Orot · As Luzes do Rav Kook

Amor a Israel (Ahavat Israel)

De Orot Yisrael. Para o Rav Kook, o amor ao próprio povo não é estreiteza: é a porta para o amor de toda a humanidade. E até o ódio, ensina ele, deve ser transmutado em luz. Os dez capítulos, traduzidos do hebraico.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Orot Yisrael, Ahavat Israel (1–10) Tradução inédita · PT-BR

Poucos temas são tão centrais — e tão mal-entendidos — quanto o amor ao próprio povo. Há quem o confunda com fechamento e desprezo aos outros. O Rav Kook faz o contrário: mostra que o amor verdadeiro a Israel exige o amor a toda a humanidade, e que até as nossas divisões e ódios, quando elevados, podem tornar-se construção. Traduzo aqui os dez capítulos da seção Ahavat Israel, a partir do hebraico (de domínio público).

Capítulo 1 — Não é só sentimento

O amor a Israel — e a obra de defesa (advocacia) em favor da coletividade e de cada indivíduo — não é apenas um trabalho do sentimento. É um grande ramo da Torá, uma sabedoria profunda e ampla, de muitos ramos, todos brotando e sugando da seiva e do orvalho da luz da Torá de bondade.

Capítulo 2 — A luz oculta em cada alma

O amor a Israel é fruto da fé na luz divina de Knesset Israel — uma qualidade essencial (segulá) que não se afasta dela em todas as mudanças dos tempos. Esse amor supremo precisa despertar, sobretudo, no tempo da decadência da nação: quando se veem o desprezo do sagrado e o aviltamento da fé com toda a força, é então que cabe discernir que, apesar de tudo, a força de Israel diante do seu D'us permanece grande; e contemplar a luz interior que penetra o espírito da coletividade — e que tem morada também em cada alma de Israel, revelada ou oculta, mesmo na alma que muito se desviou.

Quem defende com verdade essa luz — o tzaddik que ama a essência da nação com toda a força da sua vida — é ele próprio elevado acima da baixeza da vida grosseira; e a sua ação retorna sobre toda a nação e os seus indivíduos, despertando neles a graça e abrindo-lhes um caminho para a teshuvá por amor.

Capítulo 3 — Criticar sem deixar de amar

O grande amor com que amamos a nossa nação não cegará os nossos olhos para criticar todos os seus defeitos; mas, mesmo depois da crítica mais livre, encontramos a sua essência limpa de toda mácula.

כֻּלָּךְ יָפָה רַעְיָתִי וּמוּם אֵין בָּךְ "És toda formosa, minha amada, e não há mácula em ti." Shir HaShirim 4:7
Capítulo 4 — As contradições são provas

Tudo o que aparece na Torá escrita e oral capaz de enfraquecer um pouco o amor a Israel — mesmo em relação aos mais perversos — são provas e clarificações: degraus para que a pessoa suba a um nível elevado do amor a D'us, até achar um caminho entre todas as contradições, e o amor a Israel e o amor às criaturas permaneça vivo no seu coração, sem nenhuma diminuição.

Capítulo 5 — O amor que se abre a toda a humanidade
אַהֲבַת יִשְׂרָאֵל מְחַיֶּבֶת אַהֲבַת כָּל הָאָדָם "O amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano." Orot · Ahavat Israel, 5

O amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano. E quando ele imprime ódio a alguma parte da humanidade, é sinal de que a alma ainda não se purificou da sua impureza — e por isso ainda não pode unir-se ao deleite do amor supremo.

Capítulo 6 — Transmutar até o ódio em construção

Até a medida do ódio gratuito (sinat chinam) precisa ser elevada — para que não impeça a teshuvá nem a redenção plena de Israel. É preciso desenvolver grandes luzes para compreender que mesmo das fragmentações das opiniões resulta um bem geral: o lado bom se une e o lado mau se dispersa. E mais: até no lado bom, pelas divisões, cada bem particular ganha um tom próprio — sem que um tom, ao se misturar a outro, lhe apague a forma —, e assim Knesset Israel se enriquece com a multiplicidade de luzes. E essa própria multiplicidade gerará a paz maior e mais interior. Ainda assim, é preciso esforçar-se muito para que a paz seja visível também por fora, e a sucá da paz se estenda sobre todo Israel.

Quando os grandes tzaddikim percebem a grandeza das luzes que se geram da disputa entre justos — disputas pelo amor do Céu, que constroem mundos, cada um aperfeiçoando o seu sistema de moral, retidão e santidade —, então se cumpre: o teu povo, todos eles são justos. Cada um de Israel traz em si uma centelha de luz sagrada, herança dos pais. Disso resulta que toda disputa entre um e outro de Israel, entre um grupo e outro, também constrói mundos. E, como tudo é aperfeiçoamento e construção, não há por que falar palavras amargas — mas fazer conhecer a grandeza que ambos os lados realizam. Então, conforme cresce o conhecimento, cresce o amor na medida em que era grande o ódio, e cresce a união na medida em que era grande a divisão.

וְעַמֵּךְ כֻּלָּם צַדִּיקִים "E o teu povo, todos eles são justos." Yeshayahu 60:21
Capítulo 7 — Amar o povo é temor do Céu

O amor delicado pelos bens espirituais da nação diz, no fundo, exatamente o mesmo que dizem o temor do Céu simples e a fé íntegra; só a falta de compreensão leva quem usa essas linguagens diferentes a pensar que se opõem. Às vezes, a expressão da estima pela nação e do amor à sua honra diz mais "temor do Céu e fé" do que a própria expressão direta de temor e fé.

Capítulo 8 — Um amor que precisa ser cultivado

O amor a Israel precisa ser nutrido. Não se parece com o amor natural que existe em cada nação, presente nos seus indivíduos. Toda nação tem por fundamento apenas o natural simples — a necessidade da vida e da agregação, o preenchimento das vontades naturais que se realizam pela união —, e essa vontade não precisa ser despertada por ensino ou educação. Mas a ligação de Knesset Israel se constrói sobretudo sobre anseios espirituais comuns, que em si mesmos requerem muito reforço espiritual no coração de cada um — e mais ainda na vida de toda a coletividade.

Capítulo 9 — Os Patriarcas, Moshé e a alma de Israel

Os Patriarcas influenciam o lado natural de Knesset Israel; Moshé Rabenu, o lado do estudo. Ambos se mesclam e se influenciam mutuamente. No porvir, Moshé se unirá inteiramente aos Patriarcas e se revelará no Mashiach numa forma que tudo abrange; o lado natural de Knesset Israel se elevará ao alto — "o pensamento de Israel precede tudo" — e se verá que ele é a raiz de toda a Torá. E quanto mais cresce esse lado natural, mais cresce o deleite da vida, e a santidade se fará farta de prazer sem fim.

Quem traz em si o aroma dessa pureza não vê culpa em nenhum de Israel; o seu amor por cada um é grande, sem fim. Vê a grande luz na sua alma, o brilho da teshuvá que sempre paira sobre eles, e a luz da Shechiná que deles não se afasta — "Eu, o Eterno, que habito com eles em meio à sua impureza". E, de um jeito ou de outro:

בָּנִים אַתֶּם לַיהוָה אֱלֹהֵיכֶם... אַשְׁרֶיךָ יִשְׂרָאֵל "Filhos sois do Eterno, vosso D'us... Feliz és tu, Israel." Devarim 14:1; Devarim 33:29
Capítulo 10 — Do amor a D'us ao amor da Terra

Do amor a D'us, gravado em toda alma reta — assim que ela se desperta da confusão embriagante dos sentidos —, brota no coração o amor a Israel em toda pessoa culta que conhece bem o curso da história e como esta nação atuou, para o bem, sobre o pensamento divino na humanidade. E se essa pessoa é filha de Israel, essa inclinação se une ao amor à própria origem e se torna uma chama ardente e luminosa.

Porque o pensamento divino de Israel não deixou o mundo afundar apenas na especulação metafísica sobre D'us e a unidade, mas alargou os passos da moral e da cultura sob o leito do pensamento divino, também o senso moral gravado no coração do homem que não perverteu o seu caminho o desperta para o amor a Israel. E quando a história ensina com clareza que tudo isso Israel realizou por meio da sua terra particular, esse amor há de estender-se também à Terra de Israel.

"O amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano."
Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, OrotOrot Yisrael, seção Ahavat Israel (Amor a Israel), capítulos 1 a 10. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Procurou-se traduzir a seção na íntegra e preservar a sua densidade; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.