Por que o estudo da lei (halachá) e o pensamento livre e amplo (agadá) parecem, tantas vezes, pertencer a mundos diferentes? O Rav Kook explica a separação — e anuncia o reencontro. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
Dois modos de pensar
O percurso do pensamento amplo e ideal vai-se alargando por sua própria natureza, abarcando muitas visões e grandes horizontes; e a feição das suas imagens é diferente da feição das imagens dos pormenores minuciosos da Torá prática e das análises da halachá. E o estado de alma exigido pela profundidade da halachá — segundo o seu estilo fixo, habitual entre nós desde que o Talmud foi selado — não se ajusta, por natureza, ao estado de alma de quem caminha pela amplidão, nas alturas dos ideais divinos e dos seus segredos, dos seus anseios e da expansão dos seus deleites. Por isso se separaram a agadá e a halachá, o revelado e o oculto, numa distinção de raiz.
O Rav Kook descreve dois "estados de alma" distintos, não duas matérias rivais. A halachá pede uma mente de precisão — atenta ao detalhe, à distinção exata, à análise. A agadá (e a mística) pede uma mente de amplitude — que paira sobre horizontes, intui o todo, voa. São disposições interiores diferentes, e é por isso — não por hostilidade — que a tradição as separou. Mas separar não é divorciar.
O anseio de reuni-las
E, no entanto, foi posto nas profundezas da alma um anseio interior de unir a halachá e a agadá. Alguns fizeram essa tentativa — afiando-se em vários pilpulim [dialéticas] —, e neles vemos um espírito santo de uma tentativa de criação, regada do orvalho de vida do desejo da unidade e da paz completa entre "os mundos revelados" e "os mundos ocultos". Mas isso não saiu numa forma de grandeza e de fruto maduro, e sim numa forma pequena e ainda verde. E o alvo desta inclinação da alma é a unidade espiritual absoluta destes mundos que parecem separados.
À medida que a luz se aproxima
E quanto mais a luz do Mashiach se aproxima, e as raízes das almas se adoçam, mais a iluminação dos segredos da Torá se vai revelando e sobressaindo; e, conforme essa revelação, as matérias reveladas vão tornando-se mais sutis [refinadas] e aproximam-se do lado do oculto — "uma à outra se achegam, e nem o ar passa entre elas".
As novas explicações que se renovam, de geração em geração, no caminho da Torá revelada, trazem dentro de si um ponto interior de aproximação à amplidão mística — aos "canais do rio" da Binah suprema [a compreensão superior]; e os sábios da Torá, preciosos no saber, trabalham nisso o campo que o Senhor abençoou.
A redenção dupla: corpos e almas
No fim dos dias, a luz do Senhor se revelará, e o estilo das halachot firmes se aproximará das agadot [do "campo santo das macieiras", imagem do Zohar], no tempo do Fim revelado — que é o retorno de Israel à Terra de Israel e a sua revivificação por uma construção concreta:
A sua marca é a junção do selado e oculto — "o que o coração não revela à boca", o conteúdo do Fim escondido — com o revelado do trabalho físico, palpável, de toda a multidão que labuta. Nesta redenção dupla, a força do braço do Senhor começará a redimir os corpos de toda a sua dura servidão, e as almas das suas dores e trevas, de todas as más qualidades, de todos os ódios e estreitamentos — "e os farei uma só nação na terra, nos montes de Israel".
Note-se a beleza do paralelo final: a reunião da halachá com a agadá corresponde à reunião do corpo com a alma no renascimento (veja-se Carne Santa). A "redenção dupla" liberta os corpos da servidão e as almas dos ódios e estreitamentos. O Rav Kook vê um só movimento em toda parte: o que estava partido — lei e sonho, corpo e alma, terra e céu — voltando a ser um. "Verdadeiramente, tu és um D'us que te ocultas, ó D'us de Israel, que salva" (Yeshayahu 45:15).
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §55. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Iyov 41:8, Yechezkel 36:8 e 37:22, e Yeshayahu 45:15; "o campo santo das macieiras" (chakal tapuchin) e os "canais do rio da Binah" são imagens do Zohar e da cabala. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.