Esta breve e densa seção fala de duas camadas do sagrado: uma exposta, que a história pôde ferir; outra escondida, que nada alcança. O Rav Kook conclui com uma das suas afirmações mais inclusivas — a de que o coração de Israel permanece santo no íntimo de cada filho seu, mesmo no que erra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
O que pôde ser profanado
As nações profanaram o judaísmo revelado [a sua face exterior] pelo seu contato: tocaram nos óleos sagrados e os tornaram abomináveis; as pedras do altar santo foram conspurcadas. E também quanto às formulações [as palavras, os nomes] dos segredos — já vieram "invasores" [pritzim] e as profanaram.
A abertura fala da experiência histórica da desecração — não de um contágio pela mera presença alheia. O que foi "profanado pelo contato" são as coisas santas materiais e externas: os óleos da unção, as pedras do altar do Templo destruído e saqueado por mãos hostis ao longo das conquistas. E "as formulações dos segredos" — as palavras com que a mística se exprime — também foram tomadas e distorcidas por "invasores", os que se apropriaram da linguagem sagrada sem a sua vida interior. É a face exposta do sagrado, a que a história pôde tocar e ferir.
O que jamais se profana
Mas, na sua santidade, permaneceram as interioridades dos segredos — que estão ocultas e seladas a todo contato estranho; e justamente a interioridade mais íntima da alma. Pois esta interioridade — que é a alma da alma suprema — está fixada na alma-segulá de Israel, e dela não se afasta.
Há, no sagrado, um "véu" — uma fronteira interior. O que está diante do véu (a "face revelada") é acessível, e por isso vulnerável; o que está atrás dele (o "santo dos santos") é, por natureza, inviolável. O Rav Kook transpõe essa arquitetura do Templo para a alma: por mais que a história golpeie as formas exteriores de Israel — e até a linguagem dos seus mistérios —, há uma câmara interior, "a alma da alma", onde nenhuma mão estranha entra. É a fonte que garante que Israel nunca pode ser destruído por dentro.
O santo dos santos em cada judeu
E essa interioridade não se afasta [da alma de Israel] enquanto o vínculo à coletividade da nação e ao seu feitio vive dentro do homem — enquanto ele, de modo geral, deseja a ventura e o êxito da nação de Israel; ainda que não saiba chamá-la pelo nome nem explicar os seus segredos escondidos. E mesmo que erre nos seus atos e nas suas opiniões — o seu íntimo é santo dos santos.
Eis o coração da seção, e a sua nota mais generosa — irmã da que o Rav Kook deixou em §9. A condição para que esse "santo dos santos" permaneça vivo num judeu não é a perfeição religiosa, nem sequer a crença correta: é o amor ao seu povo — querer "a ventura e o êxito" de Israel. Quem ama assim, ainda que "não saiba chamar pelo nome" o que carrega, e mesmo que "erre nos atos e nas opiniões", guarda no fundo de si uma câmara intacta de santidade. O erro toca a superfície; não alcança a alma da alma.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §63. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem do "santo dos santos" e do véu apoia-se em Shemot 26:33; o verso sobre a verdade "no íntimo" e a sabedoria "no oculto" é de Tehillim 51:8. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura; a seção fala da desecração histórica das coisas santas exteriores, e o seu tema é a resiliência da santidade interior de Israel. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.