vida.

Amamos a meta moral suprema do ser tanto quanto amamos a nós mesmos — e mais do que amamos a nós mesmos; pois no nosso íntimo sentimos apenas uma centelha da meta universal que tudo abrange, e o "todo" dessa meta amada nos é muito mais precioso do que a centelha que há em nós. A meta moral pura da existência transparece nos Nomes sagrados, dos quais o Nome supremo, que se escreve mas não se pronuncia, é o centro. E por isso nele repousa o feixe da vida, para nós e para todos:

וְאַתֶּם הַדְּבֵקִים בַּד' אֱלֹהֵיכֶם חַיִּים כֻּלְּכֶם הַיּוֹם "E vós, que vos apegais ao Senhor, vosso D'us, estais todos vivos hoje." Devarim (Deuteronômio) 4:4

Este é o coração da seção, e desfaz um mal-entendido comum. A "essência de Israel" não é, para o Rav Kook, uma reivindicação de superioridade — é uma vocação moral: o desejo de ser bom para todos, sem limite de quantidade nem de qualidade. E note-se o seu universalismo radical: ama-se a meta moral do ser mais do que a si mesmo, porque o "todo" vale mais do que a centelha individual. Eleição, aqui, é responsabilidade pelo bem do mundo inteiro — não privilégio sobre ele.

Duas inclinações na alma

Duas inclinações em conflito encontramos na alma humana, voltadas a dois alvos opostos. De um lado, a inclinação a saciar todo desejo do mal, todas as paixões mais baixas — do corpo ou do espírito —, que ainda se alargam e enredam o homem na sua força, como a inveja e o ódio. De outro lado, não podemos deixar de ver a aspiração ao bem, que às vezes desperta no espírito do homem, e para a qual o mundo inteiro vale a pena — para esclarecê-lo, fazer-lhe bem e enchê-lo de bondade, de amor e de luz. Mas cada inclinação quer reinar sozinha e ser senhora do coração. Esse conflito sacode o coração e enche a vida de pavores; e o homem se esforça sempre por alcançar dentro de si uma paz interior, para que cessem os tormentos da sua alma.

Essa paz se firma de dois modos: ou pela submissão de um dos lados ao outro; ou — o que é mais alto — por um pacto e uma união completa, em que o lado oposto inteiro se converte, com todas as suas forças, ao lado contra o qual lutava. Por isso há dois caminhos no anseio de harmonizar os desejos sobre os quais se constroem os fundamentos da vida, individual e social. Um é o caminho da descida: educar o homem até que, por fim, se cale dentro do seu coração a voz de D'us, e ele se entregue por inteiro às paixões impressas na profundeza da sua matéria — a ira, o desejo, o ódio, a maldade. Este é o pensamento da impiedade, que envolve a parte mais forte dos agrupamentos humanos.

O outro é o caminho da subida: educar o homem até que chegue ao alvo supremo, em que só a voz de D'us se ouça no seu coração, e só o bem, a luz, a bondade e o amor sejam a sua porção. Esse caminho avança e se conquista devagar, em passos medidos e de modo discretíssimo. Entre as nações, foi em Israel que se encarnou a aspiração à paz suprema, à paz verdadeira — segura da sua vitória, ainda que o seu caminho seja longo e ela esteja em guerra contra a aspiração oposta, cujo fim é cair e provar a sua própria nulidade aos olhos de todos. E então:

וְהָיָה ד' לְמֶלֶךְ עַל כָּל הָאָרֶץ; בַּיּוֹם הַהוּא יִהְיֶה ד' אֶחָד וּשְׁמוֹ אֶחָד "E o Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia o Senhor será Um, e o seu Nome, Um." Zecharyah (Zacarias) 14:9

Duas luzes em Israel

Duas luzes brilham em Israel: a moral pura, em todas as suas aspirações pelo mundo inteiro — pelo homem, por tudo o que vive e por todo o ser —; e o saber de que tudo brota da invocação do nome de D'us e de todas as Suas luzes. A moral sem a sua fonte é uma luz interior, central, sem alcance, sem um meio que a sustente — e o seu fim é definhar. E a aspiração da alma ao vínculo divino, quando a moral e o seu valor não brilham como devem, é um conteúdo que abrange muito, mas a que falta um centro. Israel reúne o alcance e o íntimo, a moral e a sua fonte divina — e é isso que vencerá e decidirá o mundo inteiro, e fará raiar a luz do Mashiach.

A luz da Shechiná

A luz da Presença Divina (Shechiná) é a Comunidade de Israel — o ideal de Israel que paira sobre a nação inteira e a faz uma só unidade em todas as suas gerações. Quando essa grande luz se revela na terra, encarnando-se na vida prática e intelectual, tudo se abençoa. As almas escondidas no alto acrescentam luz e deleite; toda alma viva se eleva; o mundo e tudo o que nele há se exalta; os orvalhos guardam em si abundância de bênção; tudo se alegra e exulta — porque a Comunidade de Israel desceu para habitar na terra.

שִׂמְחוּ בַד' וְגִילוּ צַדִּיקִים וְהַרְנִינוּ כָּל יִשְׁרֵי לֵב "Alegrai-vos no Senhor e exultai, ó justos; cantai de júbilo, todos os retos de coração." Tehillim (Salmos) 32:11

A união do querer

A união perfeita da Comunidade de Israel com o Santo, bendito seja Ele, é o alinhamento da vontade que se revela na nação como um todo, no fundamento da sua alma, com a manifestação da inclinação divina no fundamento de todo o ser. E quanto mais se traduz em ato a revelação da Comunidade de Israel, e o seu alinhamento com a luz divina do desejo de que o ser se aperfeiçoe, mais admirável é essa harmonia. Cada ato bom feito por qualquer membro de Israel torna o indivíduo e a coletividade aptos a se elevar a essa harmonia suprema — e essa elevação, por sua vez, torna mais apta a manifestação da inclinação divina em todo o ser, e o aperfeiçoamento da sua plenitude.

É a isto que aspiramos em todas as nossas obras. Revestimo-nos de amor, pela inclinação cósmica presente na totalidade do ser, na qual o temor se anula diante do amor — pois a totalidade do ser está distante de qualquer mudança para o mal, e nela há somente "força e alegria no seu lugar" (I Crônicas 16:27). E, do lado da Comunidade de Israel, revestimo-nos também de temor, para que a luz não se feche para nós; e, ao nos elevarmos ao fundamento da unidade, enchemo-nos de amor e temor reunidos num só. E os pensamentos e sentimentos que vêm da iluminação divina universal só são acolhidos pela Comunidade de Israel para dar fruto e ramo, e gerar belos frutos duradouros, quando vêm entretecidos com as ideias próprias da Comunidade de Israel, com a natureza da nação na sua essência interior.

Vencer pelo espírito

A Comunidade de Israel vence o mundo pela sua força espiritual, cujo fundamento é a elevação moral absoluta, que se ergue acima das inclinações do espírito humano — até mesmo acima das melhores e mais belas. Ela revela a sua força no saber de uma condução do mundo acima do curso da natureza. Pois é impossível ao homem, individual ou coletivo, elevar-se acima da sua própria natureza enquanto pensar que tudo o que está impresso na natureza não tem sobre si poder algum capaz de transformá-lo numa elevação. Por isso não há escapatória da baixeza moral na profundeza do espírito senão pelo pensamento da fé, que comprova as suas ações pelo domínio do nome de D'us no mundo, numa revelação ideal da vontade — e esta é a revelação do Nome do Ser na Torá de Israel.

O judaísmo do milagre e o judaísmo da natureza estão entrelaçados um no outro, presos um ao outro como a alma ao corpo. E, tal como na guerra interior do indivíduo — em que às vezes a alma se fortalece e ilumina, mas o corpo padece em excesso, e então surge uma inclinação contrária a fortalecer o corpo, e a alma sofre com a treva da matéria, até que a inclinação da alma volta a despontar, e em todas essas subidas e descidas o equilíbrio vai se aproximando —, assim também é no judaísmo como um todo. Quando as ideias do judaísmo do milagre se fortalecem, o judaísmo da natureza padece; e quando este se eclipsa, perde a sua base também o esplendor da estatura espiritual do judaísmo. Mas, pela força do retorno constante, que vem e volta ao longo de épocas diversas, a estatura plena da nação vai se aproximando do equilíbrio — e a eternidade e o esplendor, juntos, derramam a sua força; e a Comunidade de Israel se eleva acima de ambos, pois é a fonte do judaísmo inteiro nos seus dois valores, de tal modo que cada uma das duas formas, a do milagre e a da natureza, alarga a fronteira da outra.

Inseparável da Rocha

"É impossível ao homem separar-se do apego ao Divino, e é impossível à Comunidade de Israel separar-se da Rocha da sua salvação, a luz do Senhor, D'us de Israel. Mas essa impossibilidade, que se manifesta em todas as gerações, traz consigo uma necessidade natural que não dá lugar à clareza do conhecimento para mostrar a sua obra. Por isso vêm dias em que um sono profundo cai sobre o homem, e as faces se separam uma da outra, até que a separação completa se torne possível; e em meio a esse sono, no lugar de um lado preso ao outro por união natural, dorso a dorso, ergue-se a beleza do homem em todo o seu esplendor — quando a escolha consciente reconhece e diz: 'Esta, agora, é osso dos meus ossos e carne da minha carne' (Bereshit 2:23), e o mundo se estabelece numa manifestação de vida e de gerações que perduram para sempre."

"As possibilidades de falar 'altivamente, altivamente' — de apostasia, de descrença, de separações absolutas — são fruto dessa 'serração' que conduz à união completa, formal e livre: 'como o noivo se alegra com a noiva, assim se alegrará contigo o teu D'us' (Yeshayahu 62:5). O fenômeno se revela na relação da Torá com a nação: a união natural vai-se separando pela serração do sono, e o fim dessa serração é o conteúdo da construção, que leva a uma unidade plena; e a Torá volta para os que a estudam:"

וְכָל בָּנַיִךְ לִמּוּדֵי ד', וְרַב שְׁלוֹם בָּנָיִךְ "E todos os teus filhos serão discípulos do Senhor, e grande será a paz dos teus filhos." Yeshayahu (Isaías) 54:13

O dever que nasce do saber

Tudo o que é digno de ser feito já está impresso na essência do intelecto e na realidade espiritual ligada a todo o fundamento da existência; e, uma vez feito o contrário do que se devia fazer, a coisa arruína o mundo — como quem trata do seu corpo de um modo que contraria as condições da sua vida. Mas, se a revelação dessa ordem não chega a deixar uma marca na alma, a ruína não atua. A Torá inteira é a conclusão última do efeito da luz divina que flui pelos mundos e chega até a penetração mais íntima da vida. Israel se purificou a tal ponto que chegou a sentir a impossibilidade de inverter a ordem suprema que tudo abrange e penetra. Os Patriarcas já traziam isso impresso na altura do seu espírito, e os seus filhos se purificaram no forno de ferro até alcançar, num mistério interior, essa qualidade.

E esse saber interior é um saber que sente; e, quando ele amadurece, as condições da vida são forçadas a andar conforme ele. Se não houver um guia supremo que traduza em ato a manifestação da vida segundo esse saber interior, então o mundo desaba, e grande é a aflição da vida. E a iluminação veio: a luz do Senhor revelou-se sobre o Monte Sinai; a Moshé Ele mostrou o tesouro da sua bondade e o segredo do esplendor do seu brilho, para ensinar uma Torá que é herança da congregação de Yaakov, e para perfumar o mundo e tudo o que nele há. Daí que todo homem piedoso, todo o que busca a moral e a justiça — uma vez que o seu entendimento chegou a desvendar um segredo moral — eis que o mundo inteiro lhe cobra o cumprimento do dever revelado.

לֹא עָשָׂה כֵן לְכָל גּוֹי, וּמִשְׁפָּטִים בַּל יְדָעוּם "Não fez assim a nenhuma outra nação; quanto aos seus juízos, eles não os conhecem." Tehillim (Salmos) 147:20

O testemunho e o ponto de Sião

Quando se fala da vocação de Israel no mundo, chegamos logo ao reconhecimento do testemunho da exaltação de D'us que vem pela Comunidade de Israel — que comprova, na sua própria existência, o fundamento divino que rege os povos e os reinos e, com isso, toda a realidade. E daí chegamos à exigência da santidade e da pureza na vida prática e na vida do pensamento.

Ser bom para todos, sem limite — eis o germe da alma de Israel.

A elevação da Comunidade de Israel ao seu grau supremo, enquanto ainda houver divisão de povos no mundo, é o grau a que se chama o ponto de Sião.

A seção fecha onde começou: numa visão moral e universal. O "ponto de Sião" não é o fim da história dos outros povos, mas o ponto em que a Comunidade de Israel cumpre a sua função — ser testemunha viva da exaltação de D'us, e exigir de si santidade e pureza "na vida prática e do pensamento". Tudo no texto converge para o mesmo germe que o Rav Kook pôs no centro: a vontade de ser bom para todos, sem limite. Não é uma teoria sobre a grandeza de um povo — é um chamado à responsabilidade pelo mundo inteiro.

A Ligação com o Todo: quando a alma do indivíduo toca a de toda Israel

Esta seção das Luzes de Israel — "A Ligação com o Todo" (Hitkashrut la-Klal) — é composta de onze meditações breves, numeradas no original com as letras hebraicas. Lidas em sequência, traçam um caminho: como o indivíduo deixa de viver fechado em si e passa a participar da vida do todo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Tocar o todo, tocar o Infinito

(1) Quando a pessoa põe o seu coração e a sua mente em apegar-se à luz divina que brilha na Comunidade de Israel como um todo — em todas as almas e em todas as gerações, do princípio ao fim —, ela se apega, por isso mesmo, à luz da divindade que repousa sobre toda a "estatura" do ser humano coletivo, da qual a Comunidade de Israel é o centro e a quintessência. E, por meio disso, apega-se também à luz inteira da divindade que se revela em toda a existência — pois no lado mais alto da alma humana reflete-se toda a essência dela. E assim liga o seu pensamento ao apego à divindade suprema, que está acima de toda a existência. A sua alma enche-se de uma vitalidade plena de santidade, de grande glória e de força; e, ao aumentar a sua própria força, ela acrescenta força a toda a Comunidade de Israel — porque é uma parte dela —, e com isso acrescenta força à "estatura do Homem" e a todos os mundos.

תְּנוּ עֹז לֵאלֹהִים, עַל יִשְׂרָאֵל גַּאֲוָתוֹ וְעֻזּוֹ בַּשְּׁחָקִים "Dai força a D'us; a sua majestade está sobre Israel, e o seu poder, nas alturas." Tehillim (Salmos) 68:35

Eis a tese que abre a seção, e é vertiginosa: o ato mais íntimo — uma pessoa voltando o coração para D'us através do seu povo — não é privado. Ele reverbera. Ao ligar-se à luz que brilha em "todas as almas e todas as gerações", o indivíduo toca a divindade presente em toda a existência e acima dela; e, sendo parte do todo, a sua força acrescenta força ao todo. Não somos gotas isoladas: somos pontos vivos numa rede em que cada elevação eleva o conjunto.

A geração que herda todas as gerações

(2) Na última geração imprime-se o selo de todas as ideias de todas as gerações passadas, e o que se diz em palavra carrega a sua quintessência. Por isso, também os traços naturais que brotam de todas as questões da fé ficam gravados no coração de todo o que se apega à Comunidade de Israel e deseja a sua salvação. E até o cerne interior de todas as mitsvot — as práticas e as da crença — fica gravado nessa ligação à Comunidade de Israel e no desejo da sua salvação; só que o reconhecimento da fonte que dá vida à Comunidade de Israel conduz a todas as mitsvot e a todas as crenças. De todo modo, quem se liga ao desejo de salvação para a totalidade de Israel na Terra de Israel — pois sem a Terra de Israel é impossível que venha uma salvação geral — está ligado, de modo oculto, a toda a quintessência de todas as crenças e de todas as mitsvot. E à geração como um todo é digno que se perdoem os seus erros, cometidos por falta de reconhecimento daquilo a que ela mesma está, de todo o coração, apegada e atada.

בַּיָּמִים הָהֵם וּבָעֵת הַהִיא נְאֻם ד' יְבֻקַּשׁ אֶת עֲוֹן יִשְׂרָאֵל וְאֵינֶנּוּ, וְאֶת חַטֹּאת יְהוּדָה וְלֹא תִמָּצֶאינָה "Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a iniquidade de Israel, e ela não existirá; e os pecados de Yehudá, e não se acharão." Yirmiahu (Jeremias) 50:20

Apegar-se ao bem absoluto

(3) Apegar-se aos justos (tzadikim), para que a força de realidade que há na alma deles se misture com a alma ainda incompleta, é algo muito nobre no curso do desenvolvimento das almas. Mas exige grande cuidado: pois, se a pessoa se engana a respeito de um determinado justo e a ele se apega com um apego interior e existencial, apega-se também aos seus defeitos — e estes às vezes atuam sobre quem se apegou numa medida muito pior do que atuam sobre o próprio homem original. Felizes são os de Israel, que se apegam à alma da nação, que é o bem absoluto, para por meio dela haurir a luz do Senhor, o Bem.

A humildade que recebe a luz

(4) Quando a luz divina — que a alma sente com todos os seus sentidos espirituais na totalidade da Comunidade de Israel — sobe, na própria altura e força do seu brilho, ao cume da sua supremacia, e se expande por todos os campos da sua ação na realidade, no homem e no mundo, então a Comunidade de Israel se exalta por ela, e se une numa união de amor e de esplendor, cheia de vida, sabedoria, bondade e força, vitória e majestade, e é coroada com a divindade que se revela em toda a existência. E essa ligação, conforme a sua grandeza, derrama por sua vez iluminações supremas sobre todas as almas particulares de todo o cosmos. Para estar pronto a acolher essa luz elevada, repleta de uma grandeza divina de muitas cores, poderosa e eterna, é preciso um espírito de humildade pura e íntegra na sua própria pureza — uma humildade limpa, que orienta a força, e acrescenta honra e um desejo de bondade universal a todo o cosmos, unida a um reconhecimento verdadeiro acerca da perfeição absoluta e da relação do homem com ela; e por ela a alma se enche de sede de D'us e de um canto sagrado, fresco e jubiloso.

Pensar, sentir, viver Israel

(5) A sede de ser inteiramente absorvido no espírito de Israel precisa crescer. Pensar israelidade. Sentir israelidade. Viver uma vida israelita, alegrar-se com a alegria de Israel — esta é uma aspiração profunda, alta e ampla, cheia do orvalho da vida da santidade. E ela é distinta do sentimento análogo que existe sem um ideal sagrado interior, o qual acaba acolchoado de muito ódio e maldade. Pois a sede pelo espírito da nação é, na verdade, sede do Senhor, da luz da Torá, da retidão, da sabedoria e de todo o bem — e é jubilosa.

Aqui o Rav Kook traça uma distinção que vale para qualquer povo, e também como advertência a Israel: um amor nacional sem um ideal sagrado no centro degenera em ódio ao outro. O que distingue, para ele, o anseio israelita autêntico não é o orgulho de sangue, mas o seu conteúdo — quem tem sede do "espírito da nação" tem, no fundo, sede de D'us, de justiça, de sabedoria e do bem para todos. Despojado disso, qualquer nacionalismo, inclusive o nosso, torna-se apenas mais uma forma de rancor. O critério não é de quem se é, mas do que se ama.

Plantar-se no todo

(6) Quem, em Israel, deseja merecer de verdade a luz da vida precisa consentir em plantar-se dentro da Comunidade de Israel com todo o seu coração, com todos os seus sentidos e forças, corporais e espirituais; precisa pôr como meta da sua vida adquirir, na medida do que lhe é possível, os traços de Israel e o saber próprio de Israel — à frente de todos, a Torá, em toda a sua largura e em todos os seus ramos, e, com ela, tudo o que se atribui à sabedoria de Israel. E, a partir da elevação da Comunidade de Israel, ele chegará a uma elevação geral da fonte da vida humana e do mundo.

Torá e mitsvot ligam ao todo

(7) Quanto mais a pessoa se dedica à Torá e às mitsvot, mais se liga à Comunidade de Israel, e sente dentro de si a alma de todo o coletivo, na sua quintessência mais elevada. Sente, com todo o seu ser, a dor da Comunidade de Israel na sua humilhação; deleita-se com a alegria eterna que lhe está destinada; e orgulha-se, num reconhecimento interior profundo, do esplendor da sua supremacia divina. E, em cada tempo de alegria — nas festas de júbilo e nas renovações dos tempos, dos dias e dos meses —, ela está toda cercada e cheia da força poderosa da alegria do todo e do seu regozijo.

שִׂמְחוּ אֶת יְרוּשָׁלַיִם וְגִילוּ בָהּ כָּל אֹהֲבֶיהָ, שִׂישׂוּ אִתָּהּ מָשׂוֹשׂ כָּל הַמִּתְאַבְּלִים עָלֶיהָ "Alegrai-vos com Yerushalayim e exultai por ela, todos os que a amais; regozijai-vos com ela, todos os que sobre ela chorastes." Yeshayahu (Isaías) 66:10

Purificar-se para enxergar o todo

(8) A pessoa precisa purificar-se e afastar-se da torpeza, para que o conceito do todo se desenhe belo na sua alma; e então terá a capacidade de apegar-se à totalidade da Comunidade de Israel.

(9) Quando há alguma coisa que não se ajusta ao pensamento geral de Israel — porque parece pequena demais para ele, limitada e estreita diante da medida da sua amplitude ideal —, devemos entender que há aqui uma falha da nossa parte, no pensamento geral: ele não foi bem iluminado em todo o seu grande facho e na sua luz clara, e por isso não consegue abarcar as coisas pequenas e distantes do seu círculo supremo. E quanto mais acrescentarmos luz santa e elevada, mais se eleva a clareza do pensamento, mais crescem os nossos ideais na sua aspiração, e mais entram, sob a sua bandeira, todas as coisas, até as menores das menores — e a vida eterna e a vida do instante se juntam numa só.

וְהָיָה אוֹר הַלְּבָנָה כְּאוֹר הַחַמָּה "E a luz da lua será como a luz do sol." Yeshayahu (Isaías) 30:26

A voz que atravessa as gerações

(10) Quando a ligação com a Comunidade de Israel — na sua espiritualidade e na força da sua essência — chega a um grau digno, começa a nascer um reconhecimento interior agradável, na própria concretude da existência, que sente a voz do Senhor a passar através da Comunidade de Israel, numa voz poderosa: a voz que profere a Mishná e toda a Torá Oral, que flui sem cessar do tesouro da vida pura e imensa, cheia de esplendor e de santidade, da Torá Escrita — a palavra de D'us, vinda da voz de D'us.

Uma imagem notável da tradição como organismo vivo. A Torá Oral — a Mishná, o Talmud, toda a interpretação que atravessa os séculos — não é, para o Rav Kook, um acréscimo humano sobreposto ao texto: é a mesma "voz" que soou no Sinai, agora passando através do corpo vivo do povo. Quem se liga ao todo de Israel não estuda uma tradição morta; ouve uma voz que ainda fala, da Escrita à Oral, sem interrupção.

Uma alma que tudo abraça

(11) A nossa alma é grande, forte e poderosa; quebra muralhas de ferro, despedaça montes e colinas, é larga de uma largura sem fim — não pode contrair-se, tem de expandir-se. Sobre todos estes milhões de almas de Israel, em todos os seus graus, em todas as suas subidas e descidas, em todos os montes a que subiram e em todos os vales a que desceram; nos altos da cidade onde estão de cabeça erguida, e nos buracos onde se esconderam, sob o aperto do desprezo e da vergonha, do trabalho duro e da tristeza — sobre todos, sobre todos a nossa alma há de expandir-se; a todos abraçará, a todos dará vida e ânimo, a todos fará voltar ao lugar da casa da nossa vida.

מִי אֵלֶּה כָּעָב תְּעוּפֶינָה, וְכַיּוֹנִים אֶל אֲרֻבֹּתֵיהֶם "Quem são estes que voam como nuvens, e como pombas para os seus pombais?" Yeshayahu (Isaías) 60:8
Não pode contrair-se; tem de expandir-se — e a todos abraçar.

A Nação e a sua Alma: a soberania de Israel

Esta seção das Luzes de Israel trata da soberania — da nacionalidade de Israel (Le'umiyut Yisrael) — e é uma das mais audazes do Rav Kook: ele recusa tanto o nacionalismo sem alma quanto a espiritualidade sem corpo, e procura unir os dois. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A roupa e a luz

A inclinação nacional prática da Comunidade de Israel é a roupa externa da sua inclinação espiritual; e esta última é a luz e a alma da primeira. Ambas saem juntas da fonte do D'us vivo, e brotam do manancial da verdade e da fé divina. Durante todos os dias do exílio, o "vaso" quebrou-se por completo, e a luz — na sua forma abstrata, voltada apenas para o alto — serviu à nação só como o cuidado geral de manter viva a nacionalidade espiritual pura. A luz divina, que é a alma-raiz da nação, brilhou então em Israel num clarão fugaz, fora dos vasos práticos que a sustinham. A Presença Divina desceu com Israel ao exílio e habitou no meio dele, e padeceu naquilo em que eles padeceram. A alma não alargou os seus anseios, mas fixou-os no conceito do temor de D'us, da sua fé, e do zelo da Torá e das mitsvot enquanto "ordens do Senhor" — "como ave que vagueia longe do ninho".

כְּצִפּוֹר נוֹדֶדֶת מִן קִנָּהּ "como ave que vagueia longe do seu ninho" — assim a alma de Israel guardou a sua luz no exílio, fora dos vasos da vida prática. Mishlei (Provérbios) 27:8

Cada alma que se purifica eleva o todo

Na exata medida em que cada indivíduo se eleva, em que todo o seu caráter pessoal se purifica, ele imprime no íntimo da nação inteira a parte nobre que há em si; e ela, por meio dele, ganha mais uma coroa de esplendor, e torna-se, no seu conjunto, digna de amor e de um apego cheio de graça. Por isso o lado espiritual do fortalecimento da nacionalidade depende da purificação pessoal de cada um.

Uma nação fundada num pedido moral

Uma das diferenças entre a nacionalidade de Israel e a de qualquer outro povo é esta: nos demais povos, o fundamento nacional e o seu sentimento têm, na psique coletiva, o mesmo valor de uma exigência natural que há na psique individual — algo que cresce sozinho, junto com o crescimento natural, sem cultivo especial. Já a nacionalidade de Israel funda-se numa exigência moral grande e profunda; e uma disposição moral precisa sempre de cultivo, não cresce por si na natureza. É por isso que o cumprimento das mitsvot — no aspecto nacional que muitas trazem à vista, e que todas guardam de modo oculto — é o alimento que sustenta a força vital da nacionalidade israelita: ele encerra em si aquele material nutritivo da moralidade, necessário para manter de pé toda a aspiração nacional.

O equilíbrio que salva

Por causa da inclinação material excessiva, que perde o equilíbrio em relação à inclinação espiritual, povos vão-se acabando. Em Israel, o equilíbrio está gravado na própria natureza — embora isso signifique apenas que a doença do excesso não se fixa de modo incurável; pois o golpe do excesso atinge Israel, e até mais do que às outras nações, pela intensidade do seu caráter. A idolatria, que nos feriu durante toda a longa era até a destruição do Primeiro Templo, foi fruto de uma inclinação material excessiva. No Segundo Templo, enfraquecida a idolatria, esse mesmo golpe manifestou-se na forma do ódio gratuito, para o qual não houve cura senão a quebra da nação — de modo que, por muito tempo, ela não tivesse, no seu conjunto, com que se ocupar em coisas materiais, e a sua atenção ficasse voltada, durante todo o longo exílio, apenas para o que é sublime e nobre.

É verdade que também a inclinação excessiva para o lado espiritual, perdido o equilíbrio, faz muito dano — a ponto de tirar o verdadeiro esplendor da própria espiritualidade —; mas, como remédio para uma materialidade desmedida, ela serve. E agora, no tempo do despertar do renascimento nacional, temos o sinal de que a doença geral já se curou, de modo que a nação recebeu de novo licença para se ocupar, no seu conjunto, também de coisas materiais. O primeiro movimento, do exagero espiritual de volta ao material, há de pender um pouco em excesso para este último — e essa é a fonte da "insolência" (chutzpá) dos calcanhares do Mashiach. Mas o tempo dessa inclinação extrema não durará, pois no fundamento da nação repousa o equilíbrio: assim que a tempestade passar, as coisas voltarão à medida justa. Cabe aos que têm influência achar a luz espiritual que há na inclinação material, e o seu alvo interior; e, à medida que o revelarem ao povo, a doença da insolência sarará e perderá os seus maus sinais, e a nação despertará para a sua existência natural, e nela se revelará o esplendor da sua alma.

Mashiach ben Yossef e o alvo universal

Em Mashiach ben Yossef revela-se a feição da nacionalidade de Israel em si mesma. Mas o alvo último não é a afirmação isolada da nacionalidade por si só — e sim a aspiração de unir todos os habitantes do mundo numa só família, para que todos invoquem o nome de D'us. E, ainda que isso requeira também um centro particular, a intenção não é o centro em si, mas a sua ação sobre o grande todo. Quando o mundo precisa fazer a nacionalidade passar ao plano universal, é preciso que haja como que uma demolição daquilo que se enraizou a partir da nacionalidade estreita, com os seus defeitos de um amor particular em excesso. Por isso está destinado a "morrer" o Mashiach ben Yossef, e o reino verdadeiro e permanente será o de Mashiach ben David. E quando a medida do anseio pelo bem universal chega a anular o valor da afirmação isolada da nacionalidade, falta apenas um passo, e o mal será extirpado também da vida dos indivíduos. Eis por que a anulação do mau instinto e a "morte" de Mashiach ben Yossef estão próximas uma da outra no seu sentido.

Passagem decisiva contra qualquer leitura chauvinista do Rav Kook. A nacionalidade "em si mesma" (Mashiach ben Yossef) não é o fim — é um estágio. O alvo último é universal: "unir todos os habitantes do mundo numa só família". O centro nacional existe pela sua ação sobre o todo, não por si. E o "amor particular em excesso", o nacionalismo estreito, é justamente o que precisa morrer — Rav Kook chega a equiparar a sua superação à extinção do mau instinto. Eleição é meio para a humanidade, não fim contra ela.

O Estado não é a felicidade suprema

Um Estado não é a felicidade suprema do ser humano. Isto pode dizer-se de um Estado comum, que não passa de uma grande companhia de seguros, acima da qual pairam — sem a tocar — as multidões de ideais que são a coroa da vida humana. Mas não é assim com um Estado que é, na sua própria base, ideal; que tem gravado no seu ser o conteúdo do ideal mais alto, que é, na verdade, a maior felicidade do indivíduo. Esse Estado é, de fato, o mais elevado na escada da felicidade — e esse Estado é o nosso, fundamento do trono de D'us no mundo, cujo único desejo é "que D'us seja Um e o seu Nome, Um". É certo que uma felicidade tão sublime precisa de longa explicação para erguer a sua luz em dias de treva; mas nem por isso ela deixa de ser a maior das felicidades.

שֶׁיִּהְיֶה ד' אֶחָד וּשְׁמוֹ אֶחָד "que D'us seja Um, e o seu Nome, Um" — este, e não o poder, é o ideal que torna uma nação digna do nome. cf. Zecharyah (Zacarias) 14:9
Um Estado não é a felicidade suprema do homem — a menos que a sua própria essência seja um ideal.

O Rav Kook escreveu isto antes de existir um Estado moderno; "o nosso Estado" é, para ele, a comunidade ideal cuja razão de ser é um propósito moral e divino — não a mera máquina administrativa, a "grande companhia de seguros". A vara com que ele mede qualquer poder político é severa e libertadora ao mesmo tempo: a grandeza de uma nação não está na sua força, mas no ideal que ela serve. Sem esse ideal, até a melhor estrutura é só seguro mútuo; com ele, a vida pública torna-se o degrau mais alto da felicidade humana.

Grandeza e humildade

A pequenez da fé, e o afastamento entre o homem e a santidade suprema, vêm de ele não conseguir elevar o valor de si mesmo até fixar no coração a grande ideia de que uma grandeza divina lhe é digna. A grandeza suprema do pensamento divino, que abala toda ideia limitada, expulsa do seu âmbito o espírito do homem com o seu temor terrível — enquanto ele não se erguer, em pensamentos de santidade e em caminhos de vida puros, a sentir-se à altura dessa grandeza. E isto vale em especial para Israel: a proximidade nacional de D'us exige uma fé grande, um "orgulho" nacional santo de medida tão elevada que se fixe no coração a ideia suprema de que a revelação divina lhe é digna. Mas esse orgulho sagrado, tal como se adorna de altivez, assim também se entrelaça com uma grande humildade; e a humildade divina, que vem da própria grandeza e a ela se une, desponta sobre o caráter anímico da Comunidade de Israel — e a sua fé na proximidade do D'us eterno, criador dos céus e da terra, cuja grandeza não tem medida, enraíza-se nas profundezas da sua alma; e ela se santifica, eleva-se, liberta-se, e prepara-se para a redenção plena.

Quando o pensamento nacional se empobrece

O empobrecimento a que chegou hoje o pensamento nacional em Israel — a ponto de vermos que muitos dos que a ele se apegam se enchem de defeitos espirituais, ideias más e traços grosseiros, e de que pessoas de opiniões e caráter corrompidos são atraídas por ele — vem-nos do declínio da disposição do temor de D'us, que é o fundamento da vida de Israel. No ponto espiritual do puro temor de D'us — que dá vida e direção à existência, e metas grandes e justas para a vida do todo e do indivíduo — está incluído também o pensamento nacional em todos os seus pormenores. O temor de D'us e o conhecimento de D'us, o entendimento do mundo e da vida, numa disposição nobre e pura que não absorve em si a imundície da insensibilidade do coração, estão todos fundados no vaso da bênção que é o pensamento nacional de Israel — e estão dobrados dentro do temor de D'us puro, simples e luminoso, o qual, justamente por ser simples e natural, precisa de cultivo e de guarda, para não se contaminar nem escurecer com a treva da vida material turva e grosseira. Quando afrouxaram as mãos do estudo e da educação que elevam o pensamento do temor de D'us, ele caiu; a sua imagem no coração escureceu; as ideias a ele ligadas embaçaram-se; e, com isso, caiu ainda mais o seu vaso, o pensamento nacional, até vestir "roupas sujas". E ele espera por quem o refine e purifique — para que se cubra de honra e de luz.

O fecho é um diagnóstico, não uma condenação. Se o nacionalismo do seu tempo atraía gente de "caráter corrompido" e enchia os seus adeptos de defeitos, a causa, para o Rav Kook, não está na ideia nacional em si — que ele chama "vaso de bênção" —, mas no esvaziamento do temor de D'us que era a sua alma. O pensamento nacional vestiu "roupas sujas" porque perdeu a sua luz. A resposta não é abandoná-lo, mas devolver-lhe a alma: refiná-lo até que volte a vestir-se "de honra e de luz".

Alma e Corpo da Nação: o ideal e a sua encarnação

Esta seção das Sementes (Zer'onim) — "A Alma da Nação e o seu Corpo" (Nishmat ha-Le'umiyut ve-Gufah) — é uma meditação sobre um problema universal: o que acontece a um ideal puro quando ele desce do pensamento para a realidade concreta. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

É preciso haver um intervalo

Tem de haver um intervalo entre o conteúdo do ideal abstrato — o alvo do todo — e aquilo que dele se manifesta concretamente no ser; entre a boa intenção que irradia no homem no auge da sua vida espiritual e o espírito que o acompanha a cada passo, para endireitar os seus atos e caminhos. Sem essa diferença gradual, toda a forma da ação se embaçaria, o ser não se manteria na sua feição, leis e limites não seriam guardados, e as disposições firmes e os valores definidos que fundam o mundo e tudo o que nele há não se sustentariam.

Quando o ideal desce e se limita

Quando os ideais sublimes — que repousam no estado de "caos" (tohu), na raiz da alma e na nascente dos seus anseios — se limitam dentro de uma fronteira e de um contorno definidos, logo se obscurecem e descem do seu vigor escondido. Pela definição, eles ganham uma vantagem prática, um ponto de apoio para a ação; mas a pureza suprema que tinham antes de se encarnarem no seu contorno particular deixa-os. A luz contrai-se, desce às vezes muito do seu vigor, chegando até à treva, por força do encolhimento exigido para se medir a sua essência. Resta-lhes então a sua missão: depois de virem ao ato e se tornarem coisas a que o mundo prático se prende, serem reconduzidos àquele grau de altura e pureza, e àquela amplitude — em quantidade e em qualidade — que tinham quando ainda estavam no tecido do seu mundo ideal. O êxito desse caminho depende da feição da encarnação: se ela não se tornou grosseira demais, e se não desceu da sua altura uma distância grande demais, então o caminho da teshuvá suprema está aberto diante dela, e ela pode, com segurança, achar veredas que a conduzam de volta ao grau do seu ser nobre.

Os dois perigos

Mas, se a força da encarnação for fraca demais, então tudo pode esfarelar-se e voltar ao nada, pelo próprio anseio das alturas, que torna a pulsar dentro dos limites definidos. De tanto se esforçar por subir à sua fonte ideal, os ideais encarnados podem perder a sua capacidade prática — o que é totalmente contrário à construção ordenada que a definição exige. Se esse anseio, ao crescer, quebra as definições — e abre assim um abismo entre a essência dos ideais e a sua encarnação concreta no mundo da ação —, ele tem de moderar-se, e reter dentro de si a força do seu desejo. Com medida e peso enviará os seus raios, que, com força lenta, farão o seu caminho, hão de polir as definições encarnadas e fazer brilhar centelhas, vez após vez, daquela luz original elevada. Da meta abstrata, abrem-se canais que destilam para o bem das fronteiras, das gravações particulares, um orvalho de vida suprema — e esse orvalho é orvalho de luzes: expulsa as trevas e ilumina a vida.

Então o mundo se constrói

Então um mundo se edifica, e céus e terra são saciados, e a alegria da criação revela-se em plenitude. Assim funciona a coisa no indivíduo, e no povo, e no mundo, e em todo o ser.

Eis a chave de toda a seção, e ela vale para qualquer ideal — religioso, moral, nacional. Um sonho puro só muda o mundo se descer ao concreto; mas, ao descer, perde brilho. Daí os dois perigos simétricos: encarnar tão grosseiramente que se esquece a luz de origem; ou ansiar tanto pelas alturas que se despreza o concreto e tudo se desfaz. O caminho do meio é um fluxo constante — a fonte mandando "orvalho de luzes" para dentro dos limites, sem nunca os romper nem os deixar endurecer.

A alma do amor nacional — e humano

A alma interior do amor nacional — ou, mais amplamente, do amor humano — deleita-se, na sua fonte, com os ideais mais puros: a luz que se revela no lado mais alto da humanidade e da nação viva faz cintilar, por meio deles, todas as suas cores — um conjunto inteiro cheio de esplendor e glória, deleite e vida, bondade e verdade, justiça e humildade, força e alegria, beleza e ternura, intelecto e sentimento. Isso é o que se revela no mundo ideal. Mas, quando as coisas vêm ao ato e se vão vestindo de limites, desaparecem logo muitas partes daquele brilho supremo. Os obstáculos da vida multiplicam-se; os abalos da alma — iras e medos, ódios e arrogâncias — crescem e enchem o espaço. A humanidade prática veste-se de "roupas sujas", e as suas muitas luzes caem dentro das cascas duras em que ela se envolve. E quem a ama tal como ela é não consegue elevar-se: está mais apto a absorver em si a escória acumulada nela do que a captar as centelhas de santidade escondidas nos seus recantos. E o mesmo se dá no caso da nacionalidade particular — cuja feição, no seu conjunto, encontramos também na nossa nação.

O ideal do povo-sególa, encarnado

Belo até ao insondável é o ideal de erguer um povo-tesouro — "um reino de sacerdotes e uma nação santa" — a partir de um povo afundado numa servidão terrível, em que apenas pérolas patriarcais da sua origem fazem brilhar a sua treva. Nas alturas divinas, o ideal habita no esconderijo secreto da sua pureza. Mas ele precisa encarnar-se, envolver-se numa definição particular: em seres humanos com instintos bons e também maus, em comunidades que precisam de sustento e alimento, de apego à terra e de sistemas de governo. E a vida coletiva tem de abarcar tudo — do alto da montanha dos puros de espírito e das almas nobres até ao fundo dos de alma pobre, destinados às ocupações baixas dos lados inferiores da vida.

O olho de carne, embaçado, perde então todo o brilho; e os lados espirituais ficam subjugados e escurecidos na treva de uma vida cheia de lixo e de escombros. É desse ângulo que a humanidade, na sua forma limitada e cheia de torpezas, pode influir sobre os que a ela se apegam mais com a sua baixeza do que com a sua nobreza. E, quando a nacionalidade particular vestiu as roupas grossas do profano, também ela desceu das suas alturas; e em Israel ela quebrou-se a tal ponto que cessaram todas as suas ações, restando apenas o lado supremo, no alto do desenho original — o esconderijo do ideal de erguer a nação no auge puro do seu vigor.

Da pureza descem orvalhos de vida

Desse alto vigor podem descer correntes de luz, voltando em forma de "orvalhos de ressurreição" para reviver e reconduzir a definição caída à amplitude que tinha no princípio do seu ser. Há força nessa marca celestial e suprema para reanimar até todas as roupas profanas, que dela se nutrem. Mas, se no estado de queda e de torpeza alguém quiser apegar-se à forma nacional nos seus lados grosseiros, sem a irradiação interior da sua luz suprema de outrora, absorverá depressa em si um espírito de escória, de pequenez e de centelhas de maldade, que se converterão em amarguras no curto crescimento histórico de algumas poucas gerações. Esse é o fenômeno da maldade nacional com que nos deparamos.

Nota de contexto. Os trechos a seguir são uma crítica severa — não a este ou àquele povo, mas a um nacionalismo esvaziado da sua alma. O Rav Kook escreve, no seu tempo, contra a tentação de abraçar a forma nacional de Israel despojada do amor de D'us e da moral que lhe davam sentido. A sua linguagem é vívida e polêmica; traduzimo-la com sobriedade, preservando o argumento — um nacionalismo sem alma torna-se vaso do que há de pior — e deixando claro que a sua visão final é universalista: o amor humano há de vencer, e "a luz de Israel" existe para purificar o ideal humano, não para se opor a ele.

Sem D'us, a nação trai a si mesma

Esse espírito divino supremo habita na Comunidade de Israel no seu recôndito mais escondido, no "santo dos santos", na menina do olho onde está guardada a fé em D'us, vestida no traje da Torá de Moshé. Mas a visão superficial — que, na fraqueza da sua percepção, despreza toda riqueza oculta e velada — escureceu os olhos e estreitou o horizonte espiritual, levantando um muro grosso contra a liberdade do espírito; e foi nesse ar viciado que nasceu a descrença grosseira, na forma deturpada que vemos nos nossos dias. [E quando o asno cego se ajunta ao boi que escorneia, escolhe nele justamente as suas partes mais bestiais.] Assim, quando essa descrença se junta à nacionalidade, escolhe nela justamente os seus piores elementos, capazes de destruir todo o esplendor da imagem divina que há no indivíduo cujo caminho está diante de D'us.

Sem o orvalho de vida do amor de D'us, do temor cheio de entendimento e de um conhecimento, e de uma fé de vida cheia de liberdade, a nacionalidade arrasta o seu caminho a catar cevada no esterco — imitando o que há de mais baixo e vil —; e, num espírito sombrio, cheio de fúria e de doença, ufana-se da casca exterior de uma língua cuja força sagrada não reconhece, de uma terra cujas maravilhas e qualidades nega, de saudades que são escória da escória, das quais lançou fora todo o fundamento que nutre e dá vida. Uma nacionalidade assim — quanto mais elevada e nobre é na sua base — mais se aviltam os que a sustentam, e mais ela faz escorrer sobre eles a imundície das suas bordas. Sem fé e sem conhecimento de D'us, sem esplendor moral e sem força de espírito — onde estará o sangue da alma que lhe traga a ressurreição?

לֶאֱחֹז בְּכַנְפוֹת הָאָרֶץ וְיִנָּעֲרוּ רְשָׁעִים מִמֶּנָּה "para segurar as bordas da terra, e dela se sacudirem os ímpios" — assim o amor central de Israel queima os seus espinhos. Iyov (Jó) 38:13

Mas, no fim de tudo, o amor humano universal vencerá a maldade que o cerca; e o amor nacional central da Comunidade de Israel queimará, na força do seu vigor, todos os seus espinhos, "para segurar as bordas da terra e dela se sacudirem os ímpios". E da sua fonte divina ela mamará, como nos dias do seu noivado; e, com um grande haver de robustez, de definição prática, de muitos traços e linhas que enriquecem o seu caráter, será replantada no lugar da casa da sua vida. Os seus vasos quebrados serão refeitos; as centelhas de pureza que se dispersaram serão recolhidas uma a uma; e, do alto esconderijo do ideal universal de toda a criação, voltará a revelar-se a luz de Israel — que, na sua pureza e vigor, voltará a purificar o ideal humano. E no fundamento secreto da justiça eterna florescerá o lírio do Sharon, e espalhará de si raios de luz e de esplendor para todos os confins.

A purificação e o retorno

Este é o estado de aperto da Comunidade de Israel, ao qual ela terá de descer, por necessidade, perto do seu despertar para a verdadeira ressurreição. E, ao despertar, lançará de si, com ímpeto veemente, toda a sua escória, e, num querer divino, reunirá a si todo o seu bem. Das alturas santas reanimará todos os seus tesouros, e de um brilho supremo resplandecerão todos os encantos dos seus anseios. Os acordes do cântico, a beleza da língua sagrada, o esplendor da terra amada, a eleição divina, o júbilo da força e o santo dos santos — tudo voltará aos montes de Sião. No fogo do refinador e no sabão dos lavandeiros da alma original, nos tesouros da nobreza divina e na luz de bondade e doçura suprema escondida no seu interior, voltarão a purificar-se também todas as roupas mais externas em que se envolveram a alma e o espírito da nação.

וְזָרַקְתִּי עֲלֵיכֶם מַיִם טְהוֹרִים וּטְהַרְתֶּם... וְנָתַתִּי לָכֶם לֵב חָדָשׁ, וְרוּחַ חֲדָשָׁה אֶתֵּן בְּקִרְבְּכֶם "E aspergirei sobre vós água pura, e ficareis puros... e vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo." Yechezkel (Ezequiel) 36:25–26
No fim, o amor humano universal vence — e a luz de Israel volta a purificar o ideal do homem.

A Alma de Israel e o seu Renascimento

Este é o capítulo que encerra as "Luzes de Israel" (Orot Yisrael) — e, com ele, completa-se neste sítio a tradução de toda essa parte de Orot. É uma síntese: o Rav Kook reúne aqui a alma da nação, a Torá que a alimenta, a língua que a exprime, a profecia que a inspira e o renascimento que a aguarda. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Os justos elevam a alma da nação

A revelação da boa vontade, em palavra e em ato, eleva o espírito e fixa um curso para o fluxo do querer rumo ao bem — e não só na alma em que esse querer se revela, mas, em medida proporcional, em todas as almas; e o seu impacto sobre a nação inteira é especialmente forte. Por isso os justos (tzadikim), que sempre se ocupam de revelar o seu desejo pelo bem supremo, absoluto e completo, com esses movimentos espirituais elevam a alma da nação como um todo — e, num sentido mais amplo, toda a existência.

A fonte do sentimento é a inclinação restringida à natureza do vaso que recebe a vida em si, como uma luz interior; em todos os mundos, é o traço da Realeza (Malchut) — e o alvo supremo de todo o ser, que ele seja bem ordenado por dentro, está incluído no traço da alma da nação, em Israel. Por isso a nação, no seu conjunto, está voltada para a Presença Divina, e a luz da Realeza de D'us habita nela. Mas a fonte do intelecto é mais alta do que isto: não só o que já está pronto no ser, mas o alvo do ser, aquilo a que ele tende a elevar-se — e isto depende não só da inclinação da justiça (tzedek), mas do juízo supremo (mishpat), que abrange o laço do todo no esplendor da sua força. Às vezes, quando esses dois viram a face um do outro, o mundo fica em sofrimento — até que os justos tornam tudo para o bem; e, pela sua Torá e pelo derramar da sua alma em oração, que exprime o seu desejo geral de elevar todas as obras, revela-se em ato a santidade e a perfeição suprema, e o mundo é adoçado, e as bênçãos voltam a ele.

בְּרָכוֹת לְרֹאשׁ צַדִּיק "Bênçãos sobre a cabeça do justo." Mishlei (Provérbios) 10:6

Uma alma que precisa de espaço

A grande alma de Israel busca para si muitos "tesouros" onde depositar a abundância das suas manifestações — e esses são os muitos estudos e as grandes obras santas da Torá e das mitsvot, os costumes sagrados e a oração. A alma de Israel precisa expandir-se, inflamar-se e fortalecer-se. E cabe-nos remover dela todos os obstáculos do caminho que não a deixam seguir o seu curso, e ainda ajudá-la, para que os conteúdos espirituais lhe estejam ao alcance e tudo coopere para o seu florescer. Eis o segredo da Torá prática e de todos os caminhos da vida da fé e da santidade.

O detalhe e o todo

Entra-se na profundeza da Comunidade de Israel unindo a precisão do particular com o aprofundamento e a amplitude do pensamento geral. Merece-se isto pela exatidão em todas as mitsvot com largueza de mente; pela repetição das halachot, pela expansão do estudo dialético e da exposição, junto com a amplitude da ideia. Embora, à primeira vista, pareçam contradizer-se, isso é só na aparência, antes do hábito e da purificação intelectual e emocional. Depois, porém, nasce no íntimo da alma uma disposição nova, que une a luz geral e ampla a todos os vasos particulares — as ideias com as letras, os pensamentos largos com os atos —, numa trama maravilhosa que deleita a alma e a sacia de prazer supremo. Para entrar neste Éden, é preciso aceitar também o jugo de trilhar as veredas estreitas da exatidão dos atos, dos pormenores miúdos, do dobrar da vontade — e é desses pormenores que se chega à grande luz, que vai brilhando "até o dia se firmar".

Uma resposta a uma tensão que todo estudante de Torá sente: o choque entre a minúcia da halachá e a amplitude do pensamento. Rav Kook recusa escolher um dos lados. A contradição, diz, é "só aparente"; com tempo e purificação, nasce uma faculdade nova que tece as duas coisas numa só — e justamente as "veredas estreitas" dos detalhes conduzem à "grande luz". O rigor não é inimigo da profundidade: é o caminho até ela.

Israel como a lua

A Comunidade de Israel é comparada à lua: ora minguante, ora crescente; ora cheia, ora em falta. E, nos tempos em que está em falta, ao chegar ao fim do seu minguar, já está atrás da sua parede o reenchimento da sua luz, para que vá enchendo-se cada vez mais, até chegar àquele estado firme em que "a luz da lua será como a luz do sol", e nunca mais venha à míngua, mas esteja sempre cheia de luz.

וְהָיָה אוֹר הַלְּבָנָה כְּאוֹר הַחַמָּה "E a luz da lua será como a luz do sol." Yeshayahu (Isaías) 30:26

Todos os bens da nação parecem cheios apenas na medida em que ela, no conjunto, está cheia; e, na medida em que desce da sua plenitude, a falta se nota em todos eles. A fé em geral, e todos os pormenores das mitsvot, só se enchem de luz da luz da Comunidade de Israel — por isso não podemos imaginá-los em todo o seu esplendor senão no estado em que a Comunidade de Israel está em toda a sua plenitude. A fé em geral não brilha senão numa Comunidade de Israel sã, completa no seu vigor, no seu reino, no seu Templo, na sua terra, em todos os seus bens espirituais e materiais. E, conforme a queda admirável da Comunidade de Israel, não podemos exigir da fé e das mitsvot toda a sua luz, mas apenas aquela porção da centelha de luz que permanece nela até na descida mais baixa — e esse ponto recebe um brilho de coroas de luz do passado glorioso e do futuro que reluz ao longe.

Por isso, quando ansiamos por uma luz plena da alma, estando ligados à fé e a toda lei e juízo, somos forçados a subir até a fonte de onde se haure a luz plena — tanto pela nossa ligação ao passado quanto pela nossa relação com o futuro —, e assim encontramos também um encher da alma no presente. Se alguém vier dizer que encontra toda a plenitude da luz da Torá e das mitsvot a partir do estado presente sozinho, não o escutes: é sinal de que não penetrou na profundeza do que é a espera da redenção (tzipiyat yeshuá).

A educação que constrói uma nação

A educação pela qual cresce o querer poderoso por aquilo sobre que a Comunidade de Israel se edifica precisa ser uma educação cheia de luz divina no auge da sua altura, envolta num ensino de Torá, numa fé profunda em que a luz de D'us está guardada — fé que gera o amor pelo cumprimento das mitsvot e por uma vida segundo o caminho de D'us, que traz um futuro e uma esperança nacional ao todo, assim como confirma os indivíduos.

O fundamento interior da Torá é, sem dúvida, o bem supremo da justiça divina, no pensamento e no ato. Por isso o fortalecimento da Torá na nação fortalece a sua força — e "quando a voz é a voz de Yaakov, as mãos não são as mãos de Esav". E essa influência encontra o seu lugar sobretudo nas crianças da escola. Quando a educação se funda em nome do ideal divino — e não apenas para satisfazer as necessidades da vida material e os seus desejos —, então a nobreza do bem divino se intensifica na nação, e a sua força suprema revela-se sobre ela.

הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב וְהַיָּדַיִם יְדֵי עֵשָׂו "A voz é a voz de Yaakov, mas as mãos são as mãos de Esav" — quando a voz de Yaakov [o estudo e a oração] ressoa, as mãos hostis não prevalecem. Bereshit (Gênesis) 27:22, com o Midrash

O saber geral [as ciências] também imprime bem a alma comum, e essa marca é muito necessária ao aperfeiçoamento da forma do ser humano; mas a nação só se edifica quando o essencial for aquilo que aperfeiçoa a sua própria estatura — a plenitude do conhecimento naquilo que lhe toca de modo particular.

A nação revela-se nos seus detalhes

Tal como a ideia anímica do indivíduo se revela na forma do corpo, no seu feitio e nas suas feições particulares, assim a ideia geral da nação se revela justamente em todos os pormenores dos seus tesouros: na sua fé, na sua sabedoria, na sua língua, na sua terra, na sua esperança e em todos os seus costumes. E estes mesmos são os maiores fatores a dar-lhe vigor e vida — quanto mais são amados e se tornam habituais, de coração, nos caminhos da vida.

A língua, por brotar do espírito da nação, age para imprimir bem o selo da nação, pela sua força e domínio na vida e na literatura. Pois assim é a medida: os ramos, ao crescerem, fortalecem a força da sua raiz e do seu tronco, obrigando-os a agir e a verter neles vida e seiva. Daí julgamos a respeito de tudo o que recebe influxo do espírito geral da nação: quanto mais se difunde, mais firma o fundamento da nação e fortalece a sua essência — até chegarmos, com facilidade, à relação da Torá e do seu ramificar-se com Israel. Todos os pormenores dos frutos da Torá — os próximos e os distantes, os práticos e os teóricos — foram criados a partir do espírito divino da nação; e, se reconhecemos abertamente que a ação da língua, por ser haurida do espírito da nação, age sobre o próprio espírito que a gerou, para fortalecê-lo, quanto mais o fruto mais íntimo do espírito — as ideias, os raciocínios, os atos e as opiniões —, cuja estima e guarda o renascimento nacional prolonga e engrandece.

A língua santa e a visão de mundo

Toda língua brota de uma visão particular da realidade. Uma visão santa de toda a realidade é a visão de Israel — e foi essa visão particular que gerou a língua hebraica, que é, de fato, a língua sagrada. O afastamento da visão santa retira o brilho da língua; e, ainda que muitos preguem amá-la por várias razões que parecem dignas, no fundo de uma vida que dá as costas ao alvo da visão plena de santidade esconde-se um desamor pelo próprio espírito da língua, que enche toda a sua essência. Por isso a língua só será límpida na medida em que se invocar no mundo o nome de D'us.

A visão de mundo particular a Israel é o que faz da nação uma unidade no mundo, e essa visão está fincada na renovação do mundo (a criação) segundo o relato da Torá:

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ "No princípio, D'us criou os céus e a terra." Bereshit (Gênesis) 1:1

Essa visão particular é a causa de todas as mitsvot práticas, da distinção nacional e do vínculo com a Terra de Israel como terra própria da nação — para nela expandir o seu espírito sem estorvo, com o auxílio de todas as disposições impressas no ar e no clima da Terra. O escudo contra a assimilação é erguido por essa visão particular, que completa a sua ação ao tornar-se concreta na Torá e nas mitsvot, na prática — e é assim que a alma de Israel se preserva da corrosão.

Profecia, intelecto e imaginação

A superioridade do conhecimento divino que há em Israel sobre o conhecimento filosófico geral do mundo inteiro está fincada na exigência interior de acrescentar grandeza divina, exigência que a alma renova a cada instante. Essa elevação da grandeza é um conteúdo especificamente israelita.

E há quem sustente que a própria filosofia brota de Israel — o que se liga a uma segunda questão: a relação entre a profecia e o intelecto humano. Para os que entendem que profecia e intelecto estão ligados entre si, é forçoso dizer que, se o conhecimento divino e o influxo da profecia ocupam parte tão grande no valor de Israel, também o intelecto humano e os seus desenvolvimentos hão de dar fruto em Israel de forma especialmente importante. De todo modo, é certo que o bem essencial do intelecto humano — que é o alicerce da filosofia — brilha na nação, na profundeza da sua alma, na forma da revelação da Presença Divina e do influxo do espírito de santidade dos indivíduos eleitos.

O judaísmo tem a sua fonte na profecia; e a profecia vem pela harmonia completa do intelecto com a imaginação — isto é, pela elevação da imaginação até a nobreza e a pureza do intelecto, e pela união dessas duas forças no auge da perfeição. E, assim como no conjunto de Israel essas duas forças se unem pela iluminação divina que desponta sobre ambas a partir da sua fonte suprema, assim é em cada um de Israel: a sua medida judaica não se completa senão na proporção dessa união — em que essas duas forças sagradas se unem nele, na sua medida particular, haurida do conteúdo de todo o coletivo. E por isso cada um chega à medida de que "se não são profetas, são filhos de profetas".

אִם אֵינָם נְבִיאִים — בְּנֵי נְבִיאִים הֵם "Se não são profetas, são filhos de profetas." Talmud, Pessachim 66a

Eis o coração racionalista do capítulo, e é puro Rambam. A profecia não é um transe que apaga a razão: é a harmonia perfeita do intelecto com a imaginação — a imaginação elevada até a pureza do intelecto, e as duas unidas no auge. O profeta não é menos racional que o filósofo; é mais — alguém em quem a faculdade imaginativa, longe de delirar, foi disciplinada e iluminada pela mente. Por isso, para o Rav Kook, a filosofia e a profecia não se opõem: o mesmo "bem essencial do intelecto humano" que funda uma brilha, no seu grau mais alto, na outra.

Não há renascimento da nação sem renascimento da alma

Não podemos falar de um renascimento nacional geral se não falarmos do renascimento particular de cada alma em si mesma. Por isso a ressurreição das almas, nos orvalhos de uma revivescência verdadeira, é a parte mais decisiva da disposição do renascimento nacional; e essa preocupação com o renascimento da alma jaz profunda no coração dos santos que creem com inteireza, cujos pés não se apartaram do fundamento da santidade. Mas agora, quando nos chega a era do renascimento nacional em toda a sua amplitude, somos forçados a criar estados de alma que nos conduzam do renascimento anímico particular ao renascimento da nação como um todo.

E isto foi esquecido por todos os ativistas famosos do renascimento da nação — tal como o conhecimento do D'us vivo foi esquecido pela maior parte dos que se ocupam da técnica e das revivescências práticas da cultura humana. E, assim como a cultura moderna no seu conjunto padece de trevas sem medida, pela doença do esquecimento de D'us, assim também padece disso o renascimento nacional. Por isso os verdadeiros pioneiros (chalutzim) do renascimento têm de se ocupar das duas obras ao mesmo tempo: a revivescência do intelecto divino dentro da ciência prática, em todos os seus ramos, e a revivescência da alma divina dentro do renascimento nacional, em todas as suas frentes práticas.

Não há renascimento de uma nação sem o renascimento, uma a uma, de cada alma.

A alma geral habita na Terra

A alma geral da Comunidade de Israel não repousa sobre o indivíduo, mas sobre a Terra de Israel; e, logo que a pessoa chega à Terra de Israel, a sua alma particular como que se anula diante da grande luz da alma geral que entra nela. E esse conteúdo supremo realiza a sua obra quer a pessoa o queira e o reconheça, quer não o queira nem reconheça o seu valor. Há, porém, uma grande diferença: quanto mais forte for o seu querer de ser incluída na alma geral, mais esta brilhará nela com a sua luz santa; e quanto mais reconhecer o seu valor e os seus contornos, mais ela se expandirá nela e despontará sobre ela numa variedade admirável de cores de luzes sagradas, rica de matizes — para multiplicar-lhe força e alegria, grandeza e esplendor.

O grande despertar

Quanto àqueles "distantes" em quem se abriu a nascente do sentimento da alma de Israel na sua naturalidade — ainda que por ora as águas corram turvas, na exterioridade da exterioridade, e ainda escorram as águas más de que beberam os que fazem dano, e o charco verde e as doenças que nele se aninham ainda exalem o seu mau cheiro —, isto passará depressa: virão as águas claras e limpas, que saem da fonte. Depois do sentimento grosseiro e externo, virá o sentimento delicado, cheio de grandeza e de força interior.

Então Israel saltará como um cervo, erguer-se-á como um leão, levantar-se-á como uma leoa; rugirá e bramirá como o bramido do mar contra o embotamento dos seus sentidos espirituais; e ao seu D'us e ao seu bem se voltará com temor, ao buscar a sua terra e o seu reino. Ah, quão temível é esta teshuvá viva e fresca — ela despedaçará montes, quebrará rochedos, derrubará muralhas de ferro; e um retorno pleno se acenderá em toda a força esplêndida do seu trovão.

O fecho é generoso e esperançoso — e revela o coração do Rav Kook diante dos seus contemporâneos seculares. Os "distantes" cujo amor pela nação desperta, ainda que de modo "turvo" e externo, não são rejeitados: são uma nascente que apenas começou a correr. As águas vão clarear. Sob o nacionalismo ainda grosseiro, ele enxerga o primeiro tremor de uma teshuvá imensa — um retorno que não envergonha, mas levanta; que não exclui, mas abraça; e que, ao fim, "despedaça montes" para reencontrar D'us, a terra e a alma.

O Ideal Divino e o Ideal Nacional — no ser humano

Este é o primeiro capítulo de um dos ensaios mais sistemáticos do Rav Kook — "O Processo dos Ideais em Israel" (Le-Mahalach ha-Ide'ot be-Yisrael), que abre a parte "Ideais" de Orot. Diferente dos aforismos, aqui ele constrói um argumento contínuo sobre a história. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Duas ideias atravessam toda a vida humana

O estilo de vida e o estilo de pensamento do ser humano — que abarcam toda a sua essência — manifestam-se em pleno na ideia de sociedade e na ideia espiritual, que são os tesouros da forma nacional e da forma religiosa dos coletivos humanos. Quando esses estilos se tornam mais nítidos, e os seus traços característicos se completam no espírito artístico da história, encontramos as duas ideias humanas fundamentais, que vão e voltam em todas as voltas da vida — privada e social, espiritual e prática: a ideia nacional e a ideia divina. A primeira como o estilo da vida ordenada da sociedade; a segunda como o estilo do pensamento da ideia espiritual.

E, se quisermos ser mais precisos e definir as fronteiras, no modo mais comum em que elas se dispõem lado a lado, diremos: o sentimento nacional e a visão divina. Às vezes, na possível alternância dos estados, encontramo-las também "o de baixo em cima e o de cima embaixo" — como uma visão nacional e um sentimento divino. As subidas e descidas particulares que essa alternância exige são, elas mesmas, causas próprias — e, por vezes, resultados fiéis — de correntes poderosas de vida, na realidade e na ação, cujo começo se reconhece sobretudo na vida da sociedade como um todo, e cuja influência flui até as camadas mais íntimas da vida do indivíduo.

A preparação para a ideia divina

A preparação para a ideia divina encontra-se, de algum modo — aberto ou oculto, reto ou distorcido —, em todos os corações da humanidade, em todas as suas divisões, famílias e nações. Ela gera religiões, e variados sentimentos de fé, ordens e leis, que por sua vez causam uma multidão de grandes feitos, com força firme, na vida das nações e dos homens, nas ordens da sociedade e nos rumos da política — tecendo, em segredo e à vista, obras imensas e insondáveis no espírito humano e na própria feição da sua vida. Estes são os degraus do movimento rumo ao aperfeiçoamento da ideia divina e ao seu esclarecimento, e ao voo da sua elevação à vida plena, na seiva da sua origem, no presente e na eternidade.

Repare na amplitude generosa do olhar. A "preparação para a ideia divina" não é privilégio de um povo: está "em todos os corações da humanidade", e é dela que brotam todas as religiões e culturas. Rav Kook lê a história inteira — não só a de Israel — como uma única ascensão, lenta e tortuosa, em direção ao mesmo Divino. As diferenças entre os povos são degraus de uma mesma escada.

Como nascem as nações

No seu ir e vir — de cima para baixo e de baixo para cima —, essa preparação gerou diversas estruturas nacionais, ajustadas ao seu estado, em cada coletivo humano e em cada situação geográfica, conforme o seu valor. Sempre encontrou alguns instrumentos materiais, que já bastavam para formar ao menos uma matéria frouxa para uma ordem popular; e, pela sua influência superior, foi soprada uma alma de vida nesse golem. A vontade, a energia, a arte, a imaginação e o intelecto, as necessidades da vida e todas as inclinações do espírito — uniram-se e tornaram-se espírito e corpo. E surgiram coletivos sociais e nacionais nos quais, ao olharmos com olho atento, vemos que todas as forças que moldam a sua existência são uma mistura da aptidão interior que funde a ideia divina com a inclinação coletiva da forma nacional.

É certo que, depois de a forma nacional descer a herdar uma terra, expandir-se e fortalecer-se, e adquirir um ser completo e uma feição própria, às vezes ela tenta a sua força para romper com a raiz da sua ligação fundamental — com o conteúdo da ideia divina. Mas não está ao alcance da história humana mostrar que essa tentativa chegue a êxito; e vemos que a disposição divina suprema no homem, mesmo no auge da sua baixeza e na forma do ponto mais ínfimo e baço — mesmo então ela está apenas "desfalecida, anulada, mas não morta nem extinta" — e é ela que dá a força mais íntima a todos os impulsos da vida.

Quando a nação se corta da fonte

E há momentos em que a vida prática já se aperfeiçoou no seu ser — as disposições sociais, morais e materiais, todas atadas num laço firme e ordenado — e a luz divina, refletida para o lugar onde a sociedade está, é ali fraca, pela própria distância; de modo que a sociedade bem-ordenada, com os seus largos instrumentos e as suas muitas necessidades culturais, só acharia treva e confusão se quisesse caminhar por essa luz mortiça. Então a nacionalidade volta-se para trás e quer entrincheirar-se na sua ideia particular, e recusa-se a voltar-se ainda para a fonte do seu ser fundamental, que é a ideia divina.

Mas aqui ela é a primeira a encontrar o estado da velhice e da fraqueza: a força mecânica ainda servirá, por algum tempo, para empurrar a máquina coletiva, mas a seiva da vida irá enfraquecendo e minguando. Perdido o valor da elevação espiritual, o coletivo perde, por si, a sua feição. As necessidades do indivíduo e as suas exigências particulares erguerão a cabeça acima da medida harmônica, e os seus limites irão alargando-se — até a teimosia do coração, e com ela o desespero e o tédio da vida e da realidade, e a inversão de toda a ordem das ideias:

אֵין אֱמֶת וְאֵין חֶסֶד וְאֵין דַּעַת אֱלֹהִים בָּאָרֶץ "Não há verdade, nem bondade, nem conhecimento de D'us na terra." Hoshea (Oseias) 4:1

Só da fonte da vida pode brotar a vida

A sociedade nacional, ao entrar nesse desfiladeiro estreito — onde imagina que precisa abster-se da fonte do primeiro brotar da sua vida —, começará a sentir as suas dores em breve. O materialismo encontrará então, para a sociedade que sufoca sob o peso de uma vida sem propósito, sabor nem conteúdo, modos de lhe apressar uma falsa "cura", por métodos vários — métodos de confusão, fundados em bases podres de riqueza perecível e de uma subsistência baixa, sem força nem esplendor; estímulos materiais de prazeres grosseiros que vão degenerando, nos quais não há sossego nem o desejo de um coração puro. Todos eles cingirão a sua força que resta para alimentar o coração e o cérebro — os centros vitais dos indivíduos — esforçando-se por erguer, desses fragmentos, algum alicerce técnico também para a vida da sociedade e da humanidade.

Mas em vão: nada conseguirão no seu esforço. A morte negra, silenciosa e fria, não pode dar vida. Só da fonte da vida a vida pode jorrar e brotar.

הוֹי אֹמֵר לָעֵץ הָקִיצָה, עוּרִי לְאֶבֶן דּוּמָם; הוּא יוֹרֶה? הִנֵּה הוּא תָּפוּשׂ זָהָב וָכֶסֶף, וְכָל רוּחַ אֵין בְּקִרְבּוֹ "Ai daquele que diz ao madeiro: 'Desperta!', e à pedra muda: 'Levanta-te!' Pode isso ensinar? Eis que está coberto de ouro e prata, mas não há sopro algum dentro dele." Chavakuk (Habacuque) 2:19
A morte fria não dá vida; só da fonte da vida a vida pode jorrar.

Eis o diagnóstico central, e ele é universal — vale para qualquer povo, e o Rav Kook escreve-o, antes de tudo, como advertência. Uma nação que prospera materialmente pode julgar que já não precisa da sua alma espiritual e tentar viver só da "força mecânica". Por um tempo, a máquina anda. Mas a seiva seca: vêm o individualismo sem freio, o tédio, o desespero — "não há verdade, nem bondade, nem conhecimento de D'us na terra". Um povo, como uma árvore, não vive cortado da raiz. É a mesma lei que rege o indivíduo e a civilização: a vida só vem da fonte da vida.

O Ideal Divino e o Ideal Nacional — em Israel

Este é o segundo capítulo do ensaio "O Processo dos Ideais em Israel" (Le-Mahalach ha-Ide'ot be-Yisrael). No capítulo anterior, o Rav Kook mostrou como, em qualquer povo, a ideia nacional e a ideia divina convivem — e como a nação que se corta da fonte divina definha. Agora chega ao caso único: Israel, onde as duas ideias se tornam uma só. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Quando a ideia divina encontrou a sua forma

A partir da preparação para a ideia divina — daquela inclinação imensa do espírito humano, no seu todo, a fundar-se sobre esse alicerce e a encontrar ali o seu refúgio e a base do seu sustento, da atração interior pela luz e pelo repouso, pela elevação e pelo silêncio que há na ideia divina —, o espírito humano anda às voltas, buscando o seu alvo por caminhos diversos, em visões que se opõem umas às outras, num emaranhado de névoas de treva com centelhas de claridade — até que veio a expressão viva da ideia divina, vestida no estilo nacional, no auge da altura e da harmonia, em Israel.

Um povo para o bem de toda a humanidade

No início da plantação deste povo — que soube invocar o nome da ideia divina, clara e pura, no tempo do domínio poderoso da idolatria, na sua impureza e selvageria —, revelou-se a aspiração de erguer um grande coletivo humano que "guardasse o caminho do Senhor, praticando a justiça e o direito":

לִשְׁמֹר דֶּרֶךְ ד' לַעֲשׂוֹת צְדָקָה וּמִשְׁפָּט "para que guardem o caminho do Senhor, praticando a justiça e o direito." Bereshit (Gênesis) 18:19

Esta é a aspiração que veio do reconhecimento claro e forte, e da exigência moral universal e elevada: tirar a humanidade de debaixo do fardo terrível de aflições espirituais e materiais, e conduzi-la a uma vida de liberdade cheia de esplendor e de deleite, à luz da ideia divina — e assim fazer prosperar todo o ser humano. Para o cumprimento dessa aspiração é preciso, justamente, que esse coletivo seja dotado de um Estado político e social e de um trono de reino nacional, no auge da cultura humana — "um povo sábio e entendido, uma grande nação" —, e que a ideia divina absoluta reine ali e dê vida ao povo e à terra com a luz da sua vida. Para que se saiba que não apenas indivíduos sábios e notáveis, pios, ascetas e homens santos vivem à luz da ideia divina, mas também nações inteiras — bem-ordenadas e aperfeiçoadas em todas as conquistas da cultura e da vida pública —, nações inteiras que incluem em si todas as variadas camadas humanas: do alto da inteligência artística, contemplativa, culta e santa, até as largas estruturas sociais, políticas e econômicas, e até o trabalhador mais simples, em todas as suas divisões, mesmo o mais humilde.

Aqui o Rav Kook desfaz, de uma vez, a leitura egoísta da eleição. Israel não é escolhido contra a humanidade, mas para ela: a aspiração que o funda é "tirar a humanidade do fardo das aflições" e "fazer prosperar todo o ser humano". E há um lance ousado: o ideal divino não se contenta com santos isolados — quer mostrar que uma nação inteira, com Estado, economia e cultura, e abrangendo todas as classes, pode viver à luz do Divino. A santidade não é fuga do mundo público; é a sua transformação.

A luz que age sobre o mundo inteiro

A luz da ideia divina, que sobe e se refina dentro de um povo assim e nele imprime a sua vida nacional plena, age depois sobre o mundo inteiro — também reunindo todas as forças particulares que há em cada povo e em cada língua, onde quer que estejam, que sempre estiveram iluminadas por essa luz e viveram nela. E essa ação trará o reconhecimento seguro de que a vida política — e mesmo a vida social, no sentido mais amplo — só recebe a sua robustez e o seu valor verdadeiro quando se nutre do orvalho supremo da vida da ideia divina absoluta, que torna apta toda a realidade — no seu sentido amplo, que se eleva mesmo para além das fronteiras do nosso conhecimento limitado e das suas formas, rumo ao auge da sua elevação, que cresce sem cessar, numa herança sem confins.

A nação selada pela ideia divina

A ideia divina preparou Israel para isto — com uma disposição anímica, um vínculo de estirpe, uma situação geográfica —, tudo a auxiliar e a dispor as suas próprias forças e as condições que o cercam por fora. E a Comunidade de Israel, no seu estado elevado e sublime, nos dias de outrora, nos dias do seu florescer e do início da sua grandeza — nos dias da "benevolência da sua juventude e do amor dos seus desposórios" — alcançou, com a sua alma resplandecente, num grande voo, a fonte da luz suprema. Enraizou a sua disposição nacional nas profundezas da ideia divina límpida, com toda a chama do fogo do seu amor poderoso e todo o esplendor do trovão da sua força; e, com os relâmpagos do seu fulgor, selou para si o selo da sua nacionalidade.

זָכַרְתִּי לָךְ חֶסֶד נְעוּרַיִךְ, אַהֲבַת כְּלוּלֹתָיִךְ "Lembrei-me, em teu favor, da benevolência da tua juventude, do amor dos teus desposórios." Yirmiahu (Jeremias) 2:2

E no tesouro da sua ideia nacional foi guardada e semeada a ideia divina — na máxima aptidão para o aperfeiçoamento supremo e completo, que ilumina o mundo inteiro com a sua glória.

Em Israel, a ideia divina não paira acima da nação — está semeada no seu próprio coração.

Mesmo nas quedas, o selo não se apaga

É verdade que, depois de a disposição nacional já ter saído ao mundo e se ter encarnado num ser concreto, ela adquiriu também, em "Israel, o antigo", um direito de existência por lados vários e dispersos. E, à medida que se afundava no esconderijo da força divina, para caminhar pelas terras de baixo, tomou para si caminhos mundanos como esses, que se ramificam das circunstâncias enredadas da vida profana — as quais abarcam todas as exigências da matéria e do espírito do homem, e do animal que há nele, ao mesmo tempo. Mas, mesmo em todas as suas quedas, o selo da sua fonte não se apagou da disposição nacional; e para sempre subsiste a sua amamentação, no segredo da interioridade do seu ser, a partir do canal supremo da ideia divina.

Eis a tese que distingue Israel, na leitura do Rav Kook — e note-se que ela é dita sem desprezo pelos outros povos, cujo valor o capítulo anterior afirmou. A diferença não é de mérito, mas de estrutura: nos demais povos a ideia divina e a forma nacional ficam lado a lado, e podem separar-se; em Israel, a ideia divina foi "semeada" dentro da própria ideia nacional. Por isso — e esta é a consequência mais consoladora — mesmo nas quedas mais fundas o vínculo nunca se rompe: o "selo da fonte" permanece, e a nação continua a mamar, em segredo, do canal divino. Israel pode adoecer; cortar-se de vez da sua alma, não pode.

A Dissolução dos Ideais

Este é o terceiro capítulo do ensaio "O Processo dos Ideais em Israel". Tendo mostrado como, em Israel, o ideal divino e o ideal nacional se fundem, o Rav Kook narra agora a sua queda — como os dois se separaram, ao longo da história, e o que sobrou dessa ruptura. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Quando os dois luzeiros usavam uma só coroa

Houve um tempo em que esses dois luzeiros "se serviam de uma só coroa" em Israel, e a ideia nacional estava em pé de igualdade — em toda a sua estatura e na ramificação das suas forças — com a ideia divina, que dá vida a tudo e refina todas as correntes da vida. Mas a acusação da disposição prática e sombria, ao deparar-se com os obstáculos dos caminhos escuros e com a podridão da vida profana — individual e pública —, e aquele estado elevado e sublime preparou força bastante, suficiente até para os dias da descida: os dias em que a ideia nacional, depois de sair da câmara da sua conceção — a fonte da ideia divina —, começou a descer, "como ave que vagueia longe do ninho", ao arranjo prático, espesso e grosseiro. O ar do mundo, tão cheio da imundície da animalidade e da selvageria da idolatria [da Antiguidade], quase sufocou o espírito de vida da aspiração divina ligada ao estilo público da forma nacional, e a Presença Divina da nação desceu humilhada. Na exata medida em que se afastou da influência direta da luz divina suprema, assim a nação perdeu a iluminação da sua própria força interior.

A idade de ouro

É verdade que, depois de recolhida a iluminação suprema da geração do deserto — a geração dos prodígios —, surgiram para ela redentores e salvadores, que a ajudaram um pouco e a ampararam na sua queda. E, por vezes, apareceram heróis de D'us que quase a ergueram com firmeza e a ligaram de novo ao feixe da sua vida, no auge da luz da ideia divina. Jamais se apagará da sua memória aquela idade de ouro do florescer dos dias de Salomão, na construção do Primeiro Templo, no esplendor da sua glória e no vigor de vida que nele se revelou — na expressão da riqueza da ideia divina e da nacional, entrelaçadas em acordo harmônico, "e a lua estava em sua plenitude". Então, naquele período — curto em quantidade e longo em qualidade —, a ideia nacional respirou um sopro de vida plena, segundo a sua própria natureza, e mamou o brilho da sua glória da ideia divina pura.

כָּל הַכְּתוּבִים קֹדֶשׁ, וְשִׁיר הַשִּׁירִים קֹדֶשׁ קָדָשִׁים "Todos os Escritos são santos, e o Cântico dos Cânticos é o santo dos santos" — disseram que o mundo inteiro não valeu tanto quanto o dia em que ele foi dado a Israel. Mishná, Yadayim 3:5

As espinhas em volta da rosa

Mas só o espírito nacional, na sua relação geral, se elevou à sua altura plena naqueles bons dias da ascensão histórica, e relacionou a sua fonte de vida com a aparição da ideia divina. A moral individual ainda não se purificara o bastante para alcançar essa medida, e o plano de vida dos indivíduos também não conseguia ajustar-se a essa harmonia suprema. Com isso, ergueram-se "os cardos e os espinhos que cercam a rosa suprema". Os reinos do ídolo, com todos os encantos da cultura idólatra, levantaram-se e atiçaram a treva; e, no ardor do fortalecimento da vida, as paixões grosseiras sacudiram-se e os maus traços despertaram. Como muralha de ferro e nuvens pesadas, tudo isso se ergueu contra o raiar da luz divina suprema, que já penetrara com os seus raios no mais íntimo da alma nacional. E em pouco tempo quase se apagou a luz reluzente da ideia nacional, na sua relação com a influência aberta e poderosa da ideia divina. Desde então começou a oscilar aquele trono firme que fora posto no alto — o trono do Senhor para a casa de David. A ideia nacional começou a separar-se da sua forte amamentação nos seios da ideia divina.

A vinha vazia

É verdade que a humanidade, em geral, ainda não separara então de modo absoluto o ramo nacional da sua raiz natural, e as disposições nacionais, com as inclinações divinas, conviviam misturadas em muitos povos. Mas qual era o valor dessa inclinação, para a humanidade na largura das suas camadas? Uma inclinação turva e selvagem [a do mundo pagão antigo], cheia de maldade, de loucura e de baixeza material, que apenas uma centelha tênue e imperceptível de luz mantinha viva sob as muitas ondas de imundície que a cobriam. E a Comunidade de Israel está ligada, por veias conhecidas, ao corpo humano geral, e sofre as suas dores — enquanto não se erguer a pavimentar a sua estrada divina própria, pela qual estaria ligada ao corpo geral num laço de influência espiritual para o bem, e não de receber também o mal.

E, ao desviar-se Israel do caminho da sua vida original, já não teve força para manter-se de pé num nacionalismo seco, separado da fonte da inclinação divina — um estado de vida que se opõe ao curso histórico geral. Aquela luz fraca que satisfazia a alma infantil dos povos da época — cuja exigência natural de luz espiritual era tênue, e a quem aquele alimento espiritual escasso bastava para os seus dias curtos — não podia, porém, saciar a necessidade espiritual desta grande e robusta nação, cuja força de vida é uma força gigantesca, e cuja alma já se alargara com a influência radiante de uma luz divina poderosa, que sobre ela brilhara em abundância nos dias da sua juventude. Por isso desceu então uma descida terrível: a fonte da ideia divina secou nela; o manancial da moral cessou de jorrar; o esplendor da nobreza escureceu, e a ideia nacional deixou de dar o seu fruto. E Israel tornou-se "uma vinha vazia".

גֶּפֶן בּוֹקֵק יִשְׂרָאֵל "Israel é uma vinha devastada [que se esvaziou do seu fruto]." Hoshea (Oseias) 10:1

"Ela não é minha esposa"

Os pecados dos nossos pais baixaram tanto a Comunidade de Israel do alto da sua força e santidade — o pecado da comunidade cresceu tanto, a ideia nacional distanciou-se tão extremamente da ideia divina, e a enxurrada das corrupções subiu até o pescoço — que nenhum olho de carne podia já reconhecer o vestígio que restara da influência da ideia divina sobre a disposição nacional, agora desvairada e empobrecida. Esse desespero amargo gerou, no coração de um profeta, o pensamento terrível e pungente de "passá-los para outra nação"; foi então que se exprimiu, em toda a sua amargura, a repreensão pavorosa, mais funda do que o abismo: "Contendei com a vossa mãe, contendei — pois ela não é a minha esposa, e eu não sou o seu marido!" (Hoshea 2:4).

A última centelha não se apaga

Mas nas profundezas — no lugar onde não alcança o olho, nem mesmo o de todo profeta e vidente — ali reina, sem se apagar por tudo isto, aquela última centelha divina, que arde no fundo da alma da nação. O fim tem de vir, e a disposição divina interior despertará do seu longo sono, depois de esgotada a força artificial das inclinações nascidas dos impulsos externos — que são não-naturais a Israel.

וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי לְעוֹלָם, וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי בְּצֶדֶק וּבְמִשְׁפָּט וּבְחֶסֶד וּבְרַחֲמִים; וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי בֶּאֱמוּנָה, וְיָדַעַתְּ אֶת ד' "E desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça e em juízo, em benevolência e em misericórdia; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás o Senhor." Hoshea (Oseias) 2:21–22
No fundo da alma, a última centelha divina nunca se apaga.

O capítulo é uma teologia da história, e o seu fio condutor é constante: o que dá vida a Israel não é a força nacional em si, mas a sua união com a ideia divina. Separados, os dois ideais murcham — e a história da queda é a história dessa separação, da idade de ouro de Salomão à "vinha vazia". Mas o Rav Kook recusa o desespero: por mais funda que seja a queda, "a última centelha" arde num lugar que nenhum olho alcança — nem o do próprio profeta. A queda é real; a morte, não. O capítulo termina, por isso, no verso do reatamento: "desposar-te-ei comigo para sempre".

A Situação no Exílio

Este é o quarto capítulo do ensaio "O Processo dos Ideais em Israel". Depois de narrar a dissolução — a separação entre o ideal divino e o nacional —, o Rav Kook chega ao exílio: o que aconteceu aos dois ideais quando a nação perdeu a sua terra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Por que veio o exílio

Quando o espírito de D'us se afastou da nação — por ela ter separado a sua disposição nacional da fonte da sua vida —, foi contraída a obrigação do exílio. A vida pública, corrompida até o alicerce, teve de ser esmagada, junto com a sua feição concreta e com as raízes más que ela plantara no coração dos seus indivíduos, que encontravam os seus instrumentos de destruição já prontos diante de si nas suas instituições. O exílio — a destruição interior e a dispersão exterior — fez em pedaços e destruiu até o alicerce a ideia nacional arruinada, que se afastara do seu D'us, e que, ao ser arrancada da raiz da sua vida, se contaminou e corrompeu com o espírito de impureza da cultura idólatra e de todas as suas feitiçarias. O orgulho de Israel e a sua glória caíram do céu à terra.

Os dois ideais não se separam de todo

Mas a ideia divina e a ideia nacional, a de Israel, são de tal modo afins uma à outra que em cada uma jaz, sempre, também a força-raiz da outra. A ideia nacional, de toda forma, carrega no seu mais íntimo a ideia divina; e esta não pode ser apagada da sua influência sobre aquela nação que é o seu lugar de repouso na largura da história. Por isso ela mantém viva, de alguma forma, também o sentimento nacional — mesmo no estado mais decaído e baço.

O pequeno santuário

Não havendo lugar para a influência da ideia divina sobre a nacional — depois de a maioria das forças desta se terem contaminado e transformado nos "ramos selvagens de uma vinha estranha", e depois também destruídas até o alicerce —, a ideia divina recolheu-se, por todos os dias do exílio, no ninho pequeno e pobre, no pequeno santuário das sinagogas e das casas de estudo, na vida pura do lar e da família, nas marcas da guarda da religião e da Torá.

וָאֱהִי לָהֶם לְמִקְדָּשׁ מְעַט בָּאֲרָצוֹת אֲשֶׁר בָּאוּ שָׁם "E eu lhes servirei de pequeno santuário nas terras para onde foram." Yechezkel (Ezequiel) 11:16

O valor de tudo isto é o de sinais no exílio — restos de algo que foi vivo e inteiro, e que de novo viverá em plenitude quando o Senhor fizer voltar o cativeiro do seu povo. Por certo era impossível, numa nação quebrada e despedaçada, num povo disperso e entregue ao saque e ao escárnio, [haver] aquela poderosa exaltação da visão da união dos dois ideais afins, como na sua força e glória nos dias antigos. Mas a ideia divina, pela sua sublimidade, pela força da luz de vida que há nela — é justamente ela que pode devolver um espírito de vida até a ossos secos; e só ela teve força para guardar o "ponto interior de Sião", o fundamento da Comunidade de Israel — mesmo no que toca à disposição nacional que há nela —, para que esta fosse digna de ressurgir para a vida quando viesse o tempo devido do fim.

A dor do exílio

E quão dolorida e esmaecida está agora a ideia nacional de Israel — cuja inteira exaltação e luz, glória e força, só se revelam na aparição plena da ideia divina no seu interior! Eis que ela parou e desfaleceu por completo, de uma baixeza servil, desprezada e rejeitada, sem o sopro de vida, sem ar para respirar e sem alimento para a sua existência. Os indivíduos dispersos deixaram de viver a vida de um povo, e a vida nacional — com todos os seus sentimentos fortes e poderosos, cheios de esplendor e orgulho — foi esquecida como um morto, do coração. E apenas a quintessência desses sentimentos — a que pende para a moral, para a elevação do espírito e para a ordem da vida social — foi absorvida pelo lado interior e oculto da ideia nacional, que está engolido na própria ideia divina, com a luz divina na medida reduzida que restou, no "pequeno santuário" de uma vida que tem em si o cumprimento das mitsvot e o estudo da Torá — com orgulho do passado e consolo para o futuro, na espera da salvação.

Só os puros de alma medem a profundeza desta dor e deste pesar — a tristeza universal, abrangente e penetrante, que entra nos mínimos detalhes da vida infeliz, e que vem da separação entre os que se apegam [a D'us] e do minguar dos luzeiros.

A missão de Israel entre as nações

Contudo, a ideia divina, não tendo lugar firme na expansão da ideia nacional de Israel — depois do exílio do povo e da destruição do Templo —, ergueu-se, ao longo do exílio, acima das fronteiras de toda nação particular, às alturas da aspiração moral à justiça, do saber teórico e do intelecto puro, da sabedoria nobre e abstrata. E de lá envia alguns raios de luz, cuja maior parte, em qualidade, penetra nas tendas de Yaakov pela luz dos restos antigos — pela herança que sobrou da Torá e pelos resquícios da influência da profecia e do espírito de santidade —; e espalha luzes dispersas, aqui e ali, entre remanescentes solitários que buscam D'us, ávidos de verdade e de justiça, em todo povo e em toda língua.

Por esse caminho, ela realizou a visão da "missão de Israel" (a-te'udá ha-Yisraelit), que venceu todos os que a venceram, no seu fundamento essencial. No fim, refinou milhões de corações, para insuflar um espírito novo em nações e reinos, e dissipou muito da maldade do homem idólatra. Mas não é este o repouso [final]. A influência fraca da palavra moral debilitada e gemente — sem ter um lugar elevado e oficial na vida de um povo e de um governo — quanto vale, comparada à aparição da influência da sua ideia nacional em toda a sua grandeza? As sombras grosseiras, que trazem maldade e impureza, acompanham as luzes dispersas da ideia divina, enquanto ela vagueia entre as nações. E a fenda entre ela e a ideia nacional — que é a causa de toda a confusão no mundo social e político — não pode cicatrizar senão no lugar da sua unidade natural: em Israel, na sua revivência completa em sua terra, no retorno do reino do Todo-Poderoso à sua força.

A ideia divina venceu todos os que a venceram — refinando milhões de corações.

Eis a leitura surpreendente e generosa que o Rav Kook faz do exílio. Longe de ser só catástrofe, ele teve um fruto universal: separada da sua forma nacional, a ideia divina de Israel "ergueu-se acima de toda nação" e tornou-se moral, justiça e sabedoria que penetraram "em todo povo e em toda língua", refinando "milhões de corações" e dissipando a idolatria. A dispersão foi também uma missão — Israel "venceu todos os que o venceram", não pela espada, mas espalhando a luz. E, no entanto, isto "não é o repouso final": uma palavra moral sem corpo, sem um povo que a viva por inteiro, fica fraca e acompanhada de sombras. A cura da "fenda" entre o divino e o nacional — raiz, para ele, da desordem do mundo — só se completa quando os dois voltam a unir-se na vida plena de um povo. Universalismo e renascimento nacional, na sua visão, são a mesma esperança.

O Primeiro e o Segundo Templo: a ideia divina e a "ideia religiosa"

Este é o quinto e penúltimo capítulo do ensaio "O Processo dos Ideais em Israel" — e o mais denso. O Rav Kook explica por que, depois da queda, surgiu a "ideia religiosa" (a dimensão particular da fé), o que ela deu a Israel, e por que uma religiosidade separada da sua raiz pode adoecer. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Nota de contexto. Algumas passagens deste capítulo criticam, com a linguagem vívida do seu tempo, certas formas de religião — uma "religiosidade" separada da fusão viva entre o ideal divino e o nacional, ou voltada para a negação do mundo. Trata-se de uma crítica filosófica a estruturas e tendências (à religião reduzida a categoria oca, ou ao impulso de negar a vida), e não a este ou àquele povo ou tradição de fé. Traduzimos com sobriedade, preservando o argumento — uma fé desligada da sua raiz divino-nacional perde a força e pode tornar-se negadora da vida — e afirmando o respeito por todas as tradições. A tese positiva do Rav Kook é, do começo ao fim, a afirmação da vida.

O Primeiro e o Segundo Templo

Porque a alma particular dos indivíduos ainda não estava preparada para receber toda a força e o fulgor da luz da ideia divina em si mesma — e, por ela, ajustar a sua vida ao valor e à perfeição do todo —, foi forçoso que se quebrasse aquele estado sublime da nação, que começara a erguer-se nos dias do Primeiro Templo. O Segundo Templo não foi preparado para restaurar aquela robustez plena da nação: não foi uma força coletiva israelita que sobre ele despontou, mas a força de indivíduos — "os que se separaram da impureza dos povos da terra" —, pelos quais D'us deu a Israel uma lâmpada para subsistir até o fim dos dias. A força coletiva poderosa ainda não fora purificada e lavada das muitas corrupções e de toda a imundície que absorvera quando o povo corrompera o seu caminho nos dias de bonança. Foi então que a influência divina individual, particular, achou abrigo na nação e na terra.

Toda aquela particularidade — a prática, da guarda da Torá e das mitsvot e dos seus detalhes; e a teórica, das opiniões e crenças sobre "o feixe da vida eterna" pessoal e a "recompensa" dos indivíduos — que antes existira na vida a partir da ideia divina enquanto alma da nação inteira, e estava contida no seu tesouro supremo sem se destacar diante da sua grande luz geral (como uma vela diante de uma tocha), começou agora, ao recolher-se aquela grande luz nos dias do Segundo Templo, a fixar-se e a destacar-se no seu caráter próprio. Surgiu então, em lugar da ideia divina na sua plena elevação — e por força do recolhimento desta —, a sua descendente: a ideia religiosa, em toda a sua feição. Ela serve e veste a primeira, e jamais deve renegar a raiz da sua alma, que é a ideia divina própria de Israel. A moral pessoal, o cuidado com a vida eterna individual, a precisão de cada ato isolado ligado ao espírito geral — tudo isso se firmou bem sobre essa aparição divina reduzida, voltada ao lado particular: a ideia religiosa. A sua posição firme na nação deu-lhe grande força e preparou-lhe um vasto sustento, que ela pôde levar consigo também nos dias do seu exílio. E preparou-lhe ainda o caminho para que pudesse chegar, gradualmente, à meta suprema — que a ideia divina voltasse a despontar nela em toda a força do seu vigor, depois de o povo se preparar para a sua aspiração clara, como nos dias de outrora.

A ideia divina vai do todo ao detalhe

A ideia divina, enquanto alma da nação, vai do todo ao particular num percurso de luz direta. O fundamento da sua revelação é o todo; e da riqueza da abundante luz divina que flui dentro do todo enche-se o indivíduo, que está ligado ao todo e é parte dele, num enchimento pleno. Esta nação, que caminha "sobre as alturas", não precisa falar da "recompensa" dos seus indivíduos, cujo fundamento de vida só é pleno na medida em que sentem que se realizam por inteiro na vida do todo. A grande palavra geral — "e andarei no meio de vós, e serei o vosso D'us, e vós sereis o meu povo" —, que dá a cada alma mais força e vigor do que qualquer verdade adquirida por vias de raciocínio, é o fundamento de tudo.

וְהִתְהַלַּכְתִּי בְּתוֹכְכֶם וְהָיִיתִי לָכֶם לֵאלֹהִים, וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי לְעָם "E andarei no meio de vós, e serei o vosso D'us, e vós sereis o meu povo." Vayikrá (Levítico) 26:12

Quando essa alma divina suprema dá vida à nação, ela eleva-se, na sua grandeza, acima de todas as fronteiras e distinções particulares. Nenhuma ideia chega então a tratar da diferença entre a vida deste mundo e a do mundo vindouro — porque no fundo de cada alma está gravado o saber de que a luz divina não tem limites nem barreiras, de que a vida divina não cessa jamais e está tanto neste mundo como no vindouro. Tão forte e doce é a confiança interior, que o pensamento geral, vivo em toda a sua força, nem se volta para falar de tais distinções, que pertencem já à "pequenez" do cuidado individual. Pois a luz divina que atravessa o tesouro do todo bate as suas ondas com grande vigor, sem precisar de qualquer conta de "o meu e o teu". E aquele vigor divino que repousa sobre a nação inteira — manifesto no preenchimento da sua força em todos os sentimentos do seu coração, nas suas tendências políticas, na sua soberania interior e na sua expansão geográfica — eleva-se por si à essência da moral interior muito mais do que qualquer visão particular e nebulosa da vida do indivíduo após a morte do corpo.

A treva que alargou o pensamento

Mas foi a treva da noite que alargou o círculo do pensamento humano, ao lançar o olhar aos céus, às vastidões infinitas e aos seus mundos. E foi a treva da destruição do Primeiro Templo — e o recolhimento da Presença suprema, da ideia divina, de se revelar no presente, no tesouro de vida da nação — que alargou o horizonte do pensamento da nação, refinou-a no erguer dos olhos para longe, e fez destacar o que estava guardado e absorvido no fulgor da luz do todo. Os grandes e profundos saberes que rompem para além dos sentidos e dos seus limites, levando o conhecimento às distâncias — sobre as grandezas da vida do mundo vindouro, da ressurreição dos mortos e da vida eterna —, que antes eram posse de poucos eleitos, tornaram-se agora posse geral da nação; por meio deles ela respirou. Eles atraíram para ela a luz divina num sentido amplo e poderoso, que abraça os mundos eternos e dá vida aos pensamentos elevados, para os quais a praça estreita dos limites dos sentidos já não bastava.

Eis um dos lances mais belos do capítulo: a catástrofe que aprofunda. Rav Kook lê a queda não só como perda, mas como o que alargou a alma de Israel. Enquanto a luz coletiva brilhava, plena e presente, a nação não precisava olhar para o "longe" — vivia no agora pleno do "andarei no meio de vós". Foi a treva — a destruição, o recolhimento da Presença — que ergueu o olhar para os horizontes do mundo vindouro e da eternidade, e tornou de todos o que antes era de poucos. A noite, aqui, é a mãe de uma visão mais vasta.

Quando o detalhe abriu uma porta ao mundo

E, uma vez que a particularidade ergueu a cabeça, e os sentimentos do cuidado espiritual individual se fizeram ouvir a partir da influência distante da ideia divina, logo também o mundo exterior achou onde se firmar na espiritualidade da luz de Israel — na moral da Torá e no sentimento elevado da fé em D'us que há nela. O que a alma secular do mundo não pôde fazer com a ideia divina enquanto esta estava em toda a sua força, julgou poder fazer com a ideia religiosa. Pois para esta já não é preciso uma nação inteira vivendo na luz da ideia divina, mas apenas um coração que deseje a vida eterna e tenha uma inclinação moral — e isso pode encontrar-se em qualquer parte do mundo.

Daí começou aquele enxerto estranho, que não pode dar bom fruto: porções particulares da luz divina do judaísmo, em forma esmaecida e apartada da sua fonte, combinadas com o fundamento da ideia pagã e com toda a sua escória — tanto do lado dos que a transmitiram, arrancados da sua casa de vida, como do lado dos que a receberam, povos para cuja sensibilidade a natureza pagã estava mais próxima. Sobre isso já se disse que "uvas da videira entre uvas do espinheiro são coisa feia e inaceitável".

A doçura divina da vida

A doçura divina da vida (no'am Eloki) — que se eleva na sua superioridade e se difunde, na beleza da sua simplicidade e naturalidade, sobre a Comunidade de Israel, pela luz da ideia divina nela plantada — torna a vida boa e delicada, doce e suave no seu próprio conteúdo. Uma vida assim não entra sequer em questão: o seu alvo agradável é-lhe originário, habita nela mesma, e ela é digna não só de continuar, mas de renovar-se e multiplicar-se. Daí brotam a alegria interior de viver e a oculta inclinação a criar vida, que move a roda da existência com toda a sua beleza e a ternura do amor que nela há. E as fortes forças naturais não se agitam, no seu caminho, em protesto ou oposição moral: são todas contempladas por um saber elevado, ternura de sentimento e sossego de espírito, paz eterna e alegria de D'us.

Essa doçura divina, que acompanha cada gole da vida, capacita a olhar a vida e a realidade com bom olho e com a alegria dos justos, a reconhecer que "tudo o que D'us fez era muito bom".

וַיַּרְא אֱלֹהִים אֶת כָּל אֲשֶׁר עָשָׂה וְהִנֵּה טוֹב מְאֹד "E viu D'us tudo o que fizera, e eis que era muito bom." Bereshit (Gênesis) 1:31

Em contraste, um mundo que não tem essa doçura do D'us vivo — que provém da fonte de luz da ideia divina suprema, plantada na própria criação de Israel — não consegue assentar-se no sossego e na alegria da vida. O seu olhar encontra em toda parte apenas maldição, e enche-se de ira e de fúria cruel contra si mesmo, contra a sua própria existência, contra tudo; e acha-se em oposição de si para consigo. E quando a dor cresce, busca a sua salvação numa vida passageira, sem nenhum freio às tendências mais brutas; mas não é possível calar de todo o espírito, e a beleza espiritual do ser humano reclama o seu direito com um protesto que não dá descanso à alma — sobretudo quando amadurece a visão de mundo que avalia a vida por dentro e por fora. Por isso a negação do mundo encontra o seu refúgio numa busca de extinção, achando o seu alvo de repouso no aniquilamento absoluto. O cálice da amargura sobre a vida transborda, e todas as faculdades — intelecto e sentimento, fé e imaginação — enchem-se de um só anseio: o desejo de desaparecer e apagar-se, sem resto nem memória.

O contraste é o eixo de toda a página, e é uma das intuições mais características do Rav Kook: afirmação da vida contra negação da vida. Onde a luz divina é viva e presente, a existência é "muito boa", digna de renovar-se e multiplicar-se, e as forças naturais entram em harmonia com a moral. Onde ela falta, instala-se um mal-estar que vê maldição em tudo e, no limite, busca repouso no nada — no aniquilamento. Para o Rav Kook, a marca de uma espiritualidade saudável não é fugir do mundo, mas dizer-lhe "sim".

Quando D'us se ausenta da "religião"

Dessa estranha composição dos dois elementos de origem — o de Israel e o pagão —, causada pela separação que o rebaixamento da vida prática provocou entre a ideia nacional de Israel e a ideia divina, fonte da sua vida, veio aquela "religiosidade" hoje comum no mundo, da qual D'us se ausentou. Essa separação dos ideais em Israel causou uma falha universal: ainda hoje a humanidade, tão desenvolvida, não consegue pronunciar por inteiro o nome da ideia divina, de modo a influir por ela sobre a ideia social, na sua forma nacional. Desde então a humanidade começou a coxear "numa mentira que não tem pernas" — uma moral espiritual que se nutre da ideia religiosa, na qual a ideia nacional não só não se revela, como lhe é contrária; e as influências religiosa e nacional acabaram, por força, como que rivais uma da outra — embora a última precise sempre de mamar da seiva de vida escondida no mais fundo da primeira.

E, no lugar daqueles conceitos claros e originais — que se podiam nomear com linguagem precisa, marcando bem a linha que os distingue —, veio um conceito artificial e baço: o conceito de "religião" dos povos cultos do nosso tempo, que vem para nos confundir com os demais justamente naquilo em que nos distinguimos, "como entre o sagrado e o profano"; e segundo o qual se julga a natureza da "religião" em geral — e, nisso, também a "religião" israelita. Mas, ao serem arrancadas da sua casa de vida, as centelhas da Torá viva do judaísmo nele converteram-se em algo sombrio. E quanto mais a consciência amadurece, quanto mais passam a embriaguez dos sentimentos baços e o tédio do fanatismo grosseiro, mais o desespero e o pessimismo vêm devorar toda a sua força — e sobre os palácios da literatura e da arte tece essa aranha a sua teia, para esmagar todo espírito.

A dupla queda

O "sentimento religioso", vindo sozinho em lugar da ideia divina, baixou "dez degraus" o heroísmo ideal supremo da alma humana. Cessou a alegria interior; esvaiu-se o vigor espiritual elevado — aquele que torna os pés do homem como os do cervo, que o vence com as suas melodias e o seu canto de força —; e veio um estilo de devoção do "qual é o meu dever, e cumpri-lo-ei", numa pequena servidão cheia de aflição e fraqueza. E, a par dessa queda do heroísmo supremo da luz divina, na vida pública e na do indivíduo, também a ideia nacional desceu do baluarte da sua idealidade poderosa e encantadora, e tornou-se uma "ideia política", uma espécie de "comércio que se estende sobre muitas almas" — "o Estado é uma grande companhia de seguros". Essa dupla queda — da altura da ideia divina à disposição religiosa, e por ela, da altura do heroísmo nacional ao sistema político — tirou o brilho da vida do mundo, e a aparição de grandes almas tornou-se visão raríssima. Cessaram os heróis gigantes, e em seu lugar multiplicaram-se ativistas esmaecidos e pobres de obra, atolados na lama de ideias pequenas, em que há toda sorte de comércios materiais e espirituais.

Só Israel pode unir os dois

As tentativas feitas no tempo do fracasso do espírito foram, elas mesmas, fracassos. Pois a humanidade não criou, e não pode criar, nenhum centro nacional em que a ideia divina se revele como a aspiração interior da sua ideia nacional. Para isso só é apto este povo — que sente que este "perfume", a ideia divina, não precisa de perfume algum para perfumá-lo, e que basta por si para mover todas as rodas da sua vida geral, em todo anseio de grandeza nacional e despertar de vida. Para isso só Israel é apto, pela natureza especial da sua criação: "este povo formei para mim; eles contarão o meu louvor".

עַם זוּ יָצַרְתִּי לִי, תְּהִלָּתִי יְסַפֵּרוּ "Este povo formei para mim; eles contarão o meu louvor." Yeshayahu (Isaías) 43:21

E a tendência religiosa, que se desviou da ideia que habita dentro da nacionalidade de Israel, e que não tem outro apoio no mundo do espírito senão o auxílio moral particular que provoca, não poderá manter-se na era do amadurecimento da cultura humana. Os indivíduos capazes de receber um reconhecimento moral hão de então acrescentar exigências morais mais puras, e mais conformes à natureza da vida, do que aquela tendência religiosa pode dar com o seu cuidado particular pela vida eterna. A própria necessidade espiritual que ainda traz à tona as suas partes turvas há de, por fim, removê-las do mundo, depois de terem cumprido a sua função — quando se erguer cada vez mais alto o reconhecimento claro, a moral pura e todas as suas exigências interiores. Só então restará a questão divina em toda a força da sua pureza; e, para sempre — enquanto a divisão nacional da humanidade contribuir para o aperfeiçoamento geral —, permanecerá aquela iluminação religiosa que se haure em linha direta da luz da ideia divino-nacional, viva na fonte de Israel. Então ela se elevará à altura da sua raiz, levando consigo todo o rico haver das suas aquisições espirituais — multiplicadas, em riqueza de detalhe, justamente por aqueles dias de treva — e subirá com elas às suas alturas.

E os ídolos passarão

O capítulo encerra com a visão profética e um cântico:

וְנִשְׂגַּב ד' לְבַדּוֹ בַּיּוֹם הַהוּא, וְהָאֱלִילִים כָּלִיל יַחֲלֹף "E só o Senhor será exaltado naquele dia, e os ídolos passarão de todo." Yeshayahu (Isaías) 2:17–18

"Mudará e passará por completo / todo o reino do ídolo; / a tua força é para sempre, de geração em geração os teus consagrados."

A marca de uma fé viva não é fugir do mundo, mas dizer-lhe "sim".

A Unificação dos Ideais: o divino e o nacional reunidos no renascimento

Este é o sexto e último capítulo do ensaio "O Processo dos Ideais em Israel" — e o seu clímax. Depois de narrar a fusão dos ideais, a sua dissolução e o exílio, o Rav Kook chega ao reencontro: como, na revivência, o ideal divino e o nacional voltam a ser um. Com ele, completa-se neste sítio a tradução de todo o ensaio. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A aptidão para receber a luz

A aptidão do espírito nacional da Comunidade de Israel para sacudir-se e erguer-se à revivência depende da medida em que ele é capaz de receber a luz divina suprema, e fazê-la a sua alma de vida.

O fruto bom do exílio

Na verdade, o tempo fez a sua obra, e também a treva do exílio cumpriu o seu papel. A dispersão da Comunidade de Israel pelo mundo inclinou muito para o lado do bem o curso do mundo em geral. A abolição do centro nacional pôs fim ao pensamento equivocado de tomar o conhecimento divino supremo como posse limitada a um território geográfico particular e a um reino particular:

וְעֵינֵיכֶם תִּרְאֶינָה, וְאַתֶּם תֹּאמְרוּ: יִגְדַּל ד' מֵעַל לִגְבוּל יִשְׂרָאֵל "E os vossos olhos verão, e direis: o Senhor seja engrandecido para além das fronteiras de Israel." Malachi (Malaquias) 1:5

E esta ideia, que parece isolada, ajudou muito à clareza dos conceitos primordiais e à sua boa influência. O "adoçamento" geral do mundo, vindo da influência da força da Comunidade de Israel — ou ao menos do seu peso considerável, também (e sobretudo) na sua dispersão —, é um ramo do adoçamento da própria nação, que por sua vez volta a despertar nela o espírito de vida. Pois Israel, em todos os dias do seu exílio, conheceu a sua falta e sentiu a sua dor espiritual, na fraqueza de uma vergonha interior — e a alma geral da nação precisava de ser santificada e purificada. A fornalha de ferro desse refinamento foi o exílio, com todos os seus terrores; e agora, alongados os dias, e tendo Jerusalém "recebido da mão do Senhor o dobro por todos os seus pecados" (Yeshayahu 40:2), a nação inteira começou a sentir a sua pureza, a inocência das suas mãos — e, com isso, o seu desejo de voltar à revivência. Os seus sentimentos nacionais anseiam por regressar, e o desejo de voltar ao seu ninho, ao seu lugar e à sua terra, cresce nela cada vez mais. Ainda não conhece, porém, a sua própria alma — donde lhe veio o espírito, e qual o seu valor —; e, no segredo do coração, busca o seu amado, ansiando pela luz divina que se revele sobre ela em todo o esplendor da sua majestade, como nos dias de outrora.

As ondas que se reencontram

Agora elas batem como ondas — as ideias divina e nacional — rumo ao curso da sua unificação natural e clara, na revivência da nação ao voltar ao seu baluarte. A iluminação dos dois Templos, o Primeiro e o Segundo, vem agora, ambas juntas, ao encontro do retorno à Terra de Israel. Não só a luz divina na forma que tomou entre outros povos; nem só a ideia religiosa, com o caráter que recebeu no exílio, longe da fonte da sua vida; nem só a ideia nacional, isolada — mas todas elas juntas nos preparamos agora para receber. A bandeira de paz dessas ideias — que, na nossa grande destruição, se revelam cada uma numa forma isolada, em facções diferentes — terá de ser, por fim, erguida; e na terra da revivência os poderes e os seus portadores se encontrarão, e cada um achará no seu contrário a complementação da falha da sua alma. Do período antigo brilhará nela a força e a potência divina; do período mais recente, o assentamento particular e a elaboração do estilo detalhado; e a própria vida, vinda ao lugar onde cresce, acrescentará ainda novas e crescentes aquisições.

Virão com pranto — e logo o canto

"Virão com pranto" (Yirmiahu 31:8): uma sombria mágoa ainda enche o coração dos que voltam do exílio à herança eterna — aquela mágoa que a interrupção do exílio causou, entre a plena influência divina suprema com a força da sua vida nacional, e a influência religiosa, no tempo do terrível afastamento de qualquer base firme para a luz eterna de toda a nação. Mas, assim que alguma centelha de redenção começa no espírito — quando a luz da ideia divino-nacional (exigida por lei até pela natureza particular da alma de Israel) encontra a sua revelação através de todas as correntes religiosas e nacionais e de todos os seus ramos, a partir da sua fonte divina, num estado que tem base para a esperança de gerações —, logo a nova canção cintila, e começa a ouvir-se o eco da voz de:

וּפְדוּיֵי ד' יְשֻׁבוּן וּבָאוּ צִיּוֹן בְּרִנָּה, וְשִׂמְחַת עוֹלָם עַל רֹאשָׁם; שָׂשׂוֹן וְשִׂמְחָה יַשִּׂיגוּ, וְנָסוּ יָגוֹן וַאֲנָחָה "E os resgatados do Senhor voltarão e virão a Sião com cânticos, e alegria eterna haverá sobre as suas cabeças; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirão a tristeza e o gemido." Yeshayahu (Isaías) 35:10

A luz que volta a cada mitsvá

E, quando a ideia se encher da influência unida e íntegra desses ideais, e se assentar no seu repouso para chegar a um cômputo claro e límpido, então a sua luz se revelará sobre todos os caminhos de vida da "religião de Moshé e de Israel", sobre todas as mitsvot da Torá, os seus detalhes e a precisão da sua guarda, com honra e intenção. Especialmente naquelas mitsvot que não estão em relação direta com a moral humana geral e aberta — aquelas que o aperfeiçoamento universal não procuraria, e que às vezes parece até rejeitar quando a sua luz não se revela —, nessas mitsvot "ouvidas" (shimiyot) brilhará a luz divina, que é, na verdade, universal e desejada por toda alma fina, escondida dentro delas, no íntimo espiritual e intencional da marca nacional própria da nossa nação.

Depois que todo o organismo espiritual — com os seus sentimentos anímicos e corporais — se liga a essa influência geral, forma-se bem o saber de que cada indivíduo se junta ao todo, e cada ato isolado se soma para compor o conjunto do seu modo de vida e a firmeza do seu caráter. Cresce então o reconhecimento simples e claro de que tudo o que essa junção traz está selado com um selo divino pleno; e a luz divina volta a iluminar cada indivíduo em cada um dos seus atos particulares. E as mitsvot todas, e todos os detalhes da "religião de Moshé e de Israel" — depois de se ocultarem na imensidão da sua generalidade no tesouro espiritual da Comunidade de Israel — voltam a brilhar, com luz divina revelada, na alma de cada um de Israel. Numa disposição de alma reluzente, revelam-se, dentro da ação comum, como o alimento saudável e constante da Comunidade de Israel — aquele cujo valor íntimo e oculto os melhores da nação sempre sentiram. Todas as ideias mais belas e animadoras encontram então a sua base poderosa neste alimento prático e natural, que dá força e vida à alma da nação "e a toda a sua carne, cura".

E daí a corrente do anseio de ligar-se ao lugar material e prático — onde está guardada, para a nação, a força de vida por gerações eternas, na Terra de Israel — vai subindo e crescendo, e sai ao ato com grande glória sagrada. E todos aqueles que abandonaram a luz do Senhor e por ela foram abandonados — porque deixaram o alimento fundamental com que ela vive: a guarda prática do judaísmo e o reconhecimento do seu valor no seu sentido mais sublime —, todos esses voltarão a nós, para restituir a Israel, por força da sua revivência, o judaísmo prático em toda a sua plenitude e glória, pela irradiação divina vestida no traje da nacionalidade de Israel — que também ela se eleva às alturas da idealidade divina.

Eis a síntese de todo o ensaio, e ela desfaz a falsa escolha entre o universal e o particular. As mitsvot "ouvidas" — exatamente as que parecem opacas à moral universal — guardam, diz o Rav Kook, uma luz que é "universal e desejada por toda alma fina". O detalhe não se opõe à grandeza: é o seu vaso. E a consequência é generosa: até os que abandonaram a prática "voltarão", porque a revivência devolve a cada mitsvá a sua alma divina. A Torá prática não é o oposto do ideal — é a sua encarnação viva.

Os segredos podem ser revelados

No tesouro das grandes ideias recônditas, que estavam guardadas no íntimo da Comunidade de Israel, no lugar que a mão da destruição não alcançou — ali esses "amados", essas ideias de Israel, caminharão de novo unidos e em harmonia, como no início da emanação da alma da sua alma. Enquanto a vida prática não estava de modo algum preparada para essa gloriosa unificação, todos esses conceitos elevados eram contados entre os "segredos da Torá" (sitrei Torá), que só podiam ser transmitidos num sussurro aos dignos — a pessoas capazes de se erguerem acima do horizonte da vida comum. Mas agora que o mundo se adoçou, e a Comunidade de Israel começou a sentir, no seu íntimo, a sua retidão, e a olhar o exílio com olhar de vergonha — cresceu a exigência interior da unificação das ideias. Agora, todos aqueles bens ocultos precisam de ser revelados e mostrados, para reavivar o "fundamento da revivência" da nação a partir da sua fonte, até que a luz suba e se torne uma luz de verdadeira revivência sobre todos os dispersos de Israel. O espírito nacional, que se acha penetrante e disperso aqui e ali em corações pesarosos, há de erguer-se e viver do perfume da alma divina que sobre ele influirá; e a alma nacional preparará os seus utensílios para achar lugar à sua luz divina, que busca a sua função: iluminar os lugares escuros da terra, pela força de Israel.

E a sabedoria de Israel sai em socorro

E daqui podem a sabedoria de Israel e a sua verdadeira literatura começar a sair em socorro do nosso povo, para revivê-lo com o orvalho da sua revivência.

תִּכָּתֶב זֹאת לְדוֹר אַחֲרוֹן, וְעַם נִבְרָא יְהַלֶּל יָהּ "Escreva-se isto para a geração futura, e um povo que há de ser criado louvará o Senhor." Tehillim (Salmos) 102:19
Na terra da revivência, cada ideal encontra no outro a complementação da sua alma.

Assim se fecha "O Processo dos Ideais em Israel" — um dos arcos mais ambiciosos do Rav Kook. Ele percorreu toda a história: as duas ideias, divina e nacional, presentes em toda a humanidade (cap. 1); a sua fusão única em Israel (cap. 2); a dissolução (cap. 3); o exílio (cap. 4); a "ideia religiosa" e os seus descaminhos (cap. 5); e agora a unificação. O fio é constante: nem o universalismo sem raiz, nem o nacionalismo sem alma — mas o reencontro dos dois, em que o particular volta a ser o vaso vivo do divino. É a visão integradora que percorre todas as Luzes.

A Escada entre o Céu e a Terra: o ideal e os atos que o encarnam

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma das mais belas defesas do Rav Kook da união entre o ideal e a prática. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Vivemos com as imagens da alma da nação

Nós vivemos com as imagens espirituais que há na aspiração da alma da nação. Em todo lugar onde estão guardadas as centelhas dessa luz, estamos ligados a ele por um vínculo de alma, de vida, de todo o nosso ser — seja esse lugar um lugar concreto, uma porção de terra; sejam atos em cujo fundamento essas imagens se escondem; sejam pensamentos e ideias de qualquer espécie. Quem vem cortar esses ramos, quem diminui a sua força, a sua honra e a sua importância para nós, diminui a seiva da nossa vida — e contra ele nos erguemos com toda a nossa força.

No conjunto da Torá escrita e transmitida, e no entrelaçar de todos os seus ramos, está depositada a imagem espiritual mais alta e mais original do anseio da nação — uma imagem que ilumina o seu entendimento de tudo: da existência, de D'us, do mundo, do ser humano, do indivíduo, da sociedade, do bem e do mal, da vida e da morte. Quanto mais o entendimento da Torá se revela na nação, mais a sua força de vida se eleva; e os atos são as bases materiais, o suporte concreto, em que essa grande visão deposita os seus tesouros. Na medida em que cresce a compreensão, cresce também o brilho da luz oculta que há em todos os atos, e revela-se o esplendor do judaísmo prático na sua força para D'us.

Quando a vida tropeça

Há momentos em que a vida tropeça no seu caminho e não tem força para acompanhar as imagens espirituais; então cansa-se o espírito que aspira a encarná-las em atos. Daí nasce a confusão, e as opiniões dividem-se. Os de espírito firme dizem: a vida pode adoecer — mas também pode voltar à plena saúde; e tudo o que se liga à vida tem esperança. Os ideais preciosos, guardados no recôndito dos atos, precisam justamente de vir à luz pela sua encarnação nos atos. Eles devem iluminar toda a treva da vida — e a treva ainda é grande e densa; não podemos dizer que já cumpriram a sua tarefa. Por isso não abandonaremos a bandeira: carregá-la-emos com amor, e encarnaremos em obras o grande pensamento da alma de Israel, como a nação começou a fazer desde que voltou a ver a sua vida coletiva.

Não somos um povo infantil

E, se o fardo é mais pesado do que outrora, vale a pena a meta para a qual o suportamos. Já saímos, há muito, do círculo dos povos infantis, de juízo leve, que se enfastiam de obras sérias cujo prazer não vem de imediato. Somos amadurecidos em saber e em sentimento pessoal pleno: sabemos viver e sabemos carregar, com sossego de coração e desejo poderoso, o jugo da vida por uma grande meta — ainda que o seu fim esteja por ora oculto, e ele há de revelar-se. E, se a nossa força fraquejar, e o fardo prático tornar-se com o tempo pesado demais por causa de algum tropeço da nação, buscaremos conselhos sãos — segundo o espírito da própria alma da nação, segundo o caminho da Torá na sua plenitude — para aliviar a carga de um modo que não faça a imagem espiritual cessar, nem por um instante, a obra da sua aspiração.

O ideal e o ato caem juntos

Quando se fere a ideia — quando, por afundar-se na pequenez da vida comum, alguém se afasta da elevação dos pensamentos altos, que geram os grandes atos e neles estão guardados num esconderijo divino imenso —, então também os atos se vão ferindo: o seu valor baixa, o seu esplendor empalidece, até se mostrarem numa forma "irritada", que desperta enfado e desolação, em vez de a força e o esplendor serem a sua roupa natural. E, quando os atos se ferem, a ideia, por sua vez, vai-se distanciando, até virar uma espécie de pensamento débil, que também desperta o desprezo de todo homem de ação, por estar longe da vida e sem força para agir sobre ela.

Para achar remédio a este estado terrível — uma doença que devora as duas pontas da vida, secando-lhe o miolo —, precisamos esforçar-nos com toda a força em guardar os atos, em amá-los e fortalecê-los; mas não parar só nessa fronteira. Nada conseguiremos no nosso esforço se não juntarmos, à elevação dos atos, o retorno ao voo da ideia guardada dentro deles. Se os atos permanecerem "um mandamento de homens, aprendido por hábito", não só não ajudarão, como ainda rebaixarão a ideia — e o fim do rebaixamento da ideia é a abolição dos próprios atos.

וַתְּהִי יִרְאָתָם אֹתִי מִצְוַת אֲנָשִׁים מְלֻמָּדָה "...e o temor que me têm não passa de um mandamento de homens, aprendido por hábito" — eis o que mata, ao mesmo tempo, o ato e a ideia. Yeshayahu (Isaías) 29:13

A escada posta na terra

Mas não nos assustemos, de modo algum, com os que nos amedrontam quanto ao voo do pensamento, dizendo que pretendemos subir às alturas dos céus sem escada. Não é assim: temos uma escada posta na terra, cujo topo chega ao céu — o luzeiro que há na nossa alma, na alma do todo e na alma do indivíduo, despertado plenamente pela luz dos tesouros da Torá.

וְהִנֵּה סֻלָּם מֻצָּב אַרְצָה וְרֹאשׁוֹ מַגִּיעַ הַשָּׁמָיְמָה "E eis uma escada posta na terra, cujo topo chegava ao céu." Bereshit (Gênesis) 28:12 — o sonho de Yaakov
Temos uma escada firmada na terra cujo topo toca o céu — e os seus dois extremos são um só.

O coração da seção é a recusa de uma falsa escolha: ou o ideal "no céu", ou os atos "na terra". Para o Rav Kook, é uma só escada — e os seus dois extremos sobem e descem juntos. Uma ideia sem atos vira "pensamento débil", desprezado; atos sem ideia viram "mandamento aprendido por hábito", que rebaixa tudo e acaba por extinguir-se. A saúde está na corrente entre os dois: amar e guardar a prática e reacender, dentro dela, a grande ideia que ela carrega. A escada de Yaakov é a imagem perfeita — firmada no chão, mas tocando os céus.

A Luz que Revive: tirar das profundezas a força da nação

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) segue-se à anterior: se o ideal precisa encarnar-se, de onde vem a força para reerguer um povo? Da própria profundeza da sua alma. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Das profundezas, a luz

Das profundezas ocultas da alma tiraremos a luz que dará vida ao povo inteiro, para o pôr de pé. A força da vida vai-se intensificando; ela rompe os seus próprios caminhos — mas cabe a nós investigar o plano do seu espírito.

מִמַּעֲמַקֵּי הַגְּנִיזָה שֶׁל הַנְּשָׁמָה נִקַּח אֶת הָאוֹר אֲשֶׁר יְחַיֶּה אֶת הָעָם כֻּלּוֹ, לְהַעֲמִידוֹ עַל רַגְלָיו "Das profundezas ocultas da alma tiraremos a luz que dará vida ao povo inteiro, para o pôr de pé." Rav Kook, Orot — Luzes do Renascimento, §7

O anseio pelo espírito de santidade

A aspiração ao espírito de santidade supremo — aquele espírito que se assemelha ao espírito dos heróis cingidos da força de D'us que tivemos nos dias antigos, no tempo em que a nação se reconhecia a si mesma abertamente — vai-se intensificando. No seu fluxo, ela rompe cercas: apaga formas de uma inocência habitual e, com isso, perde tesouros sublimes de vida; e, à primeira vista, o estado fica terrível, despido de um lado e de outro. Mas isto não é senão uma passagem. Logo precisamos aproximar-nos da iluminação suprema — da luz da vida que brota da sua fonte mais alta —, que imprimirá, pela sua força, uma forma firme, cheia de uma força sagrada maior do que tudo o que a inocência mediana, insuficientemente iluminada pela luz pura da santidade, poderia dar.

Vasos para a grande luz

Os ideais que estão na fonte de Israel vão-se revelando; eles dão vida ao espírito que está pronto a recebê-los, em todo o trovão da sua força; e exigem que se estabeleçam, para eles, vasos — muitos vasos: almas sãs de uma geração viçosa, que habite a sua terra e esteja cingida da força da salvação. O Templo, a profecia e a realeza, com tudo o que lhes pertence, enviam-nos a sua luz, semeada na terra da vida. Raios chegam-nos das suas mãos; ondas das suas luzes batem nas nossas pálpebras, que ficaram cerradas durante todo o tempo do exílio que tudo dissolve. Somos chamados a preparar-nos para esta grande luz — a saber o que somos e qual a nossa tarefa, o que a nossa alma, em toda a sua firmeza, exige de nós.

A força que precisa de um alvo

O espírito grande e elevado, que aspira às maiores grandezas — só ele sustém a vida e a humanidade no seu esplendor e na sua força. À altura da força de uma vida plena — de corpos cheios de sangue são e de grande vigor — só corresponde a força do espírito na firmeza da sua superioridade, que desponta e se ergue sobre a humanidade pela força poderosa de Israel. Sem um alvo, a força da vida vai-se esvaindo: o seu vigor diminui, ela definha e marcha para o desgaste que a espera na descida. Mas a força suprema da vida, coroada no todo, na congregação do povo, manifesta-se com o seu alvo justo diante de si na nossa própria vida — na vida íntima por que vivemos e perduramos, lutamos e vencemos.

A força da vida sem um alvo dissipa-se; coroada no espírito, encontra o seu sentido.

Duas ideias se cruzam aqui. A primeira: o renascimento não se importa de fora — extrai-se das "profundezas ocultas da alma". A luz que reergue um povo não é novidade importada, mas tesouro reaberto. A segunda, profundamente sóbria: a força, por si, não basta. "Sem um alvo, a força da vida vai-se esvaindo." Vigor, saúde, energia coletiva — tudo isso só ganha sentido quando é "coroado" por um espírito que aspira ao alto. É o mesmo equilíbrio do Rav Kook: nem a alma sem corpo, nem o corpo sem alma — mas a força da vida ligada a um propósito que a transcende.

A Visão do Coração e os seus Limites

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) trata de um diagnóstico delicado: o que o exílio sustentou, e o que ele já não pode sustentar. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A visão do coração

O judaísmo no exílio, não fosse a seiva de vida que recebe da santidade da Terra de Israel, não teria propriamente uma base prática — apenas a visão do coração (chazon ha-lev), fundada em imagens de esperança e de nobre meditação, voltadas para o futuro e para o passado. Há, porém, uma medida de quanta força essa visão do coração tem para carregar o peso da vida e abrir, com o seu vigor, uma vereda para a vida de um povo — e essa medida, ao que parece, já esgotou a sua conta. Por isso o judaísmo no exílio decai espantosamente, e não tem esperança senão em ser replantado numa fonte de vida real, de uma santidade própria, que só se encontra na Terra de Israel.

אֲפִילוּ נִיצוֹץ אֶחָד שֶׁל הַחַיִּים הַמַּמָּשִׁיִּים הַלָּלוּ יִהְיֶה הָמוֹן גָּדוֹל וְרַב שֶׁל חַיִּים חֶזְיוֹנִיִּים "Mesmo uma única centelha desta vida real [vale] uma grande e vasta multidão de vida apenas imaginada." Rav Kook, Orot — Luzes do Renascimento, §8

A vida real da santidade do judaísmo só se revela no retorno da nação à sua terra, que é a estrada pavimentada para a sua volta à revivência; e toda a elevação que há no seu espírito e na visão do seu coração se erguerá e viverá na exata medida em que o fundamento prático tomar lugar para reanimar a visão que desfalece.

A demanda de viver pelo espírito natural

Quanto mais o mundo se adoça, e o espírito do homem se desenvolve dentro dele, mais se desperta — com voz mais forte — a demanda de viver segundo o espírito natural que há nele. E essa demanda tem em si muito de verdade e de justiça; cabe aos íntegros no saber purificá-la e assentá-la sobre a sua base. O ser humano vai encontrando D'us dentro de si, nas suas inclinações justas — e mesmo naquelas que, à primeira vista, parecem desviar-se do bom caminho consagrado pela visão habitual, ele pode elevar-se a um grau tão alto que saberá ordenar tudo segundo o plano da força e da felicidade.

Eis um dos lances mais característicos — e mais corajosos — do Rav Kook. A "demanda de viver pelo espírito natural", que tantos religiosos do seu tempo viam só como ameaça, ele acolhe: tem "muito de verdade e de justiça". O sagrado não se opõe ao natural; o homem "encontra D'us dentro de si, nas suas inclinações justas". A tarefa dos sábios não é reprimir esse anseio, mas purificá-lo — depurá-lo até que ele próprio aponte para o alto. É a mesma confiança de fundo: a vida, bem compreendida, não foge de D'us; conduz a Ele.

Quando a nação desperta

Quando a Comunidade de Israel desperta para a revivência, encontra dentro de si a sua força e a sua glória; e toda a pureza e santidade que de costume se achavam na submissão e na obediência vão-se acendendo na força anímica que desponta com o vigor da nação. E, com um saber puro, unem-se os dois espíritos — e a força que desperta é adoçada pelo entrelaçar de ambos.

Uma só centelha de vida real vale uma multidão de visões — e o natural, purificado, conduz a D'us.

Sede de D'us: o que distingue a alma de Israel

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) faz uma das afirmações mais ousadas do Rav Kook sobre a natureza de Israel — e, lida com cuidado, é uma afirmação de orientação, não de mérito. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

O que funda uma nação

A disposição da alma da Comunidade de Israel é, na sua raiz, distinta da disposição da alma de todo outro povo e língua. Em todo povo e língua, o ponto interior do desejo de vida coletiva funda-se no conteúdo econômico, em todas as suas formas — no fundamento daquela inquietação interior que há no ser humano de assegurar a sua condição material. E o espírito mais alto, que dá vida e ilumina esse ponto, é o espírito da ordem e da beleza — o desejo do prazer dos sentidos, segundo os anseios do coração humano; e, quando estes se reúnem num coletivo, por um mesmo estilo, essa afinidade forma o conteúdo nacional.

A disposição divina no fundo da alma

Em Israel, porém, jaz a disposição divina nas profundezas da natureza da alma da nação. A sede de um conhecimento e de um sentir divinos, no auge da sua elevação e pureza, é para ela o ponto em que a vida é sentida; e os refinamentos que brotam da perfeição dessa imagem, em toda a largura e profundeza da vida, são os seus alvos estéticos.

הַצָּמָאוֹן לְדֵעָה וְהַרְגָּשָׁה אֱלֹהִית, בְּתַכְלִית עֶלְיוֹנוּתָהּ וְטָהֳרָתָהּ, הִיא לוֹ הַנְּקֻדָּה שֶׁהַחַיִּים מֻרְגָּשִׁים בָּהּ "A sede de um conhecimento e de um sentir divinos, no auge da sua elevação e pureza — eis, para Israel, o ponto em que a vida é sentida." Rav Kook, Orot — Luzes do Renascimento, §10

Tudo cabe num só ponto

O saber interior — que reconhece que, no preenchimento desse anseio supremo, tudo se preenche; que não há nada, em todos os alvos da vida, nos seus refinamentos, nas suas ordens e nos seus conteúdos, que não esteja contido dentro desse ponto de "mundos dos mundos" — esse reconhecimento é coisa própria de Israel, posta na natureza da nação. Revela-se num reconhecimento interior até às maiores multidões, e vai-se aclarando, geração após geração, para os mais seletos.

A essência israelita e o povo eterno

O elemento divino — presente dentro de todo o valor da vida, na profundeza da natureza da alma, em harmonia com a seiva que dá vida à história nacional, manifesto no dom da criação da profecia nos filhos eleitos da nação — é o que a eleva ao grau de "povo eterno", de modo que toda a humanidade reconhecerá o tesouro da sua alma. Eis a essência israelita, cujos traços se revelam em todos os seus diversos movimentos; e o espírito do Mashiach vai realizando a plenitude desse caráter, até o tempo do fim completo.

A alma de Israel sente a vida no mesmo ponto em que sente a sede de D'us.

É preciso ler esta página com cuidado, para não a tomar por um hino de superioridade — ela não o é. O Rav Kook descreve uma diferença de orientação, não de valor: onde o vínculo de um povo se ancora, sobretudo, na segurança material (algo legítimo e humano), o de Israel ancora-se na sede de D'us. E o próprio texto fecha em chave universal: a vocação não é guardar esse tesouro contra a humanidade, mas para que "toda a humanidade reconheça o tesouro da sua alma". A eleição, mais uma vez, é serviço — e o "povo eterno" existe para o bem de todos.

Quando a Vida Floresce: as ideias livres e o bem para todos

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) liga três temas: a liberdade do pensamento, o fundamento da moral universal e a passagem do ideal à vida concreta. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

As ideias não cabem num só molde

Quando a vida floresce, quando tem as devidas manifestações de criação e de ciência, é de todo impossível que as ideias fiquem fixadas por um só molde e um só estilo. As suas formas vão sempre subindo de baixo para cima — de uma medida pequena de vida a uma medida grande, de um brilho fraco a um brilho forte e radiante. Mas tudo isto [é assim] quando há, junto com a criação e a ciência livres, a base fundamental do espírito único da nação: a aspiração ao bem divino que jaz na natureza da sua alma.

O bem para todos

A Europa desesperou, com razão, de um D'us que nunca conheceu. Indivíduos da humanidade adaptaram-se ao bem supremo — mas não uma nação inteira. Como ansiar pelo bem de todos, nenhum povo e língua o consegue entender por inteiro, e menos ainda gravá-lo como o fundamento da sua existência. Por isso, quando o nacionalismo se fortaleceu nos nossos dias e penetrou no sistema da filosofia, esta viu-se forçada a pôr um grande ponto de interrogação sobre todo o conteúdo da moral absoluta — que, na verdade, chega à Europa apenas como uma pergunta tomada do judaísmo, e que, como um ramo estranho, ainda não pode ser absorvida no seu espírito.

A nós, se formos o que somos — se não nos esforçarmos por vestir a roupa de estranhos —, a "questão da moral" não nos punge de modo algum. Sentimos todos, no nosso íntimo, toda a nossa nação, que o bem absoluto, o bem para todos, é o que é digno de se ansiar; e que sobre esse fundamento é justo erguer um reino e conduzir uma política. Vemos, da nossa própria carne, que o bem absoluto é o bem divino eterno de toda a existência — e aspiramos sempre a seguir os seus passos, num sentido nacional e universal. Por isso o amor divino e o apego a D'us são, para nós, algo essencial, que não se pode apagar nem mudar.

É preciso ler esta passagem como o que ela é: uma tese sobre o fundamento da ética universal, não um veredicto sobre os povos. O argumento do Rav Kook é filosófico — uma moral verdadeiramente absoluta, o "bem para todos", não pode brotar de um nacionalismo de "amor-próprio cru"; ela precisa de uma raiz divina. E essa raiz, diz ele, é a contribuição nativa de Israel à humanidade: o bem para todos. Note-se a chave universalista — o alvo não é um bem nosso, contra os outros, mas o bem de todos; e Israel existe para ancorá-lo no mundo, não para o reter.

A cura do exílio

Não conseguimos resistir às correntes gerais do mundo, que têm no seu fundamento apenas o amor-próprio cru; e, ao caminharmos com as nações nossas vizinhas, absorvemos em nós o seu espírito estranho, que não podia fundir-se conosco e foi a nossa ruína. Eis que então fomos refinados na fornalha da aflição: passaram sobre nós milhares de anos em que, como nação, não tivemos trato com coisas materiais — fomos um povo "a flutuar no ar", e sonhávamos apenas com o reino dos céus, com o bem divino absoluto. Esse estado estranho foi, para nós, um belo remédio: absorveu-se no nosso íntimo a aspiração que nos é natural — a do bem divino universal.

Da visão à vida

Mas agora somos de novo chamados a concretizá-la na vida — e isto é o renascimento. Se, ao encontrar a realidade, no início do caminho, muitas partes das nossas visões diminuírem de tamanho, não há mal: a realidade não tem asas tão velozes quanto a visão. O renascimento reúne todos os nossos ideais eternos e guarda-os, no seu começo, em pequenas obras — num esforço que se herda por gerações, de voltar à terra, ao lugar onde os nossos direitos e tesouros nos esperam, com uma atitude de honra para com todo o nosso tesouro do passado, e um espírito altivo rumo à elevação da nação no futuro. O amor histórico ao povo e à terra precisa nutrir-se das crenças e ideias do passado; e, enquanto a aspiração do nosso espírito se eleva, a luz do passado cresce em nós — e nunca o saber divino voltará, entre nós, a ser uma espécie de mecânica natural cega e surda, presa a ideias estéreis que nada têm para fecundar ou reviver:

יֵלְכוּ מֵחַיִל אֶל חָיִל, יֵרָאֶה אֶל אֱלֹהִים בְּצִיּוֹן "Irão de força em força, e cada um aparecerá diante de D'us em Sião." Tehillim (Salmos) 84:8

E, mesmo que pareça, a um olhar fraco, que o passado é — em comparação com a nossa elevação futura — nublado, a luz brilhará sobre ele, e o iluminará, e trará à realidade os seus tesouros escondidos: "tornarei a treva em luz diante deles, e os caminhos tortuosos em planos; estas coisas farei, e não as deixarei" (Yeshayahu 42:16) — "já as fiz para Rabi Akiva e os seus companheiros".

O bem absoluto — o bem para todos — é a única base sobre a qual se ergue uma nação verdadeira.

Um Fragmento do Grande: a centelha dos pais

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é breve e intensa: uma meditação sobre o valor do que é grande na sua raiz, ainda que reste apenas uma centelha. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Um fragmento do grande

Um resto pequeno de algo grande é mais precioso e mais excelente do que uma coisa pequena inteira. Uma só centelha da luz da vida dos Patriarcas — da sua santidade e da força divina suprema que havia na sua grandeza —, que vai brilhando no fim dos dias para restituir Israel à revivência eterna, e com ele o mundo inteiro, por ordem e por etapas, é mais elevada e mais sublime do que toda a santidade revelada no conteúdo da fé e do temor, da Torá e das mitsvot, da continuação copiada dos "rebentos dos rebentos" dos filhos [as gerações já diluídas].

יָפָה שִׂיחָתָן שֶׁל עַבְדֵי אָבוֹת מִתּוֹרָתָן שֶׁל בָּנִים "Mais bela é a conversa dos servos dos Patriarcas do que a Torá dos filhos." Bereshit Rabá 60:8

E essa "conversa" reanima a última geração com um amor escondido; nela se revela o conteúdo poderoso de "[Aquele que] se lembra das bondades dos pais e traz um redentor aos filhos dos seus filhos, por amor do seu Nome, com amor" (da Amidá). As luzes fracas são afastadas — "uma vela ao meio-dia" —; a ousadia [do tempo pré-messiânico] expulsa-as, e dentro dela paira o espírito de D'us.

Unir a Torá dos filhos à conversa dos pais

Os grandes santos do mundo reconhecerão o segredo e darão razão ao sagrado; eles, na sua integridade suprema, hão de unir a Torá dos filhos à conversa dos Patriarcas e dos seus servos; e uma Torá coroada de todo esplendor e de toda força, de toda graça e de toda formosura, será revelada — para ser "uma coroa de glória e um diadema de beleza para o restante do seu povo" (Yeshayahu 28:5).

Sede fortes, não temais

Sede fortes, não temais! A luz do Mashiach cintila; a redenção eterna aparece por todas as frestas, de dentro da treva da maldade e da descrença vil — virá, sem falta, uma luz suprema, que porá os pés de Israel num lugar amplo e erguerá em glória o vigor de um povo que conhece o seu D'us; ela iluminará toda escuridão e dará alento aos santos supremos com uma salvação verdadeira. Só as bondades dos pais permanecerão; e todos os humildes de coração — que souberam ser, aos seus próprios olhos, esmagados e poderosos ao mesmo tempo — esses são os que reconhecerão a luz da Torá suprema que brota da conversa dos servos dos Patriarcas: a que é a redenção dos filhos.

Uma centelha da raiz vale mais do que todo o pleno do que é pequeno.

O Rav Kook inverte uma intuição comum: nem sempre o "inteiro" vale mais que o "fragmento". Uma centelha de algo grande na raiz — a luz viva dos Patriarcas — supera toda uma herança de santidade diluída, copiada de cópia em cópia. Por isso o midrash diz que "a conversa dos servos dos pais é mais bela que a Torá dos filhos": o frescor da origem vence a repetição cansada. E há um retrato precioso de quem reconhece isso — os humildes que sabem ser, ao mesmo tempo, "esmagados e poderosos": pequenos diante de D'us, e por isso mesmo capazes de carregar a maior das luzes.

O Intelecto Divino: a alma de Israel e o seu anseio mais profundo

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é um dos trechos mais arrebatados do Rav Kook — sobre a raiz divina do intelecto de Israel e a luz que dele desce ao mundo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Um intelecto divino

O intelecto israelita, do lado da sua fonte espiritual divina, é um intelecto divino, e a sua vontade é uma vontade divina. As saudades e o amor de toda a nação são tremendos e infinitamente profundos — e o são, precisamente, pela perfeição divina suprema. Esse amor sobressai no Cântico dos Cânticos, no esplendor das suas cores, para as quais o mundo inteiro não é digno.

הַשֵּׂכֶל הַיִּשְׂרְאֵלִי, מִצַּד מְקוֹר מַחְצַבּוֹ הָרוּחָנִי הָאֱלֹהִי, הוּא שֵׂכֶל אֱלֹהִי, וּרְצוֹנוֹ רְצוֹן אֱלֹהִי הוּא "O intelecto israelita, do lado da sua fonte espiritual divina, é um intelecto divino, e a sua vontade é uma vontade divina." Rav Kook, Orot — Luzes do Renascimento, §11

Só a sabedoria suprema, com toda a sua liberdade e todo o sentir dos seus deleites — aquela que sobe sempre, acima das esferas dos conhecimentos divinos — é o que dá vida a Israel.

Os justos, fundamentos do mundo

Essa luz essencial revela-se nos justos supremos das gerações, cuja vontade é o fundamento do mundo, cujas palavras são palavras do D'us vivo, e das quais nenhuma volta vazia — pois a palavra do Senhor, D'us do mundo, está sempre na sua boca. E, nos recantos de toda a Torá — no seu todo e nos seus pormenores —, quando ela se une à iluminação do conhecimento do seu fundamento e da sua alma, tudo vai iluminando, vai revelando, vai redimindo, vai aperfeiçoando; traz salvação eterna a toda criatura, e ilumina a eternidade a partir da sua glória suprema — d'Aquele que cavalga os mais altos céus antigos e dá vida aos confins da terra, faz brotar toda espécie de salvação, e dá alento a todos os humildes da terra; cinge Israel de uma força eterna e o faz voltar, erguido, à sua terra, para o renovar como no princípio.

Uma só luz, a alma de todo o cosmos

Uma só luz, uma só alma, a alma de todo o cosmos: o braço de D'us vai-se revelando, vai chamando Israel à vida, a voltar para construir e ser construído. Na alma suprema dos justos — fundamentos do mundo, que a luz dos segredos de D'us mantém vivos — habita o espírito da ressurreição dos mortos; e da fonte da sua vida que jorra, absorvida de toda a essência dos tesouros de vida de todos os mundos, saem regatos — ramos finos e variados — para trazer a luz da vida, um espírito de esperança e uma inclinação à unidade, um despertar de teshuvá e um grande alento a todas as camadas [do povo]. E, na luz suprema semeada para o justo, despontará o Mashiach, para erguer o vigor de um povo eterno.

Uma só luz, uma só alma — a alma de todo o cosmos — chama Israel à vida.

Duas notas merecem destaque. A primeira é maimonidiana: o intelecto, na sua raiz, é "divino" — a mente humana participa de uma luz que a transcende; e o anseio mais fundo da alma é pela perfeição divina, e não por bens menores. A segunda é o alcance universal desta luz: ela "traz salvação eterna a toda criatura", "dá vida aos confins da terra", "dá alento a todos os humildes da terra". A revivência de Israel, mesmo no seu ápice mais particular, é cantada como uma luz para o cosmos inteiro — "uma só alma, a alma de todo o cosmos".

A Luz que Desce ao Nosso Encontro

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) descreve uma das ideias mais comoventes do Rav Kook: o modo como D'us "desce" ao nível de quem caiu, para poder reencontrá-lo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Os graus do querer

O querer geral, o da espiritualidade geral da nação, tem a sua medida. E acima dele está o querer do conteúdo divino, segundo a percepção e a vida — interior e exterior — da nação. Enquanto o conteúdo espiritual da nação é pleno e grande, cresce, por si, a uma medida mais alta, a luz do conteúdo divino na sua percepção, e o "buscado" da sua existência desenha-se nela em cores claras. E, acima disto, revela-se em cores claras o "buscado" de toda a existência — e este é o segredo do conhecimento supremo.

Quando a alma escureceu

Quando a nação desceu ao amargo exílio, a sua alma escureceu, e a percepção do alvo interior da sua existência, e dos anseios da sua vida, diminuiu — a ponto de já não achar de modo algum os seus caminhos. E, ainda assim, há nela alguma percepção fraca, um traço da sua luz, do qual brilha, na devida proporção, uma luz ténue para os justos e os sábios que buscam a D'us de todo o coração, mesmo na escuridão:

כִּי אֵשֵׁב בַּחֹשֶׁךְ, ד' אוֹר לִי "Ainda que eu me assente nas trevas, o Senhor será a minha luz." Michah (Miqueias) 7:8

A luz que desce ao nosso encontro

Mas o elemento divino e o alvo universal, se tivessem permanecido no seu lugar e no seu grau primeiro, não poderiam então de modo algum unir-se ao alvo próprio [e já diminuído] da nação; e a sua vida no exílio teria tomado um caminho profano, sem nenhum lado por onde se ligar ao alvo divino da Rocha de todos os mundos, o Justo de todas as gerações. Que fez, então, o Santo, bendito seja? Assim como se diminuiu a luz que brilhava nela em relação à sua disposição interior, assim desceu a luz divina universal no mundo; e a sublimidade do elemento divino — que é a luz da Vida dos mundos — já não resplandece senão numa luz tão ténue, que pode unir-se à luz que brilha na alma de Israel, mesmo depois da descida causada pela grande queda, em que a coroa do esplendor de Israel caiu do céu à terra.

Eis a intuição mais terna do capítulo: D'us encontra-nos onde estamos. Quando a alma de Israel, no exílio, já não conseguia alcançar a luz no seu auge, a luz não ficou inacessível no alto — ela desceu, atenuou-se, até poder tocar o pouco que restava. É a imagem de um amor que se inclina: em vez de exigir que o caído suba ao nível perdido, a própria luz baixa ao seu nível. Por isso nem o exílio mais fundo deixou Israel sem contato com o Divino — havia sempre uma luz à altura do traço que sobrara.

E os dois voltam a unir-se

E, estando o elemento divino universal — enquanto luz do mundo — nesse estado, eis que as coisas voltam a unir-se: o alvo da existência da nação, no seu íntimo espírito sagrado, e o grande alvo divino universal de toda a existência podem unir-se como um só. E assim eles se juntam — nas almas de Israel em particular, e na alma da nação inteira em geral —, e ficam prontos, juntos, a subir na salvação de um povo e do seu D'us: "Ana Hashem, hoshia na" — "ó Senhor, salva, por favor".

A luz não ficou inacessível no alto: desceu, até poder tocar o pouco que restava.

Não Dividir a Nação: a lição do julgamento de Salomão

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma das mais célebres do Rav Kook sobre a unidade do povo e o perigo do separatismo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A disputa e a sua raiz

Há uma disputa de opiniões sobre como conduzir o conjunto do povo: se, neste tempo em que se multiplicam os transgressores que erguem, de mão erguida, a bandeira do desregramento, seria justo separar a nação — de modo que os íntegros, que portam a bandeira do nome de D'us, não tivessem relação alguma com os que lançaram fora o jugo —; ou se, talvez, a força da paz geral decide tudo. Toda a raiz desta controvérsia vem da baixeza geral, [do facto] de que a purificação ainda não se completou no fundamento do caráter da nação, no lado externo da sua alma — e ela vai-se purificando.

O julgamento de Salomão

Nisto, as duas facções juntas estão no nível das duas mulheres que vieram a Salomão. A ordem "trazei uma espada" é um teste da sabedoria divina que há na realeza de Israel. Aquela que merece ser rejeitada é a que diz "dividi!"; e, na sua amargura, ela revela a verdade do rancor que sente no coração — que toda a sua intenção é apenas "nem para mim, nem para ti: dividi!". Já a mãe compassiva, a mãe da verdade, diz: "dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis"; e o espírito de santidade clama: "dai-lhe o menino vivo — ela é a sua mãe!".

תְּנוּ לָהּ אֶת הַיָּלוּד הַחַי, וְהָמֵת אַל תְּמִיתֻהוּ — הִיא אִמּוֹ "Dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis — ela é a sua mãe." I Melachim (I Reis) 3:26-27

A divisão é uma idolatria

Não há fim aos males — materiais e espirituais — da fragmentação da nação em partes, ainda que uma separação completa, como sobe ao coração dos que cortam com crueldade, seja impossível e jamais venha a ser. Esta é, na verdade, uma forma de idolatria coletiva, da qual temos a garantia de que não se sustentará: "aquilo que dizeis — 'seremos como as nações, como as famílias das terras, a servir a madeira e a pedra' —, vivo eu, diz o Senhor D'us, com mão forte, e com braço estendido, e com furor derramado hei de reinar sobre vós!" (Yechezkel 20:32-33). E, como todo pensamento de idolatria, ela destrói e entristece — mesmo quando não chegou, e não chegará, a ato.

Mesmo os "ímpios" sustentam os justos

O fundamento da retidão dos justos, em toda geração, é sustentado também pelos ímpios — os quais, com toda a sua impiedade, enquanto estão ligados, no desejo do coração, ao conjunto da nação, deles se diz "e o teu povo, todos serão justos"; e a exterioridade da sua impiedade serve até para fortalecer a força dos justos, "como a borra para o vinho" [a borra que conserva o vinho]. Mas a separação imaginada mina o fundamento de toda a santidade — como o ato de Amalek, que atacou os retardatários, os que ficavam para trás [à sombra] da nuvem: "estendeu as mãos contra os que tinham paz com ele, profanou a sua aliança" (Tehillim 55:21).

וְעַמֵּךְ כֻּלָּם צַדִּיקִים, לְעוֹלָם יִירְשׁוּ אָרֶץ "E o teu povo, todos serão justos; para sempre herdarão a terra." Yeshayahu (Isaías) 60:21
Quem diz "dividi a criança!" mostra, com isso, que não é a verdadeira mãe.

É uma das passagens mais ousadas e generosas do Rav Kook. Diante da tentação de separar os "fiéis" dos que abandonaram a observância, ele vira a imagem do julgamento de Salomão contra os separatistas: quem está disposto a "dividir a criança" — a partir o povo — revela, nesse gesto, que não o ama como mãe. E vai além: mesmo aqueles a quem se chama "ímpios", enquanto o seu coração se apega ao todo da nação, entram em "o teu povo, todos justos"; a sua própria rebeldia, como a borra no fundo do barril, pode até conservar o vinho. O amor a Israel, para ele, não escolhe um pedaço do povo — abraça-o inteiro.

A Unidade que Redime: contra a divisão de Israel

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) continua a anterior: se separar a nação é um erro, qual é a tarefa dos que a amam? Fazer a paz, e revelar a luz oculta em cada um. É um texto denso, tecido de versículos e da liturgia. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

O dano da divisão

Todo desejo de servir [a D'us], toda alegria de mitsvá, a constância no estudo da Torá, o relâmpago das novas compreensões e o cintilar do espírito de santidade no coração dos remanescentes que o Senhor chama, a intenção da oração e a luz da sua chama — tudo isto, e o fruto das almas em toda a sua perfeição, é forçoso que se fira pela introdução de um princípio de divisão (pirud) no conjunto da Comunidade de Israel, D'us nos livre.

Os que fazem a paz

Os que amam e temem a D'us de verdade, e meditam no seu Nome — são eles que se mantêm no teste de suportar toda dor e todo insulto, de todo lado, e de se firmarem contra todas as forças, de cima e de baixo, que desejam engolir a herança do Senhor e separar a nação una, a única em todos os mundos. São os "filhos da Comunidade de Israel" sobre os quais a mãe se debruça; os "ceifeiros do campo" que vêm no conselho [secreto] do Senhor; os verdadeiros sábios da Torá, que aumentam a paz no mundo, e instauram a paz entre Israel e o seu Pai que está nos céus — ao trazerem do potencial ao ato a luz sagrada escondida em cada membro da nação, em todo o que se chama pelo nome de Israel; e, em especial, em todo o que ergue a bandeira da esperança da nação e do desejo da sua revivência, o selo do amor à terra sobre a qual estão os olhos do Senhor, com o amor de Sião e de Jerusalém gravado no coração — seja qual for a forma, seja qual for o modo de entender que tenha.

Aqui está a generosidade radical do Rav Kook. A tarefa do verdadeiro sábio não é cercar os puros e excluir o resto — é revelar a luz oculta em cada um. E ele não a limita aos observantes: inclui "em especial" todo o que carrega a esperança e o amor da terra de Israel — os construtores do renascimento, mesmo os seculares —, "seja qual for a forma, seja qual for o modo de entender". O amor de Israel, para ele, não pede credencial; busca a centelha que arde em cada filho do povo.

A unidade que redime o mundo

"Todos os caminhos tortuosos serão endireitados", e a unidade da nação — para a sua redenção e a redenção do mundo inteiro — sairá ao ato em grande preciosidade: "pois os teus servos amam as suas pedras e se compadecem do seu pó; e as nações temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra, a tua glória... Escreva-se isto para a geração futura, e um povo que há de ser criado louvará o Senhor... quando os povos se ajuntarem, e os reinos, para servir ao Senhor" (Tehillim 102:15-23).

בְּהִקָּבֵץ עַמִּים יַחְדָּו, וּמַמְלָכוֹת לַעֲבֹד אֶת ד' "...quando os povos se ajuntarem, e os reinos, para servir ao Senhor." Tehillim (Salmos) 102:23

E aqueles que parecem os mais distantes unem-se ao todo por meio das almas que são do grau de "ao homem e ao animal salvas, ó Senhor" (Tehillim 36:7) — que os sábios explicam: "são os que são argutos no saber e, contudo, se fazem [humildes] como um animal". Como disse o salmista: "eu era bruto e nada sabia, era como um animal diante de Ti; contudo, estou sempre contigo, Tu me seguras pela mão direita... a quem tenho eu nos céus? E, estando contigo, nada desejo na terra... mas, quanto a mim, a proximidade de D'us é o meu bem" (Tehillim 73:22-28).

"Eu vos amei, diz o Senhor"

E a resposta eterna a toda a queixa dos de pouca fé — que dizem, em cada geração, e ainda mais na geração em que desponta a luz da salvação: "em que nos amaste?" — é a palavra do Senhor pela mão de Malachi:

אָהַבְתִּי אֶתְכֶם אָמַר ד'... הֲלוֹא אָח עֵשָׂו לְיַעֲקֹב, וָאֹהַב אֶת יַעֲקֹב "Eu vos amei, diz o Senhor... Não era Esav irmão de Yaakov? — e, contudo, amei a Yaakov." Malachi (Malaquias) 1:2

E, em verdade: "com amor eterno e grande amor nos amaste, Senhor nosso D'us; com grande e excessiva compaixão te compadeceste de nós" — como dizemos na bênção que precede o Shemá, e que se sela com "Aquele que escolhe o seu povo Israel com amor", e com o pedido: "escolheste-nos de todo povo e língua, para te agradecer e te unificar com amor". Pois a verdade clara é o que disseram todas as tribos [a Yaakov]:

כְּשֵׁם שֶׁאֵין בְּלִבְּךָ אֶלָּא אֶחָד, כָּךְ אֵין בְּלִבֵּנוּ אֶלָּא אֶחָד "Assim como no teu coração só há Um, assim no nosso coração só há Um." Talmud, Pessachim 56a

E, ainda que a realidade aparente às vezes pareça contradizê-lo, isso não é nada — pois "Yaakov, nosso pai, não morreu": como a sua descendência está viva, também ele está vivo; e "vós, que vos apegais ao Senhor, vosso D'us, estais todos vivos hoje" (Devarim 4:4). "Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a iniquidade de Israel, e ela não existirá; e os pecados de Yehudá, e não se acharão — pois perdoarei àqueles que eu deixar [como remanescente]" (Yirmiahu 50:20).

A tarefa do sábio não é cercar os puros, mas revelar a luz oculta em cada um.

O fecho responde à dúvida de sempre — "em que nos amaste?" — com o verso de Malachi: "Eu vos amei". Para o Rav Kook, esse amor é a verdade mais funda, mesmo quando "a realidade aparente parece contradizê-la"; e a prova é a unidade do coração de Israel, herdada de Yaakov ("no nosso coração só há Um"). Por isso fomos escolhidos, diz a liturgia, "para unificar [a D'us] com amor" — e a unificação de D'us começa pela unificação do povo. Dividir Israel é, no fundo, tornar mais difícil dizer "o Senhor é Um".

Não Afastar, mas Elevar: o fogo do amor e as centelhas dispersas

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é breve e luminosa: sobre a união do amor natural com o fogo sagrado, e sobre como tratar aquilo que parece "secular". O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Dois fogos, uma só chama

O fogo do amor natural pela nação e pela sua revivência — que cresce na Terra de Israel e por meio da Terra de Israel — há de acender-se, no orgulho da sua força, juntamente com o fogo de D'us, o fogo sagrado, de toda a pureza da fé, em todo o seu vigor e poder.

As centelhas dispersas voltam

As centelhas dispersas da fé divina — e todas as suas muitas consolações e despertares para a moral e a retidão, para a coragem e a esperança, para a paz e o consolo eterno —, que já se espalharam entre muitas nações grandes e poderosas por meio da nossa dispersão entre os povos, e por meio da difusão das crenças que brotam da fonte das Escrituras Sagradas, vão e voltam a nós: reúnem-se no nosso tesouro, recolhem-se mais uma vez na Comunidade de Israel, e retornam à vida por meio de uma multidão de almas novas de "um povo que será criado".

Eis um dos lances mais universalistas do Rav Kook, e ele lê a história inteira como um circuito de luz. A fé de Israel, dispersa pelo exílio e pela difusão das Escrituras, semeou entre "muitas nações grandes" os seus frutos — a moral, a justiça, a esperança, a paz. E agora, no renascimento, essas mesmas centelhas voltam, regressam à sua fonte. O exílio não foi só perda: foi também uma sementeira; e o que se espalhou pelo mundo enriquece, no regresso, a própria casa de onde saiu.

Não afastar, mas elevar

Longe de nós bloquear o caminho diante da luz da vida! Não nos alarmemos se as correntes parecem, no seu exterior, diferentes [da fé] — pois a luz de D'us brilha nelas, o espírito de D'us paira nelas.

אוֹר ד' מֵאִיר בָּהֶם, רוּחַ ד' נוֹסְסָה בָּהֶם "A luz do Senhor brilha neles; o espírito do Senhor paira neles." Rav Kook, Orot — Luzes do Renascimento, §22

O nacionalismo secular pode contaminar-se de muita escória, sob a qual se escondem muitos espíritos maus; mas não é afastando-o da alma da geração que havemos de vencer — e sim com um esforço vigoroso de trazê-lo à sua fonte suprema, de uni-lo à santidade de origem da qual ele [próprio] brota.

O segredo não é afastar a chama secular, mas reconduzi-la à sua fonte.

É a marca do Rav Kook diante da modernidade. Onde muitos viam no anseio nacional secular apenas uma ameaça a combater, ele enxerga uma luz desgarrada da sua fonte — uma chama que arde, ainda que "no exterior" pareça profana. A resposta não é repelir; é elevar: reconduzir essa energia à raiz sagrada de onde, no fundo, ela mesma provém. Combater o anseio é apagá-lo; reconduzi-lo é redimi-lo.

Ver Só o Bem: o amor sem limites por cada filho de Israel

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma das mais belas expressões do amor a Israel (ahavat Yisrael) do Rav Kook — e do seu modo de chamar de volta: pelo amor, e não pela acusação. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Feliz de quem se vê como parte do todo

Feliz do homem que se considera como um resto [algo secundário] diante de toda a Comunidade de Israel, que é a herança de D'us — [feliz de quem sente] que todos os pensamentos do seu coração, as suas meditações, o seu desejo e a sua aspiração, a sua fé e a sua ideia, não são senão um único anseio oculto: ser inteiramente incluído neste tesouro de vida. É o reconhecimento interior de que somos ramos de uma árvore de vida de muitos galhos e fruto abundante — e de que, quanto mais nos enraizamos no corpo da árvore, mais vivemos a vida mais plena e mais viçosa, no presente e na eternidade. É isto — e só isto — que conduzirá a revivência da nação ao seu alvo, e que apressará o fim por que ansiamos, dando-nos força de salvações.

Ver só o bem em cada alma

E o remanescente que o Senhor chama — os piedosos da geração, os santos supremos — não deve olhar para nenhum defeito, para nenhum lado negativo de qualquer alma em Israel que se mantenha ligada, por algum laço, à rocha de onde foi tirada; mas sim elevar o ponto geral [bom] que há em cada alma particular, ao auge da sua altura e da elevação da sua santidade. O amor sem limites pela nação — a mãe da nossa vida — não pode ser diminuído por causa nenhuma, nem por fracasso algum no mundo:

לֹא הִבִּיט אָוֶן בְּיַעֲקֹב, וְלֹא רָאָה עָמָל בְּיִשְׂרָאֵל; ד' אֱלֹהָיו עִמּוֹ "Ele não contemplou iniquidade em Yaakov, nem viu perversidade em Israel; o Senhor, seu D'us, está com ele." Bamidbar (Números) 23:21

Aqui está o coração do ahavat Yisrael do Rav Kook, e é uma escola de olhar. O dever do santo não é catalogar os defeitos dos outros — é procurar o ponto bom em cada alma e elevá-lo. O modelo é o próprio olhar divino, que "não contemplou iniquidade em Yaakov": não porque o mal não exista, mas porque o amor verdadeiro busca, em cada pessoa, a centelha que a liga à sua raiz. Ver o bem não é ingenuidade; é a forma mais alta de enxergar.

Acima da acusação que divide

Erguemo-nos acima de todos os pensamentos de acusação de uma compreensão superficial — aquela que se agarra a certas máximas e ditos isolados, e por meio deles desperta a ira e o ódio entre irmãos. E, cheios de boa vontade e embebidos do orvalho de bondades poderosas, voltamos a abraçar, com braços de amor, toda a alma da casa de Yaakov — que deseja ver a alegria da nossa nação e gloriar-se com a nossa herança.

Chamar ao retorno — por amor

É justamente a partir do amor fiel, dos sentimentos de honra mais devotados, com todo o calor do espírito e da alma, que vimos proclamar o retorno (teshuvá) à Torá e à mitsvá, ao sagrado e à fé, à herança dos pais e à tradição antiga, à luz do Senhor, D'us de Israel, que desponta sobre o seu povo e a sua terra para sempre, no orgulho da sua força. Afastemo-nos de todo rancor; elevemo-nos acima de toda pequenez de mente e de coração; subamos para além de todo ódio e contenda; absorvamos o amor viçoso da fonte do seu deleite; enxertemos os ramos da bondade sobre as raízes do saber, o esplendor da liberdade sobre a glória do retorno e da fidelidade — a honra dos pais e dos mestres que pertence a um povo antigo, nobre e firme. A esta revivência firme somos chamados, e a ela viremos; a amada terra dos pais, terra de vida para nós, ela nos preparará para esta elevação das elevações; o nosso D'us, eterno e perpétuo, Ele nos guiará para além da morte.

O dever do santo não é catalogar defeitos — é elevar o ponto bom em cada alma.

O fecho é, talvez, a mais clara recusa de Rav Kook à religiosidade da ira. Quem usa "máximas e ditos isolados" para acender "o ódio entre irmãos" entendeu mal a Torá. O verdadeiro chamado ao retorno nasce do amor, não da acusação — "a partir do amor fiel… vimos proclamar a teshuvá". E a imagem final é de enxertia: a bondade sobre o saber, a liberdade sobre a fidelidade. Não se traz ninguém de volta a D'us por medo ou desprezo; traz-se pelo abraço — "com braços de amor".

O Espírito Não Foge do Mundo: a obra prática como corpo de Torá

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma das mais claras afirmações do Rav Kook de que a santidade não foge da vida concreta — abraça-a. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A força espiritual fortalece a vida

O fortalecimento espiritual supremo reforça os conteúdos práticos e intensifica o interesse pelo mundo, pela vida e por tudo o que neles há.

O ascetismo foi do exílio

Somente no tempo da destruição — e perto dela —, quando a força de Israel foi arrancada da sua terra e teve de reconhecer a sua missão apenas na sua posição espiritual abstrata, é que se enraizou em alguns indivíduos uma orientação para a renúncia (perishut): abster-se da vida do instante (chayei sha'á) em favor da vida eterna (chayei olam). E mesmo contra isto saiu um protesto celeste.

Eis um ponto que distingue o Rav Kook de toda uma corrente da espiritualidade. O ascetismo — o abandono dos prazeres e dos afazeres do mundo "pela vida eterna" — não é, para ele, o ideal: foi uma adaptação ao exílio, quando a nação, sem terra e sem vida pública, só podia viver a sua vocação "no abstrato". E ele acrescenta algo ousado: até contra essa renúncia "saiu um protesto celeste". O Céu não quer que o homem fuja da vida — quer que a santifique.

Os afazeres do mundo são "corpos de Torá"

Mas, quando chegou a vez de construir a nação na sua terra, e a necessidade prática dos arranjos políticos e sociais se tornou parte do programa das obras do conjunto, eis que esses arranjos são, eles mesmos, "corpos de Torá".

הֲרֵי הֵם גּוּפֵי תוֹרָה "...eis que [os arranjos práticos da vida pública] são, eles mesmos, corpos de Torá." Rav Kook, Orot — Luzes do Renascimento, §27

E quanto mais os fatores práticos se expandem e se firmam, mais o espírito cheio de santidade e de vida verdadeira atua sobre o mundo e sobre a vida — e a luz de Israel iluminará a face do mundo em toda a sua plenitude.

A santidade não foge dos afazeres do mundo — entra neles, e neles se torna "corpo de Torá".

A Santidade na Natureza, não Contra Ela

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) leva mais fundo a ideia da anterior: a forma mais alta de santidade não combate a natureza, mas a santifica. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Duas santidades

A santidade que há na natureza é a santidade da Terra de Israel; e a Presença Divina (Shechiná) que desceu ao exílio com Israel é a capacidade de manter a santidade contra a natureza. Mas a santidade que luta contra a natureza não é uma santidade completa: ela precisa de ser absorvida, na sua essência suprema, na santidade superior — que é a santidade na própria natureza —, a qual é o fundamento da reparação de todo o mundo e do seu pleno "adoçamento". E a santidade do exílio será unida à santidade da Terra: "as sinagogas e as casas de estudo da Babilônia estão destinadas a fixar-se na Terra de Israel".

עֲתִידִין בָּתֵּי כְנֵסִיּוֹת וּבָתֵּי מִדְרָשׁוֹת שֶׁבְּבָבֶל שֶׁיִּקָּבְעוּ בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל "As sinagogas e as casas de estudo da Babilônia estão destinadas a fixar-se na Terra de Israel." Talmud, Meguilá 29a

Quando a guerra cessa

Quando se chega a esta compreensão suprema da santidade completa que há na natureza — a qual inclui em si também a santidade que está acima da natureza e a que se opõe a ela —, então a guerra cessa por inteiro: a medida do rigor (din) adoça-se, e tudo se inclina para a bondade (chesed).

Quando a santidade deixa de combater a natureza e passa a habitá-la, a guerra cessa.

Um santo habita em ti

Todas as forças que há no ser humano aparecem, então, na sua refinada elevação, tal como são na sua natureza — e eis que são santas, e aptas à mais alta elevação; e a luz que está acima da natureza permanece guardada dentro delas, para o momento da necessidade. E a pessoa sente em si uma liberdade de doçura sagrada, e "mede-se a si mesma como se um santo habitasse no seu interior, como está dito: 'o Santo, no meio de ti'".

כִּי אֵל אָנֹכִי וְלֹא אִישׁ, בְּקִרְבְּךָ קָדוֹשׁ "Pois eu sou D'us, e não homem; o Santo, no meio de ti." Hoshea (Oseias) 11:9

Eis o coração da visão integradora do Rav Kook. A santidade do exílio era uma guerra: manter o sagrado apesar da natureza, contra os instintos e a vida do corpo. É santidade real — mas incompleta, porque deixa o mundo do lado de fora. A santidade plena é outra: a que reconhece o sagrado na própria natureza, e por isso não precisa combatê-la. Aí "a guerra cessa", o rigor torna-se bondade, e as forças naturais do ser humano aparecem como o que são na raiz — santas. Não é uma santidade que reprime a vida; é uma que a liberta. E o seu sinal é uma estranha leveza: sentir que "um santo habita dentro de ti".

A Beleza do Céu que o Exílio Velou: o poeta e a natureza

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma rara reflexão do Rav Kook sobre a estética — sobre por que a beleza da natureza se vela na existência ferida do exílio, e como o renascimento a desvela. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A beleza que o poeta não alcança

A natureza não se revela ao poeta israelita em todo o seu esplendor e beleza, por causa da fratura da nação e do seu afastamento da vida natural sã. E, se um poeta talentoso quiser entregar-se à natureza apesar da queda da nação, só conseguirá afundar-se no lado grosseiro e sensível dela; mas a sua beleza celeste não poderá sentir em toda a sua bondade e no esplendor do seu fulgor. Pois, assim que quiser erguer-se à esfera espiritual, sentirá a fratura da nação, e o seu espírito se calará — ao passo que, na imersão sensorial, pode às vezes esquecer, por um momento, o estado presente da nação.

O céu não se vê em sua pureza

מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ לֹא נִרְאָה רָקִיעַ בְּטָהֳרָתוֹ "Desde o dia em que o Templo foi destruído, o céu não se viu em sua pureza" — como está dito: "visto os céus de negrume, e ponho-lhes por cobertura o saco" (Yeshayahu 50:3). Talmud, Berachot 59a

O renascimento devolve o olhar

O renascimento nacional, que se reconhece na construção da Terra, quando é tomado junto com a sua fonte viva, já pode restituir impressões dignas do fulgor espiritual do esplendor da natureza — até que nasça a possibilidade de contemplar não só a sua face terrena, mas também o seu fulgor celeste, numa certa medida, proporcional às centelhas de luz do renascimento que se desenvolve.

Quando a alma do povo se reergue, o céu volta a ver-se em sua pureza.

Uma intuição rara e delicada: a beleza não é só uma questão de olhos, mas de inteireza. O Rav Kook distingue dois níveis na natureza — a sua face sensível (que qualquer um pode fruir, e na qual se pode até "esquecer" a dor) e o seu fulgor celeste (o sentido espiritual que reluz através dela). E observa que uma alma ferida — a de um povo fraturado — sente, ao subir a esse nível mais alto, a sua própria fratura, e emudece. Por isso a cura é coletiva: à medida que a vida nacional se reergue, ligada à sua fonte, o olhar volta a alcançar "o céu em sua pureza". A estética, aqui, é filha da redenção.

A Santidade do Ginásio: o corpo dos jovens e a luz divina

Esta é, talvez, a seção mais célebre e surpreendente das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá): o Rav Kook chama de "serviço sagrado" o exercício físico dos jovens que reconstroem a nação. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

O ginásio como serviço sagrado

O exercício físico (hit'amlut) que os jovens de Israel praticam na Terra de Israel, para fortalecer o corpo a fim de serem filhos fortes para a nação, aperfeiçoa a força espiritual dos justos supremos — daqueles que se ocupam das unificações (yichudim) dos Nomes sagrados, para aumentar a manifestação da luz divina no mundo. Pois a revelação de uma luz não se sustenta, de modo algum, sem a sua companheira.

O jogo que constrói, não o que destrói

Sobre o rei David diz a Escritura: "e David fez [para si] um nome" (II Shmuel 8:13), "e David fazia juízo e justiça a todo o seu povo" (8:15), "e Yoav, filho de Tzeruyá, sobre o exército" (8:16). E Avner só foi punido porque "fez do sangue dos jovens um jogo" (Talmud Yerushalmi, Pe'á 1:1) [ao deixar que rapazes se matassem num duelo]. Mas que os jovens "brinquem" [se exercitem] para fortalecer a sua força e o seu espírito, em favor da força da nação como um todo — este serviço sagrado eleva a Presença Divina cada vez mais alto, como a sua ascensão pelos cânticos e louvores que David, rei de Israel, proferiu no livro dos Salmos.

A alma por dentro, o corpo por fora

Só que, pelas intenções supremas [dos justos], ascende a alma interior; e, pelos atos que fortalecem o corpo dos indivíduos em favor do todo, ascende a espiritualidade exterior. E ambos, como um só, aperfeiçoam todas as ordens das santidades — fazendo sobressair o caráter da nação naquele pequeno versículo do qual dependem todos os fundamentos da Torá:

בְּכָל דְּרָכֶיךָ דָעֵהוּ, וְהוּא יְיַשֵּׁר אֹרְחֹתֶיךָ "Em todos os teus caminhos, conhece-O, e Ele endireitará as tuas veredas." Mishlei (Provérbios) 3:6
A alma sobe pelas intenções dos justos; o corpo, pela força dos jovens — e ambos elevam a mesma luz.

As imperfeições e a purificação

E não cause espanto se há deficiências no modo de vida dos que se dedicam ao fortalecimento corporal e a todos os reforços terrenos em Israel. Pois até a aparição do espírito de santidade precisa de ser depurada das mistura de partículas de impureza que nela se entremeiam; e ela vai-se purificando, santificando e esclarecendo, resgatando-se do seu exílio — até chegar ao "caminho dos justos: uma luz que vai brilhando mais e mais, até ser dia perfeito".

וְאֹרַח צַדִּיקִים כְּאוֹר נֹגַהּ, הוֹלֵךְ וָאוֹר עַד נְכוֹן הַיּוֹם "E a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais, até ser dia perfeito." Mishlei (Provérbios) 4:18

É uma das frases mais célebres — e mais chocantes para o seu tempo — do Rav Kook: o ginásio dos jovens pioneiros como "serviço sagrado" que eleva a Shechiná. A lógica é a sua de sempre: nenhuma luz se sustenta sem a sua companheira. A santidade não é só a alma do místico; é também o corpo são de um povo que se reergue. Por isso "em todos os teus caminhos, conhece-O" — não só na prece, mas no esforço físico feito pelo bem do todo. E note-se a generosidade do fim: ainda que haja "deficiências" entre os que se ocupam do corpo e da terra, isso é parte de uma purificação em curso — uma luz que ainda cresce. Ele não condena os construtores seculares; vê neles uma santidade que ainda se depura, "até ser dia perfeito".

Semente de Homem, Semente de Animal: os dois tipos do renascimento

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) descreve os dois tipos humanos de que o renascimento precisa — e por que um não pode dispensar o outro. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Semente de homem e semente de animal

A ordem da redenção e da revivência da nação na Terra de Israel há de seguir os moldes da profecia: "e semearei a casa de Israel e a casa de Yehudá com semente de homem e semente de animal" — "semente de homem à parte, e semente de animal à parte".

וְזָרַעְתִּי אֶת בֵּית יִשְׂרָאֵל וְאֶת בֵּית יְהוּדָה זֶרַע אָדָם וְזֶרַע בְּהֵמָה "E semearei a casa de Israel e a casa de Yehudá com semente de homem e semente de animal." Yirmiahu (Jeremias) 31:26

A perfeição da forma tem de ser criada. As almas inclinadas à construção prática — ao assentamento da terra e à aspiração política — precisam de ser formadas em todos os matizes fortes que essa medida exige; e os homens de almas nobres, da vida do espírito e dos deleites da alma, que dão a conhecer e fazem raiar a luz suprema de D'us sobre a nação e sobre o mundo, também eles devem vir ao ato em toda a sua plenitude. Justamente os tipos plenos [de ambas as espécies] influem bem uns sobre os outros, e juntam-se para criar um grande corpo nacional orgânico, sobre o qual brilha a luz de uma alma santa, poderosa em força.

O nobre e o prático

A vida nobre e suprema, quando cheia de toda a beleza da sua força, é — de alto a baixo — mais elevada do que a vida da maioria, cujo principal cuidado é reparar a condição econômica; e mesmo o sábio e o escriba dentre eles é, no fim de contas, "da maioria" — terreno e prático, com toda a sua atenção voltada para a vida do tempo e do mundo, sem que se forme no seu espírito um alcance espiritual e universal. Mas o tipo completo dos heróis da nobreza irradia sobre os heróis da materialidade o esplendor da sua santidade, pelos raios de fulgor que deles emanam.

É preciso ler a metáfora do profeta sem a torcer: "semente de animal" não é desprezo, mas a imagem da força natural e prática — os que lavram a terra, erguem a economia, fazem a política; o corpo vivo da nação. "Semente de homem" é a força espiritual — os que trazem a luz, a alma. O Rav Kook não opõe os dois para escolher um: diz que ambos têm de chegar à plenitude e que o nobre "irradia" sobre o prático. Uma nação não se faz só de espírito sem corpo, nem de corpo sem espírito — faz-se da união orgânica dos dois.

Por que o exílio não pôde

O exílio não podia produzir tipos completos: nem uma massa forte — pois [Israel, no exílio] é forçado a tremer ao som de uma folha levada pelo vento —, nem sábios santos no auge do seu vigor — pois, retirada a profecia e ausente o espírito de santidade, mesmo os restos de santidade que ficaram têm as centelhas da sua força escondidas dentro de si, como brasas que se apagam. Agora, porém, o fim já despertou, e a "terceira vinda" [o terceiro retorno a Sião] alvorece.

Um precisa do outro

O tipo da "semente de animal" [os construtores práticos] vai-se formando diante dos nossos olhos; mas ele não poderá chegar à plenitude da sua força — e muito menos absorver o espírito da sua refinação interior e o alvo do seu juntar-se para erguer uma nação firme — senão por meio da "semente de homem" [os de alma nobre], que são chamados a formar-se pela grandeza da força sagrada: "eis-me aqui, eu e os filhos que o Senhor me deu, por sinais e prodígios em Israel" (Yeshayahu 8:18).

Nem espírito sem corpo, nem corpo sem espírito — a nação faz-se da união dos dois.

A Alma do Construtor e o Espírito do Devoto

Esta é uma das seções mais célebres — e mais incompreendidas — das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá). O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Nota de leitura. Esta passagem distingue faculdades, não valores: o Rav Kook usa a antiga divisão entre a nefesh (a alma vital, ligada ao sentimento e à ação no mundo) e o ruach (o espírito, ligado à vida interior e sagrada). Ele não diz que o secular "vale mais" que o observante — diz que cada lado desenvolveu uma faculdade diferente, e que a redenção é a reparação mútua, em que cada um dá ao outro o que lhe falta. É, no fundo, mais um apelo à unidade (ahavat Yisrael).

A alma do construtor, o espírito do devoto

A nefesh (a alma) daqueles que se desviaram em Israel, nos "calcanhares do Mashiach" — os que se ligam com amor aos assuntos do conjunto de Israel, à Terra de Israel e à revivência da nação — é mais reparada do que a nefesh dos plenamente fiéis de Israel, que não têm essa vantagem do sentimento próprio pelo bem do todo e pela construção da nação e da terra. Mas o ruach (o espírito) é muito mais reparado nos tementes a D'us e guardadores da Torá e das mitsvot — ainda que o sentimento próprio e o despertar de uma força de ação nos assuntos do todo de Israel não sejam neles tão fortes como são naqueles em quem um "espírito de desvario" interior lhes turva o coração, a ponto de se prenderem a ideias estranhas e a atos que mancham o corpo e impedem a luz do ruach de se reparar — e, com isso, também a nefesh sofre dos seus defeitos.

Eis a anatomia da alma que o Rav Kook propõe. Os construtores seculares, no seu amor pelo povo e pela terra, desenvolveram a nefesh — a ligação viva, sentida, ativa ao destino do todo. Os observantes, na sua fidelidade, desenvolveram o ruach — a vida espiritual, a luz interior. Cada um tem uma metade, e cada metade está ferida na sua outra parte: o secular tem o ruach prejudicado; o devoto, a nefesh menos desperta para o coletivo. Nenhum está inteiro.

A reparação mútua

A reparação que virá pela luz do Mashiach — muito ajudada pela difusão do estudo dos segredos da Torá e da revelação das luzes da sabedoria de D'us, em todas as formas dignas de serem reveladas — é esta: que Israel se torne um só feixe (agudá achat). A nefesh dos tementes e guardadores da Torá será reparada pela inteireza da nefesh que há nos "bons transgressores", no que toca aos assuntos do todo e à esperança — material e espiritual — alcançada pela percepção e pelo sentimento humanos; e o ruach desses [construtores] será reparado pela influência dos tementes a D'us, guardadores da Torá e grandes na fé. E, com isso, virá a uns e a outros uma grande luz, e a aparição de uma teshuvá completa virá ao mundo — e então Israel estará pronto para a redenção.

Os justos, canais que unem

E os justos supremos, os mestres da alma (marei de-nishmata), serão os canais que unem: por eles passará a abundância da luz da nefesh da esquerda para a direita, e a abundância da luz do ruach da direita para a esquerda; e a alegria será imensa:

כֹּהֲנֶיךָ יִלְבְּשׁוּ צֶדֶק, וַחֲסִידֶיךָ יְרַנֵּנוּ "Os teus sacerdotes se vestirão de justiça, e os teus piedosos cantarão de júbilo." Tehillim (Salmos) 132:9

E isto se dará pela força da luz do Mashiach, que é o próprio David — aquele que "ergueu o jugo da teshuvá": "por amor de David, teu servo, não rejeites a face do teu ungido" (Tehillim 132:10).

Cada lado tem uma metade da alma; a redenção é dá-la um ao outro.

É talvez o retrato mais comovente do ahavat Yisrael do Rav Kook. Não há um lado "certo" e um "errado" a ser absorvido: há duas metades de uma só alma nacional, cada uma com a sua luz e a sua ferida. O construtor secular ensina ao devoto a paixão pelo destino do povo; o devoto ensina ao construtor a vida do espírito. E os grandes justos não tomam partido — são os canais por onde cada luz flui para o outro lado. A redenção, aqui, não é a vitória de um campo: é o reencontro de Israel como "um só feixe".

Alargar a Tenda: engajar o mundo a partir da força

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) trata de uma questão sempre atual: como deve Israel relacionar-se com a cultura, a ciência e o saber do mundo? A resposta do Rav Kook depende de uma só palavra — força. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Da força, o mundo é bom

Quando a força de Israel é grande, e a sua alma brilha nele em [plena] manifestação, e os seus ramos práticos estão bem ordenados — numa ordem completa, em santidade, em unidade e bênção, em Templo e governo, em profecia e sabedoria —, então a expansão para o lado do secular: para os deleites dos sentidos espirituais e físicos, para um olhar penetrante e profundo na vida da multidão de povos e nações diversos, nas suas obras e nas suas literaturas, e o fortalecimento do vigor da vida natural — tudo isso é bom, e capaz de alargar a luz do bem. E a "fronteira" [o âmbito permitido] é larga: doze mil, como todo o acampamento de Israel — que, na sua qualidade, de fato abrange o mundo inteiro: "Ele estabeleceu os limites dos povos segundo o número dos filhos de Israel" (Devarim 32:8).

יַצֵּב גְּבֻלֹת עַמִּים לְמִסְפַּר בְּנֵי יִשְׂרָאֵל "Ele estabeleceu os limites dos povos segundo o número dos filhos de Israel." Devarim (Deuteronômio) 32:8

A contração do exílio

Quando a luz escureceu, quando a Presença Divina foi para o exílio, quando os pés da nação foram arrancados da sua casa de vida — começou a exigir-se a contração (tzimtzum). [Então] toda força secular passou a ser um possível tropeço; toda beleza natural e o seu desejo, capazes de obscurecer a luz do sagrado e a simplicidade da pureza e do recato; todo pensamento que não crescera por inteiro dentro do "acampamento de Israel", capaz de arruinar a ordem da fé e da vida israelita — pois "engordou Yeshurun, e deu coices" (Devarim 32:15). Daí vieram a tristeza e a renúncia, a melancolia e o medo; e, mais do que sobre a vida física, eles agiram sobre a vida espiritual — sobre a largura do pensamento, sobre o voo do sentimento.

É importante ler a "contração" como o que ela é: uma medida de emergência do exílio, não o ideal. Sem terra, sem Templo, sem vida pública, a comunidade ferida tinha de se proteger — e toda influência externa era, de fato, um risco. Mas o Rav Kook não romantiza esse encolhimento: observa que ele "agiu sobre a vida espiritual ainda mais do que sobre a física", estreitando a largura do pensamento e o voo do sentimento. A muralha que protege também aperta. E a sua mensagem é clara: o que era necessário na fraqueza não é a vocação da força.

Alargar a tenda

...até que o fim desperte, quando uma voz clama com força:

הַרְחִיבִי מְקוֹם אָהֳלֵךְ, וִירִיעוֹת מִשְׁכְּנוֹתַיִךְ יַטּוּ — אַל תַּחְשֹׂכִי; הַאֲרִיכִי מֵיתָרַיִךְ וִיתֵדֹתַיִךְ חַזֵּקִי "Alarga o lugar da tua tenda, e estendam-se as cortinas das tuas moradas; não o impeças. Alonga as tuas cordas e firma as tuas estacas — pois te estenderás à direita e à esquerda." Yeshayahu (Isaías) 54:2-3

E a "fronteira" curta de dois mil côvados [a medida estreita do exílio] vai-se alargando, na medida da salvação de Israel, cuja luz cresce pouco a pouco.

O que era necessário na fraqueza não é a vocação da força.

A imagem é a do techum, o limite que se pode percorrer no Shabat: estreito (dois mil côvados) no exílio, largo (doze mil) quando a nação está inteira. O recado é confiante: o engajamento com o mundo — as suas ciências, as suas artes, as suas culturas — não é uma traição à santidade quando se faz a partir da força, de uma alma firme e ordenada. Aí, tudo isso "alarga a luz do bem". A muralha do exílio era um abrigo; mas a casa do renascimento tem janelas. E a salvação, lembra o Rav Kook, vem "pouco a pouco" — a tenda alarga-se aos poucos, à medida da luz.

A Sabedoria que Nasce da Inveja Apodrece

Há um ditado célebre dos sábios: "a rivalidade dos escribas multiplica a sabedoria" (kin'at soferim tarbeh chochmá, Bavá Batra 21a) — a competição saudável entre estudiosos faz o saber crescer. Nesta seção breve e cortante das "Luzes do Renascimento", o Rav Kook vira a moeda e mostra o reverso: nem toda sabedoria que cresce assim é pura, e a que brota da inveja traz dentro de si o seu próprio fim. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico (de domínio público).

A sabedoria que apodrece

A sabedoria que se multiplica a partir da rivalidade dos escribas — visto que vem da inveja, o seu fim é apodrecer. E todo apodrecimento tem em si um mau cheiro. É esta a "sabedoria dos escribas que há de feder nos calcanhares do Mashiach" — e, por meio desse apodrecimento, a sua forma anterior se anula.

O Rav Kook não está a condenar o estudo, nem a rivalidade que afia a mente. Ele faz uma distinção sobre a raiz: há a sabedoria que cresce do amor à verdade, e há a que cresce da inveja — do desejo de vencer o outro, de ter nome, de superar. Esta segunda pode parecer brilhante, mas a sua raiz é impura; e o que tem raiz na inveja não dura. "Todo apodrecimento tem um mau cheiro": a erudição feita arena de vaidades acaba por revelar o que a moveu. A imagem talmúdica das "pegadas do Mashiach" (ikvetá diMeshichá) é a do limiar da redenção, quando o velho se desfaz para o novo poder nascer.

A luz da alma da sabedoria

...e começa a brilhar a luz da alma da sabedoria suprema — aquela que está acima de toda inveja, mais alta que a sabedoria dos escribas. É a sabedoria que virá à luz por meio de "um cântico novo e um nome novo, que a boca do Senhor designará".

וְקֹרָא לָךְ שֵׁם חָדָשׁ אֲשֶׁר פִּי ד' יִקֳּבֶנּוּ "E chamar-te-ão por um nome novo, que a boca do Senhor designará." Yeshayahu (Isaías) 62:2

E desta sabedoria diz o profeta:

וִיהִי כַזַּיִת הוֹדוֹ, וְרֵיחַ לוֹ כַּלְּבָנוֹן "E o seu esplendor será como o da oliveira, e o seu aroma como o do Líbano." Hoshea (Oseias) 14:7

O contraste é perfeito e proposital. A sabedoria nascida da inveja tinha "um mau cheiro"; a sabedoria nascida da alma tem o aroma do Líbano. Uma apodrece; a outra perfuma. Onde a primeira competia por um nome, à segunda um nome é dado — pela boca de D'us.

O que tem raiz na inveja apodrece; o que tem raiz na alma perfuma como o Líbano.

Há aqui uma esperança, não um lamento. O Rav Kook lê até a decadência como parte de um processo: quando a forma velha de um saber — a que se sustentava na competição e no orgulho — se desfaz, abre-se espaço para uma forma mais limpa, "acima de toda inveja". Não é o fim da Torá, mas a sua purificação: a mesma sabedoria, livre do que a contaminava, voltando a brilhar com luz de alma. O "cântico novo" e o "nome novo" são as marcas de algo que não se conquista arrancando do próximo, mas que se recebe.

Não Temer a Onda: o renascimento natural e a teshuvá do amor

Diante de um renascimento nacional que crescia em grande parte por mãos seculares, muitos temiam: não seria isso um afastamento da fé? O Rav Kook responde com uma serenidade impressionante. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), a partir do hebraico de domínio público.

De dentro do edifício, um grande espírito

Desenvolver-se-á a colonização na Terra de Israel; será edificado o edifício nacional; e de dentro dele soprará um grande espírito. A alma da nação despertará para a vida; da profundidade da sua natureza reconhecerá toda a sua essência; da imensidão da sua força estabelecerá as ordens da sua própria vida. O espírito singular da nação estabelecerá no mundo a fé em Hashem, o Deus de Israel — e nem é preciso dizer que [a estabelecerá] dentro de si mesma.

O que a fraqueza retém

O desânimo e o enfraquecimento da força, que ora imperam, impedem a glória da fé de aparecer no mundo; retêm o movimento vivo dos preceitos práticos — e o laço da fé divina que há dentro deles — de surgir em todo o seu esplendor. Mas a força interior irromperá como o monte da Brecha [Har Peretz] — como naquele dia em que se disse:

פָּרַץ ד' אֶת אֹיְבַי לְפָנַי כְּפֶרֶץ מָיִם "Rompeu o Senhor os meus inimigos diante de mim, como uma irrupção de águas." II Shmuel (Samuel) 5:20 — donde o lugar se chamou "Baal-Peratzim", o senhor das brechas

E a vida israelita — por uma necessidade interior e por um reconhecimento livre, ao mesmo tempo — dará a si mesma a feição que lhe é própria. E essa feição, natural a ela, é justamente a que trará a grande teshuvá: a teshuvá do amor, sem queda alguma de ordem material — mas um retorno interior, que jorra da profundidade da verdade na luz de vida da alma.

אֶרְפָּא מְשׁוּבָתָם, אֹהֲבֵם נְדָבָה "Sararei a sua infidelidade, amá-los-ei livremente." Hoshea (Oseias) 14:5

A distinção é decisiva. Há a teshuvá do medo — que nasce da queda, do golpe, da catástrofe; e há a teshuvá do amor — que nasce da plenitude, quando a alma, em vida e em força, reconhece de dentro a verdade. O Rav Kook anuncia esta segunda: o renascimento não trará o retorno por meio de um colapso, mas porque a própria vida nacional, ao florescer na sua forma natural, fará jorrar a verdade que sempre esteve nela. O retorno não é punição; é maturação.

Não temer a onda

Não há por que se afligir, em absoluto, com as correntes do espírito nacional natural que vai crescendo e rugindo. Até mesmo as avarias que ele causa no seu percurso — terminarão, ao fim, por chegar à condição de construção e reparo.

Até as avarias da onda terminarão em construção e reparo.

Eis o coração do otimismo do Rav Kook diante do sionismo secular do seu tempo. A onda do renascimento nacional pode parecer turva, profana, até destrutiva em certos pontos — e ele não nega que haja "avarias" no caminho. Mas lê o movimento inteiro como um processo cujo sentido é a construção: a força que rompe a barragem é a mesma que irrigará o campo. Quem teme a onda esquece de onde ela brota. A serenidade aqui não é ingenuidade — é a confiança de quem vê a fonte divina escondida dentro até do que ainda não a nomeia.

A Luz Oculta: D'us no renascimento que ainda não O nomeia

Se o renascimento nacional é, em grande parte, secular e voltado à terra — onde está D'us nele? A resposta do Rav Kook é das mais profundas de toda a sua obra: Ele está dentro, oculto, presente em tudo o que vive e se ergue, ainda que ninguém o pronuncie. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

O olho na terra, ainda não no céu

O caráter da redenção que vem diante de nós — cujos primeiros passos já sentimos e percebemos — está na interioridade de Knesset Israel [a comunidade de Israel]. Desenvolve-se a nação, em todas as suas forças; faz crescer o seu espírito, a sua natureza e a sua própria identidade; mas ainda não reconhece a profundidade do Ser supremo que é todo o fundamento do seu reerguer-se. O seu olho está na terra, e ao céu ainda não olha. Ainda não retornou, de fato, ao "seu primeiro esposo"; trabalha a sua vida com as forças que se encontram nas raízes da sua alma.

"Retornar ao primeiro esposo" é a imagem do profeta Hoshea (2:9) para Israel que volta a D'us. O Rav Kook está a descrever, sem ilusão, o estado real do renascimento do seu tempo: uma nação que reergue a sua vida com energia, coragem e talento — mas sem dirigir conscientemente esse esforço ao Alto. Olha para a terra (a construção, a agricultura, a defesa, a língua) e ainda não levanta os olhos ao céu. O notável é o que ele dirá a seguir: esse estado não é o oposto da santidade — é santidade que ainda não se reconheceu.

Tudo, em verdade, é luz de D'us

Em verdade, mesmo sem chamar por um nome, mesmo sem um alvo declarado, tudo é a luz de D'us e a Sua glória. Mas nem ela nem o mundo reconhecem isto com clareza: o nome do Céu não corre na sua boca; persegue coragem e bravura — e, contudo, na verdade, tudo é sagrado e divino. Só quando o conteúdo se completar, quando a nação subir ao ápice da sua condição, então começará a revelar-se uma luz divina chamada pelo Nome Explícito; será revelado e visto que tudo o que iluminou e tudo o que iluminará, tudo o que nela vive e viverá — tudo é a luz divina do mundo, o Deus de Israel.

וְזֶה שְּׁמוֹ אֲשֶׁר יִקְרְאוֹ: ד' צִדְקֵנוּ "E este é o nome pelo qual o chamarão: O Senhor, nossa justiça." Yirmiyahu (Jeremias) 23:6
וְשֵׁם הָעִיר מִיּוֹם: ד' שָׁמָּה "E o nome da cidade, desde aquele dia, será: O Senhor está ali." Yechezkel (Ezequiel) 48:35
O nome do Céu ainda não corre na sua boca — e, contudo, tudo nela é sagrado e divino.

D'us que vem ao encontro

Este estado de redenção é o fundamento da visão dos mestres do oculto: que Knesset Israel não [apenas] voltará ao seu lugar no porvir, mas que o Santo, bendito seja, e todas as Suas hostes virão a ela, e a erguerão do pó com grande honra. Feliz o olho que viu tudo isto; e ao ouvir-se a notícia, a nossa alma se alegrará na esperança.

O tempo das dores

E a duração do tempo que passa entre as manifestações especiais, concentradas em Knesset Israel, até que apareça a luz da glória de Israel — para que se saiba que o nome de D'us é invocado sobre ela —, é o tempo das dores do Mashiach (chevlei Mashiach). Dele, só um homem de força firme como Rav Yossef ousava dizer — em contraste com todos os que diziam "venha [o Mashiach], mas que eu não o veja": "venha, e que eu mereça sentar-me à sombra do esterco do seu jumento" (Sanhedrin 98b).

O fecho é uma lição de coragem. Os "tempos das dores do Mashiach" — o intervalo turbulento entre o despertar e a plena revelação — assustavam mesmo grandes sábios, que preferiam não vivê-los. Rav Yossef respondeu com uma frase de bravura quase rude: que venham as dores, contanto que eu esteja lá. O Rav Kook cita-o como modelo: a quem entende que toda a luz já está presente, oculta, na construção em curso, o turbilhão não amedronta. Quem vê a fonte divina escondida no processo não foge das dores do parto — quer apenas estar presente quando a luz for, enfim, chamada pelo seu nome.

O Amor à Nação que Amadurece em Amor à Torá

Como olhar para quem ama o povo de Israel com toda a alma, mas vive distante da Torá? Muitos responderiam com julgamento. O Rav Kook responde com uma metáfora agrícola — e com uma paciência cheia de esperança. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), a partir do hebraico de domínio público.

O amor que se inflama pela Torá

Quando o amor à nação se fortalece, ele se inflama pela Torá de Israel, a amá-la tanto no estudo quanto na prática. E o desejo que se vai desenvolvendo conduz a um amor que torna vívida [que faz sobressair] a atenção aos pormenores, e aos pormenores dos pormenores — tanto no estudo do Talmud quanto no cumprimento prático.

A tese é forte e contra-intuitiva: o amor genuíno ao povo não fica indiferente à Torá do povo — pelo contrário, acaba por se apaixonar até pelos seus mínimos detalhes. Para o Rav Kook, amar Israel e amar a Torá de Israel não são dois amores que competem, mas um só amor em dois graus de maturidade. Quanto mais fundo o primeiro, mais inevitavelmente floresce o segundo.

O dever do justo: atiçar o fogo

E todo justo deve fortalecer, em si mesmo e no mundo, o fogo do amor à nação em Israel, e intensificá-lo por todos os meios de influência que há no mundo. E que esteja certo de que, no fim de tudo, este amor universal há de chegar ao amadurecimento pleno do seu fruto — até gerar a sua descendência: a saber, os atos, as virtudes e as ideias de toda a Torá inteira, em toda a sua plenitude e bondade.

Note-se o papel do justo: não condenar o amor nacional ainda imaturo, mas fortalecê-lo — "por todos os meios de influência que há no mundo". O tzaddik é um jardineiro, não um juiz. Confia que a planta dará fruto e cuida do fogo que a faz crescer. E o "fruto" não é vago: são os atos (a mitsvá), as virtudes (a middá) e as ideias (a de'á) — a Torá inteira, brotando do amor amadurecido.

Um amor ainda verde

E tudo o que vemos — que há pessoas que se proclamam cheias de amor a Israel, e cujo coração, no entanto, está longe da Torá, do seu estudo e do seu cumprimento — é porque o seu amor ainda está verde [imaturo]: "e as nossas vinhas estão em flor".

הַתְּאֵנָה חָנְטָה פַגֶּיהָ וְהַגְּפָנִים סְמָדַר נָתְנוּ רֵיחַ "A figueira já formou os seus figos verdes, e as vides em flor exalam o seu perfume." Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 2:13 — smadar: a uva ainda em flor, antes de amadurecer

O smadar não é uma fruta falsa — é uma fruta que ainda não chegou ao ponto. Já tem perfume, já promete; só lhe falta o tempo. Assim é, para o Rav Kook, o amor a Israel que ainda não se voltou à Torá: não é hipocrisia, é juventude.

וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Vayikrá (Levítico) 19:18 — que Rabi Akiva chamou "um grande princípio da Torá"
Não é hipocrisia — é juventude. O fruto verde já tem perfume; só lhe falta o tempo.

Esta é uma das chaves do otimismo do Rav Kook diante dos construtores seculares do seu tempo. Onde outros viam contradição — "como amam Israel e não guardam a Torá?" —, ele via um único processo em curso. O amor deles é real; está apenas no estágio da flor. E o trabalho de quem ama a Torá não é arrancar a flor por não ser ainda fruto, mas regar a videira — confiante de que "no fim de tudo" o smadar se tornará vindima.

A Unidade Escondida sob as Brigas

A tradição descreve o período que antecede a redenção — os "calcanhares do Mashiach" — como uma era de atrito, em que "a insolência cresce" (Sotá 49b). Seria de esperar, então, que fosse uma época de fragmentação. O Rav Kook lê exatamente o oposto, e o que segue é uma tradução inédita ao português desta breve e luminosa seção, a partir do hebraico de domínio público.

Quando a unidade cresce

Próximo aos calcanhares do Mashiach [o limiar da redenção], multiplica-se no povo a segulá da unidade [a qualidade interior, o dom da unidade]. As boas obras, as ideias e a luz divina que se encontram nos justos agem sobre a santidade do todo mais do que nos demais tempos.

Eis a primeira surpresa: justamente na época mais turbulenta, a capacidade de unidade do povo aumenta, e a influência dos justos sobre o coletivo torna-se mais poderosa do que em tempos serenos. Não é que a discórdia seja boa — é que, por baixo dela, uma corrente mais funda de unidade está a crescer com força inédita. A superfície engana.

O tesouro debaixo das disputas

Esta segulá está enterrada num tesouro de acusação e de disputas — mas o seu interior é revestido de amor e de uma unidade admirável, que desperta um sentimento coletivo de espera pela salvação de toda a nação.

תּוֹכוֹ רָצוּף אַהֲבָה "O seu interior é revestido de amor." Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 3:10 — dito do trono de Salomão; aqui, do coração do povo

A imagem é exata. Por fora, o "tesouro" tem a aparência áspera da katigoria — a acusação, a recriminação, a rixa. Mas, como o trono do rei no Cântico, "o seu interior é revestido de amor". As brigas são a casca; o amor é o âmago. E o sinal de que o âmago está vivo é justamente este: que, em meio a tudo, desperta no povo inteiro uma mesma esperança — a espera pela salvação de todos.

הִנֵּה מַה טּוֹב וּמַה נָּעִים שֶׁבֶת אַחִים גַּם יָחַד "Eis quão bom e quão suave é os irmãos viverem unidos." Tehillim (Salmos) 133:1
As brigas são a casca; o amor é o âmago.

Há aqui um modo inteiro de olhar para um povo dividido. Em vez de medir a unidade pela ausência de conflito, o Rav Kook ensina a procurá-la por baixo do conflito — no fato de que todos, mesmo brigando, querem o bem do mesmo povo e esperam a mesma salvação. A discórdia barulhenta pode até esconder uma comunhão profunda que cresce em silêncio. Quem só vê a casca conclui pela desunião; quem conhece o âmago sabe que, "perto dos calcanhares do Mashiach", a unidade nunca esteve tão forte.

O Deus Próximo e o Deus Estranho: conhecer D'us é amá-lo

Esta é a seção de abertura das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), e nela o Rav Kook põe o fundamento de tudo o que virá: o que é, afinal, conhecer D'us? A resposta abre um caminho que vai da metafísica ao coração — e do coração ao renascimento de um povo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

Conhecer D'us é conhecer a sua relação com o mundo

O entendimento mais pleno e mais doce do conhecimento da Divindade é o reconhecimento da relação divina com o mundo em geral, e com cada um e cada um dos seus pormenores, os materiais e os espirituais — tal como a relação da alma (o lado espiritual que dá vida e que preenche de luz a existência e o florescer) com o corpo, com aquilo de que a vida precisa para a sua iluminação e o seu florescer. Esta relação, quando se enche no coração e na alma, enche-os de amor mais do que de temor, e da suavidade da contemplação e da serenidade, mais do que da amargura do estremecimento.

Eis, em uma frase, toda uma teologia. Conhecer D'us não é alcançar uma definição abstrata, mas perceber a sua relação viva com tudo — como sentimos a alma animar o corpo. E há uma consequência afetiva precisa: quem conhece D'us assim ama-O antes de temê-lo. O temor não desaparece, mas torna-se "temor da exaltação" — reverência serena —, e não o pavor que amarga. O conhecimento verdadeiro adoça.

Fácil no indivíduo, difícil no coletivo

Na vida do indivíduo, é fácil chegar a esta medida — pela melhoria da moral prática e intelectual, e pela elevação da luz do conhecimento em geral. Quando o caráter humano se relaciona com simpatia para com o sublime, para com o bem absoluto, no intelecto e na vida, imediatamente este reconhecimento anímico da Divindade nele se enraíza, é absorvido em todos os seus pensamentos e funde-se com todos os seus sentidos e sentimentos, para os refinar.

Mas o organismo coletivo — que tem uma psicologia própria — só recebe esse reconhecimento na medida em que, na sua mais funda profundidade, também ele se incline a uma simpatia moral superior, e o amor do bem nobre esteja bem gravado na sua natureza, por escolha sua ou ao menos por herança dos seus pais. Onde isso acontece, o reconhecimento anímico difunde-se belamente também no seio da nação, e a suavidade do amor divino, com um temor de exaltação doce e bem-ordenado, repousa sobre a coletividade e endireita todos os seus caminhos.

O deus estranho

Mas, na medida em que a psicologia de um coletivo está distante da afeição interior pelo bem absoluto, nessa medida a relação anímica não consegue penetrar nele no que toca ao divino — e o laço com a Divindade é forçado a ser, nele, um laço estrangeiro: D'us torna-se ali um "deus estranho, um deus alheio". E a esse deus estranho o coletivo atribui traços bizarros e caricaturais, que distorcem a vida muito mais do que poderiam endireitá-la.

לֹא יִהְיֶה בְךָ אֵל זָר, וְלֹא תִשְׁתַּחֲוֶה לְאֵל נֵכָר "Não haja em ti deus estranho, nem te prostres diante de deus alheio." Tehillim (Salmos) 81:10

Por isso ainda vemos, em muitos coletivos, sinais de crueldade e de tirania, e a própria substância da moral a dissolver-se, abandonada do coração comum. A cultura ainda não chegou, por ora, a preparar no fundo da alma dos organismos coletivos uma simpatia divina pelo bem absoluto.

Nota de contexto

É importante ler bem o que aqui se diz. O Rav Kook não está a julgar o valor dos povos, mas a diagnosticar conceções do divino: quando D'us é sentido como algo externo e alheio, em vez de íntimo, nasce uma imagem distorcida e dura da Divindade — e é a essa imagem (não a um povo) que ele chama "deus estranho". É a mesma crítica que o Rambam fez ao antropomorfismo e à idolatria: um D'us mal concebido deforma a vida. E note-se o horizonte: para o Rav Kook, o amor ao "bem absoluto" é a vocação de toda a humanidade — ele fala de um amadurecimento espiritual ainda em curso no mundo inteiro, não de um privilégio fechado.

A herança que sobrevive: Israel

Há, porém, uma herança que se salvou para a humanidade, em Knesset Israel: a de que a simpatia divina se encontra no seu círculo interior. O sentimento atesta e o entendimento esclarece que o D'us eterno, o Único e Singular, é o bem completo, a vida, a luz, o Todo — exaltado acima de tudo e acima de toda exaltação, melhor do que todo bem, bom para todos, e as suas misericórdias sobre todas as suas obras; que dá vida a tudo e guarda tudo, e faz brotar salvação para todos.

טוֹב ד' לַכֹּל, וְרַחֲמָיו עַל כָּל מַעֲשָׂיו "Bom é o Senhor para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras." Tehillim (Salmos) 145:9

E esta simpatia universal penetra esta nação não apenas nos seus indivíduos, mas precisamente na sua totalidade. Se aconteceu que ela esqueceu a sua alma, a fonte da sua vida, a profecia veio recordar-lha, e os exílios prepararam-se para endireitar as suas tortuosidades — até que, no fim de tudo, a simpatia do bem absoluto vença dentro dela.

A sede que desperta o renascimento

Esta sede viva e palpável — que enche com a sua luz e com a força do seu ser a vida prática, social e nacional, tal como enche nela as forças metafísicas e visionárias — vai abrindo o seu caminho, e chama a nação, ao chegar o seu tempo, a tomar coragem, erguer-se, sacudir o pó da humilhação, romper as cadeias do exílio e pedir um novo florescer sobre a terra em que começou a cultura anímica e divina — para a nação e para o mundo inteiro.

E essa exigência divina não se revela, no início, em toda a sua luz. Pelo contrário: revela-se primeiro de modo negativo — expulsando os sentimentos divinos estranhos, que não enchem a alma de uma relação íntima, mas de um domínio de senhorio duro e de força bruta, herdados dos "nomes dos ídolos", desprovidos da luz delicada do temor da exaltação e do amor puro e santo de aceitar o reino dos Céus, que está impresso em Israel, "a semente de Abraão, que me amou".

זֶרַע אַבְרָהָם אֹהֲבִי "...a semente de Abraão, que me amou." Yeshayahu (Isaías) 41:8

E, à medida que cresce essa negação [do falso], pelas mãos dos que estão aptos a ela, assim vem crescendo a força da afirmação — vinda de um grande acampamento, "como o acampamento de D'us", dos que conduzem o povo, possuidores de uma alma do mundo da emanação. E o sentimento anímico, divino e nacional, vai florescendo e ligando-se a todas as luzes ocultas na história concreta — luzes que brilham no seu próprio chão: esta é a terra da herança, a terra do deleite, a terra santa, a terra da beleza e a terra da vida. "O nosso Redentor — o Senhor dos Exércitos é o seu nome — o Santo de Israel."

Quem conhece D'us como a alma conhece o corpo, ama-O antes de temê-lo.

Os Guardiões da Muralha: os justos que libertam a nação para construir

Há um medo antigo no coração religioso: o de que, quanto mais um povo se entrega ao trabalho do mundo — à terra, à economia, à política —, mais a sua alma se ressequirá. O Rav Kook enfrenta esse medo de frente, e a sua resposta é surpreendente: a cura não é trabalhar menos, mas ter quem guarde as alturas. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A tolerância e os grandes justos

A tolerância, tão necessária a uma coletividade humana orgânica — a virtude do chesed [bondade] e da humildade, que adoça todos os rigores [dinim] e edifica o mundo na sua perfeição — precisa, para o seu cultivo, da grande piedade [chassidut], que brota de uma compreensão divina superior e constante.

עוֹלָם חֶסֶד יִבָּנֶה "O mundo é edificado pela bondade." Tehillim (Salmos) 89:3

Justamente porque se acham, no seio da nação, justos supremos — homens muito elevados, em quem a compreensão divina e a vida divina enchem todo o seu ser —, é que a nação está segura da sua força espiritual, guardada nesses indivíduos. E, apoiada nisso, pode ela pôr um olho atento e um coração firme em todas as suas necessidades práticas, sem nenhum tremor interior de que se resseque a seiva e seque a fonte da sua espiritualidade — a fonte que lhe dá a força da sua alma e constitui os seus ideais, os que fazem dela um povo e uma entidade singular.

O medo de secar a fonte

Sobretudo na nossa nação — cuja alma se assenta na espiritualidade superior de um ideal que está muito, muito acima de todo o mundo presente —, acontece que, de cada movimento de liberdade material e de dedicação ao trabalho em assuntos materiais, práticos e sociais, logo entra nela um tremor interno: não vá a azáfama prática diminuir a sua fonte; não vá dar-se que "tudo o que o assentamento [do mundo] acrescenta de construção, o intelecto acrescente de ruína". E, por causa disso, ela faz as suas ações práticas gerais com metade da energia — e eis que a espiritualidade se perturba por causa do enredo material, e a materialidade se enfraquece por causa da mistura espiritual que se intromete nela.

O Rav Kook diagnostica com precisão uma paralisia. Quem teme que o trabalho do mundo seque a alma acaba por fazer as duas coisas pela metade: trabalha sem entrega (com medo) e reza sem foco (com a cabeça no trabalho). Resultado: nem boa construção, nem boa espiritualidade. A "meia energia" é o preço do medo. E a solução não será dividir-se melhor entre as duas, mas libertar-se do medo.

Os guardiões da muralha

Por isso a nação precisa de erguer grandes justos, distinguidos pela grandeza da compreensão, que fortifiquem dentro de si o estado espiritual de toda a coletividade. Eles, esses homens supremos, sabem que o tesouro do espírito da nação está dentro deles; por isso não se afligem em absoluto com a [suposta] diminuição da fonte espiritual do povo por causa da azáfama dos trabalhos práticos. A espiritualidade positiva já se difunde na nação por si mesma, pela sua segulá [qualidade] interior, por meio da irradiação destes indivíduos, que são "emissários da comunidade" e trazem no coração o tesouro da espiritualidade que dá vida a todo o povo.

Eles reconhecem que a sua qualidade superior é o tesouro coletivo de toda a nação, e a nação reconhece neles o lugar honrado dos seus bens mais preciosos — e por isso os honra e os teme com o temor da exaltação. A aliança de D'us na terra revela-se justamente pelos servos supremos de D'us; e a bravura material vai fazendo o seu caminho e a sua ordem, segura de que não profanará a sua fonte sagrada — porque há, com ela, os guardiões da sua muralha do alto. Então a tolerância se desenvolve, e a vida prática floresce. E até as poucas palavras que por vezes saem da boca dos santos dão alimento em muito maior abundância do que uma multidão de sermões e de longos livros medianos. Este é o estado feliz a que o nosso povo deve aspirar, e que deve cuidar de erguer no movimento do seu renascimento sobre a sua terra.

A bravura material avança sem medo — porque há quem guarde a muralha do alto.

A kehuná: o todo se aproxima de D'us pelo seu melhor

A kehuná [o sacerdócio] — a mediação entre o homem e D'us pelos escolhidos mais elevados da humanidade — não é, na verdade, uma mediação [uma barreira], mas uma aproximação digna. Quando a pessoa se aproxima de D'us, ela não se aproxima pelas suas forças inferiores, pelas suas inclinações baixas, mas pela parte superior que há nela; e o lado mais alto nela atrai tudo o mais para o lado da vida clara e divina.

Assim também a organização nacional — e a humana — não é digna nem capaz de aproximar-se de D'us na sua pequenez, com as suas forças pobres, com os seus sentimentos atordoados e dilacerados entre as ondas da vida dos sentidos que a despedaçam. A luz de D'us dos pequenos empequenece, e, pela sua influência de retorno, o mundo inteiro empequenece e se empobrece. Por isso o homem consagra uma parte superior de dentro de si, de dentro das suas coletividades, para a aproximação de todo o seu ser a D'us.

וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים וְגוֹי קָדוֹשׁ "E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa." Shemot (Êxodo) 19:6

Eis a ideia mais original da seção, e ela desarma um velho mal-entendido. O "sacerdote" não é um muro entre o povo e D'us — é o melhor do povo, pelo qual o povo inteiro se aproxima. Tal como o indivíduo se eleva a D'us pela sua faculdade mais alta (a razão, o amor), e não pelos seus impulsos baixos, também a nação se eleva pela sua parte mais nobre. O justo é, por assim dizer, o "órgão superior" do corpo nacional — aquele através do qual o todo respira o ar do alto. Não medeia: conduz.

Nem todos sacerdotes — ainda

O sacerdote piedoso e supremo, cheio de chesed e de conhecimento elevado, conhece a D'us em verdade; e sobre o seu conhecimento e o seu sentimento superior se apoia o povo inteiro, nos tempos em que a corrente plena da vida une o povo aos mais elevados dentre os seus filhos. Apoia-se então na sua força e escuta a sua palavra, com uma fé clara que nele se aclara por uma força geral; e enche-se de vigor para o seu trabalho material, social e político, e, cheio de força e coragem, segue o seu caminho, sabendo com clareza que o D'us fiel está com ele.

A inclinação ao fundamento da kehuná é uma inclinação fixa no ser humano, que brota das profundezas do seu sentir interior. Só por um longo desenvolvimento ela se nos revelará em toda a sua luz; e nós, como é o nosso modo de não temer o caminho longo, vamos pavimentando devagar este caminho que começámos a abrir desde os nossos dias antigos. Não abandonamos a memória da kehuná, não cessamos de esperar a sua perfeição — ainda que muito tenhamos sofrido por causa dela, antes que chegasse à sua plena clarificação; mas sabemos que dela também recebemos o bem, e ainda haveremos de receber.

Tornar a nação inteira sacerdotal, sem gradação — toda ela sábia, consagrada e conhecedora de D'us, cada um nos seus pormenores por seu próprio entendimento — isto é, por ora, impossível, num mundo construído com os traços em que encontramos o nosso mundo. Por isso devemos agora aspirar ao espírito divino geral sobre toda a nação; e este revelar-se-á nos seus membros mais excelentes, assim como os sentimentos mais nobres do homem se revelam pelos órgãos mais elevados do organismo de cada um.

Coragem para o alto — e para a terra

Dai força à compreensão superior, à piedade divina radical e exaltada — e, com isso, dai a mão à tolerância e à humildade, à bravura e ao trabalho prático, social e político, livre, que há de caminhar amplamente em Israel e sobressair belamente em todos os traços da sua vida na Terra de Israel — terra que vai florescendo e aguardando um renascimento prático e uma salvação sentida e próxima.

O fecho recusa toda falsa escolha. Não se trata de optar entre a santidade dos justos e o trabalho do mundo: o Rav Kook pede as duas coisas ao mesmo tempo, e mostra que uma sustenta a outra. Quanto mais firmes os "guardiões da muralha" — a piedade radical dos grandes justos —, mais livre e destemida pode ser a construção material, social e política do povo na sua terra. As alturas guardadas é que permitem descer ao chão sem medo.

Nascer de Novo: o renascimento que começa do fundo

Quem olha para uma geração de transição vê, antes de tudo, o que nela se perdeu. O Rav Kook olha para o mesmo quadro e vê um recomeço. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Nascer de novo, desde o fundo

Depois das muitas deficiências que vemos nos caminhos da nossa vida coletiva, na nossa geração em geral e na Terra de Israel em particular, somos forçados a sentir que estamos a nascer de novo: desde o fundo da escada vamos sendo formados mais uma vez, como nos dias antigos.

תִּכָּתֶב זֹאת לְדוֹר אַחֲרוֹן, וְעַם נִבְרָא יְהַלֶּל יָהּ "Escreva-se isto para a geração futura, e um povo que será criado louvará o Senhor." Tehillim (Salmos) 102:19

A escolha das palavras é tudo. O Rav Kook não diz que a geração está "em declínio", mas que está "a nascer". As falhas não são o fim de algo velho — são as dores de algo novo. E o ponto de partida é "o fundo da escada": justamente quando parece que tudo se perdeu, começa a formar-se de novo um povo. O salmo já o previa: "um povo que será criado" — nivrá, no futuro — "louvará o Senhor".

Menos em quantidade, mais em qualidade

Toda a riqueza espiritual do passado vai sendo, aparentemente, reabsorvida na sua fonte, e dela sai com um rosto novo: muito reduzida na sua quantidade, mas muito fresca e capaz de um grande crescimento, cheia de vida vigorosa — na sua qualidade.

Eis uma consolação para toda época de encolhimento. O que parece perda — "tão pouco restou do que havia" — pode ser, na verdade, uma concentração: o tesouro inteiro recolhido à sua semente, para brotar outra vez. A semente é menor que a árvore que a gerou; mas só ela pode gerar a árvore seguinte. Qualidade e frescor valem mais, no recomeço, do que a velha abundância. O pouco que volta vivo vale mais do que o muito que ficou para trás.

A fé que é o segredo da sobrevivência

Somos chamados a um mundo novo, cheio de fulgor supremo; a uma época nova, que há de superar, na sua robustez, todas as épocas de grande valor que a precederam. O povo inteiro crê que não há mais exílio depois da redenção que vai começando diante de nós — e esta sua fé profunda é, ela mesma, o segredo da sua existência: é o segredo de D'us revelado no seu percurso histórico.

סוֹד ד' לִירֵאָיו, וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם "O segredo do Senhor é para os que O temem, e ele lhes dá a conhecer a sua aliança." Tehillim (Salmos) 25:14

E a tradição antiga atesta a luz da alma deste povo — uma alma que se reconhece a si mesma e a todas as ligações dos seus acontecimentos, até à última geração: uma geração que olha para uma salvação próxima.

As falhas não são o fim do velho — são as dores do novo.

Carne Santa: a teshuvá também é do corpo

Por séculos, certa piedade aprendeu a desconfiar do corpo — a vê-lo como peso, tentação, obstáculo. Contra essa herança, o Rav Kook escreve uma das suas páginas mais surpreendentes, em que a saúde, a força e o músculo entram no vocabulário do sagrado. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

Temos carne santa

Grande é a nossa demanda corporal: precisamos de um corpo são. Ocupámo-nos muito do que é da alma, [e] esquecemos a santidade do corpo; abandonámos a saúde e o vigor corporal; esquecemos que temos carne santa, não menos do que temos espírito santo.

A frase é deliberadamente chocante. A tradição fala sempre do ruach ha-kodesh, o "espírito santo"; o Rav Kook ousa formar o par exato: basar kodesh, "carne santa". Não há, para ele, uma alma nobre presa num corpo vil. O corpo é sagrado — e descuidá-lo não é piedade, é esquecimento. A separação entre um "espírito" elevado e uma "carne" desprezível é grega, não da Torá.

O medo caído

Abandonámos a vida prática, e o apuro dos sentidos, e a ligação com a realidade física e palpável — por causa de um medo caído [um temor degenerado], por falta de fé na santidade da terra. Como ensinaram os Sábios: "'fé' — isto é a ordem [das leis] das Sementes [Zeraim]: que [o lavrador] crê na Vida dos mundos, e semeia".

וְהָיָה אֱמוּנַת עִתֶּיךָ חֹסֶן יְשׁוּעֹת חָכְמַת וָדָעַת "E a fé dos teus tempos será a riqueza da salvação, sabedoria e conhecimento." Yeshayahu (Isaías) 33:6 — donde os Sábios derivam: "'fé' é a ordem das Sementes" (Shabat 31a)

O Rav Kook chama o ascetismo do exílio de "medo caído": não a reverência sadia, mas um temor doentio que fugiu do mundo. E liga-o a uma "falta de fé na santidade da terra". A prova vem de um belíssimo dito do Talmud: por que a ordem agrícola da Mishná se chama "Sementes" (Zeraim) e se associa à ? Porque o agricultor que lança a semente à terra está a fazer um ato de fé — crê "na Vida dos mundos" e, por isso, semeia. Trabalhar a terra não é o oposto da fé: é fé em ação.

A teshuvá do corpo

Todo o nosso retorno [teshuvá] só nos sairá bem se for, com todo o esplendor da sua espiritualidade, também um retorno físico — gerando sangue são, carne sã, corpos firmes e bem constituídos; um espírito ardente a brilhar sobre músculos fortes. E, pelo vigor da carne santificada, voltará a brilhar a alma que se enfraquecera — como uma antecipação da ressurreição corporal dos mortos.

וְהִשְׂבִּיעַ בְּצַחְצָחוֹת נַפְשֶׁךָ, וְעַצְמֹתֶיךָ יַחֲלִיץ "Fartará de bens a tua alma, e fortalecerá os teus ossos." Yeshayahu (Isaías) 58:11
Temos carne santa, não menos do que temos espírito santo.

Eis a virada final, e a mais bela: para o Rav Kook, fortalecer o corpo não enfraquece a alma — fá-la brilhar. "Pelo vigor da carne santificada, voltará a brilhar a alma que se enfraquecera." A alma exilada definhou junto com o corpo negligenciado; e renascerá junto com ele. Por isso a teshuvá do renascimento tem de ser inteira — do espírito e da carne. E o corpo forte que volta à vida é já um "lembrete", um ensaio, da própria ressurreição: a promessa de que nada do que é humano se perde para sempre.

Da Santidade à Literatura: a alma do escritor

O renascimento de um povo é também o renascimento da sua palavra escrita. Mas o Rav Kook recusa separar a qualidade de uma literatura da qualidade das almas que a produzem. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Quem pode chamar-se escritor

É impossível que uma literatura de Israel tenha êxito sem a santificação das almas dos escritores. Todo escritor que não se esforça por purificar as suas virtudes [middot], por depurar os seus atos e os seus pensamentos — até que o seu mundo interior esteja, ele mesmo, cheio de luz, e a perfeição interior se faça sentir dentro dele, junto com o cuidado de completar o que falta, e de encher-se de uma humildade mesclada de força e de serenidade de espírito, com um forte despertar intelectual e emocional para fazer o bem e para esclarecer-se a si mesmo, e com um desejo sublime de estar no auge da pureza e da santidade nobre — enquanto não estiver nessa condição, não poderá, em verdade, ser chamado "escritor".

נְקִי כַפַּיִם וּבַר לֵבָב "[Aquele que tem] mãos limpas e coração puro." Tehillim (Salmos) 24:4

É uma exigência altíssima — e propositadamente. O Rav Kook recusa a ideia de que o talento literário possa ser separado do caráter de quem escreve. Não basta escrever bem: para ser "escritor" no sentido pleno, é preciso que o mundo interior do autor esteja "cheio de luz". A obra carrega a alma de quem a fez — e uma alma turva acaba por turvar a obra, por mais hábil que seja a pena.

Os que contavam as letras

Só "os antigos eram chamados soferim [escribas], porque contavam [sofrim] as letras da Torá" — e o contar das letras da Torá elevou-os a um grau supremo de pureza de espírito e de força de alma, até que o nome "soferim" lhes ficou bem.

Há aqui um belo jogo de palavras intraduzível: em hebraico, sofer é ao mesmo tempo "escritor" e "aquele que conta" — e os sábios antigos foram chamados soferim porque contavam, uma a uma, as letras da Torá (Kidushin 30a). Esse trabalho minucioso e reverente sobre cada letra purificou-os, e só por isso mereceram o título. A lição é direta: o nome "escritor" não se ganha pela quantidade de páginas, mas pela reverência com que se trata cada palavra.

Vir da santidade para a literatura

E, se desejamos reviver a literatura de Israel, precisamos de caminhar por esta via do sagrado — de vir da santidade para a literatura, e não o contrário.

וְהָיָה שָׁם מַסְלוּל וָדֶרֶךְ, וְדֶרֶךְ הַקֹּדֶשׁ יִקָּרֵא לָהּ ... וְהָלְכוּ גְּאוּלִים "E haverá ali uma estrada, e um caminho, e chamar-se-á o Caminho Santo... e os remidos caminharão [por ele]." Yeshayahu (Isaías) 35:8-9
Vir da santidade para a literatura — e não o contrário.

Eis o princípio que dá título à seção. Há dois caminhos possíveis: tentar acrescentar um verniz "espiritual" a uma literatura feita de qualquer modo — ou deixar que a literatura brote de uma alma já trabalhada, já purificada. O Rav Kook escolhe o segundo. A santidade não é um tema entre outros que o escritor possa abordar; é a fonte de onde a verdadeira escrita nasce. Por esse "Caminho Santo" é que hão de andar os remidos.

A Literatura Será Santificada: o estilo não esconde a alma

Se a seção anterior pedia que o escritor santificasse a sua alma, esta anuncia a consequência: virá um tempo em que a própria literatura será santa — e em que nenhuma falsidade poderá esconder-se atrás da beleza do estilo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

O poder grande e delicado da palavra

A literatura será santificada, e os escritores também serão santificados; o mundo erguer-se-á para reconhecer o poder grande e delicado da literatura — a elevação do fundamento espiritual no mundo, em todo o seu apogeu. A luz irá adiante e romperá; a exigência firme reclamará o que é seu.

Almas que sentem a verdade

Os que reclamam são muitas almas sedentas, almas sensíveis, que reconhecem — pela sabedoria da fisionomia das expressões e do estilo — a impureza da ideia que há em muitos escritores: impureza que nenhuma retórica moral, nenhum revestimento poético, consegue encobrir.

עָקֹב הַלֵּב מִכֹּל וְאָנֻשׁ הוּא, מִי יֵדָעֶנּוּ "O coração é o mais enganoso de tudo, e é incurável; quem o conhecerá?" Yirmiyahu (Jeremias) 17:9

Há aqui uma teoria da leitura tão fina quanto exigente. O Rav Kook crê que o leitor sensível "lê o rosto" de um texto — capta, no próprio estilo, se por trás dele há uma alma verdadeira ou uma ideia impura. Por mais elegante que seja a frase, por mais nobre que soe a moral declarada, "o coração é enganoso"; e a falsidade do que move o autor acaba por transparecer. Não se engana por muito tempo um leitor de alma sedenta. O estilo, no fim, não esconde a alma.

O espírito de impureza há de passar

Este espírito de impureza, como todo espírito de impureza em geral, passará, será anulado do mundo e desaparecerá por completo — e a literatura será santificada. E cada escritor começará a conhecer a elevação e a santidade que há no seu trabalho, e não molhará a sua pena sem pureza de alma e santidade de ideia. Ao menos, fá-la-á preceder pelo pensamento da teshuvá — por profundos pensamentos de retorno antes de cada criação.

Note-se a graça do gesto final: o Rav Kook não exige a perfeição imediata de todo escritor. Reconhece que nem sempre se escreve já purificado. Mas pede um mínimo precioso: que ao menos preceda a criação um movimento de teshuvá — um instante de retorno, de exame, de sinceridade — antes de molhar a pena. É uma disciplina ao alcance de qualquer um: não escrever "de qualquer modo", mas a partir de um coração que primeiro se voltou para o bem.

Então a criação sai pura

Então a criação sairá na sua pureza; o espírito de D'us repousará sobre ela, e a alma de toda a nação se delimitará nela. Depois que "a sabedoria dos escribas apodrecer" [quando se purificar do que a corrompia], dir-se-á a Israel, mais uma vez:

וַאֲנִי זֹאת בְּרִיתִי אוֹתָם, אָמַר ד': רוּחִי אֲשֶׁר עָלֶיךָ וּדְבָרַי אֲשֶׁר שַׂמְתִּי בְּפִיךָ לֹא יָמוּשׁוּ מִפִּיךָ ... מֵעַתָּה וְעַד עוֹלָם "E quanto a mim, esta é a minha aliança com eles, diz o Senhor: o meu espírito que está sobre ti, e as minhas palavras que pus na tua boca, não se apartarão da tua boca... desde agora e para sempre." Yeshayahu (Isaías) 59:21
O espírito, no fim, não esconde a alma — e a pena pura recebe o espírito de D'us.

O fecho liga esta visão à da renovação da sabedoria (sobre "a sabedoria dos escribas que apodrece", veja-se A Sabedoria que Nasce da Inveja): quando cai o que era impuro — a escrita movida por vaidade, inveja ou falsidade —, abre-se espaço para a palavra que carrega "o espírito de D'us" e "a alma de toda a nação". E o sinal de que essa palavra é eterna está na aliança do próprio verso: o espírito e as palavras postos na boca de Israel "não se apartarão... desde agora e para sempre".

A Tempestade que Revela: a crise espiritual do renascimento

Poucos textos do início do século XX leem o futuro com tanta nitidez. O Rav Kook não promete que o renascimento será um caminho reto e tranquilo; antecipa uma crise — e, ao mesmo tempo, ensina como atravessá-la sem desespero. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

O bem-estar que encolhe a alma

Temos uma tradição [recebida] de que uma rebelião espiritual [uma crise da fé] virá na Terra de Israel e em Israel, no período em que despertar o começo do renascimento da nação. O bem-estar material que virá a uma parte da nação — os quais imaginarão que já alcançaram todo o seu alvo — encolherá a alma; e virão dias dos quais ela dirá "não tenho neles prazer".

עַד אֲשֶׁר לֹא יָבֹאוּ יְמֵי הָרָעָה ... אֲשֶׁר תֹּאמַר אֵין לִי בָהֶם חֵפֶץ "...antes que venham os dias maus... dos quais dirás: não tenho neles prazer." Kohelet (Eclesiastes) 12:1

A aspiração aos ideais elevados e santos cessará e, com isso, o espírito descerá e se afundará — até que venha uma tempestade e vire de cabeça para baixo [uma reviravolta], e então se verá com toda a clareza que a força de Israel está na santidade eterna, na luz de D'us e na sua Torá, no anseio pela luz espiritual — que é a força completa, a que vence todos os mundos e todas as suas potências.

כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים, בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר "Pois em ti está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz." Tehillim (Salmos) 36:10
Nota de contexto

É preciso ler bem esta "rebelião". O Rav Kook não a aprova — diagnostica-a. A sua tese é arguta: o perigo do renascimento não é o fracasso, mas o êxito — a prosperidade material que faz a alma "encolher" e perder a sede dos ideais. E, fiel ao seu modo de ver, ele lê até essa crise como parte do processo: é o golpe que, ao fim, faz "ver com clareza" onde mora a verdadeira força. A tempestade não é o fim; é o que arranca o véu.

Por que a crise é necessária

A necessidade desta crise está na inclinação para a materialidade, que tem de nascer na totalidade da nação numa forma vigorosa — depois de terem passado períodos de muitos anos em que a necessidade e a possibilidade de uma ocupação material foram inteiramente anuladas da nação [no exílio]. E essa inclinação, ao nascer, pisará com ímpeto e provocará tempestades; e estas são as dores do Mashiach, que hão de perfumar o mundo inteiro por meio das suas próprias dores.

O perigo não é o fracasso — é o êxito que faz a alma esquecer a sua sede.

Eis o paradoxo curativo do Rav Kook. A volta ao trabalho, à terra, à matéria — depois de séculos em que o exílio tornara isso impossível — não podia vir suave: nasce "com ímpeto", e por isso "provoca tempestades". Mas essas tempestades são dores de parto, não agonias de morte. E há uma promessa surpreendente nelas: que "perfumam o mundo inteiro". A dor do nascimento de algo novo não é castigo — é o preço, e até o perfume, de uma vida que volta.

O Vinho e a Borra: a força tosca que sustenta a vida

Esta é uma das páginas mais difíceis e mais corajosas das "Luzes do Renascimento". O Rav Kook usa uma imagem da vinha — o vinho e a sua borra — para enfrentar uma verdade incômoda: que uma vida coletiva sadia precisa também da sua força bruta, terrena, "tosca". O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público. Pede-se ao leitor que a acompanhe até ao fim, onde a imagem se resolve em esperança.

Não há vinho sem borra

Assim como é impossível ao vinho existir sem borra [a sua sedimentação], assim é impossível ao mundo existir sem o que nele é tosco. E, assim como a borra firma o vinho e o conserva, também a força vital bruta dá existência e sustentação a toda a abundância da vida — a de todos, dos medianos e dos justos. Quando a borra se reduz demais e o vinho fica sem ela, fica sujeito a estragar-se e azedar.

Nota de contexto

A imagem é forte — e exige leitura cuidadosa. O Rav Kook não está a elogiar o mal, nem a chamar "bons" os atos cruéis. Vale-se de uma metáfora antiga da vinha: o vinho só se conserva sobre a sua borra (o sedimento); separado dela cedo demais, azeda. Assim, uma sociedade viva precisa também da sua energia tosca, terrena, vigorosa — a vitalidade material crua, sem a qual a vida "espiritualizada" demais se torna frágil. O que aqui se traduz por "o tosco" e "a força bruta" aponta para essa energia vital não refinada — e o próprio texto mostrará, ao fim, que ela se purifica. É uma reflexão sobre a função dessa força no processo, não um juízo sobre o valor de pessoas.

O exílio afinou demais a borra

O exílio empobreceu a força vital da nação, e a nossa "borra" reduziu-se grandemente — a ponto de haver perigo para a vida da nação, pela falta de um apego espesso à vida, aquele que se prende à vitalidade terrena, à terra e ao seu enraizamento material. A existência no exílio é uma existência fragmentada; e essa existência empobrecida — que é mais ausência do que ser — pôde prolongar-se por algum tempo mesmo carente dessa força vital, conforme a necessidade impunha.

לַכֹּל זְמָן, וְעֵת לְכָל חֵפֶץ תַּחַת הַשָּׁמָיִם "Para tudo há um tempo, e há um tempo para cada propósito debaixo do céu." Kohelet (Eclesiastes) 3:1

Mas a tudo [chega] o seu tempo, e a força já se esgotou; e a existência essencial reclama a sua função. O retorno de Israel à sua terra, em prol da sua existência essencial, é um acontecimento necessário; e essa existência cria a sua própria "borra".

A borra assenta no fundo

Estes são os lados turvos pelos quais a existência clara e alegre vem a formar-se. E o fim do processo é este: o assentar da borra no fundo do tonel — o rebaixar das forças brutas para a profundidade da vida —, e então se anula nelas todo o seu conteúdo doloroso e perturbador.

Esta é a chave de toda a passagem, e o que a salva de qualquer cinismo. A "borra" não fica para sempre a turvar o vinho: o processo termina com ela a assentar no fundo, e o vinho a clarear por cima. A força tosca cumpre a sua função — preservar a vida da nação que voltava — e depois baixa, "e então se anula nela todo o seu conteúdo doloroso". Não há, no Rav Kook, romantização da rudeza: há a confiança de que, terminado o seu papel, o que era turvo decanta, e fica o vinho.

Mas, enquanto se formam — indo junto com o vinho, que é a vida da nação e o seu espírito que desperta —, [essas forças] turvam-no, e os corações se agitam ao ver a fermentação. E o coração só descansa e se aquieta no seu lugar ao olhar para o futuro, que vai abrindo o seu caminho, pelas maravilhas d'Aquele que é perfeito no saber:

מִי יִתֵּן טָהוֹר מִטָּמֵא, לֹא אֶחָד "Quem fará sair o puro do impuro? Não [é apenas] o Único?" Iyov (Jó) 14:4 — lido como: só D'us tira o puro do impuro
A borra cumpre o seu papel — e depois baixa; e fica o vinho.

O verso final é a oração de quem vê a fermentação e não se desespera. Lido à maneira dos Sábios, "quem fará sair o puro do impuro? — o Único" significa que D'us é capaz de extrair pureza do que parece impuro. Quem entende isso pode olhar para a turbulência de uma época de transição — a sua rudeza, a sua agitação — sem perder a paz, porque sabe para onde o processo caminha. A fermentação assusta; mas o vinho está a fazer-se.

O Sagrado Escondido no Profano

Há uma ideia ousada no coração do pensamento do Rav Kook: que o "profano" não é o oposto do sagrado, mas, muitas vezes, o seu disfarce — e até a sua forma mais alta, ainda escondida. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve e profunda seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A descida que prepara a subida

Assim como a alma do homem é mais elevada e mais interior do que os anjos — e foi justamente por causa da sua grandeza que desceu até ao mais baixo degrau, e de lá há de subir com uma aquisição grande e imensa, e preparar, consigo, o mundo inteiro para uma ascensão suprema e original —, assim também o sagrado que está no profano, [aquele] que desceu até ao ponto da secularidade completa, é mais sublime e mais santo do que o santo dos santos; só que está muito oculto.

Eis um dos princípios mais profundos da mística da Torá, aqui aplicado à história: a descida em função da subida (yeridá tzórech aliá). A alma humana é maior que os anjos — e é por ser tão grande que pode descer ao fundo e, de lá, erguer consigo o mundo. O Rav Kook aplica a mesma lógica ao "profano": o que parece ter caído para fora da santidade pode estar carregando, escondida, uma santidade maior que a manifesta. O disfarce mede a grandeza do que está disfarçado.

A reparação que vem pela via do profano

E não há fim nem limite para as reparações do mundo [tikkunei olam] que hão de vir de todo o bem que chega ao mundo pela via do profano — bem que revelará o seu esplendor e a sua glória no tempo feliz, do qual se diz que "não haverá luz clara, mas espessura e congelamento... e há de ser que, ao entardecer, haverá luz".

וְהָיָה לְעֵת עֶרֶב יִהְיֶה אוֹר "E há de ser que, ao entardecer, haverá luz." Zecharyah (Zacarias) 14:7

A linguagem do homem

Antes da luz do Mashiach, que se revelará em breve nos nossos dias, despertar-se-á a força do sagrado que há no profano — força que, no começo do seu despertar, despertará o próprio profano; e todos falarão "na linguagem do homem, e não na linguagem do Santo, bendito seja" (Zohar).

גַּם לְשׁוֹנִי כָּל הַיּוֹם תֶּהְגֶּה צִדְקָתֶךָ "Também a minha língua falará da tua justiça o dia inteiro." Tehillim (Salmos) 71:24
O disfarce mede a grandeza do que está disfarçado.

A frase do Zohar — "na linguagem do homem, e não na linguagem de D'us" — é a chave do despertar moderno. A santidade escondida no profano não se anuncia, no início, com palavras religiosas: ela acorda em termos humanos, seculares — na ciência, na arte, no trabalho, no anseio por justiça. Quem só reconhece o sagrado quando ele usa "a linguagem de D'us" não o vê chegar. Mas ele chega — pela boca do homem comum —, e "ao entardecer", quando tudo parecia escurecer, é que "haverá luz".

Luz Demais, Vasos de Menos: a raiz da descrença

Diante da onda de secularismo do seu tempo, o Rav Kook não responde com lamento nem com condenação, mas com um diagnóstico que vira tudo de cabeça para baixo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A descrença que vem do excesso de luz

Porque a imagem da grandeza da luz divina é muito grande no íntimo das almas da última geração dos "calcanhares do Mashiach" — numa medida tal que elas ainda não têm a aptidão de como conduzir a vida prática segundo uma grandeza tão elevada —, é disto que vêm a descrença [kefirá] e o empobrecimento espiritual semelhante à destruição que vemos na nossa geração.

É uma reviravolta no modo de ver a crise da fé. O senso comum diz: "perdeu-se a fé porque esfriou o espírito". O Rav Kook diz quase o oposto: a alma da geração foi tomada por uma visão tão grande do divino que não cabe ainda nas formas antigas, e não encontra como traduzi-la em vida prática — e o transbordamento, sem leito por onde correr, vira "descrença". Não é falta de luz; é luz a mais, sem vaso que a contenha. O diagnóstico é, no fundo, compassivo: trata a crise como dor de uma grandeza, não como sintoma de uma pequenez.

A cura: multiplicar os vasos

Mas o caminho da cura é apenas um: multiplicar os vasos [kelim] — os conceitos e os planos que servem para abrir caminhos a uma adaptação prática segundo as luzes mais elevadas.

קוּמִי אוֹרִי כִּי בָא אוֹרֵךְ, וּכְבוֹד ד' עָלַיִךְ זָרָח "Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do Senhor raiou sobre ti." Yeshayahu (Isaías) 60:1

A imagem dos "vasos" vem da mística: a luz é infinita, mas precisa de recipientes para iluminar sem se quebrar. Aplicada à vida, isto significa um trabalho muito concreto — pensar, organizar, planejar, criar instituições, formas, caminhos por onde a grande luz possa escorrer para o cotidiano. A resposta à crise espiritual não é, paradoxalmente, "mais espírito", mas mais estrutura para o espírito: vasos à altura da luz.

Por que o espírito livre e o corpo forte

E é por esta razão que vem também a grande exigência de liberdade do espírito e de fortalecimento do corpo: porque só um espírito forte e robusto, e um corpo são e firme, podem conter dentro de si, sem se abalarem, as iluminações mais elevadas — e manter-se na firmeza própria de uma vida ativa, cheia do vigor da criação, e dela extrair caminhos de vida, por uma depuração interior. Pois todas estas preparações são necessárias para a teshuvá completa, que está logo atrás da nossa parede [já à porta].

הִנֵּה זֶה עוֹמֵד אַחַר כָּתְלֵנוּ "Eis que ele está atrás da nossa parede." Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 2:9
A resposta à crise não é mais luz — é mais vasos à altura da luz.

Aqui se ligam vários fios do Rav Kook. A exigência de "fortalecer o corpo" não é concessão ao materialismo: é a construção de um vaso capaz de conter a grande luz sem se partir — o mesmo que ele ensina em Carne Santa ("temos carne santa não menos do que espírito santo"). Um corpo são e um espírito livre são recipientes; e quanto maior a luz que desce sobre a geração, mais robustos precisam de ser. Toda essa preparação — interior e exterior — aponta para uma só coisa: a teshuvá completa, que já espera "atrás da parede".

A Torá que Rompe o Negrume

O que parece, a muitos, uma crise da fé e da Torá no mundo moderno, o Rav Kook lê como o contrário: o romper de uma luz mais alta, que estivera velada durante o exílio. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

O céu velado do exílio

"Desde que o Templo foi destruído, o firmamento não foi visto na sua pureza, como está dito: 'visto os céus de negrume, e ponho-lhes o pano de saco por cobertura'" (Talmud, Chaguigá 12b). Se assim é, a iluminação da Torá vinda do céu, no tempo do exílio, está envolta no negrume e no saco que a cobrem.

אַלְבִּישׁ שָׁמַיִם קַדְרוּת, וְשַׂק אָשִׂים כְּסוּתָם "Visto os céus de negrume, e ponho-lhes o pano de saco por cobertura." Yeshayahu (Isaías) 50:3 — citado em Chaguigá 12b

A imagem é exata e consoladora. Se a luz da Torá "do céu" anda, no exílio, coberta de "negrume e saco", então a obscuridade que por vezes sentimos não está na Torá, mas na cobertura — no véu que a história lançou sobre ela. A luz continua lá em cima, intacta; o que falta é o céu limpo por onde ela passe. E céus podem ser limpos.

O espírito que purifica os céus

No tempo da aproximação do Fim, virá um espírito que purifica os céus do seu negrume, que remove o saco que os cobre; e então aqueles que não se adaptaram à Torá que sobe para o alto, a que rompe o negrume e o saco, pensam que não há para eles Torá do céu.

Eis o mesmo diagnóstico compassivo que o Rav Kook faz da descrença da geração (veja-se Luz Demais, Vasos de Menos): quando a Torá "sobe" a um grau mais puro, quem ainda está habituado à sua forma velada não a reconhece — e conclui, equivocadamente, que "já não há Torá do céu". Não é que a luz se tenha apagado; é que ela subiu, e o olho ainda não a acompanhou. A perda de fé de muitos é, no fundo, a sombra de uma luz que cresceu.

É agora que a luz nova se revela

Mas os justos, que buscam o Senhor e a sua força, acrescentam luz e alegria, e anunciam a justiça numa grande assembleia: [dizem] que é precisamente agora que se revelará uma luz nova, e os céus serão vistos na sua pureza, e todos os que vêm ao mundo saberão que do céu veio a palavra do Senhor à casa de Israel e à casa de Jacó, a nação inteira.

וְזָרְחָה לָכֶם יִרְאֵי שְׁמִי שֶׁמֶשׁ צְדָקָה וּמַרְפֵּא בִּכְנָפֶיהָ "E para vós, que temeis o meu Nome, nascerá o sol da justiça, trazendo cura nas suas asas." Malachi (Malaquias) 3:20
A luz não se apagou — subiu; e o olho ainda não a acompanhou.

Os Gémeos Reencontrados: a Torá Escrita e a Oral

Por que a Torá Oral — o Talmud, a tradição viva — parece, no exílio, tão diminuída diante da grandeza da Torá Escrita? O Rav Kook responde com uma das suas imagens mais belas: a de dois gémeos separados, que a redenção reencontrará. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A Torá Oral precisa da terra

A nutrição da Torá Oral está, por um lado, oculta — vinda do céu —, e, por outro, revelada — vinda da terra. E é preciso que a Terra de Israel esteja edificada, e todo o Israel habitando sobre ela, ordenado em todas as suas ordens: Templo e realeza, sacerdócio e profecia, juízes e oficiais e todos os seus arranjos. Então a Torá Oral vive em todo o esplendor da sua glória, florescendo e elevando o seu botão, e unindo-se à Torá Escrita em toda a sua plena estatura.

כִּי מִצִּיּוֹן תֵּצֵא תוֹרָה וּדְבַר ד' מִירוּשָׁלָיִם "Pois de Sião sairá a Torá, e a palavra do Senhor, de Jerusalém." Yeshayahu (Isaías) 2:3

Eis uma ideia central do Rav Kook: a Torá Oral não é um texto a mais — é a Torá viva, a que se aplica à vida real de um povo, e por isso ela precisa de um povo vivo na sua terra, com todas as suas instituições, para florescer plenamente. Uma tradição feita só de estudo abstrato, sem tribunais, sem governo, sem vida pública sobre a qual incidir, vive "encolhida". A Torá Oral floresce onde há vida nacional sobre a qual ela possa falar.

Os gémeos separados no exílio

No exílio, os gémeos foram separados: a Torá Escrita elevou-se aos cumes da sua santidade, e a Torá Oral desceu à mais funda profundeza. E, ainda assim, esta recebe uma nutrição secreta da luz da Torá Escrita — da colheita espontânea do passado [o que rebrota por si] —, suficiente para mantê-la numa vida apertada; e vai descendo e caindo dia após dia, até que, em breve, sopre o dia e venha a luz da vida, do tesouro da redenção eterna.

A figura dos "gémeos" é tocante. A Torá Escrita, no exílio, tornou-se cada vez mais sublime e reverenciada — mas também cada vez mais distante da vida concreta; e a sua gémea, a Torá Oral, que vive justamente do contato com a vida, foi minguando por falta dessa vida sobre a qual agir. As duas precisam uma da outra: sem a Escrita, a Oral não tem raiz; sem a Oral, a Escrita não toca o chão. O exílio partiu o par — e por isso ambas sofreram.

O reencontro na redenção

E Israel prosperará, plantado na sua terra, florescendo em todo o esplendor das suas ordens. Então a Torá Oral começará a crescer da profundeza das suas raízes, subindo cada vez mais alto, e a luz da Torá Escrita lançará sobre ela raios de luz de novo, "novos a cada manhã"; e os amados reunir-se-ão na morada do seu dossel [a sua chupá]. E a luz da alma do D'us vivo dos mundos, que se revela no renascimento de Israel e na elevação do seu poder, brilhará com a luz dos sete dias, sobre a luz do sol e a luz da lua juntas.

וְהָיָה אוֹר הַלְּבָנָה כְּאוֹר הַחַמָּה, וְאוֹר הַחַמָּה יִהְיֶה שִׁבְעָתַיִם כְּאוֹר שִׁבְעַת הַיָּמִים, בְּיוֹם חֲבֹשׁ ד' אֶת שֶׁבֶר עַמּוֹ "E a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes maior, como a luz de sete dias, no dia em que o Senhor ligar a quebradura do seu povo e curar a chaga da sua ferida." Yeshayahu (Isaías) 30:26

E a sua luz será reta, penetrante e atraente, de uma para a outra, respondendo à terra e ao povo com todo o fulgor da vida.

Sem a Escrita, a Oral não tem raiz; sem a Oral, a Escrita não toca o chão.

Queimar a Escória: a negação que purifica a ideia de D'us

Este é um dos textos mais ousados do Rav Kook — e dos mais racionalistas. Nele, a crítica e o ceticismo da época, que tantos lamentavam, aparecem com uma função inesperada: a de um fogo purificador que queima as ideias toscas sobre D'us. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A escória que o exílio tolerava

A escória [as impurezas] que há na compreensão da Divindade, no temor, na fé e em tudo o que delas depende — enquanto a nação não precisa de reparar os seus modos de vida prática na sua totalidade, o dano que causam não é perceptível. Mas, uma vez chegado o tempo em que o renascimento nacional tem de vir, e a germinação real da força da salvação tem de se revelar, de imediato a escória estorva: a nação não consegue unir-se nem alcançar, na profundeza da sua vida, o segredo da sua força e as formas das suas ordens, a não ser por conceções purificadas [de'ot mezukakot] e por atos que brotam da pureza do verdadeiro conhecimento de D'us, na mais alta clareza.

כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת ד', כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים "Pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Yeshayahu (Isaías) 11:9

Eis uma ideia tipicamente racionalista, na linha do Rambam: nem toda "fé" é igual. Há uma fé pura, nascida do verdadeiro conhecimento de D'us, e há uma fé carregada de "escória" — imagens grosseiras, supersticiosas ou infantis do divino, que se toleravam quando a vida do povo era pequena e privada, mas que se tornam um obstáculo quando o povo precisa de reerguer uma vida pública inteira. Uma nação não se reconstrói sobre ideias toscas de D'us. O renascimento exige clareza.

A força que queima o que é tosco

Esta é a razão por que uma grande força de negação se desperta nos "calcanhares do Mashiach", com enorme ousadia; e essa negação há de queimar tudo o que é embaçado [tosco, opaco] nas conceções do divino e no que delas depende, em toda a nação.

Nota de contexto

É preciso ler isto com cuidado. O Rav Kook não está a elogiar a descrença, nem a abolição da Torá. Ele faz uma distinção fundamental: entre a escória (as ideias grosseiras sobre D'us) e o núcleo (o verdadeiro conhecimento de D'us, que negação alguma alcança). A "força de negação" da época — o ceticismo, a crítica — pode queimar a casca; mas o que ela revela, ao queimá-la, é um D'us mais puro, não a ausência de D'us. E o próprio Rav Kook reconhece, no que segue, o perigo e a dor de um fogo que não distingue bem o que queima.

O grão que nenhuma negação alcança

E ainda que seja terrível ver como muitas verdades, boas virtudes, mandamentos e estatutos vão sendo, aparentemente, arrastados e arrancados pela corrente da negação, mesmo assim, no fim de tudo, tudo rebrotará em pureza e força, em santidade suprema — a partir do grão firme, puro e elevado, que negação alguma atinge. E a sua luz raiará como uma luz nova sobre Sião, numa grandeza admirável, acima de toda imaginação — uma grandeza que as forças débeis de almas cansadas, cansadas material e espiritualmente por um longo exílio e empobrecimento, sequer conseguem conceber.

אוֹר חָדָשׁ עַל צִיּוֹן תָּאִיר, וְנִזְכֶּה כֻלָּנוּ מְהֵרָה לְאוֹרוֹ "Faze brilhar uma luz nova sobre Sião, e que todos nós depressa mereçamos a sua luz." Da liturgia (bênção Yotzer Or), sobre Yeshayahu 60
A negação queima a casca; o que ela revela é um D'us mais puro.

O consolo está na imagem do grão. Por mais que o fogo da crítica pareça consumir verdades e preceitos, há um núcleo — o conhecimento verdadeiro de D'us — que "negação alguma atinge", porque é a própria verdade. O que parece destruição é, no fundo, uma poda: cai a casca seca, e o grão vivo brota com mais força. É a mesma esperança que o Rav Kook expressa ao ver a Torá "romper o negrume" do exílio (veja-se A Torá que Rompe o Negrume): o que sobe mais alto parece, a quem ficou para trás, ter desaparecido.

Quando o Bem se Apoia no Mal

Continuando o tema da purificação dos fundamentos, o Rav Kook enfrenta aqui uma verdade desconfortável: que muitas das nossas virtudes podem estar apoiadas em razões que não as merecem — e que a maturidade exige reconstruí-las sobre o que é verdadeiro. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Virtudes com alicerces feios

Há coisas boas e santas cujas causas, que as sustentam no mundo, são feias — como a fraqueza, a mentira, a maldade —, que por vezes amparam o fundamento do bem do pudor, da modéstia, da e de coisas semelhantes.

O exemplo é incômodo e certeiro. Alguém pode ser "modesto" por timidez, não por virtude; "recatado" por medo do que dirão, não por nobreza; "fiel" por ignorância, não por convicção. Nestes casos, uma coisa boa (o pudor, a fé) está de pé — mas escorada por uma coisa má (a fraqueza, o temor, a mentira). A virtude existe; mas o que a sustenta não é virtuoso.

O bem apoiado no mal gera males

Contudo, assim como o "bem" dos ímpios é, para os justos, um mal, também o bem que o santo recebe do mal e do impuro gera muitos males; e a luz da redenção não se realiza senão pela destruição de todos os alicerces maus — mesmo aqueles que [agora] sustentam o bem e o sagrado.

Nota de contexto

Não se trata, aqui, de derrubar o bem — mas os seus apoios falsos. O Rav Kook não diz "abandonem o pudor ou a fé"; diz que o pudor e a fé não devem continuar a depender do medo, da fraqueza ou da ignorância, porque uma virtude escorada na mentira acaba por corromper-se. A "destruição" de que fala é a de fundamentos podres, para que o bem se reerga sobre a verdade. É exigente — mas é o oposto do cinismo: nasce da convicção de que o bem merece alicerces dignos dele.

A descida que é subida

E ainda que, por isto, o bem, o sagrado e a fé sofram, e desçam e pareçam empobrecer-se, este empobrecimento e esta descida são, na verdade, uma subida e um fortalecimento. Pois, depois do apodrecimento desses fundamentos maus, começará de imediato a brotar a luz do esplendor e da santidade sobre fundamentos verdadeiros — de conhecimento [de'ah], sabedoria, força, beleza, perpetuidade e majestade. E por isso se fundará um reino eterno, para a luz de D'us e a sua bondade, no fim dos dias, pelas fiéis misericórdias de David, que são uma aliança eterna que não falhará jamais.

וְאֶכְרְתָה לָכֶם בְּרִית עוֹלָם, חַסְדֵי דָוִד הַנֶּאֱמָנִים "E farei convosco uma aliança eterna: as fiéis misericórdias de David." Yeshayahu (Isaías) 55:3

Como está escrito:

וַיֹּאמֶר אַךְ עַמִּי הֵמָּה, בָּנִים לֹא יְשַׁקֵּרוּ ... בְּאַהֲבָתוֹ וּבְחֶמְלָתוֹ הוּא גְאָלָם "E disse: certamente são o meu povo, filhos que não hão de mentir... no seu amor e na sua compaixão, ele os redimiu." Yeshayahu (Isaías) 63:8-9
A virtude merece alicerces dignos dela — não a mentira nem o medo.

Note-se o verso final: "filhos que não hão de mentir". É a chave de toda a passagem. O fim do processo não é menos bem, mas um bem verdadeiro — uma fé que não precisa de se apoiar na ignorância, um pudor que não precisa do medo, uma santidade que se sustenta sozinha, sobre o conhecimento e a verdade. A descida aparente é o preço de uma honestidade nova: o bem aprende a ficar de pé sem muletas.

Halachá e Agadá: o pensamento estreito e o largo

Por que o estudo da lei (halachá) e o pensamento livre e amplo (agadá) parecem, tantas vezes, pertencer a mundos diferentes? O Rav Kook explica a separação — e anuncia o reencontro. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Dois modos de pensar

O percurso do pensamento amplo e ideal vai-se alargando por sua própria natureza, abarcando muitas visões e grandes horizontes; e a feição das suas imagens é diferente da feição das imagens dos pormenores minuciosos da Torá prática e das análises da halachá. E o estado de alma exigido pela profundidade da halachá — segundo o seu estilo fixo, habitual entre nós desde que o Talmud foi selado — não se ajusta, por natureza, ao estado de alma de quem caminha pela amplidão, nas alturas dos ideais divinos e dos seus segredos, dos seus anseios e da expansão dos seus deleites. Por isso se separaram a agadá e a halachá, o revelado e o oculto, numa distinção de raiz.

O Rav Kook descreve dois "estados de alma" distintos, não duas matérias rivais. A halachá pede uma mente de precisão — atenta ao detalhe, à distinção exata, à análise. A agadá (e a mística) pede uma mente de amplitude — que paira sobre horizontes, intui o todo, voa. São disposições interiores diferentes, e é por isso — não por hostilidade — que a tradição as separou. Mas separar não é divorciar.

O anseio de reuni-las

E, no entanto, foi posto nas profundezas da alma um anseio interior de unir a halachá e a agadá. Alguns fizeram essa tentativa — afiando-se em vários pilpulim [dialéticas] —, e neles vemos um espírito santo de uma tentativa de criação, regada do orvalho de vida do desejo da unidade e da paz completa entre "os mundos revelados" e "os mundos ocultos". Mas isso não saiu numa forma de grandeza e de fruto maduro, e sim numa forma pequena e ainda verde. E o alvo desta inclinação da alma é a unidade espiritual absoluta destes mundos que parecem separados.

À medida que a luz se aproxima

E quanto mais a luz do Mashiach se aproxima, e as raízes das almas se adoçam, mais a iluminação dos segredos da Torá se vai revelando e sobressaindo; e, conforme essa revelação, as matérias reveladas vão tornando-se mais sutis [refinadas] e aproximam-se do lado do oculto — "uma à outra se achegam, e nem o ar passa entre elas".

אֶחָד בְּאֶחָד יִגַּשׁוּ, וְרוּחַ לֹא יָבוֹא בֵינֵיהֶם "Uma à outra se achegam, e nem o ar passa entre elas." Iyov (Jó) 41:8 — dito das escamas do leviatã; aqui, da halachá e da agadá

As novas explicações que se renovam, de geração em geração, no caminho da Torá revelada, trazem dentro de si um ponto interior de aproximação à amplidão mística — aos "canais do rio" da Binah suprema [a compreensão superior]; e os sábios da Torá, preciosos no saber, trabalham nisso o campo que o Senhor abençoou.

A redenção dupla: corpos e almas

No fim dos dias, a luz do Senhor se revelará, e o estilo das halachot firmes se aproximará das agadot [do "campo santo das macieiras", imagem do Zohar], no tempo do Fim revelado — que é o retorno de Israel à Terra de Israel e a sua revivificação por uma construção concreta:

וְאַתֶּם הָרֵי יִשְׂרָאֵל עַנְפְּכֶם תִּתֵּנוּ וּפֶרְיְכֶם תִּשְׂאוּ לְעַמִּי יִשְׂרָאֵל, כִּי קֵרְבוּ לָבוֹא "E vós, montes de Israel, produzireis os vossos ramos e dareis o vosso fruto para o meu povo Israel, pois estão prestes a vir." Yechezkel (Ezequiel) 36:8

A sua marca é a junção do selado e oculto — "o que o coração não revela à boca", o conteúdo do Fim escondido — com o revelado do trabalho físico, palpável, de toda a multidão que labuta. Nesta redenção dupla, a força do braço do Senhor começará a redimir os corpos de toda a sua dura servidão, e as almas das suas dores e trevas, de todas as más qualidades, de todos os ódios e estreitamentos — "e os farei uma só nação na terra, nos montes de Israel".

וְעָשִׂיתִי אֹתָם לְגוֹי אֶחָד בָּאָרֶץ בְּהָרֵי יִשְׂרָאֵל "E os farei uma só nação na terra, nos montes de Israel." Yechezkel (Ezequiel) 37:22
Separar não é divorciar: a lei e o sonho hão de reencontrar-se.

Note-se a beleza do paralelo final: a reunião da halachá com a agadá corresponde à reunião do corpo com a alma no renascimento (veja-se Carne Santa). A "redenção dupla" liberta os corpos da servidão e as almas dos ódios e estreitamentos. O Rav Kook vê um só movimento em toda parte: o que estava partido — lei e sonho, corpo e alma, terra e céu — voltando a ser um. "Verdadeiramente, tu és um D'us que te ocultas, ó D'us de Israel, que salva" (Yeshayahu 45:15).

A Torá Interior: a sabedoria que só se ouve no alto

Se a seção anterior falou da reunião entre a halachá e a agadá (veja-se Halachá e Agadá), esta desce ainda mais fundo: à Torá interior — a sabedoria dos segredos —, e ao modo singular de conhecer que ela exige. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Uma sabedoria que se ouve, não se deduz

O conteúdo supremo da sabedoria dos segredos [chochmat ha-razim] — visto que ela tem de aperfeiçoar-se pela manifestação do espírito de santidade [ruach ha-kodesh] e pela revelação da alma numa compreensão superior, que está acima de todos os sentidos da carne e das ciências limitadas que deles resultam — esse conteúdo, por si mesmo, exige, por uma necessidade interior, a adaptação espiritual a uma escuta superior do espírito de D'us.

Há aqui uma teoria do conhecimento. Nem tudo se alcança do mesmo modo. As ciências "limitadas" derivam dos sentidos — observam, medem, deduzem. Mas a sabedoria mais alta, a dos segredos, não se deduz: ouve-se. Exige uma faculdade diferente — uma "escuta" interior do espírito —, e por isso exige também que a própria alma se eleve e se afine, como um ouvido que se aguça. Não se conquista a Torá interior só com a razão analítica; é preciso tornar-se o tipo de pessoa que consegue ouvi-la.

O treino dos filhos dos profetas

E os filhos dos profetas [as escolas proféticas] treinavam-se nos conteúdos supremos, a cuja conceção só se chega por uma escuta interior e perene, que brota da luz da vida do sagrado — até que as próprias conceções, que exigem o trabalho de compreendê-las, ordená-las e fazê-las frutificar, eram justamente o que ajudava a elevar a vida espiritual dos que nelas se ocupavam, até a medida da visão divina [tzefiyá elohit].

Eis um círculo virtuoso. Estudar os segredos exige uma alma elevada — mas o próprio estudo, feito com seriedade (compreender, ordenar, fazer frutificar), eleva a alma a essa altura. O conteúdo e o estudante crescem juntos: quanto mais se trabalha a Torá interior, mais apto se fica para a "visão divina"; e quanto mais se está apto, mais se a alcança. O estudo não é só aquisição de saber — é formação do ser que conhece.

O tempo obriga

Agora, no tempo mais próximo do Fim da salvação, "a voz da rola ouve-se na nossa terra, e as flores aparecem"; e a exigência de buscar a luz do Senhor, de buscar a redenção espiritual suprema, de afluir ao Senhor e à sua bondade, vai crescendo.

הַנִּצָּנִים נִרְאוּ בָאָרֶץ, עֵת הַזָּמִיר הִגִּיעַ, וְקוֹל הַתּוֹר נִשְׁמַע בְּאַרְצֵנוּ "As flores aparecem na terra, chegou o tempo de cantar, e a voz da rola ouve-se na nossa terra." Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 2:12

Agora o tempo obriga a multiplicar a aquisição na Torá interior, nas visões do sagrado a que não há entrada de escuta senão pela elevação da alma e pela altura da sua força, na luz da sua vida mais pura e elevada. E a hoste cujos corações D'us tocou, deste "acampamento de D'us", esta será para nós a força que funda o fundamento da salvação — a força que dá graça, luz de vida e majestade de grandeza a todo o voo da vida do renascimento da nação na Terra de Israel.

O Zohar abre caminho

O Livro do Zohar, que rompe caminhos novos — "que faz uma vereda no deserto, uma estrada na solidão" —, ele e todo o seu fruto estão prontos para abrir as portas da redenção: "e porque Israel há de provar da Árvore da Vida, que é este Livro do Zohar, sairão do exílio com misericórdia" (Zohar).

אָשִׂים בַּמִּדְבָּר דֶּרֶךְ, בִּישִׁמוֹן נְהָרוֹת "Porei um caminho no deserto, e rios na solidão." Yeshayahu (Isaías) 43:19
A Torá interior não se conquista só com a razão; é preciso tornar-se quem consegue ouvi-la.

A Luz do Mashiach e a Gratidão

Em poucas linhas, o Rav Kook condensa toda uma visão do fim: um mundo em que se enxerga, enfim, que tudo era bem — e em que a única resposta possível é o agradecimento. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A certeza do bem completo

A luz do Mashiach firmará a certeza do bem completo que há na existência em geral; e a terra se encherá de luz e de alegria, que gotejam dos céus dos céus, continuamente.

O que o Mashiach traz, antes de tudo, não é poder nem triunfo — é uma certeza: a de que a realidade inteira é, na sua raiz, boa. Hoje vemos a existência aos pedaços, e muito nela parece mau; a luz messiânica é a que permite ver o quadro completo, em que cada peça encontra o seu lugar no bem. E dessa visão brota, naturalmente, a "luz e a alegria".

Agradecer também pelo mal

E então virá o reconhecimento de que é bom agradecer a D'us pelo mal como pelo bem — e isso também no plano espiritual —, a partir da inovação de Leá, que disse, ao dar à luz Yehudá: "desta vez louvarei [agradecerei] ao Senhor".

הַפַּעַם אוֹדֶה אֶת ד', עַל כֵּן קָרְאָה שְׁמוֹ יְהוּדָה "Desta vez louvarei ao Senhor; por isso lhe chamou Yehudá." Bereshit (Gênesis) 29:35

A imagem é finíssima. Os Sábios ensinam que se deve "abençoar pelo mal como se abençoa pelo bem" (Mishná, Berachot 9:5) — mas, neste mundo, isso é um dever que custa. Na luz do Mashiach, deixa de custar: vendo que tudo é bem, agradece-se pelo que parecia mau com a mesma alegria com que se agradece pelo bom. E o Rav Kook ancora isso em Leá — a primeira na Torá a dizer "agradeço" —, cujo filho, Yehudá, traz no nome a raiz de "gratidão" (hodaá); dele virá o Mashiach.

A oferenda que permanece

Por isso ensinaram os Sábios que, no porvir, "todas as oferendas cessarão, exceto a oferenda de gratidão" [korban todá] — pois, quando tudo for visto como bem, o que restará a oferecer será só o louvor.

בֹּאוּ שְׁעָרָיו בְּתוֹדָה, חֲצֵרֹתָיו בִּתְהִלָּה, הוֹדוּ לוֹ בָּרְכוּ שְׁמוֹ "Entrai pelas suas portas com gratidão, e nos seus átrios com louvor; rendei-lhe graças e bendizei o seu Nome." Tehillim (Salmos) 100:4
Quando tudo for visto como bem, o que restará a oferecer será só o louvor.

A Luz Divina que se Concentra em Israel

Há textos do Rav Kook que são uma só respiração — uma longa enumeração extática em que tudo se liga a tudo. Este é um deles: a partir de uma única intuição (a luz divina concentrando-se em Israel), desdobra-se um panorama de toda a história e de toda a vida. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A luz que se concentra

O espírito de santidade [ruach ha-kodesh] revela com clareza a grande luz divina, cheia de vida, espalhada por todo o mundo, que preenche toda a vida, e o ser humano inteiro em particular — [revela] como ela vai concentrando-se, encontrando a sua posição no mundo, um lugar de repouso e de ação em Knesset Israel, em cujo meio o Santo habita no esplendor da sua majestade, desde a rocha de onde [Israel] foi extraído, desde os caminhos da sua história: "e eu sou o Senhor teu D'us desde a terra do Egito".

וְאָנֹכִי ד' אֱלֹהֶיךָ מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם "E eu sou o Senhor teu D'us desde a terra do Egito." Hoshea (Oseias) 13:4

A imagem-chave é a da concentração. A luz divina não está num só lugar — está "espalhada por todo o mundo", em toda a vida. Mas, como a luz do sol que se reúne numa lente, ela encontra em Israel um ponto onde se focaliza, "um lugar de repouso e de ação". Não para ali se prender, mas para dali irradiar. Israel é, nesta visão, a lente da luz do mundo — e a sua história inteira (desde "a terra do Egito") é o lento polir dessa lente.

Tudo o que se reúne em Israel

[E o espírito de santidade revela] desde a manifestação da sua Torá, desde a iluminação dos seus profetas, a firmeza do seu reino, a construção do seu Templo, a sua destruição e o seu retorno, a sua dispersão e o seu exílio, a sua consolação e a sua esperança até à última geração; as suas ações sobre o curso espiritual do mundo, o seu despertar para o renascimento no nosso tempo, as suas quedas materiais e espirituais, e a profundidade do pensamento divino que se revela na intensidade das descidas — todas elas voltadas para o bem dos seus indivíduos, da sua coletividade, da espécie humana inteira, e para a elevação do mundo pela obra das suas mãos.

Note-se o que o Rav Kook faz com as quedas de Israel. Não as esconde nem as minimiza ("as suas quedas materiais e espirituais"). Mas vê nelas "a profundidade do pensamento divino que se revela na intensidade das descidas": quanto mais funda a queda, mais fundo o desígnio. E note-se o horizonte, que nunca é estreito — tudo isto é "para o bem dos seus indivíduos, da sua coletividade, da espécie humana inteira, e para a elevação do mundo". A história de Israel, para ele, é sempre uma história do mundo.

A vida inteira, em uma só luz

[Tudo isto é] a palavra de D'us que está com [Israel] na vida temporal: a vida social e individual, nacional e universal, a vida do mundo — a purificação das almas, o fortalecimento do brilho da vida, a elevação dos talentos, a condução da cultura geral do mundo rumo à felicidade verdadeira, o estabelecimento da vida eterna por meio da vida espiritual eterna, a justa ordenação das diversas correntes entre os homens e a guarda dos seus interesses, dos seus bens e da sua honra, o crescimento da beleza da vida, da honra da vida e do deleite da vida — tudo pela expressão do conhecimento de D'us, o Senhor, D'us de Israel, numa linguagem clara e num espírito poderoso que vive na alma desta nação eterna.

כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת ד', כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים "Pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Yeshayahu (Isaías) 11:9

[E ainda] o despertar de uma literatura — em prosa e em poesia, crítica e pública — que retorna à luz da profecia, na sua ligação com a Torá, como um reconhecimento claro de que é uma necessidade absoluta, para o espírito humano enredado, voltar à fonte suprema de onde se hauriram as ideias mais altas. Todas estas coisas, e os seus ramos, tilintam agora diante de nós, na Terra de Israel, como um sino.

Israel é a lente da luz do mundo — e a sua história inteira é o lento polir dessa lente.

O fecho é de uma alegria quase audível: tudo isto "tilinta agora diante de nós, na Terra de Israel, como um sino". O Rav Kook está a dizer que o renascimento do seu tempo não é só política ou agricultura — é o som de toda essa luz a começar a concentrar-se outra vez. Até a nova literatura secular, crítica e pública, ele a ouve como um eco distante da profecia, "voltando à fonte suprema". Para quem tem ouvidos, a redenção já faz barulho.

A Nação Viva e o Indivíduo: de onde vem a força espiritual

De onde tira o indivíduo a sua força espiritual — da nação, de si, da Torá? O Rav Kook descreve uma circulação viva entre os três, e mostra o que acontece quando um dos elos se rompe. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Quando a nação está viva

A nacionalidade, quando está viçosa, pode saciar também o indivíduo com o orvalho da vida espiritual que há nela, e enraíza nele moral e conhecimento bastantes. Cada membro do povo, que se apega ao seu povo com um apego interior, enche-se de uma tal força de vida — conforme a qualidade do seu apego e o despertar do seu espírito para a proximidade da nação.

וּשְׁאַבְתֶּם מַיִם בְּשָׂשׂוֹן, מִמַּעַיְנֵי הַיְשׁוּעָה "E tirareis águas com alegria das fontes da salvação." Yeshayahu (Isaías) 12:3

Quando a nação decai

Mas, quando a nação no seu todo está sombria e em queda, cada indivíduo precisa de humedecer o seu espírito na fonte moral e científica universal, e vir cheio de bem para se apegar ao seu povo e despertar-lhe o espírito para o seu renascimento — e então será um dos construtores da nação.

Eis uma das chaves do equilíbrio do Rav Kook. Numa nação sadia, a corrente vai da nação para o indivíduo: pertencer já alimenta. Mas numa época de queda, a corrente inverte-se — é o indivíduo que precisa de ir buscar vida fora (na sabedoria moral e científica de toda a humanidade) e trazê-la de volta para reanimar o povo. Note-se a abertura ao universal: a "fonte moral e científica universal" não é estranha à santidade — é onde o indivíduo se reabastece quando o poço nacional baixou.

O tesouro da Torá

E o tesouro da Torá para Israel está, no tempo da queda, destinado a que dele se tome vida para dar à nação inteira — por cada indivíduo —, para revivê-la e despertá-la; e, no tempo do seu renascimento, ele se funde na totalidade da nação, e dela derrama a luz e a vida sobre todos os indivíduos.

כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים, בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר "Pois em ti está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz." Tehillim (Salmos) 36:10

Quando se quer contentar-se [apenas] com o apego nacional, no tempo da queda, e se esquece o tesouro da vida [a Torá], então a nação não consegue sustentar, do seu próprio espírito, a vida espiritual; e dos que se apegam apenas à sua ideia geral, sem penetrar na luz de vida da santidade que há nela, restará só um traço de vida — até que se elevem à fonte da sua vida, e de lá voltem para reanimar.

Sem a luz da santidade, o apego à nação deixa apenas um traço de vida.

O fecho é, ao mesmo tempo, um abraço e um aviso. O Rav Kook ama o sentimento nacional — mas recusa que ele baste por si só. Uma nação que se apega à sua "ideia geral" (a sua história, a sua língua, a sua terra) sem chegar à "luz de vida da santidade" que pulsa dentro dela fica com apenas "um traço de vida" — viva por fora, esvaziada por dentro. O remédio não é abandonar o nacional, mas aprofundá-lo até à sua fonte: a Torá. Daí se volta, então, "para reanimar".

O Exílio Não Destruiu Nada

Uma seção brevíssima — e, por isso mesmo, fulgurante. O que segue é a tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Diminuídos, mas não destruídos

O exílio diminuiu o nosso semblante e nos oprimiu — mas não destruiu sequer um único grão de todas as nossas qualidades [segulot]. Tudo o que nos está preparado, eis que se encontra conosco; tudo o que deve ser grande e florescente está [agora] pequeno, contraído e murcho — mas tudo crescerá, tudo voltará a florescer: "Israel florescerá e brotará".

יַשְׁרֵשׁ יַעֲקֹב, יָצִיץ וּפָרַח יִשְׂרָאֵל, וּמָלְאוּ פְנֵי תֵבֵל תְּנוּבָה "Yaakov lançará raízes, Israel florescerá e brotará, e encherão de fruto a face do mundo." Yeshayahu (Isaías) 27:6

A distinção é tudo: entre diminuir e destruir. O exílio fez muito — apertou, oprimeu, encolheu o semblante de Israel até quase o irreconhecível. Mas não apagou nada: nem um grão das segulot, das forças e dons latentes do povo, se perdeu. O que parece morto está apenas murcho — como uma semente no inverno, que guarda intacta toda a árvore que há de ser. Por isso a esperança do Rav Kook não é otimismo ingênuo: é a certeza botânica de que o que tem raiz viva volta a florescer.

O que parece morto está apenas murcho — e a semente guarda intacta a árvore inteira.

O Oculto e o Revelado: por que um precisa do outro

Por que tantos opõem o estudo da lei ao da mística, o saber do mundo ao da alma? O Rav Kook diagnostica a raiz dessa guerra — e mostra a ordem que a cura. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Quando o oculto e o revelado se odeiam

A contradição entre o oculto [nistar] e o revelado [nigleh] vem sempre da incompletude dos dois fundamentos. O revelado, confinado nos seus limites, que não anseia pela sua fonte e raiz, sente uma certa aversão ao oculto, que não quer saber de medida e limite. E a falta de preparo para o oculto — saltar para dentro dele só por uma fraqueza do apetite interior, somada à preguiça e à ociosidade — faz com que a forma do oculto se borre. Pois é só da negação da realidade, da frouxidão da vida e da incapacidade de apreender o mundo vivo — os seus atos, movimentos, feitos e correntes encantadoras, cheios de esplendor e de força — que vem o afundar-se no oculto sem preparo.

O Rav Kook descreve dois desvios opostos. De um lado, o estudioso do revelado que se fecha nos seus limites e passa a desconfiar da mística como algo vago e perigoso. De outro, o que foge para a mística não por força, mas por fraqueza — incapaz de lidar com o mundo real, com a vida concreta —, e por isso mesmo a deturpa. Note-se o diagnóstico: o mau misticismo não vem de excesso de espírito, mas de falta de vida — de quem não consegue "apreender o mundo vivo".

Pão, carne e vinho antes do pomar

Mas nem um nem outro [extremo] é correto: a vida não se funda num só lado da moeda do mundo e da Torá. O grão do oculto está pronto — mas só vem à luz com êxito depois da plena preparação do revelado. "Encher o ventre de pão, carne e vinho" tem de preceder o "passeio no pardes [pomar]"; e esse "encher o ventre", no seu sentido pleno, inclui também o conhecimento do mundo e da vida, a maturidade moral, a força da vontade, o reconhecimento do valor do homem, e todo o bem, o belo e o ordenado da realidade que vem de uma boa educação em todos os seus lados — somando-se a tudo o que desperta para a vida e o frescor, no indivíduo e na nação, na literatura e na vida, no profano, no sagrado e no santo dos santos.

אֶל גִּנַּת אֱגוֹז יָרַדְתִּי ... פַּרְדֵּס רִמּוֹנִים עִם פְּרִי מְגָדִים "Desci ao jardim das nogueiras... um pomar de romãs, com frutos preciosos." Shir haShirim (Cântico) 6:11; 4:13 — o pardes, imagem do saber oculto (cf. Chaguigá 14b)

A imagem é da tradição: "entrar no pardes" (o pomar) é metáfora do estudo dos segredos — e os Sábios advertiam que só entra nele quem antes "encheu o ventre de pão e carne", isto é, dominou a Torá revelada (Chaguigá 14b). O Rav Kook alarga o "pão e carne" para abranger toda a preparação humana: não só a lei, mas a ciência, a ética, a força de caráter, a dignidade, a vida concreta. Só sobre esse chão maduro a mística dá fruto; sem ele, vira fuga e ilusão.

A palavra que redime

E a exigência do oculto, que se cumpre quando chega o seu tempo, é uma exigência firme: ela traz a palavra que redime, liberta a grande fala de Israel da prisão do seu mutismo, renova a vida vigorosa, desperta o espírito de força que há na santidade absoluta — a qual é muito mais simples e natural do que qualquer coisa profana e corriqueira, e, ainda assim, permanece na sua altura e na sua glória.

אָז יְדַלֵּג כָּאַיָּל פִּסֵּחַ, וְתָרֹן לְשׁוֹן אִלֵּם "Então o coxo saltará como o cervo, e a língua do mudo cantará." Yeshayahu (Isaías) 35:6
O mau misticismo não vem de excesso de espírito, mas de falta de vida.

O fecho desfaz um preconceito comum: que a santidade mais alta seria a mais "complicada", distante, sobrenatural. O Rav Kook diz o contrário — a santidade absoluta é "mais simples e mais natural" do que o corriqueiro, e ao mesmo tempo permanece sublime. Quando o oculto chega no seu tempo, sobre o chão preparado do revelado, ele não traz obscuridade, mas clareza: a "palavra que redime", a fala de Israel liberta do seu longo silêncio.

Os Segredos que Redimem: a Torá interior e o retorno à terra

O que, no fundo, move o renascimento de Israel — a fuga das perseguições ou um anseio interior mais profundo? O Rav Kook responde com uma tese ousada: é a Torá interior que redime. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Os segredos trazem a redenção

Os segredos da Torá [sitrei Torá] trazem a redenção e devolvem Israel à sua terra — porque a Torá da verdade, pela força da sua lógica interior, exige, ao expandir-se, a alma completa da nação; e a nação começa, por meio dela, a sentir a dor do exílio, e a ver como é de todo impossível que o seu caráter venha à plenitude enquanto está empurrada e batida em solo estrangeiro.

בְּשׁוּב ד' אֶת שִׁיבַת צִיּוֹן הָיִינוּ כְּחֹלְמִים "Quando o Senhor restaurou os cativos de Sião, éramos como sonhadores." Tehillim (Salmos) 126:1

O despertar essencial e o incidental

Mas, enquanto a luz suprema da Torá está selada e abandonada, a exigência interior do retorno a Sião não desperta na profundeza da fé. O despertar que vem do lado das aflições e perseguições das nações é apenas um despertar incidental, de provação [refinamento]; é capaz de inflamar forças mais fracas, mas o fundamento da vida tem de vir do lado da própria exigência essencial da nação — e esta cresce e se fortalece à medida que a luz da sua Torá interior, a profundidade das suas ideias e o mais oculto dos seus ocultos, vão vivendo dentro dela no orgulho da sua grandeza.

Eis a distinção decisiva. Um sionismo movido apenas pela fuga ao antissemitismo seria, para o Rav Kook, "incidental" — reativo, e por isso frágil; serve para "inflamar os mais fracos", mas não funda nada de duradouro. O verdadeiro fundamento do renascimento é positivo: o anseio que brota da própria alma da nação quando a sua Torá interior volta a viver nela. Não se volta para casa apenas porque o exílio dói — volta-se porque a alma desperta e já não cabe em outro lugar. (Veja-se, na mesma linha, A Torá Interior.)

O caminho da luz suprema

Por isso o espírito vai girando e girando, arranca montanhas, abre brechas, provoca dores e contrações [de parto] — mas o seu alvo é abrir um caminho diante da luz suprema que jorra da alma poderosa de Knesset Israel: os segredos da sua Torá, a sua Cabala, a herança dos pais, e a grandeza da alma — no seu caráter próprio, na sua visão de mundo e na altura da sua ética, que vai expandindo-se sem fim, vai coroando-se com toda cultura superior e subindo às alturas dos céus, marcando a segulá do povo singular, o povo que conhece o seu D'us.

וּמַלְכוּתָה וְשׇׁלְטָנָא ... יְהִיבַת לְעַם קַדִּישֵׁי עֶלְיוֹנִין "E o reino e o domínio... serão dados ao povo dos santos do Altíssimo." Daniel 7:27
Não se volta para casa só porque o exílio dói — volta-se porque a alma desperta e já não cabe em outro lugar.

Note-se a amplitude do horizonte, mesmo no mais "interno" dos temas. A Torá secreta que redime não fecha Israel em si: a sua ética "vai expandindo-se sem fim" e "coroando-se com toda cultura superior". O segredo mais íntimo da alma de Israel é, paradoxalmente, o mais universal — uma luz que sobe "às alturas dos céus" e abençoa o mundo. As dores do processo (o espírito que "arranca montanhas") são dores de parto: abrem caminho para essa luz.

A Luz que Jorra: quando o melhor da nação se acende

Como passa a luz interior de uma alma para a vida inteira de um povo? O Rav Kook descreve, em poucas linhas, essa transbordância — e o sinal por que se reconhece. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Quando a luz se fortalece

E quando a luz [orah] se fortalece na alma — nos cabeças da nação, nos filhos escolhidos, nos grandes em talento —, a corrente vai fluindo e derramando: a grande vida começa a transbordar, revelando-se nos círculos espirituais e materiais — na literatura, na sociedade, na história e no temperamento, na doçura das almas e na largueza do coração.

Note-se onde a luz aparece: não apenas nas sinagogas ou nos livros sagrados, mas "na literatura, na sociedade, na história e no temperamento". Para o Rav Kook, quando a luz interior de fato se acende nos melhores de um povo, ela não fica confinada ao "religioso" — transborda para toda a vida, refinando a cultura, as relações, até o caráter e o humor coletivos ("a doçura das almas e a largueza do coração"). A luz verdadeira reconhece-se por onde chega.

O Nome reaparece sobre o povo

Um esplendor supremo começa a estender o brilho da sua nuvem e a glória da sua honra, e o grande Nome do Senhor vai aparecendo de novo sobre o seu povo. A segulá escondida brota e sobe, contra todos os seus adversários e os que a negam:

וְרָאוּ כָּל עַמֵּי הָאָרֶץ כִּי שֵׁם ד' נִקְרָא עָלֶיךָ "E todos os povos da terra verão que o nome do Senhor é invocado sobre ti." Devarim (Deuteronômio) 28:10
וְכָל רֹאֵיהֶם יַכִּירוּם, כִּי הֵם זֶרַע בֵּרַךְ ד' "E todos os que os virem os reconhecerão, que são a semente que o Senhor abençoou." Yeshayahu (Isaías) 61:9
A luz verdadeira reconhece-se por onde chega.

Há uma confiança serena no fecho: a segulá — o tesouro escondido da alma de Israel — "brota e sobe contra todos os seus adversários e os que a negam". Não é uma luz que precise vencer pela força; ela simplesmente aparece, e ao aparecer torna-se inegável — "todos os que os virem os reconhecerão". A oposição não a impede; no máximo, atrasa o momento em que se torna visível a todos.

A Sede da Profecia: o universal e o que vai além

O que distingue o anseio de Israel do anseio mais nobre de toda a humanidade? O Rav Kook não opõe um ao outro — abraça o universal e, ao mesmo tempo, aponta para algo que vai além dele. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Sedentos, diante da fonte

À fonte da profecia [maayan ha-nevuá] somos chamados; secos de sede estamos — mas uma fonte de jardins, um manancial de águas vivas, está diante de nós.

מַעְיַן גַּנִּים, בְּאֵר מַיִם חַיִּים "Fonte dos jardins, poço de águas vivas." Shir haShirim (Cântico) 4:15

Os anseios de toda a humanidade — e o que vai além

Os bons anseios de que toda a "flor da humanidade" [a elite humana] se orgulha, e por que suspira sempre, em cada geração e em cada tempo — renovando-se nas suas mil inovações, no ato e na consciência, na aspiração e na inclinação —, todos eles são também os nossos anseios. Mas há ainda algo mais alto do que tudo: aquilo que [especialmente] desejamos e que encarnamos na vida — algo cuja força não se reduz ainda que as eras passem e não haja quem o compreenda.

Eis um dos gestos mais característicos do Rav Kook: o abraço do universal sem a perda do singular. Tudo aquilo de bom por que a humanidade mais nobre anseia — justiça, verdade, beleza, dignidade — "é também nosso". Israel não se define por opor-se a esses anseios, mas por compartilhá-los e ir além: há um anseio "ainda mais alto", próprio, que ele "encarna na vida". O particular de Israel não é um muro contra o humano — é um pico que se ergue a partir dele.

O segredo vivo, e a certeza que o mistério não abala

Um segredo santo e oculto habita em nós; uma alma viva e singular repousa em nosso interior. Do espírito do Mashiach sopram e correm ventos, e eles vêm até nós; e nós nos erguemos, sacudimos a poeira e buscamos uma vida nova, "uma renovação dos dias como outrora" — sobre o nosso próprio fundamento, sobre a nossa pedra angular, sobre este alicerce firme e marcado, que sabemos não ter paralelo nem semelhança — ainda que não consigamos explicar o seu conteúdo, nem mesmo à reflexão do nosso espírito mais íntimo.

הֲשִׁיבֵנוּ ד' אֵלֶיךָ וְנָשׁוּבָה, חַדֵּשׁ יָמֵינוּ כְּקֶדֶם "Faze-nos voltar a ti, ó Senhor, e voltaremos; renova os nossos dias como outrora." Eichá (Lamentações) 5:21

E eis o essencial: o mistério não faz desabar uma calamidade de ceticismo sobre a certeza que se acha na grandeza da sua vida.

Não conseguir explicar o que se vive não é razão para duvidar de que se vive.

O fecho é uma lição de epistemologia espiritual. Há quem creia que, se não se consegue explicar algo, deve-se duvidar dele. O Rav Kook recusa-o: o fato de não podermos "explicar o conteúdo" do fundamento mais íntimo de Israel — nem à nossa própria reflexão — não derruba a certeza da sua realidade. Sente-se a grandeza viva de uma coisa antes (e independentemente) de a saber definir. O mistério não é inimigo da certeza; é a marca de algo grande demais para caber numa fórmula.

A Teshuvá que Brota do Espírito de Santidade: a profecia na sua nascente

De onde virá a grande renovação de Israel? O Rav Kook responde de um modo que surpreende: não dos atos exteriores, nem do cálculo político, mas de uma fonte interior — o ruach ha-kodesh, o espírito de santidade, que é a própria profecia ainda em germe. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A grande teshuvá brota do espírito de santidade

A grande teshuvá — aquela que há de reviver a nação e trazer redenção a ela e ao mundo — será uma teshuvá que brota do espírito de santidade [ruach ha-kodesh] que nela se multiplica.

Pois o dom da profecia, na sua fonte, antes de se desenvolver em plenitude, é justamente o espírito de santidade — esse que se uniu a Israel já no princípio da sua plantação, como está escrito:

וְרוּחֲךָ הַטּוֹבָה נָתַתָּ לְהַשְׂכִּילָם "E o Teu bom espírito deste para instruí-los." Nechemiá (Neemias) 9:20

Esse espírito de santidade não se afasta dos escolhidos da nação; pulsa em todos os retos de coração, segundo uma medida e um valor próprios — a cada um conforme a sua medida.

Onde o espírito pulsa

Ele eleva e refina o espírito dos grandes em sabedoria, dos sábios de coração que se ocupam da Torá por ela mesma [lishmah], dos grandes em generosidade — aqueles cuja inteira corrente de vida espiritual é um grande rio de bondade e benevolência [chesed]; dos poetas plenos de espírito de moral e de santidade, que concebem pensamentos bons sobre Israel e sobre o mundo inteiro.

Repare onde o Rav Kook situa a "profecia em germe": não num círculo de iluminados isolados, mas no estudioso que aprende por amor à verdade, no homem generoso cuja vida é um rio de bondade, no poeta de coração reto. O espírito de santidade não é privilégio de poucos esotéricos — é a corrente subterrânea que atravessa toda alma íntegra, "cada um conforme a sua medida".

E o espírito de santidade, no seu fundamento universal, está guardado [ganuz] no grande tesouro da vida das almas superiores — as que sentem o esplendor dos segredos da Torá, e a abundância do precioso interior do serviço divino em toda a majestade da sua grandeza; as que escutam a voz da santidade da vida e os cânticos dos "capítulos de canto" [pirkei shirá] que sobem dos céus e da terra e de tudo o que neles há, dos mares e dos abismos e toda a sua plenitude, da alma de cada criatura e dos sentimentos de todo ser que sente — todos eles elevando-se e erguendo-se na sublimidade da Unidade suprema, na grande riqueza venerada e resplandecente.

O selo guardado na alma de Israel

Guardado está o espírito de santidade no ponto interior poderoso da alma de Israel; selado e oculto [tamir] está no tesouro da essência israelita — aquela de que toda a santidade humana é a "joia das joias" [segulat segulatah], o mais precioso de todo o precioso.

Quando se fortalece a força de Israel, fortalece-se a santidade; em todo lugar onde a ação de Israel está viva, a luz do D'us verdadeiro inflama-se, ilumina e resplandece.

Mesmo na hora da corrupção e do pecado, a luz divina não se apaga.

Esta profundeza do chesed supremo — um brilho de relâmpago que cintila em fulgores do alto — de qualquer modo que se revele (mesmo por uma via natural e simples, mesmo nos desejos mais ordinários da vida, e mesmo na hora da corrupção e do pecado), a luz divina não se apaga:

נֵצַח יִשְׂרָאֵל לֹא יְשַׁקֵּר וְלֹא יִנָּחֵם "A Eternidade de Israel não mente nem se arrepende." Shmuel I (I Samuel) 15:29

O fecho é uma das afirmações mais consoladoras do Rav Kook. A luz que habita Israel não é frágil: não depende de a geração ser digna, nem de os atos serem perfeitos. Ela transparece "mesmo nos desejos mais ordinários da vida" e "mesmo na hora do pecado" — porque o seu fundamento é o Netzach Yisrael, a eternidade que "não mente nem se arrepende". É por isso que a teshuvá pode ser grande: ela não acende uma luz nova do nada — desperta uma luz que nunca chegou a apagar-se.

A Volta da Profecia: as pegadas da redenção

Na seção anterior, o Rav Kook ensinou que a grande teshuvá brota do espírito de santidade — a profecia na sua nascente. Aqui ele continua o pensamento e o leva mais longe: mostra como esse espírito retorna, o que ele expulsa ao surgir, e por que até as tentativas frustradas de redenção não se perderam. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A redenção vem pela restauração do espírito

A teshuvá destinada a Israel — a que há de erguer a sua glória numa redenção completa — virá pela restauração da força do espírito de santidade, que é a qualidade profética [ha-segulá ha-nevuit] no seu começo, espalhando-se sobre toda a nação inteira.

E à medida que esse espírito supremo se esforça por aparecer, os espíritos pequenos são expulsos e afastados diante dele.

Uma imagem precisa de como cresce a vida do espírito: não se "combatem" diretamente as pequenezas — a mesquinhez, o medo, a estreiteza. Elas se vão por deslocamento, quando algo maior ocupa o lugar. Quando o "espírito supremo se esforça por aparecer", os espíritos menores simplesmente já não cabem. A cura não é a guerra contra o pequeno, mas a entrada do grande.

O que se esclarece só por dentro

O conteúdo próprio de Israel, enquanto "povo que habita à parte", não se esclarecerá apenas pelos atos externos e medidos, nem pelas coisas meramente estudadas — mas pela elevação da vida na sua qualidade interior.

הֶן עָם לְבָדָד יִשְׁכֹּן וּבַגּוֹיִם לֹא יִתְחַשָּׁב "Eis um povo que habita à parte, e entre as nações não se conta." Bamidbar (Números) 23:9

Isso é fruto daquilo que vem por uma vontade interior poderosa — vontade que será depurada pelos grandes da alma [gedolei ha-neshamá], aqueles que reconhecem o curso e o pulsar da vida de toda a coletividade da nação. São eles os "donos do fundamento" do alto, os que farão subir de novo todas as quedas: as suas próprias, as do conjunto de Israel, e também as de todos os que caíram.

As centelhas dos que caíram

Pois houve os que se ergueram para ser redentores — que se puseram a ser "messias" — e caíram, tropeçaram e se quebraram. Eis que as suas centelhas se dispersaram e buscam uma reparação [tikun] viva e duradoura, no fundamento de David, rei de Israel.

רוּחַ אַפֵּינוּ מְשִׁיחַ ד׳ "O sopro das nossas narinas, o ungido do Senhor." Eichá (Lamentações) 4:20

Eis um dos consolos mais ousados do Rav Kook. A história de Israel conhece muitas tentativas falhadas de redenção — homens que "se ergueram para ser messias" e ruíram. O olhar comum vê nelas apenas erro e desilusão. O Rav Kook vê outra coisa: nenhuma aspiração verdadeira à redenção se perde de todo. As suas "centelhas" — o que nelas havia de genuíno anseio — desprendem-se da queda e procuram um lugar onde possam, enfim, ser reparadas e cumpridas: o "fundamento de David", o eixo legítimo e duradouro da redenção. O fracasso não anula o desejo santo que o moveu.

As vestes imundas trocadas pelas vestes da santidade

E o espírito do Mashiach [rucha de-meshicha] caminha na luz da Torá interior. Tudo aquilo em que se esforçarem os grandes de coração puro — para lutar contra o esquecimento da Torá suprema e contra o seu ocultamento — fará despertar, cada vez mais, a força do renascimento nacional.

Então ela removerá de si as suas vestes imundas e vestirá as vestes da santidade; e ficará conhecido a todo o Israel e a todo o mundo que estes passos pobres e hesitantes [pa'amei dalim] são, na verdade, as pegadas da redenção do mundo — para Israel e para o mundo inteiro, para tudo o que se ligar à vida, e para as almas dos que dormem no pó, que também elas aguardam o dia da redenção:

Os passos hesitantes do presente são as pegadas da redenção do mundo.
אוֹר חָדָשׁ עַל צִיּוֹן תָּאִיר "Uma luz nova sobre Sião farás resplandecer." Da bênção Yotzer Or (liturgia matinal)

A imagem das "vestes imundas trocadas pelas vestes da santidade" vem da visão de Zacarias (3:3-4), em que o sumo sacerdote Yehoshua é despido das vestes sujas e revestido de trajes puros. O Rav Kook aplica-a ao renascimento de Israel: o processo é real, e por vezes começa de forma desajeitada, "pobre", quase irreconhecível. Mas o que parecem apenas passos vacilantes — pa'amei dalim — revelar-se-á, ao olhar que enxerga fundo, como as próprias pegadas da redenção a caminho. E ela não é só de Israel: alcança "o mundo inteiro" e até "as almas dos que dormem no pó". A esperança do Rav Kook nunca é estreita.

A Delícia da Torá: o grande tecido vivo

Há quem viva a Torá como um conjunto de regras separadas — umas elevadas, outras áridas. O Rav Kook descreve outra experiência: a do momento em que o amor da Torá se acende por dentro e tudo, de repente, aparece como um único tecido vivo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

O grande tecido

A delícia da Torá [chemdat ha-Torá] inflama-se numa percepção interior, e o homem começa a sentir o grande tecido de cada letra e de cada ponto: que toda ideia e conteúdo, todo conhecimento e raciocínio, todo movimento do espírito, todo estremecimento — intelectual e emocional, do mais próximo e geral ao mais distante e particular —, desde as coisas nobres, espirituais e morais segundo a sua face revelada, até as coisas práticas, materiais e obrigatórias (as que à primeira vista parecem impositivas e coercivas, e ainda intrincadas, cheias de detalhe e de grande esforço intelectual) — todas elas, juntas, são reconhecidas numa percepção de santidade suprema.

Eis a chave de toda a seção. Quem ama a Torá não divide os seus mandamentos em "inspiradores" e "maçantes". No olhar que o Rav Kook descreve, até a lei mais técnica e exigente — a que parece só "obrigar" — revela-se como um fio do mesmo tecido luminoso. A santidade não está só nos cumes; corre por cada ponto e cada letra.

Pois é na simplicidade da fé contida no amor da Torá [chibat ha-Torá] que se encontra a sublimidade da sua verdade e a grandeza do seu cântico, tornando tudo em coisas vivas e duradouras — coisas por onde passam torrentes de vida poderosas, cheias de delícia, de alegria e de esplendor, que as enchem por inteiro; e uma doçura sem fim é sentida no paladar de quem a medita.

וְחִכֵּךְ כְּיֵין הַטּוֹב, הוֹלֵךְ לְדוֹדִי לְמֵישָׁרִים, דּוֹבֵב שִׂפְתֵי יְשֵׁנִים "E o teu paladar é como o bom vinho, que corre suave para o meu amado, e faz falar os lábios dos que dormem." Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 7:10
מַה יָּפִית וּמַה נָּעַמְתְּ, אַהֲבָה בַּתַּעֲנוּגִים "Como és bela e como és graciosa, ó amor, em [tuas] delícias!" Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 7:7

A música do segredo

Pulsa o amor, e renova-se: ondas sobre ondas marulham, uma multidão de harpas e liras que adoçam a suavidade do murmúrio do seu segredo — [vindo] da profundeza da alma da nação, da elevação da alma do homem que nela se concentra, da amplidão da alma de todo o universo, de todo o ser que habita no ponto interior de Sião, fonte do deleite, despojado de todo conteúdo e de todo atributo definido. Dali, de tudo, marulha e se agita uma multidão de esferas de vida ressoantes, que adoçam o segredo de uma fala santa.

Até a letra que apenas "obriga" é um fio do mesmo tecido luminoso.

A noiva ainda velada

A Torá revela-se no esplendor da sua beleza. A alma da nação — viva e original, viçosa e rica, alma de espírito elevado, saturada de delícia do Éden — eis que se apresenta diante de nós em toda a variedade de cores do esplendor da sua delícia consumada. A minha alma ansiou por ela; o meu coração e a minha carne exultam pelo D'us vivo; como de gordura e fartura se sacia a minha alma, e com lábios jubilosos te louva a minha boca.

A Torá revela-se em toda a perfeição da sua glória a esta geração viçosa, cheia de força juvenil; e a expectativa vai pulsando às portas da sua alma altiva — pois a Torá ainda não removeu de si o véu do seu mistério. Envolta [em véu] está esta amável filha dos céus; mas os raios da sua glória já penetram através do véu, e enchem os recantos da nossa vida de brilho e de luz de vida.

A imagem é nupcial e cheia de esperança. A Torá é como uma noiva ainda velada — não a possuímos por inteiro, não lhe vemos ainda o rosto pleno. Mas o véu não é parede: os raios já o atravessam. O Rav Kook não descreve uma posse acabada, e sim um noivado em curso — a Torá da Terra de Israel desabrochando junto com o povo que a ela desperta.

Ela já goteja orvalhos de vida no íntimo das almas que despertam para o renascimento. A Torá da Terra de Israel vai despertando — junto com a reconstrução do país, o trabalho produtivo e a consciência de si.

A Sabedoria de D'us na Nação

O que faz de Israel uma nação? Não um território, nem só uma história comum. O Rav Kook aponta para algo mais fundo: uma sabedoria divina que vive no povo, cujo receptáculo não é este ou aquele sábio, mas a nação inteira, ao longo de todas as gerações. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A nação inteira como receptáculo

A sabedoria suprema que repousa em Israel — a sabedoria de D'us [chochmat Elohim] —, cujo "corpo" que recebe a sua luz é a nação inteira, em todas as suas gerações (as passadas, as presentes e as futuras), tem a sua visão de mundo clara, as suas convicções firmes, os seus traços, as suas qualidades, os seus sentimentos, as suas visões, as suas crenças, as suas esperanças, e a grandeza do seu desejo e da sua aspiração — e tudo isso são realidades concretas, que atuam e cumprem a sua função, lavrando a natureza de Israel, ligadas por um vínculo forte a todos os conteúdos históricos da nação e a todos os percursos da vida, particulares e gerais.

Repare na imagem central: a sabedoria divina tem um "corpo" que recebe a sua luz, e esse corpo é a nação inteira, em todas as gerações. Não é o gênio isolado, nem um único século, que carregam a sabedoria de Israel — é o povo como um todo, atravessando o tempo. Por isso essa sabedoria não é teoria abstrata: ela "lavra a natureza de Israel", molda traços, sentimentos e esperanças — é uma realidade viva e operante.

As suas leis de vida são a Torá

Esta sabedoria tem o seu centro na grande sabedoria de D'us que pertence ao grande mundo — a de todas as hostes do cosmo. E as condições da sua plenitude, e as suas influências sempre viçosas, são precisamente as leis de vida da Torá de Israel — é nela que essa sabedoria se torna manifesta.

O retorno à natureza autêntica de Israel, que vai pulsando no despertar do renascimento nacional e das suas esperanças — só ele trará a teshuvá completa: a que está agarrada à sabedoria particular de Israel e, ao mesmo tempo, ligada à sabedoria suprema do D'us vivo, raiz mais alta da Torá em toda a sua plenitude, a escrita e a oral.

O retorno à natureza autêntica de Israel é o que trará a teshuvá completa.

Da imagem de D'us no homem

Dessa raiz brota a lei escrita e transmitida, e também toda qualidade preciosa, toda medida digna, todo pensamento belo, toda criação boa e viva que sai da fonte de Israel — e que brota da imagem de D'us [tzelem Elohim] que Ele pôs no homem, e da alma de vida que Ele soprou nas suas narinas, do Seu espírito supremo.

וַיִּפַּח בְּאַפָּיו נִשְׁמַת חַיִּים, וַיְהִי הָאָדָם לְנֶפֶשׁ חַיָּה "E soprou nas suas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou alma vivente." Bereshit (Gênesis) 2:7
וּמַאן דְּנָפַח, מִתּוֹכֵיהּ נָפַח "E aquele que sopra, sopra do seu próprio interior." Ditado dos Sábios (cf. o Zohar, sobre Bereshit 2:7)

O Rav Kook fecha o pensamento com uma frase aramaica dos Sábios: "aquele que sopra, sopra do seu próprio interior". Como o sopro humano vem de dentro de quem sopra, assim a alma que D'us insuflou no homem provém, por assim dizer, do Seu mais íntimo. É a base última de tudo o que veio antes: a sabedoria divina pode viver numa nação humana porque o próprio homem carrega, no seu fundo, algo soprado "de dentro" do Criador — a imagem de D'us.

O tesouro guardado no renascimento

Por isso — pergunta o Rav Kook — quem seria capaz de descrever quão grande é o tesouro de vida, a reparação do mundo [tikun olam], a salvação das almas, toda a grande ventura e todo o esplendor da teshuvá, que está guardado [ganuz] no renascimento da nação, e que vai tomando corpo na Terra de Israel?

A Liberdade da Alma

Costuma-se pensar a vida espiritual como uma disciplina de limites — conter, refrear, restringir. O Rav Kook abre esta seção com o gesto oposto: a alma precisa de liberdade. Não de licença para o caos, mas de espaço para se expandir em toda a sua força. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Dar plena liberdade à alma

É preciso dar plena liberdade à inclinação espiritual que há na alma, para que ela se expanda e se alargue em todas as suas forças. Conforme a abundância das suas ações livres, fortalece-se o seu poder, e ela revela as maravilhas do seu esplendor — a força da sua santidade sobre a vida, e sobre todos os atos e pensamentos.

Na liberdade da alma, ela eleva consigo todas as forças de vida dispersas, que dela descem e derivam, e todas — num só feixe — se erguem ao alto da santidade suprema.

וְיֵעָשׂוּ כֻלָּם אֲגֻדָּה אֶחָת, לַעֲשׂוֹת רְצוֹנְךָ בְּלֵבָב שָׁלֵם "E todos se tornem um só feixe, para fazer a tua vontade de coração inteiro." Da liturgia dos Dias Temíveis (Yamim Noraim)

Eis o paradoxo no coração da seção: a liberdade não dispersa a alma — fortalece-a. "Conforme a abundância das suas ações livres, fortalece-se o seu poder." Quanto mais livremente a alma age segundo a sua inclinação mais profunda, mais ela se unifica, recolhendo "num só feixe" todas as forças que andavam dispersas. A santidade, para o Rav Kook, não nasce da repressão da vida interior, mas da sua libertação plena.

A luz da Torá e a alma do mundo

Esta qualidade vai se iluminando à medida que a luz da Torá mais penetra e mais ilumina: quanto mais os segredos interiores da Torá — seja pelo lado do conhecimento, seja pelo do sentimento, seja pelo da imaginação — se revelam e se difundem, e mais aptos se tornam a um estudo constante e habitual, mais se eleva a alma como um todo. E a alma do mundo — a luz de vida da Shechiná divina — brilha cada vez mais, e revela a sua luz sobre todas as almas e sobre todos os seus atos.

Israel e a aurora da redenção

E Israel — aferrado, desde a profundeza da natureza da sua alma, ao agarre da santidade suprema, à aspiração espiritual mais alta da emanação da vida e do ser — erguer-se-á pela intensificação da luz interior que emana da luz do conhecimento supremo; eles se elevarão e se enobrecerão, e a força divina os animará no esplendor da sua glória. E tornar-se-ão cada vez mais aptos à luz da redenção, à luz do Mashiach; e o esplendor da paz universal e a graça do amor — pela nação inteira e por cada um dos seus, pelas suas ações e pelo alargamento da sua vida — irá se difundindo pelo mundo.

Do esplendor interior, os raios acabam por brilhar também sobre a glória exterior.

...até que, do esplendor interior, raios se espalhem também sobre a glória exterior, e todo o mundo, [também] por fora, comece a reconhecer a luz da glória da nossa força. E a glória oculta — que jaz nas profundezas da alma de todos os povos cultos, voltada à luz de Israel, e que foi detida por muitos obstáculos — romperá todos os seus empecilhos e, como uma torrente que arrebenta, jorrará, para coroar Israel de glória e cingi-lo de força.

פָּרַץ ד' אֶת אֹיְבַי לְפָנַי כְּפֶרֶץ מָיִם "Rompeu o Senhor os meus inimigos diante de mim, como a irrupção das águas." Shmuel II (II Samuel) 5:20

O fecho da seção é de um universalismo característico do Rav Kook. A luz que se liberta dentro de Israel não fica encerrada nele: há uma "glória oculta" adormecida "na alma de todos os povos cultos", voltada para essa mesma luz e represada por muitos obstáculos. Quando a alma de Israel age em liberdade, essa glória represada nas nações rompe as suas barreiras e jorra — não para apagar Israel, mas para coroá-lo. A libertação de uma alma desencadeia a libertação de todas.

A Alma do Mundo e o Corpo

Há uma tentação antiga de desprezar o corpo em nome do espírito. O Rav Kook recusa-a: o corpo é o "centro de vida" sobre o qual a alma age, e a sua saúde é um ideal elevado. Mais ainda — ele alarga a imagem até o cosmo inteiro: todos os mundos são, eles próprios, o corpo de uma alma divina. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A alma que voa a distâncias cósmicas

Sobre o corpo — enquanto centro de vida restrito e limitado — atua a alma da vida [nishmat ha-chayim], ampla, que se difunde no seu voo até distâncias cósmicas. São ideais muito elevados a pureza do corpo, o seu vigor, a sua saúde, o robustecer dos seus ossos, a vivacidade da sua vida, a luz e o calor dos seus sentimentos.

Repare na afirmação, surpreendente para quem espera do místico um desprezo pelo físico: "são ideais muito elevados a pureza do corpo, o seu vigor, a sua saúde". Para o Rav Kook, cuidar do corpo não se opõe à vida do espírito — pertence a ela. O corpo é o "centro" através do qual a alma ampla age no mundo; fortalecê-lo é dar à alma um instrumento à altura. Era um tema vital no seu tempo, de um povo que voltava ao trabalho da terra.

Todos os mundos são o corpo da alma divina

Todos os mundos são o corpo da alma divina — a emanação da Shechiná, o reino dos céus [malchut shamayim], a [alma] rica que se difunde. No nosso mundo, sentimo-la concentrada segundo as nossas medidas. Sobre cada criatura criada ela se difunde; sobre a totalidade da criação ela se concentra; ilumina com a luz da sua vida e revela a sua riqueza e a sua glória.

No mundo vivo, ela se revela no seu caráter próprio; em toda a humanidade, com grande vigor e proeminência majestosa; mas é com pujança de santidade que ela se revela na comunidade de Israel [Knesset Israel] — este é o seu repouso, o seu salão perfeito, no esplendor da sua glória.

O repouso da Shechiná em Israel

Quem penetra na alma israelita — e contempla o seu caráter notável e singular, o seu esplendor histórico, o seu destino, a eternidade da sua existência e a manifestação da sua vida, os pensamentos das suas reflexões, as suas aspirações, esperanças, sonhos e vocações, a sua confiança e a sua verdade — esse acha quão belo é o centro da eleição divina, [o centro] da emanação da Shechiná. A partir da imagem de baixo, ele sobe e contempla a imagem de cima, e dá honra e glória à realeza — a realeza de todos os mundos.

A partir da imagem de baixo, sobe-se a contemplar a imagem de cima.

As águas que se elevam juntas

...[a realeza] cujo esplendor repousa sobre Israel. E o corpo nacional e todos os seus instrumentos — a sua terra, a sua língua, o seu espírito, a sua moral, os seus costumes, as suas inclinações — e a sua alma — a sua Torá, a sua profecia, a sua oração, a sua fé —, e todos os muitos riachos, regatos fiéis de água, águas superiores e águas inferiores, juntos se elevam onda sobre onda, erguem-se em esplendor eterno, e se afeiçoam e se amam com um amor de amizade que não tem igual sobre a terra.

וַיַּבְדֵּל בֵּין הַמַּיִם אֲשֶׁר מִתַּחַת לָרָקִיעַ וּבֵין הַמַּיִם אֲשֶׁר מֵעַל לָרָקִיעַ "E separou as águas que estão debaixo do firmamento das águas que estão sobre o firmamento." Bereshit (Gênesis) 1:7

A imagem das "águas superiores e inferiores" que voltam a unir-se é cara à tradição: a criação começou por uma separação das águas, e a redenção é, em certo sentido, um reencontro. Aqui o Rav Kook aplica-a ao renascimento de Israel: o "corpo nacional" (terra, língua, costumes) e a "alma" (Torá, profecia, prece) — que tantas vezes pareceram correntes separadas — voltam a fluir juntos, "onda sobre onda", num amor sem igual. Matéria e espírito do povo deixam de ser rivais.

E o amor ardente torna-se zelo de um povo, que gera heróis cingidos de força, um espírito cheio de fogo ardente; e a força ardente funde-se com o intelecto e a retidão, e uma grande literatura — plena de conselho, de poesia e de retidão — vai sendo criada, para o renascimento de um povo sobre a terra da sua herança, para sempre. E o shofar do Mashiach começa a soar.

תְּקַע בְּשׁוֹפָר גָּדוֹל לְחֵרוּתֵנוּ, וְשָׂא נֵס לְקַבֵּץ גָּלֻיּוֹתֵינוּ "Toca o grande shofar para a nossa liberdade, e ergue um estandarte para reunir os nossos exilados." Da Amidá (bênção da reunião dos exilados)

A Chutzpá da Geração: a insolência que não é destruição

O Talmud descreve os tempos que antecedem a redenção — os ikveta de-meshicha, os "calcanhares do Mashiach" — como uma era de chutzpá: irreverência, audácia, queda do respeito (Sotá 49b). É fácil ler nisso apenas decadência. O Rav Kook lê de outro modo — e é uma das suas páginas mais ousadas e esperançosas. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Uma diminuição de luz, não uma destruição

A chutzpá dos calcanhares do Mashiach é uma diminuição de luz em vista da reparação dos vasos [tikun ha-kelim]; e não se parece, de modo algum, com os episódios de outras transgressões — essas, sim, defeitos completos, no caminho da destruição.

Eis a distinção que governa tudo. Há uma escuridão que é puro estrago — o pecado que demole. E há uma escuridão que é apenas luz reduzida, parte de um processo de construção: como o artesão que baixa a intensidade do fogo para poder trabalhar o vaso. A irreverência da geração do renascimento, diz o Rav Kook, é desta segunda espécie. Não a aprova como virtude — mas recusa-se a confundi-la com a ruína. É uma fase, não um fim.

As centelhas que se apagam

De fato, há, dentro deste acampamento dos insolentes, também centelhas [zikin] que necessariamente hão de se apagar por completo; e esse apagamento virá por uma grande iluminação da luz da Torá — vinda da gevurá [a força, o rigor] do alto —, pela aparição de tzaddikim grandíssimos.

אוֹר צַדִּיקִים יִשְׂמָח, וְנֵר רְשָׁעִים יִדְעָךְ "A luz dos justos se alegra, mas a lâmpada dos ímpios se apaga." Mishlei (Provérbios) 13:9

A leitura generosa não é ingênua. Dentro do mesmo movimento há "centelhas" — elementos que não se redimem e que, no fim, se apagarão. Mas note como se apagam: não por condenação raivosa, e sim pelo excesso de luz — "a luz dos justos se alegra, e [por contraste] a lâmpada dos ímpios se apaga". O remédio do Rav Kook para o que há de mau na geração não é a guerra, é a aparição de grandes justos cuja luz, simplesmente, ofusca o resto.

Por que a insolência foi necessária

Sem a chutzpá dos calcanhares do Mashiach não teria sido possível explicar os segredos da Torá em revelação completa. Somente pelo adensamento dos sentimentos que vem por meio da chutzpá será possível receber iluminações intelectuais altíssimas; e, no fim de tudo, tudo voltará à reparação completa [tikun gamur].

A própria audácia da geração abre espaço para uma luz que a reverência tímida não suportaria.

É a tese mais surpreendente da seção: a irreverência da era tem uma função. O respeito antigo, delicado demais, não suportaria a revelação aberta dos mistérios mais altos da Torá. A ousadia da geração — ao "engrossar" e robustecer a sensibilidade — torna-a capaz de receber luzes que antes teriam de permanecer veladas. O que parece queda é, em parte, o preço de uma revelação maior.

כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת ד', כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים "Pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Yeshayahu (Isaías) 11:9

A Geração que Prepara o Corpo

Na seção anterior, o Rav Kook recusou-se a ler a irreverência da geração do renascimento como mera decadência. Aqui ele dá o passo seguinte e positivo: explica qual é a tarefa dessa primeira geração — e por que o seu trabalho aparentemente "material" é, na verdade, sagrado. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A geração que prepara a matéria

A primeira geração dos calcanhares do Mashiach — no início do "fim revelado" [ketz ha-megulé] do povoamento da Terra de Israel — prepara a matéria [ha-chomer] de Knesset Israel [a comunidade de Israel]; e a espiritualidade deve servir, nela, como uma guarda da vida interior.

וְאַתֶּם הָרֵי יִשְׂרָאֵל עַנְפְּכֶם תִּתֵּנוּ וּפֶרְיְכֶם תִּשְׂאוּ לְעַמִּי יִשְׂרָאֵל, כִּי קֵרְבוּ לָבוֹא "E vós, montes de Israel, dareis os vossos ramos e produzireis o vosso fruto para o meu povo Israel, pois estão prestes a vir." Yechezkel (Ezequiel) 36:8

Os Sábios chamaram a este versículo o "fim revelado": quando a terra de Israel volta a dar o seu fruto ao povo que regressa, não há sinal mais claro de que a redenção se aproxima (Sanhedrin 98a). Por isso o Rav Kook dignifica o trabalho "material" desta geração — lavrar, construir, povoar: não é o oposto da santidade, é a sua fundação. Há horas em que a coisa mais espiritual a fazer é fortalecer o corpo do povo; e, nelas, a espiritualidade não comanda — guarda, vela a chama interior até o seu tempo.

Quando o corpo se fortalece, a alma se revela

E quando se fortalecer a força material da nação, então se revelarão todas as qualidades espirituais santas [segulot] que há nela, e a Torá e todas as suas luzes voltarão à sua plena força [le-eitanah] — para serem luz eterna.

Há horas em que fortalecer o corpo do povo é a obra mais espiritual de todas.
וְהָיִית עֲטֶרֶת תִּפְאֶרֶת בְּיַד ד', וּצְנִיף מְלוּכָה בְּכַף אֱלֹהָיִךְ "E serás uma coroa de glória na mão do Senhor, e um diadema real na palma do teu D'us." Yeshayahu (Isaías) 62:3

A imagem do fecho é de uma confiança serena. A Torá não foi diminuída pela geração que se ocupou primeiro do "corpo" — ela apenas aguarda. Quando o alicerce material estiver firme, "todas as qualidades santas se revelarão", e a Torá voltará "à sua plena força" [le-eitanah], para ser de novo "uma coroa de glória na mão do Senhor". Não é regresso a um passado: é uma luz antiga que volta inteira, agora sobre uma base capaz de a sustentar.

As Almas que Voltam

Esta breve seção fecha o pensamento das duas anteriores sobre a geração do renascimento. Depois de explicar que a sua irreverência não é destruição (§39) e que o seu trabalho material é uma fundação sagrada (§40), o Rav Kook diz aqui de onde vem, afinal, aquela insolência — e por que ela passará. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

As almas dispersas regressam

Muitas almas, dispersas entre as nações [nidachot], voltam a Knesset Israel nos calcanhares do Mashiach [ikveta de-meshicha]; e a força de digestão [do corpo do povo] não basta, de início, para convertê-las em alimento saudável.

וְנָשָׂא נֵס לַגּוֹיִם, וְאָסַף נִדְחֵי יִשְׂרָאֵל "E erguerá um estandarte para as nações, e reunirá os dispersos de Israel." Yeshayahu (Isaías) 11:12

A imagem é fisiológica, e por isso desarmante. Almas que estiveram longas eras "entre as nações" regressam trazendo consigo formas de pensar, de sentir e de viver formadas fora. O corpo do povo ainda não consegue "digeri-las" — integrá-las plenamente à sua vida interior. Não é culpa de ninguém: é o esforço natural de um organismo que reabsorve o que andou disperso. O Rav Kook não vê traição nos que voltam diferentes; vê um processo de saúde em curso.

Uma doença passageira

E é disto que cresce a doença da chutzpá [a insolência]. Mas ela é apenas uma doença passageira.

Não uma corrupção do caráter — uma indigestão do regresso, que o tempo cura.

Repare na delicadeza do diagnóstico: a insolência da geração não é apresentada como uma corrupção moral do caráter, mas como um sintoma de transição — a dificuldade momentânea de assimilar tudo o que regressa de uma só vez. E todo sintoma de transição, por definição, passa. Ao fim, aquilo mesmo que veio "de fora" deixa de ser indigesto e torna-se força:

וְחֵיל גּוֹיִם תֹּאכֵלוּ, וּבִכְבוֹדָם תִּתְיַמָּרוּ "E comereis a riqueza das nações, e na sua glória vos gloriareis." Yeshayahu (Isaías) 61:6

O verso que encerra a seção transforma o problema em promessa. Aquilo que, por ora, o povo não consegue "digerir" — o saber, a energia, a cultura que as almas trazem do exílio — não será rejeitado: tornar-se-á nutrição. "Comereis a riqueza das nações." O que hoje provoca a febre da insolência é, visto de longe, o alimento de amanhã. É a mesma confiança das seções anteriores: nada do que é genuíno se perde — tudo, a seu tempo, entra no corpo vivo da nação.

A Grande Teshuvá da Luz dos Segredos

Costumamos pensar a teshuvá (o "retorno", o arrependimento) como um inventário: o que fiz de errado, o que devo corrigir. O Rav Kook reconhece essa teshuvá — mas aponta para outra, muito maior, que não nasce do cálculo dos atos, e sim de uma luz. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Duas teshuvás

A teshuvá que brota da luz dos segredos da Torá [or sitrei Torá] — que se desperta a partir de um raciocínio interior, desenvolvendo-se da fonte viva nas profundezas da alma (fonte que abarca toda retidão e todo raciocínio, toda moral e todo estatuto e mandamento) — é grande e sublime, sem comparação, mais do que toda teshuvá particular, a que sai dos pequenos cálculos individuais da alma — cálculos que não têm senão o seu lugar, a sua hora e o seu detalhe, e que "não bastam para cobrir todas as obras".

A distinção é decisiva. A teshuvá "particular" corrige atos, um a um: este erro, aquela falha. É necessária — mas limitada, presa "ao seu lugar, à sua hora, ao seu detalhe". Sozinha, "não basta para cobrir todas as obras", porque a vida tem mais lados do que qualquer inventário consegue listar. A teshuvá maior não soma correções: brota de uma luz que reorganiza o todo de uma vez — vem de cima e de dentro, não da contabilidade.

O grande mar da teshuvá

O grande mar da teshuvá, com a multidão das suas ondas, é apenas aquela torrente que vem da compreensão do coração [binat ha-lev] de uma liberdade eterna [cherut olam] — [compreensão] que vai brilhando através das frestas dos segredos do mundo: os que estão nos mistérios da Torá, na sabedoria dos segredos, em toda a manifestação espiritual, e em todo o tesouro de poesia e de pensamento que há na luz da Torá.

כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים, בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר "Pois contigo está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz." Tehillim (Salmos) 36:10

Note de onde brota essa teshuvá maior: de uma "liberdade eterna". O arrependimento, no Rav Kook, não é sobretudo aperto e culpa — é libertação. Quando a luz dos mistérios da Torá penetra "pelas frestas", o coração compreende, e dessa compreensão jorra um mar inteiro. A teshuvá deixa de ser um tribunal interno e torna-se uma maré de vida que vem da própria fonte — "contigo está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz".

A luz em que se vê a redenção

É por esta luz que Israel anseia; e nesta grande luz verá a luz da redenção e a redenção eterna [pedut olamim].

A teshuvá maior não soma correções: é uma maré de vida que vem da própria fonte.
שׁוּבוּ אֵלַי וְאָשׁוּבָה אֲלֵיכֶם, אָמַר ד' צְבָאוֹת "Voltai a mim, e voltarei a vós, diz o Senhor dos Exércitos." Malachi (Malaquias) 3:7

O fecho liga a teshuvá à redenção, e por isso esta seção pertence às "Luzes do Renascimento". A grande teshuvá não é só um assunto privado de cada alma: é a maré que ergue a nação inteira rumo à libertação. "Voltai a mim, e voltarei a vós" — o retorno do povo e o retorno da Presença divina são um só movimento. Eis o complemento da teshuvá que brota do espírito de santidade: ali, da profecia em germe; aqui, da luz dos segredos da Torá. Duas faces da mesma grande maré.

O Espírito de Israel e o Espírito de D'us são Um

Esta é uma das páginas mais decisivas — e mais generosas — do Rav Kook sobre o renascimento nacional. Ele encara de frente a possibilidade de uma nação se corromper, reconhece o risco, e então afirma algo extraordinário: o espírito de Israel está tão unido ao espírito de D'us que nem o mais secular dos seus filhos consegue, de fato, separá-los. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A impureza que pode crescer numa nação

A "sujeira" espiritual [ha-zuhama] — assim como pode acumular-se dentro de uma alma individual, afastando-a do seu bom feitio e tornando-a baixa, ao ponto de descer ao nível dos ínfimos da vida — também pode acumular-se dentro da alma coletiva de uma nação inteira, fazendo dela uma nação baixa e perversa, desprezível e repugnante.

A pureza divina, quando bem iluminada, purifica o coração. A alma do homem singular torna-se luminosa, santa e forte pela luz divina que faz brilhar sobre ela os seus raios com vigor e plenitude; e turva-se na mesma medida em que essa luz está distante dela, ou perturbada dentro dela. Também a alma da nação inteira, quando nela corre uma corrente viva de manifestação de D'us, é sã, forte e pura; e quando a Shechiná se afasta dela, logo definha, e a sua impureza vai-se revelando.

O Rav Kook não idealiza ingenuamente a coletividade. Um povo, como um indivíduo, pode adoecer no espírito — e, justamente por ser grande, "as suas aspirações más crescem muito mais para o mal do que as de homens maus isolados". O diagnóstico é severo. Mas é o pano de fundo necessário para o que vem a seguir: precisamente porque o risco é real, a garantia que ele anuncia é tão notável.

O espírito nacional pode, pois, contrair impureza como o espírito de um homem particular, e aspirar a coisas baixas e más, que — na proporção da sua força — crescem muito mais para o mal. Por isso o espírito precisa de pureza — pureza na fonte da pureza, no manancial divino. Quando os atos são bons e as qualidades límpidas, a nação sonha sonhos de santidade suprema, e a sua mente ilumina-se com a luz de D'us; quando os atos se aviltam, as aspirações nacionais tornam-se baixas, feias e — por consequência — também fracas: pois não há força verdadeira senão a força do alto, a força de D'us.

A aliança: Israel não se contamina por completo

Uma aliança está firmada com toda a Knesset Israel: que ela não se contaminará com uma impureza completa. Também sobre ela a impureza pode atuar, causar-lhe defeitos — mas não pode cortá-la por inteiro da fonte da vida divina.

וְאַף גַּם זֹאת בִּהְיוֹתָם בְּאֶרֶץ אֹיְבֵיהֶם לֹא מְאַסְתִּים וְלֹא גְעַלְתִּים לְכַלֹּתָם, לְהָפֵר בְּרִיתִי אִתָּם "E, mesmo assim, estando eles na terra dos seus inimigos, não os rejeitei nem os abominei a ponto de os destruir, de quebrar a minha aliança com eles." Vayikrá (Levítico) 26:44

O espírito de Israel e o de D'us são um

O espírito da nação que agora despertou — cujos muitos defensores dizem não precisar do espírito de D'us — se de fato pudessem fundar em Israel um espírito nacional assim [sem D'us], poderiam pôr a nação no patamar da impureza e da ruína. Mas o que eles querem, eles mesmos não sabem: de tal modo está unido o espírito de Israel ao espírito de D'us, que até quem diz não precisar de modo algum do espírito do Senhor — uma vez que diz desejar o espírito de Israel — eis que o espírito divino habita na intimidade do seu anseio, mesmo contra a sua vontade.

O indivíduo pode cortar-se da fonte da vida; a nação inteira, não.

O indivíduo particular pode cortar-se a si mesmo da fonte da vida; não assim a nação, toda a Knesset Israel. Por isso, todos os bens da nação — que lhe são queridos pelo seu espírito nacional — todos têm o espírito de D'us habitando neles: a sua terra, a sua língua, a sua história, os seus costumes.

Aqui está o coração da seção, e uma das ideias mais influentes do Rav Kook. O nacionalista que se diz secular ama "o espírito de Israel" — a terra, a língua, a história. Ora, esse espírito é, na sua raiz, o espírito de D'us; logo, ao amá-lo, esse homem carrega o divino "na intimidade do seu anseio, mesmo contra a sua vontade". Não é uma acusação — é um abraço. O Rav Kook não vê inimigos da fé nos pioneiros seculares; vê pessoas que servem o sagrado sem o saber.

O que devem fazer os justos

E se, em algum tempo, surgir um despertar que diga tudo isto em nome do espírito da nação apenas, esforçando-se por despojar o espírito de D'us de todos esses bens e da sua fonte revelada — que devem então fazer os justos da geração? Rebelar-se contra o espírito da nação, mesmo em palavra, e desprezar os seus bens? Isso é impossível: o espírito do Senhor e o espírito de Israel são um só. Antes, devem realizar um grande trabalho — revelar a luz e a santidade que há no espírito da nação, a luz de D'us que está dentro de tudo isso — até que todos os que sustentam aqueles pensamentos se encontrem, por si mesmos, imersos, enraizados e vivendo na vida de D'us, resplandecentes em santidade e na força do alto.

כִּי לֹא יִטֹּשׁ ד' עַמּוֹ, וְנַחֲלָתוֹ לֹא יַעֲזֹב "Pois o Senhor não abandonará o seu povo, nem desamparará a sua herança." Tehillim (Salmos) 94:14

Daí a estratégia dos justos não ser a polêmica, mas a revelação. Não combater o despertar nacional — combatê-lo seria combater algo que, na raiz, é divino —, e sim descobrir e mostrar a luz de D'us que já habita nele, até que os próprios que o negavam se reconheçam, de dentro, "vivendo na vida de D'us". É um programa de amor paciente, não de guerra: a fé não vence o secular expulsando-o, mas revelando-lhe quem ele, no fundo, já é.

A Inclinação Nacional: o Campo que D'us Abençoou

O que vale o sentimento nacional? O Rav Kook responde com uma imagem agrícola: a inclinação nacional de Israel é um campo fértil, ainda que ainda não cultivado em plenitude. E o que parece, à primeira vista, uma afirmação só sobre Israel, abre-se ao fim numa visão universal. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Um campo fértil, ainda à espera

A inclinação nacional [ha-netiá ha-leumit] em Israel é "um campo que o Senhor abençoou". Pois, ainda que nela ainda não haja grandes [homens] completos — por causa da grande desolação do exílio —, ela é digna, por meio de um trabalho espiritual e prático, de que cresçam nela todos os melhores grandes do mundo; de fazer brotar, da sua abundância, almas grandes e elevadas que iluminam o mundo inteiro com a sua glória.

רְאֵה רֵיחַ בְּנִי כְּרֵיחַ שָׂדֶה אֲשֶׁר בֵּרֲכוֹ ד' "Eis o aroma do meu filho, como o aroma de um campo que o Senhor abençoou." Bereshit (Gênesis) 27:27

A escolha da imagem é tudo. Um campo abençoado que ainda não deu os seus maiores frutos não é um campo estéril — é um campo à espera de lavra. O Rav Kook reconhece, com franqueza, que o exílio deixou "uma grande desolação": faltam, por ora, os gigantes do espírito. Mas a potência está intacta no solo. O sentimento nacional não é um fim em si — é a terra fértil de onde, com trabalho, hão de brotar "as maiores almas que iluminam o mundo".

O contraste — e a sua superação

E há, em contraste, uma inclinação nacional [de outro tipo] que é ruína e deserto — que de modo algum é apta a fazer crescer plantas; e as plantas más que dela saem — como "a vide de Sodoma", o veneno das serpentes e os cachos amargos — a sua ausência é melhor do que a sua existência. Nelas tudo é pura carência e destruição; e [tal inclinação], ao fim, há de cessar.

O contraste não é entre Israel e os outros povos como tais. É entre um espírito nacional voltado para o bem e um espírito nacional construído sobre a crueldade — e a "vide de Sodoma" é, na linguagem da Torá, o arquétipo desse segundo tipo: a sociedade organizada em torno da violência e da dureza de coração. O que o Rav Kook diz que "é melhor não existir" não é um povo, mas uma tendência: um nacionalismo que só produz "frutos amargos". E o passo seguinte mostra que mesmo essa tendência tem cura.

Pois somente a influência da santidade, misturada na inclinação nacional israelita, é que rega essas inclinações humanas em geral e as devolve ao bem — até que também elas cheguem a uma elevação, tornando-se dignas, pela proximidade da sua ligação e da sua relação com Israel, de um florescimento espiritual.

A santidade de um povo, quando é real, acaba por regar a inclinação de todos.
יְשֻׂשׂוּם מִדְבָּר וְצִיָּה, וְתָגֵל עֲרָבָה וְתִפְרַח כַּחֲבַצָּלֶת "Alegrar-se-ão o deserto e a terra seca, e exultará a estepe e florescerá como a rosa." Yeshayahu (Isaías) 35:1

Eis a viragem que redime toda a seção. O "deserto" — a inclinação que parecia incapaz de dar fruto — não é abandonado à destruição: é regado pela santidade que transborda de Israel, até florescer "como a rosa". A vocação de Israel, no Rav Kook, nunca é estreita: a sua santidade existe para elevar "as inclinações humanas em geral". E tudo isto, conclui ele, virá pela redenção completa de Israel — que há de vir primeiro, e arrastar consigo a do mundo inteiro.

A Via Longa: a grandeza que não se deve esquecer

Esta é uma das seções mais amplas e poderosas das "Luzes do Renascimento" — quase um ensaio inteiro. O Rav Kook parte de um diagnóstico (o erro de Israel encolher-se, esquecer a sua grandeza) e desenvolve, em ondas, uma visão da vida nacional como portadora de um conteúdo universal e eterno, cujo coração são as mitsvot ligadas à Terra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A via é longa porque a vida é grande

O nosso caminho na vida nacional, e a sua orientação face à relação humana universal, é muito longo. Longa é a nossa vida — e por isso longos são os nossos caminhos. Grandes somos nós, e grandes são os nossos desvios; e por causa disso grandes são as nossas aflições, e grandes também as nossas consolações.

É um erro fundamental o retraimento de toda a nossa vantagem, o cessar do reconhecimento de "Tu nos escolheste". Não somos apenas diferentes de todos os povos — diferentes e distintos numa vida histórica singular, sem paralelo em nenhum povo ou língua —, mas também muito elevados e grandes acima de todo povo. Se conhecemos a nossa grandeza, então conhecemos a nós mesmos; e se esquecemos a nossa grandeza, esquecemos a nós mesmos — e um povo que se esquece de si mesmo é, por certo, pequeno e baixo. Só no esquecimento de nós mesmos é que permanecemos pequenos; e o esquecimento de nós mesmos é o esquecimento da nossa grandeza.

É preciso ler esta abertura com cuidado para não a confundir com vaidade nacional. A "grandeza" de que o Rav Kook fala não é superioridade para dominar — é uma vocação e uma responsabilidade. O ponto é psicológico e espiritual: um povo que renega a sua identidade mais profunda definha. Reconhecer "Tu nos escolheste" é, antes de tudo, recusar-se a ser pequeno por esquecimento de si — e logo se verá que essa grandeza existe para a humanidade inteira, não contra ela.

Uma só nação, como a unidade do mundo

A nossa alma abarca o mundo e a sua plenitude, e apresenta-o sobre a base da sua unidade suprema; e por isso ela é, em si, íntegra e abrangente, e não há nela aquelas contradições e composições díspares que costumam haver nas almas de um [outro] povo e língua. Somos uma só nação — una, como a unidade do mundo. Esta é a profundeza da nossa natureza espiritual, que há em nós em potência; e o nosso percurso histórico — que avança por caminhos vários, por vias de luz que passam entre montes de treva e sombra de morte — vai-nos conduzindo a trazer a profundeza da nossa natureza da potência ao ato.

Todas as coisas pequenas, de que cada povo e língua necessita no essencial do seu assunto, estão em nós cunhadas na grande moeda da nossa totalidade. Não nos é possível cortar um único ramo da grande e exuberante árvore da nossa vida e dar-lhe um curso e uma seiva por si só: tudo o que há em nós se levantará e se oporá a isso com toda a força do seu vigor interior e do seu sentimento de identidade.

Eis o cerne do pensamento, e a sua atualidade. Há quem queira tomar um ramo de Israel — a nacionalidade, a língua, a terra — e cultivá-lo separado da raiz espiritual, como se fosse possível um judaísmo só "cultural" ou só "político". O Rav Kook responde com a imagem da árvore: os ramos não vivem cortados do tronco. A unidade de Israel — em que o nacional e o sagrado são um — não é um dogma imposto de fora; é a própria seiva, que "se levanta e se opõe" a toda tentativa de separação.

Mais fortes que os tempos

A via longa aspira a uma restauração completa à vida — nossa e de tudo o que é nosso. "Um grão não cairá por terra"; uma só linha dos traços do rosto da nossa nação não daremos a apagar. Somos mais fortes do que o espírito dos tempos, mais firmes do que todas as potências do mundo. Aspiramos a erguer-nos para a vida na mesma grandeza dos nossos pais — e a ser ainda maiores e mais elevados do que eles.

Muita moral derramámos no mundo, e estamos prontos a derramar com ela também deleite e vida viçosa. A humanidade inteira dobramos em nós, no nosso espírito, abertamente; e toda a realidade, no nosso íntimo. O nosso espírito não teme os tempos: ele cria os tempos e imprime neles a sua forma. A nossa força criadora estampa a espiritualidade mais alta numa matéria real e prática — e quanto mais cresce o desenvolvimento, mais cresce o talento da criação e aquele lado artístico admirável que dá vida ao mundo, ao encarnar tudo o que há de elevado no pensamento e na aspiração em atos concretos.

Vivos e ruidosos são, para o seu momento, a vida social e os seus afãs; mas quão efêmera, quão pequena e pobre é a sua vida, e quão grande o vazio que resta no coração depois de toda a agitação das guerras e dos tumultos — quando não há neles um fim eterno, mas apenas a vida passageira de grupos de indivíduos. Sem um fim essencial, eterno e ideal — capaz de elevar tudo às formas mais altas que a razão e o sentimento supremo podem dar —, todos os movimentos nada valem e não conseguem subsistir por longos dias.

Sem um fim eterno, toda a agitação deixa apenas um grande vazio no coração.

Mas nós voltamo-nos para o alvo divino: o bem universal que abarca tudo e se revela na plenitude de cada indivíduo e de cada coletividade. E só aquela coletividade humana que consiga exprimir isto — de boca cheia, com todos os recantos da sua alma — é a que mais se aproxima da perfeição, a que mais garante a continuidade da sua existência, e a que é capaz de dar aos seus assuntos uma forma importante, que permaneça importante para sempre.

As mitsvot da Terra: a forma viva de uma sociedade

Na hora da nossa descida [no exílio], esmaecidas estão as centelhas vivas de luz — sobretudo nas memórias que se encarnam na vida tradicional da nação, em todas as mitsvot e halachot que se ramificam do passado e se voltam para o futuro. Mas há nelas uma força de vida poderosa: com um movimento decidido, com um sopro de despertar interior para o nosso pleno desejo de vida nacional, dispersar-se-á de sobre elas a camada de cinzas do entorpecimento do coração — e ver-se-ão as faíscas que estão prestes a tornar-se uma chama divina que aquece o mundo e ilumina todos os recantos.

A forma essencial de todas as ordens da vida social, segundo a cunhagem divina que se ajusta à vida — que a alarga, a purifica e a eleva à liberdade —, está guardada na disposição das mitsvot ligadas à Terra, no Templo e no reino completo de Israel, e na segulá da profecia, própria da nação na plenitude do seu feitio, que sempre aguarda o seu retorno numa forma luminosa.

וּנְשַׁלְּמָה פָרִים שְׂפָתֵינוּ "E ofereceremos [em vez de] novilhos [as palavras de] os nossos lábios." Hoshéa (Oseias) 14:3

O presente iluminado pelo futuro

Grande é o nosso passado, e maior ainda é o nosso futuro — que se esclarece bem no nosso desejo pela retidão dos ideais ocultos nas nossas almas. O futuro não cessa de exigir a sua tarefa do presente; e o presente, sabendo que o futuro precisa dele, não fica por isso anulado diante do futuro — pelo contrário, enche-se assim de todo o seu feitio e de toda a sua substância, e a inclusão no anseio do futuro acrescenta-lhe deleite e vigor vivo.

Por isso são cheias de vida, para nós, as memórias guardadas na lembrança que praticamos — pela tradição e pela ordenação dos Sábios, pela transmissão dos pais ou por um resquício do dever essencial da lei da Torá, conforme se ramificam os preceitos práticos da sabedoria da Halachá em todas as mitsvot ligadas à Terra. Encolhidas nos parecem agora estas coisas, de forma pobre por fora — mas por dentro estão cheias de vida e de grande conteúdo.

Engenhamos modos de guardar a shemitá [o ano sabático] pela venda das terras; cumprimos a entrega dos dízimos ao kohen e ao levi de um modo sem grande perda para quem dá nem grande lucro para quem recebe; abençoamos e separamos [as terumot], e redimimos o segundo dízimo. São "grãos" minúsculos — mas neles está guardada uma grande força de germinação: tudo aquilo por que anseiam, tudo de que brotaram no passado e tudo o que estão destinados a fazer crescer no futuro está neles contido, em forma típica. E assim agem em silêncio sobre a alma que [os] preserva, atiçando sem cessar um fogo sagrado de amor à Terra, e educando o povo, nos seus dias de baixeza, para o espírito da sua grandeza.

Há aqui uma teologia da fidelidade nos pequenos gestos. Mesmo as observâncias que hoje parecem técnicas e "encolhidas" — a venda simbólica da terra na shemitá, a separação dos dízimos — não são relíquias mortas: são sementes. Cada uma guarda, "em forma típica", a memória de uma vida nacional plena e a promessa do seu retorno. Quem as cumpre no exílio mantém aceso, em silêncio, o fogo de uma grandeza adormecida — e prepara-lhe o despertar.

O sono do exílio e a beleza do retorno

Dormimos um sono nacional ao longo de um exílio longo e duríssimo. As nossas forças nacionais ficaram então engolidas no nosso interior; por fora, tudo se fez enrugado e envelhecido — mas por dentro o orvalho da vida seguia fluindo. E assim como as mitsvot práticas, em toda a sua plenitude, foram connosco para o exílio e nele nos guardaram a seiva viva e o selo do nosso espírito segundo a nossa identidade interior — trazendo-nos a estes dias do início da época da iluminação, do desejo de ressurgir como nação na nossa terra —, do mesmo modo as mitsvot ligadas à Terra hão de conduzir-nos à exaltação da vida segundo a forma plena para que foram fixadas.

E quanto mais contemplamos a essência dessas mitsvot, e vemos quão distantes ainda estão de nós — quanto a nossa vida precisa de condições mais sãs e fortes para que elas se cumpram —, mais cresce em nós o desejo de cumprir, com amor e apreço, aquela parte que já podemos cumprir como lembrança — uma lembrança sagrada de uma vida plena que nos virá quando chegar a salvação completa do nosso povo na nossa terra.

Pois há uma majestade e um esplendor próprios nas mitsvot da Terra quando são cumpridas agora, em Eretz Israel, por nós — por aquela força pioneira [chalutz] que vai construindo a terra dos pais e preparando um futuro e uma esperança mais firmes e mais claros para a geração que há de vir. Quando cumprimos hoje as mitsvot da terumá e do dízimo, mesmo sem termos ainda todos os fundamentos reais sobre os quais elas se erguem — "sem o kohen no seu serviço, nem o levi no seu estrado" —, eis que a visão se ergue diante de nós, e enchemo-nos de um espírito de cântico elevado, em voo de águias, diante da luz dos dias venturosos que aguardam a nossa nação sobre a sua terra abençoada.

O Rav Kook não esconde a distância entre o gesto possível hoje e a vida plena de outrora — ao contrário, ela aumenta o amor pelo pouco que se pode fazer agora. Cumprir a terumá "como lembrança", sem Templo nem kohanim, não é uma frustração: é um ato de fidelidade e de esperança, que mantém viva a "visão" e enriquece a alma da nação com o fogo que um dia será chama plena. É a dignidade do gesto incompleto feito com amor.

A saudade divina, e o Templo como base da humanidade

Pelo antigo e pelo completo suspiramos — e a saudade é uma saudade divina, um desejo oculto, cheio de vida poderosa e original, vindo da fonte da vida eterna: realeza e Templo, sacerdócio e profecia, que imprimem o seu selo sobre todos os bens coletivos da vida — bens em que não somos inferiores a nenhum povo. Uma grande medida de força material, de moral humana, de honra nacional, de riqueza popular e de amplidão da vida é o que pede uma constituição de vida como a nossa, em que as pérolas espirituais — singulares e mais admiráveis do que as de todo homem sobre a face da terra, presentes na nossa alma nacional — possam estar engastadas, para aperfeiçoar a sua beleza e acrescentar-lhe vigor por dentro, e esplendor por fora.

O Templo é a sede do culto divino, antigo e que será novo para sempre — aquele que pôs fim à idolatria e às suas abominações e deu à humanidade uma base pura e elevada para a sua vida espiritual; dele saíram a luz e a liberdade que se vão desenvolvendo na história humana — e que se afrouxam no seu curso conforme se distanciam da sua fonte, mas que estão destinadas a fortalecer-se à medida que a ela se voltarem.

A humanidade sã, quando reconhece a majestade da Divindade, há de permanecer diante d'Ela:

כְּגָמֻל עֲלֵי אִמּוֹ, כַּגָּמֻל עָלַי נַפְשִׁי "Como uma criança desmamada [serena] junto à sua mãe, assim está a minha alma em mim." Tehillim (Salmos) 131:2

Diante da altura, da luz e da força de D'us, [a humanidade] esquecerá todas as suas espertezas, e saberá que lhe é precioso o seu sentimento natural — que torna mais sábio do que toda sabedoria — quando edificado sobre o fundamento firme da sua natureza psíquica e coroado com a coroa do reconhecimento, que se eleva eternamente e eternamente permanece oculto, atraindo a si toda alma. Num único lugar em todo o mundo convém à humanidade ver-se a si mesma na inocência da sua infância, no vigor da sua juventude e no brilho do deleite da alma universal — selada com o selo deste antigo povo das maravilhas: Israel que retorna.

Não há fim para o deleite do cântico que se há de erguer em todo o mundo que desperta, diante deste espetáculo sublime — a renovação da antiguidade original, da fonte do cântico divino que há em Israel no auge da sua força. Só um insensato e sem coração — alguém cuja voz não conseguirá fazer-se ouvir no tempo do despertar da luz — poderia querer pôr o verniz de uma cultura nova, defeituosa por falta e por excesso, com inimizade e rivalidade, sobre as ondas deste mar de vida — são e antigo — que se ergue na sua grandeza até aos cumes dos céus. Todos se alegrarão, justamente, no espetáculo natural e iluminado tal como ele é, com toda a inocência da sua antiguidade — que então faz brilhar toda a variedade das cores das suas luzes e as espalha sobre Israel e sobre uma grande multidão de homens.

O fecho desfaz qualquer suspeita de estreiteza. A grandeza de Israel, com a qual a seção abriu, revela-se aqui inteiramente voltada para a humanidade: o Templo é a base "que deu à humanidade uma vida espiritual pura", e a fonte de uma luz que "se desenvolve na história humana". A crítica final não é a outros povos, mas à pretensão de "envernizar" essa fonte viva com uma cultura "defeituosa por falta e por excesso". A visão é universal: no fim, "todos se alegrarão" — Israel "e uma grande multidão de homens".

A Alma que Não se Profana: o santo dos santos no íntimo

Esta breve e densa seção fala de duas camadas do sagrado: uma exposta, que a história pôde ferir; outra escondida, que nada alcança. O Rav Kook conclui com uma das suas afirmações mais inclusivas — a de que o coração de Israel permanece santo no íntimo de cada filho seu, mesmo no que erra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

O que pôde ser profanado

As nações profanaram o judaísmo revelado [a sua face exterior] pelo seu contato: tocaram nos óleos sagrados e os tornaram abomináveis; as pedras do altar santo foram conspurcadas. E também quanto às formulações [as palavras, os nomes] dos segredos — já vieram "invasores" [pritzim] e as profanaram.

A abertura fala da experiência histórica da desecração — não de um contágio pela mera presença alheia. O que foi "profanado pelo contato" são as coisas santas materiais e externas: os óleos da unção, as pedras do altar do Templo destruído e saqueado por mãos hostis ao longo das conquistas. E "as formulações dos segredos" — as palavras com que a mística se exprime — também foram tomadas e distorcidas por "invasores", os que se apropriaram da linguagem sagrada sem a sua vida interior. É a face exposta do sagrado, a que a história pôde tocar e ferir.

O que jamais se profana

Mas, na sua santidade, permaneceram as interioridades dos segredos — que estão ocultas e seladas a todo contato estranho; e justamente a interioridade mais íntima da alma. Pois esta interioridade — que é a alma da alma suprema — está fixada na alma-segulá de Israel, e dela não se afasta.

וְהִבְדִּילָה הַפָּרֹכֶת לָכֶם, בֵּין הַקֹּדֶשׁ וּבֵין קֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁים "E o véu vos separará entre o lugar santo e o santo dos santos." Shemot (Êxodo) 26:33

Há, no sagrado, um "véu" — uma fronteira interior. O que está diante do véu (a "face revelada") é acessível, e por isso vulnerável; o que está atrás dele (o "santo dos santos") é, por natureza, inviolável. O Rav Kook transpõe essa arquitetura do Templo para a alma: por mais que a história golpeie as formas exteriores de Israel — e até a linguagem dos seus mistérios —, há uma câmara interior, "a alma da alma", onde nenhuma mão estranha entra. É a fonte que garante que Israel nunca pode ser destruído por dentro.

O santo dos santos em cada judeu

E essa interioridade não se afasta [da alma de Israel] enquanto o vínculo à coletividade da nação e ao seu feitio vive dentro do homem — enquanto ele, de modo geral, deseja a ventura e o êxito da nação de Israel; ainda que não saiba chamá-la pelo nome nem explicar os seus segredos escondidos. E mesmo que erre nos seus atos e nas suas opiniões — o seu íntimo é santo dos santos.

Mesmo no que erra, o seu íntimo é santo dos santos.
הֵן אֱמֶת חָפַצְתָּ בַטֻּחוֹת, וּבְסָתֻם חָכְמָה תוֹדִיעֵנִי "Eis que desejas a verdade no íntimo, e no [lugar] oculto me fazes conhecer a sabedoria." Tehillim (Salmos) 51:8

Eis o coração da seção, e a sua nota mais generosa — irmã da que o Rav Kook deixou em §9. A condição para que esse "santo dos santos" permaneça vivo num judeu não é a perfeição religiosa, nem sequer a crença correta: é o amor ao seu povo — querer "a ventura e o êxito" de Israel. Quem ama assim, ainda que "não saiba chamar pelo nome" o que carrega, e mesmo que "erre nos atos e nas opiniões", guarda no fundo de si uma câmara intacta de santidade. O erro toca a superfície; não alcança a alma da alma.

O Retorno ao Núcleo: a crise que chama Israel à teshuvá

Esta seção lê o processo religioso da história — e a crise espiritual da modernidade — através da lente mística do Rav Kook. É um texto exigente: diagnostica um atrito e uma desilusão antes de chegar à sua mensagem, que é construtiva e, no fim, universal. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público; as notas procuram situar o seu vocabulário e o seu arco.

A fé que Israel pode receber em plenitude

Só Israel pode receber a fé no D'us verdadeiro, o Senhor Uno, na sua plenitude e na sua bondade; e a sua própria identidade ainda ganhará vigor com isso, e a sua cultura prosperará e se engrandecerá num florescimento notável.

בַּד' יִצְדְּקוּ וְיִתְהַלְלוּ כָּל זֶרַע יִשְׂרָאֵל "No Senhor serão justificados e se gloriarão toda a semente de Israel." Yeshayahu (Isaías) 45:25

A difusão imperfeita, e o seu atrito

Mas as nações ainda não chegaram a esta medida. E aquilo que, da luz de Israel, foi introduzido como fé divina nos seus arredores — não pela via de um desenvolvimento próprio à sua natureza — entra em conflito com a sua identidade particular, e fere a sua cultura, que é, na essência do seu feitio, estranha e externa a essa fé. Todavia, a mão de D'us fez isto: que ao menos se abrandasse um pouco a "casca dura" da rudeza humana. Mas, ao fim de tudo, essa inadequação acaba por prevalecer neles — e [aquele] poder converte-se em descrença que repele as centelhas do espírito de Israel, vindas da luz de D'us que se mesclou no seu espírito; e com isso cresce ainda mais a hostilidade contra Israel.

É preciso ler este trecho com as suas chaves. O Rav Kook não emite um juízo sobre o valor dos povos — sobre isso ele diz, noutras seções, que a santidade de Israel existe para "regar as inclinações humanas em geral" e elevar "uma grande multidão de homens" (ver §12 e §5). O que ele descreve aqui é um descompasso histórico: uma fé profundamente interior, enxertada em culturas que não a desenvolveram a partir de dentro, gera atrito — e, na sua leitura, esse enxerto imperfeito acaba por azedar em hostilidade. As palavras "estranha" e "externa" qualificam essa inadequação entre a fé e o solo em que foi posta — não a dignidade dos seres humanos.

Não confundir a descrença importada com "cultura universal"

E ainda que, no início, se vejam por isso as "pragas" dos calcanhares do Mashiach [ikveta de-meshicha] — e os de alma pequena pensem imitar a descrença [kefirá] que se alastra entre as nações, imaginando-a como uma "cultura humana universal", quando ela não é senão uma cultura alheia, acima da qual Israel já está muito, muito acima —, ainda assim, ao fim de tudo, este mesmo movimento se inverte.

Aqui o alvo da crítica do Rav Kook não são os outros povos, mas uma tentação interna: a do judeu que, deslumbrado, toma o secularismo da moda por "cultura universal" e abandona a sua própria fonte. O Rav Kook responde que confundir uma corrente passageira com o universal é um equívoco — pois o verdadeiramente universal está guardado, justamente, na profundidade de Israel. É a mesma lição de §5: não se troca a fonte viva pelo "verniz" da moda.

A crise que chama à teshuvá

Pois o desejo de manter-se sobre a identidade pura, sem mistura de influência externa — desejo que, de um lado, faz crescer a hostilidade [contra Israel] e, de outro, provoca a imitação espiritual por parte dos fracos de vida em Israel, até que a anarquia do pensamento destrói toda verdade e santidade — esse mesmo reconhecimento, de que é preciso firmar-se no ponto interior próprio da identidade, chamará Israel à teshuvá: a "fazer proezas em D'us" e a voltar mais uma vez à força suprema.

לֹא בְחַרְבָּם יָרְשׁוּ אָרֶץ, וּזְרוֹעָם לֹא הוֹשִׁיעָה לָּמוֹ, כִּי יְמִינְךָ וּזְרוֹעֲךָ וְאוֹר פָּנֶיךָ כִּי רְצִיתָם "Não foi pela sua espada que herdaram a terra, nem o seu braço os salvou, mas a tua destra, e o teu braço, e a luz da tua face — porque os favoreceste." Tehillim (Salmos) 44:4
A própria crise que ameaça dissolver tudo é o que desperta o retorno ao núcleo.

Eis a viragem que justifica o título. O Rav Kook não se detém no diagnóstico sombrio. A pressão dos dois lados — a hostilidade externa e a assimilação interna, ao ponto de uma "anarquia do pensamento" que corrói verdade e santidade — produz, por reação, uma tomada de consciência: a de que Israel precisa firmar-se no seu ponto mais íntimo e autêntico. A crise não é a última palavra; é o agente que desperta a teshuvá. E a força que se busca não é a da espada, mas a da "luz da tua face".

Do material ao espiritual: o despertar que sobe à cabeça

E este reconhecimento — que vem por um desenvolvimento lentíssimo, começando do zelo nacional, do amor à terra, à língua, a uma cultura ainda não refinada, do estudo da história, do entusiasmo pelo trabalho material e terreno pela força da mão — está fadado a subir até a "cabeça", e a despertar o pensamento e o sentimento mais próprios de Israel no coração de toda a nação: os velhos e os jovens juntos, de um só coração, num só pensamento e desejo.

יָשֻׁבוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, וּבִקְשׁוּ אֶת ד' אֱלֹהֵיהֶם וְאֵת דָּוִד מַלְכָּם, וּפָחֲדוּ אֶל ד' וְאֶל טוּבוֹ "Voltarão os filhos de Israel e buscarão o Senhor seu D'us e David seu rei; e virão com reverência ao Senhor e à sua bondade." Hoshéa (Oseias) 3:5

É a mesma confiança das seções sobre a "geração que prepara o corpo" (§40): o despertar nacional começa pelo "material" — terra, língua, trabalho, história — e isso não é menosprezado, e sim reconhecido como o primeiro degrau. O processo é lento, mas a sua direção é certa: do solo sobe à "cabeça", do corpo da nação à sua alma, unindo velhos e jovens "num só desejo".

Um mundo pleno, em nome pleno

Agora, no fim dos dias — cujos primeiros botões já começaram a despontar —, todos os "valentes" a quem D'us tocou o coração estão chamados e prontos: a despertar uma abundância de pensamentos e revelações, das esferas superiores, da fonte de Israel; e a "cavar", sem coração dividido, nos fundamentos de baixo, onde a sensibilidade já começou a bater com força. E o pensamento e a ação encontrar-se-ão juntos para edificar um mundo pleno, em nome pleno.

יִמְלֹךְ ד' לְעוֹלָם, אֱלֹהַיִךְ צִיּוֹן לְדֹר וָדֹר, הַלְלוּיָהּ "Reinará o Senhor para sempre; o teu D'us, ó Sião, de geração em geração. Aleluia!" Tehillim (Salmos) 146:10

Repare em como a seção termina: não num triunfo sobre alguém, mas na realeza universal de D'us — "para sempre… de geração em geração". O "mundo pleno, em nome pleno" é a meta de toda a obra do Rav Kook: a reunião do pensamento e da ação, do espírito e da matéria, do céu e do solo. A crise do início serviu a este fim — e o reinado que se proclama no fecho é sobre tudo e sobre todos.

A Terra de Israel Não é uma Coisa Externa

É com estas palavras que se abre o livro Orot — e elas estão entre as mais citadas de toda a obra do Rav Kook. Contra a ideia de que a terra seja apenas um instrumento (um lugar onde o povo sobrevive, ou onde a sua religião se preserva melhor), ele afirma um vínculo de outra ordem: essencial, vivo, anterior a toda utilidade. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

Não um meio — uma unidade essencial

A Terra de Israel não é uma coisa externa, uma posse exterior da nação — apenas como um meio para o fim da agregação coletiva e da manutenção da sua existência material, ou mesmo espiritual. A Terra de Israel é uma unidade essencial [chativá atzmutit], ligada por um vínculo de vida com a nação, abraçada por qualidades interiores [segulot] à sua própria existência.

אֶרֶץ אֲשֶׁר ד' אֱלֹהֶיךָ דֹּרֵשׁ אֹתָהּ, תָּמִיד עֵינֵי ד' אֱלֹהֶיךָ בָּהּ "Uma terra de que o Senhor teu D'us cuida; sempre os olhos do Senhor teu D'us estão sobre ela." Devarim (Deuteronômio) 11:12

A distinção é tudo. Há um modo "instrumental" de amar a terra: como abrigo, como base de um projeto nacional, até como reforço da fé. O Rav Kook não o despreza — mas diz que ele não toca o essencial. A Terra de Israel é uma chativá atzmutit: uma "peça de essência", inseparável da alma do povo como o corpo o é da alma. Não se ama por aquilo que serve; ama-se por aquilo que é — e o que é, é um laço de vida.

O amor que a razão sozinha não alcança

E por isso não é possível apreender o conteúdo da segulá da santidade da Terra de Israel, nem levar ao ato a profundidade do seu amor, por nenhuma compreensão racional humana — mas apenas pelo espírito de D'us que está sobre a nação como um todo; pela impressão natural-espiritual que há na alma de Israel, que envia os seus raios, em cores naturais, por todos os caminhos da sensibilidade sadia, e faz brilhar a sua luz suprema na medida do espírito de santidade que enche de vida e de deleite supremo o coração dos que pensam o sagrado e aprofundam a reflexão de Israel.

Aqui o Rav Kook não opõe razão e espírito por desprezo pela razão — ele o faz por exatidão. Há objetos que a análise alcança e há laços que ela não mede: o amor de um filho pela mãe, por exemplo, não se "demonstra". Assim o vínculo com a Terra: pode-se argumentar a favor dele, mas a sua profundeza só se sente "pelo espírito de D'us que está sobre a nação". É um saber do coração que pensa, não um cálculo.

A esperança que sustenta — e a salvação mesma

O pensamento de que a Terra de Israel é apenas um valor externo, para a manutenção da agregação da nação — mesmo quando vem para, por meio dela, fortalecer a ideia do judaísmo no exílio, guardar o seu feitio e robustecer a fé, o temor e a prática das mitsvot de modo digno — não dá o fruto capaz de permanecer; pois esse alicerce é frágil diante da força eterna da santidade da Terra de Israel. O verdadeiro fortalecimento da ideia do judaísmo no exílio virá, na verdade, apenas da profundidade do seu enraizamento na Terra de Israel; e da esperança da Terra de Israel é que ele receberá sempre todas as suas características essenciais.

A expectativa da salvação sustenta o judaísmo do exílio; o judaísmo da Terra de Israel é a própria salvação.

A expectativa da salvação [tzipiyat yeshuá] é a força que mantém de pé o judaísmo do exílio; e o judaísmo da Terra de Israel é a própria salvação.

לִישׁוּעָתְךָ קִוִּיתִי ד' "Pela tua salvação espero, ó Senhor." Bereshit (Gênesis) 49:18

Quando a Santidade da Terra se Turva

Esta seção é o reverso da anterior. Se a santidade da Terra é uma realidade que só se sente "pelo espírito" (§1), então tudo o que afasta a alma dessa dimensão interior a deixa cega para essa santidade. O Rav Kook diagnostica esse afastamento — com cuidado para não condenar a sinceridade de quem o vive. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

Quando se perde o segredo, a santidade turva-se

Pelo afastamento do conhecimento dos segredos [hakarat ha-razim], a percepção da santidade da Terra de Israel vem de forma turva. Pela alienação em relação ao "segredo de D'us" [sod Hashem], as qualidades supremas da profundidade da vida divina tornam-se coisas secundárias, que não entram na profundeza da alma; e, por consequência, falta a força mais poderosa na alma da nação e do indivíduo — e o exílio passa a "achar graça" por si mesmo.

סוֹד ד' לִירֵאָיו, וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם "O segredo do Senhor é para os que o temem, e a sua aliança, para lhes dar a conhecer." Tehillim (Salmos) 25:14

Pois, para quem apreende apenas a superfície revelada, nada de fundamental falta com a ausência da terra, do reino e de todos os conteúdos da nação na sua construção. O fundamento da expectativa da salvação é, para ele, como um "ramo lateral" que não consegue ligar-se à profundeza da percepção do judaísmo — e isto mesmo é o que atesta a falta de compreensão que há numa "escola" assim, pobre de seiva.

O diagnóstico é fino. Quem reduz o judaísmo à "superfície revelada" — às práticas e às ideias, sem a sua raiz interior — não sente falta da Terra: para ele, a fé funciona igualmente no exílio, e a esperança de redenção vira um "ramo lateral", um apêndice. O Rav Kook lê nisso não maldade, mas perda de profundidade: uma versão do judaísmo "pobre de seiva", em que o que havia de mais vivo foi posto de lado. A cegueira para a santidade da Terra é sintoma de uma cegueira anterior, para a dimensão dos "segredos".

O que aceitamos — e o que combatemos

Não recusamos nenhuma espécie de concepção e entendimento fundado na retidão e em sentimentos de conhecimento e de temor do Céu, em qualquer forma que seja. [Recusamos] apenas aquele aspecto em que tal escola queira negar os segredos e a sua grande influência sobre o espírito da nação — pois isto é uma calamidade contra a qual somos obrigados a lutar: com conselho e com discernimento, com santidade e com força.

Não contra a sinceridade de ninguém — apenas contra a negação da profundidade.

Eis a delicadeza com que o Rav Kook conduz a polêmica, e ela merece nota num site que também acolhe a tradição racionalista. Ele não rejeita os caminhos de "retidão e temor do Céu" — qualquer abordagem séria e honesta tem o seu lugar. O que ele combate é só a pretensão de negar a dimensão interior e mística (os "segredos") e a sua influência sobre a alma da nação. E até essa luta ele a quer travada "com conselho e discernimento, com santidade e força" — não com desprezo. É um modelo de como discordar: firme no essencial, generoso com as pessoas.

A Criação Só é Possível na Terra

Depois de afirmar o vínculo essencial entre Israel e a sua Terra (§1) e de diagnosticar o que turva a percepção desse vínculo (§2), o Rav Kook descreve aqui o seu efeito mais concreto: onde, afinal, Israel pode criar a partir de si mesmo. E faz do próprio exílio parte de um processo de purificação. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A criação autêntica só na Terra

A criação própria de Israel [yetzirá atzmit] — no pensamento, e na força da vida e da obra — não é possível a Israel senão na Terra de Israel. Em contrapartida, tudo o que Israel faz na Terra de Israel: a forma universal que nele há anula-se diante da forma essencial e singular de Israel — e isto é uma grande ventura para Israel e para o mundo.

A tese é forte e merece nuance. O Rav Kook não diz que o judeu da diáspora nada cria — diz que a criação verdadeiramente a partir de si mesmo, em que a forma própria de Israel domina a forma "universal" (a que ele partilha com todos os povos), só floresce na Terra. Fora dela, o melhor de Israel exprime-se sempre "traduzido" para moldes alheios; na Terra, a sua voz própria fala em primeira pessoa. E isto, sublinha ele, é bom "para Israel e para o mundo" — pois o mundo precisa também dessa voz singular.

O exílio como filtragem lenta

Os pecados que causam o exílio são justamente os que turvam a fonte essencial, e o manancial passa a gotejar gotejos impuros ("o Santuário do Senhor ele profanou", Bamidbar 19:13). E, quando a fonte essencial e singular é corrompida, a originalidade fundamental eleva-se àquela parte suprema e essencial que Israel possui na sua condição de [tzelem] humano — e isto se haure precisamente no exílio; e a Terra é arruinada e desolada, e a sua destruição expia por ela.

A fonte cessa de jorrar e passa a filtrar-se pouco a pouco, e as manifestações da vida e do pensamento saem pelo canal universal, que está espalhado por todo o mundo:

כְּאַרְבַּע רוּחוֹת הַשָּׁמַיִם פֵּרַשְׂתִּי אֶתְכֶם, נְאֻם ד' "Como os quatro ventos dos céus vos espalhei, diz o Senhor." Zecharyá (Zacarias) 2:10

...até que os gotejos impuros e particulares cessam, e a força da fonte volta à sua pureza.

Eis uma leitura surpreendentemente consoladora do exílio. Ele não é só castigo: é também filtragem. Quando a fonte particular de Israel se contaminou, a sua originalidade refugia-se na parte mais alta e universal da alma — aquela que Israel tem enquanto ser humano, criado à imagem de D'us — e é por esse "canal universal", disperso entre as nações, que a vida e o pensamento de Israel seguem fluindo. A dispersão preserva a água enquanto a nascente se decanta. E a própria desolação da Terra "expia por ela", guardando-a para o seu povo.

O retorno: a fonte purificada

E então o exílio torna-se de todo desprezível, e eis que é supérfluo; e a luz universal volta a brotar da fonte essencial e particular, em todo o seu vigor; e a luz do Mashiach, que reúne os dispersos, começa a despontar. E a voz de pranto amargo de Rachel, que chora pelos seus filhos, é adoçada por uma abundância de consolações:

מִנְעִי קוֹלֵךְ מִבֶּכִי וְעֵינַיִךְ מִדִּמְעָה... וְשָׁבוּ מֵאֶרֶץ אוֹיֵב. וְיֵשׁ תִּקְוָה לְאַחֲרִיתֵךְ... וְשָׁבוּ בָנִים לִגְבוּלָם "Restringe a tua voz do pranto e os teus olhos das lágrimas… e voltarão da terra do inimigo. E há esperança para o teu futuro… e os filhos voltarão ao seu território." Yirmiyahu (Jeremias) 31:16-17
A dispersão preserva a água enquanto a nascente se decanta — até a fonte voltar pura.

E a criação da vida singular [de Israel], em toda a sua luz e na sua distinção própria, saturada pelo orvalho da riqueza universal do "grande homem entre os gigantes" [Avraham] — a bênção de Avraham — volta a revelar-se precisamente por meio deste retorno. Como disseram os Sábios sobre "e sê uma bênção": "contigo se conclui [a bênção]" (Pessachim 117b).

O Ar da Terra de Israel

Esta seção breve guarda uma das ideias mais conhecidas sobre a Terra de Israel — a de que o seu próprio "ar" torna mais sábio quem nela respira (Bava Batra 158b). O Rav Kook recolhe-a e acrescenta-lhe um alcance inesperado: o ar da Terra alcança também quem ainda não chegou, mas a deseja. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A fidelidade do pensamento na Terra

É impossível a uma pessoa de Israel ser tão devotada e fiel aos seus pensamentos, raciocínios, ideias e imaginações fora da Terra quanto o pode ser na Terra de Israel. As manifestações do sagrado, em qualquer grau que estejam, são puras na Terra de Israel, na devida medida; e fora da Terra vêm misturadas com muito resíduo e escória [kelipot].

Não se trata de geografia mágica, mas de ambiente espiritual. Fora da Terra, mesmo os pensamentos mais elevados de um judeu chegam "misturados" — atravessados por categorias e pressões alheias à sua própria fonte, e por isso nunca inteiramente "seus". Na Terra, a mesma alma pode ser fiel ao que de fato pensa e intui, porque o meio em que respira está afinado com a sua raiz. A pureza de que o Rav Kook fala é a de uma voz que, enfim, não precisa de tradução.

O ar que alcança quem anseia de longe

Contudo — e eis o consolo —, conforme a grandeza do desejo e do vínculo de uma pessoa com a Terra de Israel, os seus pensamentos vão-se purificando pelo fundamento do "ar da Terra de Israel" [avira de-Eretz Yisrael], que paira sobre todo aquele que aguarda vê-la.

O ar da Terra paira também sobre quem, de longe, anseia por ela.
שִׂמְחוּ אֶת יְרוּשָׁלַ‍ִם וְגִילוּ בָהּ, כָּל אֹהֲבֶיהָ "Alegrai-vos com Jerusalém e exultai nela, todos os que a amais." Yeshayahu (Isaías) 66:10

Aqui o Rav Kook abre a porta a toda a diáspora. Se a pureza do pensamento dependesse só de estar na Terra, quem está longe ficaria de fora. Mas ele diz que ela depende também do anseio: "conforme a grandeza do desejo e do vínculo". O "ar da Terra de Israel" — aquele de que os Sábios disseram que "torna sábio" (Bava Batra 158b) — paira sobre todo o que a ama e aguarda vê-la, ainda que de longe. O amor pela Terra já é um começo de respirá-la.

אִם אֶשְׁכָּחֵךְ יְרוּשָׁלָ‍ִם, תִּשְׁכַּח יְמִינִי "Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que se esqueça [de mim] a minha mão direita." Tehillim (Salmos) 137:5

A Imaginação Pura da Terra

Por que o "ar da Terra de Israel torna sábio"? O Rav Kook dá a esta máxima talmúdica uma explicação precisa, ligada à teoria da profecia: a profecia não é só intelecto, mas também imaginação — e a imaginação tem a sua própria pureza, que depende do lugar. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A imaginação límpida da Terra

A imaginação [dimyon] da Terra de Israel é límpida e clara, pura e imaculada, e apta para a manifestação da verdade divina — para revestir o desejo elevado e sublime do alvo ideal que está nas alturas do sagrado; preparada para a exposição da profecia e das suas luzes, para o fulgor do ruach ha-kodesh e dos seus resplendores.

אֱמֶת מֵאֶרֶץ תִּצְמָח, וְצֶדֶק מִשָּׁמַיִם נִשְׁקָף "A verdade brotará da terra, e a justiça olhará dos céus." Tehillim (Salmos) 85:12

E a imaginação que há na terra dos povos é turva, misturada com trevas, com sombras de impureza e contaminação; não pode elevar-se aos cumes do sagrado, nem ser base para a abundância da luz divina, que se eleva acima de toda a baixeza dos mundos e das suas estreitezas.

A chave da seção está numa ideia que vem do Rambam: a profecia não é um ato só do intelecto — exige também uma imaginação perfeita, capaz de dar forma e "vestir" o que o intelecto recebe. Ora, a imaginação não é neutra: absorve o ambiente. Na Terra de Israel, ela é "límpida e pura", afinada para receber a verdade divina; fora dela, vem "misturada com sombras". Por isso a Terra é o solo natural da profecia — não por magia geográfica, mas porque ali a faculdade que dá forma às visões está em sua máxima pureza.

Por que até o intelecto não brilha igual fora

E, visto que o intelecto [sechel] e a imaginação [dimyon] estão presos um ao outro — agindo e sendo afetados um pelo outro, e um a partir do outro —, por isso também o intelecto que está fora da Terra não consegue iluminar com a luz que tem na Terra de Israel.

Quando a imaginação se turva, até o intelecto perde parte do seu brilho.
אֲוִירָא דְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל מַחְכִּים "O ar da Terra de Israel torna sábio." Bava Batra 158b

Eis a explicação do dito dos Sábios. Costuma-se ouvir "o ar da Terra de Israel torna sábio" como um elogio vago. O Rav Kook mostra a sua lógica: como o intelecto e a imaginação estão entrelaçados — um alimenta e depura o outro —, uma imaginação turva acaba por embaçar também o pensamento. Onde a imaginação é pura, o intelecto pensa com mais clareza. A "sabedoria" do ar da Terra não é um dom mágico, mas o fruto de uma faculdade interior que, ali, respira limpo.

A Santidade que Não Cessa, e o Anseio que Redime

Se a santidade depende tanto da Terra (§§3-5), o que acontece a quem sai dela? O Rav Kook responde com uma surpresa cheia de consolo: o que se absorveu na Terra continua a agir fora dela — e o próprio mal-estar do exílio é prova de que a santidade foi absorvida. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A santidade absorvida não cessa

A ação do espírito de santidade absorvido na Terra de Israel age continuamente — mesmo que aconteça de a pessoa sair para fora da Terra, por engano ou por alguma causa forçosa. Pois até a profecia, uma vez que já tomou [a pessoa] na Terra de Israel, não cessa nem fora da Terra:

הָיֹה הָיָה דְבַר ד' אֶל יְחֶזְקֵאל... בְּאֶרֶץ כַּשְׂדִּים "A palavra do Senhor certamente veio [hayoh haya] a Yechezkel… na terra dos caldeus." Yechezkel (Ezequiel) 1:3 — e os Sábios: "''veio'' — porque já tinha vindo [na Terra]" (Moed Katan 25a)

A abundância de santidade que começou na Terra de Israel recolhe todas as "clarificações do sagrado" [berurei ha-kodesh] que se encontram fora da Terra, em todas as profundezas, e aproxima-as pela sua força atrativa.

A imagem é a de um ímã espiritual. A santidade não se esgota onde começou: irradia e atrai. A profecia que tomou Yechezkel na Terra acompanhou-o à Babilônia — "veio, porque já tinha vindo". E o que se acendeu na Terra recolhe, mesmo de longe, as faíscas de santidade dispersas pelo mundo. Sair da Terra não apaga o que nela se recebeu; antes, faz desse recebido um foco que puxa de volta tudo o que lhe pertence.

O estranhamento como sinal

Quanto mais difícil é suportar o ar de fora da Terra, quanto mais se sente o "espírito de impureza" de um solo estranho — isto é sinal de uma absorção mais interior da santidade da Terra de Israel; de uma bondade suprema, que não abandonará aquele que mereceu abrigar-se à "sombra pura" da terra da vida, mesmo quando se distancia e vagueia, mesmo no seu exílio e na sua terra de errância.

O estranhamento que se sente fora da Terra liga ainda mais todo o desejo interior do espírito à Terra de Israel e à sua santidade; a expectativa de vê-la cresce, e o gravar da imagem da forma sagrada da terra "sobre a qual os olhos do Senhor estão sempre, do princípio do ano até o fim do ano" aprofunda-se cada vez mais.

Eis a inversão consoladora. Quem se sente desconfortável na diáspora poderia julgar-se em falta — mas o Rav Kook lê o contrário: esse desconforto é prova de que a santidade da Terra foi absorvida de modo profundo. A alma que provou a "sombra pura" da terra da vida já não se acomoda em solo estranho; a sua inquietação é a saudade trabalhando. E essa bondade suprema "não abandona" quem uma vez se abrigou nela — acompanha-o no exílio e transforma o seu desconforto em vínculo.

O anseio de uma alma, fonte para o todo

E a profundeza do anseio sagrado do amor a Sião [chibat Tziyon], da lembrança da Terra — à qual todas as delícias estão ligadas —, quando se fortalece numa alma, ainda que uma só, realiza a ação de uma fonte que jorra para todo o coletivo, para as miríades de almas ligadas a ela. E [então] o toque do shofar do ajuntamento dos dispersos desperta, e grandes misericórdias se fortalecem, e a esperança de vida para Israel cintila, e o "Renovo do Senhor" vai florescendo, e a luz da salvação e da redenção reparte-se e espalha-se — como a aurora estendida sobre os montes.

O amor à Terra de uma só alma jorra como fonte para miríades.
בַּיּוֹם הַהוּא יִהְיֶה צֶמַח ד' לִצְבִי וּלְכָבוֹד "Naquele dia, o Renovo do Senhor será para esplendor e para glória." Yeshayahu (Isaías) 4:2

O fecho liga o íntimo ao cósmico. O Rav Kook diz algo audacioso: o amor à Terra de uma única alma, quando é profundo, age "como uma fonte que jorra para todo o coletivo". Não é preciso ser multidão para mover a redenção — basta um anseio verdadeiro, que se torna nascente para milhares. Desse anseio acordam o shofar do ajuntamento, as "grandes misericórdias" e o florescer do "Renovo do Senhor". A saudade de Sião não é nostalgia passiva: é uma força que faz amanhecer.

As Letras Vivas da Alma

Esta seção mergulha na linguagem mais mística do Rav Kook: a das "letras vivas" da alma. A imagem é antiga — as letras como as unidades vivas da criação e da Torá —, mas o seu uso é vital: cada mitsvá faz crescer em nós essas letras, e a Terra é o solo onde elas florescem. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

As letras vivas, e a mitsvá cheia de luz

A alma está cheia de letras [otiyot] cheias de luz de vida, cheias de conhecimento e vontade, cheias de espírito de percepção e de plenitude do ser. Do esplendor destas letras vivas, enchem-se de brilho de vida todos os demais graus da construção da vida — de todas as fileiras da vontade, do conhecimento e da obra, do espírito e da alma, em todos os seus valores.

Quando nos achegamos a uma mitsvá, ela está sempre cheia do brilho da vida de todos os mundos: cada mitsvá está cheia de letras grandes e admiráveis — de todas as 613 mitsvot que se enlaçam em cada uma, de toda a vida dos mundos que há no segredo da fé. O esplendor da luz do D'us vivo, a luz da Vida dos mundos, vive em toda a suavidade, na glória de cada mitsvá. Logo que nos achegamos a uma mitsvá para cumpri-la, crescem todas as letras vivas que há na nossa essência: nós crescemos e nos fortalecemos, intensificamo-nos na luz da vida e do ser supremo, e na luz da Torá e no brilho da sabedoria.

A imagem das "letras vivas" pode soar estranha, mas o seu sentido é concreto: as letras são, para a tradição mística, as unidades vivas com que tudo foi criado e com que a Torá fala. O Rav Kook usa-as para dizer que a alma não é uma massa indistinta, mas um tecido de vitalidades com forma. E cada mitsvá não é um ato isolado: traz em si "as 613" — toda a Torá ressoa em cada preceito. Por isso, ao cumprir uma, "todas as letras vivas crescem": um gesto desperta o todo.

Resplandecem sobre nós as letras das fontes da Torá, e diante delas erguem-se as letras da vida — cheias de brilho e de luz interior — que há na nossa essência; e um fermento gestador de mundos vem a ser. Vigor de alegria suave, força de santidade e júbilo de delícias surgem no interior do nosso espírito, e em todo o universo se renovam luz e vida. O mundo é inclinado, por nós, para o mérito; em todo caso, acrescenta-se luz e retidão, vontade e fartura de bem interior.

Como florescem na Terra

Na Terra de Israel crescem as letras da nossa alma: ali elas desvelam o seu clarão, sugam vida essencial do esplendor da vida de Knesset Israel, influenciadas, por via reta, pelo segredo da sua formação original. O ar da Terra de Israel faz brotar o crescimento viçoso destas letras de vida — em esplendor de glória, em amizade suave e numa força de trovão alegre, cheia de abundância de santidade.

כָּל הַכָּתוּב לַחַיִּים בִּירוּשָׁלָ‍ִם "...todo aquele que está escrito para a vida em Jerusalém." Yeshayahu (Isaías) 4:3

A expectativa de ver o esplendor da terra desejável, a sede interior pela Terra de Israel, faz crescer as letras do sagrado, as letras essenciais da vida israelita que há na nossa interioridade — fá-las crescer com um crescimento espiritual e interior. [Como disseram os Sábios:] "tanto o nascido nela como o que aguarda vê-la" (Ketubot 75a):

וּלְצִיּוֹן יֵאָמַר אִישׁ וְאִישׁ יֻלַּד בָּהּ, וְהוּא יְכוֹנְנֶהָ עֶלְיוֹן "E de Sião se dirá: este homem e aquele nasceram nela; e o Altíssimo a estabelecerá." Tehillim (Salmos) 87:5

O mishpat, e o Mashiach da justiça

O mishpat [a justiça], o pilar central sobre o qual todo o salão se apoia — "uma parábola de uma matrona que caminha com a sua cauda de um lado e de outro: os mishpatim são o meio da Torá" —, é a própria essência da vida, "o juízo dos filhos de Israel": a essência do desejo da alma, embebida na alma do Mashiach, "o sopro das nossas narinas", a quem chamarão "o Senhor, nossa justiça" [Hashem Tzidkenu] — que revelará a luz da justiça de D'us na terra, com uma força suprema que rejeita toda guerra e todo derramamento de sangue.

A justiça do Mashiach virá com uma força que rejeita toda guerra e todo derramamento de sangue.

"O juízo dos filhos de Israel sobre o coração de Aharon" — a quintessência das letras-almas de todo o Israel, brilhando nos Urim ve-Tumim, "[as letras que] sobressaem ou se combinam".

Repare onde a seção culmina: não no êxtase místico, mas na justiça. De todas as "letras" e luzes, a essência da vida é o mishpat — "o pilar central sobre o qual todo o salão se apoia". E a justiça do Mashiach, diz o Rav Kook, virá "com uma força suprema que rejeita toda guerra e todo derramamento de sangue". É uma definição messiânica de paz: não a vitória de uns sobre outros, mas a revelação de um juízo divino que torna a violência desnecessária. A mística mais alta desemboca na ética.

A Chama que Não se Apaga

A seção da Terra de Israel encerra-se com uma imagem de fogo. No coração de Israel arde uma chama que exige a vida plena das mitsvot — e o Rav Kook faz a afirmação mais inclusiva: esse fogo arde também nos que parecem mais distantes da fé. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

A chama que exige as mitsvot

Dentro do coração, nas câmaras da sua pureza e santidade, fortalece-se a chama israelita, que exige com vigor a ligação firme e constante da vida a todas as mitsvot de D'us — para verter o espírito de D'us, o espírito de Israel pleno e universal que enche todo o espaço da alma, dentro de todos os muitos vasos que lhe são próprios, e para exprimir a expressão israelita plena, em pleno relevo, prático e ideal.

As fagulhas fortalecem-se no coração dos justos; um fogo sagrado arde e sobe; e no coração de toda a nação ele arde desde tempos imemoriais:

אֵשׁ תָּמִיד תּוּקַד עַל הַמִּזְבֵּחַ, לֹא תִכְבֶּה "Um fogo perpétuo arderá sobre o altar; não se apagará." Vayikrá (Levítico) 6:6

O fogo que arde até nos mais distantes

E no coração de todos os "vazios" de Israel, e no coração de todos os transgressores de Israel, o fogo arde e flameja no mais íntimo dos íntimos. E na coletividade da nação inteira, todo o desejo de liberdade e todo o anseio de vida — todo o anseio da vida do coletivo e do indivíduo, toda esperança de redenção — só desta nascente de vida é que brotam, a fim de viver a vida israelita na sua plenitude, sem contradição e sem limitação. E esta é a sede pela Terra de Israel, o solo sagrado, a terra de D'us, na qual todas as mitsvot tomam forma e se destacam em toda a sua distinção.

Eis o coração inclusivo de toda a obra do Rav Kook — irmão do que ele diz em outra seção: o fogo sagrado arde "no coração de todos os vazios de Israel e de todos os transgressores de Israel", no mais fundo do seu íntimo. O ímpeto de liberdade, o anseio de vida, a esperança de redenção — mesmo quando se apresentam em linguagem secular — "só desta nascente brotam". O Rav Kook não vê, no judeu distante da prática, uma alma apagada; vê uma chama que arde sob as cinzas, e cuja sede mais funda é, sem o saber, a sede pela vida plena da Torá na sua Terra.

A coragem, e o segredo da força

E esta sede — de fazer brotar o caráter do espírito de D'us, de erguer a cabeça no espírito de D'us em toda a sua grandeza — atua sobre todos os corações, e todos desejam unir-se a ela, provar a suavidade da sua vida: "por isso amo os teus mandamentos mais do que o ouro e o ouro fino" (Tehillim 119:127). A coragem do coração — que mostra ao mundo inteiro a força da nação em guardar o seu caráter, o seu nome e o seu valor, a sua fé e o seu anelo — está incluída na sede da vida da verdade e da vida de todas as mitsvot, para que sobre ela resplandeça a luz da Torá em toda a sua plenitude e bondade.

E, se for admirável aos olhos de quem observa de longe — como é possível que todos os espíritos, que aparentemente estão distantes até da fé, pulsem com o espírito da vida na sua força interior, não só para uma proximidade geral com D'us, mas para a verdadeira vida de Israel, para dar forma às mitsvot em imagem e em ideia, em canto e em ato? —, que não seja admirável aos olhos de quem está ligado, nas profundezas do seu espírito, dentro das profundezas de Knesset Israel, e conhece as maravilhas das suas segulot. Este é o segredo da força, a sublimidade da vida que jamais cessará.

O fogo arde no mais íntimo até de quem parece mais distante — eis o segredo da força.
וּשְׁמַרְתֶּם אֶת חֻקֹּתַי וְאֶת מִשְׁפָּטַי, אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה אֹתָם הָאָדָם וָחַי בָּהֶם, אֲנִי ד' "E guardareis os meus estatutos e os meus juízos, que o homem fará e viverá por eles; eu sou o Senhor." Vayikrá (Levítico) 18:5

O fecho da seção da Terra é também um fecho de vida. "Viver por elas" [va-chai bahem] — a Torá não é um peso, mas uma fonte de vida; e os Sábios leram "andar diante do Senhor nas terras da vida" (Tehillim 116:9) como referência à própria Terra de Israel. Assim se fecha o círculo aberto no §1: a Terra não é uma posse externa, mas o lugar onde a vida das mitsvot — e a chama que arde em cada coração de Israel — encontra, enfim, a sua forma plena. A "terra da vida" é onde se vive pela Torá.

A Sede do D'us Vivo

"Sede do D'us Vivo" [Tzimaon le-El Chai] é uma das páginas mais amadas de Orot, das "Sementes" (Zera'onim) — pequenas centelhas de pensamento. Em sete movimentos breves, o Rav Kook descreve a inquietação da alma que tem sede do Absoluto, o impasse de buscar o que está além de todo conceito, e o caminho que resolve esse impasse. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

צָמְאָה נַפְשִׁי לֵאלֹהִים, לְאֵל חָי "A minha alma tem sede de D'us, do D'us vivo." Tehillim (Salmos) 42:3

Só no divino há repouso

É impossível encontrar um chão firme para o espírito a não ser no ar divino. O conhecimento, o sentimento, a imaginação, a vontade, e os seus movimentos interiores e exteriores — todos exigem do ser humano que seja, precisamente, divino. [Só] então encontram a sua plenitude, a sua relação equilibrada e que aquieta a mente. Se o homem buscar para si um pouco menos do que essa grandeza, eis que logo é atirado como um navio em tempestade no mar: ondas furiosas, contrárias umas às outras, roubam-lhe sempre o sossego; de onda em onda é lançado, e não conhece paz. Se conseguir afundar-se nalgum lodo espesso de grosseria de espírito e embotamento do sentimento, talvez consiga diminuir a luz da sua vida por algum tempo, até que, lá dentro, imagine já ter achado descanso. Mas os dias não serão longos: o espírito libertar-se-á dos seus limites, e a inquietação voltará a fazer a sua obra com toda a força.

O nosso lugar de repouso é só em D'us.

O diagnóstico inicial é existencial, não devoto: o ser humano só descansa "no ar divino". Qualquer ancoradouro menor — o sucesso, o prazer, a distração — falha, e a alma volta a ser "atirada como um navio em tempestade". Pode-se anestesiar a inquietação por um tempo, "afundando-se num lodo de grosseria", mas o alívio é temporário: o espírito sempre se reergue. Não é fraqueza nem neurose; é a marca de uma alma feita para o Absoluto, que nada menor sacia.

Por que os que buscam se cansam

Mas D'us está acima de toda a realidade da qual nos possa entrar algum sentimento ou ideia; e tudo o que está acima de todo sentimento e ideia em nós é, à nossa medida, "nada e vazio" [ayin va-efes] — e no nada e no vazio a mente não consegue repousar. Por isso, na maioria das vezes, os talmidei chachamim que buscam D'us encontram-se cansados e exaustos de espírito. Quando a alma anseia pela luz mais límpida, não se contenta com a luz que vem da justiça, mesmo nas melhores ações, nem com a luz que vem da verdade, mesmo nos estudos mais claros, nem com a beleza, mesmo nas visões mais gloriosas; então o mundo torna-se feio aos seus olhos: ela alarga-se tanto por dentro que o mundo inteiro — com toda a sua materialidade e espiritualidade juntas — lhe parece uma casa estreita, e o seu ar torna-se-lhe sufocante. Buscam o que está acima da sua força, o que é, perante elas, "nada"; e do nada para o algo não há capacidade — nem sequer na vontade de querer. Por isso, às vezes, enfraquece a força da vontade e todo o vigor da vida em pessoas cujo alvo interior é a busca de D'us.

Eis o impasse honesto que poucos místicos confessam: quem busca o Absoluto puro corre o risco de se esgotar. Pois D'us está "acima de todo sentimento e ideia" — e o que excede toda ideia é, para a nossa mente, indistinguível de "nada"; e no nada não se descansa. Daí o paradoxo: justamente os mais sérios na busca de D'us podem cair em fadiga e perda de vontade. O Rav Kook não esconde o problema — vai resolvê-lo nos passos seguintes.

A porta: a Divindade revelada no mundo

É preciso mostrar o caminho de como se entra no salãopela porta. E a porta é a Divindade revelada no mundo: no mundo em toda a sua beleza e esplendor; em todo espírito e alma; em todo ser vivo e em todo réptil; em toda planta e flor; em toda nação e reino; no mar e nas suas ondas; nas abóbadas do céu e na majestade dos luminares; nos talentos de toda conversa, nas ideias de todo escritor, nas imaginações de todo poeta e nas reflexões de todo pensador; no sentimento de todo o que sente, e na tempestade de heroísmo de todo herói.

Aqui está a solução, e é caracteristicamente luminosa. Não se entra no "salão" (D'us em si, além de todo conceito) por assalto frontal — entra-se "pela porta": a Divindade tal como se revela no mundo. Em vez de exaurir-se a fitar o Absoluto vazio, a alma encontra-O no concreto — na flor e na onda, no pensamento do sábio e no canto do poeta, no heroísmo de cada um. O mundo não é obstáculo à sede de D'us; é o caminho que a sacia. O imanente é a porta do transcendente.

Ela desce ao nosso encontro

A Divindade suprema, à qual ansiamos chegar — ser absorvidos nela, recolhidos à sua luz —, e à qual não conseguimos alcançar na medida do nosso anseio, desce ela mesma, por nós, ao mundo e dentro dele; e [ali] nós a encontramos, e nos deleitamos no seu amor, e achamos sossego e paz no seu repouso. E, de tempos a tempos, ela nos visita com um relâmpago supremo do resplendor das alturas, de uma luz altíssima acima de toda ideia e pensamento. Os céus abrem-se, e vemos visões de D'us —

נִפְתְּחוּ הַשָּׁמַיִם, וָאֶרְאֶה מַרְאוֹת אֱלֹהִים "Abriram-se os céus, e vi visões de D'us." Yechezkel (Ezequiel) 1:1

...mas sabemos que este é, para nós, um estado passageiro: o relâmpago passa, e descemos a morar de novo — não dentro do palácio, mas nos átrios do Senhor.

נִכְסְפָה וְגַם כָּלְתָה נַפְשִׁי לְחַצְרוֹת ד' "A minha alma suspira, e até desfalece, pelos átrios do Senhor." Tehillim (Salmos) 84:3

Tudo é uma só revelação do Todo-Bem

E quando a demanda da luz chega ao ponto mais alto, ela começa a haurir uma abundância de grande luz do luminar oculto que há dentro dela, no seu mais fundo; e do seu íntimo revela-se-lhe que tudo haure luz da fonte mais suprema, e que todos os mundos e tudo o que neles há não são senão revelações — que nos parecem como que centelhas particulares da manifestação da luz suprema, mas que, em si mesmas, são todas uma só unidade, uma só revelação, na qual está incluído todo o belo, toda a luz, toda a verdade e todo o bem. Estas revelações seguem o seu curso e elevam-se, vão-se tornando manifestas aos olhos de todos [mostrando] que são, na verdade, revelações do Todo-Bem [kol ha-tov].

E essa abundância que flui no Todo-Bem — que ergue a raiz da alma à sua altura, que torna pequeno, aos seus olhos, o mundo material e espiritual com toda a sua glória — essa mesma abundância renova sobre ela todos os mundos: e todas as criaturas vestem uma forma nova, e toda visão de vida desperta alegria e salvação, e toda boa ação alegra o coração, e todo estudo alarga a mente. As estreitezas de todas estas coisas já não comprimem a amplidão da alma, que olha de imediato e vê que todas aquelas pequenas centelhas vão-se elevando, vão-se unindo e atando no feixe da vida plena.

וְהָיְתָה נֶפֶשׁ אֲדֹנִי צְרוּרָה בִּצְרוֹר הַחַיִּים אֵת ד' אֱלֹהֶיךָ "E a alma do meu senhor estará atada no feixe da vida, junto ao Senhor teu D'us." Shmuel I (I Samuel) 25:29

O desfecho desfaz o impasse do início. A sede que parecia condenada à fadiga (porque o Absoluto é "nada" para a mente) resolve-se quando a alma descobre, no seu próprio fundo, que tudo — cada centelha do mundo — é uma revelação de um só "Todo-Bem". Então o mesmo mundo que antes parecia "casa estreita" renova-se: as criaturas "vestem forma nova", e cada coisa boa, cada estudo, cada vida desperta alegria. Não se trata de fugir do mundo para D'us, mas de ver o mundo em D'us — e descobrir que as faíscas dispersas estão, afinal, "atadas no feixe da vida plena".

O Goral de Israel: a testemunha da Glória no mundo

Esta seção abre a coleção "Israel e a sua Ressurreição" — o coração do livro Orot. Antes de falar de renascimento nacional, de terra ou de política, o Rav Kook pergunta: qual é, no fundo, o goral de Israel? O que distingue este povo no seu ser mais íntimo? O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

O goral: declara a glória

Israel declara a glória de D'us — o poder da força suprema, em toda a magnificência dos Seus atos, em todos os lugares do Seu domínio, de eternidade em eternidade:

וּמְרוֹמַם עַל כָּל בְּרָכָה וּתְהִלָּה "E exaltado acima de toda bênção e louvor." Nechemyá (Neemias) 9:5

Este é o goral de Israel. Israel conhece o poder dos atos de D'us; Israel conhece e dá testemunho do D'us poderoso que criou tudo sozinho:

וְאַתֶּם עֵדַי נְאֻם ד' וַאֲנִי אֵל "Vós sois as Minhas testemunhas, diz o Senhor — e Eu sou D'us." Yeshayahu (Isaías) 43:12

Israel está pleno da luz da força e da glória supremas — cujo reconhecimento é pleno de sabedoria eterna, de vida de bondade e amor por todas as criaturas, de vida de esplendor sagrado. Israel permanece neste ângulo de luz — no seu espírito, na vida de cada alma em particular e na vida de toda a nação inteira: na sua construção, nas suas gerações, na sua aspiração de alcançar o esplendor e o brilho da dignidade real da sua soberania, no palácio do seu Templo sagrado, na chama do fogo da vida da sua juventude:

אֲשֶׁר בָּנֵינוּ כִּנְטִיעִים מְגֻדָּלִים בִּנְעוּרֵיהֶם בְּנוֹתֵינוּ כְזָוִיֹּת מְחֻטָּבוֹת תַּבְנִית הֵיכָל "Quando nossos filhos são como mudas crescidas na sua juventude, e nossas filhas como colunas angulares talhadas à semelhança de um palácio." Tehillim (Salmos) 144:12

E o desejo da sua riqueza e do seu tesouro: "nossos celeiros estão cheios, fornecendo toda espécie de provisões; nossas ovelhas são aos milhares e dezenas de milhares nos nossos campos; nosso gado está bem carregado; não há brecha, nem exilado, nem clamor nas nossas ruas. Bem-aventurado o povo a quem assim é! Bem-aventurado o povo cujo D'us é o Senhor." (Salmos 144)

A fundação de todas as aspirações

E o povo cujo D'us é o Senhor sabe declarar o poder dos atos de D'us — sabe que o D'us de Israel é o D'us eterno, Criador do céu e da terra, que criou tudo para a Sua glória; e a Sua glória é a glória de todos os mundos, a vida de todos os mundos; e a investigação da Sua glória é em si mesma glória.

E este conhecimento é a característica do seu espírito, a herança dos seus antepassados e o seu reconhecimento interior — penetrando nele com todo o coração e toda a alma, agarrado, ligado e unido, na suavidade da sua fé, fé de artesão, na clareza da sua história, nas suas vitórias sobre tudo, na qualidade milagrosa da sua sobrevivência e da sua posição diante dos muitos inimigos que tropeçaram e caíram enquanto ele se levantou e se fortaleceu.

O Rav Kook descreve a fé de Israel como emunat oman — "fé de artesão", fé que conhece o seu ofício com a intimidade de quem o pratica. Não é fé abstrata ou herdada passivamente: é a convicção de quem viu com os olhos da história que o povo sobreviveu, que os inimigos caíram, que algo no interior de Israel não se apaga. A sobrevivência histórica é ela própria um testemunho.

E mais do que tudo — este conhecimento sagrado das idades eternas está gravado na sua alma interior, na exigência do seu espírito, no brilho da sua poesia, na encarnação da sua vida — adaptado ao seu caráter moral, à estrutura da sua política. E é o fundamento de todas as suas aspirações.

A verdade que ergue tudo

E esta verdade suprema ergue toda a criação. Todo ser criado vive dela; tudo se aperfeiçoa pelo seu poder; todos os caídos se levantarão por ela; todos os oprimidos em força, todos os quebrantados em justiça voltarão e radiante brilharão da sua luz; todos os afundados no abismo subirão e se firmarão no espaço aberto; todos os contaminados por toda imagem desviada, todos os obscurecidos por toda tolice e abominação —

— pela luz eterna e infinita, olharão e resplandecerão.

A luz de Israel brilha e vai crescendo, pulsando no interior da sua alma o ritmo da sua redenção:

כֹּחַ מַעֲשָׂיו הִגִּיד לְעַמּוֹ לָתֵת לָהֶם נַחֲלַת גּוֹיִם׃ מַעֲשֵׂי יָדָיו אֱמֶת וּמִשְׁפָּט נֶאֱמָנִים כָּל פִּקּוּדָיו׃ סְמוּכִים לָעַד לְעוֹלָם עֲשׂוּיִם בֶּאֱמֶת וְיָשָׁר׃ פְּדוּת שָׁלַח לְעַמּוֹ צִוָּה לְעוֹלָם בְּרִיתוֹ קָדוֹשׁ וְנוֹרָא שְׁמוֹ "O poder dos Seus atos declarou ao Seu povo, para dar-lhes a herança das nações. As obras das Suas mãos são verdade e justiça; todos os Seus preceitos são confiáveis, firmados para sempre, feitos em fidelidade e retidão. Ele enviou redenção ao Seu povo, ordenou para sempre a Sua aliança; santo e temível é o Seu nome." Tehillim (Salmos) 111:6–9

A glória de D'us habita em Israel

E o poder do D'us eterno — D'us de Israel, Senhor de todos os mundos — é abençoado e fortalecido nas alturas das Suas manifestações, na elevação da glória de Israel; nas fundações da nação ele brilha e aparece; no desejo da sua redenção ele vive e desperta. O D'us, o Criador, o Formador, que chama toda a existência do nada, que estende o norte sobre o vazio:

מֵעוֹן אַתָּה הָיִיתָ לָּנוּ בְּדֹר וָדֹר׃ בְּטֶרֶם הָרִים יֻלָּדוּ וַתְּחוֹלֵל אֶרֶץ וְתֵבֵל וּמֵעוֹלָם עַד עוֹלָם אַתָּה אֵל "Senhor, Tu foste para nós um refúgio de geração em geração. Antes que os montes nascessem, e a terra e o mundo fossem criados, de eternidade em eternidade Tu és D'us." Tehillim (Salmos) 90:1–2

E esta glória de D'us — coroa da realeza do D'us vivo — em Israel ela habita. Não há nação nem língua no mundo que possa pensar no seu espírito a verdade que penetra toda a existência de forma tão completa.

Até quando a Tua força estará em cativeiro e o Teu esplendor na mão do inimigo? Desperta a Tua força, ó D'us Altíssimo:

לִפְנֵי אֶפְרַיִם וּבִנְיָמִן וּמְנַשֶּׁה עוֹרְרָה אֶת גְּבוּרָתֶךָ וּלְכָה לִישֻׁעָתָה לָּנוּ "Diante de Efraim, Benjamim e Manassés, desperta a Tua força e vem salvar-nos!" Tehillim (Salmos) 80:3

Salva o Teu povo e redime — nação e o seu D'us; e redimirás completamente, pois és um Redentor forte:

מֵאֵין כָּמוֹךָ ד' גָּדוֹל אַתָּה וְגָדוֹל שִׁמְךָ בִּגְבוּרָה׃ כִּי בְכָל חַכְמֵי הַגּוֹיִם וּבְכָל מַלְכוּתָם מֵאֵין כָּמוֹךָ "Ninguém é como Tu, Senhor — grande és Tu e grande é o Teu nome em poder. Pois entre todos os sábios das nações e em todos os seus reinos não há ninguém como Tu." Yirmeyahu (Jeremias) 10:6–7
מִי כָמוֹךָ חֲסִין יָהּ וֶאֱמוּנָתְךָ סְבִיבוֹתֶיךָ׃ כִּי לַד' מָגִנֵּנוּ וְלִקְדוֹשׁ יִשְׂרָאֵל מַלְכֵּנוּ "Quem é como Tu, poderoso Senhor — a Tua fidelidade Te cerca. Pois ao Senhor pertence o nosso escudo, ao Santo de Israel, o nosso rei." Tehillim (Salmos) 89:9, 19
כִּי כָּל אֱלֹהֵי הָעַמִּים אֱלִילִים וַד' שָׁמַיִם עָשָׂה "Pois todos os deuses dos povos são ídolos — mas o Senhor fez os céus." Tehillim (Salmos) 96:5

O Rav Kook encerra com uma série de versículos que não são apenas citação: são a voz da nação que declara o que sabe. O encadeamento — da testemunha pessoal (Yeshayahu 43:12) ao clamor coletivo pela redenção (Salmos 80), à afirmação de que os "deuses dos povos são ídolos" (Salmos 96:5) — mostra que o conhecimento de D'us não é assunto privado. É uma função da nação no mundo: porque sabe, deve declará-lo; porque declara, os outros também poderão ver.

O Mishpat como Qodesh Qodashim

Em Israel, não há valores separados: todo o domínio da vida — a posse, a honra, o domínio, a expansão — jorra da fonte da santidade. Os mishpatim são qodesh qodashim. Moshé mostrou que buscar D'us e fazer justiça são um só ato. E a heresia que separa misericórdia de justiça destrói, não constrói.

1

O centro da vida da alma de Israel está na fonte da santidade. Nascemos pelo caminho da verdade e da fé, e por ele crescemos. Não há em nós valores separados — a unidade habita em nós, e a luz una de D'us vive no nosso interior. As leis — as leis da Torá do D'us Vivo — nos distinguem de cada povo e língua. O sagrado age em nós por dentro; as aspirações gerais da nossa vida em direção a ele se movem.

Há gotas de santidade em cada povo e língua — mas nem por isso todos os valores da vida brotam delas. Em Israel, não é assim.

"Em todos os teus caminhos conhece-O" (Mishlei 3:6) — uma passagem pequena que abrange todos os principais ensinamentos da Torá. Ela se realiza nos raros indivíduos de excelência, mas é, em verdade, herança de toda a coletividade. Toda aspiração da vida e todo desejo da vida — a aquisição e os seus anseios, a riqueza e a honra, o domínio e a expansão em Israel — tudo isso jorra da fonte da santidade.

מֶרְכַּז הַחַיִּים שֶׁל נִשְׁמַת יִשְׂרָאֵל בְּמָקוֹר הַקֹּדֶשׁ הִיא. דֶּרֶךְ אֱמֶת וֶאֱמוּנָה נוֹלַדְנוּ וּבָהּ אֲנַחְנוּ מִתְגַּדְּלִים. אֵין בָּנוּ עֲרָכִים פְּרוּדִים, הָאַחְדוּת שׁוֹכֶנֶת בָּנוּ וְאוֹר ד' אֶחָד חַי בְּקִרְבֵּנוּ. הַדִּינִים, דִּינֵי תּוֹרַת אֱלֹהִים חַיִּים מְצַיְּנִים אוֹתָנוּ מִכָּל עַם וְלָשׁוֹן. הַקֹּדֶשׁ הוּא פּוֹעֵל בְּקִרְבֵּנוּ פְּנִימָה, שְׁאִיפוֹת חַיֵּינוּ הַכְּלָלִיּוֹת אֵלָיו הֵן הוֹלְכוֹת. יֵשׁ נְטִיפוֹת שֶׁל קֹדֶשׁ בְּכָל עַם וְלָשׁוֹן, אֲבָל עַרְכֵי הַחַיִּים כֻּלָּם אֵינָם צוֹמְחִים מִזֶּה. לֹא כֵן בְּיִשְׂרָאֵל. (מִשְׁלֵי ג ו): "בְּכָל דְּרָכֶיךָ דָּעֵהוּ", שֶׁהִיא פָּרָשָׁה קְטַנָּה שֶׁכּוֹלֶלֶת כָּל גּוּפֵי תוֹרָה, שֶׁיּוֹצֵאת אֶל הַפּוֹעֵל בִּיחִידֵי סְגֻלָּה, נַחֲלַת הַכְּלָל הִיא בֶּאֱמֶת. כָּל שְׁאִיפַת הַחַיִּים וְכָל חֵפֶץ הַחַיִּים, הַקִּנְיָן וּתְשׁוּקוֹתָיו, הָעֹשֶׁר וְהַכָּבוֹד, הַמֶּמְשָׁלָה וְהַהִתְרַחֲבוּת בְּיִשְׂרָאֵל, מִמָּקוֹר הַקֹּדֶשׁ הֵם נוֹבְעִים.
"Em todos os teus caminhos conhece-O" — não uma disciplina espiritual entre outras, mas a estrutura de toda a existência de Israel: a riqueza, a honra, o poder — tudo enraizado na santidade. בְּכָל דְּרָכֶיךָ דָּעֵהוּ וְהוּא יְיַשֵּׁר אֹרְחֹתֶיךָ Mishlei 3:6
2

Por isso os mishpatim são qodesh qodashim em Israel. E por isso a semichá — que carrega o Nome de D'us sobre ela — é tão necessária para nós, tão característica do conteúdo da nossa identidade nacional.

E a maldade helênica-síria sentiu, com o seu instinto bruto, o valor dessa grande segulá — e decretou contra a semichá. E Rabi Yehudá ben Babá deu a sua vida por ela. E o ato dessa entrega de si permaneceu — pois aprofundou o conteúdo característico e singular da vida sagrada de Israel para D'us.

עַל כֵּן הַמִּשְׁפָּטִים הֵם קֹדֶשׁ קָדָשִׁים בְּיִשְׂרָאֵל, וְעַל כֵּן הַסְּמִיכָה, שֶׁהִיא נוֹשֵׂאת שֵׁם אֱלֹהִים עָלֶיהָ, הִיא כָּל כָּךְ נְחוּצָה לָנוּ, הִיא כָּל כָּךְ אוֹפִיֵּית לְתֹכֶן לְאֻמֵּנוּ. וְהָרִשְׁעָה הַיּוּנִית הַסּוּרִית הִרְגִּישָׁה בְּחוּשׁ הָעוֹר שֶׁלָּהּ אֶת עֵרֶךְ הַסְּגֻלָּה הַגְּדוֹלָה הַזֹּאת וְגָזְרָה עַל הַסְּמִיכָה, וְרַבִּי יְהוּדָה בֶּן בָּבָא מָסַר אֶת נַפְשׁוֹ עָלֶיהָ. וּפְעֻלַּת מְסִירַת הַנֶּפֶשׁ הַזֹּאת נִשְׁאֲרָה, כִּי הֶעֱמִיקָה אֶת תֹּכֶן הַחַיִּים הָאוֹפִיִּים הַמְּיֻחָדִים שֶׁל קֹדֶשׁ יִשְׂרָאֵל לַד'.
Nota — Rabi Yehudá ben Babá e a semichá. Durante a perseguição hadriânica (séc. II), os romanos proibiram a semichá (ordination rabínica) sob pena de morte. Rabi Yehudá ben Babá reuniu seus discípulos num desfiladeiro entre duas cidades e os ordenou — e foi morto pelos soldados (Sanhedrin 14a). Para o Rav Kook, esse ato não foi apenas heroísmo religioso: revelou que a semichá não é um procedimento burocrático, mas o canal pelo qual o Nome de D'us — e portanto a santidade — é transferido ao mishpat humano. Quem elimina a semichá elimina a dimensão sagrada do direito. Os helênicos e os romanos sentiram isso "com o instinto bruto da pele".
3

Moshé Rabenu — ao tomar consigo o poder do mishpat, no início da sua fundação na nação — elevou todos os valores do mishpat, até o fim de todas as gerações, àquele conteúdo divino ao qual os mishpatim de Israel apontam. E a busca de D'us veio junto com o mishpat israelita (Shemot 18:15-16):

"Porque o povo vem a mim para buscar D'us; quando têm um assunto, vêm a mim, e eu julgo entre um homem e o seu próximo. E faço conhecer os chukim de D'us e as Suas Torot."

E a busca de D'us no mishpat permaneceu como uma segulá israelita — que se revela no caráter divino abrangente e eterno, e brilha na Terra de Israel, na terra do seu patrimônio, no lugar da luz da segulá da santidade.

מֹשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, בְּתָפְשׂוֹ אִתּוֹ אֶת כֹּחַ הַמִּשְׁפָּט, בִּתְחִלַּת יְסוֹדוֹ בָּאֻמָּה, הֶעֱלָה אֶת כָּל עַרְכֵי הַמִּשְׁפָּט עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת לְאוֹתוֹ הַתֹּכֶן הָאֱלֹהִי שֶׁמִּשְׁפְּטֵי יִשְׂרָאֵל בָּאִים אֵלָיו, וּדְרִישַׁת אֱלֹהִים בָּאָה יַחְדּוֹ עִם הַמִּשְׁפָּט הַיִּשְׂרְאֵלִי. (שְׁמוֹת י״ח:ט״ו-ט״ז): "כִּי יָבֹא אֵלַי הָעָם לִדְרֹשׁ אֱלֹהִים, כִּי יִהְיֶה לָהֶם דָּבָר בָּא אֵלַי וְשָׁפַטְתִּי בֵּין אִישׁ וּבֵין רֵעֵהוּ. וְהוֹדַעְתִּי אֶת חֻקֵּי הָאֱלֹהִים וְאֶת תּוֹרֹתָיו". וּדְרִישַׁת אֱלֹהִים שֶׁל הַמִּשְׁפָּט נִשְׁאֲרָה סְגֻלָּה יִשְׂרְאֵלִית, שֶׁהִיא מִתְגַּלָּה בָּאֹפִי הָאֱלֹהִי הַכּוֹלֵל עוֹלָמִי עַד וְזוֹרַח בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, בְּאֶרֶץ חֵבֶל נַחֲלָתוֹ, מְקוֹם הָאוּרָה שֶׁל סְגֻלַּת הַקֹּדֶשׁ.
"Porque o povo vem a mim para buscar D'us… e eu julgo entre um homem e o seu próximo." — O julgamento IS a busca de D'us. Não são duas atividades paralelas. כִּי יָבֹא אֵלַי הָעָם לִדְרֹשׁ אֱלֹהִים… וְשָׁפַטְתִּי בֵּין אִישׁ וּבֵין רֵעֵהוּ Shemot 18:15-16
4

A minut (heresia) abandonou o mishpat — fincou-se na medida de misericórdia e bondade imaginária que retira o fundamento do mundo e o destrói. E a partir do arrancar do fundamento do mishpat do seu conteúdo divino, apodera-se dela a impiedade mais grosseira — e ela penetra, com grande expansão, nos mishpatim pessoais e individuais, e infiltra-se nas almas dos povos. Desse modo se funda a raiz do ódio entre as nações e o abismo do mal da impureza do derramamento de sangue — sem retirar o jugo do pescoço do homem.

Mas os olhos de todos precisam estar voltados para a luz eterna, a luz de D'us, que se revelará por meio do Mashiach do D'us de Yaakov (Tehillim 9:9):

"E Ele julgará o mundo com justiça; julgará os povos com equidade."

הַמִּינוּת הִפְקִירָה אֶת הַמִּשְׁפָּט, תָּקְעָה עַצְמָהּ בְּמִדַּת הָרַחֲמִים וְהַחֶסֶד הַמְדֻמָּה הַנּוֹטֶלֶת אֶת יְסוֹד הָעוֹלָם וְהוֹרַסְתּוֹ. וּמִתּוֹךְ עֲקִירַת יְסוֹד הַמִּשְׁפָּט מִתֹּכְנוֹ הָאֱלֹהִי תּוֹפֶסֶת אוֹתָהּ הָרִשְׁעָה הַיּוֹתֵר מְגֻשֶּׁמֶת, וּבָאָה בְּזֻהֲמָא לַחְדֹּר בְּמִשְׁפַּט הַפְּרָטִי שֶׁל הָאִישִׁיּוּת הַיְחִידִית וְחוֹדֶרֶת הִיא בְּהִתְפַּשְּׁטוּת גְּדוֹלָה לְנַפְשׁוֹת הָעַמִּים, וּבָזֶה מִתְיַסֵּד יְסוֹד שִׂנְאַת לְאֻמִּים וְעֹמֶק רָעָה שֶׁל טֻמְאַת שְׁפִיכַת דָּמִים, מִבְּלִי לְהָמִישׁ אֶת הָעֹל מֵעַל צַוָּאר הָאָדָם. אָמְנָם עֵינֵי כֹּל מֻכְרָחוֹת לִהְיוֹת נְשׂוּאוֹת לְאוֹר עוֹלָם אוֹר ד', אֲשֶׁר יִגָּלֶה עַל יְדֵי מְשִׁיחַ אֱלֹהֵי יַעֲקֹב (תְּהִלִּים ט ט): "וְהוּא יִשְׁפֹּט תֵּבֵל בְּצֶדֶק, יָדִין לְאֻמִּים בְּמֵישָׁרִים".
Nota — "heresia" e "pseudo-misericórdia" — contexto de leitura. A minut aqui aponta historicamente à separação entre mishpat (lei justa) e misericórdia (rachamim/chesed) que o Rav Kook viu como traço de certas tradições religiosas que cresceram dentro e fora do judaísmo. A crítica não é aos povos como tais, mas a uma estrutura teológica: quando a misericórdia é proclamada abstrata e a lei concreta é abandonada como "velha e cruel", o resultado paradoxal é a ausência de limites ao mal — o derramamento de sangue sem freio. O justo e a misericórdia precisam caminhar juntos: "chesed ve-emet nifgashu, tzedek ve-shalom nashaku" (Teh 85:11). O Mashiach virá restaurar essa síntese no plano universal.

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"Em todos os teus caminhos" — a totalidade como princípio

O Rav Kook radicaliza o dito mishnaico-talmúdico (Berachot 63a) sobre Mishlei 3:6: "uma passagem pequena que abrange todos os principais ensinamentos da Torá." Para ele, o versículo não é apenas um conselho de pieda­de — é a estrutura metafísica de Israel: toda dimensão da vida nacional (possessão, riqueza, honra, expansão) jorra da fonte sagrada. Isso distingue Israel: não há em nós "valores separados" — a unidade do divino permeia até o mercado e a política. A fragmentação dos valores (o sagrado aqui, o mundano ali) é uma patologia de exílio, não a normalidade.

O mishpat como qodesh qodashim

A equiparação entre os mishpatim e o "Santo dos Santos" é intencional e provocativa. O "qodesh qodashim" é o espaço mais sagrado do Templo, onde apenas o Sumo Sacerdote entrava uma vez por ano. Ao afirmar que os mishpatim têm esse estatuto, o Rav Kook inverte a hierarquia intuitiva: não é que o ritual é sagrado e a lei civil é um assunto mundano. A lei civil, o direito, o julgamento entre pessoas — isso é o coração da santidade israelita. Por isso a semichá (ordenação rabínica) não é um mero procedimento: ela transfere o Nome de D'us ao juízo humano. Rabi Yehudá ben Babá entendeu isso com o corpo.

Moshé: o juízo como revelação divina

A cena de Shemot 18 é geralmente lida como um conselho de administração: Yitro aconselha Moshé a delegar. O Rav Kook lê de forma diferente: o povo vem a Moshé "para buscar D'us" — e então Moshé julga. O julgamento é a busca de D'us. Não são duas atividades — uma sagrada, outra administrativa. A primeira palavra de Moshé na arena pública foi: "quando têm um assunto, vêm a mim e eu julgo — e faço conhecer os chukim de D'us." Desde o princípio, mishpat e revelação são uma coisa só em Israel.

A misericórdia sem lei e o paradoxo da violência

A análise da minut é um dos argumentos mais contracorrente do Rav Kook: o abandono do mishpat em nome da misericórdia gera mais violência, não menos. Uma misericórdia sem lei não tem limite — nenhum freio ao homem que age mal "em nome da bondade." O ódio entre nações e o derramamento de sangue crescem exatamente onde o direito perde a sua ancoragem no divino. O Mashiach resolverá essa contradição: não pela abolição da lei, mas pela sua universalização — "julgará o mundo com justiça, julgará os povos com equidade" (Teh 9:9).

O Veneno Espiritual e a Luz Nova sobre Sião

Rav Kook descreve um "veneno espiritual": uma força que, por natureza, esvazia a fé do seu núcleo divino e deixa em seu lugar apenas uma casca moral exterior — agradável e ampla, mas sem a verdade que vence. O seu domínio, porém, dura só até a salvação despontar — e então uma luz nova brilha sobre Sião.

1

Há uma espécie de veneno espiritual que, por sua própria natureza, vem turvar o conteúdo singular de Israel — que é a luz da santidade mais profunda do mundo.

A vida sagrada, que jorra do mais íntimo do íntimo do fulgor da luz do D'us verdadeiro, e que segue em caminho reto sobre a Comunidade de Israel (Knesset Israel) e sobre a abertura da sua alma, está agarrada à seiva vital da santidade da sua fé pura, em pureza suprema — [pureza] que só o mundo destinado a renovar-se, no auge da pureza da sua santidade, poderá absorver, e por meio dela iluminar os feitos da vida.

Este espírito supremo fixa, com a sua força — na vida prática que há em Israel, de um lado, e na vida da fé, no conteúdo da efusão do coração e na ramificação do espírito, do outro —, a demanda interior da nação, o vigor da sua postura e o anseio da sua vitória, a fortaleza da confiança da sua esperança e a luz do seu futuro.

יש מין ארס רוחני כזה, שבטבעו הוא לטשטש את התכן הישראלי המיוחד, שהוא אור הקדש היותר מעומק שבעולם. החיים הקדושים, השופעים בפנימי פנימיות ההבהקה של אור אלהי אמת והולכים בדרך ישרה על כנסת ישראל ופתוח נשמתה, אחוזים בלשד החיים של קדושת אמונתה הטהורה בטהר עליון, שרק העולם העתיד להתחדש ברום טהרת קדשו יוכל לספגו ולהאיר את עלילות החיים על ידו. רוח עליון זה קובע בכחו, בחיים המעשיים שבישראל מעבר מזה ובחיי האמונה ותכן שפעת הלב והסתעפות הרוח מעבר מזה, את תביעתה הפנימית של האומה, גבורת עמדתה וחשק נצחונה, מעוז בטחת תקותה ואור עתידה.
2

Contra isso, esse veneno atinge, com o seu dano, o âmago do sangue vital da pureza da fé, o cume da força da santidade; e afrouxa o fundamento da posição unitária e firme da nação; tira do mundo o resplendor da vida interior da pureza divina, e põe em seu lugar um brilho exterior — no qual não há nada daquela penetração, daquela precisão, daquela vitória, daquela confiança e daquela luz da verdade que vence por toda a eternidade.

Suga esse veneno da abundância húmida do espírito da fé e da moral; difunde-se sobre uma multidão de muitos povos, e é muito agradável às nações do mundo num círculo amplo.

Apoia-se sobre uma base de reconhecimento empobrecido quanto ao caráter da moral e ao sabor da fé e do apego divino — [aquele apego] que se exprime na vida da nação israelita com toda a força e a pureza.

נגד זה, אותו הארס מגיע בפגמו אל תוכיות דם החיים של טהר האמונה, פסגת עז הקדש, ומרפף את יסוד המעמד האחדותי האיתן של האומה, נוטל מן העולם את זיו החיים הפנימיים של הטהר האלהי ונותן במקומו נגה חיצוני, שאין בו כלום מאותו החידור, הדיוק, הנצחון, הבטחה ואור האמת המנצחת כל עדי עד. יונק הוא ארס זה משפעת הלח של רוח האמונה והמוסר, מתפשט הוא על המון עמים רבים ונאות הוא מאד ללאומי התבל בחוג רחב. עומד הוא על בסיס של הכרה מתדלדלת באופי המוסר והטעם של האמונה והדבקות האלהית, המובעה בחיי האומה הישראלית בכל חסן וטהר.
3

Lambe como o boi lambe a erva (cf. Bamidbar 22:4), golpeia como o que assola o portão (cf. Yeshayahu 24:12); cobiça engolir a face interior da vida, anseia por apagar o nome de Israel de sobre a face da terra, por destruir o esplendor interior do mundo e por fixar um conteúdo exterior e grosseiro — que tudo abrange numa generalização frouxa, e cujo interior é forrado de tolice e de maldade de idolatria.

E o seu domínio alcança [apenas] até o momento em que vem a palavra de D'us a revelar-se, e a salvação de Israel a despontar das profundezas da alma do Vivente dos mundos — então fugirão as sombras, e uma luz nova brilhará sobre Sião.

לוחך הוא כלחוך השור, מכה כשאיה שער, חושק הוא לבלוע את פנים החיים, שוקק למחות את שם ישראל מעל פני האדמה, לאבד את הזהר הפנימי של העולם ולקבוע תכן חיצוני מגושם, מקיף בהכללה רפויה ומרופד בתוכיותו באויליות ורשעה של אליליות. ושליטתו מגעת עד עת בא דבר ד' להגלות וישועת ישראל מעמק נשמת חי העולמים להופיע, אז ינוסו הצללים ואור חדש על ציון יזרח.
As suas duas imagens vêm da Escritura: "lamberá... como o boi lambe a erva do campo" (Bamidbar 22:4) e o portão golpeado e em ruínas (Yeshayahu 24:12) — figuras da força que consome e assola. כִּלְחֹךְ הַשּׁוֹר אֵת יֶרֶק הַשָּׂדֶה · וּשְׁאִיָּה יֻכַּת שָׁעַר
Nota — o "veneno espiritual" e o que ele NÃO é. Esta é uma passagem diagnóstica, não um ataque a um povo. O "veneno" (ars ruchani) é, para o Rav Kook, uma ideia: uma moral e um universalismo desligados da sua raiz divina, que conservam a forma exterior da fé (decência, ética, abrangência) mas perdem o seu núcleo vivo — "a penetração, a precisão, a vitória, a confiança e a luz da verdade que vence". O perigo, no seu diagnóstico, não está na moral em si, mas no seu desenraizamento: uma casca sem seiva. Por isso ele a descreve como "muito agradável às nações num círculo amplo" — precisamente porque é palatável, difunde-se com facilidade.
O fecho é puro hino de redenção: o domínio das sombras é temporário; quando a palavra de D'us se revela, elas fogem. אָז יָנוּסוּ הַצְּלָלִים, וְאוֹר חָדָשׁ עַל צִיּוֹן יִזְרַח

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A casca e a seiva

O eixo desta seção é a oposição entre duas vidas: a vida sagrada que jorra "do mais íntimo do íntimo" da luz divina, e o "brilho exterior" que a imita sem a substância. O Rav Kook não nega valor à moral universal — ele a chama de "abundância húmida do espírito da fé e da moral", da qual o próprio veneno se alimenta. O problema é que, separada da sua fonte, essa moral vira casca: conserva a aparência (negah chitzoni, brilho exterior) mas perde a "verdade que vence por toda a eternidade".

Por que é "agradável às nações"

A observação de que esse conteúdo exterior "é muito agradável às nações do mundo num círculo amplo" é fina: aquilo que se desliga do particular concreto e se generaliza numa "abrangência frouxa" torna-se fácil de difundir — palatável precisamente porque exige pouco. O Rav Kook, fiel ao seu universalismo, não despreza as nações; o que ele diagnostica é a sedução de uma generalização que apaga as distinções vivas, inclusive "o nome de Israel".

Um domínio com prazo

O traço mais característico do Rav Kook está no fecho. Mesmo a força mais corrosiva tem o seu domínio limitado no tempo — "até o momento em que vem a palavra de D'us a revelar-se". A história não termina na dissolução, mas na restauração: "fugirão as sombras, e uma luz nova brilhará sobre Sião." A frase final ecoa a bênção litúrgica do Yotzer Or ("uma luz nova sobre Sião farás brilhar") e Yeshayahu 60 — convertendo o diagnóstico sombrio em promessa.