Quinta halachá do Perek Alef, Or LeArbaá Asar (na noite do catorze), de Massechet Pessachim. A Mishná conta que, no Templo, duas chalot (pães) de todá (a oferta de agradecimento) ficavam sobre o telhado do pórtico como sinal: enquanto estavam ali, comia-se o chametz; tirada uma, suspendia-se; tiradas as duas, queimava-se. Raban Gamliel diz que o chulin se come até o fim da quarta hora e a teruma até o fim da quinta. Na guemará, discute-se se as chalot eram aptas ou desqualificadas; trazem-se outros sinais, as duas vacas, as lamparinas e os lençóis do Shabat; pergunta-se por que não se fazia um toque de trombeta; examina-se se a hora a mais da teruma vem da sua santidade ou de haver poucos que a comem; e conclui-se que a halachá é como Raban Gamliel.
Mishná: E disse ainda Rabi Yehudá: havia duas chalot (pães) de todá (a oferta de agradecimento), desqualificadas, e postas sobre o telhado da itztabá (o pórtico do Monte do Templo). Todo o tempo em que estão postas, todo o povo come chametz. Retirada uma delas, suspende-se: não se come e não se queima. Retiradas as duas, todo o povo começou a queimar. Raban Gamliel diz: o chulin (alimento não consagrado) se come durante toda a hora quatro, e a teruma (a porção do kohen), durante toda a cinco; e queima-se no começo da seis.
Rabi Shimon ben Lakish disse em nome de Rabi Yanai: eram aptas. Por causa de quê ele (o tana da Mishná) as desqualifica? Por não se abater sobre elas o sacrifício.
E não é pelo abate que elas se tornam santas? Então seja resgatado o pão e comido!
Disse Rabi Chananiá: o chulin (alimento não consagrado) que estava diante dele, a pessoa não comeu; e tu disseste: seja resgatado e comido?
Rabi Chanina disse: eram desqualificadas, porque eles se apressam a trazer as suas ofertas de todá por causa do chametz (o fermentado) que há na todá, e é impossível que não se derrame o sangue de uma delas, e ela fica desqualificada.
Foi ensinado: havia duas vacas lavrando em Jerusalém. E Jerusalém não é um lugar onde se costumou não fazer trabalho no dia catorze? Apenas pareciam lavrar.
Há tanaim (os que recitam as baraitot) que ensinam: duas lamparinas acesas. Há tanaim que ensinam: dois lençóis.
Disse Rabi Pinchas: e não divergem. Quem disse “duas vacas”, “duas lamparinas”, falou do dia comum; quem disse “dois lençóis”, falou do Shabat.
Rabi Chananiá perguntou diante de Rabi Mana: e que se estabeleça para isso uma tekiá (um toque de trombeta)!
Disse-lhe: se dizes assim, acabarás dizendo: talvez para o tamid (a oferta diária) eles tocam; e eles se desencaminham.
Disse-lhe: mas eis que ensinamos: “três toques para fazer o povo parar o trabalho, e três para separar entre o sagrado e o profano” (Mishná Suca 5:5).
Disse-lhe: ali, em toda e qualquer véspera de Shabat eles tocam, e não erram; mas aqui é uma vez em longos intervalos (uma vez por ano).
Se dizes assim, também eles pensam: talvez para o tamid eles tocam; e eles se desencaminham.
Por que a teruma se come durante toda a hora cinco? Por causa da sua santidade, ou porque os que a comem não são comuns (só os kohanim a comem)?
O que sai de entre eles? As chalot (pães) da todá (a oferta de agradecimento).
Se disseres que é porque os que a comem não são comuns, estas, os que as comem são comuns; se disseres que é por causa da sua santidade, estas têm santidade.
Rabi Natan diz: aptas foram retiradas as chalot; espera-se por elas uma hora para que sejam comidas, e suspende-se, mas não se queima.
Tens como dizer que é porque os que a comem não são comuns? Não é por causa da sua santidade? Também aqui, na teruma, é por causa da sua santidade.
Disse Rabi Yudá ben Pazi: parecem acertadas as palavras: que a halachá seja como Raban Gamliel, pois ele diz algo semelhante aos dois (a Rabi Meir e a Rabi Yehudá).
Veio Rabi Avun e trouxe: Rabi Yochanan disse em nome de Rabi Shimon ben Yotzadak: a halachá é como Raban Gamliel, pois ele diz algo semelhante aos dois.
Esta é a quinta halachá do Perek Alef, Or LeArbaá Asar (na noite do catorze), de Massechet Pessachim. A halachá ocupa seis segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros cinco é uma seção desta página, de 01 a 05, divididas em pares de hebraico e português. Nada foi deixado de fora. Conferiu-se no Sefaria que a Mishná desta halachá é a Mishná avulsa Pessachim 1:5, inteira, e que o Sefaria liga este segmento a “Mishnah Pesachim 1:5” e ao Bavli Pessachim 13b. O Yerushalmi diz וּמוּנָּחוֹת, שֶׁהֶן מוּנָּחוֹת, הָאִיצְטֳבָא e רִבִּי יְהוּדָה, onde a avulsa diz מֻנָּחוֹת, שֶׁמֻּנָּחוֹת, הָאִצְטַבָּא e רַבִּי יְהוּדָה; a diferença não muda o sentido.
Sobre a Mishná. O Penei Moshe explica que as duas chalot são do chametz da todá, que tem quarenta pães, dez deles de chametz. Por que eram desqualificadas, ele o traz do Bavli: como todos traziam as suas todot no dia treze, e não no catorze, porque no catorze não se poderiam comer senão até a sexta hora, e não se traz um sacrifício para levá-lo à desqualificação, os pães eram muitos e ficavam desqualificados por terem passado a noite. O Penei Moshe e o Korban HaEdah dizem que a itztabá ficava no Monte do Templo, para que todos vissem as chalot como sinal, e que no começo da quinta hora vinha um mensageiro do tribunal e tirava uma delas, e o povo sabia que chegara a quinta e suspendia. Para Raban Gamliel, o chulin se come até o fim da quarta, como Rabi Yehudá; a teruma, por causa da sua santidade, ganhou uma hora a mais, já que pela Torá ainda é permitida; o Korban HaEdah explica que é proibido destruir com as próprias mãos coisas consagradas enquanto se pode comê-las, e que se queima no começo da sexta porque a maioria erra entre a sexta e a sétima. O Penei Moshe escreve, sobre a Mishná, ואין הל׳ כר״ג, “e a halachá não é como Raban Gamliel”, embora a seção 05 traga que a halachá é como ele.
Sobre a seção 01. O Penei Moshe explica que, para Rabi Yanai, as chalot não eram realmente desqualificadas, pois não faltava quem as comesse, já que os pães da todá são permitidos aos não kohanim; o tana as chama desqualificadas porque não se abateu sobre elas o sacrifício, por exemplo porque o animal se perdeu, e é o sacrifício que as permite para comer. A pergunta seguinte, segundo ele, é de Rabi Shimon ben Lakish, que é Reish Lakish: os pães só ganham a santidade do próprio corpo com o abate, e antes disso têm só a santidade do valor; então, que sejam resgatados e voltem a ser chulin. O Korban HaEdah traz Vayikra 7:13, “sobre chalot de pão de chametz oferecerá a sua oferta, sobre o sacrifício”, e a derashá de que o pão só se santifica com o abate da todá. A resposta de Rabi Chananiá é, segundo o Penei Moshe, que, desde o fim da quarta hora, o chametz já não se come, e há muito chulin à mão; para que resgatar estes pães? O Korban HaEdah a explica assim: muito chulin está diante da pessoa e ela não o come, porque já se aproxima a hora da eliminação; quem resgataria os pães, se cada um já comeu o quanto precisava? O nome רִבִּי [חֲנִינָא] está entre colchetes no Sefaria, acrescentado pelo corretor; segundo Guggenheimer, falta no manuscrito e nas edições, mas está na citação desta passagem por Tosafot no Bavli Pessachim 13b, no comentário que começa אלא לעולם שנשחט עליהן הזבח, que diz que “no Yerushalmi o próprio Rabi Chanina” dá esta explicação. O Sheyarei Korban cita esse Tosafot e observa que a sua própria leitura é o inverso, com Rabi Chanina dizendo que eram aptas. No Bavli Pessachim 13b, Rabi Chanina diz que as chalot eram desqualificadas por passarem a noite, porque eram muitas; em nome de Rabi Yanai dizem que eram aptas, mas não se abateu sobre elas o sacrifício; e a conclusão é que se abateu e o sangue se derramou. O Korban HaEdah explica que se apressavam a trazer as todot na véspera de Pessach, porque durante Pessach não se pode oferecer a todá, por causa do seu chametz.
Sobre a seção 02. O Penei Moshe e o Korban HaEdah explicam que este era outro sinal: duas vacas lavravam no Monte das Oliveiras, e, quando se tirava uma, suspendia-se, e, quando se tiravam as duas, queimava-se; quem não via as chalot no Monte do Templo via as vacas. A pergunta é que em Jerusalém, onde se reuniam pessoas de lugares que tinham o costume de não trabalhar no dia catorze, decerto também não se trabalhava, embora a Mishná avulsa Pessachim 4:5 diga que na Judeia se trabalhava na véspera de Pessach até o meio-dia; Guggenheimer remete à avulsa Pessachim 4:1, sobre o costume de cada lugar. A resposta é que as vacas só pareciam lavrar: ficavam paradas com o arado sobre elas, e por isso eram duas, pois, para lavrar de verdade, uma bastaria. As lamparinas e os lençóis eram outros sinais: apagava-se uma lamparina, ou tirava-se um dos lençóis pendurados numa coluna do Monte do Templo, e suspendia-se. Rabi Pinchas explica que os lençóis eram para quando o catorze cai no Shabat, quando não se põe o arado sobre as vacas nem se apaga uma lamparina. O hebraico diz נִרָאֵית, no singular; o Penei Moshe e o Korban HaEdah leem נראות, no plural, e a tradução segue o plural. No Bavli Pessachim 14a, Abba Shaul ensina que duas vacas lavravam no Monte das Oliveiras.
Sobre a seção 03. O Penei Moshe explica que Rabi Chananiá propõe um toque como sinal, e um segundo toque para indicar a hora de queimar; a resposta de Rabi Mana é que o povo pensaria que se toca para o tamid da tarde, pois, como ensina a Mishná avulsa Suca 5:5, tocava-se todo dia no Templo, nove vezes para o tamid da tarde, e assim se enganariam no chametz. O Korban HaEdah diz que pensariam que se toca para o tamid da manhã e continuariam a comer chametz depois da sexta hora. A objeção vem da mesma Mishná de Suca: na véspera de Shabat se acrescentavam seis toques, três para fazer o povo parar o trabalho e três para separar o sagrado do profano, e não se temia o engano. A resposta: o toque da véspera de Shabat é de toda semana, e as pessoas estão acostumadas; o do chametz seria uma vez por ano. O hebraico não diz quem faz a objeção e quem responde; a tradução deixa “disse-lhe”. Os acréscimos [אוֹמֵר. שֶׁמָּא] e [וְהֵן מִתְקַלְקְלִין] estão entre colchetes no Sefaria, acrescentados pelo corretor, e foram traduzidos.
Sobre a seção 04. O Penei Moshe explica que a pergunta é por que, para Raban Gamliel, a teruma se come durante toda a quinta: por causa da sua santidade, ou porque, sendo só dos kohanim, há poucos que a comem, e por isso lhe deram mais uma hora. A diferença está nas chalot da todá, que são santas e permitidas aos não kohanim. A prova vem da baraita de Rabi Natan: as chalot eram aptas, e, quando retiradas, esperava-se ainda uma hora para que fossem comidas, e só então se suspendia o chametz; os pães da todá, portanto, se comem durante toda a quinta, e isso não pode ser porque há poucos que os comem; é por causa da sua santidade, e assim também a teruma. O Korban HaEdah acrescenta que Rabi Natan segue Raban Gamliel e diverge de Rabi Yehudá também em que as duas chalot eram tiradas juntas, no começo da quinta hora. O hebraico do Sefaria tem (שֶׁיְּהוּ) [שׁוֹהִין]: a palavra entre parênteses, “que sejam”, foi apagada pelo corretor e não se traduz; a entre colchetes, “esperam”, foi acrescentada por ele e foi traduzida; Guggenheimer julga as duas leituras igualmente boas. A Tosefta Pessachim 1:5 (na edição de Lieberman, 1:4) traz Rabi Yehudá em nome de Raban Gamliel: enquanto as duas chalot estão postas, todo o povo come chulin; tirada uma, todo o povo come teruma; tiradas as duas, queima-se tanto um quanto o outro. No Bavli Pessachim 13b, uma baraita em nome de Rabi Elazar diz que as chalot eram aptas.
Sobre a seção 05. O Penei Moshe explica “semelhante aos dois”: no chulin, Raban Gamliel diz como Rabi Yehudá, e na teruma, como Rabi Meir. O Korban HaEdah acrescenta que isto não é propriamente uma decisão entre os dois, mas uma terceira opinião, porque Rabi Meir e Rabi Yehudá não distinguem entre teruma e chulin.
Leituras incertas. Na seção 01, שֶׁלֹּא לִשְׁחוֹט עֲלֵיהֶן אֶת הַזֶּבַח ficou “por não se abater sobre elas o sacrifício”, com o Penei Moshe, que escreve שלא נשחט עליהן הזבח; חוֹלִיָיא קוֹמוֹי לֹא אָכַל ficou “o chulin que estava diante dele, a pessoa não comeu”, com o Korban HaEdah; e “ele”, o tana da Mishná, com o Penei Moshe. Na seção 02, נִרָאֵית כְּחוֹרְשׁוֹת ficou “apenas pareciam lavrar”, e תַּנָּיֵי, tanaim, no sentido dos que recitam as baraitot. Na seção 03, מִתְקַלְקְלִין ficou “se desencaminham”, e אַחַת לְקִיצִּין, “uma vez em longos intervalos”, com a glosa do Penei Moshe, “uma vez por ano”. Na seção 04, אֵין אוֹכְלֶיהָ מְצוּיִין ficou “os que a comem não são comuns”. Na seção 05, נִרָאִין דְּבָרִים ficou “parecem acertadas as palavras”, e אֲתֲאַ רִבִּי אָבוּן רִבִּי יוֹחָנָן בְּשֵׁם, “veio Rabi Avun e trouxe: Rabi Yochanan disse em nome de”. Na Mishná, הָאִיצְטֳבָא ficou itztabá, “o pórtico”; o Bavli Pessachim 13b explica que o Monte do Templo tinha um pórtico duplo.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer escreve “Rebbi Simeon ben Laqish”, “Rebbi Ḥanania”, “Rebbi Phineas”, “Rebbi Nathan”, “Rebbi Jehudah ben Pazi”, “Rebbi Abun”, “Rebbi Joḥanan” e “Rebbi Simeon ben Josadaq”; aqui ficou Rabi Shimon ben Lakish, Rabi Chananiá, Rabi Pinchas, Rabi Natan, Rabi Yudá ben Pazi, porque o hebraico diz יוּדָה, Rabi Avun, Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Yotzadak. Guggenheimer supõe que, para o Yerushalmi, se ofereciam todot no dia catorze; o Penei Moshe entende que eram trazidas no treze. Na seção 02, ele também traduz no plural, “they were looking as if ploughing”.
Referências conferidas no Sefaria. Vayikra 7:13. Mishná avulsa Pessachim 1:5, 1:6, 4:1 e 4:5, e Suca 5:5. Bavli Pessachim 13b, com Rabi Chanina, a palavra em nome de Rabi Yanai e a baraita em nome de Rabi Elazar, e 14a, com Abba Shaul e as duas vacas; Tosafot no Bavli Pessachim 13b. Tosefta Pessachim 1:5, na numeração comum do Sefaria, que é 1:4 na edição de Lieberman. Penei Moshe, Korban HaEdah e Sheyarei Korban nesta halachá. Há links para as Mishnayot avulsas que este site já tem; não há link para o Bavli Pessachim nem para a Tosefta, que este site ainda não publicou.
Nomes nesta página: Rabi Yehudá, רִבִּי יְהוּדָה; Raban Gamliel, רַבָּן גַּמְלִיאֵל; Rabi Shimon ben Lakish, רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ; Rabi Yanai, רִבִּי יַנַּאי; Rabi Chananiá, רִבִּי חֲנַנְיָה; Rabi Chanina, רִבִּי [חֲנִינָא]; Rabi Pinchas, רִבִּי פִינְחָס; Rabi Mana, רִבִּי מָנָא; Rabi Natan, רִבִּי נָתָן; Rabi Yudá ben Pazi, רִבִּי יוּדָה בֵּן פָּזִי; Rabi Avun, רִבִּי אָבוּן; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; e Rabi Shimon ben Yotzadak, רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹצָדָק. Nos comentários, no Bavli e na Tosefta: Rabi Meir, Reish Lakish, Rabi Elazar e Abba Shaul.
Do hebraico foram retirados só os rótulos de Mishná e de halachá, no começo do primeiro e do segundo segmentos, a marca da folha 5b da edição de Vilna, no segundo segmento, antes de וְלֹא בִשְׁחִיטָה, e a marca da folha 6a de Vilna, no quinto segmento, antes de רִבִּי נָתָן. Não há marca da edição de Veneza nesta halachá. Nada foi acrescentado ao hebraico. Foram mantidos os parênteses e os colchetes do corretor e as grafias do Sefaria, como נִרָאֵית, קְדושָּׁתָהּ, מִפּנֵי, אֲתֲאַ e בֵּן פָּזִי.
A Mishná seguinte, que no Yerushalmi abre a Halachá 1:6, corresponde ao começo da avulsa Pessachim 1:6.