Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Guimel · Mishná 9 de 10

Madeira da ashera usada no forno, no pão e na tecelagem

נָטַל מִמֶּנָּה עֵצִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Nona mishná: examina em cadeia as consequências de usar madeira tomada de uma ashera — no forno, no pão resultante, e mesmo quando este se mistura a outros pães; repete o mesmo esquema para a lançadeira de tecer e a veste tecida com ela, com a disputa entre Rabi Eliezer (que permite resgate monetário) e os Sábios (que o negam).

Se tomou dela madeira, é proibido dela se beneficiar. Se acendeu com ela o forno — se novo, deve ser demolido; se velho, deve ser resfriado. Se assou nele o pão, é proibido dele se beneficiar. Se se misturou com outros pães, todos ficam proibidos quanto ao benefício. Rabi Eliezer diz: leva-se o valor do benefício ao Mar Salgado. Disseram-lhe: não há resgate para a idolatria. Se tomou dela uma lançadeira, é proibido dela se beneficiar. Se com ela teceu uma veste, a veste é proibida quanto ao benefício. Se se misturou com outras, e outras com outras, todas ficam proibidas quanto ao benefício. Rabi Eliezer diz: leva-se o valor do benefício ao Mar Salgado. Disseram-lhe: não há resgate para a idolatria.

נָטַל מִמֶּנָּה עֵצִים, אֲסוּרִים בַּהֲנָאָה. הִסִּיק בָּהֶן אֶת הַתַּנּוּר, אִם חָדָשׁ, יֻתַּץ. וְאִם יָשָׁן, יֻצַּן. אָפָה בוֹ אֶת הַפַּת, אֲסוּרָה בַהֲנָאָה. נִתְעָרְבָה בַאֲחֵרוֹת, כֻּלָּן אֲסוּרוֹת בַּהֲנָאָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, יוֹלִיךְ הֲנָאָה לְיָם הַמֶּלַח. אָמְרוּ לוֹ, אֵין פִּדְיוֹן לַעֲבוֹדָה זָרָה. נָטַל הֵימֶנָּה כַרְכֹּר, אָסוּר בַּהֲנָאָה. אָרַג בּוֹ אֶת הַבֶּגֶד, הַבֶּגֶד אָסוּר בַּהֲנָאָה. נִתְעָרֵב בַּאֲחֵרִים וַאֲחֵרִים בַּאֲחֵרִים, כֻּלָּן אֲסוּרִין בַּהֲנָאָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, יוֹלִיךְ הֲנָאָה לְיָם הַמֶּלַח. אָמְרוּ לוֹ, אֵין פִּדְיוֹן לַעֲבוֹדָה זָרָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 3:9
נָטַל מִמֶּנּוּ עֵצִים וְכוּ׳: הַהֶסֵּק הָרִאשׁוֹן שֶׁמַּסִּיקִין הַתַּנּוּר הוּא מַשְׁלִים בִּשּׁוּל חַרְסוֹ, וְאָז הוּא רָאוּי לֶאֱפוֹת בּוֹ אַחַר כָּךְ, וְלְפִיכָךְ יֻתַּץ... וּפָסַק הַהֲלָכָה בֵּין חָדָשׁ בֵּין יָשָׁן יֻצַּן, כְּלוֹמַר שֶׁיַּנִּיחַ אוֹתוֹ עַד שֶׁיִּצְטַנֵּן וְיַסִּיקוּ אוֹתוֹ שֵׁנִית בְּעֵצִים שֶׁל הֶתֵּר וְיֹאפוּ בּוֹ, וְזֶה מֻתָּר... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בַּכֹּל, וַאֲפִלּוּ חָבִית שֶׁל יַיִן נֶסֶךְ כְּשֶׁנִּתְעָרְבָה בֵּין חָבִיּוֹת יוֹלִיךְ הֲנָיָה לְיָם הַמֶּלַח וּמֻתָּר לוֹ לִמְכֹּר הַכֹּל וְלֵהָנוֹת בּוֹ.

Rambam explica que o primeiro aquecimento de um forno novo completa a cozedura de sua argila, tornando-o apto para uso futuro — daí, se essa primeira queima foi feita com madeira proibida, o forno precisar ser demolido, já que o benefício obtido é permanente. A halachá final, porém, determina que tanto o forno novo quanto o velho apenas precisam esfriar; depois disso, pode-se reacendê-lo com madeira permitida e assar normalmente. Rambam nota que a mishná menciona a disputa duas vezes — uma para o pão, outra para a lançadeira — precisamente para esclarecer que Rabi Eliezer permite o resgate monetário mesmo quando o próprio objeto proibido ainda existe fisicamente (como a lançadeira), e não apenas quando ele já se dissolveu no produto final (como a lenha consumida no pão). A halachá segue Rabi Eliezer em todos os casos, inclusive quanto a um barril de vinho de libação misturado entre outros permitidos.

Bartenura · Avodá Zará 3:9
נָטַל מִמֶּנָּה. מִן הָאֲשֵׁרָה: חָדָשׁ יֻתַּץ. שֶׁהַהֶסֵּק הָרִאשׁוֹן שֶׁמַּסִּיקִין הַתַּנּוּר הוּא מְחַסְּמוֹ וּמַחֲזִיקוֹ, וַהֲרֵי נִתְקַן בְּאִסּוּרֵי הֲנָאָה... הִלְכָּךְ בֵּין חָדָשׁ בֵּין יָשָׁן יֻצַּן, שֶׁלֹּא יֹאפוּ בּוֹ אֶת הַפַּת בְּהֶסֵּק זֶה עַד שֶׁיִּצְטַנֵּן הַתַּנּוּר, כְּדֵי שֶׁלֹּא יֵהָנֶה מֵעֲצֵי אִסּוּר: כַּרְכֹּר. יֵשׁ לָאוֹרְגִים עֵץ עָשׂוּי כְּמִין מַחַט... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, וַאֲפִלּוּ חָבִית שֶׁל יֵין נֶסֶךְ שֶׁנִּתְעָרְבָה בְחָבִיּוֹת שֶׁל יַיִן שֶׁל הֶתֵּר מוֹלִיךְ דְּמֵי אוֹתָהּ חָבִית לְיָם הַמֶּלַח, וְהַשְּׁאָר כֻּלָּן מֻתָּרוֹת בַּהֲנָאָה.

Bartenura explica que o primeiro aquecimento de um forno novo o endurece e o consolida, de modo que ele já se beneficiou permanentemente de material proibido — por isso, na lei final, tanto o forno novo quanto o velho devem simplesmente esfriar antes de assar pão neles com lenha permitida, evitando qualquer proveito residual da madeira proibida. Identifica "karkor" como a peça de madeira em forma de agulha usada pelos tecelões para passar o fio da urdidura. Confirma que a halachá segue Rabi Eliezer em todos os casos, permitindo o resgate monetário até mesmo para um barril inteiro de vinho de libação misturado entre barris permitidos, liberando o restante para venda e uso.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 49b (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ כַּרְכֹּר — דְּוִיל״וֹ בְּלַעַ״ז: גְּמָ׳ לָא שְׁנָא — דְּיֵשׁ פִּדְיוֹן... אֲבָל פַּת — מִשּׁוּם דְּלָא מַנְכְּרָא בֵּיהּ אִסּוּרָא מַמָּשׁ, אֲבָל חָבִית שֶׁל יֵין נֶסֶךְ שֶׁנִּתְעָרְבָה בְחָבִיּוֹת שֶׁל הֶתֵּר כֻּלָּן אֲסוּרוֹת בַּהֲנָאָה.

Rashi traduz "karkor" pelo termo vernacular "devuelo", designando a lançadeira usada na tecelagem. Sobre a disputa acerca do resgate, explica que a mishná precisou repeti-la tanto para o pão quanto para a lançadeira: no caso do pão, o próprio material proibido (a lenha) já não é mais fisicamente reconhecível, tendo se dissolvido no produto final; ainda assim, quando esse pão se mistura com outros, todo o conjunto fica proibido quanto ao benefício, do mesmo modo que ocorre quando um barril de vinho de libação se mistura entre barris de vinho permitido.