Esta é uma das seções mais amplas e poderosas das "Luzes do Renascimento" — quase um ensaio inteiro. O Rav Kook parte de um diagnóstico (o erro de Israel encolher-se, esquecer a sua grandeza) e desenvolve, em ondas, uma visão da vida nacional como portadora de um conteúdo universal e eterno, cujo coração são as mitsvot ligadas à Terra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
A via é longa porque a vida é grande
O nosso caminho na vida nacional, e a sua orientação face à relação humana universal, é muito longo. Longa é a nossa vida — e por isso longos são os nossos caminhos. Grandes somos nós, e grandes são os nossos desvios; e por causa disso grandes são as nossas aflições, e grandes também as nossas consolações.
É um erro fundamental o retraimento de toda a nossa vantagem, o cessar do reconhecimento de "Tu nos escolheste". Não somos apenas diferentes de todos os povos — diferentes e distintos numa vida histórica singular, sem paralelo em nenhum povo ou língua —, mas também muito elevados e grandes acima de todo povo. Se conhecemos a nossa grandeza, então conhecemos a nós mesmos; e se esquecemos a nossa grandeza, esquecemos a nós mesmos — e um povo que se esquece de si mesmo é, por certo, pequeno e baixo. Só no esquecimento de nós mesmos é que permanecemos pequenos; e o esquecimento de nós mesmos é o esquecimento da nossa grandeza.
É preciso ler esta abertura com cuidado para não a confundir com vaidade nacional. A "grandeza" de que o Rav Kook fala não é superioridade para dominar — é uma vocação e uma responsabilidade. O ponto é psicológico e espiritual: um povo que renega a sua identidade mais profunda definha. Reconhecer "Tu nos escolheste" é, antes de tudo, recusar-se a ser pequeno por esquecimento de si — e logo se verá que essa grandeza existe para a humanidade inteira, não contra ela.
Uma só nação, como a unidade do mundo
A nossa alma abarca o mundo e a sua plenitude, e apresenta-o sobre a base da sua unidade suprema; e por isso ela é, em si, íntegra e abrangente, e não há nela aquelas contradições e composições díspares que costumam haver nas almas de um [outro] povo e língua. Somos uma só nação — una, como a unidade do mundo. Esta é a profundeza da nossa natureza espiritual, que há em nós em potência; e o nosso percurso histórico — que avança por caminhos vários, por vias de luz que passam entre montes de treva e sombra de morte — vai-nos conduzindo a trazer a profundeza da nossa natureza da potência ao ato.
Todas as coisas pequenas, de que cada povo e língua necessita no essencial do seu assunto, estão em nós cunhadas na grande moeda da nossa totalidade. Não nos é possível cortar um único ramo da grande e exuberante árvore da nossa vida e dar-lhe um curso e uma seiva por si só: tudo o que há em nós se levantará e se oporá a isso com toda a força do seu vigor interior e do seu sentimento de identidade.
Eis o cerne do pensamento, e a sua atualidade. Há quem queira tomar um ramo de Israel — a nacionalidade, a língua, a terra — e cultivá-lo separado da raiz espiritual, como se fosse possível um judaísmo só "cultural" ou só "político". O Rav Kook responde com a imagem da árvore: os ramos não vivem cortados do tronco. A unidade de Israel — em que o nacional e o sagrado são um — não é um dogma imposto de fora; é a própria seiva, que "se levanta e se opõe" a toda tentativa de separação.
Mais fortes que os tempos
A via longa aspira a uma restauração completa à vida — nossa e de tudo o que é nosso. "Um grão não cairá por terra"; uma só linha dos traços do rosto da nossa nação não daremos a apagar. Somos mais fortes do que o espírito dos tempos, mais firmes do que todas as potências do mundo. Aspiramos a erguer-nos para a vida na mesma grandeza dos nossos pais — e a ser ainda maiores e mais elevados do que eles.
Muita moral derramámos no mundo, e estamos prontos a derramar com ela também deleite e vida viçosa. A humanidade inteira dobramos em nós, no nosso espírito, abertamente; e toda a realidade, no nosso íntimo. O nosso espírito não teme os tempos: ele cria os tempos e imprime neles a sua forma. A nossa força criadora estampa a espiritualidade mais alta numa matéria real e prática — e quanto mais cresce o desenvolvimento, mais cresce o talento da criação e aquele lado artístico admirável que dá vida ao mundo, ao encarnar tudo o que há de elevado no pensamento e na aspiração em atos concretos.
Vivos e ruidosos são, para o seu momento, a vida social e os seus afãs; mas quão efêmera, quão pequena e pobre é a sua vida, e quão grande o vazio que resta no coração depois de toda a agitação das guerras e dos tumultos — quando não há neles um fim eterno, mas apenas a vida passageira de grupos de indivíduos. Sem um fim essencial, eterno e ideal — capaz de elevar tudo às formas mais altas que a razão e o sentimento supremo podem dar —, todos os movimentos nada valem e não conseguem subsistir por longos dias.
Mas nós voltamo-nos para o alvo divino: o bem universal que abarca tudo e se revela na plenitude de cada indivíduo e de cada coletividade. E só aquela coletividade humana que consiga exprimir isto — de boca cheia, com todos os recantos da sua alma — é a que mais se aproxima da perfeição, a que mais garante a continuidade da sua existência, e a que é capaz de dar aos seus assuntos uma forma importante, que permaneça importante para sempre.
As mitsvot da Terra: a forma viva de uma sociedade
Na hora da nossa descida [no exílio], esmaecidas estão as centelhas vivas de luz — sobretudo nas memórias que se encarnam na vida tradicional da nação, em todas as mitsvot e halachot que se ramificam do passado e se voltam para o futuro. Mas há nelas uma força de vida poderosa: com um movimento decidido, com um sopro de despertar interior para o nosso pleno desejo de vida nacional, dispersar-se-á de sobre elas a camada de cinzas do entorpecimento do coração — e ver-se-ão as faíscas que estão prestes a tornar-se uma chama divina que aquece o mundo e ilumina todos os recantos.
A forma essencial de todas as ordens da vida social, segundo a cunhagem divina que se ajusta à vida — que a alarga, a purifica e a eleva à liberdade —, está guardada na disposição das mitsvot ligadas à Terra, no Templo e no reino completo de Israel, e na segulá da profecia, própria da nação na plenitude do seu feitio, que sempre aguarda o seu retorno numa forma luminosa.
O presente iluminado pelo futuro
Grande é o nosso passado, e maior ainda é o nosso futuro — que se esclarece bem no nosso desejo pela retidão dos ideais ocultos nas nossas almas. O futuro não cessa de exigir a sua tarefa do presente; e o presente, sabendo que o futuro precisa dele, não fica por isso anulado diante do futuro — pelo contrário, enche-se assim de todo o seu feitio e de toda a sua substância, e a inclusão no anseio do futuro acrescenta-lhe deleite e vigor vivo.
Por isso são cheias de vida, para nós, as memórias guardadas na lembrança que praticamos — pela tradição e pela ordenação dos Sábios, pela transmissão dos pais ou por um resquício do dever essencial da lei da Torá, conforme se ramificam os preceitos práticos da sabedoria da Halachá em todas as mitsvot ligadas à Terra. Encolhidas nos parecem agora estas coisas, de forma pobre por fora — mas por dentro estão cheias de vida e de grande conteúdo.
Engenhamos modos de guardar a shemitá [o ano sabático] pela venda das terras; cumprimos a entrega dos dízimos ao kohen e ao levi de um modo sem grande perda para quem dá nem grande lucro para quem recebe; abençoamos e separamos [as terumot], e redimimos o segundo dízimo. São "grãos" minúsculos — mas neles está guardada uma grande força de germinação: tudo aquilo por que anseiam, tudo de que brotaram no passado e tudo o que estão destinados a fazer crescer no futuro está neles contido, em forma típica. E assim agem em silêncio sobre a alma que [os] preserva, atiçando sem cessar um fogo sagrado de amor à Terra, e educando o povo, nos seus dias de baixeza, para o espírito da sua grandeza.
Há aqui uma teologia da fidelidade nos pequenos gestos. Mesmo as observâncias que hoje parecem técnicas e "encolhidas" — a venda simbólica da terra na shemitá, a separação dos dízimos — não são relíquias mortas: são sementes. Cada uma guarda, "em forma típica", a memória de uma vida nacional plena e a promessa do seu retorno. Quem as cumpre no exílio mantém aceso, em silêncio, o fogo de uma grandeza adormecida — e prepara-lhe o despertar.
O sono do exílio e a beleza do retorno
Dormimos um sono nacional ao longo de um exílio longo e duríssimo. As nossas forças nacionais ficaram então engolidas no nosso interior; por fora, tudo se fez enrugado e envelhecido — mas por dentro o orvalho da vida seguia fluindo. E assim como as mitsvot práticas, em toda a sua plenitude, foram connosco para o exílio e nele nos guardaram a seiva viva e o selo do nosso espírito segundo a nossa identidade interior — trazendo-nos a estes dias do início da época da iluminação, do desejo de ressurgir como nação na nossa terra —, do mesmo modo as mitsvot ligadas à Terra hão de conduzir-nos à exaltação da vida segundo a forma plena para que foram fixadas.
E quanto mais contemplamos a essência dessas mitsvot, e vemos quão distantes ainda estão de nós — quanto a nossa vida precisa de condições mais sãs e fortes para que elas se cumpram —, mais cresce em nós o desejo de cumprir, com amor e apreço, aquela parte que já podemos cumprir como lembrança — uma lembrança sagrada de uma vida plena que nos virá quando chegar a salvação completa do nosso povo na nossa terra.
Pois há uma majestade e um esplendor próprios nas mitsvot da Terra quando são cumpridas agora, em Eretz Israel, por nós — por aquela força pioneira [chalutz] que vai construindo a terra dos pais e preparando um futuro e uma esperança mais firmes e mais claros para a geração que há de vir. Quando cumprimos hoje as mitsvot da terumá e do dízimo, mesmo sem termos ainda todos os fundamentos reais sobre os quais elas se erguem — "sem o kohen no seu serviço, nem o levi no seu estrado" —, eis que a visão se ergue diante de nós, e enchemo-nos de um espírito de cântico elevado, em voo de águias, diante da luz dos dias venturosos que aguardam a nossa nação sobre a sua terra abençoada.
O Rav Kook não esconde a distância entre o gesto possível hoje e a vida plena de outrora — ao contrário, ela aumenta o amor pelo pouco que se pode fazer agora. Cumprir a terumá "como lembrança", sem Templo nem kohanim, não é uma frustração: é um ato de fidelidade e de esperança, que mantém viva a "visão" e enriquece a alma da nação com o fogo que um dia será chama plena. É a dignidade do gesto incompleto feito com amor.
A saudade divina, e o Templo como base da humanidade
Pelo antigo e pelo completo suspiramos — e a saudade é uma saudade divina, um desejo oculto, cheio de vida poderosa e original, vindo da fonte da vida eterna: realeza e Templo, sacerdócio e profecia, que imprimem o seu selo sobre todos os bens coletivos da vida — bens em que não somos inferiores a nenhum povo. Uma grande medida de força material, de moral humana, de honra nacional, de riqueza popular e de amplidão da vida é o que pede uma constituição de vida como a nossa, em que as pérolas espirituais — singulares e mais admiráveis do que as de todo homem sobre a face da terra, presentes na nossa alma nacional — possam estar engastadas, para aperfeiçoar a sua beleza e acrescentar-lhe vigor por dentro, e esplendor por fora.
O Templo é a sede do culto divino, antigo e que será novo para sempre — aquele que pôs fim à idolatria e às suas abominações e deu à humanidade uma base pura e elevada para a sua vida espiritual; dele saíram a luz e a liberdade que se vão desenvolvendo na história humana — e que se afrouxam no seu curso conforme se distanciam da sua fonte, mas que estão destinadas a fortalecer-se à medida que a ela se voltarem.
A humanidade sã, quando reconhece a majestade da Divindade, há de permanecer diante d'Ela:
Diante da altura, da luz e da força de D'us, [a humanidade] esquecerá todas as suas espertezas, e saberá que lhe é precioso o seu sentimento natural — que torna mais sábio do que toda sabedoria — quando edificado sobre o fundamento firme da sua natureza psíquica e coroado com a coroa do reconhecimento, que se eleva eternamente e eternamente permanece oculto, atraindo a si toda alma. Num único lugar em todo o mundo convém à humanidade ver-se a si mesma na inocência da sua infância, no vigor da sua juventude e no brilho do deleite da alma universal — selada com o selo deste antigo povo das maravilhas: Israel que retorna.
Não há fim para o deleite do cântico que se há de erguer em todo o mundo que desperta, diante deste espetáculo sublime — a renovação da antiguidade original, da fonte do cântico divino que há em Israel no auge da sua força. Só um insensato e sem coração — alguém cuja voz não conseguirá fazer-se ouvir no tempo do despertar da luz — poderia querer pôr o verniz de uma cultura nova, defeituosa por falta e por excesso, com inimizade e rivalidade, sobre as ondas deste mar de vida — são e antigo — que se ergue na sua grandeza até aos cumes dos céus. Todos se alegrarão, justamente, no espetáculo natural e iluminado tal como ele é, com toda a inocência da sua antiguidade — que então faz brilhar toda a variedade das cores das suas luzes e as espalha sobre Israel e sobre uma grande multidão de homens.
O fecho desfaz qualquer suspeita de estreiteza. A grandeza de Israel, com a qual a seção abriu, revela-se aqui inteiramente voltada para a humanidade: o Templo é a base "que deu à humanidade uma vida espiritual pura", e a fonte de uma luz que "se desenvolve na história humana". A crítica final não é a outros povos, mas à pretensão de "envernizar" essa fonte viva com uma cultura "defeituosa por falta e por excesso". A visão é universal: no fim, "todos se alegrarão" — Israel "e uma grande multidão de homens".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §5. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira (uma das mais longas da obra). As citações são de Hoshéa 14:3 ("ofereceremos as palavras dos nossos lábios") e Tehillim 131:2 ("como uma criança desmamada junto à sua mãe"); ecoam ainda Amós 9:9 ("um grão não cairá por terra"), Tehillim 144:15, Malachi 3:4 ("como nos dias de outrora") e a expressão litúrgica "Tu nos escolheste". As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.