Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Tet · Halachá 5
שַׁבָּת

Hamotzi etzim: lenha, especiarias, tinturas e o que lava

Perek Tet, Amar Rabi Akiva, Halachá 5, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Quinta halachá do Perek Tet de Massechet Shabbat, Amar Rabi Akiva. Terminada a série de ensinos que se apoiam em versículos, a Mishná volta às medidas de quem leva algo para fora no Shabat: lenha, o bastante para cozer um ovo leve; especiarias, o bastante para temperá-lo, e elas se somam umas com as outras; cascas e plantas de tingir, o bastante para tingir uma peça pequena como uma rede de cabelo; e as substâncias de lavar, o bastante para lavá-la, ou, segundo Rabi Yehudá, para passar sobre uma mancha. A guemará é curta: pergunta como o cominho e o sal se somariam, e Rabi Ila responde em nome de Rabi Elazar que se fala das especiarias que adoçam; distingue a medida do que tinge da medida do que leva para fora para tingir; e explica os nomes das substâncias de lavar, até uma palavra de Rabi Yossi beRabi Bun que ninguém sabe ao certo ler. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 89b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמּוֹצִיא עֵצִים כְּדֵי לְבַשֵּׁל בֵּיצָה קַלָּה. תַּבְלִין כְּדֵי לְתַבֵּל בֵּיצָה קַלָּה וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה. קְלִיפֵּי אֱגוֹזִים קְלִיפֵּי רִמּוֹנִים אִסָטִיס וּפוּאָה כְּדֵי לִצְבֹּעַ בָּהֶן בֶּגֶד קָטָן כִּשְׂבָכָה. מֵי רַגְלַיִם נֶתֶר וּבוֹרִית קְימוּנְיָא וְאָשְׁלָג כְּדֵי לְכַבֵס בָּהֶן בֶּגֶד קָטָן כִּשְׂבָכָה. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כְּדֵי לְהַעֲבִיר עַל הַכֶּתֶם:

Mishná: Quem leva para fora lenha, é culpado se levar o bastante para cozer um ovo leve, dos que se cozem depressa; especiarias, o bastante para temperar um ovo leve; e elas se somam umas com as outras. Cascas de nozes, cascas de romãs, isatis (o pastel-dos-tintureiros) e puá (a garança), o bastante para tingir com elas uma peça de roupa pequena como uma sevachá (rede de cabelo). Urina, neter (o natrão) e borit (uma erva de lavar), kimunyá (a terra cimólia) e ashlag (a potassa), o bastante para lavar com eles uma peça de roupa pequena como uma sevachá. Rabi Yehudá diz: o bastante para passar sobre a mancha e tirá-la.

A Halachá · הֲלָכָה ה

01O cominho e o sal: as espécies que adoçam
Yerushalmi · Shabbat 9:5
ה׳. וְקַשְׁיָא. כָּמוּן וּמֶלַח מִצְטָרְפִין. רִבִּי אִילָא בְשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר. בְּמִינֵי מְתִיקָה שָׁנוּ.

E é difícil: cominho e sal se somam um com o outro? Rabi Ila disse em nome de Rabi Elazar: ensinaram a respeito dos minei metiká (as espécies que adoçam a comida).

02O que tinge e o que leva para fora para tingir
Yerushalmi · Shabbat 9:5
תַּמָּן תַּנִּינָן. שִׁיעוּר הַמְלַבֵּן הַמְנַפֵּס וְהַצּוֹבֵעַ וְהַטּוֹוֶה. וְהָכָא אַתְּ אָמַר הָכֵין. תַּמָּן בְּצוֹבֵעַ. בְּרַם הָכָא בְּמוֹצִיא לִצְבוּעַ.

Lá ensinamos: “A medida do que alveja, do que carda, do que tinge e do que fia” etc., e aqui na nossa Mishná tu dizes assim, uma peça pequena como uma sevachá? Lá, fala-se do que tinge; porém aqui, do que leva para fora para tingir.

03Os nomes das substâncias de lavar
Yerushalmi · Shabbat 9:5
נֶתֶר. נִטְרוֹן. בִּירִית. בִּירִיתָה. קְימוּן. קַלְיָא. אָשְׁלָג. רִבִּי יוּסֵי בֵּירִבִּי בּוּן אָמַר. אצרות רֵוח.

Neter: nitron (o nome grego do natrão). Birit: biritá (outro nome da borit). Kimun: kalyá (a barrilha, cinza de plantas salinas). Ashlag: Rabi Yossi beRabi Bun disse: atzrot revach (palavra de leitura e sentido incertos).

Nota

Esta é a quinta halachá do Perek Tet de Massechet Shabbat, Amar Rabi Akiva, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 9:5 da Mishná avulsa, que vai de “quem leva para fora lenha, o bastante para cozer um ovo leve” até “o bastante para passar sobre a mancha”. A Mishná seguinte, “pimenta, qualquer quantidade”, que é a Mishná Shabbat 9:6 da Mishná avulsa, é a da halachá 9:6. As diferenças de redação são pequenas. A mais visível é a da medida da peça: o Yerushalmi escreve “kissevachá”, “como uma rede de cabelo”, com a letra sin; a Mishná avulsa escreve “bassevachá”, “na rede de cabelo”, com samech; e a Mishná que o Bavli traz em Shabbat 89b escreve “pi sevachá”, “a medida da boca de uma rede de cabelo”. Os nomes das substâncias variam também: o Yerushalmi escreve “isatis” e “kimunyá”, a Mishná avulsa “istis” e “kimonyá”, e o Bavli “eistis” e “kimolyá”, a terra de Cimolos; o Yerushalmi vocaliza “ashlag” com qamatz, e a Mishná avulsa, com patach. As outras são de grafia ou de vocalização, como “kelipei” com ou sem yod, “tavlin” e “tevalin”, “haketem” e “hakatem”; e o Bavli escreve “lecabes beged”, sem “bahen”, e, na palavra de Rabi Yehudá, “lehaavir et haketem”, onde o Yerushalmi e a Mishná avulsa escrevem “al haketem”. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. A seção 01 trata das especiarias; a seção 02, das tinturas; a seção 03, das substâncias de lavar. Da lenha a guemará do Yerushalmi não fala.

Referências conferidas. A Mishná que a seção 02 cita com “lá ensinamos” é a Mishná Shabbat 13:4: “a medida do que alveja, do que carda, do que tinge e do que fia é a largura cheia do sit dobrado; e o que tece dois fios, a sua medida é a largura cheia do sit”; o sit é a distância entre o polegar e o indicador abertos. O Yerushalmi tem a mesma Mishná na halachá 13:4, onde escreve também “hamenapes”, com samech, por “hamenapetz”, “o que carda”. A Tosefta Shabbat 9:7, na edição de Lieberman, diz das plantas de tingir: “istis, e espinho, e puá, o bastante para tingir com elas uma peça pequena; quanto é uma peça pequena? A boca de uma rede de cabelo”. A Mishná Niddah 9:6 ensina: “sete substâncias se passam sobre a mancha: saliva insípida, água de grãos partidos, urina, neter, borit, kimunyá e ashlag”; se a mancha não sai, é tinta, e se sai ou desbota, é mancha de sangue; é daí que vem a expressão de Rabi Yehudá, “passar sobre a mancha”. O Bavli traz a Mishná em Shabbat 89b e discute-a até 90a. Sobre as especiarias, objeta com a Mishná Orlah 2:10, “especiarias de dois e de três nomes de uma mesma espécie, ou de três espécies, são proibidas e se somam”, e traz a palavra de Chizkiyá, “ensinaram-no a respeito das espécies que adoçam, pois servem para adoçar a panela”, que é em Shabbat 90a e corresponde à de Rabi Ila em nome de Rabi Elazar. Sobre as tinturas, objeta com a medida das ervas de tingir postas de molho, o bastante para tingir uma amostra para a lançadeira, e responde que ninguém se dá ao trabalho de pôr ervas de molho para tão pouco. Sobre as substâncias de lavar, em Shabbat 90a, ensina que a urina é até quarenta dias; que o neter é o de Alexandria, e não o de Anpantrin; que a borit não é areia nem enxofre, pois uma baraita do ano sabático a conta entre as plantas, mas aloé, pois há duas espécies de aloé; que a kimolyá é o que Rav Yehudá chama “shelof dotz”; e que o ashlag, segundo os marinheiros que Shmuel interrogou, se chama “shunaga”, se acha na concha da pérola e se tira com um espeto de ferro.

Observações de leitura. Na Mishná, “ovo leve” traduz “beitzá kalá”, o ovo que se coze mais depressa; e “elas se somam umas com as outras” entendemos, com a seção 01 e com o Bavli, das especiarias entre si: por isso a guemará pergunta como o cominho e o sal se somariam, se a quantidade de cada um que tempera um ovo é tão diferente. A resposta de Rabi Ila diz só “ensinaram a respeito dos minei metiká”; que sejam as especiarias que servem juntas para adoçar a comida é como o Bavli o explica. Na seção 02, a Mishná de lá dá ao que tinge uma medida, e a nossa Mishná dá outra às plantas de tingir; a resposta é que lá se fala de quem faz o trabalho de tingir, e aqui de quem leva para fora o material para tingir, e cada um tem a sua medida. A seção 03 é uma lista de palavras sem verbo; lemo-la aos pares, cada nome da Mishná seguido da palavra que o explica: o neter é o nitron grego, a soda; a birit, que é a borit da Mishná, é a biritá; o kimun, que é a kimunyá, é a kalyá, a cinza de plantas salinas usada para lavar; e o ashlag, Rabi Yossi beRabi Bun o explica como “atzrot revach”. Esta leitura aos pares é a nossa; a lista também poderia ser dividida de outro modo. As letras de “atzrot revach” não têm vocalização na primeira palavra, e na segunda o Sefaria imprime “rêvach”; lidas como hebraico dariam algo como “tesouros de espaço”, o que não faz sentido para uma substância de lavar, e deixamos a palavra sem traduzir. A identificação moderna destas substâncias é incerta: neter é quase com certeza a soda natural; a kimunyá, a terra de Cimolos, uma argila de lavar; o ashlag, potassa ou um sal alcalino; a borit, uma planta de que se tirava lixívia.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer entende que “se somam umas com as outras” vale para a lenha e as especiarias juntas, pois para ambas a medida é a do ovo leve; o Bavli e a pergunta da seção 01 tratam das especiarias entre si, e assim traduzimos. Ele traduz “sevachá” por rede de cabelo e a explica como uma touca de crochê ou de malha, que leva pouca tinta; e lê a Mishná de Rabi Yehudá a respeito da mancha de sangue de mulher, que se tira para que a peça possa ser purificada no banho ritual; a ligação com a mancha é a da Mishná Niddah 9:6, mas o texto da nossa Mishná não diz de que mancha se trata. Na seção 02, ele diz que a medida da nossa Mishná é muito menor que a da Mishná 13:4; o texto só diz que são medidas de casos diferentes. Na seção 03, a sua tradução inglesa junta “birit” com “kimun” e “biritá” com “kali”, mas a nota dele explica “kali” como a planta salina e “biritá” como uma planta de fazer sabão, o que concorda com a leitura aos pares; seguimos a pontuação do hebraico. Ele lembra que, no Bavli, a borit é primeiro explicada como enxofre e depois como aloé, e conclui que também aqui as substâncias seriam de origem vegetal; e diz de “atzrot revach” que a palavra, se está bem escrita, ninguém sabe o que seja. Ele traduz “kimunyá” por terra cimólia e “ashlag” por potassa, e assim as glosamos.