Há um ditado célebre dos sábios: "a rivalidade dos escribas multiplica a sabedoria" (kin'at soferim tarbeh chochmá, Bavá Batra 21a) — a competição saudável entre estudiosos faz o saber crescer. Nesta seção breve e cortante das "Luzes do Renascimento", o Rav Kook vira a moeda e mostra o reverso: nem toda sabedoria que cresce assim é pura, e a que brota da inveja traz dentro de si o seu próprio fim. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico (de domínio público).
A sabedoria que apodrece
A sabedoria que se multiplica a partir da rivalidade dos escribas — visto que vem da inveja, o seu fim é apodrecer. E todo apodrecimento tem em si um mau cheiro. É esta a "sabedoria dos escribas que há de feder nos calcanhares do Mashiach" — e, por meio desse apodrecimento, a sua forma anterior se anula.
O Rav Kook não está a condenar o estudo, nem a rivalidade que afia a mente. Ele faz uma distinção sobre a raiz: há a sabedoria que cresce do amor à verdade, e há a que cresce da inveja — do desejo de vencer o outro, de ter nome, de superar. Esta segunda pode parecer brilhante, mas a sua raiz é impura; e o que tem raiz na inveja não dura. "Todo apodrecimento tem um mau cheiro": a erudição feita arena de vaidades acaba por revelar o que a moveu. A imagem talmúdica das "pegadas do Mashiach" (ikvetá diMeshichá) é a do limiar da redenção, quando o velho se desfaz para o novo poder nascer.
A luz da alma da sabedoria
...e começa a brilhar a luz da alma da sabedoria suprema — aquela que está acima de toda inveja, mais alta que a sabedoria dos escribas. É a sabedoria que virá à luz por meio de "um cântico novo e um nome novo, que a boca do Senhor designará".
E desta sabedoria diz o profeta:
O contraste é perfeito e proposital. A sabedoria nascida da inveja tinha "um mau cheiro"; a sabedoria nascida da alma tem o aroma do Líbano. Uma apodrece; a outra perfuma. Onde a primeira competia por um nome, à segunda um nome é dado — pela boca de D'us.
Há aqui uma esperança, não um lamento. O Rav Kook lê até a decadência como parte de um processo: quando a forma velha de um saber — a que se sustentava na competição e no orgulho — se desfaz, abre-se espaço para uma forma mais limpa, "acima de toda inveja". Não é o fim da Torá, mas a sua purificação: a mesma sabedoria, livre do que a contaminava, voltando a brilhar com luz de alma. O "cântico novo" e o "nome novo" são as marcas de algo que não se conquista arrancando do próximo, mas que se recebe.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §38. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As expressões "rivalidade dos escribas" (kin'at soferim, Bavá Batra 21a) e "pegadas do Mashiach" (ikvetá diMeshichá) provêm do Talmud; as citações são de Yeshayahu 62:2 e Hoshea 14:7. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.