Quarta halachá do Perek Tet de Massechet Shabbat, Amar Rabi Akiva. A Mishná fecha a série de ensinos que se apoiam em versículos: a unção do corpo com óleo é como o beber no Yom Kipur, e, embora não haja prova para isso, há uma alusão, pois foi dito “e entrou como a água no seu interior, e como o azeite nos seus ossos”. A guemará traz a baraita que distingue a unção no Shabat, no Yom Kipur, no Tishá beAv e nos jejuns públicos; a baraita que iguala a unção ao beber quanto à proibição e ao pagamento, mas não quanto à punição; a discussão de Rabi Yochanan e de Rabi Aba Mari sobre o versículo “e não profanarão”; e a palavra de Rabi Elazar em nome de Rabi Simai, que aprende do versículo “não dei dele para um morto” que a unção está incluída num mandamento positivo. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 86a.
Mishná: De onde se aprende a respeito da sichá (a unção do corpo com óleo) que ela é como o beber no Yom Kipur (o Dia do Perdão)? Ainda que não haja prova para a coisa, há uma alusão à coisa, pois foi dito: “E entrou como a água no seu interior, e como o azeite nos seus ossos” (Tehilim 109:18).
“De onde se aprende a respeito da sichá” etc. Isto é como aquilo que se ensinou: no Shabat, tanto a sichá que é de prazer como a sichá que não é de prazer é permitida. No Yom Kipur, tanto a sichá que é de prazer como a sichá que não é de prazer é proibida. No Tishá beAv (o nove de Av, dia de jejum) e num taanit tzibur (jejum público), a sichá que é de prazer é proibida; a que não é de prazer é permitida.
Ensinou-se: a sichá é igual ao beber no caso da terumá (a porção do sacerdote) quanto à proibição e quanto ao pagamento, mas não quanto à punição. No Yom Kipur, é igual quanto à proibição, mas não quanto à punição. Mas não se ensinou: “E não profanarão” (Vayikra 22:15), para incluir o que unge e o que bebe? Disse Rabi Yochanan: não há aqui “o que unge”. Disse Rabi Aba Mari: se dizes “não há aqui o que unge”, então também não há aqui “o que bebe”; pois, se não fosse assim, uma coisa que vem de dois lavin (proibições) se somaria numa só?
De onde se aprende que isto está claro num assê (mandamento positivo)? Rabi Elazar disse em nome de Rabi Simai: “Não dei dele para um morto” (Devarim 26:14). Do que estamos tratando? Se é para trazer-lhe um caixão e mortalhas, para o vivo isso é proibido; não é tanto mais proibido para o morto? Qual é a coisa que é permitida para o vivo e proibida para o morto? Dize, pois: esta é a sichá.
Esta é a quarta halachá do Perek Tet de Massechet Shabbat, Amar Rabi Akiva, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 9:4 da Mishná avulsa, que vai de “de onde se aprende a respeito da unção, que é como o beber no Yom Kipur” até “e como o azeite nos seus ossos”. A Mishná seguinte, “quem leva para fora lenha, o bastante para cozer um ovo leve”, que é a Mishná Shabbat 9:5 da Mishná avulsa, é a da halachá 9:5. As diferenças de redação são só de grafia: a Mishná avulsa escreve “minayin” e “kashtiyá” com menos letras, “beyom” com outra vocalização, e “vatavo” sem o vav que o Yerushalmi escreve; ali a referência do versículo vem entre parênteses, e aqui não; o sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No Bavli, em Shabbat 86a, esta Mishná vem unida à anterior, numa só. É a última da série de ensinos que a Mishná prova com versículos, e ela mesma diz que o versículo não é prova, mas alusão. A guemará não fala do Shabat senão na primeira baraita, e, como observa Guggenheimer, o texto inteiro está também em outros lugares do Yerushalmi. A seção 01 traz a baraita sobre a unção nos dias de jejum; a seção 02, a unção da terumá e o versículo da declaração do dízimo.
Referências conferidas. O versículo da Mishná é Tehilim 109:18, que diz por inteiro: “E vestiu a maldição como a sua veste, e ela entrou como a água no seu interior, e como o azeite nos seus ossos”; o massorético escreve “vatavo” sem vav. A Mishná Yoma 8:1 ensina que o Yom Kipur é proibido no comer, no beber, no lavar-se, na unção, no calçar a sandália e nas relações conjugais; a Mishná Taanit 1:6, que nos jejuns públicos de seca, depois dos primeiros, se proíbe também a unção; e a Tosefta Taanit 1:5, na edição de Lieberman, diz o mesmo dos jejuns que começam ainda de dia. A Tosefta Yoma 4:1, na edição de Lieberman, repete a lista do Yom Kipur. A Mishná Terumot 6:1 ensina: “quem come terumá por erro paga o principal e o quinto; tanto o que come como o que bebe como o que unge”; é o “pagamento” da seção 02, e o quinto vem de Vayikra 22:14: “e o homem que comer coisa sagrada por erro acrescentará a ela o seu quinto, e dará ao sacerdote a coisa sagrada”. O versículo seguinte, Vayikra 22:15, é “e não profanarão as coisas sagradas dos filhos de Israel, que eles separam para o Eterno”. O Bavli, em Niddah 32a, traz a mesma baraita, “e não profanarão as coisas sagradas dos filhos de Israel, para incluir o que unge e o que bebe”, e pergunta para que é preciso um versículo para o que bebe, se o beber está incluído no comer; responde que é para incluir o que unge como o que bebe, ou, se quiseres, que se aprende de “e entrou como a água no seu interior, e como o azeite nos seus ossos”. Na Tosefta Terumot 7:1, na edição de Lieberman, Rabi Shimon diz que quem unge com vinho de terumá por erro paga o principal e não paga o quinto; o texto da Tosefta Terumot sem a edição de Lieberman, no Sefaria, escreve “azeite” em vez de “vinho”. Na Tosefta Terumot 7:3, também na edição de Lieberman, lê-se “tanto o que come como o que bebe como o que unge”, e que comer e beber não se somam; o mesmo diz a Mishná Yoma 8:2 a respeito do Yom Kipur, e a Mishná Yoma 8:3 ensina que quem comeu e bebeu num só esquecimento só deve uma oferenda de chatat. O versículo de Rabi Simai é Devarim 26:14, da declaração do dízimo: “não comi dele no meu luto, nem dele tirei em impureza, nem dele dei para um morto; escutei a voz do Eterno, meu Deus, fiz conforme tudo o que me ordenaste”. No Sifrei Devarim 303, na numeração do Sefaria, Rabi Eliezer explica “não dei dele para um morto” como “não tomei dele um caixão e mortalhas para um morto”, e Rabi Akiva lhe responde que, se é para o morto, também para o vivo é proibido. A Mishná Maasser Sheni 2:1 ensina que o segundo dízimo foi dado para comer, para beber e para ungir. O Bavli discute a unção no Yom Kipur em Yoma 76b: aprende de Daniel 10:3, “e não me ungi”, que a unção se chama aflição; traz Rav Zutra beRabi Toviá, que aprende o lavar-se do versículo de Tehilim; e objeta com a nossa Mishná, que aprende dele a unção; a discussão continua em Yoma 77a com o lavar-se. Nas folhas de Shabbat que seguem a Mishná, de 86a a 89b, o Bavli não discute a unção. Os paralelos do Yerushalmi são Yoma 8:1, sexto e oitavo segmentos na numeração do Sefaria; Taanit 1:6, sexto e sétimo segmentos; e Maasser Sheni 2:1, oitavo e nono segmentos, onde a baraita sobre os jejuns serve para provar que a unção não está clara no versículo.
Observações de leitura. Na seção 01, “de prazer” traduz “shel taanug”: a unção para o deleite, diferente da unção para curar. O texto diz “permitida” e “proibida” sem nomear o que se pergunta; entende-se que a baraita está ali para explicar a palavra “sichá” da Mishná, que só fala do Yom Kipur. Na seção 02, o texto não diz de que se fala na primeira baraita; entende-se, pela Mishná Terumot 6:1, que a unção é igual ao beber no caso da terumá: é proibida ao que não é sacerdote, e quem a usa por erro paga o principal e o quinto; a punição, que não se aplica, é a pena da Torá. “No Yom Kipur, é igual quanto à proibição, mas não quanto à punição” quer dizer que a unção é proibida no Yom Kipur, mas quem a faz não está sujeito à pena do comer e do beber. “Não há aqui o que unge” é como entendemos “leit kan sach”: a palavra de Rabi Yochanan rejeita a inclusão do que unge na baraita de “e não profanarão”. O raciocínio de Rabi Aba Mari não é explícito: se o beber precisasse de um versículo próprio, seria uma proibição à parte da do comer, e não se entenderia que as duas se juntassem num só esquecimento, como ensina a Mishná Yoma 8:3; por isso o beber já está incluído no comer, e o versículo não ensina nem o que bebe nem o que unge. Assim o lê Guggenheimer; deixamos a pergunta como está no hebraico. “Que isto está claro num assê” traduz “shehu mechuvar baassê”; nos paralelos de Maasser Sheni e de Taanit, a pergunta vem depois de se dizer que a unção “não está clara”, e o sentido é: de onde se aprende que a proibição da unção está claramente num mandamento positivo. O versículo “não dei dele para um morto” fala do dízimo, e é com ele que se prova: caixão e mortalhas são proibidos também para o vivo, pois não se compram com o dinheiro do dízimo senão comida, bebida e unção; a coisa permitida ao vivo e proibida ao morto é a unção, que não se faz no morto com o óleo do dízimo. Os paralelos têm pequenas diferenças: em Maasser Sheni e em Taanit, o sábio se chama “Rabi Lazar”, e em Yoma, “Rabi Elazar”, como aqui; Rabi Aba Mari se escreve “Abamari” em Yoma e em Taanit; Taanit escreve “lerabot” onde aqui se lê “lehavi”, com o mesmo sentido, “para incluir”; e Maasser Sheni diz “uma coisa que é proibida para o vivo, para o vivo é proibida”, onde aqui só se lê “para o vivo é proibida”.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer observa que esta halachá se refere à última parte da Mishná e que o assunto só toca de leve as leis do Shabat. Ele entende que o pagamento é a restituição do principal com o acréscimo de um quinto, e que a unção e as relações conjugais no Yom Kipur são proibições dos sábios, sem a punição da Torá; esta segunda explicação é dele, e o texto não a diz. Na pergunta de Rabi Aba Mari, ele lê “dois lavin” como duas proibições da Torá, cada uma com a sua oferenda, e liga a pergunta ao caso de quem come e bebe num só esquecimento, o que conferimos na Mishná Yoma 8:3. Ele remete o versículo de Rabi Simai ao Sifrei Devarim 302; no Sefaria, a passagem está no Sifrei Devarim 303, e corrigimos a referência. Ele entende que, no dízimo, só a unção é permitida ao vivo e proibida ao morto, o que concorda com a Mishná Maasser Sheni 2:1. Ele traduz “hevei omer” como “eu digo”; preferimos “dize, pois”, a forma habitual da expressão.