Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Dalet · Mishná 5 de 9

Trabalhar em Tisha BeAv

מָקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה בְתִשְׁעָה בְאָב, עוֹשִׂין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mais um exemplo de minhag hamakom, agora aplicado a Tisha BeAv — mas com uma exceção universal: os discípulos dos Sábios se abstêm de trabalhar em qualquer lugar.

Lugar onde costumavam realizar trabalho em Tisha BeAv, realizam. Lugar onde costumavam não realizar trabalho, não realizam. E em todo lugar os discípulos dos Sábios se abstêm.Assim como no dia catorze de Nissan, o trabalho em Tisha BeAv não é proibido por lei bíblica — apenas o costume local determina se se trabalha ou não. Mas há um limite a essa variação: independentemente do costume geral do lugar, os discípulos dos Sábios sempre se abstêm de trabalhar nesse dia, pois lhes convém manter viva a lembrança do luto pela destruição do Templo, sem se distrair com ocupações materiais.

מָקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה בְתִשְׁעָה בְאָב, עוֹשִׂין. מָקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה, אֵין עוֹשִׂין. וּבְכָל מָקוֹם תַּלְמִידֵי חֲכָמִים בְּטֵלִים:
Rabán Shimon ben Gamliel propõe que todos, não apenas os eruditos reconhecidos, adotem esse comportamento de abstenção — sem que isso pareça arrogância.

Rabán Shimon ben Gamliel diz: sempre se comporte a pessoa como um discípulo dos Sábios.Rabán Shimon ben Gamliel estende a regra: mesmo quem não é reconhecido como erudito pode, e deve, adotar a postura de abstenção nesse dia, sem temer que sua inatividade pareça pretensiosa ou ostentosa — pois, no caso de Tisha BeAv, o luto coletivo justifica que qualquer pessoa se comporte como se fosse um discípulo dos Sábios.

רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, לְעוֹלָם יַעֲשֶׂה אָדָם עַצְמוֹ תַּלְמִיד חָכָם:
Os Sábios discordam da premissa de minhag e afirmam que a regra da Judeia e da Galileia é fixa, não dependente de costume local; e concluem com a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre a noite anterior à véspera de Pessach.

E os Sábios dizem: na Judeia costumavam realizar trabalho nas vésperas de Pessach até o meio-dia, e na Galileia não realizavam de modo algum. E quanto à noite, Bet Shamai proíbem, e Bet Hilel permitem até o nascer do sol.Os Sábios rejeitam a ideia de que a permissão de trabalhar até o meio-dia da véspera de Pessach seja apenas uma questão de costume variável: para eles, é uma regra fixa e regional — permitida na Judeia, totalmente proibida na Galileia. E quanto à própria noite anterior — a noite de treze para catorze de Nissan, antes de a proibição do meio-dia entrar em vigor —, surge uma disputa entre as duas grandes escolas: Bet Shamai a proíbem por completo, enquanto Bet Hilel a permitem até o amanhecer.

וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, בִּיהוּדָה הָיוּ עוֹשִׂין מְלָאכָה בְעַרְבֵי פְסָחִים עַד חֲצוֹת, וּבַגָּלִיל לֹא הָיוּ עוֹשִׂין כָּל עִקָּר. וְהַלַּיְלָה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹסְרִין, וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין עַד הָנֵץ הַחַמָּה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Eichá 1:1
אֵיכָה יָשְׁבָה בָדָד הָעִיר רַבָּתִי עָם, הָיְתָה כְּאַלְמָנָה.
Como ficou solitária a cidade tão populosa; tornou-se como uma viúva.

Este lamento, recitado tradicionalmente em Tisha BeAv, dá voz ao luto pela destruição de Jerusalém e do Templo — a base de toda a estrutura de luto e abstenção deste dia. É esse luto que fundamenta o comportamento diferenciado dos discípulos dos Sábios: quem vive mais próximo do estudo da Torá e da memória do Templo sente com mais intensidade a perda, e por isso se abstém de trabalho em qualquer lugar, independentemente do costume local — um luto que, segundo Rabán Shimon ben Gamliel, qualquer pessoa pode e deve fazer seu.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, em Hilchot Taanit, não codifica diretamente a disputa sobre o trabalho em Tisha BeAv como regra fixa de minhag, mas registra o princípio geral de diminuir a alegria e as atividades a partir da entrada do mês de Av, e detalha o luto que se aprofunda no próprio dia.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Taaniot 5:6
מִשֶּׁיִּכָּנֵס אָב מְמַעֲטִין בְּשִׂמְחָה. וְשַׁבָּת שֶׁחָל תִּשְׁעָה בְּאָב לִהְיוֹת בְּתוֹכָהּ אָסוּר לְסַפֵּר וּלְכַבֵּס וְלִלְבֹּשׁ כְּלִי מְגֹהָץ אֲפִלּוּ כְּלִי פִשְׁתָּן עַד שֶׁיַּעֲבֹר הַתַּעֲנִית:

A partir da entrada do mês de Av, diminui-se a alegria. E na semana em que cai Tisha BeAv, é proibido cortar cabelo, lavar roupa e vestir roupa passada a ferro, mesmo de linho, até que passe o jejum.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam observa que a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel; Bartenura explica o motivo da abstenção dos discípulos dos Sábios e por que a proposta de Rabán Shimon ben Gamliel não parece arrogância; Rashi, na Guemará, situa a mishná e discute a razão pela qual a discussão sobre a noite se refere aos moradores da Galileia.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Pessachim 4:5
מָקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה בְּתִשְׁעָה בְאָב עוֹשִׂין כוּ', וְחַכָמִים אוֹמְרִים בִּיהוּדָה הָיוּ עוֹשִׂין מְלָאכָה בְּעַרְבֵי פְסָחִים כוּ': וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים בִּיהוּדָה עוֹשִׂין מְלָאכָה, לְפִי מַה שֶּׁקָּדַם לָהֶם דָּבָר כְּלָלִי מָקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ וּמָקוֹם שֶׁלֹּא נָהֲגוּ, הוֹדִיעָנוּ בִּשְׁנֵי הַמְּקוֹמוֹת יְדוּעוֹת, בְּאֶחָד נָהֲגוּ לַעֲשׂוֹת וּבְאֶחָד לֹא נָהֲגוּ:

"Lugar onde costumavam realizar trabalho em Tisha BeAv, realizam, etc., e os Sábios dizem: na Judeia costumavam realizar trabalho nas vésperas de Pessach, etc.": e a halachá não é conforme Rabán Shimon ben Gamliel.

E os Sábios dizem que na Judeia realizam trabalho: segundo o que precedeu a eles como princípio geral — "lugar onde costumavam" e "lugar onde não costumavam" —, informaram-nos sobre dois lugares específicos e conhecidos: em um costumavam realizar, e no outro não costumavam.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 4:5
תַּלְמִידֵי חֲכָמִים בְּטֵלִים. מִמְּלַאכְתָּן כָּל אוֹתוֹ הַיּוֹם, כְּדֵי שֶׁלֹּא יַסִּיחוּ דַעְתָּם מֵאֲבֵלוּת: לְעוֹלָם יַעֲשֶׂה אָדָם עַצְמוֹ כְּתַלְמִיד חָכָם. וְלֹא מֵחֲזֵי כְיֻהֲרָא, שֶׁהָרוֹאֶה אוֹתוֹ בָטֵל אוֹמֵר אֵין לוֹ מְלָאכָה לַעֲשׂוֹת וְלֹא מִפְּנֵי שֶׁנּוֹהֵג בּוֹ אִסּוּר: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים בִּיהוּדָה וְכוּ'. חֲכָמִים סְבִירָא לְהוּ דַּעֲשִׂיַּת מְלָאכָה בְּעַרְבֵי פְסָחִים לָאו בְּמִנְהָגָא תַּלְיָא מִלְּתָא, אֶלָּא בִּיהוּדָה הָיוּ מַתִּירִים וּבַגָּלִיל אוֹסְרִים אִסּוּר גָּמוּר, וְלֹא מִכֹּחַ מִנְהָג: הַלַּיְלָה. לֵיל אַרְבָּעָה עָשָׂר, לְאַנְשֵׁי גָלִיל שֶׁאוֹסְרִים לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה בְּעַרְבֵי פְסָחִים: בֵּית שַׁמַּאי אוֹסְרִים. לָהֶם כְּכָל שְׁאָר יָמִים טוֹבִים שֶׁאֲסוּרִים בַּעֲשִׂיַּת מְלָאכָה, שֶׁהַלַּיְלָה הוֹלֵךְ אַחַר הַיּוֹם: וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִים. מִידֵי דַּהֲוָה אַתַּעֲנִית, שֶׁהַיּוֹם אָסוּר בַּאֲכִילָה וְהַלַּיְלָה מֻתָּר:

"Os discípulos dos Sábios se abstêm" — de seu trabalho durante todo aquele dia, para que não desviem seu pensamento do luto.

"Sempre se comporte a pessoa como um discípulo dos Sábios" — e não pareça arrogância, pois quem o vê ocioso pode dizer que ele não tem trabalho a fazer, e não pensar que ele observa um costume de abstenção.

"E os Sábios dizem: na Judeia, etc." — os Sábios entendem que realizar trabalho nas vésperas de Pessach não depende de costume; antes, na Judeia permitiam e na Galileia proibiam de modo absoluto, não por força de costume.

"A noite" — a noite de catorze, para os homens da Galileia, que proíbem realizar trabalho nas vésperas de Pessach. "Bet Shamai proíbem" — para eles, como todos os demais dias de festa em que é proibido trabalhar, pois a noite segue o dia. "E Bet Hilel permitem" — assim como no jejum, em que o dia é proibido em comer e a noite é permitida.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 54a-55a
מַתְנִיתִין וּבְכָל מָקוֹם — בֵּין נָהֲגוּ בֵּין לֹא נָהֲגוּ: תַּלְמִידֵי חֲכָמִים בְּטֵלִין — מִמְּלָאכָה אוֹתוֹ הַיּוֹם: רַבָּן שִׁמְעוֹן כוּ' — וְלֹא אָמְרִינַן מֵחֲזֵי כְּיוּהֲרָא, וְאִם רָצָה לֵיבָּטֵל רַשַּׁאי:

"A mishná: e em todo lugar" — quer tenham costumado, quer não tenham costumado, a regra dos discípulos dos Sábios é a mesma. "Os discípulos dos Sábios se abstêm" — de trabalho naquele dia.

"Rabán Shimon, etc." — e não dizemos que isso parece arrogância; e se alguém quiser se abster, tem permissão para tanto, mesmo sem ser reconhecido como erudito.