O que parece, a muitos, uma crise da fé e da Torá no mundo moderno, o Rav Kook lê como o contrário: o romper de uma luz mais alta, que estivera velada durante o exílio. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
O céu velado do exílio
"Desde que o Templo foi destruído, o firmamento não foi visto na sua pureza, como está dito: 'visto os céus de negrume, e ponho-lhes o pano de saco por cobertura'" (Talmud, Chaguigá 12b). Se assim é, a iluminação da Torá vinda do céu, no tempo do exílio, está envolta no negrume e no saco que a cobrem.
A imagem é exata e consoladora. Se a luz da Torá "do céu" anda, no exílio, coberta de "negrume e saco", então a obscuridade que por vezes sentimos não está na Torá, mas na cobertura — no véu que a história lançou sobre ela. A luz continua lá em cima, intacta; o que falta é o céu limpo por onde ela passe. E céus podem ser limpos.
O espírito que purifica os céus
No tempo da aproximação do Fim, virá um espírito que purifica os céus do seu negrume, que remove o saco que os cobre; e então aqueles que não se adaptaram à Torá que sobe para o alto, a que rompe o negrume e o saco, pensam que não há para eles Torá do céu.
Eis o mesmo diagnóstico compassivo que o Rav Kook faz da descrença da geração (veja-se Luz Demais, Vasos de Menos): quando a Torá "sobe" a um grau mais puro, quem ainda está habituado à sua forma velada não a reconhece — e conclui, equivocadamente, que "já não há Torá do céu". Não é que a luz se tenha apagado; é que ela subiu, e o olho ainda não a acompanhou. A perda de fé de muitos é, no fundo, a sombra de uma luz que cresceu.
É agora que a luz nova se revela
Mas os justos, que buscam o Senhor e a sua força, acrescentam luz e alegria, e anunciam a justiça numa grande assembleia: [dizem] que é precisamente agora que se revelará uma luz nova, e os céus serão vistos na sua pureza, e todos os que vêm ao mundo saberão que do céu veio a palavra do Senhor à casa de Israel e à casa de Jacó, a nação inteira.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §48. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. O dito "desde que o Templo foi destruído..." é do Talmud (Chaguigá 12b), sobre Yeshayahu 50:3; o verso do "sol da justiça" é de Malachi 3:20. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.