O que vale o sentimento nacional? O Rav Kook responde com uma imagem agrícola: a inclinação nacional de Israel é um campo fértil, ainda que ainda não cultivado em plenitude. E o que parece, à primeira vista, uma afirmação só sobre Israel, abre-se ao fim numa visão universal. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
Um campo fértil, ainda à espera
A inclinação nacional [ha-netiá ha-leumit] em Israel é "um campo que o Senhor abençoou". Pois, ainda que nela ainda não haja grandes [homens] completos — por causa da grande desolação do exílio —, ela é digna, por meio de um trabalho espiritual e prático, de que cresçam nela todos os melhores grandes do mundo; de fazer brotar, da sua abundância, almas grandes e elevadas que iluminam o mundo inteiro com a sua glória.
A escolha da imagem é tudo. Um campo abençoado que ainda não deu os seus maiores frutos não é um campo estéril — é um campo à espera de lavra. O Rav Kook reconhece, com franqueza, que o exílio deixou "uma grande desolação": faltam, por ora, os gigantes do espírito. Mas a potência está intacta no solo. O sentimento nacional não é um fim em si — é a terra fértil de onde, com trabalho, hão de brotar "as maiores almas que iluminam o mundo".
O contraste — e a sua superação
E há, em contraste, uma inclinação nacional [de outro tipo] que é ruína e deserto — que de modo algum é apta a fazer crescer plantas; e as plantas más que dela saem — como "a vide de Sodoma", o veneno das serpentes e os cachos amargos — a sua ausência é melhor do que a sua existência. Nelas tudo é pura carência e destruição; e [tal inclinação], ao fim, há de cessar.
O contraste não é entre Israel e os outros povos como tais. É entre um espírito nacional voltado para o bem e um espírito nacional construído sobre a crueldade — e a "vide de Sodoma" é, na linguagem da Torá, o arquétipo desse segundo tipo: a sociedade organizada em torno da violência e da dureza de coração. O que o Rav Kook diz que "é melhor não existir" não é um povo, mas uma tendência: um nacionalismo que só produz "frutos amargos". E o passo seguinte mostra que mesmo essa tendência tem cura.
Pois somente a influência da santidade, misturada na inclinação nacional israelita, é que rega essas inclinações humanas em geral e as devolve ao bem — até que também elas cheguem a uma elevação, tornando-se dignas, pela proximidade da sua ligação e da sua relação com Israel, de um florescimento espiritual.
Eis a viragem que redime toda a seção. O "deserto" — a inclinação que parecia incapaz de dar fruto — não é abandonado à destruição: é regado pela santidade que transborda de Israel, até florescer "como a rosa". A vocação de Israel, no Rav Kook, nunca é estreita: a sua santidade existe para elevar "as inclinações humanas em geral". E tudo isto, conclui ele, virá pela redenção completa de Israel — que há de vir primeiro, e arrastar consigo a do mundo inteiro.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §12. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem do "campo que o Senhor abençoou" é de Bereshit 27:27; a "vide de Sodoma" evoca Devarim 32:32, e a cessação da inclinação destrutiva ecoa Yeshayahu 60:12; o florescimento do deserto é de Yeshayahu 35:1. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.