Por séculos, certa piedade aprendeu a desconfiar do corpo — a vê-lo como peso, tentação, obstáculo. Contra essa herança, o Rav Kook escreve uma das suas páginas mais surpreendentes, em que a saúde, a força e o músculo entram no vocabulário do sagrado. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
Temos carne santa
Grande é a nossa demanda corporal: precisamos de um corpo são. Ocupámo-nos muito do que é da alma, [e] esquecemos a santidade do corpo; abandonámos a saúde e o vigor corporal; esquecemos que temos carne santa, não menos do que temos espírito santo.
A frase é deliberadamente chocante. A tradição fala sempre do ruach ha-kodesh, o "espírito santo"; o Rav Kook ousa formar o par exato: basar kodesh, "carne santa". Não há, para ele, uma alma nobre presa num corpo vil. O corpo é sagrado — e descuidá-lo não é piedade, é esquecimento. A separação entre um "espírito" elevado e uma "carne" desprezível é grega, não da Torá.
O medo caído
Abandonámos a vida prática, e o apuro dos sentidos, e a ligação com a realidade física e palpável — por causa de um medo caído [um temor degenerado], por falta de fé na santidade da terra. Como ensinaram os Sábios: "'fé' — isto é a ordem [das leis] das Sementes [Zeraim]: que [o lavrador] crê na Vida dos mundos, e semeia".
O Rav Kook chama o ascetismo do exílio de "medo caído": não a reverência sadia, mas um temor doentio que fugiu do mundo. E liga-o a uma "falta de fé na santidade da terra". A prova vem de um belíssimo dito do Talmud: por que a ordem agrícola da Mishná se chama "Sementes" (Zeraim) e se associa à fé? Porque o agricultor que lança a semente à terra está a fazer um ato de fé — crê "na Vida dos mundos" e, por isso, semeia. Trabalhar a terra não é o oposto da fé: é fé em ação.
A teshuvá do corpo
Todo o nosso retorno [teshuvá] só nos sairá bem se for, com todo o esplendor da sua espiritualidade, também um retorno físico — gerando sangue são, carne sã, corpos firmes e bem constituídos; um espírito ardente a brilhar sobre músculos fortes. E, pelo vigor da carne santificada, voltará a brilhar a alma que se enfraquecera — como uma antecipação da ressurreição corporal dos mortos.
Eis a virada final, e a mais bela: para o Rav Kook, fortalecer o corpo não enfraquece a alma — fá-la brilhar. "Pelo vigor da carne santificada, voltará a brilhar a alma que se enfraquecera." A alma exilada definhou junto com o corpo negligenciado; e renascerá junto com ele. Por isso a teshuvá do renascimento tem de ser inteira — do espírito e da carne. E o corpo forte que volta à vida é já um "lembrete", um ensaio, da própria ressurreição: a promessa de que nada do que é humano se perde para sempre.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §33. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. O dito "'fé' é a ordem das Sementes" é do Talmud (Shabat 31a, sobre Yeshayahu 33:6); o verso final é Yeshayahu 58:11. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.