Orot HaTechiyá — "As Luzes do Renascimento" — é talvez a parte mais conhecida de Orot. Nela o Rav Kook lê o retorno de Israel à sua terra não como um evento meramente histórico ou político, mas como o despertar de uma alma. O que segue é uma tradução inédita ao português da sua passagem de abertura, feita a partir do hebraico (de domínio público).
O conhecimento mais doce
A compreensão mais plena e mais doce do conhecimento de D'us é reconhecer a relação do Divino com o mundo como um todo — e com cada um dos seus detalhes, materiais e espirituais — tal como a relação da alma com o corpo: o lado espiritual que vivifica e enche o corpo da luz de existir e florescer, daquilo que é necessário à vida, à luz e ao florescimento.
Quando essa relação se enche no coração e na alma, ela os preenche de amor mais do que de temor, e de uma serenidade contemplativa mais do que da amargura do tremor. Na vida do indivíduo, é fácil chegar a essa medida: pelo aprimoramento da conduta — prática e intelectual — e pela elevação da luz do conhecimento. Quando o caráter humano se inclina com afeto ao sublime, ao bem absoluto, na mente e na vida, logo esse reconhecimento da Divindade se enraíza nele, impregna todas as suas ideias e se funde com todos os seus sentidos, refinando-os.
A alma de um povo
Mas o organismo coletivo — um povo — tem uma psicologia própria. Se, no fundo do seu ser, ele também se inclinar a uma simpatia moral elevada, e o amor ao bem nobre estiver bem gravado em sua natureza — seja por escolha, seja por herança dos pais —, então esse reconhecimento da alma penetrará também no interior da nação, e a doçura do amor divino, unida ao temor reverente, ficará impregnada em todo o povo e endireitará os seus caminhos.
Porém, na medida em que um povo está distante desse afeto íntimo pelo bem absoluto, a relação da alma com o Divino não consegue penetrá-lo: e então a sua ligação com D'us torna-se uma ligação estranha; D'us passa a ser, para ele, um deus alheio — e esse "deus" estrangeiro adquire traços distorcidos, quase caricatos, que torcem a vida muito mais do que a endireitam. É por isso que ainda vemos, entre as nações, sinais de crueldade e tirania, e a moral a se esvair pouco a pouco do coração coletivo.
O refúgio guardado em Israel
Mas a humanidade tem um refúgio herdado em Knesset Yisrael: nela, no seu círculo mais íntimo, encontra-se a simpatia divina. O sentimento atesta e o entendimento esclarece que o Senhor único do mundo é o bem completo, a vida, a luz, o Todo — exaltado acima de tudo, melhor que todo bem, bom para com todos, e cuja compaixão se estende sobre todas as suas obras. E essa identificação não permeia apenas os indivíduos deste povo, mas a sua própria coletividade.
E quando aconteceu de Israel esquecer a sua alma — a fonte da sua vida —, foi-lhe dada a profecia para lembrá-la, e foram-lhe preparados os exílios para endireitar as suas tortuosidades, até que, no fim, a simpatia pelo bem absoluto vencesse dentro dela.
O chamado do renascimento
Essa sede viva e palpável, que enche de luz a vida prática — também a social e a nacional —, segue abrindo o seu caminho. E chama a nação, quando chega o seu tempo, a animar-se, a erguer-se, a sacudir de si o pó da humilhação, a romper as cadeias do exílio, e a exigir um novo florescer na Terra em que começou a formar-se a cultura da alma divina — pela nação e pelo mundo inteiro.
E essa exigência de proximidade com o Divino não se revela, no princípio, em toda a sua luz. Pelo contrário: aparece primeiro de modo negativo — expulsando os sentimentos estranhos a respeito de D'us, aqueles que não enchem a alma como a alma enche o corpo, mas que dominam com a dureza de um senhor severo. À medida que essa negação avança nas mãos dos que a ela se inclinam, vem também, com força, o lado positivo, vindo dos grandes do povo, cuja alma é do mundo da emanação; e o sentimento nacional-divino floresce e se liga a todas as luzes ocultas da história — luzes que brilham no que essa história traz consigo: a Terra da herança, a Terra desejada, a Terra da santidade, a Terra da beleza e da vida.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — Orot HaTechiyá (As Luzes do Renascimento), passagem de abertura. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Buscou-se preservar a força e o sentido do original; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.