Orot · As Luzes do Rav Kook

A Torá que Rompe o Negrume

Desde a destruição do Templo, ensina o Rav Kook, a luz da Torá vinda do céu ficou envolta em "negrume e saco". Ao aproximar-se a redenção, um espírito purifica os céus, e a Torá rompe a cobertura, subindo mais alto. Quem não se adapta a essa Torá pensa que "não há Torá do céu" — mas os justos anunciam o oposto: é justamente agora que uma luz nova se revela.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §48 Tradução inédita · PT-BR

O que parece, a muitos, uma crise da fé e da Torá no mundo moderno, o Rav Kook lê como o contrário: o romper de uma luz mais alta, que estivera velada durante o exílio. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

O céu velado do exílio

"Desde que o Templo foi destruído, o firmamento não foi visto na sua pureza, como está dito: 'visto os céus de negrume, e ponho-lhes o pano de saco por cobertura'" (Talmud, Chaguigá 12b). Se assim é, a iluminação da Torá vinda do céu, no tempo do exílio, está envolta no negrume e no saco que a cobrem.

אַלְבִּישׁ שָׁמַיִם קַדְרוּת, וְשַׂק אָשִׂים כְּסוּתָם "Visto os céus de negrume, e ponho-lhes o pano de saco por cobertura." Yeshayahu (Isaías) 50:3 — citado em Chaguigá 12b

A imagem é exata e consoladora. Se a luz da Torá "do céu" anda, no exílio, coberta de "negrume e saco", então a obscuridade que por vezes sentimos não está na Torá, mas na cobertura — no véu que a história lançou sobre ela. A luz continua lá em cima, intacta; o que falta é o céu limpo por onde ela passe. E céus podem ser limpos.

O espírito que purifica os céus

No tempo da aproximação do Fim, virá um espírito que purifica os céus do seu negrume, que remove o saco que os cobre; e então aqueles que não se adaptaram à Torá que sobe para o alto, a que rompe o negrume e o saco, pensam que não há para eles Torá do céu.

Eis o mesmo diagnóstico compassivo que o Rav Kook faz da descrença da geração (veja-se Luz Demais, Vasos de Menos): quando a Torá "sobe" a um grau mais puro, quem ainda está habituado à sua forma velada não a reconhece — e conclui, equivocadamente, que "já não há Torá do céu". Não é que a luz se tenha apagado; é que ela subiu, e o olho ainda não a acompanhou. A perda de fé de muitos é, no fundo, a sombra de uma luz que cresceu.

É agora que a luz nova se revela

Mas os justos, que buscam o Senhor e a sua força, acrescentam luz e alegria, e anunciam a justiça numa grande assembleia: [dizem] que é precisamente agora que se revelará uma luz nova, e os céus serão vistos na sua pureza, e todos os que vêm ao mundo saberão que do céu veio a palavra do Senhor à casa de Israel e à casa de Jacó, a nação inteira.

וְזָרְחָה לָכֶם יִרְאֵי שְׁמִי שֶׁמֶשׁ צְדָקָה וּמַרְפֵּא בִּכְנָפֶיהָ "E para vós, que temeis o meu Nome, nascerá o sol da justiça, trazendo cura nas suas asas." Malachi (Malaquias) 3:20
A luz não se apagou — subiu; e o olho ainda não a acompanhou.
Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §48. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. O dito "desde que o Templo foi destruído..." é do Talmud (Chaguigá 12b), sobre Yeshayahu 50:3; o verso do "sol da justiça" é de Malachi 3:20. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.