Orot · As Luzes do Rav Kook

O Retorno ao Núcleo: a crise que chama Israel à teshuvá

Só Israel pode receber em plenitude a fé no D'us Uno. A difusão imperfeita dessa fé pelas nações gera atrito; e a própria crise do fim dos dias — inclusive a tentação de imitar a descrença importada como se fosse "cultura universal" — acaba por despertar Israel a firmar-se no seu núcleo autêntico. É essa, ensina o Rav Kook, a crise que chama Israel à teshuvá — do material ao espiritual, até "o Senhor reinará para sempre".

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §54 Tradução inédita · PT-BR

Esta seção lê o processo religioso da história — e a crise espiritual da modernidade — através da lente mística do Rav Kook. É um texto exigente: diagnostica um atrito e uma desilusão antes de chegar à sua mensagem, que é construtiva e, no fim, universal. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público; as notas procuram situar o seu vocabulário e o seu arco.

A fé que Israel pode receber em plenitude

Só Israel pode receber a fé no D'us verdadeiro, o Senhor Uno, na sua plenitude e na sua bondade; e a sua própria identidade ainda ganhará vigor com isso, e a sua cultura prosperará e se engrandecerá num florescimento notável.

בַּד' יִצְדְּקוּ וְיִתְהַלְלוּ כָּל זֶרַע יִשְׂרָאֵל "No Senhor serão justificados e se gloriarão toda a semente de Israel." Yeshayahu (Isaías) 45:25

A difusão imperfeita, e o seu atrito

Mas as nações ainda não chegaram a esta medida. E aquilo que, da luz de Israel, foi introduzido como fé divina nos seus arredores — não pela via de um desenvolvimento próprio à sua natureza — entra em conflito com a sua identidade particular, e fere a sua cultura, que é, na essência do seu feitio, estranha e externa a essa fé. Todavia, a mão de D'us fez isto: que ao menos se abrandasse um pouco a "casca dura" da rudeza humana. Mas, ao fim de tudo, essa inadequação acaba por prevalecer neles — e [aquele] poder converte-se em descrença que repele as centelhas do espírito de Israel, vindas da luz de D'us que se mesclou no seu espírito; e com isso cresce ainda mais a hostilidade contra Israel.

É preciso ler este trecho com as suas chaves. O Rav Kook não emite um juízo sobre o valor dos povos — sobre isso ele diz, noutras seções, que a santidade de Israel existe para "regar as inclinações humanas em geral" e elevar "uma grande multidão de homens" (ver §12 e §5). O que ele descreve aqui é um descompasso histórico: uma fé profundamente interior, enxertada em culturas que não a desenvolveram a partir de dentro, gera atrito — e, na sua leitura, esse enxerto imperfeito acaba por azedar em hostilidade. As palavras "estranha" e "externa" qualificam essa inadequação entre a fé e o solo em que foi posta — não a dignidade dos seres humanos.

Não confundir a descrença importada com "cultura universal"

E ainda que, no início, se vejam por isso as "pragas" dos calcanhares do Mashiach [ikveta de-meshicha] — e os de alma pequena pensem imitar a descrença [kefirá] que se alastra entre as nações, imaginando-a como uma "cultura humana universal", quando ela não é senão uma cultura alheia, acima da qual Israel já está muito, muito acima —, ainda assim, ao fim de tudo, este mesmo movimento se inverte.

Aqui o alvo da crítica do Rav Kook não são os outros povos, mas uma tentação interna: a do judeu que, deslumbrado, toma o secularismo da moda por "cultura universal" e abandona a sua própria fonte. O Rav Kook responde que confundir uma corrente passageira com o universal é um equívoco — pois o verdadeiramente universal está guardado, justamente, na profundidade de Israel. É a mesma lição de §5: não se troca a fonte viva pelo "verniz" da moda.

A crise que chama à teshuvá

Pois o desejo de manter-se sobre a identidade pura, sem mistura de influência externa — desejo que, de um lado, faz crescer a hostilidade [contra Israel] e, de outro, provoca a imitação espiritual por parte dos fracos de vida em Israel, até que a anarquia do pensamento destrói toda verdade e santidade — esse mesmo reconhecimento, de que é preciso firmar-se no ponto interior próprio da identidade, chamará Israel à teshuvá: a "fazer proezas em D'us" e a voltar mais uma vez à força suprema.

לֹא בְחַרְבָּם יָרְשׁוּ אָרֶץ, וּזְרוֹעָם לֹא הוֹשִׁיעָה לָּמוֹ, כִּי יְמִינְךָ וּזְרוֹעֲךָ וְאוֹר פָּנֶיךָ כִּי רְצִיתָם "Não foi pela sua espada que herdaram a terra, nem o seu braço os salvou, mas a tua destra, e o teu braço, e a luz da tua face — porque os favoreceste." Tehillim (Salmos) 44:4
A própria crise que ameaça dissolver tudo é o que desperta o retorno ao núcleo.

Eis a viragem que justifica o título. O Rav Kook não se detém no diagnóstico sombrio. A pressão dos dois lados — a hostilidade externa e a assimilação interna, ao ponto de uma "anarquia do pensamento" que corrói verdade e santidade — produz, por reação, uma tomada de consciência: a de que Israel precisa firmar-se no seu ponto mais íntimo e autêntico. A crise não é a última palavra; é o agente que desperta a teshuvá. E a força que se busca não é a da espada, mas a da "luz da tua face".

Do material ao espiritual: o despertar que sobe à cabeça

E este reconhecimento — que vem por um desenvolvimento lentíssimo, começando do zelo nacional, do amor à terra, à língua, a uma cultura ainda não refinada, do estudo da história, do entusiasmo pelo trabalho material e terreno pela força da mão — está fadado a subir até a "cabeça", e a despertar o pensamento e o sentimento mais próprios de Israel no coração de toda a nação: os velhos e os jovens juntos, de um só coração, num só pensamento e desejo.

יָשֻׁבוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, וּבִקְשׁוּ אֶת ד' אֱלֹהֵיהֶם וְאֵת דָּוִד מַלְכָּם, וּפָחֲדוּ אֶל ד' וְאֶל טוּבוֹ "Voltarão os filhos de Israel e buscarão o Senhor seu D'us e David seu rei; e virão com reverência ao Senhor e à sua bondade." Hoshéa (Oseias) 3:5

É a mesma confiança das seções sobre a "geração que prepara o corpo" (§40): o despertar nacional começa pelo "material" — terra, língua, trabalho, história — e isso não é menosprezado, e sim reconhecido como o primeiro degrau. O processo é lento, mas a sua direção é certa: do solo sobe à "cabeça", do corpo da nação à sua alma, unindo velhos e jovens "num só desejo".

Um mundo pleno, em nome pleno

Agora, no fim dos dias — cujos primeiros botões já começaram a despontar —, todos os "valentes" a quem D'us tocou o coração estão chamados e prontos: a despertar uma abundância de pensamentos e revelações, das esferas superiores, da fonte de Israel; e a "cavar", sem coração dividido, nos fundamentos de baixo, onde a sensibilidade já começou a bater com força. E o pensamento e a ação encontrar-se-ão juntos para edificar um mundo pleno, em nome pleno.

יִמְלֹךְ ד' לְעוֹלָם, אֱלֹהַיִךְ צִיּוֹן לְדֹר וָדֹר, הַלְלוּיָהּ "Reinará o Senhor para sempre; o teu D'us, ó Sião, de geração em geração. Aleluia!" Tehillim (Salmos) 146:10

Repare em como a seção termina: não num triunfo sobre alguém, mas na realeza universal de D'us — "para sempre… de geração em geração". O "mundo pleno, em nome pleno" é a meta de toda a obra do Rav Kook: a reunião do pensamento e da ação, do espírito e da matéria, do céu e do solo. A crise do início serviu a este fim — e o reinado que se proclama no fecho é sobre tudo e sobre todos.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §54. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Yeshayahu 45:25; Tehillim 44:4 ("não pela sua espada"); Hoshéa 3:5 ("voltarão os filhos de Israel… e David seu rei"); e Tehillim 146:10 ("reinará o Senhor para sempre"). As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais; as notas situam o vocabulário místico-histórico do autor (o atrito como descompasso, não como juízo sobre o valor dos povos) e o seu arco, que culmina na teshuvá e na realeza universal de D'us. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.