Esta é uma das páginas mais decisivas — e mais generosas — do Rav Kook sobre o renascimento nacional. Ele encara de frente a possibilidade de uma nação se corromper, reconhece o risco, e então afirma algo extraordinário: o espírito de Israel está tão unido ao espírito de D'us que nem o mais secular dos seus filhos consegue, de fato, separá-los. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
A impureza que pode crescer numa nação
A "sujeira" espiritual [ha-zuhama] — assim como pode acumular-se dentro de uma alma individual, afastando-a do seu bom feitio e tornando-a baixa, ao ponto de descer ao nível dos ínfimos da vida — também pode acumular-se dentro da alma coletiva de uma nação inteira, fazendo dela uma nação baixa e perversa, desprezível e repugnante.
A pureza divina, quando bem iluminada, purifica o coração. A alma do homem singular torna-se luminosa, santa e forte pela luz divina que faz brilhar sobre ela os seus raios com vigor e plenitude; e turva-se na mesma medida em que essa luz está distante dela, ou perturbada dentro dela. Também a alma da nação inteira, quando nela corre uma corrente viva de manifestação de D'us, é sã, forte e pura; e quando a Shechiná se afasta dela, logo definha, e a sua impureza vai-se revelando.
O Rav Kook não idealiza ingenuamente a coletividade. Um povo, como um indivíduo, pode adoecer no espírito — e, justamente por ser grande, "as suas aspirações más crescem muito mais para o mal do que as de homens maus isolados". O diagnóstico é severo. Mas é o pano de fundo necessário para o que vem a seguir: precisamente porque o risco é real, a garantia que ele anuncia é tão notável.
O espírito nacional pode, pois, contrair impureza como o espírito de um homem particular, e aspirar a coisas baixas e más, que — na proporção da sua força — crescem muito mais para o mal. Por isso o espírito precisa de pureza — pureza na fonte da pureza, no manancial divino. Quando os atos são bons e as qualidades límpidas, a nação sonha sonhos de santidade suprema, e a sua mente ilumina-se com a luz de D'us; quando os atos se aviltam, as aspirações nacionais tornam-se baixas, feias e — por consequência — também fracas: pois não há força verdadeira senão a força do alto, a força de D'us.
A aliança: Israel não se contamina por completo
Uma aliança está firmada com toda a Knesset Israel: que ela não se contaminará com uma impureza completa. Também sobre ela a impureza pode atuar, causar-lhe defeitos — mas não pode cortá-la por inteiro da fonte da vida divina.
O espírito de Israel e o de D'us são um
O espírito da nação que agora despertou — cujos muitos defensores dizem não precisar do espírito de D'us — se de fato pudessem fundar em Israel um espírito nacional assim [sem D'us], poderiam pôr a nação no patamar da impureza e da ruína. Mas o que eles querem, eles mesmos não sabem: de tal modo está unido o espírito de Israel ao espírito de D'us, que até quem diz não precisar de modo algum do espírito do Senhor — uma vez que diz desejar o espírito de Israel — eis que o espírito divino habita na intimidade do seu anseio, mesmo contra a sua vontade.
O indivíduo particular pode cortar-se a si mesmo da fonte da vida; não assim a nação, toda a Knesset Israel. Por isso, todos os bens da nação — que lhe são queridos pelo seu espírito nacional — todos têm o espírito de D'us habitando neles: a sua terra, a sua língua, a sua história, os seus costumes.
Aqui está o coração da seção, e uma das ideias mais influentes do Rav Kook. O nacionalista que se diz secular ama "o espírito de Israel" — a terra, a língua, a história. Ora, esse espírito é, na sua raiz, o espírito de D'us; logo, ao amá-lo, esse homem carrega o divino "na intimidade do seu anseio, mesmo contra a sua vontade". Não é uma acusação — é um abraço. O Rav Kook não vê inimigos da fé nos pioneiros seculares; vê pessoas que servem o sagrado sem o saber.
O que devem fazer os justos
E se, em algum tempo, surgir um despertar que diga tudo isto em nome do espírito da nação apenas, esforçando-se por despojar o espírito de D'us de todos esses bens e da sua fonte revelada — que devem então fazer os justos da geração? Rebelar-se contra o espírito da nação, mesmo em palavra, e desprezar os seus bens? Isso é impossível: o espírito do Senhor e o espírito de Israel são um só. Antes, devem realizar um grande trabalho — revelar a luz e a santidade que há no espírito da nação, a luz de D'us que está dentro de tudo isso — até que todos os que sustentam aqueles pensamentos se encontrem, por si mesmos, imersos, enraizados e vivendo na vida de D'us, resplandecentes em santidade e na força do alto.
Daí a estratégia dos justos não ser a polêmica, mas a revelação. Não combater o despertar nacional — combatê-lo seria combater algo que, na raiz, é divino —, e sim descobrir e mostrar a luz de D'us que já habita nele, até que os próprios que o negavam se reconheçam, de dentro, "vivendo na vida de D'us". É um programa de amor paciente, não de guerra: a fé não vence o secular expulsando-o, mas revelando-lhe quem ele, no fundo, já é.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §9. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A "aliança que não se quebra" ecoa Vayikrá 26:44; o fecho apoia-se em Tehillim 94:14 ("o Senhor não abandonará o seu povo"). As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.