Segunda halachá do Perek Tet, Kol Gaggot (todos os telhados), de Massechet Eruvin. Depois de ensinar que todos os telhados da cidade são um só domínio, a Mishná trata do telhado grande junto a um pequeno e do pátio grande rompido para um pequeno: o grande é permitido e o pequeno é proibido, porque o pequeno é como a porta do grande. Na guemará, explica-se que a Mishná trata do mesmo telhado e do caso em que não é igual; a Mishná é posta contra Shmuel, e os colegas, diante de Rabi Yossi e em nome de Rabi Achiyá, distinguem entre este Shabat e o Shabat que vem; e Rabi Bun bar Kahana, diante de Rabi La, explica o caso em que cada pátio fez eruv por si. O Bavli discute esta Mishná em Eruvin 92a e, sobre o pátio rompido no Shabat, em 93b e 94a.
Mishná: Um telhado grande junto a um pequeno: o grande é permitido, e o pequeno é proibido. Um pátio grande que foi rompido para um pequeno: o grande é permitido, e o pequeno é proibido, porque ele é como a porta do grande.
“Um telhado grande junto a um pequeno: o grande é permitido, e o pequeno é proibido.” A nossa Mishná trata do mesmo telhado; mas num outro telhado é proibido. Quando não é igual; mas, se fosse igual, é permitido.
A nossa Mishná diverge de Shmuel: “Um pátio grande que foi rompido para um pequeno: o grande é permitido, e o pequeno é proibido.” E que transportem nele até o lugar das divisórias!
Os colegas dizem diante de Rabi Yossi, em nome de Rabi Achiyá: O que Shmuel disse é neste Shabat; o que a Mishná ensina é no Shabat que vem.
Do que estamos tratando? Se é quando fizeram um só eruv, tanto neste Shabat como no Shabat que vem deveriam ser permitidos. Se é quando não fizeram eruv de modo algum, tanto neste Shabat como no Shabat que vem deveriam ser proibidos. O que foi o ovdá (o caso ocorrido), assim foi o caso.
Disse Rabi Bun bar Kahana diante de Rabi La: Quando fez eruv este pátio por si e aquele por si. Mesmo assim, o grande é permitido, porque foi rompido em toda a sua largura; e o pequeno é proibido, porque não foi rompido em toda a sua largura.
Esta é a segunda halachá do Perek Tet, Kol Gaggot, de Massechet Eruvin. A halachá ocupa dois segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e o segundo, a guemará inteira, é a seção 01 desta página, dividida aqui em cinco trechos de hebraico e português. A sua Mishná corresponde à primeira parte da Mishná avulsa Eruvin 9:2; a segunda parte da avulsa, o pátio rompido para o domínio público, é no Yerushalmi a Mishná da Halachá 9:3. Há diferenças de palavras: o Yerushalmi tem הַגְּדוֹלָה מוּתֶּרֶת וְהַקְּטַנָּה אֲסוּרָה, com o artigo, onde a avulsa tem גְּדוֹלָה מֻתֶּרֶת, וּקְטַנָּה אֲסוּרָה, sem ele. As outras diferenças são de grafia e de pontuação: o Yerushalmi tem מוּתָּר e מוּתֶּרֶת, onde a avulsa tem מֻתָּר e מֻתֶּרֶת; e a avulsa tem vírgulas onde o Yerushalmi, no Sefaria, não tem. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 92a, com גְּדוֹלָה מוּתֶּרֶת וּקְטַנָּה אֲסוּרָה, sem o artigo, como a avulsa. O Bavli deste site ainda vai só até Eruvin 61b; por isso esta página não traz links para Eruvin 92a, 93b e 94a.
Sobre a Mishná. O Penei Moshe explica que o telhado pequeno, junto ao grande, parece rompido e aberto para o grande; o grande é permitido, para levar a ele os utensílios da casa de baixo, e os do pequeno não o proíbem, porque a ruptura, que é o pequeno diante do grande, é como uma porta, e o grande é permitido pelos gipufin (as pontas de parede) que lhe restam de um lado e do outro, contanto que a ruptura não passe de dez amot; mas o pequeno é proibido de tirar para ele os utensílios da casa, porque os do grande o proíbem, pois foi rompido para ele em toda a sua largura. O Korban HaEdah diz o mesmo, e compara os gipufin que sobram de um lado e do outro ao parapeito em volta dos telhados. Sobre o pátio, o Penei Moshe explica que, quando o grande foi rompido, o pequeno foi rompido em toda a sua largura para o grande, e que isso foi ainda de dia, antes do Shabat; os do grande, quando fizeram eruv por si, são permitidos, porque as pontas que restam fazem da ruptura uma porta; mas os do pequeno são proibidos de tirar das suas casas para o seu pátio até que façam um só eruv com os do grande, לפי שדיורי של גדולה חשובין הן כמו שהן בקטנה ואין דיורי קטנה חשובין כגדולה, “porque os moradores do grande contam como se estivessem no pequeno, e os moradores do pequeno não contam como no grande”. E acrescenta que, se foi rompido no Shabat, também o pequeno é permitido, quando fez eruv por si, porque nesse caso se diz שבת שהותרה מקצתה הותרה כולה, “o Shabat que foi permitido em parte foi permitido todo”. O Rambam traz a regra do pátio, e não a do telhado, no Mishneh Torah, Eruvin 3:24, com o pátio pequeno rompido em toda a sua largura ainda de dia e com as mesmas palavras sobre os moradores. O Mareh HaPanim traz o Bavli, Eruvin 92a, que pergunta por que a Mishná ensina os dois casos: para Rav, o telhado é como o pátio, cujas divisórias se reconhecem; e, para Shmuel, como o pátio, que muitos pisam. Daí explica por que o Rambam não trouxe a regra do telhado: ומשום דסתם גגין בזמן הזה בולטין הן לחוץ, “porque os telhados comuns deste tempo sobressaem para fora”.
Sobre o primeiro trecho da seção 01. O Penei Moshe explica que o grande é permitido no mesmo telhado, para transportar em todo ele os utensílios da casa que levou para ele, mas não para levá-los a outro telhado, para que não se pense que, porque todos os telhados são um só domínio, se pode tirá-los de um telhado para outro; e que o pequeno é proibido quando o lado aberto para o grande não é igual ao grande, de modo que foi rompido para ele em toda a sua largura, mas, se fosse igual no lado junto ao grande, também o pequeno seria permitido. O Korban HaEdah explica que a Mishná segue os sábios, para quem cada telhado é um domínio por si, e por isso no mesmo telhado é permitido e no outro, proibido; e que pode seguir também Rabi Meir, quando os telhados não são iguais, mas um é dez palmos mais baixo ou mais alto. O Mareh HaPanim lê o trecho inteiro sobre o telhado grande: no mesmo telhado grande se podem levar os utensílios da casa, se ele não sobressai para fora das paredes, mas não no telhado vizinho que sobressai; e, se também o vizinho é igual, tudo é um só domínio.
Sobre Shmuel e os dois Shabatot. Os comentaristas divergem sobre qual palavra de Shmuel a Mishná contradiz. Para o Penei Moshe, e também para Guggenheimer, é a do Yerushalmi Eruvin 6:8, no caso dos que estavam reclinados no espaço aberto do pátio quando o Shabat chegou, em que Shmuel disse מִכֵּיוָן שֶׁהִתְחִילוּ בְתַבְשִׁיל מִבְּעוֹד יוֹם מוּתָּר, “uma vez que começaram com o prato cozido ainda de dia, é permitido”; daí, explica o Penei Moshe, que para Shmuel o que foi permitido em parte do Shabat foi permitido em todo ele; e, se o pátio foi rompido no Shabat, por que o pequeno seria proibido? Que se transporte nele ao menos até o lugar das divisórias, pois já lhe foi permitido em parte do Shabat. A resposta dos colegas é que a palavra de Shmuel vale para este Shabat, e a Mishná fala do Shabat que vem. Para o Korban HaEdah, é a palavra de Shmuel na Halachá 9:1, seção 02, מְטַלְטֵל בְּכוּלּוֹ, “transporta-se em todo ele”, que vale, segundo ele, para os sábios, mesmo quando foi rompido em toda a sua largura; e Shmuel o disse do primeiro Shabat, e a Mishná fala do Shabat seguinte. O Sheyarei Korban diz que no seu comentário explicou conforme a versão que temos, mas que há muito a examinar nela, e propõe ler que Shmuel estava sentado num pátio e caiu a parede do meio, e Shmuel disse זה מטלטל עד עיקר מחיצה וזה מטלטל עד עיקר מחיצה, “este transporta até a base da divisória, e aquele transporta até a base da divisória”; a Mishná o contradiz, e a resposta é que Shmuel só permite porque foi permitido em parte do Shabat, neste Shabat, e a Mishná fala de quando foi rompido antes do Shabat; “do que estamos tratando” pergunta sobre o caso de Shmuel, e “o que foi o caso, assim foi o caso” responde que foi rompido no Shabat, e que Shmuel permite mesmo para o Shabat seguinte, e a Mishná fala de quando não fizeram eruv; e a palavra de Rabi Bun bar Kahana é coisa à parte, sobre a Mishná. Ele traz apoio do Bavli, Eruvin 94a.
Sobre o fim da seção 01. O Penei Moshe explica que “do que estamos tratando” pergunta sobre a Mishná: se os do pequeno fizeram um só eruv com os do grande, tudo conta como um só pátio, e seriam permitidos neste Shabat e no seguinte; e, se não fizeram eruv nenhum, nem mesmo o pequeno por si, seriam proibidos sempre, mesmo neste Shabat, pois o Shabat nunca lhes foi permitido. “O que foi o caso, assim foi o caso”, segundo ele, quer dizer que a Mishná fala do caso como o disse Rabi Bun bar Kahana diante de Rabi La na halachá anterior, quando cada pátio fez eruv por si; o Korban HaEdah explica a frase como מעשה שהיה כך היה, “o fato que foi, assim foi”. A mesma palavra de Rabi Bun bar Kahana diante de Rabi La, בְּשֶׁעִרְבָה זוֹ בִפְנֵי עַצְמָהּ וְזוֹ בִפְנֵי עַצְמָהּ, está na Halachá 9:1, seção 06; e a frase מַה דַהֲוָה עוֹבְדָא הֲוָה עוֹבְדָא está na Halachá 8:7, para onde remete Guggenheimer. No fim, o Penei Moshe corrige o texto: מותרת שלא נפרצה במלואה והקטנה אסורה שנפרצה במלואה כצ"ל, “o grande é permitido, porque não foi rompido em toda a sua largura, e o pequeno é proibido, porque foi rompido em toda a sua largura; assim se deve ler”; e Guggenheimer também diz que se devem trocar de lugar “rompido” e “não rompido”. Na Halachá 9:1, seção 02, a mesma frase, sobre o telhado, está na ordem que eles propõem: הַגָּדוֹל מוּתָּר. שֶׁלֹּא נִפְרָץ בִּמְלוֹאוֹ. וְהַקָּטָן אָסוּר. שֶׁנִּפְרָץ בִּמְלוֹאוֹ. Aqui a tradução seguiu o hebraico do Sefaria, e a correção ficou nesta nota.
No Bavli. Em Eruvin 92a, depois da Mishná, Rabá, Rabi Zeira e Rabá bar Rav Chanan, com Abaye sentado com eles, tiram dela que דָּיוֹרֵי גְדוֹלָה בַּקְּטַנָּה, וְאֵין דָּיוֹרֵי קְטַנָּה בַּגְּדוֹלָה, “os moradores do grande estão no pequeno, e os moradores do pequeno não estão no grande”. Em Eruvin 93b, Rav Hoshayá pergunta se moradores que chegam no Shabat proíbem, e Rav Chisda traz esta Mishná; Rabá responde אֵימַר מִבְּעוֹד יוֹם נִפְרְצָה, “digamos que foi rompido ainda de dia”, e Abaye diz que foi certamente rompido ainda de dia, pois o próprio Rabá contou que perguntou a Rav Huna e a Rav Yehudá sobre quem fez eruv pela porta e a porta foi fechada, e a resposta foi שַׁבָּת, כֵּיוָן שֶׁהוּתְּרָה הוּתְּרָה, “o Shabat, uma vez que foi permitido, foi permitido”. É a mesma direção da resposta dos colegas no Yerushalmi: a Mishná fala de quando o pátio já estava rompido antes do Shabat. Logo depois, em Eruvin 93b e 94a, sobre a parede entre dois pátios que caiu, Rav diz que não se transporta nele senão em quatro amot, e Shmuel diz זֶה מְטַלְטֵל עַד עִיקַּר מְחִיצָה, וְזֶה מְטַלְטֵל עַד עִיקַּר מְחִיצָה; e o Bavli conta que Rav e Shmuel estavam sentados num pátio quando caiu a parede do meio. A distinção entre aquele Shabat e o futuro está também na Tosefta Eruvin 7:7, na edição comum do Sefaria, que é 7:8 na de Lieberman, sobre o pátio grande rompido para o domínio público: מותרין לאותה שבת ואסורין לעתיד לבא, “são permitidos naquele Shabat e proibidos para o futuro”, palavras de Rabi Meir, contra os sábios; e é o assunto da Mishná da Halachá 9:4, em que divergem Rabi Yehudá e Rabi Yossi.
Leituras incertas. בְּשֶׁאֵינוֹ שָׁוֶה ficou “quando não é igual”, sem decidir entre o Penei Moshe, que o lê sobre o lado do pequeno junto ao grande, o Korban HaEdah, que o lê sobre a altura dos telhados, e o Mareh HaPanim, que o lê sobre o telhado grande. וִיטַלְטְלוּ בָהּ עַד מְקוֹם מְחִיצוֹת ficou “e que transportem nele até o lugar das divisórias!”, como objeção, com os comentaristas. מַה דְהִיא מַתְנִיתִין, literalmente “o que é a Mishná”, ficou “o que a Mishná ensina”. מַה דַהֲוָה עוֹבְדְא הָכִי הֲוָה עוֹבְדְא ficou “o que foi o caso ocorrido, assim foi o caso”, como na Halachá 8:7, e o sentido, segundo o Penei Moshe, é que a Mishná fala do caso dito por Rabi Bun bar Kahana. O fim, שֶׁנִּפְרְצָה בִמְלוֹאָהּ e שֶׁלֹּא נִפְרְצָה בִמְלוֹאָהּ, foi traduzido como está no hebraico do Sefaria, embora o Penei Moshe e Guggenheimer o invertam; e “largura”, em itálico, completa o sentido de בִמְלוֹאָהּ, “na sua plenitude”, como na Halachá 9:1. רִבִּי לָא ficou Rabi La; o Penei Moshe e o Korban HaEdah o chamam Rabi Ila.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer escreve “Rebbi Yose”, “Rebbi Aḥiyya” e “Rebbi Abun bar Cahana”, e aqui ficaram Rabi Yossi, Rabi Achiyá e Rabi Bun bar Kahana, porque o hebraico tem רִבִּי בּוּן. Ele traduz מַתְנִיתִין בְּאוֹתוֹ הַגַּג com “one roof only”, e aqui ficou “trata do mesmo telhado”; traduz וִיטַלְטְלוּ בָהּ como pergunta, e aqui ficou a objeção afirmada, como está no hebraico; e traduz בְּשַׁבָּת זוֹ com “on this Sabbath itself”, e aqui ficou “neste Shabat”. Ele acrescenta entre colchetes palavras que aqui ficaram em itálico. As palavras acrescentadas na tradução ficaram em itálico.
Referências conferidas no Sefaria. Mishná avulsa Eruvin 9:2; Bavli Eruvin 92a, a Mishná, Rav e Shmuel sobre os dois casos e Rabá, Rabi Zeira, Rabá bar Rav Chanan e Abaye; Bavli Eruvin 93b, Rav Hoshayá, Rav Chisda, Rabá e Abaye, e Rav sobre a parede que caiu; Bavli Eruvin 94a, Shmuel e o relato de Rav e Shmuel; Yerushalmi Eruvin 6:8, 8:7, 9:1, 9:3 e 9:4; Tosefta Eruvin 7:7, na edição comum, e 7:8, na de Lieberman; Mishneh Torah, Eruvin 3:24; Penei Moshe, Korban HaEdah, Mareh HaPanim e Sheyarei Korban nesta halachá. Referências corrigidas: o Mareh HaPanim remete ao Rambam no capítulo 4 de Hilchot Eruvin, halachá 24, e a regra do pátio grande e do pequeno está, no Sefaria, no Mishneh Torah, Eruvin 3:24; o Penei Moshe chama o lugar da palavra de Shmuel de capítulo Hadar, halachá 7, e no Sefaria ele está no Yerushalmi Eruvin 6:8; e a Mishná desta halachá está, no Bavli, em Eruvin 92a, mas a discussão do pátio rompido no Shabat e a palavra de Shmuel sobre a base da divisória estão em 93b e 94a. Não há link para o Bavli, porque o Bavli deste site vai até Eruvin 61b.
Nomes nesta página: Shmuel, שְׁמוּאֵל, Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵי, Rabi Achiyá, רִבִּי אֲחִיָיה, Rabi Bun bar Kahana, רִבִּי בּוּן בַּר כַּהֲנָא, e Rabi La, רִבִּי לָא, na seção 01. Na nota: Rav, Rabá, Rabi Zeira, Rabá bar Rav Chanan, Abaye, Rav Hoshayá, Rav Chisda, Rav Huna e Rav Yehudá, do Bavli; Rabi Meir e os sábios, da Tosefta; e Rabi Yehudá e Rabi Yossi, da Mishná da Halachá 9:4.
Do hebraico foram retirados só os rótulos de Mishná e de halachá, no começo do primeiro e do segundo segmentos. Não há marcadores de página das edições de Vilna ou de Veneza nesta halachá, nem marcador numérico, parênteses ou colchetes, e nada foi acrescentado. Não há aqui as marcas פיס׳ ou כול׳. Foram mantidas as grafias do Sefaria, como חֲבֵרַיָיה, דָמַר, מָה נָן קַיָימִין, עוֹבְדְא, בְּשֶׁיעִירְבָה e וְקְּטַנָּה.
A Mishná seguinte, Eruvin 9:3, no Yerushalmi, trata do pátio rompido para o domínio público: “חָצֵר שֶׁנִּפְרְצָה לִרְשׁוּת הָרַבִּים…”, e nela Rabi Eliezer diz que quem leva dele para o domínio privado é culpado, e os sábios dizem que ele é como karmelit.