Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Bet · Mishná 1 de 8

Até quando se pode aproveitar o chametz

כָּל שָׁעָה שֶׁמֻּתָּר לֶאֱכֹל, מַאֲכִיל לַבְּהֵמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o Perek Bet: enquanto ainda é permitido comer o chametz, na manhã de catorze de Nisan, também é permitido alimentar animais com ele, vendê-lo a um gentio e usufruir dele de qualquer modo.

Toda hora em que é permitido comer, alimenta-se com ele a besta, o animal selvagem e as aves, e vende-se ao gentio, e é permitido usufruir dele.Enquanto perdura o horário em que ainda é permitido ao próprio dono comer o chametz — isto é, até o fim da quarta hora do dia — pode-se também dar esse chametz a animais domésticos, a animais selvagens mantidos em casa e a aves, vendê-lo a um gentio, e tirar dele qualquer proveito, sem nenhuma restrição.

כָּל שָׁעָה שֶׁמֻּתָּר לֶאֱכֹל, מַאֲכִיל לַבְּהֵמָה לַחַיָּה וְלָעוֹפוֹת, וּמוֹכְרוֹ לַנָּכְרִי, וּמֻתָּר בַּהֲנָאָתוֹ:
Passado o horário permitido, o chametz fica proibido em qualquer proveito, e não se pode sequer usá-lo como combustível para aquecer o forno.

Passou seu horário, é proibido em usufruto, e não se aquece com ele forno nem fogão.A partir do início da sexta hora do dia — o momento em que a Torá proíbe possuir chametz —, todo proveito dele é proibido, mesmo que ainda não tenha sido formalmente queimado; e quem o queima, no momento próprio, não pode sequer aproveitar o calor gerado por essa mesma queima para aquecer um forno ou um fogão.

עָבַר זְמַנּוֹ, אָסוּר בַּהֲנָאָתוֹ, וְלֹא יַסִּיק בּוֹ תַּנּוּר וְכִירָיִם:
Disputa sobre o modo exigido de eliminar o chametz: Rabi Yehuda exige queima; os Sábios permitem também esfarelar ao vento ou lançar ao mar.

Rabi Yehuda diz: não há eliminação de chametz senão por queima. E os Sábios dizem: também esfarela e espalha ao vento, ou lança ao mar.Rabi Yehuda entende que a eliminação do chametz deve seguir o modelo do "notar" — a sobra do sacrifício —, que é destruído por fogo; os demais Sábios discordam e permitem qualquer forma eficaz de eliminação, como esfarelá-lo e jogá-lo ao vento, ou atirá-lo ao mar, desde que se torne inutilizável.

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵין בִּעוּר חָמֵץ אֶלָּא שְׂרֵפָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אַף מְפָרֵר וְזוֹרֶה לָרוּחַ אוֹ מַטִּיל לַיָּם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 12:15
שִׁבְעַת יָמִים מַצּוֹת תֹּאכֵלוּ, אַךְ בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן תַּשְׁבִּיתוּ שְׂאֹר מִבָּתֵּיכֶם, כִּי כָּל אֹכֵל חָמֵץ וְנִכְרְתָה הַנֶּפֶשׁ הַהִוא מִיִּשְׂרָאֵל, מִיּוֹם הָרִאשֹׁן עַד יוֹם הַשְּׁבִעִי.
Sete dias comereis pães ázimos; mas, no primeiro dia, eliminareis o fermento de vossas casas, pois todo aquele que comer chametz, será extirpada aquela alma de Israel, desde o primeiro dia até o sétimo dia.

Rabi Yehuda apoia sua exigência de queima — e não outra forma de eliminação — no princípio de que a Torá associa o destino do chametz proibido ao do "notar", a sobra do sacrifício além de seu prazo, que a Torá manda expressamente queimar. Os demais Sábios, porém, entendem que a palavra "tashbitu" — "eliminareis" — não exige um método único, mas apenas que o chametz deixe de existir como algo utilizável; por isso aceitam também esfarelá-lo ao vento ou lançá-lo ao mar, desde que o resultado seja o mesmo: sua completa inutilização antes do horário de proibição.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam decide a halachá conforme os Sábios contra Rabi Yehuda: qualquer forma de eliminação eficaz é válida, embora a queima seja preferível; e detalha os horários — comer até a quarta hora, não usufruir a partir da sexta.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Chametz U'Matzá 3:11
כֵּיצַד מְבַעֲרִין אוֹתוֹ, שׂוֹרְפוֹ, אוֹ פוֹרְרוֹ וְזוֹרֶה לָרוּחַ, אוֹ זוֹרְקוֹ לְיָם אוֹ לְנָהָר שֶׁשּׁוֹטְפוֹ. וְלֹא יְבַעֵר בִּסְעֻדָּה גַּסָּה, אֶלָּא בְּעַצְמוֹ הוּא מְבַעֲרוֹ מֵעִקָּרוֹ. אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה שֶׁאוֹמֵר אֵין בִּעוּר חָמֵץ אֶלָּא שְׂרֵפָה, אֶלָּא כָּל דָּבָר שֶׁמְּאַבְּדוֹ בּוֹ כָּשֵׁר, וְאַף עַל פִּי כֵן מִצְוָה מִן הַמֻּבְחָר לְשָׂרְפוֹ, כְּדֶרֶךְ שֶׁשּׂוֹרְפִין קָדָשִׁים שֶׁנִּפְסְלוּ:

Como se elimina o chametz? Queima-o, ou o esfarela e espalha ao vento, ou o lança ao mar ou a um rio que o carregue. E não deve eliminá-lo levianamente, mas sim eliminá-lo completamente, com atenção. Não é assim a halachá conforme Rabi Yehuda, que diz que não há eliminação de chametz senão por queima; antes, qualquer coisa que o destrua é válida. Ainda assim, é preceito preferível queimá-lo, do mesmo modo que se queimam as coisas sagradas que se tornaram inválidas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam explica que a mishná segue a opinião de Rabán Gamliel sobre os horários; Bartenura esmiúça por que a mishná precisou mencionar besta, animal selvagem e aves separadamente; Rashi, na Guemará, comenta o princípio geral de "bal totiru" por trás da proibição.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Pessachim 2:1
כָּל שָׁעָה שֶׁמֻּתָּר לֶאֱכֹל מַאֲכִיל לַבְּהֵמָה לַחַיָּה וְלָעוֹפוֹת כוּ': זוֹ הַמִּשְׁנָה לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁקָּדַם לְךָ דַּעְתּוֹ שֶׁאָמַר חֻלִּין כָּל אַרְבַּע וּתְרוּמָה כָּל חָמֵשׁ. וְאָמַר בְּכָאן כִּי כָּל זְמַן שֶׁהַכֹּהֵן אוֹכֵל תְּרוּמָה מֻתָּר לְיִשְׂרָאֵל לְהַאֲכִיל לַבְּהֵמָה, וְזֶה אֱמֶת רְצוֹנִי לוֹמַר שֶׁמֻּתָּר לוֹ לֵהָנוֹת מִן הֶחָמֵץ בְּשָׁעָה חֲמִישִׁית אַף עַל פִּי שֶׁהוּא עַצְמוֹ אֵינוֹ אוֹכֵל כַּאֲשֶׁר בֵּאַרְנוּ.

"Toda hora em que é permitido comer, alimenta-se com ele a besta, o animal selvagem e as aves, etc.": esta mishná segue a opinião de Rabán Gamliel, já apresentada anteriormente, de que o chulin se come durante toda a quarta hora e a teruma durante toda a quinta. E aqui diz que, enquanto o sacerdote ainda come teruma, é permitido ao israelita alimentar seu animal com o chametz — e isso é verdade, ou seja, é permitido usufruir do chametz na quinta hora, mesmo que ele próprio já não possa mais comê-lo, como já explicamos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 2:1
מַאֲכִיל לַבְּהֵמָה לַחַיָּה וְלָעוֹפוֹת. צְרִיכֵי, דְּאִי תָנָא בְהֵמָה, הֲוָה אֲמֵינָא בְּהֵמָה דְּאִי מְשַׁיְּרָא חֲזִי לַהּ וּמְבַעֵר לֵיהּ אִין, אֲבָל חַיָּה כְּגוֹן נְמִיָּה וְחָתוּל וְחֻלְדָּה דְּאוֹרְחַהּ לְהַצְנִיעַ אֵימָא לֹא. וְאִי תָנָא חַיָּה, הֲוָה אֲמֵינָא חַיָּה דְּאִי מְשַׁיְּרָא מַצְנְעָא לֵיהּ וְלֹא עָבַר עֲלֵיהּ עַל בַּל יֵרָאֶה אֵימָא אִין, אֲבָל בְּהֵמָה זִמְנִין דִּמְשַׁיְּרָא וְלָאו אַדַּעְתֵּיהּ לְבַעֲרוֹ וְעָבַר עֲלֵיהּ עַל בַּל יֵרָאֶה אֵימָא לֹא, קָא מַשְׁמַע לָן. וְעוֹפוֹת, אַיְדֵי דְתָנָא בְּהֵמָה וְחַיָּה, תָּנָא נַמִּי עוֹפוֹת.

"Alimenta-se com ele a besta, o animal selvagem e as aves" — as três menções são necessárias: se a mishná mencionasse apenas "besta", pensaríamos que só quanto à besta — que, se sobrar comida, ela a consome e assim se elimina o chametz de dentro dela — é permitido; mas o animal selvagem, como a doninha, o gato e a fuinha, que costumam guardar o que sobra, diríamos que não. E se mencionasse apenas "animal selvagem", pensaríamos que só quanto a ele — que, se sobrar, o esconde e não se transgride "não se verá" — é permitido; mas quanto à besta, que às vezes deixa sobras sem que o dono se lembre de eliminá-las, e assim se transgrediria "não se verá", diríamos que não. Por isso a mishná ensina ambos. E "aves" é mencionada por associação, já que se ensinou "besta" e "animal selvagem".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 28a
חָמֵץ יֶשְׁנוֹ בְּבַל תּוֹתִירוּ — לֹא יֵרָאֶה וְלֹא יִמָּצֵא.

"O chametz está sujeito ao 'não deixarás sobrar'" — isto é, ao princípio de "não se verá" e "não se achará" chametz em posse do israelita, base sobre a qual se constrói toda a proibição de usufruir dele depois do horário estabelecido, tema central da discussão da Guemará neste daf sobre o horário de proibição do chametz.