Quinta e última halachá do Perek Tet, Kol Gaggot (todos os telhados), de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que, sob o andar alto construído sobre duas casas e sob as pontes abertas, Rabi Yehudá permite transportar no Shabat, e os sábios proíbem; e que Rabi Yehudá permite também fazer eruv no mavoi aberto, e os sábios proíbem. Na guemará, Rav Huna diz que não há domínio público coberto; Rabi Shimon bar Karsana pergunta se não foi do deserto que se aprendeu, e o deserto era coberto; e a Mishná, que diz só “e os sábios proíbem”, mostra que não há obrigação de chatat. Depois, pergunta-se se, para Rabi Yehudá, é preciso divisória: Rabá diz que sim, Rabi Yossi diz que não; os colegas apoiam Rabi Ba com a palavra de Rabi Yehudá sobre a parede entre os pátios, Rabi Yossi distingue o lugar que tem teto do que não tem, e Rav Yehudá distingue as pontes abertas para um vale das abertas para o domínio público. O Bavli discute esta Mishná em Eruvin 95a. Com ela se encerra o Perek Tet, Kol Gaggot; o tratado continua no Perek Yud, HaMotzei Tefillin (quem encontra tefilin) · פֶּרֶק הַמּוֹצֵא תְפִלִּין.
Mishná: Quem constrói um andar alto sobre duas casas, e também as pontes abertas: transporta-se debaixo deles no Shabat, palavras de Rabi Yehudá; e os sábios proíbem. E disse mais Rabi Yehudá: Faz-se eruv (junção) no mavoi (beco) aberto; e os sábios proíbem.
Rav Huna disse: Não há domínio público que seja coberto.
Disse Rabi Shimon bar Karsana: E não foi do deserto que o aprendeste? E o deserto era coberto!
A nossa Mishná não disse assim, mas: “E também as pontes abertas, transporta-se debaixo delas no Shabat, palavras de Rabi Yudá; e os sábios proíbem.” Não disse senão “e os sábios proíbem”: a obrigação de chatat (oferta pelo pecado), essa não há aqui.
Qual é a lei: que precise de divisória? Rabá disse: Precisa de divisória. Rabi Yossi disse: Não precisa de divisória.
Os colegas disseram diante de Rabi Yossi: Bem disse Rabi Ba, pois aprendemos: Disse Rabi Yudan: Não seja a divisória mais alta que a parede que está entre eles.
Disse-lhes: Lá, onde há teto, não precisa de divisória; mas aqui, onde não há teto, precisa de divisória.
Pois disse Rav Yehudá: Isso que tu dizes é quando estão abertas para um vale; mas, se estavam abertas para o domínio público, é proibido. Isso quando não há ali divisória; mas, se há ali divisória, é permitido.
Esta é a quinta e última halachá do Perek Tet, Kol Gaggot, de Massechet Eruvin. A halachá ocupa três segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros dois é uma das seções 01 e 02 desta página; as duas seções foram divididas em vários trechos de hebraico e português. A sua Mishná é a Mishná avulsa Eruvin 9:4. Há diferenças de grafia e de palavras entre as duas: a avulsa tem עֲלִיָּה, הַמְפֻלָּשִׁים, בְּשַׁבָּת e מְעָרְבִין לְמָבוֹי הַמְפֻלָּשׁ, onde o Yerushalmi tem עֲלִיָיה, הַמְפוּלָּשִׁין, בַּשַּׁבָּת e מְעָרְבִין בְּמָבוֹי הַמְפוּלָּשׁ. Na citação da seção 01, o nome está escrito רִבִּי יוּדָה, e a tradução tem Rabi Yudá, enquanto a Mishná tem רִבִּי יְהוּדָה. No Bavli, esta Mishná está em Eruvin 95a e lê, como a avulsa, מְעָרְבִין לְמָבוֹי הַמְפוּלָּשׁ; mas Rav Ashi, ao citá-la, tem מְעָרְבִין בְּמָבוֹי הַמְפוּלָּשׁ, como o Yerushalmi. Ali Rabá diz que a razão de Rabi Yehudá não é que duas divisórias bastam pela Torá, mas que פִּי תִקְרָה יוֹרֵד וְסוֹתֵם, “a borda do teto desce e fecha”; Abaye o contesta com a baraita em que Rabi Yehudá diz que quem tem duas casas dos dois lados do domínio público faz um lechi de cá e um lechi de lá, ou uma korá de cá e uma korá de lá, e transporta no meio, e os sábios lhe respondem que não se faz eruv no domínio público desse modo; Rabá responde que daquela se aprende, desta não; e Rav Ashi deduz da palavra “e mais”, da própria Mishná, que a razão é a borda do teto. Ali mesmo, em 95a, o capítulo termina com הַדְרָן עֲלָךְ כׇּל גַּגּוֹת, e começa a Mishná de quem encontra tefilin. O Bavli deste site ainda vai só até Eruvin 61b; por isso esta página não traz o link para Eruvin 95a.
Sobre a Mishná. O Penei Moshe explica que as duas casas estão dos dois lados do domínio público, uma diante da outra; que as pontes são abertas para o domínio público e têm duas divisórias embaixo, nos dois lados; que Rabi Yehudá permite transportar debaixo delas porque, mesmo no que é aberto para o domínio público, se diz que a borda do teto desce e fecha; e que os sábios proíbem, porque, no que é aberto para o domínio público, não se diz a borda do teto. Sobre o mavoi aberto, explica que Rabi Yehudá vai além: mesmo onde não cabe a borda do teto, pois o mavoi não tem teto, faz-se eruv nele, porque ele pensa que duas divisórias fazem, pela Torá, um domínio privado, e, pelos rabinos, faz-se eruv nele; e que a halachá segue os sábios. O Korban HaEdah explica que, debaixo do andar alto, a borda do teto de cá e de lá desce e fecha; que as pontes abertas têm divisórias embaixo, dos dois lados; e que se faz eruv no mavoi aberto porque há duas divisórias.
Sobre a seção 01. O Penei Moshe explica que Rav Huna diz que um domínio público coberto não é domínio público, e quem leva por ele quatro amot está isento. A pergunta de Rabi Shimon bar Karsana é de espanto, porque todas as leis do Shabat se aprendem do Mishkan, como era então no deserto; e o deserto era coberto, porque as carroças das tábuas eram cobertas, e debaixo delas, entre elas e ao lado delas era domínio público; logo, o domínio público coberto é domínio público. “A nossa Mishná não disse assim”, segundo ele, quer dizer que a Mishná não fala como Rabi Shimon bar Karsana, pois diz só “e os sábios proíbem”, e não há obrigação de chatat, já que, de todo modo, é coberto; e, segundo Rabi Shimon bar Karsana, a Mishná deveria dizer que os sábios obrigam. O Penei Moshe escreve הא חיוב חטאת אין כאן, com הא, onde o Sefaria tem הוּא. O Korban HaEdah diz que, por ser coberto, não é domínio público; que do deserto se aprende qual é o domínio público pelo qual se é obrigado; e que o deserto era coberto porque as nuvens de glória o cercavam, e daí se ouviria que mesmo pelo domínio público coberto se é obrigado; e que a Mishná não fala como ele, porque não diz “e os sábios obrigam”, e sim que certamente não há obrigação de chatat no domínio público coberto. O Korban HaEdah escreve ר' שמואל בר כרסנה, e o Penei Moshe, ר"ש בר כרסנה; a tradução seguiu o hebraico do Sefaria, רִבִּי שִׁמְעוֹן בַּר כַּרְסָנָה. O Mareh HaPanim mostra que a objeção é a mesma do Bavli Shabbat 98a, onde Rav Shmuel bar Yehudá diz, em nome de Rav Abba, em nome de Rav Huna, em nome de Rav: הַמַּעֲבִיר אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מְקוֹרֶה — פָּטוּר, לְפִי שֶׁאֵינוֹ דּוֹמֶה לְדִגְלֵי מִדְבָּר, “quem leva quatro amot num domínio público coberto está isento, porque não se parece com os estandartes do deserto”; e a guemará pergunta: e as carroças não eram cobertas? E Rav disse, em nome de Rabi Chiya, que debaixo delas, entre elas e ao lado delas era domínio público. O Mareh HaPanim diz que também aqui a conclusão, tirada da Mishná, é que no domínio público coberto não há obrigação de chatat, e sim que se está isento, mas é proibido. No Bavli, a palavra é de Rav, transmitida por Rav Huna; aqui, é de Rav Huna.
Sobre a seção 02. O Penei Moshe explica a pergunta: as pontes abertas, segundo Rabi Yehudá, precisam de divisória, ou, já que ele pensa que sempre se diz a borda do teto, transporta-se debaixo delas mesmo sem divisórias embaixo? Nisso divergem Rabi Ba e Rabi Yossi; o Penei Moshe escreve Rabi Ba nos dois lugares, onde o hebraico do Sefaria tem primeiro רַבָּא e depois רִבִּי בָּא. Os colegas dizem que Rabi Ba disse bem, porque se acha que Rabi Yehudá exige divisória como sinal, como se aprendeu no capítulo anterior, sobre a cisterna entre dois pátios: a parede entre eles conta como divisória, e não é preciso fazer outra; logo, de todo modo é preciso uma divisória. Rabi Yossi lhes responde que não se compara a palavra de Rabi Yehudá na nossa Mishná com a da parede entre dois pátios: “lá”, nas pontes abertas, onde há teto, não é preciso divisória, porque de todos os lados se diz a borda do teto; “aqui”, na cisterna e na parede, onde não há teto, é preciso divisória. Rav Yehudá, segundo ele, explica a palavra de Rabi Yehudá: transporta-se debaixo delas quando são abertas para um vale, que é karmelit (domínio intermediário); se são abertas para o domínio público, é proibido quando não há divisória, e permitido quando há; e daí se vê que a Mishná de Rabi Yehudá fala das abertas para um vale, e não precisa de divisória. O Korban HaEdah lê os lugares ao contrário: a Mishná da cisterna fala de onde não há teto, e por isso é preciso divisória; “aqui”, nas pontes, onde há teto, não é preciso, e se diz a borda do teto. Ele explica a pergunta como dúvida sobre a razão de Rabi Yehudá, se é a borda do teto ou se é que duas divisórias valem pela Torá, e entende que Rav Yehudá fala do mavoi aberto: as duas divisórias só bastam no aberto para um vale, e, no aberto para o domínio público, são precisas três divisórias; e diz que isso é o que Rabá disse, que, para o domínio público, é preciso divisória e não basta a borda do teto. O Mareh HaPanim diz que isso é como no Bavli, segundo Rabi Yehudá, que fala mesmo do aberto para o domínio público, com divisória embaixo dos dois lados; que, para Rabi Yehudá, sempre se diz a borda do teto, mesmo no aberto para o domínio público, e, no mavoi aberto, porque ele pensa que duas divisórias valem pela Torá; e que, para os sábios, não se diz a borda do teto no aberto para o domínio público, mas só no aberto para a karmelit, como a achsadrá no vale, segundo Rav, cuja halachá se segue. A Mishná citada pelos colegas é a avulsa Eruvin 8:6, que é também a Mishná da Halachá 8:6 do Yerushalmi: אָמַר רִבִּי יְהוּדָה לֹא תְהֵא מְחִיצָה גְּדוֹלָה מִן הַכּוֹתֶל שֶׁבֵּינֵיהֶן, “disse Rabi Yehudá: não seja a divisória maior que a parede que está entre eles”. Aqui a citação tem רִבִּי יוּדָן, גְּבוֹהָה e מִכּוֹתֶל; a tradução seguiu o hebraico, Rabi Yudan e “mais alta”, e o Penei Moshe, que escreve אמר ר' יהודה, e o Korban HaEdah, que escreve גדולה מן הכותל, citam a forma da Mishná.
Leituras incertas. אֵין רְשׁוּת הָרַבִּים מְקוּרֶה ficou “não há domínio público que seja coberto”, com o Penei Moshe e o Korban HaEdah, que leem que o coberto não é domínio público. וּמִדְבָּר מְקוּרֶה הָיָה ficou como afirmação, e o que cobria o deserto, as carroças ou as nuvens de glória, ficou para esta nota. הוּא חַיָיב חַטָּאת אֵין כָּאן ficou “a obrigação de chatat, essa não há aqui”, mantendo o הוּא do Sefaria. רַבָּא ficou Rabá, como está escrito, embora a frase seguinte diga רִבִּי בָּא e o Penei Moshe leia Rabi Ba nos dois lugares. יְאוּת אָמַר רִבִּי בָּא ficou como afirmação, “bem disse Rabi Ba”, com o Penei Moshe e o Korban HaEdah. “Lá” e “aqui”, na resposta de Rabi Yossi, ficaram sem dizer qual é a ponte e qual é a cisterna, porque o Penei Moshe e o Korban HaEdah os leem de modos diferentes. בִּקְעָה ficou “vale”. A última frase, בְּשֶׁאֵין שָׁם מְחִיצָה. אֲבָל יֵשׁ שָׁם מְחִיצָה מוּתָּר, ficou presa ao domínio público, como no Penei Moshe.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer escreve “Rebbi Simeon bar Carsana”, “Rebbi Jehudah”, “Rebbi Yose” e “Rav Jehudah”, e aqui ficaram Rabi Shimon bar Karsana, Rabi Yehudá na Mishná e Rabi Yudá na citação, Rabi Yossi e Rav Yehudá. Para רַבָּא ele escreve “Rebbi Abba”, e aqui ficou Rabá; para רִבִּי בָּא, também “Rebbi Abba”, e aqui ficou Rabi Ba; e para רִבִּי יוּדָן ele escreve “Rebbi Jehudah”, e aqui ficou Rabi Yudan. Ele faz pergunta de יְאוּת אָמַר רִבִּי בָּא e de וְלֹא מִן הַמִּדְבָּר לָמַדְתָּ. וּמִדְבָּר מְקוּרֶה הָיָה; aqui a primeira ficou afirmação, e, na segunda, a primeira frase ficou pergunta e a outra, exclamação. Traduz חַטָּאת com “purification offering” e בִּקְעָה com “agricultural area”; aqui ficaram chatat e vale. Põe a marca פיס׳ como “Paragraph”, e aqui ela não se traduz. Ele acrescenta entre colchetes e parênteses palavras que aqui ficaram em itálico. As palavras acrescentadas na tradução ficaram em itálico.
Referências conferidas no Sefaria. Mishná avulsa Eruvin 8:6, 9:4 e 10:1; Yerushalmi Eruvin 8:6 e 10:1; Bavli Eruvin 95a; Bavli Shabbat 98a; Penei Moshe, Korban HaEdah e Mareh HaPanim nesta halachá; o Sheyarei Korban não tem comentário nesta halachá no Sefaria. Referência corrigida: a nota de Guggenheimer sobre a citação dos colegas diz “Mishnah 8:7”, e a Mishná citada é a avulsa Eruvin 8:6, que é também a Halachá 8:6 do Yerushalmi; a avulsa 8:7 é a do canal de água que passa pelo pátio. A sua nota sobre Rav Huna remete ao Babli Shabbat 98a, e foi confirmada; ali a palavra é de Rav, transmitida por Rav Huna. Guggenheimer não dá número de Tosefta para esta halachá. Há link para o Bavli Shabbat 98a, que este site já tem; não há link para o Bavli Eruvin 95a, porque o Bavli deste site vai em Eruvin até 61b.
Nomes nesta página: Rabi Yehudá, רִבִּי יְהוּדָה, na Mishná, e Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָה, na citação da seção 01; Rav Huna, רַב הוּנָא, e Rabi Shimon bar Karsana, רִבִּי שִׁמְעוֹן בַּר כַּרְסָנָה, na seção 01; Rabá, רַבָּא, Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵי, Rabi Ba, רִבִּי בָּא, Rabi Yudan, רִבִּי יוּדָן, e Rav Yehudá, רַב יְהוּדָה, na seção 02. Na nota: Rabá, Abaye e Rav Ashi, do Bavli Eruvin 95a; Rav Shmuel bar Yehudá, Rav Abba, Rav e Rabi Chiya, do Bavli Shabbat 98a.
Do hebraico foram retirados só os rótulos de Mishná e de halachá, no começo do primeiro e do segundo segmentos, e o marcador da página da edição de Vilna 58b, no começo da seção 02, antes de מָהוּ. No texto do Sefaria desta halachá não há marcador da edição de Veneza. Não há marcador numérico, parênteses ou colchetes, e nada foi acrescentado. Foi mantida a marca פיס׳, no começo da seção 01, que, como nas outras páginas, não se traduz; não há aqui as marcas כול׳ nem כו׳. Foram mantidas as grafias do Sefaria, como עֲלִיָיה e הַמְפוּלָּשִׁין, na Mishná; מְקוּרֶה e חַיָיב, na seção 01; e חֲבֵרַיָיא, דְאַתָּ מַר e שָָׁם, com dois sinais de kamatz, em שֶׁאֵין שָָׁם תִּקְרָה, na seção 02; os dois pontos no fim da Mishná são do Sefaria. O Penei Moshe, o Korban HaEdah e o Mareh HaPanim fecham o capítulo com הדרן עלך פרק כל גגות.
A Mishná seguinte, Eruvin 10:1, abre o Perek Yud, HaMotzei Tefillin (quem encontra tefilin): “הַמּוֹצֵיא תְפִילִּין מַכְנִיסָן זוּג זוּג…”, “quem encontra tefilin os leva para dentro par por par…”; Raban Gamliel diz: dois a dois; isso se diz das velhas, mas das novas está isento; se as encontrou em feixes ou em rolos, espera que escureça sobre elas e as traz; e, em perigo, cobre-as e vai embora. Assim está na Mishná da Halachá 10:1 do Yerushalmi; a Mishná avulsa Eruvin 10:1 escreve הַמּוֹצֵא תְפִלִּין, e no Bavli essa Mishná está em Eruvin 95a, logo depois do fim do capítulo Kol Gaggot.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Tet de Massechet Eruvin, Kol Gaggot (כׇּל גַּגּוֹת).