Orot · As Luzes do Rav Kook

A Torá Interior: a sabedoria que só se ouve no alto

O conteúdo supremo da sabedoria dos segredos só se completa pela manifestação do espírito de santidade — uma "escuta" superior, acima dos sentidos e das ciências limitadas. Os filhos dos profetas treinavam-na; e agora, perto da redenção, ensina o Rav Kook, o tempo obriga a multiplicar o estudo da Torá interior — pois é dela que virá a força que funda a salvação.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §57 Tradução inédita · PT-BR

Se a seção anterior falou da reunião entre a halachá e a agadá (veja-se Halachá e Agadá), esta desce ainda mais fundo: à Torá interior — a sabedoria dos segredos —, e ao modo singular de conhecer que ela exige. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Uma sabedoria que se ouve, não se deduz

O conteúdo supremo da sabedoria dos segredos [chochmat ha-razim] — visto que ela tem de aperfeiçoar-se pela manifestação do espírito de santidade [ruach ha-kodesh] e pela revelação da alma numa compreensão superior, que está acima de todos os sentidos da carne e das ciências limitadas que deles resultam — esse conteúdo, por si mesmo, exige, por uma necessidade interior, a adaptação espiritual a uma escuta superior do espírito de D'us.

Há aqui uma teoria do conhecimento. Nem tudo se alcança do mesmo modo. As ciências "limitadas" derivam dos sentidos — observam, medem, deduzem. Mas a sabedoria mais alta, a dos segredos, não se deduz: ouve-se. Exige uma faculdade diferente — uma "escuta" interior do espírito —, e por isso exige também que a própria alma se eleve e se afine, como um ouvido que se aguça. Não se conquista a Torá interior só com a razão analítica; é preciso tornar-se o tipo de pessoa que consegue ouvi-la.

O treino dos filhos dos profetas

E os filhos dos profetas [as escolas proféticas] treinavam-se nos conteúdos supremos, a cuja conceção só se chega por uma escuta interior e perene, que brota da luz da vida do sagrado — até que as próprias conceções, que exigem o trabalho de compreendê-las, ordená-las e fazê-las frutificar, eram justamente o que ajudava a elevar a vida espiritual dos que nelas se ocupavam, até a medida da visão divina [tzefiyá elohit].

Eis um círculo virtuoso. Estudar os segredos exige uma alma elevada — mas o próprio estudo, feito com seriedade (compreender, ordenar, fazer frutificar), eleva a alma a essa altura. O conteúdo e o estudante crescem juntos: quanto mais se trabalha a Torá interior, mais apto se fica para a "visão divina"; e quanto mais se está apto, mais se a alcança. O estudo não é só aquisição de saber — é formação do ser que conhece.

O tempo obriga

Agora, no tempo mais próximo do Fim da salvação, "a voz da rola ouve-se na nossa terra, e as flores aparecem"; e a exigência de buscar a luz do Senhor, de buscar a redenção espiritual suprema, de afluir ao Senhor e à sua bondade, vai crescendo.

הַנִּצָּנִים נִרְאוּ בָאָרֶץ, עֵת הַזָּמִיר הִגִּיעַ, וְקוֹל הַתּוֹר נִשְׁמַע בְּאַרְצֵנוּ "As flores aparecem na terra, chegou o tempo de cantar, e a voz da rola ouve-se na nossa terra." Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) 2:12

Agora o tempo obriga a multiplicar a aquisição na Torá interior, nas visões do sagrado a que não há entrada de escuta senão pela elevação da alma e pela altura da sua força, na luz da sua vida mais pura e elevada. E a hoste cujos corações D'us tocou, deste "acampamento de D'us", esta será para nós a força que funda o fundamento da salvação — a força que dá graça, luz de vida e majestade de grandeza a todo o voo da vida do renascimento da nação na Terra de Israel.

O Zohar abre caminho

O Livro do Zohar, que rompe caminhos novos — "que faz uma vereda no deserto, uma estrada na solidão" —, ele e todo o seu fruto estão prontos para abrir as portas da redenção: "e porque Israel há de provar da Árvore da Vida, que é este Livro do Zohar, sairão do exílio com misericórdia" (Zohar).

אָשִׂים בַּמִּדְבָּר דֶּרֶךְ, בִּישִׁמוֹן נְהָרוֹת "Porei um caminho no deserto, e rios na solidão." Yeshayahu (Isaías) 43:19
A Torá interior não se conquista só com a razão; é preciso tornar-se quem consegue ouvi-la.
Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §57. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Shir haShirim 2:12 e Yeshayahu 43:19; a frase final sobre a "Árvore da Vida" é do Zohar; "filhos dos profetas" remete a I Shmuel 10 e II Reis 2. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.