Primeira halachá do Perek Chet de Massechet Eruvin, que abre o oitavo capítulo, Keitzad Mishtattfin (como se faz o shituf), assim chamado pelas primeiras palavras da sua Mishná. Depois do capítulo da janela e da parede entre dois pátios, do shituf do mavoi e dos alimentos com que se faz o eruv, o capítulo passa ao shituf nos limites de caminhada do Shabat e à medida de alimento do eruv; depois, aos moradores do pátio e da varanda que esqueceram de fazer eruv, ao eruv posto na portaria, no pórtico e na varanda, e a quem deixa a sua casa e vai passar o Shabat noutra cidade; e, por fim, ao poço entre dois pátios, ao canal de água que passa pelo pátio, à varanda sobre a água e ao pátio de menos de quatro amot em que se derrama água no Shabat. A Mishná ensina como se faz o shituf nos limites: deposita-se o barril e diz-se que é para todos os moradores da cidade que forem à casa do enlutado ou à casa do banquete; quem o aceitou ainda de dia é permitido, e depois que escureceu é proibido, porque não se faz eruv depois que escurece. A guemará pergunta por que aqui não se ensinou “fazem adquirir”, como se ensinou no shituf do mavoi: Shmuel responde que aqui não é preciso fazer adquirir, e Rabi Yochanan, que é um argumento do leve para o grave, porque, se no eruv dos pátios, que é das palavras dos sábios, se faz adquirir, tanto mais no eruv dos limites; e a guemará diz que Rav vem como Rabi Yochanan, com a palavra de Rabi Yossi beRabi Bun. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 82a, no início do seu capítulo Keitzad Mishtattfin.
Mishná: Como se faz o shituf (a participação comum no eruv) nos techumin (os limites de caminhada do Shabat)? Deposita a chavit (barril) e diz: Eis que isto é para todos os moradores da minha cidade, para todo aquele que for à casa do enlutado ou à casa do banquete. E todo aquele que aceitou sobre si enquanto ainda era dia, é permitido; quem aceitou depois que escureceu, é proibido, pois não se faz eruv (a junção que permite caminhar além do limite no Shabat) depois que escurece.
“Como se faz o shituf nos techumin” etc. E não se ensinou nela: “mezakun (fazem adquirir)”. E por que não ensinamos aqui “fazem adquirir”? Shmuel disse: Lá, no shituf do mavoi, ensinamos “fazem adquirir”: é preciso fazer adquirir a eles. Mas aqui, onde não ensinamos “fazem adquirir”, não é preciso fazer adquirir a eles.
Rabi Yochanan disse: Há kulei chumrin (um argumento do leve para o grave) na questão. Se lá, onde os eruvei chatzerot (o eruv dos pátios) são das palavras deles, dizes: “Fazem adquirir”, os eruvei techumin (o eruv dos limites), de palavra da Torá, não o exigem tanto mais? A palavra de Rav vem como Rabi Yochanan. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: É para fazer todos os domínios como um só.
Esta é a primeira halachá do Perek Chet de Massechet Eruvin, Keitzad Mishtattfin. A halachá ocupa dois segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e o segundo é a seção 01 desta página, dividida em dois pares no ponto em que começa a palavra de Rabi Yochanan. A sua Mishná corresponde à Mishná avulsa Eruvin 8:1, inteira e sem diferença de conteúdo; as diferenças são de grafia, de vocalização e de pontuação: o Yerushalmi tem מַנִּיחַ, שֶׁיֵלֵךְ, וְכָל מִי שֶׁקִּיבֵּל, מוּתָּר, מִשֶּׁחֲשֵׁיכָה e, no fim, מִשֶּׁתֶּחְשַׁךְ, onde a avulsa tem מֵנִיחַ, שֶׁיֵּלֵךְ, וְכֹל שֶׁקִּבֵּל, מֻתָּר, מִשֶּׁתֶּחְשַׁךְ e מִשֶּׁתֶּחְשָׁךְ; a avulsa tem os pontos e as vírgulas. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 82a, logo depois de הַדְרָן עֲלָךְ חַלּוֹן, e ali se lê בִּתְחוּמִין, וְכׇל שֶׁקִּיבֵּל e מִשֶּׁתֶּחְשַׁךְ — אָסוּר. O Bavli deste site ainda vai só até Eruvin 61b; por isso esta página não traz links para Eruvin 80a, 82a e 82b.
Sobre a Mishná. O Penei Moshe explica que, se muitos querem associar-se juntos no eruv dos limites, fazem o shituf; e que, se um só faz o eruv por todos, deposita o barril e lhes faz adquirir por meio de outro, e diz: eis que isto é para todos os moradores da minha cidade. Sobre a casa do enlutado e a casa do banquete, ele diz que a Mishná ensina que, de início, só se faz o eruv dos limites para uma coisa de mitzvá, como a casa do enlutado, o banquete de casamento, receber o seu mestre ou o seu companheiro que chega de viagem, ou por medo, de quem quer fugir dos gentios ou dos salteadores; e que, se fez o eruv para uma coisa permitida, que não é mitzvá, o eruv vale. O Korban HaEdah diz do mesmo modo: דמילי דמצוה נינהו וקי"ל אין מערבין עירובי תחומין אלא לדבר מצוה, “são coisas de mitzvá, e temos estabelecido que não se faz o eruv dos limites senão para uma coisa de mitzvá”; e explica que “aceitou sobre si” é aceitar apoiar-se neste eruv. Sobre quem aceitou ainda de dia, o Penei Moshe remete à guemará e explica que a Mishná fala de quem foi avisado: se o avisaram ainda de dia, mesmo que só o tenha aceitado depois que escureceu, é permitido, porque há bereirá (determinação retroativa) numa coisa que é das palavras dos sábios; mas, se não o avisaram até que escureceu, não sai com ele, porque não se faz eruv depois que escurece; e, sem o seu conhecimento, não adquiriu, pois não se faz o eruv dos limites senão com o seu consentimento, como se ensinou no fim do capítulo anterior, na Halachá 7:10. No Bavli, Eruvin 82a, Rav Yosef diz אֵין מְעָרְבִין אֶלָּא לִדְבַר מִצְוָה, “não se faz eruv senão para uma coisa de mitzvá”; a guemará pergunta se da Mishná se deduz que não há bereirá, e Rav Ashi responde ״הוֹדִיעוּהוּ״ וְ״לֹא הוֹדִיעוּהוּ״ קָתָנֵי, “ensina-se ‘avisaram-no’ e ‘não o avisaram’”; e Rav Assi diz que o menino de seis anos sai com o eruv da sua mãe. No Bavli, Eruvin 82b, a baraita ensina que uma pessoa faz eruv por meio do seu filho e da sua filha menores e do seu servo e da sua serva cananeus, com o seu consentimento e sem ele, mas por meio do seu filho e da sua filha maiores, do seu servo e da sua serva hebreus e da sua mulher, só com o consentimento deles; e que todos eles, se fizeram eruv e o seu senhor fez eruv por eles, saem com o do seu senhor, חוּץ מִן הָאִשָּׁה, מִפְּנֵי שֶׁיְּכוֹלָה לִמְחוֹת, “exceto a mulher, porque ela pode protestar”. A Tosefta Eruvin 6:5, no Sefaria comum, que na edição de Lieberman é Eruvin 6:9, diz: המערב על ידי בני עירו שילכו עמו לבית האבל, או לבית המשתה, “quem faz eruv por meio dos moradores da sua cidade, para que vão com ele à casa do enlutado ou à casa do banquete”; se há alimento de duas refeições para cada um, venham, e, se não, não venham; e, se aceitaram um depois do outro, os primeiros, que têm a sua parte, venham, e os últimos não venham.
Sobre a seção 01. O Penei Moshe e o Korban HaEdah explicam que a pergunta é por que a Mishná dos limites não diz “e lhes faz adquirir”, como a Mishná do shituf do mavoi, na Halachá 7:6, onde se lê וּמְזַכֶּה לָהֶן עַל יְדֵי בְנוֹ וּבִתּוֹ הַגְּדוֹלִים, “e lhes faz adquirir por meio do seu filho e da sua filha maiores”. Para Shmuel, segundo o Penei Moshe, o tanaíta ensinou com precisão: lá é preciso fazer adquirir, e aqui, nos limites, não é preciso; o Korban HaEdah explica a razão: no eruv dos pátios, é preciso fazer adquirir por causa da aquisição do domínio, ou da morada na casa do companheiro, e no eruv dos limites não se adquire o domínio de outros. Para Rabi Yochanan, segundo os dois, não se trata de precisão, mas de um argumento do leve para o grave, sobre o qual o tanaíta se apoiou: se no eruv dos pátios e no shituf dos becos, que são das palavras dos sábios, dizes que se faz adquirir, no eruv dos limites, que tem apoio na Torá, como está escrito אל יצא איש ממקומו, “não saia ninguém do seu lugar”, tanto mais é preciso fazer adquirir. Sobre “Rav vem como Rabi Yochanan”, o Penei Moshe remete ao Perek HaDar, onde Rav discorda de Rabi Yochanan sobre os utensílios que repousaram no mavoi: para Rabi Yochanan, transportam-se em todo o mavoi, porque a korá permite sem shituf, e para Rav, só em quatro amot; e ali Rabi Yossi beRabi Bun diz, segundo Rabi Yochanan, que o shituf serve כְּדֵי לַעֲשׂוֹת כָּל הָרְשׁוּיוֹת כְּאַחַת, “para fazer todos os domínios como um só”, com as mesmas palavras desta seção, na Halachá 6:8. Segundo ele, a guemará aprende dali que Rav, que exige o fazer adquirir no shituf do mavoi, o exige tanto mais no eruv dos limites, e por isso vem como Rabi Yochanan. O Korban HaEdah diz que Rav é quem disse que o eruv dos limites precisa de fazer adquirir, como está no Bavli, no capítulo Challon, em nome de Rav; e lê a palavra de Rabi Yossi beRabi Bun como a razão de Shmuel: no eruv dos pátios é preciso fazer adquirir, porque o fazer adquirir faz de todos os domínios do pátio um só, o que não acontece no eruv dos limites. No Bavli, Eruvin 80a: שִׁיתּוּפֵי מְבוֹאוֹת, רַב אָמַר: אֵין צָרִיךְ לְזַכּוֹת, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: צָרִיךְ לְזַכּוֹת. עֵירוּבֵי תְחוּמִין, רַב אָמַר: צָרִיךְ לְזַכּוֹת, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: אֵין צָרִיךְ לְזַכּוֹת, “no shituf dos becos, Rav disse: não é preciso fazer adquirir, e Shmuel disse: é preciso fazer adquirir; no eruv dos limites, Rav disse: é preciso fazer adquirir, e Shmuel disse: não é preciso fazer adquirir”; e ali a guemará diz da razão de Shmuel הָכָא תְּנַן, וְהָכָא לָא תְּנַן, “aqui se ensinou, e aqui não se ensinou”, como no Yerushalmi; e Rav Nachman diz que o eruv dos limites, o eruv dos pátios e o shituf dos becos, todos precisam de fazer adquirir. O Mareh HaPanim remete a esta passagem do Bavli e observa que, no Yerushalmi, Rav não é citado nesta questão, e que a palavra se refere ao que se disse em nome de Rav no Perek HaDar. A Tosefta Eruvin 6:1, nas duas edições do Sefaria, diz do shituf do mavoi: היתה משלהן, אין צריך לזכות, היתה משלו, מגביהה מן הארץ ואו' זכיתי לכם, “se era deles, não é preciso fazer adquirir; se era sua, ergue-a do chão e diz: fiz-vos adquirir”, assim na edição de Lieberman.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer traduz בַּתְּחוּמִין como “for domains” e עֵירוּבֵי תְחוּמִין como “eruvin of domains”, e aqui ficou techumin, os limites de caminhada do Shabat; traduz הֶחָבִית como “an amphora”, e aqui ficou chavit, o barril, como na Halachá 7:6; e traduz מְזַכּוּן como “one transfers rights”, e aqui ficou “fazem adquirir”. Ele anota, na nota 34, que o escriba escreveu ומר, “e disse”, que o corretor mudou, provavelmente por engano, para אמר, “disse”, e traduz “(and) Rebbi Yose ben Rebbi Abun said”; aqui ficou “Disse”, como no texto do Sefaria. Escreve o nome de Shmuel na forma inglesa, e “Rebbi Joḥanan” e “Rebbi Yose ben Rebbi Abun”, que aqui são Rabi Yochanan e Rabi Yossi beRabi Bun. Ele põe entre aspas a citação de abertura e as palavras “one transfers rights”; aqui as aspas ficaram nessas citações, e o “(and)” que ele acrescenta entre parênteses não entrou.
Referências conferidas no Sefaria. Mishná avulsa Eruvin 7:6 e 8:1; Yerushalmi Eruvin 6:8, a divergência de Rav e Rabi Yochanan sobre os utensílios no mavoi e a palavra de Rabi Yossi beRabi Bun; 7:6, a Mishná do shituf do mavoi; 7:10, o fim do capítulo anterior; e 8:2, a Mishná seguinte; Bavli Eruvin 80a, Rav e Shmuel sobre o fazer adquirir e Rav Nachman; 82a, o fim do capítulo Challon, a Mishná, Rav Yosef, Rav Ashi e Rav Assi; 82b, a baraita de quem faz eruv por meio dos seus e a mulher que pode protestar; Tosefta Eruvin 6:1, nas duas edições, e 6:5, no Sefaria comum, que é 6:9 na edição de Lieberman; Penei Moshe, Korban HaEdah e Mareh HaPanim nesta halachá. Referências corrigidas: o Penei Moshe remete ao “Perek HaDar, halachá 7”, que no Sefaria é o Yerushalmi Eruvin 6:8, conferido; e o Korban HaEdah remete ao Perek Challon “acerca do eruv dos pátios”, mas a Mishná que diz וּמְזַכֶּה לָהֶן é a do shituf do mavoi, Eruvin 7:6, conferida. As notas 30, 31 e 32 de Guggenheimer remetem à Mishná 7:6, conferida, e as notas 31 e 33, ao Bavli 80a, conferido.
Nomes nesta página: Shmuel, שְׁמוּאֵל; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; Rav, רַב; e Rabi Yossi beRabi Bun, רִבִּי יוֹסֵי בֵירִבִּי בּוּן, na seção 01. Na nota: Rav Yosef, Rav Ashi, Rav Assi e Rav Nachman.
Do hebraico foram retirados só os rótulos de Mishná e de halachá, no começo dos dois segmentos, e os marcadores de folha: o da página da edição de Vilna 50b, no início da Mishná; o da coluna da edição de Veneza 25a, no início da halachá; e o da página da edição de Vilna 51a, no meio da seção 01, antes de אַתְיָיא דְרַב. Não há marcador numérico, nem a marca פיס׳, nem parênteses ou colchetes, e nada foi acrescentado. Foram mantidas a abreviação כול׳ e as grafias do Sefaria, como מַנִּיחַ, שֶׁיֵלֵךְ, תַנִּיתָהּ, מְזַכּוּן e אַתְיָיא; os dois pontos no fim da Mishná são do Sefaria.
Leituras incertas. וְלֹא תַנִּיתָהּ. מְזַכּוּן ficou “e não se ensinou nela: fazem adquirir”, com o sufixo referido à Mishná; מְזַכּוּן, forma que o Sefaria grafa assim nas três vezes, ficou mezakun, “fazem adquirir”, como o מְזַכִּין da frase de Rabi Yochanan. קוּלֵּי חוֹמְרִין בַּדָּבָר ficou kulei chumrin, “um argumento do leve para o grave”, com os comentaristas. מִדִּבְרֵיהֶן ficou “das palavras deles”, isto é, dos sábios, e לֹא כָל שֶׁכֵּן, “não o exigem tanto mais?”. אַתְיָיא דְרַב כְּרִבִּי יוֹחָנָן ficou “a palavra de Rav vem como Rabi Yochanan”, sem decidir entre o Penei Moshe, que a liga à divergência do Perek HaDar, e o Korban HaEdah, que a liga ao Bavli 80a. A última frase, כְּדֵי לַעֲשׂוֹת כָּל הָרְשׁוּיוֹת כְּאַחַת, ficou literal, “é para fazer todos os domínios como um só”; o Penei Moshe a lê como a palavra de Rabi Yossi beRabi Bun no Perek HaDar, trazida como prova de que Rav vem como Rabi Yochanan, e o Korban HaEdah, como a razão de Shmuel.
A Mishná seguinte, Eruvin 8:2, no Yerushalmi, trata da medida do eruv: “כַּמָּה הוּא שִׁיעוּרוֹ מְזוֹן שְׁתֵּי סְעוּדוֹת לְכָל אֶחָד וְאֶחָד…”, “quanto é a sua medida? Alimento de duas refeições para cada um…”, com a divergência de Rabi Meir e Rabi Yehudá, e as medidas de Rabi Yochanan ben Beroká e de Rabi Shimon.
Com esta halachá, abre-se o Perek Chet de Massechet Eruvin, Keitzad Mishtattfin (כֵּיצַד מִשְׁתַּתְּפִין).