Diante da onda de secularismo do seu tempo, o Rav Kook não responde com lamento nem com condenação, mas com um diagnóstico que vira tudo de cabeça para baixo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
A descrença que vem do excesso de luz
Porque a imagem da grandeza da luz divina é muito grande no íntimo das almas da última geração dos "calcanhares do Mashiach" — numa medida tal que elas ainda não têm a aptidão de como conduzir a vida prática segundo uma grandeza tão elevada —, é disto que vêm a descrença [kefirá] e o empobrecimento espiritual semelhante à destruição que vemos na nossa geração.
É uma reviravolta no modo de ver a crise da fé. O senso comum diz: "perdeu-se a fé porque esfriou o espírito". O Rav Kook diz quase o oposto: a alma da geração foi tomada por uma visão tão grande do divino que não cabe ainda nas formas antigas, e não encontra como traduzi-la em vida prática — e o transbordamento, sem leito por onde correr, vira "descrença". Não é falta de luz; é luz a mais, sem vaso que a contenha. O diagnóstico é, no fundo, compassivo: trata a crise como dor de uma grandeza, não como sintoma de uma pequenez.
A cura: multiplicar os vasos
Mas o caminho da cura é apenas um: multiplicar os vasos [kelim] — os conceitos e os planos que servem para abrir caminhos a uma adaptação prática segundo as luzes mais elevadas.
A imagem dos "vasos" vem da mística: a luz é infinita, mas precisa de recipientes para iluminar sem se quebrar. Aplicada à vida, isto significa um trabalho muito concreto — pensar, organizar, planejar, criar instituições, formas, caminhos por onde a grande luz possa escorrer para o cotidiano. A resposta à crise espiritual não é, paradoxalmente, "mais espírito", mas mais estrutura para o espírito: vasos à altura da luz.
Por que o espírito livre e o corpo forte
E é por esta razão que vem também a grande exigência de liberdade do espírito e de fortalecimento do corpo: porque só um espírito forte e robusto, e um corpo são e firme, podem conter dentro de si, sem se abalarem, as iluminações mais elevadas — e manter-se na firmeza própria de uma vida ativa, cheia do vigor da criação, e dela extrair caminhos de vida, por uma depuração interior. Pois todas estas preparações são necessárias para a teshuvá completa, que está logo atrás da nossa parede [já à porta].
Aqui se ligam vários fios do Rav Kook. A exigência de "fortalecer o corpo" não é concessão ao materialismo: é a construção de um vaso capaz de conter a grande luz sem se partir — o mesmo que ele ensina em Carne Santa ("temos carne santa não menos do que espírito santo"). Um corpo são e um espírito livre são recipientes; e quanto maior a luz que desce sobre a geração, mais robustos precisam de ser. Toda essa preparação — interior e exterior — aponta para uma só coisa: a teshuvá completa, que já espera "atrás da parede".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §47. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem dos "vasos" (kelim) que contêm a luz é da tradição mística; as citações são de Yeshayahu 60:1 e Shir haShirim 2:9 ("atrás da nossa parede"). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.