É com estas palavras que se abre o livro Orot — e elas estão entre as mais citadas de toda a obra do Rav Kook. Contra a ideia de que a terra seja apenas um instrumento (um lugar onde o povo sobrevive, ou onde a sua religião se preserva melhor), ele afirma um vínculo de outra ordem: essencial, vivo, anterior a toda utilidade. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
Não um meio — uma unidade essencial
A Terra de Israel não é uma coisa externa, uma posse exterior da nação — apenas como um meio para o fim da agregação coletiva e da manutenção da sua existência material, ou mesmo espiritual. A Terra de Israel é uma unidade essencial [chativá atzmutit], ligada por um vínculo de vida com a nação, abraçada por qualidades interiores [segulot] à sua própria existência.
A distinção é tudo. Há um modo "instrumental" de amar a terra: como abrigo, como base de um projeto nacional, até como reforço da fé. O Rav Kook não o despreza — mas diz que ele não toca o essencial. A Terra de Israel é uma chativá atzmutit: uma "peça de essência", inseparável da alma do povo como o corpo o é da alma. Não se ama por aquilo que serve; ama-se por aquilo que é — e o que é, é um laço de vida.
O amor que a razão sozinha não alcança
E por isso não é possível apreender o conteúdo da segulá da santidade da Terra de Israel, nem levar ao ato a profundidade do seu amor, por nenhuma compreensão racional humana — mas apenas pelo espírito de D'us que está sobre a nação como um todo; pela impressão natural-espiritual que há na alma de Israel, que envia os seus raios, em cores naturais, por todos os caminhos da sensibilidade sadia, e faz brilhar a sua luz suprema na medida do espírito de santidade que enche de vida e de deleite supremo o coração dos que pensam o sagrado e aprofundam a reflexão de Israel.
Aqui o Rav Kook não opõe razão e espírito por desprezo pela razão — ele o faz por exatidão. Há objetos que a análise alcança e há laços que ela não mede: o amor de um filho pela mãe, por exemplo, não se "demonstra". Assim o vínculo com a Terra: pode-se argumentar a favor dele, mas a sua profundeza só se sente "pelo espírito de D'us que está sobre a nação". É um saber do coração que pensa, não um cálculo.
A esperança que sustenta — e a salvação mesma
O pensamento de que a Terra de Israel é apenas um valor externo, para a manutenção da agregação da nação — mesmo quando vem para, por meio dela, fortalecer a ideia do judaísmo no exílio, guardar o seu feitio e robustecer a fé, o temor e a prática das mitsvot de modo digno — não dá o fruto capaz de permanecer; pois esse alicerce é frágil diante da força eterna da santidade da Terra de Israel. O verdadeiro fortalecimento da ideia do judaísmo no exílio virá, na verdade, apenas da profundidade do seu enraizamento na Terra de Israel; e da esperança da Terra de Israel é que ele receberá sempre todas as suas características essenciais.
A expectativa da salvação [tzipiyat yeshuá] é a força que mantém de pé o judaísmo do exílio; e o judaísmo da Terra de Israel é a própria salvação.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "A Terra de Israel" (Eretz Yisrael, na seção Orot me-Ofel, "Luzes [vindas] da Escuridão"), §1. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira — a abertura do livro Orot. As citações, escolhidas pelo tema, são de Devarim 11:12 ("uma terra de que o Senhor cuida") e Bereshit 49:18 ("pela tua salvação espero"); a expressão tzipiyat yeshuá ("expectativa da salvação") é do próprio texto. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.