Toda hora em que é permitido comer, alimenta-se com ele a besta, o animal selvagem e as aves, e vende-se ao gentio, e é permitido usufruir dele. — Enquanto perdura o horário em que ainda é permitido ao próprio dono comer o chametz — isto é, até o fim da quarta hora do dia — pode-se também dar esse chametz a animais domésticos, a animais selvagens mantidos em casa e a aves, vendê-lo a um gentio, e tirar dele qualquer proveito, sem nenhuma restrição.
Passou seu horário, é proibido em usufruto, e não se aquece com ele forno nem fogão. — A partir do início da sexta hora do dia — o momento em que a Torá proíbe possuir chametz —, todo proveito dele é proibido, mesmo que ainda não tenha sido formalmente queimado; e quem o queima, no momento próprio, não pode sequer aproveitar o calor gerado por essa mesma queima para aquecer um forno ou um fogão.
Rabi Yehuda diz: não há eliminação de chametz senão por queima. E os Sábios dizem: também esfarela e espalha ao vento, ou lança ao mar. — Rabi Yehuda entende que a eliminação do chametz deve seguir o modelo do "notar" — a sobra do sacrifício —, que é destruído por fogo; os demais Sábios discordam e permitem qualquer forma eficaz de eliminação, como esfarelá-lo e jogá-lo ao vento, ou atirá-lo ao mar, desde que se torne inutilizável.
Rabi Yehuda apoia sua exigência de queima — e não outra forma de eliminação — no princípio de que a Torá associa o destino do chametz proibido ao do "notar", a sobra do sacrifício além de seu prazo, que a Torá manda expressamente queimar. Os demais Sábios, porém, entendem que a palavra "tashbitu" — "eliminareis" — não exige um método único, mas apenas que o chametz deixe de existir como algo utilizável; por isso aceitam também esfarelá-lo ao vento ou lançá-lo ao mar, desde que o resultado seja o mesmo: sua completa inutilização antes do horário de proibição.
O Rambam decide a halachá conforme os Sábios contra Rabi Yehuda: qualquer forma de eliminação eficaz é válida, embora a queima seja preferível; e detalha os horários — comer até a quarta hora, não usufruir a partir da sexta.
Como se elimina o chametz? Queima-o, ou o esfarela e espalha ao vento, ou o lança ao mar ou a um rio que o carregue. E não deve eliminá-lo levianamente, mas sim eliminá-lo completamente, com atenção. Não é assim a halachá conforme Rabi Yehuda, que diz que não há eliminação de chametz senão por queima; antes, qualquer coisa que o destrua é válida. Ainda assim, é preceito preferível queimá-lo, do mesmo modo que se queimam as coisas sagradas que se tornaram inválidas.
Rambam explica que a mishná segue a opinião de Rabán Gamliel sobre os horários; Bartenura esmiúça por que a mishná precisou mencionar besta, animal selvagem e aves separadamente; Rashi, na Guemará, comenta o princípio geral de "bal totiru" por trás da proibição.
"Toda hora em que é permitido comer, alimenta-se com ele a besta, o animal selvagem e as aves, etc.": esta mishná segue a opinião de Rabán Gamliel, já apresentada anteriormente, de que o chulin se come durante toda a quarta hora e a teruma durante toda a quinta. E aqui diz que, enquanto o sacerdote ainda come teruma, é permitido ao israelita alimentar seu animal com o chametz — e isso é verdade, ou seja, é permitido usufruir do chametz na quinta hora, mesmo que ele próprio já não possa mais comê-lo, como já explicamos.
"Alimenta-se com ele a besta, o animal selvagem e as aves" — as três menções são necessárias: se a mishná mencionasse apenas "besta", pensaríamos que só quanto à besta — que, se sobrar comida, ela a consome e assim se elimina o chametz de dentro dela — é permitido; mas o animal selvagem, como a doninha, o gato e a fuinha, que costumam guardar o que sobra, diríamos que não. E se mencionasse apenas "animal selvagem", pensaríamos que só quanto a ele — que, se sobrar, o esconde e não se transgride "não se verá" — é permitido; mas quanto à besta, que às vezes deixa sobras sem que o dono se lembre de eliminá-las, e assim se transgrediria "não se verá", diríamos que não. Por isso a mishná ensina ambos. E "aves" é mencionada por associação, já que se ensinou "besta" e "animal selvagem".
"O chametz está sujeito ao 'não deixarás sobrar'" — isto é, ao princípio de "não se verá" e "não se achará" chametz em posse do israelita, base sobre a qual se constrói toda a proibição de usufruir dele depois do horário estabelecido, tema central da discussão da Guemará neste daf sobre o horário de proibição do chametz.