Primeira halachá do Perek Bet de Massechet Pessachim, que abre o segundo capítulo, Kol Shaá (toda hora), assim chamado pelas primeiras palavras da sua Mishná. Depois do capítulo da procura do chametz e das horas em que se come, se suspende e se queima, o capítulo passa ao proveito do chametz e à sua eliminação; ao chametz do gentio e ao do israelita sobre o qual passou o Pessach, ao chametz dado em penhor e ao que ficou sob um desabamento; a quem come teruma de chametz no Pessach; às espécies de grão com que se cumpre a obrigação da matzá e às verduras com que se cumpre a do maror; e, por fim, ao farelo molhado, ao trigo mastigado sobre a ferida, à farinha no charosset e na mostarda e à água do padeiro, por causa do levedar. A Mishná ensina que, em toda hora em que é permitido comer o chametz, dá-se dele de comer aos animais e às aves, vende-se ao gentio e é permitido o proveito; passado o seu tempo, é proibido o proveito, e não se acende com ele forno nem fogareiro; Rabi Yudá diz que não há eliminação senão a queima, e os sábios dizem que se esfarela e se espalha ao vento ou se lança ao mar. A guemará pergunta quem é o tana de “toda hora”; traz a divergência de Rabi Elazar e de Rabi Yochanan, em nome de quem fala Rabi Abahu, sobre se “não comerás” inclui o proveito, com o chelev, o sangue, o guid hanashé, o grão novo e os répteis, o emplastro do boi apedrejado e a diferença entre “não comerás” e “não será comido”; o forno aceso com chametz; os raciocínios de Rabi Yudá sobre a queima do chametz, sobre o que sai morto e sobre a sukká, que os sábios refutam, e o seu outro raciocínio, diante do qual se calou; e o tempo da eliminação. O Bavli discute esta mesma Mishná em Pessachim 21a, no início do seu capítulo Kol Shaá. O capítulo tem sete halachot no Yerushalmi, e a Mishná avulsa, oito mishnayot.
Mishná: Toda hora em que é permitido comer o chametz, ele o dá de comer ao animal doméstico, ao animal selvagem e às aves, e o vende ao gentio, e é permitido o proveito dele. Passou o seu tempo (o meio-dia do catorze), é proibido o proveito dele; não acenderá com ele forno nem fogareiro. Rabi Yudá diz: não há eliminação do chametz senão a queima. E os sábios dizem: esfarela e espalha ao vento, ou lança ao mar.
“Toda hora” etc.
Disse Rabi Imi: quem é o tana de “toda hora em que é permitido comer, é permitido dar de comer; se é proibido ao que come, é proibido dar de comer”? Rabi Meir.
Mas, segundo Rabi Yudá, na quinta hora, ainda que seja proibido comer, é permitido dar de comer.
Objetou Rabi Ba: e não ensinamos: “o siur (a massa que começou a levedar) será queimado, e quem o come está isento”? E disse Rav Huna em nome de Rabi: é permitido dá-lo de comer aos cães (e comê-lo é proibido).
Disse Rabi Yossi: acaso viemos ensinar “todo chametz”? Não ensinamos horas? Quem é o tana das horas? É Rabi Meir.
Disse Rabi Bun bar Chiya diante de Rabi Zeira: isto (“é proibido o proveito dele”) diz que é permitido dá-lo de comer a um animal de hefker (sem dono).
Objetou Rabi Yirmeya: e não ensinamos “esfarela”? Rabi Yirmeya entendia que eram pães inteiros.
Disse-lhe Rabi Yossi: não disse senão “esfarela”; desde que o esfarelou, o chametz foi anulado.
E qual ensino diz isto? “Não se comerá chametz hoje”: nem mesmo aos cães. Eis que este versículo vem proibi-lo em proveito.
De que tratamos? Se do seu próprio cão, isso é a proibição de proveito (já sabida). Mas assim tratamos: mesmo dá-lo ao cão de outros. Isto diz que é proibido dá-lo de comer a um animal de hefker.
Rabi Abahu disse em nome de Rabi Elazar: em todo lugar em que se diz “não comerás”, “não comereis”, “não serão comidos”, tu tomas a proibição de proveito como a proibição de comer, até que venha o versículo e te especifique o contrário, assim como te especificou no ever min hachai (o membro de animal vivo) e na nevelá (o animal morto sem abate).
E que nos especificou no ever min hachai? “E carne no campo, dilacerada, não comereis; ao cão a lançareis.”
E que nos especificou na nevelá? “Não comereis nenhuma nevelá; ao guer (o residente) que está nas tuas portas a darás, e ele a comerá, ou vende-a ao estrangeiro.”
Chizkiyá ensinou e diverge: e quem o proibiu ao cão (se o versículo só proíbe comer)?
E eis que está escrito: “todo chelev (a gordura proibida) de boi, de carneiro e de cabra não comereis”. Então tomas a proibição de proveito como a proibição de comer?
É diferente o chelev, pois está escrito: “e o chelev de nevelá e o chelev de treifá (o animal dilacerado) será usado para todo trabalho, mas comer não o comereis”.
E eis que está escrito: “somente o sangue não comereis”. Então tomas a proibição de proveito como a proibição de comer?
É diferente o sangue, pois está escrito: “sobre a terra o derramarás como a água”. Assim como a água é permitida em proveito, também o sangue será permitido em proveito.
E eis que está escrito: “por isso não comem os filhos de Israel o guid hanashé (o nervo ciático)”. Disse Rabi Abahu: expliquei-o no guid hanashé das nevelot.
E eis que está escrito: “e pão, e grão tostado, e grão fresco não comereis até este mesmo dia”. Disse Rabi Aba Mari, irmão de Rabi Yossi: é diferente o grão novo, pois o versículo fixou um tempo.
E eis que está escrito: “não os comereis, pois são abominação”. Disse Rabi: o versículo excluiu a proibição de proveito que há nele.
Rabi Abahu disse em nome de Rabi Yochanan: quem faz uma ispelanit (emplastro para ferida) de um boi apedrejado ou de chametz sobre o qual passou o Pessach não é açoitado, pois o lo taassê (a proibição) que há nele não é claro.
De kilei hakerem (a mistura de sementes na vinha), quem o faz é açoitado, pois disse Rabi Chanina: “pen tikdash” (para que não se santifique): pen tukad esh (para que não se acenda fogo).
De orlá (o fruto dos três primeiros anos da árvore), é preciso investigar: um asê (um preceito positivo) para afastá-lo está escrito; um lo taassê para comê-lo está escrito, “não comereis” está escrito; um lo taassê para afastá-lo não está escrito.
Uma baraita diverge de Rabi Yochanan: pelo sentido do que foi dito, “o boi será certamente apedrejado”, acaso não sabemos que a sua carne é proibida para comer? Que ensina o versículo ao dizer “não se comerá a sua carne”? Vem fazer-te saber que, assim como é proibido para comer, assim é proibido em proveito.
Que faz dela Rabi Yochanan? Explica-a no caso em que os donos se adiantaram e o abateram antes que se concluísse o seu julgamento.
Rabi Zeira perguntou diante de Rabi Abahu: aqui dizes assim (que a proibição de comer inclui a de proveito), e aqui dizes assim (que não inclui)?
Disse-lhe: esta é em nome de Rabi Lazar, e esta, em nome de Rabi Yochanan.
Os rabanan de Keissarin (Cesareia): Rabi Abahu disse em nome de Rabi Yochanan: em todo lugar em que se diz “não comerás”, “não comereis”, não tomas a proibição de proveito como a proibição de comer; onde se diz “não será comida”, “não será comido”, tomas a proibição de proveito como a proibição de comer.
O binyan av (o modelo de que se aprende) de todos eles: “e toda chatat (oferta de purificação) de cujo sangue for trazido à Tenda do Encontro para expiar no santuário não será comida; no fogo será queimada”.
Chizkiyá ensinou, apoiando Rabi Yochanan: pelo sentido do que foi dito, “chelev de boi, de carneiro e de cabra não comereis”, para que coisa foi dito “e o chelev de nevelá e o chelev de treifá será usado para todo trabalho”? É permitido mesmo para o trabalho do Alto (o uso do Santuário).
Pelo sentido do que foi dito, “somente o sangue não comereis”, para que coisa foi dito “sobre a terra o derramarás como a água”? Assim como a água torna apto (a receber impureza), também o sangue tornará apto.
Pelo sentido do que foi dito, “não comereis nenhuma nevelá”, para que coisa foi dito “ao guer que está nas tuas portas a darás, e ele a comerá”? Vem fazer-te saber: o guer toshav (o residente que aceitou os preceitos dos filhos de Noach) come nevelot.
Pelo sentido do que foi dito, “e carne no campo, dilacerada, não comereis”, que ensina o versículo ao dizer “ao cão a lançareis”? Esta carne lanças ao cão, mas não lanças ao cão chulin (animais não consagrados) abatidos na azará (o pátio do Templo).
Uma baraita apoia a este (Rabi Elazar), e a mesma baraita apoia a este outro (Rabi Yochanan).
A baraita apoia Rabi Elazar: “Não se comerá chametz”: é para fazer o que dá de comer a outro como o que come. E tu dizes que é para fazer o que dá de comer como o que come, ou não é senão para proibi-lo em proveito? E quando diz “não comerás com ele chametz”, eis que daí aprendemos que é proibido em proveito. Que ensina o versículo ao dizer “não se comerá chametz”? É para fazer o que dá de comer como o que come. São palavras de Rabi Yoshiá.
Rabi Yitzchak diz: não é necessário o versículo para isso. Pois se nos sheratzim (os répteis), cuja proibição é leve, a Torá fez o que dá de comer como o que come, o chametz, cuja proibição é grave, não é de razão que façamos nele o que dá de comer como o que come? E que ensina o versículo ao dizer “não se comerá chametz”? Não veio o versículo senão para proibi-lo em proveito.
Por isso está escrito “não se comerá”; eis que do “não comerás” não se aprende nada sobre o proveito. E esta palavra de Rabi Yitzchak apoia Rabi Yochanan.
“Não acenderá com ele forno nem fogareiro.”
Se transgrediu e acendeu, venha o caso como esta (a Mishná de Avodá Zará): se o forno é novo, será derrubado; se é velho, será esfriado (antes que se asse nele).
Ensinou-se: Rabi Yudá diz: não há eliminação do chametz senão pela queima. É de razão: se o pigul (a oferta invalidada pela intenção) e o notar (a sobra da oferta passado o seu tempo), que não estão sob o bal yeraê (“não será visto”) e o bal yimatsê (“não será achado”), não se eliminam senão pela queima, o chametz, que está sob o bal yeraê e o bal yimatsê, não é de razão que não se elimine senão pela queima?
Disseram a Rabi Yudá: todo raciocínio que tu raciocinas, cujo começo é para agravar e cujo fim é para aliviar, não é raciocínio. Eis que, se não se lhe deparou fogo, ficará sentado e não o eliminará? Disse a Torá: “fareis cessar o fermento das vossas casas” (de qualquer modo que o possais fazer cessar).
Semelhante a isto, disse Rabi Yudá: “Mulher, quando conceber e der à luz um varão”: que ensina o versículo ao dizer “varão”? Porque foi dito: “e será impura sete dias, e no oitavo dia será circuncidado”, entendo que fala do que sai vivo, que torna impura a sua mãe com a impureza do parto. De onde se aprende que o que sai morto torna impura a sua mãe com a impureza do parto?
Disse Rabi Yudá: eis que eu raciocino: se o que sai vivo, que não torna impuros a sua mãe e os que vêm com ele (os gêmeos), e o que vem com a sua mãe à tenda, com impureza de sete dias, torna impura a sua mãe com a impureza do parto, o que sai morto, que torna impuros a sua mãe e os que vêm com ele, e o que vem com a sua mãe à tenda, com impureza de sete dias, não é de razão que torne impura a sua mãe com a impureza do parto?
Disseram a Rabi Yudá: todo raciocínio cujo começo tu raciocinas para agravar e cujo fim é para aliviar não é raciocínio. Eis que, se o vivo purifica a sua mãe (nos dias de pureza que seguem os de impureza), purificará também o morto a sua mãe? Se não obtive isto do raciocínio, por isso disse a Torá “varão”: para incluir o morto.
Semelhante a isto, disse Rabi Yudá: “Habitareis nas sukkot” (as cabanas): sukká de qualquer coisa. Pois Rabi Yudá dizia: o raciocínio dá que a sukká não venha senão das quatro espécies. Se o lulav (o feixe da palma), que não vigora nas noites como nos dias, não vem senão das quatro espécies, a sukká, que vigora nas noites como nos dias, não é de razão que não venha senão das quatro espécies?
Disseram a Rabi Yudá: todo raciocínio que tu raciocinas, cujo começo é para agravar e cujo fim é para aliviar, não é raciocínio. Eis que, se não achou nada das quatro espécies, ficará sentado sem sukká? E disse a Torá: “habitareis nas sukkot”: sukká de qualquer coisa.
E assim disse Ezra: “e que fizessem ouvir e passar a voz em todas as cidades e em Jerusalém, dizendo: saí ao monte” etc. (e trazei folhas de oliveira, folhas de árvore de óleo, folhas de murta, folhas de palmeira e folhas de árvore frondosa, para fazer sukkot).
Voltou Rabi Yudá e raciocinou-o com outro raciocínio: o chametz é proibido para comer, e o notar é proibido para comer; assim como este (o notar) é eliminado pela queima, também este (o chametz) é eliminado pela queima. Disseram-lhe: a nevelá provará o contrário, pois é proibida para comer e não é pela queima.
Disse-lhes: o chametz é proibido para comer e em proveito, e o notar é proibido para comer e em proveito; não prove a nevelá, que não é proibida em proveito. Disseram-lhe: e eis que o boi apedrejado provará o contrário, pois é proibido para comer e em proveito, e não é pela queima.
Disse-lhes: o chametz é proibido para comer e em proveito, e por ele se incorre em karet (a extirpação), e o notar é proibido para comer e em proveito, e por ele se incorre em karet; não prove o boi apedrejado, pelo qual não se incorre em karet. Disseram-lhe: e eis que o chelev do boi apedrejado provará o contrário, pois é proibido para comer e em proveito, e por ele se incorre em karet, e não é pela queima.
Disse-lhes: o chametz é proibido para comer e em proveito, e por ele se incorre em karet, e tem um tempo (fixo para a sua proibição), e o notar é proibido para comer e em proveito, e por ele se incorre em karet, e tem um tempo; não prove o chelev do boi apedrejado, que não tem tempo.
Disseram-lhe: e eis que o asham talui (a oferta de culpa suspensa, trazida na dúvida), segundo a tua opinião (que manda enterrá-lo), provará o contrário, pois é proibido para comer e em proveito, e por ele se incorre em karet, e tem um tempo, e não é pela queima. E calou-se Rabi Yudá.
Ensinou-se: enquanto não chegou o tempo da sua eliminação, tu o eliminas com qualquer coisa; desde que chegou o tempo da sua eliminação, tu o eliminas pela queima. E vem esta baraita como Rabi Yudá. Há tanaim que ensinam: enquanto não chegou o tempo da sua eliminação, tu o eliminas pela queima; desde que chegou o tempo da sua eliminação, tu o eliminas com qualquer coisa. E vem esta como os rabanan (os sábios).
Rabi diz: “fareis cessar o fermento das vossas casas”: com uma coisa que faz que não seja visto e não seja achado. E qual é esta? Esta é a eliminação pela queima.
Rabi Yirmeya perguntou: o peter chamor (o primogênito do jumento) que matou um homem, com que é a sua morte? Pela arifá (o quebrar da nuca) ou pelo apedrejamento?
Rabi Binyamin bar Levi perguntou: os pães da todá (a oferta de agradecimento) que se tornaram notar, como se eliminam? Digamos: se se tornaram notar enquanto não chegou o tempo da sua eliminação, tu os eliminas com qualquer coisa; desde que chegou o tempo da sua eliminação, tu os eliminas pela queima.
Esta é a primeira halachá do Perek Bet, Kol Shaá (toda hora), de Massechet Pessachim. A halachá ocupa dezesseis segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros quinze é uma seção desta página, de 01 a 15, divididas em pares de hebraico e português. Nada foi deixado de fora. Conferiu-se no Sefaria que a Mishná desta halachá é a Mishná avulsa Pessachim 2:1. O Yerushalmi diz שֶׁהוּא מוּתָּר לוֹכַל, לֹא יַסִּיק, כִירַיִם, רִבִּי יוּדָה, בִּיעוּר e שְׂרֵיפָה, onde a avulsa diz שֶׁמֻּתָּר לֶאֱכֹל, וְלֹא יַסִּיק, כִירָיִם, רַבִּי יְהוּדָה, בִּעוּר e שְׂרֵפָה. Sobretudo, o Yerushalmi diz וַחֲכָמִים אוֹמְרִים מְפָרֵר, sem o אַף da avulsa (“também esfarela”). Sem o אַף, os sábios divergem de Rabi Yudá, em vez de só acrescentarem outros modos de eliminar; Guggenheimer nota que esta é também a leitura do manuscrito de Munique do Bavli, de Rabenu Chananel, de alguns textos do Rif e do autógrafo da Mishná do Rambam, e que o אַף entrou com a primeira edição impressa do Bavli. A tradução segue o hebraico: “esfarela e espalha ao vento”, sem “também”. No Bavli, a Mishná está em Pessachim 21a, com אַף (conferido). O Bavli deste site não tem Pessachim; por isso esta página não traz links para o Bavli.
Sobre a Mishná. “Passou o seu tempo” ficou glosado “o meio-dia do catorze”, isto é, o começo da sexta hora; o Penei Moshe e o Korban HaEdah explicam que, mesmo nas horas proibidas só pelas palavras dos sábios, já é proibido em proveito, e o Korban HaEdah acrescenta que, se alguém consagra uma mulher com ele, ela não fica consagrada. “É permitido o proveito dele”: o Penei Moshe, com o Bavli 21b, explica que, se o tostou antes do tempo e ficou impróprio até para o cão, é permitido em proveito mesmo depois; o Korban HaEdah fala do proveito da cinza, se o queimou antes do tempo. “Não acenderá com ele forno nem fogareiro” é necessário segundo Rabi Yudá, para que não se pense que, já que a mitsvá é queimá-lo, pode aproveitar dele enquanto o queima (Penei Moshe; Bavli 21b, conferido). Rabi Yudá aprende a queima do notar, que se queima (Penei Moshe), e os sábios o refutam, como se vê nas seções 11 e 14. כִירַיִם ficou “fogareiro”, e בְּהֵמָה e חַיָּה, “animal doméstico” e “animal selvagem”, como em Guggenheimer.
Sobre a seção 01. Rabi Imi diz que a Mishná “toda hora em que é permitido comer, é permitido dar de comer” só pode ser de Rabi Meir, que permite comer toda a quinta hora e queimar no começo da sexta (Mishná da Halachá 1:4); segundo Rabi Yudá, que só permite comer até a quarta e suspende na quinta, na quinta é proibido comer e permitido dar de comer (Penei Moshe, Korban HaEdah). No Bavli 21a a pergunta é a mesma, mas a resposta é outra: Rabá bar Ula diz que a Mishná é de Raban Gamliel, para quem, em toda hora em que o kohen come teruma, o israelita dá chulin de comer ao seu animal (conferido). Rabi Ba objeta com a Mishná da Halachá 3:5 do Yerushalmi, que é a avulsa Pessachim 3:5 (conferida: שִׂאוּר יִשָּׂרֵף וְהָאוֹכְלוֹ פָטוּר; aqui grafado סִיעוּר), e com a palavra de Rav Huna em nome de Rabi, que permite dá-lo aos cães: eis algo proibido de comer e permitido dar de comer. A glosa “e comê-lo é proibido” explicita o argumento, com o Penei Moshe e o Korban HaEdah. Siur é a massa que começou a levedar e não levedou de todo; quem o come está isento de karet (Penei Moshe). Rabi Yossi responde que a Mishná não ensina “todo chametz”, mas fala de horas, e o siur não depende de horas; quem ensina as horas é Rabi Meir (Korban HaEdah; Guggenheimer: a Mishná 3:5 trata dos dias de Pessach e não contradiz). “Rabi” sozinho (רִבִּי) é Rabi Yehudá HaNassi; Rav Huna está conforme o hebraico, רַב חוּנָה. Não se localizou no Sefaria a palavra de Rav Huna em nome de Rabi em outro lugar.
Sobre a seção 02. Rabi Bun bar Chiya lê na Mishná, em “é proibido o proveito dele”, que só o proveito do dono é proibido, e que é permitido dá-lo a um animal sem dono (Penei Moshe); o Korban HaEdah tira isso de “lança ao mar”, embora os peixes o comam. A glosa segue o Penei Moshe e é incerta, pois o Korban HaEdah aponta outra frase. Na objeção de Rabi Yirmeya, “esfarela”, ele entendia pães: o Penei Moshe diz que bastaria espalhá-los inteiros; o Korban HaEdah pergunta: se fosse permitido a animal sem dono, por que esfarelar? As duas leituras são opostas: para o Penei Moshe, a objeção apoia a permissão; para o Korban HaEdah, a contesta. A tradução ficou neutra, “entendia que eram pães inteiros”; “inteiros” vem do Penei Moshe (ככרות שלימות) e de Guggenheimer. Rabi Yossi responde que “esfarela” é para que se anule: esfarelado, é como se não existisse. וְאֵיְידֵא אָמַר דָּא ficou “e qual ensino diz isto?”, com o Korban HaEdah, “onde se diz isto”; o Penei Moshe divide: “de onde? Desta que segue”. A derashá une o fim de Shemot 13:3, וְלֹא יֵאָכֵל חָמֵץ, ao começo de 13:4, הַיּוֹם (versículos conferidos), e por isso a citação ficou numa só aspa. No Bavli 28b, a mesma junção é usada por Rabi Yossi HaGlili para outra coisa, o Pessach do Egito, cujo chametz só foi proibido um dia (conferido); Guggenheimer remete também à Mechilta, mas a passagem não foi localizada no Sefaria, e por isso não se cita. הָהַנֵּי ficou “isso é”; o Korban HaEdah explica היינו איסור הנייה, a proibição de proveito já sabida de “não se comerá chametz”, e daí a glosa “já sabida”. A conclusão, que dá-lo ao cão de outros, isto é, ao animal sem dono, é proibido, contradiz a de Rabi Bun bar Chiya (Penei Moshe). O Korban HaEdah diz que a leitura “nem mesmo aos cães; de que tratamos…” é a do Tur. Os nomes seguem o hebraico: רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיה, Rabi Bun bar Chiya; זְעִירָה, Rabi Zeira; יִרְמְיָה, Rabi Yirmeya. As palavras אֲחֵרִים, acréscimo do corretor entre colchetes no Sefaria, foram traduzidas sem colchetes: “ao cão de outros”.
Sobre a seção 03. O paralelo está no Yerushalmi Orla 3:1, conferido no Sefaria. Lá se lê “Rabi Abahu em nome de Rabi Lazar” (aqui, Rabi Elazar), יֵאָכְלוּ, sem “ao cão a lançareis” nem “ou vende-a ao estrangeiro”, e וְכִי מָה אָסְרוֹ (aqui, וְכִי מִי אֲסָרוֹ). Guggenheimer pensa que a origem do texto é Pessachim, porque só aqui os versículos estão completos. No Bavli, o paralelo está em 21b a 23a (conferido): ali fala Rabi Abahu, sem o nome de Rabi Elazar nas edições impressas. “Tu tomas” (אַתְּ תּוֹפֵשׂ) vale “tu incluis”; “o contrário” completa “até que venha o versículo e te especifique”. Os versículos são Shemot 22:30 e Devarim 14:21, conferidos; o Yerushalmi escreve מָכוֹר לְנָכְרִי, e “vende-a” traduz o infinitivo. O Korban HaEdah explica a “carne no campo, dilacerada” como o membro separado do animal vivo, que é como treifá. Chizkiyá “ensinou e diverge” de Rabi Elazar (Penei Moshe): para ele, “não comerás” só proíbe comer (Korban HaEdah); “e quem o proibiu ao cão?” quer dizer que o versículo só diz “não comereis”, sem proibição de proveito, e que “ao cão a lançareis” nada ensina sobre permissão (Penei Moshe); a glosa vem daí. No Bavli 21b, Chizkiyá deriva a proibição de proveito do chametz da forma passiva “não se comerá” (conferido).
Sobre a seção 04. São objeções a Rabi Elazar (Penei Moshe). Os versículos são Vayikra 7:23 e 7:24, Devarim 12:16, Bereshit 32:33, Vayikra 23:14 e Vayikra 11:42, todos conferidos. Sobre o sangue, o Korban HaEdah lembra a Mishná segundo a qual o sangue das ofertas se vende aos jardineiros como adubo, que é a Mishná Yomá 5:6 (conferida: וְנִמְכָּרִין לַגַּנָּנִין לְזֶבֶל). Sobre o guid hanashé, o Penei Moshe e o Korban HaEdah citam a Mishná Chulin 7:2 (conferida: שׁוֹלֵחַ אָדָם יָרֵךְ לְנָכְרִי שֶׁגִּיד הַנָּשֶׁה בְתוֹכָהּ), e “expliquei-o no guid hanashé das nevelot” corresponde ao Bavli 22a, segundo o qual, para Rabi Abahu, quando se permitiu a nevelá, permitiu-se com o seu chelev e o seu nervo (conferido). Sobre o grão novo, citam a Mishná Menachot 10:8 (conferida: קוֹצֵר לַשַּׁחַת, וּמַאֲכִיל לַבְּהֵמָה): a proibição tem tempo fixo, e “o grão novo” completa o sujeito de “é diferente”; no Bavli 23a a resposta é de Rav Shemaiá, קצירכם — שלכם יהא (conferido). Sobre os répteis, citam a Mishná Sheviit 7:4 (conferida), sobre os caçadores que acharam espécies impuras e podem vendê-las; a exclusão vem de Vayikra 11:11, וְשֶׁקֶץ יִהְיוּ לָכֶם, “para vós”, isto é, vosso seja para proveito (conferido; e Bavli 23a, שאני התם דאמר קרא לכם — שלכם יהא, conferido). Aqui o hebraico diz אָמַר רִבִּי, “disse Rabi”, e assim ficou no texto; mas o paralelo de Orla 3:1 diz אָמַר רִבִּי מָנָא, e o Penei Moshe (ומשני ר' מנא) e o Korban HaEdah (ה"ג א"ר מנא) leem Rabi Mana. “Rabi Aba Mari, irmão de Rabi Yossi” traduz אַחוֹי דְרִבִּי יוֹסֵי; Orla diz אַחֲוָה דְּרִבִּי יוֹסֵי. “Expliquei-o” traduz קִיַימְתֵּיהּ, literalmente “mantive-o, estabeleci-o”.
Sobre a seção 05. Ispelanit é um emplastro, do grego σπληνίον (Guggenheimer); o Korban HaEdah: רטייה sobre a ferida, feita do chelev do boi apedrejado ou de chametz. “Não é açoitado, pois o lo taassê que há nele não é claro”: não é claro que inclua o proveito (Penei Moshe); o Korban HaEdah: porque está escrito “não comerás”. No Bavli 24b (conferido), Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan diz que por todas as proibições da Torá só se é açoitado quando se aproveita do modo habitual, e Rav Shimi bar Ashi tira daí quem pôs chelev do boi apedrejado sobre a ferida; e Abaye diz que em kilei hakerem se é açoitado mesmo fora do modo habitual, porque neles não está escrito “comer”. A razão do Bavli é o modo do proveito; a do Yerushalmi, a clareza do lav. Em kilei hakerem, Rabi Chanina lê Devarim 22:9, פֶּן תִּקְדַּשׁ, como פֶּן תּוּקַּד אֵשׁ: precisa ser queimado, logo é proibido em proveito (Penei Moshe, Korban HaEdah); o Yerushalmi Kilayim 8:1 traz פן תקדש פן תוקד באש (conferido). O “pois” completa o elo, porque aqui o hebraico diz só אָמַר רִבִּי חֲנִינָה, e Orla 3:1 diz דְּאָמַר. Na orlá, “é preciso investigar” (צְרִיכָה): há um asê de afastá-la, de Vayikra 19:23, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ, que inclui o proveito (Penei Moshe), e um lo taassê de comê-la, לֹא יֵאָכֵל (conferido), mas não um lo taassê de afastá-la; por isso não se sabe se há açoite. As palavras לֹא תֹאכְלוּ כָתוּב ficaram traduzidas, “‘não comereis’ está escrito”, porque o Sefaria não as marca; mas Guggenheimer as tem por acréscimo do corretor, ausente do manuscrito, e o Penei Moshe diz que aqui se imprimiram palavras a mais (וכאן נדפס תיבות יתירות); o paralelo de Orla 3:1 não as traz, e o versículo da orlá diz לֹא יֵאָכֵל, não לֹא תֹאכְלוּ. A grafia לֹא תֵיעָשֶׂה é a do Sefaria; Orla diz לֹא תַעֲשֶׂה.
Sobre a seção 06. “Uma baraita diverge” traduz מַתְנִיתָא פְלִיגָא. O versículo é Shemot 21:28 (conferido). A baraita deduz do supérfluo “não se comerá a sua carne” a proibição de proveito, contra Rabi Yochanan, que disse que o lav do boi apedrejado não é claro. Rabi Yochanan explica o versículo no caso em que os donos o abateram antes que se concluísse o julgamento (עַד שֶׁלֹּא נִגְמַר דִּינוֹ): então não é nevelá, e o versículo é necessário para proibir comê-lo, sem nada ensinar sobre o proveito (Penei Moshe). O Korban HaEdah lê משנגמר דינו, “depois que se concluiu o julgamento”, como a baraita do Bavli Pessachim 22b, Kidushin 56b e Bava Kama 41a (conferidos: שאם שחטו לאחר שנגמר דינו אסור; no Bavli, o proveito vem de “e o dono do boi é inocente”). Orla 3:1 tem עַד שֶׁלֹּא, como aqui, e Guggenheimer segue “antes”, observando que contradiz o Bavli. O português segue o hebraico.
Sobre a seção 07. Rabi Zeira (זְעִירָא) pergunta a Rabi Abahu como pode dizer aqui, em nome de Rabi Elazar, que “não comerás” inclui o proveito, e ali, em nome de Rabi Yochanan, que o lav do proveito não é claro (Penei Moshe, Korban HaEdah); as glosas seguem o Korban HaEdah. O hebraico desta seção diz רִבִּי לָעְזָר, Rabi Lazar, embora a seção 03 diga אֶלְעָזָר, Rabi Elazar; cada um ficou conforme o hebraico. Orla 3:1 diz לָעְזָר nas duas.
Sobre a seção 08. Os rabinos de Cesareia (רַבָּנִן דְּקַיְסָרִין) trazem outra versão da palavra de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan (Penei Moshe). A distinção é de vocalização: לֹא תֹאכַל e לֹא תֹאכְלוּ, ativos, “não comerás, não comereis”, só proíbem comer; לֹא תֵאָכֵל e לֹא יֵאָכֵל, passivos, “não será comida, não será comido”, incluem o proveito. O Korban HaEdah explica que o tsere significa que não haja nele permissão que leve a comer, e o proveito leva a comer, pois com o dinheiro se compra comida; e dá como leitura três termos com cholem, לא יאכל לא תאכל לא תאכלו בחולם, onde o hebraico do Sefaria tem só dois na primeira lista. Orla 3:1 só tem לֹא תֹאכְלוּ e não tem a frase do passivo (Guggenheimer: falta ali uma frase importante). O binyan av é Vayikra 6:23 (conferido): como a chatat precisa ser queimada, é proibida em proveito, e daí se aprende o “não será comida” (Penei Moshe, Korban HaEdah); no Bavli 23b o versículo tem outra função, na palavra de Rabi Yehoshua ben Levi (conferido). Chizkiyá, “apoiando Rabi Yochanan” (מְסַיֵיעַ), mostra que os versículos que parecem permitir o proveito são necessários para outra coisa (Penei Moshe). O chelev é permitido “mesmo para o trabalho do Alto” (לִמְלֶאכֶת גָּבוֹהַּ), o uso do Santuário; o Korban HaEdah: que não se pense que é proibido usar objetos puros de couro untado com chelev de nevelá; no Bavli 23a (conferido), a baraita de Rabi Yossi HaGlili e Rabi Akiva sobre לכל מלאכה e מלאכת גבוה. O sangue torna apto como a água, de Vayikra 11:38, וְכִי יֻתַּן מַיִם עַל זֶרַע (conferido; Korban HaEdah); no Bavli 22b, Rabi Chiya bar Aba em nome de Rabi Yochanan (conferido). Na nevelá, o guer toshav, que aceitou os sete preceitos dos filhos de Noach, pode comer nevelot (Korban HaEdah); a glosa diz só “os preceitos dos filhos de Noach”. Na treifá, “esta” (אוֹתוֹ) lanças ao cão, e não chulin abatidos na azará, cuja proibição de comer vem de Devarim 12:21, כִּי יִרְחַק מִמְּךָ הַמָּקוֹם (Korban HaEdah; versículo conferido); no Bavli 22a isto é de Rabi Meir, אותו אתה משליך לכלב ואי אתה משליך לכלב חולין שנשחטו בעזרה (conferido). “Carne” completa “esta”.
Sobre a seção 09. A baraita está na Mechilta de Rabi Yishmael, Massechta de Pischa 16, conferida no Sefaria: "ולא יאכל חמץ", לעשות את המאכיל כאוכל, palavras de Rabi Yoshiá, e רבי יצחק אומר: אינו צריך. Segundo o Penei Moshe, é uma só baraita em que dois tanaim divergem: o primeiro, Rabi Yoshiá (רִבִּי יֹאשִׁיָה), lê “não se comerá” como “não será comido por outros”, e daí avisa também o que dá de comer, pois o proveito já se sabe de “não comerás com ele chametz”, Devarim 16:3 (conferido); isto é Rabi Elazar. Rabi Yitzchak tira o que dá de comer de um kal vachomer dos répteis, cuja proibição é leve, sem karet (Korban HaEdah), e nos quais “não os comereis” (Vayikra 11:42) se lê “não os dareis de comer”, para avisar os grandes sobre os pequenos (Penei Moshe; Bavli Yevamot 114a, לא תאכלום — לא תאכילום, להזהיר הגדולים על הקטנים, conferido); por isso “não se comerá” fica para o proveito, e do “não comerás” nada se aprende: isto apoia Rabi Yochanan. O Korban HaEdah resume: o começo da baraita é como Rabi Lazar, e o fim, como Rabi Yochanan. O mesmo modelo, “não serão comidos, para fazer o que dá de comer como o que come, ou para proibi-los em proveito?”, está no Sifra, Shemini, capítulo 5:1, sobre as aves impuras (conferido; Guggenheimer remete a ele). “A outro” completa “o que dá de comer”; Guggenheimer explica que quem serve chametz a um judeu no Pessach é culpado como se o comesse. Segundo Guggenheimer, aqui termina o paralelo com Orla 3:1; conferiu-se que Orla 3:1 traz também esta baraita.
Sobre a seção 10. Retoma-se a Mishná: se transgrediu e acendeu, que se faz com o forno e com o pão assado nele? O Penei Moshe responde com a Mishná de Avodá Zará sobre a lenha da ashera com que se acendeu o forno: se o forno é novo e foi aceso para endurecê-lo, derruba-se; se é velho e foi aceso para assar, esfria-se, e só depois se acende de novo para assar; e o pão assado antes de esfriar é proibido em proveito; o mesmo vale para o chametz, cuja proibição é grave. Conferiu-se no Sefaria que é a Mishná Avodá Zará 3:9: הִסִּיק בָּהֶן אֶת הַתַּנּוּר, אִם חָדָשׁ, יֻתַּץ. וְאִם יָשָׁן, יֻצַּן; Guggenheimer a numera 3:14. O Korban HaEdah remete antes ao forno aceso com cascas de orlá, e a baraita do Bavli Pessachim 26b, sobre esta mesma Mishná, diz תנור שהסיקו בקליפי ערלה או בקשין של כלאי הכרם, חדש — יותץ, ישן — יוצן (conferido); a Mishná Orla 3:5 fala do mesmo forno, mas só do pão, תִּדָּלֵק הַפַּת, sem “derruba-se” nem “esfria-se” (conferida). A glosa “a Mishná de Avodá Zará” segue o Penei Moshe, e “antes que se asse nele”, o Penei Moshe e o Korban HaEdah. יָיבֹא כְהָדָא ficou “venha o caso como esta”; יוּתָּץ, “será derrubado”; יוּצָּן, “será esfriado”.
Sobre a seção 11. A baraita está no Bavli Pessachim 27b (conferido), só com o notar, sem o pigul, e com a resposta לא מצא עצים לשורפו יהא יושב ובטל? והתורה אמרה תשביתו שאור מבתיכם, בכל דבר שאתה יכול להשביתו; a glosa “de qualquer modo que o possais fazer cessar” vem daí e do Korban HaEdah (בכל דבר שאתה יכול להשבית). O versículo é Shemot 12:15 (conferido). O raciocínio de Rabi Yudá é um kal vachomer: o pigul e o notar não estão sob a proibição de ser visto e de ser achado (Shemot 13:7 e 12:19, conferidos), e se eliminam pela queima; o chametz, que está, com mais razão. Os sábios respondem que um raciocínio que começa por agravar e acaba por aliviar não é raciocínio: agrava ao exigir a queima, e alivia quando não há fogo (Penei Moshe, Korban HaEdah). אִם לֹא נִתָמַנֶּה לוֹ אוֹר ficou “se não se lhe deparou fogo”; o Korban HaEdah, “se não se lhe depararam lenhas”. דִּין ficou “raciocínio”, e אֵינוֹ דִין, “não é de razão” na boca de quem raciocina e “não é raciocínio” na resposta.
Sobre a seção 12. A baraita está no Sifra, Tazria, Parashat Yoledet, seção 1:5 (conferida), onde se lê ואת הבא עם אמו אל האהל; o Korban HaEdah dá essa leitura (ה"ג בת"כ). As palavras וְאֶת הָבָּא עִם אִמּוֹ, que o Sefaria põe entre colchetes, como acréscimo do corretor, nas duas vezes, foram traduzidas sem colchetes, “e o que vem com a sua mãe”; Guggenheimer as tem por desnecessárias. “Os que vêm com ele” (וְאֶת הַבָּאִין עִמּוֹ) ficou glosado “os gêmeos”, com o Korban HaEdah (אם נולד תאומים עמו), que diz ser possível manter esta leitura; Guggenheimer atribui a explicação ao Penei Moshe. Os versículos são Vayikra 12:2 e 12:3 (conferidos); e Vayikra 12:5, וְאִם נְקֵבָה תֵלֵד (conferido), mostra que “varão” é supérfluo (Korban HaEdah). O vivo não torna impuros a mãe nem os que estão na tenda com a impureza de sete dias do morto, que exige a aspersão no terceiro e no sétimo dias, e mesmo assim torna a mãe impura com a impureza do parto; o morto, que torna impuros com essa impureza a mãe e os que estão na tenda, com mais razão (Korban HaEdah). Os sábios respondem que, se o morto a torna impura como o vivo, também deveria dar-lhe os dias de pureza que o vivo lhe dá, contados até quarenta dias para o varão e oitenta para a fêmea (Korban HaEdah), e isto é um alívio; por isso a Torá disse “varão”, para incluir o morto, que torna impura e dá dias de pureza como o vivo (Penei Moshe, Korban HaEdah). לְפִיכָךְ, também entre colchetes no Sefaria, ficou “por isso”. אִם לֹא זָכִיתִי מן הַדִּין ficou “se não obtive isto do raciocínio”; o Penei Moshe parafraseia הואיל ולא זכיתי, “já que não obtive”.
Sobre a seção 13. A baraita está no Bavli Sukká 36b (conferido), onde “sukká de qualquer coisa” é palavra de Rabi Meir, e Rabi Yehudá diz que a sukká só se faz com as quatro espécies do lulav; o “e assim disse Ezra” está no Bavli Sukká 37a (וכן בעזרא אומר, conferido). Aqui o hebraico abre com “semelhante a isto, disse Rabi Yudá: habitareis nas sukkot: sukká de qualquer coisa”, e a tradução o manteve: “semelhante a isto” liga o caso aos outros raciocínios de Rabi Yudá, e o versículo com a sua leitura é a conclusão a que chegam os sábios. O versículo é Vayikra 23:42 (conferido), que diz בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ e יֵשְׁבוּ בַּסֻּכֹּת; o Yerushalmi cita תֵּשְׁבוּ בַּסּוּכּוֹת (Guggenheimer). O lulav não vigora de noite, porque está escrito “no primeiro dia” (Vayikra 23:40, conferido), de dia e não de noite; a sukká vigora de noite, porque “sete dias” inclui as noites (Korban HaEdah). Guggenheimer entende que a cobertura da sukká, para Rabi Yudá, deveria ser de salgueiro, de murta ou de palmeira. A frase de Ezra está entre colchetes no Sefaria, como acréscimo do corretor tirado dos paralelos (Guggenheimer), e foi traduzida sem colchetes. O versículo é Nechemia 8:15 (conferido), que diz בְּכׇל־עָרֵיהֶם, onde o Yerushalmi diz בְּכָל עָרִים; a prova está na continuação, que o “etc.” (וגו׳) abrevia e a glosa completa: folhas de oliveira, de árvore de óleo, de murta, de palmeira e de árvore frondosa, que não são as quatro espécies (Korban HaEdah; o Penei Moshe cita צאו ההר והביאו עלי זית וגו').
Sobre a seção 14. O outro raciocínio de Rabi Yudá está no Bavli Pessachim 28a (conferido), mais curto: o notar e o chametz estão ambos sob בל תותירו, e os sábios respondem com o asham talui e com a chatat do pássaro trazida na dúvida, que eles queimam e Rabi Yehudá enterra; e Rabi Yehudá se cala. Aqui a cadeia é mais longa: a nevelá (Devarim 14:21), o boi apedrejado (Shemot 21:28 e 21:29), o chelev do boi apedrejado e, por fim, o asham talui. O Penei Moshe diz que este é um binyan av, que vale se nada vier refutá-lo; o Korban HaEdah, que é uma comparação decretada pela Escritura, à qual não se aplica “começa por agravar e acaba por aliviar”. O notar se queima (Vayikra 7:17) e é punido com karet (Vayikra 19:8); o chametz, com karet (Shemot 12:15 e 12:19); todos conferidos. “Tem tempo”: o chametz é permitido até o Pessach, e o notar, até o fim do tempo da sua oferta (Korban HaEdah); a glosa “fixo para a sua proibição” vem daí. “Segundo a tua opinião”: na Mishná Temurá 7:6 (conferida), אָשָׁם תָּלוּי, יִשָּׂרֵף. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, יִקָּבֵר; a glosa “que manda enterrá-lo” vem daí, e Guggenheimer cita a mesma Mishná como 7:6. A Mishná anterior, Temurá 7:5 (conferida), põe o chametz no Pessach entre as coisas que se queimam, חָמֵץ בְּפֶסַח, יִשָּׂרֵף. O asham talui é trazido na dúvida de um pecado que acarreta karet, como quem comeu de dois pedaços, um de chelev e outro de gordura permitida, e não sabe qual (Korban HaEdah). As palavras וְנוֹתָר אָסוּר בַּאֲכִילָה וּבַהֲנָיָיה וְחַיָיבִין עָלָיו כָּרֵת e וְאֵינוֹ בִשְׂרֵיפָה estão entre colchetes no Sefaria e foram traduzidas sem eles. “Provará” traduz תּוֹכִיחַ e יוֹכִיחַ, e “o contrário” completa a refutação. Guggenheimer observa que a halachá não segue Rabi Yudá.
Sobre a seção 15. A primeira baraita “vem como Rabi Yudá”: enquanto não chegou o tempo da eliminação pela Torá, elimina-se de qualquer modo, porque até lá a eliminação é só dos sábios; desde que chegou, pela queima, porque Rabi Yudá aprende do notar, que se queima no seu tempo (Penei Moshe, que fala do começo da sexta até a sétima hora; o Korban HaEdah fala do meio-dia). A segunda “vem como os rabanan”: os sábios só divergem de Rabi Yudá para que ninguém fique sentado quando não acha fogo; por isso, no tempo da eliminação pela Torá, qualquer modo serve, mas antes dele concordam que a mitsvá é pela queima (Penei Moshe). No Bavli Pessachim 12b (conferido), Rabi Yehudá diz o contrário da primeira baraita, אימתי — שלא בשעת ביעורו, אבל בשעת ביעורו — השבתתו בכל דבר (Guggenheimer: o Bavli diverge). Rabi lê em “fareis cessar o fermento das vossas casas” (Shemot 12:15) uma eliminação depois da qual o chametz não seja visto nem achado, e só a queima o faz, pois enterrado, esfarelado ou lançado ao mar ainda pode ser achado (Korban HaEdah); por isso, para ele, a eliminação é sempre pela queima, antes e no tempo da eliminação (Penei Moshe). A pergunta de Rabi Yirmeya: o peter chamor que não foi resgatado morre pela arifá, de Shemot 13:13, וְאִם לֹא תִפְדֶּה וַעֲרַפְתּוֹ, e o animal que matou um homem, pelo apedrejamento, de Shemot 21:28 e 21:29 (conferidos); se as duas coisas se aplicam, qual? O Penei Moshe liga a pergunta ao chametz: diremos que é só pela arifá, como o chametz só pela queima segundo Rabi Yudá, ou que aqui basta cumprir “extirparás o mal do teu meio” (Devarim 13:6, conferido) de qualquer modo? A pergunta fica sem resposta. A pergunta de Rabi Binyamin bar Levi é sobre os pães de chametz da todá (Vayikra 7:13, conferido), que se comem no dia da oferta (Vayikra 7:15, conferido) e se tornaram notar. O Penei Moshe explica a resposta como está no hebraico: antes do tempo da eliminação pela Torá ainda não são notar pela Torá, só proibidos pelos sábios por causa do chametz, e se eliminam de qualquer modo; desde que chegou o tempo, tornam-se notar pela Torá e se queimam segundo todos. O Korban HaEdah inverte a leitura, ה"ג נימר אם נעשו נותר עד שלא הגיע זמן ביעורן את מבערן בשריפה משהגיע זמן ביעורן את מבערן בכל דבר: se se tornaram notar no dia treze, antes do tempo da eliminação, queimam-se, porque já caiu sobre eles a mitsvá da queima; se foram oferecidos no catorze e chegou o tempo do chametz antes que fossem notar, eliminam-se de qualquer modo. O português segue o hebraico do Sefaria; “como se eliminam?” completa a pergunta. אוֹ, entre colchetes no Sefaria na pergunta de Rabi Yirmeya, ficou “ou”. “Rabi” é Rabi Yehudá HaNassi; רַבָּנִין ficou rabanan, “os sábios”.
Do hebraico retiraram-se só os rótulos משנה: e הלכה:, no começo do primeiro e do segundo segmentos, e as marcas das edições: Vilna 10b, antes da Mishná; Veneza 28c, na seção 01, antes de כָּל שָׁעָה כול׳; Vilna 11a, na seção 03, antes de אַתְּ תּוֹפֵשׂ; Vilna 11b, na seção 06, antes de הַבְּעָלִים; Vilna 12a, na seção 10, antes de עָבַר וְהִסִּיק; Veneza 28d, na seção 12, antes do segundo וְאֶת הַבָּאִין עִמּוֹ; e Vilna 12b, na seção 15, antes de מִשֶּׁהִגִּיעַ. Nada foi acrescentado ao hebraico. Os colchetes do corretor, nas seções 02, 12, 13, 14 e 15, foram mantidos no hebraico e traduzidos sem colchetes no português; parênteses do corretor não há nesta halachá. Mantiveram-se também as grafias do Sefaria, como סִיעוּר, הַדַּם, מִכִּלאֵי, זְעִירָה e זְעִירָא, לֹא תֵיעָשֶׂה, אָמְרוּ לֹו, הָבָּא e שִׁיטָּתָךְ.
A Mishná seguinte, Pessachim 2:2 no Yerushalmi, reúne as Mishnayot avulsas Pessachim 2:2 e 2:3: “חָמֵץ שֶׁל נָכְרִי שֶׁעָבַר עָלָיו הַפֶּסַח מוּתָּר בַּהֲנָאָה…”, “o chametz do gentio sobre o qual passou o Pessach é permitido em proveito…”; o do israelita é proibido, pois foi dito “não será visto contigo”; e segue com o chametz dado em penhor entre o gentio e o israelita e com o chametz sobre o qual caiu um desabamento.
Com esta halachá, abre-se o Perek Bet de Massechet Pessachim, Kol Shaá (כׇּל שָׁעָה).