Terceira halachá do Perek Bet de Massechet Pessachim, Kol Shaá (toda hora). A Mishná ensina que quem come teruma de chametz no Pessach por erro paga o principal e o quinto, e por intenção está isento dos pagamentos e do valor de lenha. A guemará restringe a Mishná à teruma separada como matsá que fermentou; traz Rabi Zeura sobre a matsá separada por chametz e o chametz por matsá; as proibições de tevel, de chametz e de avodá zará, e qual delas recai sobre a outra; a pergunta de Rabi Bun bar Chiya, a quem se paga, com a divergência de Rabi Yochanan e de Rabi Shimon ben Lakish; a pergunta de Rabi Yossi sobre o proveito do hekdesh em menos que uma peruta; e, por fim, o erro na teruma com a intenção no chametz, no nazireado e no Yom HaKipurim.
Mishná: Quem come teruma (a porção do kohen) de chametz (o fermentado) no Pessach, por shogueg (erro), paga o principal e o chomesh (o quinto acrescido); por mezid (intenção), está isento dos pagamentos e do valor dela como lenha.
Ensinou-se: Rabi Shimon ben Elazar diz em nome de Rabi Shimon ben Yotsadak: a Mishná trata do caso em que a separou (a teruma) quando era matsá, e ela fermentou; mas, se a separou quando já era chametz, não é deste caso que se fala.
Separou matsá como teruma por chametz: disse Rabi Zeura: toda teruma que não permite o restante para comer não é teruma.
Mesmo se separou chametz como teruma por matsá, disse Rabi Zeura: visto que, se a separasse da sua espécie por ela (chametz por chametz), não seria teruma, mesmo dela para outro lugar (por matsá) não é teruma.
Se havia quatro quartos (de kav) à parte, e os fez fermentar, e quatro quartos à parte, e os misturou (uns com os outros):
se o advertiram por ser quem come tevel (o produto de que ainda não se separaram as porções devidas), não é açoitado; por ser quem come chametz no Pessach, é açoitado.
Uma proibição grave recai sobre uma proibição leve, e uma proibição leve não recai sobre uma proibição grave.
Mas, se os misturou e depois os fez fermentar, se o advertiram por ser quem come tevel, é açoitado; por ser quem come chametz no Pessach, é açoitado.
Uma proibição grave recai sobre uma proibição leve, e uma proibição leve não recai sobre uma proibição grave.
Se alguém fez um monte (de grão), e se prostrou diante dele, e o alisou (completando o trabalho do grão), e depois o comeu:
se o advertiram por ser quem come tevel, não é açoitado; por ser quem come avodá zará (idolatria, isto é, o que foi objeto de culto), é açoitado.
Uma proibição grave recai sobre uma proibição leve, e uma proibição leve não recai sobre uma proibição grave.
Mas, se o alisou e depois se prostrou diante dele, se o advertiram por ser quem come tevel, é açoitado; por ser quem come avodá zará, é açoitado. Uma proibição grave recai sobre uma proibição leve, e uma proibição leve não recai sobre uma proibição grave.
Rabi Bun bar Chiya perguntou: quem come teruma de chametz no Pessach, a quem ele paga?
É a divergência de Rabi Yochanan e de Rabi Shimon ben Lakish, que divergiram: quem rouba teruma do pai da sua mãe, kohen, Rabi Yochanan disse: paga à tribo (aos kohanim); Rabi Shimon ben Lakish disse: paga a si mesmo.
Disse Rabi Mana diante de Rabi Yossi: é razoável que Rabi Shimon ben Lakish concorde com Rabi Yochanan quanto ao chomesh, que ele o paga à tribo.
Disse-lhe (Rabi Yossi a Rabi Mana): também eu penso assim, pois a teruma impura, a sua cinza é da tribo.
Veio Rabi Yossi beRabi Bun em nome de Rabi Achá: mesmo sobre ela (sobre o chomesh) divergem.
Rabi Yossi perguntou: quem tira proveito do hekdesh (os bens consagrados ao Templo) em menos que o valor de uma peruta (a menor moeda), qual é a lei: estará obrigado ao pagamento?
Ouçamo-lo disto: “e aquilo em que pecou, do sagrado, pagará”, exceto o que é menos que o valor de uma peruta.
Há tanaim que ensinam: “para incluir”, para o pagamento. Quem disse “exceto o que é menos que o valor de uma peruta”, para o pagamento, falava do sacrifício; quem disse “para incluir”, falava do pagamento.
Assim como dizes lá: quem tirou proveito em menos que o valor de uma peruta, por mezid, embora não pague chomesh nem asham (a oferta de culpa), pagará à tribo; e disse: também aqui é assim.
Disseram os colegas diante de Rabi Yossi: e não é isto uma Mishná? “Quem come teruma de chametz no Pessach, por shogueg, paga o principal e o chomesh; por mezid, está isento dos pagamentos e do valor da lenha.”
Disse-lhes: lá (na teruma de chametz) não é apto a completar sobre ela (até o valor de uma peruta); mas aqui (no hekdesh) é apto a completar sobre ela.
Shogueg quanto à teruma e mezid quanto ao chametz; shogueg quanto à teruma e mezid quanto ao nazir (nazireado); shogueg quanto à teruma e mezid quanto ao Yom HaKipurim.
Se a explicares como duas coisas (duas transgressões distintas), está bem; e, se a explicares como uma só coisa (um só ato), é a divergência de Rabi Yochanan e de Rabi Shimon ben Lakish.
Esta é a terceira halachá do Perek Bet, Kol Shaá (toda hora), de Massechet Pessachim. A halachá ocupa sete segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros seis é uma seção desta página, de 01 a 06, divididas em pares de hebraico e português. Nada foi deixado de fora. Conferiu-se no Sefaria que a Mishná desta halachá corresponde à Mishná avulsa Pessachim 2:4. O Yerushalmi diz בַּפֶּסַח, מְשַׁלֵם e וָחֹמֶשׁ, onde a avulsa diz בְּפֶסַח, מְשַׁלֵּם e וְחֹמֶשׁ. No Bavli, a Mishná está em Pessachim 31b, e a guemará sobre ela segue em 32a e 32b (conferidos). O Bavli deste site não tem Pessachim; por isso esta página não traz links para o Bavli.
Sobre a Mishná. “Por shogueg”: errou quanto à teruma, mesmo que tenha agido por intenção quanto ao chametz (Penei Moshe, Korban HaEdah). Paga o principal e o chomesh, embora o chametz no Pessach seja proibido em proveito e nada valha, porque na teruma comida por erro está escrito וְנָתַן לַכֹּהֵן אֶת הַקֹּדֶשׁ, “e dará ao kohen o sagrado” (Vayikra 22:14, conferido): paga não com dinheiro, mas com frutos que se tornam teruma, e por isso não se vai atrás do valor, e sim da medida (Penei Moshe, Korban HaEdah). “Por mezid”: quem age por intenção na teruma é como qualquer ladrão e paga o valor, e o chametz no Pessach não tem valor, pois é proibido em proveito e nem para queimar serve; “o valor da lenha” é o caso da teruma impura, que, em outro tempo, serviria para acender o fogo (Penei Moshe, Korban HaEdah); a glosa “dela como lenha” segue esta explicação. As Mishnayot de teruma comida por erro e por intenção são Terumot 6:1 e Terumot 7:1, conferidas no Sefaria. No Bavli 32a (conferido), o mesmo debate aparece entre Rabi Akiva e Rabi Yochanan ben Nuri, e entre Rabi Eliezer ben Yaakov e Rabi Elazar Chisma. O Penei Moshe acrescenta que esta Mishná anônima segue quem diz que a teruma comida por erro se paga pela medida, e que a halachá segue os tanaim da baraita, para quem se paga pelo valor, e então, também por erro, está isento.
Sobre a seção 01. “A Mishná trata do caso”: só assim há teruma de chametz no Pessach que é sagrada; o mesmo vale se separou teruma de chametz antes do Pessach (Korban HaEdah). O Penei Moshe cita a Tosefta, que é Pessachim 1:8 na numeração comum do Sefaria (1:10 na edição Lieberman, conferidas): בד"א בתרומה שהפרישה חמץ קודם לפסח לשום תרומה אבל המפריש תרומת חמץ בפסח אינה תרומה. No Bavli 32a (conferido): במה דברים אמורים — במפריש תרומה והחמיצה, אבל מפריש תרומת חמץ — דברי הכל אינה קדושה. As frases seguintes são decisões breves (Penei Moshe: פיסקי הלכות הן). Matsá por chametz não é teruma, porque o restante, o chametz, não fica permitido para comer; e chametz por matsá também não, pois chametz por chametz já não seria teruma, já que o chametz não serve para comer no Pessach (Penei Moshe, Korban HaEdah); as glosas seguem esta leitura. A palavra אֲפִילוּ, que o Sefaria põe entre colchetes, como acréscimo do corretor, foi traduzida sem colchetes, “mesmo”; o Korban HaEdah não a lê e diz מהו, “que é?”, e Guggenheimer a tem por desnecessária. O hebraico diz זְעוּרָה, Rabi Zeura.
Sobre a seção 02. A palavra עִירֵס, “amassou”, está entre parênteses no Sefaria, como apagada pelo corretor, e não foi traduzida; Guggenheimer a considera apagada sem necessidade. A glosa “de kav” segue os dois comentários (Penei Moshe: ד' רבעי קבין; Korban HaEdah: ד' רבעי הקב). O Korban HaEdah explica pela chalá (a porção da massa dada ao kohen): uma massa de quatro quartos de kav não está obrigada na chalá, que só vale a partir de cinco quartos de farinha; misturadas as duas, fica obrigada, e então é tevel; mas, se uma delas fermentou antes, a proibição de chametz, que é de karet, já estava sobre ela, e a de tevel, que é de morte pelas mãos do Céu, não recai sobre ela. Guggenheimer segue a mesma linha. O Penei Moshe explica pela teruma, e diz que os quatro quartos são só um exemplo. Em ambos, se primeiro os misturou e depois fermentaram, a proibição de chametz recai sobre a de tevel, e a advertência por qualquer das duas vale. Sobre a regra da proibição que recai sobre outra, veja-se o Bavli Pessachim 35b, no fim, onde Rabi Shimon diz אין איסור חל על איסור, e o Bavli Chulin 101a, com איסור כולל באיסור חמור (conferidos).
Sobre a seção 03. Só o monte de grão colhido fica proibido pela prostração; o que ainda está preso ao chão não fica proibido (Korban HaEdah). “Alisou”: ao alisar o monte, completa-se o trabalho do grão, e só então está obrigado na teruma; antes disso, está isento (Korban HaEdah); daí a glosa. A proibição de avodá zará é grave, de morte pelas mãos do tribunal, e a de tevel, leve, de morte pelas mãos do Céu (Korban HaEdah). A última parte, de “mas, se o alisou” até o fim, está entre colchetes no Sefaria, como acréscimo do corretor, e foi traduzida sem colchetes. A primeira frase diz אוֹכֵל טֵבֵל, sem o artigo das outras.
Sobre a seção 04. A divergência está no Yerushalmi Terumot 6:1, conferido no Sefaria: גזל תרומה משל אבי אמו כהן רבי יוחנן אמר משלם לשבט. וריש לקיש אמר משלם לעצמו. O caso: o avô morreu, e o neto, filho de israelita, é o único herdeiro (Penei Moshe, Korban HaEdah). Para Rabi Yochanan, paga a um kohen da tribo, para devolver o roubo, embora não haja quem o reclame; para Rabi Shimon ben Lakish, fica com o pagamento, porque é herdeiro (Penei Moshe), ou separa a teruma e a vende a um kohen, e o dinheiro é seu (Korban HaEdah). A pergunta de Rabi Bun bar Chiya: a teruma de chametz não servia ao kohen mais do que ao dono (Penei Moshe); paga ao kohen dono da teruma, ou a qualquer kohen (Korban HaEdah). O chomesh vem para expiação, e por isso vai para os kohanim (Penei Moshe, Korban HaEdah). “A sua cinza é da tribo”: embora a teruma de chametz no Pessach esteja destinada a ser queimada, o kohen pode tirar proveito da cinza, como da teruma impura (Penei Moshe), pois a cinza do que se queima é permitida: Bavli Temura 34a (conferido: משום דנקברין אפרן אסור, ונשרפין אפרן מותר); o chametz no Pessach e a teruma impura estão entre os que se queimam na Mishná Temura 7:5, conferida no Sefaria. “Mesmo sobre ela divergem”: sobre o chomesh (Penei Moshe; o Korban HaEdah dá esta leitura como a melhor, e cita também “sobre a teruma impura”); no hebraico, עָלֶיהָ está no feminino. O hebraico diz רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן, com yod, e רִבִּי יוֹסֵה na frase anterior.
Sobre a seção 05. O Korban HaEdah lê הנהנה מן התרומה, “quem tira proveito da teruma”, em vez de “do hekdesh”; o Penei Moshe lê hekdesh e remete à Mishná Meilá 5:1, conferida no Sefaria: הַנֶּהֱנֶה שָׁוֶה פְרוּטָה מִן הַהֶקְדֵּשׁ… מָעַל. A pergunta é sobre quem agiu por intenção: abaixo de uma peruta não há sacrifício de meilá (uso indevido do sagrado), mas haverá pagamento? (Penei Moshe). O versículo é Vayikra 5:16 (conferido). No Sifra, Vayikra Dibbura deChovah, capítulo 20:7 na numeração do Sefaria (conferido), está a leitura “para incluir”: מנין לרבות פחות משוה פרוטה… תלמוד לומר מן הקדש. Os dois tanaim não divergem: “exceto” fala do sacrifício, no caso de erro, e “para incluir”, do pagamento onde não há sacrifício, como no caso de intenção (Penei Moshe, Korban HaEdah). No hebraico do Sefaria, as palavras (אָמַר לֵיהּ.), “disse-lhe”, e (מָאן דְּאָמַר פְּרָט), “quem disse ‘exceto’”, estão entre parênteses, como apagadas pelo corretor, e não foram traduzidas; Guggenheimer prefere a segunda, a do copista: “quem disse ‘exceto’, para o sacrifício”. O trecho entre colchetes, acrescentado pelo corretor, foi traduzido sem colchetes; no Sefaria há um colchete aberto antes de מָהוּ e outro antes de לַתַּשְׁלוּמִין, e só um se fecha. A frase “para o pagamento, falava do sacrifício” segue o texto do corretor, e a leitura é incerta. “Lá”, na meilá: embora não pague chomesh nem asham, que são só para quem errou, paga (Penei Moshe, Korban HaEdah); “também aqui”, na teruma, paga à tribo, mesmo abaixo de uma peruta (Korban HaEdah). “E não é isto uma Mishná?”: é pergunta de espanto; a Mishná diz que, por intenção, está isento, porque o chametz não tem valor (Penei Moshe). A resposta: a teruma de chametz não vale nada e não se pode completá-la até uma peruta, mas o que é menos que uma peruta pode se juntar a outro proveito e completar o valor (Penei Moshe, Korban HaEdah); as glosas seguem esta explicação. A Mishná citada aqui diz שׁוֹגֵג, מֵזִיד, וָחוֹמֶשׁ, מִן הַתַּשְׁלוּמִין e הָעֵצִים, onde a do primeiro segmento diz בְּשׁוֹגֵג, בְּמֵזִיד, וָחֹמֶשׁ, מִתַּשְׁלוּמִים e עֵצִים.
Sobre a seção 06. O trecho está também no Yerushalmi Terumot 7:1 e no Yerushalmi Ketubot 3:1, conferidos no Sefaria (em Terumot, אין ניפתרינה בשני דברים). A divergência de Rabi Yochanan e de Rabi Shimon ben Lakish não é a da seção 04, mas a de Terumot 7: para Rabi Yochanan, onde há açoites e pagamento, é açoitado e não paga; para Rabi Shimon ben Lakish, é açoitado e paga (Korban HaEdah, Penei Moshe). Os casos: comeu teruma de chametz no Pessach, sabendo que era chametz, mas não que era teruma; o nazir que comeu uvas ou bebeu vinho de teruma; quem comeu teruma no Yom HaKipurim (Penei Moshe, Korban HaEdah). Como duas coisas, cada proibição por si, todos concordam que é açoitado pelo chametz e paga pela teruma; como uma só coisa, porque numa só comida vieram as duas proibições, depende da divergência (Penei Moshe, Korban HaEdah). As glosas seguem esta leitura.
Do hebraico retiraram-se só os rótulos משנה: e הלכה:, no começo do primeiro e do segundo segmentos, e as marcas das edições: Vilna 15b, no começo da Mishná; Vilna 16a, no começo da seção 03; Vilna 16b, na seção 05, antes de וְלָאו מַתְנִיתָא; e Veneza 29b, na seção 05, antes da última palavra, עָלֶיהָ. As grafias do Sefaria foram mantidas, como מְשַׁלֵם (Mishná e seção 05), הִשְׁתַּחֲוֶוה e הִשְׁתַּחֲוֶה (seção 03) e לַשֵׁבֶט (seção 05).
A Mishná seguinte, Pessachim 2:4 no Yerushalmi, começa com a Mishná avulsa Pessachim 2:5: “אֵילּוּ דְבָרִים שֶׁאָדָם יוֹצֵא בָהֶן יְדֵי חוֹבָתוֹ בַפֶּסַח…”, estas são as coisas com que se cumpre a obrigação no Pessach.