Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Alef (HaZorek)
רְשׁוּיוֹת מִצְטָרְפוֹת

A baraita completa: menos de quatro côvados é isento, e as propriedades se combinam; Rav distingue a via pública coberta das bandeiras do deserto, desafiado pelas carroças do Tabernáculo; e a Guemará calcula as tábuas para saber onde estava a via pública

Shabbat 98a abre completando a baraita deixada em aberto em 97b, com a Guemará extraindo dois ensinamentos; debate a declaração de Rav sobre a via pública coberta e a desafia com as carroças do Tabernáculo; calcula largura e espessura das tábuas para determinar se cabiam quatro fileiras sob a carroça; e fecha com Rav Kahana esclarecendo que a referência de Rav era ao vão dos anéis

98a abre completando, palavra por palavra, a frase com que 97b havia terminado: a baraita que responsabiliza quem lança um objeto de via pública a via pública, com propriedade privada no meio, se o objeto percorrer, ao todo, quatro côvados nas duas partes da via pública, agora acrescenta o caso oposto — se percorrer menos de quatro côvados, é isento. A Guemará pergunta o que este acréscimo vem ensinar, e responde com dois pontos: que as propriedades (as duas partes da via pública) se combinam para a soma de quatro côvados, e que não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado — de modo que o objeto que passa pela propriedade privada no meio não se torna, por isso, "pousado" ali. A Guemará então traz uma declaração transmitida por Rav Shmuel bar Yehuda em nome de Rav Abba, Rav Huna e Rav: quem faz um objeto passar quatro côvados numa via pública coberta é isento, pois uma via pública coberta não é semelhante às bandeiras do acampamento de Israel no deserto, que não eram cobertas. A Guemará desafia essa declaração com as carroças que transportavam as tábuas do Tabernáculo, que eram cobertas, e ainda assim Rav, em nome de Rabi Chiyya, ensinara que debaixo delas, entre elas e aos seus lados era via pública; a Guemará responde que a declaração de Rav se referia a quando as tábuas estavam arranjadas em fileiras, deixando vãos. Segue-se um cálculo técnico minucioso: a Guemará mede o comprimento da carroça (cinco côvados) e a largura de uma tábua (um côvado e meio) para determinar quantas fileiras cabiam lado a lado — três, com meio côvado sobrando, distribuído entre elas como lavud (unido); a Guemará então questiona se as tábuas eram colocadas deitadas ou apoiadas por sua ponta estreita, concluindo que eram apoiadas por sua espessura. Passa então a medir a espessura da tábua (um côvado) para determinar quantas fileiras cabiam nessa orientação — quatro, com um côvado sobrando, também distribuído como lavud — e nota que esse resultado funciona bem segundo quem diz que as tábuas se estreitavam até a largura de um dedo no topo, mas permanece em aberto segundo quem diz que mantinham a espessura de um côvado do topo à base. A folha fecha com Rav Kahana esclarecendo que a declaração original de Rav não se referia às próprias tábuas, mas ao vão entre elas onde os anéis (usados para as barras de sustentação) estavam fixados; questionado onde ficavam esses anéis, a resposta é que ficavam em cima da carroça, a qual, portanto, era ela mesma coberta.

A baraita se completa: propriedades se combinam · רְשׁוּיוֹת מִצְטָרְפוֹת

268A baraita completa a frase deixada em aberto em 97b: menos de quatro côvados, é isento
A mesma baraita (continuação direta de 97b)
פָּחוֹת מֵאַרְבַּע אַמּוֹת — פָּטוּר.

Menos de quatro côvados — se o objeto lançado de via pública a via pública, com propriedade privada no meio, percorrer, ao todo, menos de quatro côvados nas duas partes da via pública — é isento.

Nota — a frase de 97b se completa

98a abre exatamente onde 97b parou: a baraita, que responsabilizava quem lançasse um objeto de via pública a via pública com propriedade privada no meio, percorrendo ao todo quatro côvados nas duas partes da via pública, agora acrescenta o caso complementar — menos de quatro côvados, isento, pois nem a responsabilidade por carregar de propriedade privada a via pública nem a de carregar dentro da via pública se completam.

269A Guemará pergunta o que isto ensina: as propriedades se combinam, e o objeto no ar não é considerado pousado
A Guemará
מַאי קָא מַשְׁמַע לַן? הָא קָא מַשְׁמַע לַן: רְשׁוּיוֹת מִצְטָרְפוֹת — וּדְלָא אָמְרִינַן קְלוּטָה כְּמָה שֶׁהוּנְּחָה.

O que isto vem nos ensinar? Isto vem nos ensinar dois pontos: que as propriedades — as duas partes da via pública, separadas pela propriedade privada — se combinam para a soma de quatro côvados; e que não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado — de modo que o objeto, ao atravessar o espaço aéreo da propriedade privada no meio, não se torna, por isso, "pousado" ali, e continua sendo contado como em trânsito pela via pública.

Nota

A Guemará explica por que a baraita precisava ensinar o caso de "menos de quatro côvados, isento": há dois pontos que, sem ele, não seriam óbvios. Primeiro, que as duas partes da via pública — separadas pela propriedade privada no meio — se somam como se fossem uma só, para o cômputo dos quatro côvados que geram responsabilidade; sem essa soma, poder-se-ia pensar que cada parte precisa, isoladamente, atingir quatro côvados. Segundo, que não se aplica aqui o princípio de que um objeto "capturado" no ar é considerado como tendo pousado — pois, se esse princípio se aplicasse, o objeto seria considerado como tendo pousado já ao entrar no espaço aéreo da propriedade privada, interrompendo a soma e tornando cada trecho da via pública independente para o cálculo dos quatro côvados.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "pachot me'arba patur", "reshuyot" e "mitztarfot"
פחות מארבע פטור - דמשום הוצאה לא מיחייב דלא אמרינן קלוטה כמה שהונחה: רשויות - השוות: מצטרפות - רשות הרבים זו עם רשות הרבים זו ודלא כר' יוסי דאמר בפרק המוציא יין (לעיל שבת פ.) אף בהעלם אחד לרשות אחד חייב לשתי רשויות פטור ועוד קא משמע לן דלא אמרינן קלוטה כמה שהונחה:

"'Menos de quatro, é isento'" — porque, quanto a carregar para fora, ele não é responsável, pois não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado. "'Propriedades'" — as equivalentes , isto é, as duas partes da via pública, do mesmo tipo de domínio. "'Se combinam'" — esta via pública com aquela via pública; e não como Rabi Yossi, que diz, no capítulo HaMotzi Yayin (acima, Shabat 80a), que, mesmo num único esquecimento, para uma só propriedade é responsável, para duas propriedades é isento; e, além disso, isto vem nos ensinar que não dizemos que um objeto capturado no espaço aéreo é considerado como tendo repousado.

Rav: a via pública coberta não é como as bandeiras do deserto · מְקוֹרָה — פָּטוּר, לְפִי שֶׁאֵינוֹ דּוֹמֶה לְדִגְלֵי מִדְבָּר

270Rav: quem faz um objeto passar quatro côvados na via pública coberta é isento, pois ela não é como as bandeiras do deserto
Rav Shmuel bar Yehuda, em nome de Rav Abba, em nome de Rav Huna, em nome de Rav
אָמַר רַב שְׁמוּאֵל בַּר יְהוּדָה, אָמַר רַב אַבָּא, אָמַר רַב הוּנָא, אָמַר רַב: הַמַּעֲבִיר אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מְקוֹרֶה — פָּטוּר, לְפִי שֶׁאֵינוֹ דּוֹמֶה לְדִגְלֵי מִדְבָּר.

Disse Rav Shmuel bar Yehuda, disse Rav Abba, disse Rav Huna, disse Rav: quem faz passar um objeto quatro côvados numa via pública coberta é isento, pois ela não é semelhante às bandeiras do acampamento de Israel no deserto , que não eram cobertas.

Nota

A Guemará traz uma nova declaração de Rav, transmitida por três elos de tradição: quem carrega um objeto por quatro côvados dentro de uma via pública coberta — por exemplo, sob um telhado ou um teto — não é responsável, pois a fonte bíblica que responsabiliza por carregar quatro côvados na via pública deriva das bandeiras sob as quais o acampamento de Israel se organizava no deserto, e essas bandeiras não eram cobertas; uma via pública coberta, por não se assemelhar a elas, fica fora da categoria original de trabalho proibido.

271A Guemará desafia: as carroças do Tabernáculo eram cobertas, e ainda assim Rav ensinara que debaixo delas era via pública
A Guemará; Rav, em nome de Rabi Chiyya
אִינִי?! וְהָא עֲגָלוֹת דִּמְקוֹרוֹת הָוְיָין, וְאָמַר רַב מִשּׁוּם רַבִּי חִיָּיא: עֲגָלוֹת, תַּחְתֵּיהֶן וּבֵינֵיהֶן וְצִדֵּיהֶן רְשׁוּת הָרַבִּים!

É assim mesmo?! Ora, as carroças que transportavam as tábuas do Tabernáculo eram cobertas, e Rav disse em nome de Rabi Chiyya: as carroças — debaixo delas, entre elas, e aos seus lados, tudo isso é via pública!

Nota

A Guemará desafia a declaração de Rav com sua própria tradição: no deserto, as carroças usadas para transportar as tábuas do Tabernáculo eram cobertas — as próprias tábuas, empilhadas sobre elas, formavam um teto —, e ainda assim Rav ensinara, em nome de Rabi Chiyya, que o espaço debaixo dessas carroças, entre elas e aos seus lados, tinha o estatuto de via pública. Se uma via pública coberta não gera responsabilidade por não se assemelhar às bandeiras descobertas, como poderia o espaço sob as carroças cobertas ser considerado via pública?

272A Guemará responde: Rav se referia a quando as tábuas estavam arranjadas em fileiras, deixando vãos
A Guemará
כִּי קָאָמַר רַב בְּדָרָאתָא.

Quando Rav disse isso, referia-se apenas a quando as tábuas estavam arranjadas em fileiras , deixando vãos entre elas.

Nota

A Guemará resolve o desafio: a declaração de Rav sobre debaixo das carroças ser via pública não se refere a quando toda a área estava totalmente coberta pelas tábuas empilhadas lado a lado sem interrupção, mas a quando as tábuas eram arranjadas em fileiras espaçadas, deixando vãos abertos entre uma fileira e outra — e é apenas nesses vãos, não cobertos, que o espaço sob a carroça mantinha o estatuto de via pública comum. A Guemará passa agora a calcular, com precisão, se tais vãos realmente existiam.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mekora", "veha agalot", "demekurot havu", "uveineihen", "vetzideihen", "ki ka'amar Rav" e "bedarata"
מקורה - מכוסה: והא עגלות - דמשכן: דמקורות הוו - בקרשים הסדורין עליהן רחבן לאורך העגלה ואורכן לרחבן על ראש דפנותיה וקא סלקא דעתך על פני כל אורך העגלות היו מסודרות: וביניהן - בין עגלה לעגלה שבצדה ואף על פי שראשי הקרשים יוצאים לכאן ולכאן שתי אמות ומחצה לכל רוח וראשי קרשים של עגלה זו מגיעין לראשי קרשים של זו שבצדה שהרי חמש אמות היו בין עגלה לעגלה כדלקמן ורחב עגלה חמש אמות החלל שתי אמות ומחצה ובין הדפנות והאופנים ועובי האופנים שתי אמות ומחצה וי' אמות אורך הקרש וכשאורכה נתון על דופני עגלה לרחבה נמצאו ב' אמות ומחצה בולטין מכל צד ונמצא ריוח שבין ב' העגלות מקורה בראשי קרשים: וצדיהן - ריוח שבין דופן עגלה לאופן ועובי האופן: כי קאמר רב - תחתיהן רה"ר: בדראתא - בריוח שבין שורות הסדר שהיה סודר קרש על קרש סדר אחד ומניחו ריוח וסודר סדר אחר ומניחו ריוח:

"'Coberta'" — encoberta. "'Ora, as carroças'" — do Tabernáculo. "'Eram cobertas'" — pelas tábuas arranjadas sobre elas, cuja largura estava disposta ao longo do comprimento da carroça, e cujo comprimento estava disposto na largura, sobre o alto de suas paredes; e vem à mente, neste ponto, que estavam arranjadas ao longo de todo o comprimento das carroças. "'E entre elas'" — entre uma carroça e a carroça ao seu lado; e, ainda que as pontas das tábuas saiam para cá e para lá, dois côvados e meio para cada lado, as pontas das tábuas de uma carroça alcançam as pontas das tábuas daquela ao seu lado, pois havia cinco côvados entre uma carroça e a outra, como se dirá adiante; e a largura da carroça era de cinco côvados — o vão, dois côvados e meio, e entre as paredes e as rodas, e a espessura das rodas, dois côvados e meio; e o comprimento da tábua era de dez côvados, e, quando seu comprimento é colocado sobre as paredes da carroça pela largura, resultam dois côvados e meio salientes de cada lado — resultando que o vão entre as duas carroças ficava coberto pelas pontas das tábuas. "'E aos seus lados'" — o vão entre a parede da carroça e a roda, e a espessura da roda. "'Quando Rav disse'" — que debaixo delas era via pública. "'Em fileiras'" — no vão entre as fileiras de arranjo, pois se arranjava tábua sobre tábua numa fileira e se deixava um vão, e arranjava-se outra fileira e se deixava um vão.

O cálculo do comprimento da carroça e da largura das tábuas · מִכְּדֵי אוּרְכָּא דַעֲגָלָה כַּמָּה הֲוַאי

273A Guemará calcula: cinco côvados de comprimento, tábuas de côvado e meio, três fileiras cabem — e o resto se distribui como lavud
A Guemará
מִכְּדֵי, אוּרְכָּא דַעֲגָלָה כַּמָּה הֲוַאי — חֲמֵשׁ אַמִּין, פּוּתְיָא דְקֶרֶשׁ כַּמָּה הֲוַאי — אַמְּתָא וּפַלְגָא, כַּמָּה מוֹתֵיב — תְּלָתָא, פָּשׁ לֵיהּ פַּלְגָא דְאַמְּתָא, כִּי שָׁדֵי לֵיהּ מָר בֵּינֵי וּבֵינֵי — כְּלָבוּד דָּמֵי! מִי סָבְרַתְּ קְרָשִׁים אַפּוּתַיְיהוּ הֲוָה מַנַּח לְהוּ? אַחוּדָּן מַנַּח לְהוּ.

Afinal, quanto media, ao todo, o comprimento de uma carroça? Cinco côvados. Quanto media a largura de uma tábua? Um côvado e meio. Quantas tábuas ele conseguia colocar lado a lado? Três, totalizando quatro côvados e meio. Restava-lhe meio côvado de espaço vazio. Quando o Mestre distribui esse meio côvado entre elas — entre as três fileiras —, é como se o espaço estivesse unido (lavud) , e portanto coberto, sem vãos suficientes para ser via pública! A Guemará responde: pensas que colocavam as tábuas apoiadas por sua largura? Colocavam-nas apoiadas por sua ponta estreita — pela espessura, não pela largura.

Nota

A Guemará inicia um cálculo técnico para verificar se, de fato, havia vãos suficientes sob a carroça para que se qualificasse como via pública. Medindo o comprimento da carroça (cinco côvados) contra a largura de cada tábua (um côvado e meio), conclui-se que cabiam apenas três tábuas lado a lado, totalizando quatro côvados e meio, restando meio côvado de espaço vazio; distribuído entre as três fileiras, esse resto resultaria em vãos tão pequenos que seriam tratados como "lavud" (unidos, contíguos por lei) — ou seja, a área ficaria efetivamente coberta, sem verdadeiro vão de via pública, o que contradiria a afirmação de Rav. A Guemará resolve a dificuldade: a premissa do cálculo estava errada — as tábuas não eram colocadas deitadas, mostrando sua largura de um côvado e meio ao longo do comprimento da carroça, mas apoiadas verticalmente por sua ponta estreita, de modo que a dimensão relevante para esse cálculo é a espessura da tábua, não sua largura.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chamesh amot", "kama motiv", "shedei leih mar beinei uveinei" e "achudan manach lehu"
ה' אמות - כדלקמן: כמה מותיב - כמה סדרים יכול להושיב על אורך דופנותיה תלתא ותו לא ומחזיקות ד' אמות וחצי פש ליה ריוח פלגא דאמתא: שדי ליה מר ביני וביני - כשאתה מחלק לריוח שבין הסדרים אין בכל ריוח אלא רביע אמה דהוא טפח ומחצה דה"ל לבוד והיינו מקורה: אחודן מנח להו - דאיכא רווחא טפי:

"'Cinco côvados'" — como se dirá adiante. "'Quantas colocava'" — quantas fileiras podia colocar ao longo de suas paredes; três, e não mais, ocupando quatro côvados e meio; restava-lhe um vão de meio côvado. "'O Mestre distribui entre elas'" — quando divides o meio côvado pelo vão entre as fileiras, não há em cada vão senão um quarto de côvado, que é um palmo e meio — o que é considerado unido (lavud); e é por isso que a área fica coberta. "'Colocavam-nas por sua ponta'" — pois assim havia mais espaço.

A espessura da tábua e a disputa sobre seu formato · סוֹף סוֹף סוּמְכָא דְקֶרֶשׁ כַּמָּה הָוֵי

274Quatro fileiras pela espessura, e um côvado sobrando — mas a solução só funciona segundo uma opinião sobre o formato das tábuas
A Guemará
סוֹף סוֹף סוּמְכָא דְקֶרֶשׁ כַּמָּה הָוֵי — אַמְּתָא, כַּמָּה הֲוָה מוֹתִיב — אַרְבְּעָה, פָּשָׁא לַהּ אַמְּתָא, כִּי שָׁדֵי לַהּ מָר בֵּינֵי וּבֵינֵי, כְּלָבוּד דָּמֵי. הָנִיחָא לְמַאן דְּאָמַר קְרָשִׁים מִלְּמַטָּן עוֹבְיָין אַמָּה, מִלְּמַעְלָן כָּלִין וְהוֹלְכִין עַד כְּאֶצְבַּע — שַׁפִּיר. אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר כְּשֵׁם שֶׁמִּלְּמַטָּן עוֹבְיָין אַמָּה כָּךְ מִלְּמַעְלָן עוֹבְיָין אַמָּה, מַאי אִיכָּא לְמֵימַר?

Afinal, quanto era, ao todo, a espessura de uma tábua? Um côvado. Quantas fileiras ele conseguia colocar assim? Quatro. Restava-lhe um côvado de espaço vazio. Quando o Mestre distribui esse côvado entre elas — entre as quatro fileiras —, é como se o espaço estivesse unido (lavud) , e o espaço ficaria coberto, resolvendo a dificuldade. Isto está bem segundo quem diz que as tábuas, por baixo, tinham a espessura de um côvado, e por cima iam se estreitando até a largura de um dedo — está bem , pois então havia mais espaço no topo das tábuas do que um côvado, e o vão superior não seria lavud. Mas, segundo quem diz que, assim como por baixo tinham a espessura de um côvado, também por cima tinham a espessura de um côvado, o que se pode dizer?

Nota

Corrigida a premissa, a Guemará refaz o cálculo com a espessura da tábua (um côvado) em vez de sua largura: cabiam quatro fileiras ao longo do comprimento da carroça, totalizando quatro côvados, restando um côvado de espaço vazio, distribuído entre as quatro fileiras. Mas a Guemará nota que esse novo resultado só resolve a dificuldade — mantendo vãos reais, não meramente "lavud" — segundo a opinião de que as tábuas se afilavam, estreitando-se do côvado de espessura na base até a largura de apenas um dedo no topo; nesse caso, no alto das tábuas (onde as bandeiras/os anéis ficavam) haveria mais espaço aberto do que embaixo. Mas, segundo a opinião de que as tábuas mantinham a mesma espessura de um côvado do topo à base, o problema permanece sem solução, e a folha o deixa em aberto, para a continuidade da sugya em 98b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sumcha", "amta", "kama motiv", "arba'ah", "ki shedei mar beinei uveinei", "hanicha" e "ela leman de'amar"
סומכא - עובי: אמתא - כדמשני לקמן עוביין אמה: כמה מותיב - כמה סדרים הוא מסדר: ארבעה - דעל כרחיך כל מה שיכול לסדר על פני אורך העגלה הוא מסדר ואינו מגביה להושיב זו על זו שהרי י"ב קרשים היו לעגלה אחת שמ"ח קרשים היו כ' קרשים לצפון ועשרים לדרום ושש למערב ושנים למקצועות וכיון דרחבן אמה וחצי ומושב חודן קצר אם אתה מסדר זו על זו הרבה הן נופלות הלכך כמה הוא מותיב ארבע דחמשה בחמשה לא יתבי דאי אפשר לדוחקן ולצמצם להושיב ה' בתוך ה' אמות ועוד מפני בליטת הטבעות: כי שדי מר ביני וביני - לחלקה לאמה זו ג' רווחים שבין ארבע סדרים כלבוד דמי שאין כאן ריוח אלא שני טפחים: הניחא - הא דאמרת שהריוח הזה רשות הרבים הוא למ"ד שעובי הקרשים כלה והולך עד כאצבע איכא למימר דאיכא רווחא טפי בין ד' סדרים: אלא למ"ד כו' - פלוגתא לקמן בשמעתין:

"'Espessura'" — a grossura. "'Um côvado'" — conforme se responde adiante, sua espessura era de um côvado. "'Quantas colocava'" — quantas fileiras arranjava. "'Quatro'" — pois, necessariamente, tudo o que se pode arranjar ao longo do comprimento da carroça se arranja, e não se empilha muito alto, uma sobre a outra, pois havia doze tábuas para cada carroça — ao todo quarenta e oito tábuas no Tabernáculo: vinte tábuas para o norte, vinte para o sul, seis para o oeste e duas para os cantos; e, como sua largura era de um côvado e meio, e seu assento pela ponta é estreito, se as arranjasses muitas, uma sobre a outra, elas cairiam; por isso, quantas colocava? Quatro, pois cinco em cinco não cabem, já que é impossível apertá-las e comprimi-las para colocar cinco dentro de cinco côvados, e também por causa da saliência dos anéis. "'Quando o Mestre distribui entre elas'" — dividindo este côvado pelos três vãos entre as quatro fileiras, é como se estivesse unido (lavud), pois não há aí senão dois palmos de vão. "'Isto está bem'" — o que disseste, que este vão é via pública, funciona segundo quem diz que a espessura das tábuas ia se estreitando até a largura de um dedo — pode-se dizer que havia mais vão entre as quatro fileiras. "'Mas segundo quem diz'" etc. — trata-se de uma disputa que aparece mais adiante nesta mesma sugya.

Rav Kahana: a referência era ao vão dos anéis · בְּאַטְבְּעֵי

275Rav Kahana: Rav se referia ao vão dos anéis, que ficava em cima da carroça — ela mesma coberta
Rav Kahana; a Guemará
אָמַר רַב כָּהֲנָא: בְּאַטְבְּעֵי! אַטְבְּעֵי הֵיכָא מַנַּח לְהוּ — אַגַּבָּא דַעֲגָלָה, עֲגָלָה גּוּפַהּ מְקוֹרָה הֲוַאי.

Disse Rav Kahana: a declaração de Rav referia-se aos anéis — ao vão onde os anéis estavam fixados nas tábuas! A Guemará pergunta: onde colocavam os anéis? Resposta: em cima da carroça , sobre as próprias tábuas empilhadas — e portanto a carroça mesma , ali, era coberta.

Nota — a folha termina aqui

Rav Kahana propõe uma leitura diferente da declaração original de Rav (em nome de Rabi Chiyya): não se referia às tábuas propriamente, mas ao vão específico entre os lados das tábuas onde os anéis — usados para prender as barras de sustentação do conjunto — estavam fixados; esses anéis, por serem verticais e largos, exigiam um vão maior do que a mera espessura da madeira permitia, e é nesse vão, junto às pontas das tábuas, que o estatuto de via pública se aplicava com certeza, independentemente da disputa sobre o formato das tábuas. A Guemará então pergunta onde, exatamente, esses anéis ficavam localizados, e a resposta — em cima da carroça, ou seja, na parte superior, junto ao topo das tábuas empilhadas — confirma que a carroça, em si, era coberta por baixo; a folha termina neste ponto, com a questão sobre a disputa dos dois formatos de tábua (beat 274) ainda em aberto, a ser retomada em 98b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "amar Rav Kahana be'atba'ei"
אמר רב כהנא באטבעי - בריוח שבין צדי הקרשים שהטבעות קבועות בהם קאמר רב דהוי רשות הרבים כלומר אי אפשר לסדר בה ארבע סדרים כדקאמרת לפי שטבעות קבועין בקרשים כדכתיב (שמות כ"ו:כ"ט) ואת טבעותיהם תעשה זהב שהיה תוחב הבריחים לתוכן לפי שהן גבוהות וכשיושבות על האדנים שאינם אלא אמה מנענעות לפנים או לאחור אלא שהבריחים מחברים את כולם והבריח התיכון מחבר כל ג' הרוחות ומחזיקין זה את זה ואותן טבעות זקופין היו ולא שוכבין והיו רחבין ואי אפשר להן לעמוד זה כנגד זה באותו ריוח לפיכך מושיב שתים זו אצל זו בראש העגלה האחת ופונה צד הטבעות של חיצונה לחוץ ושל פנימית לפנים ואין צריך להניח ריוח ביניהן וכן בראש העגלה השני וכל אחת הריוח באמצע בין צדי הטבעות כך פירשו רבותי וכך היו גורסין אמר רב כהנא באטבעי אטבעי היכא מנח להו אגבא דעגלה ועגלה גופה מקורה הואי אמר שמואל ביתדות ומפרש אטבעי כמו טבעי ופרכינן הנך רווחא דאטבעי היכא מנח להו אגבא דעגלה כדפרישית והתינח צדיהן וביניהן רשות הרבים אלא תחתיהן היכי הוי רשות הרבים הא עגלה גופה מקורה הואי דקא סלקא דעתך שהיו עשויות כעלייה מלמטה כאותן שלנו שטוענין בהן חול ועפר לבנין:

"'Disse Rav Kahana: nos anéis'" — Rav referia-se ao vão entre os lados das tábuas onde os anéis estavam fixados, dizendo que ali era via pública; ou seja, não era possível arranjar ali quatro fileiras, como dissestes, porque havia anéis fixados nas tábuas, como está escrito: "e farás seus anéis de ouro" (Êxodo 26:29), nos quais se enfiavam as barras de sustentação, pois eram altas e, quando assentadas sobre as bases — que tinham apenas um côvado de altura — balançavam para frente ou para trás; mas as barras uniam todas as tábuas, e a barra central unia os três lados e as mantinha firmes umas às outras; e esses anéis eram verticais, não deitados, e eram largos, e não podiam ficar um diante do outro naquele vão; por isso colocava-se duas tábuas, uma ao lado da outra, na ponta de uma carroça, virando o lado dos anéis da tábua externa para fora, e o da interna para dentro, sem necessidade de deixar vão entre elas; e o mesmo na ponta da segunda carroça; e, em cada uma, o vão ficava no meio, entre os lados dos anéis. Assim explicaram meus mestres, e assim liam o texto: "Disse Rav Kahana: nos anéis. Onde colocavam os anéis? Em cima da carroça — e a própria carroça era coberta." Já Shmuel lia: "nas estacas" — e explica "atba'ei" como equivalente a "tav'ei" (anéis). E perguntamos: esse vão dos anéis, onde o colocavam? Em cima da carroça, como expliquei; e isto explica bem que aos seus lados e entre elas era via pública; mas debaixo delas, como poderia ser via pública, se a própria carroça era coberta? Pois vinha à mente que as carroças eram feitas como um sótão por baixo, como aquelas carroças nossas em que se carrega areia e terra para construção.