Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet (Amar Rabi Akiva)
כְּטַבְלָא מְרוּבַּעַת

A conclusão da discussão sobre os canteiros circulares — "como uma tábua quadrada"; a nova Mishná com quatro leis derivadas de versos; e a disputa sobre em que dia Israel se absteve de relações antes de receber a Torá

Shabbat 86a — completa a frase interrompida de 85b (a comparação do canteiro circular com uma tábua quadrada) e encerra a discussão sobre os canteiros circulares; traz a nova Mishná com quatro leis derivadas de versos — a impureza da emissão seminal no terceiro dia, a lavagem da circuncisão no terceiro dia quando cai em Shabat, o fio de lã escarlate no bode enviado ao deserto em Yom Kipur, e a equivalência entre unção e bebida no Dia da Expiação; a Guemará pergunta se a Mishná segue inteira Rabi Elazar ben Azaria ou está dividida entre tanaítas, traz a baraita de Rabi Elazar ben Azaria, Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre os períodos de pureza da emissão, e a discussão de Rav Pappa (ou Rav Pappa a Rava) sobre em que dia da semana Israel se absteve de relações conjugais antes de receber a Torá, com a prova de que Moshe subiu e desceu do Monte Sinai de madrugada; e fecha, por ora, com uma discussão sobre relações conjugais durante o dia e as leniências do quarto escuro e do talit.

85b terminara em aberto, no meio da objeção de Ravina a Rav Ashi, cortada exatamente na frase "e vemos-nas..." — sem completar a comparação. 86a abre completando essa frase: "como uma tábua quadrada". A Guemará então usa essa mesma frase para objetar a Rav Ashi: só quando se considera o canteiro circular como uma tábua quadrada é que se permite a leniência de "cabeça de fileira" para o que sai dele; mas, se não for assim considerado, seria proibido — o que pareceria contradizer a técnica de Rav Ashi de alternar a direção do plantio sem depender dessa ficção geométrica. A Guemará responde que ali, na baraita, o motivo de considerá-lo quadrado é para outra leniência inteiramente distinta, sem relação com o método de Rav Ashi, encerrando assim toda a extensa discussão sobre os canteiros de sementes que ocupou as folhas anteriores. A folha então introduz uma nova Mishná, com quatro leis cujo fundamento não é lógico, mas derivado diretamente de versos: a impureza da emissão seminal expelida no terceiro dia após a relação; a permissão de lavar a ferida da circuncisão no terceiro dia quando este cai em Shabat; o costume de atar uma língua de lã escarlate na cabeça do bode enviado ao deserto em Yom Kipur; e a equivalência entre ungir-se com óleo e beber, ambas proibidas no Dia da Expiação. A Guemará então examina a Mishná: por que seu início não segue Rabi Elazar ben Azaria, mas seu final sim? Traz a baraita com a disputa de Rabi Elazar ben Azaria, Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre quantos períodos (onot) tornam impura a emissão tardia, e a discussão de Rav Pappa (ou, segundo outros, dele a Rava) sobre em que dia da semana o povo de Israel se absteve de relações conjugais antes de receber a Torá no Sinai — resolvida com a regra de que Moshe sempre subia e descia o monte de madrugada, provada por dois versos do Êxodo. A folha fecha, por ora, com uma pergunta lateral sobre por que Moshe precisou ordenar a abstinência, já que os sábios ensinam que os filhos de Israel são santos e não têm relações durante o dia — respondida com as leniências do quarto escuro e do talit usado pelo sábio para se cobrir.

Nota — continuidade entre 85b e 86a

85b fechara com a objeção de Ravina a Rav Ashi genuinamente interrompida no meio da frase — "e vemos-nas..." ("וְרוֹאִין אוֹתָם"), sem completar a comparação. 86a abre com a própria continuação dessa frase, como primeira palavra da folha: "כְּטַבְלָא מְרוּבַּעַת" — "como uma tábua quadrada". O leitor deve entender o início de 86a como a conclusão direta da citação da baraita aberta em 85b, e a discussão que se segue (a objeção da Guemará a Rav Ashi e sua resposta) como o fecho de toda a sugia sobre os canteiros circulares iniciada ainda em 85a.

Conclusão: "como uma tábua quadrada" — objeção a Rav Ashi e resposta, encerrando a discussão dos canteiros · כְּטַבְלָא מְרוּבַּעַת

52Completa-se a citação da baraita: "como uma tábua quadrada"; objeção a Rav Ashi — só assim se permite a leniência; resposta: ali é para outra leniência, sem relação com a de Rav Ashi
A baraita (continuação); a Guemará
כְּטַבְלָא מְרוּבַּעַת. כְּטַבְלָא הוּא דִּשְׁרֵי, הָא לָאו הָכִי — אָסוּר! הָתָם לְאַקּוֹלֵי בָּהּ קוּלָּא אַחֲרִינָא, לְהַתִּיר רֹאשׁ תּוֹר הַיּוֹצֵא הֵימֶנָּה.

— conclui a baraita citada por Ravina — como uma tábua quadrada : é assim que se calcula a distância de seis palmos entre uma verdura e outra, mesmo no canteiro circular. Objeta a Guemará a Rav Ashi: somente quando o canteiro circular é considerado como uma tábua quadrada é que se permite essa leniência; mas se não fosse assim — se o canteiro fosse tratado apenas em sua forma circular real, sem essa ficção geométrica — seria proibido! Responde a Guemará: ali , na baraita, é para ser leniente com ele por meio de outra leniência , distinta da que Rav Ashi ensinou — para permitir a regra da cabeça de fileira que sai dele ; a exigência de considerá-lo quadrado ali não tem relação alguma com a técnica de Rav Ashi de alternar a direção do plantio entre canteiros vizinhos, e por isso não há contradição entre os dois.

Nota — encerra-se aqui a discussão dos canteiros

A baraita citada por Ravina, ao explicar como se mede a distância de seis palmos entre verduras vizinhas mesmo num canteiro circular, ensina que se deve "vê-las como uma tábua quadrada" — isto é, imaginar o canteiro circular inscrito numa figura quadrada para fins de cálculo. A Guemará usa essa mesma frase para objetar a Rav Ashi: se a permissão de tratar o canteiro circular com a leniência de "cabeça de fileira" (que deixa sair dele um pouco de plantio sem infração) depende de primeiro o considerarmos quadrado, então, fora dessa ficção geométrica, o canteiro circular seria tratado com todo o rigor — o que pareceria excluir o método mais simples de Rav Ashi, que apenas alternava a direção do plantio (trama e urdidura) entre canteiros vizinhos sem depender de imaginá-los quadrados. A Guemará responde que as duas leniências são independentes: a "tábua quadrada" da baraita serve apenas para permitir que o plantio se estenda para fora do canteiro circular (a leniência de "cabeça de fileira"), um problema totalmente distinto do que Rav Ashi resolve, que é a distinção visual entre as fileiras de canteiros vizinhos. Com isso, encerra-se toda a extensa sugia sobre os canteiros de sementes, iniciada ainda em 85a.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ketavla merubaat" e "hatam"
כטבלא מרובעת - אלמא עגולה לאו ערוגה היא: התם - דבעי מרובעת לאחשובה שדה קאמר להתיר ראש תור כו' ולית ליה לר' יוחנן הא דאמר לעיל אין ראש תור בערוגה אי נמי אית ליה מערוגה לערוגה אבל משדה לערוגה יש ראש תור.

"'Como uma tábua quadrada'" — logo, um canteiro redondo não é considerado propriamente um canteiro, para os fins dessa lei. "'Ali'" — pois a baraita exige que se considere o canteiro quadrado para lhe dar a importância de um campo, é isso que se diz, para permitir a leniência de "cabeça de fileira" etc., e Rabi Yochanan não sustenta aquilo que se disse acima, que não há "cabeça de fileira" num canteiro; ou então ele sustenta que essa restrição vale apenas de canteiro para canteiro, mas de um campo para um canteiro há "cabeça de fileira".

Mishná: quatro leis derivadas de versos · מִנַּיִן לְפוֹלֶטֶת שִׁכְבַת זֶרַע

53Mishná: de onde se aprende a impureza da emissão no terceiro dia; a lavagem da circuncisão em Shabat; o fio escarlate do bode; e a unção como bebida em Yom Kipur
Mishná
מַתְנִי׳ מִנַּיִן לְפוֹלֶטֶת שִׁכְבַת זֶרַע בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁתְּהֵא טְמֵאָה? שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֱיוּ נְכֹנִים לִשְׁלֹשֶׁת יָמִים״. מִנַּיִן שֶׁמַּרְחִיצִין אֶת הַמִּילָה בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בִּהְיוֹתָם כֹּאֲבִים״. מִנַּיִן שֶׁקּוֹשְׁרִין לָשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית בְּרֹאשׁ שָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ? שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִם יִהְיוּ חֲטָאֵיכֶם כַּשָּׁנִים כַּשֶּׁלֶג יַלְבִּינוּ״. מִנַּיִן לְסִיכָה שֶׁהִיא כִּשְׁתִיָּיה בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים? אַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר זֵכֶר לַדָּבָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתָּבֹא כַמַּיִם בְּקִרְבּוֹ וְכַשֶּׁמֶן בְּעַצְמוֹתָיו״.

MISHNÁ. De onde se aprende que aquela que expele sêmen de relação conjugal no terceiro dia depois da relação é impura , como se a emissão fosse do próprio momento da relação? Pois está dito: "estai prontos para dentro de três dias" (Êxodo 19:15). De onde se aprende que se lava a ferida da circuncisão no terceiro dia, quando este calha em Shabat? Pois está dito: "e sucedeu que, ao terceiro dia, estando eles doloridos..." (Gênesis 34:25). De onde se aprende que se ata uma língua de lã escarlate na cabeça do bode que é enviado ao deserto, em Yom Kipur? Pois está dito: "se forem vossos pecados como o escarlate, como a neve embranquecerão" (Isaías 1:18). De onde se aprende que a unção com óleo é como a bebida no Dia da Expiação , sendo igualmente proibida? Ainda que não haja prova direta para a coisa, há uma alusão à coisa, pois está dito: "e a maldição penetrou como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos" (Salmos 109:18).

Nota

Esta nova Mishná reúne quatro leis cujo fundamento não é o raciocínio lógico, mas a derivação direta de versos bíblicos (o que os sábios chamam de "asmakhta", apoio textual). A primeira: se uma mulher teve relações e, no terceiro dia depois, expele o sêmen depositado, essa emissão ainda transmite impureza como se fosse do próprio momento da relação — aprendido do verso em que Moshe ordena ao povo, antes da revelação no Sinai, que se preparassem "para três dias", implicando que a preocupação com a emissão se estende por esse período. A segunda: quando o terceiro dia após uma circuncisão cai em Shabat — dia em que a dor e o risco de infecção são maiores, como sugere o verso sobre os homens de Shechem —, é permitido lavar a ferida da criança mesmo violando, em parte, as restrições do dia. A terceira: o costume de atar uma língua de lã tingida de escarlate na cabeça do bode expiatório enviado ao deserto em Yom Kipur, relacionado ao verso de Isaías sobre pecados vermelhos como o escarlate que se tornam brancos como a neve. A quarta: ungir-se com óleo é equiparado a beber, e por isso igualmente proibido em Yom Kipur — sem prova direta na Torá, mas com uma alusão no verso dos Salmos, que menciona água e óleo penetrando o corpo lado a lado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shehi tmea", "lishloshet yamim", "minayin shemarchitzin" e "kemayim bekirbo"
מתני' שהיא טמאה - דיום השלישי אכתי לא מסרחה שכבת זרע וראויה לקלוט ולהיות ולד נוצר הימנה וקרינן שכבת זרע הראוי להזריע: לג' ימים - דהקפיד הכתוב על טומאת קרי במתן תורה וקס"ד עם יום הפרישה קאמר דבד' בשבת פירשו מנשותיהן וקבלו תורה בשבת שהוא רביעי לאותם ששימשו מטותיה' ברביעי לפני הפרישה וטבלו לילי שבת ולא חש הכתוב אם יפלוטו בשבת דמסרח ואינו שכבת זרע הראוי להזריע אבל אם פלטו ע"ש בשלישי טמאות לכך הפרישן שלשה ימים: מנין שמרחיצין - דאף ביום ג' מסוכן הוא: כמים בקרבו וכשמן בעצמותיו - מקיש סיכה לשתיה.

"'Mishná: que é impura'" — pois no terceiro dia a emissão de sêmen ainda não apodreceu, e é apta para ser recebida pelo útero e se tornar um feto formado a partir dela, e por isso ainda chamamos essa emissão de sêmen apto para gerar. "'Para três dias'" — pois o texto se preocupou com a impureza de emissão seminal no momento da entrega da Torá, e poderia parecer que o verso fala do dia da abstinência em si, segundo a opinião de que na quarta-feira se abstiveram de suas mulheres e receberam a Torá no Shabat, que é o quarto dia para aqueles que tiveram relações na quarta-feira antes da abstinência, e imergiram na noite de Shabat, e o texto não se preocupou se emitissem no Shabat, pois a essa altura o sêmen já apodreceu e não é mais sêmen apto para gerar; mas se emitissem na véspera de Shabat, no terceiro dia, seriam impuras — por isso os separou três dias. "'De onde se aprende que se lava'" — pois mesmo no terceiro dia a ferida ainda é perigosa. "'Como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos'" — o verso compara a unção à bebida.

Guemará: a Mishná segue Rabi Elazar ben Azaria, ou está dividida entre tanaítas? · רֵישָׁא דְּלָא כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה

54A Guemará pergunta: o início da Mishná não segue Rabi Elazar ben Azaria, mas o final sim? Duas soluções — emendar o texto, ou dividir entre tanaítas
A Guemará
רֵישָׁא דְּלָא כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, סֵיפָא כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה? דְּאִי כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה — טְהוֹרָה שְׁמַעְנָא לֵיהּ. מַאן דְּלָא מוֹקֵי כְּתַנָּאֵי, תָּנֵא רֵישָׁא ״טְהוֹרָה״, וּמוֹקֵי לַהּ לְכוּלַּהּ כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, וּמַאן דְּמוֹקֵים כְּתַנָּאֵי, רֵישָׁא רַבָּנַן וְסֵיפָא כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה.

GUEMARÁ. Pergunta a Guemará: o início da Mishná, sobre a impureza da emissão no terceiro dia, não é segundo Rabi Elazar ben Azaria, mas o final , sobre a lavagem da circuncisão no terceiro dia, é segundo Rabi Elazar ben Azaria? Pois, se o início também fosse segundo Rabi Elazar ben Azaria, dele teríamos ouvido que a emissão no terceiro dia é pura , e não impura. Quem não estabelece a Mishná como opinião dividida entre tanaítas ensina que o texto do início diz "pura" , emendando-o, e estabelece a Mishná toda como segundo Rabi Elazar ben Azaria; e quem estabelece a Mishná como opinião dividida entre tanaítas diz que o início segue os sábios (rabanan), e o final segue Rabi Elazar ben Azaria.

Nota

A Guemará nota uma tensão interna na Mishná: se toda ela seguisse a opinião de Rabi Elazar ben Azaria — que, como a próxima baraita ensinará, considera pura a emissão expelida no terceiro dia —, o início da Mishná (que trata exatamente dessa emissão como impura) não faria sentido; mas o final da Mishná (sobre lavar a ferida da circuncisão no terceiro dia) é justamente o ensinamento atribuído a Rabi Elazar ben Azaria noutro lugar (no Perek Rabi Eliezer). Diante dessa tensão, há duas abordagens: uma prefere emendar o texto do início da Mishná para também ler "pura", igualando toda a Mishná à opinião de Rabi Elazar ben Azaria; a outra prefere não emendar o texto, e em vez disso divide a autoria da Mishná entre dois tanaítas — o início segundo os sábios (que discordam de Rabi Elazar ben Azaria e consideram a emissão do terceiro dia impura) e o final segundo o próprio Rabi Elazar ben Azaria.

55A baraita: Rabi Elazar ben Azaria (pura); Rabi Yishmael (quatro, cinco ou seis períodos); Rabi Akiva (sempre cinco, completando com parte do sexto)
A baraita
תָּנוּ רַבָּנַן: פּוֹלֶטֶת שִׁכְבַת זֶרַע בְּיוֹם הַשְּׁלִישִׁי טְהוֹרָה, דִּבְרֵי רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: פְּעָמִים שֶׁהֵן אַרְבַּע עוֹנוֹת, פְּעָמִים שֶׁהֵן חָמֵשׁ עוֹנוֹת, פְּעָמִים שֶׁהֵן שֵׁשׁ עוֹנוֹת. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: לְעוֹלָם חָמֵשׁ, וְאִם יָצָאתָה מִקְצָת עוֹנָה רִאשׁוֹנָה, נוֹתְנִין לָהּ מִקְצָת עוֹנָה שִׁשִּׁית.

Ensinaram os sábios numa baraita: aquela que expele sêmen no terceiro dia é pura, palavras de Rabi Elazar ben Azaria. Rabi Yishmael diz: às vezes são quatro períodos (onot, cada um de um dia ou de uma noite), às vezes são cinco períodos, às vezes são seis períodos. Rabi Akiva diz: sempre se contam cinco períodos completos, dentro dos quais a emissão é impura; e se a relação ocorreu durante uma parte do primeiro período, dá-se a ela também uma parte do sexto período , completando os cinco períodos inteiros exigidos.

Nota

A baraita apresenta três opiniões sobre quantos "períodos" (onot — cada um equivalente a um dia ou a uma noite) tornam impura a emissão tardia de sêmen. Rabi Elazar ben Azaria considera pura qualquer emissão no terceiro dia, sem depender da hora exata da relação. Rabi Yishmael varia a contagem conforme a hora do dia em que ocorreu a relação em relação ao pôr do sol — às vezes bastam quatro períodos completos, às vezes são necessários cinco, às vezes seis, dependendo de quanto tempo sobrou do dia ou da noite em que houve relação. Rabi Akiva simplifica: exigem-se sempre cinco períodos completos, e se a relação ocorreu apenas numa parte do primeiro período (não no seu início exato), completa-se a contagem com uma parte equivalente do sexto período, de modo que sempre haja cinco períodos inteiros de impureza possível.

56Rav Pappa (ou a Rava): Rabi Elazar ben Azaria segue os sábios (abstinência na quinta-feira); Rabi Yishmael segue Rabi Yosi (quarta-feira); mas Rabi Akiva — segundo quem? Segundo Rabi Yosi, pela regra de Rav Adda bar Ahavá
Os sábios diante de Rav Pappa; Rav Pappa (ou a Rava); Rav Adda bar Ahavá
אַמְרוּהָ רַבָּנַן קַמֵּיהּ דְּרַב פָּפָּא, וְאָמְרִי לַהּ רַב פָּפָּא לְרָבָא: בִּשְׁלָמָא רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה כְּרַבָּנַן — דְּאָמְרִי בְּחַמְשָׁא עֲבוּד פְּרִישָׁה, וְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל כְּרַבִּי יוֹסֵי — דְּאָמַר בְּאַרְבְּעָה עֲבוּד פְּרִישָׁה, אֶלָּא רַבִּי עֲקִיבָא כְּמַאן? לְעוֹלָם כְּרַבִּי יוֹסֵי, כִּדְאָמַר רַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה: מֹשֶׁה בְּהַשְׁכָּמָה עָלָה וּבְהַשְׁכָּמָה יָרַד.

Disseram-no os sábios diante de Rav Pappa, e alguns dizem que foi Rav Pappa quem disse isso a Rava: está bem explicado: Rabi Elazar ben Azaria segue os sábios (rabanan) — que dizem que na quinta-feira fizeram os filhos de Israel a abstinência de suas mulheres, três dias completos até o Shabat, quando foi dada a Torá; e Rabi Yishmael segue Rabi Yosi — que diz que na quarta-feira fizeram a abstinência; mas Rabi Akiva segue quem? Responde a Guemará: na verdade segue Rabi Yosi, conforme disse Rav Adda bar Ahavá: Moshe subiu ao monte de madrugada e desceu dele de madrugada.

Nota

Os sábios (ou Rav Pappa) percebem que as três opiniões da baraita sobre o número de períodos dependem, na verdade, de uma disputa distinta, trazida noutra baraita mais adiante neste mesmo perek: em que dia da semana o povo de Israel se absteve de relações conjugais antes de receber a Torá no Sinai. Segundo os sábios, a abstinência começou na quinta-feira (três dias antes do Shabat, dia da entrega da Torá) — posição que combina com Rabi Elazar ben Azaria, pois quem teve relações na própria quinta-feira, antes da ordem, e imergiu na noite de Shabat, mostra que a emissão do terceiro dia já não preocupa (pois o sêmen já apodreceu). Segundo Rabi Yosi, a abstinência começou na quarta-feira — o que combina com Rabi Yishmael, que varia a contagem dos períodos. Mas a opinião de Rabi Akiva (sempre cinco períodos completos) parece não se encaixar em nenhuma das duas ao primeiro olhar; a Guemará resolve que Rabi Akiva também segue Rabi Yosi (quarta-feira), apoiando-se na regra transmitida por Rav Adda bar Ahavá de que Moshe subia e descia do monte sempre de madrugada — o que fixa com precisão o horário exato da ordem de abstinência, permitindo calcular os cinco períodos completos de Rabi Akiva.

57Prova: Moshe subiu de madrugada (Êxodo 34:4); e desceu de madrugada, por comparação com a subida (Êxodo 19:24)
Rav Adda bar Ahavá
בְּהַשְׁכָּמָה עָלָה, דִּכְתִיב: ״וַיַּשְׁכֵּם מֹשֶׁה בַבֹּקֶר וַיַּעַל אֶל הַר סִינַי״. בְּהַשְׁכָּמָה יָרַד, דִּכְתִיב: ״לֶךְ רֵד וְעָלִיתָ אַתָּה וְאַהֲרֹן עִמָּךְ״, מַקִּישׁ יְרִידָה לַעֲלִיָּיה: מָה עֲלִיָּיה בְּהַשְׁכָּמָה, אַף יְרִידָה בְּהַשְׁכָּמָה.

Que Moshe subiu de madrugada, pois isso é o que está escrito: "e levantou-se Moshe de madrugada, e subiu ao Monte Sinai" (Êxodo 34:4). Que desceu de madrugada, pois isso é o que está escrito: "vai, desce, e subirás tu, e Aharon contigo" (Êxodo 19:24) — o verso compara a descida à subida: assim como a subida foi de madrugada, também a descida foi de madrugada.

Nota

Rav Adda bar Ahavá traz duas provas de que Moshe tinha por hábito subir e descer o Monte Sinai sempre de madrugada. A primeira, explícita: o verso de Êxodo 34:4 diz literalmente que Moshe "levantou-se de madrugada" antes de subir ao monte. A segunda, por comparação (hekesh): o verso de Êxodo 19:24, ao ordenar a Moshe que descesse e depois subisse novamente com Aharon, menciona a descida e a subida lado a lado na mesma frase, permitindo à Guemará comparar as duas ações — já que a subida seguinte é conhecida por ter sido de madrugada, conclui-se que a descida também o foi. Esse hábito de horário fixo é o que permite calcular com precisão quando começou a abstinência de relações conjugais ordenada antes da entrega da Torá, resolvendo a disputa sobre a opinião de Rabi Akiva no beat anterior.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "amruha", "bishlama" e "leolam"
אמרוה - להא אתקפתא דלקמיה: בשלמא כו' - פלוגתא דרבנן ור' יוסי בברייתא ומייתי לה בהאי פירקא לקמן דלרבנן בה' בשבת פרשו ולר' יוסי בד' ולכ"ע בשבת ניתנו עשרת הדברות וכיון דבשבת נתנו ע"כ בליל שבת טבלו ולא שחרית כדמתרץ לקמן שלא יהו הללו טובלין והללו מהלכין לקבל תורה הלכך בשלמא ר' אלעזר כרבנן דאמרי בחמישה בשבת עבוד פרישה ויש שלא פרשו אלא עם חשיכה ומדטבלו ליל שבת ולא חשו שמא תפלטנה עוד ש"מ דפולטת בג' טהורה ומקצת היום של תשמיש ככולו: ור' ישמעאל - דאומר בג' טמאה בד' טהורה קסבר בד' עבוד פרישה כר' יוסי דהוה ליל שבת רביעי ומיהו יש שלא פירשו עד סמוך לחשיכה וליכא אלא ד' עונות ליל ה' וה' ליל ו' וו' ואפילו הכי משטבלו פליטתן טהורה דלא הקפידה תורה אלא בימים: אלא רבי עקיבא - דאמר כל ה' עונות טמאה אם תפלוט כמאן ומהיכא למד דאעונות קפיד קרא הא ימים כתיב וקיימא לן מקצת היום ככולו: לעולם - ר' עקיבא כר' יוסי וכדרב אדא דאמר משה כל עליותיו בהשכמה עלה וכל ירידותיו בהשכמה הלכך ירידה דכתיב וירד משה מן ההר אל העם ויקדש את העם דהיינו פרישה בהשכמת רביעי היתה ומדהוזקק להפרישן בהשכמה ש"מ עד ה' עונות שלמות קפיד קרא.

"'Disseram-no'" — refere-se a esta objeção que se segue. "'Está bem, etc.'" — é a disputa dos sábios e Rabi Yosi numa baraita trazida mais adiante neste mesmo perek, segundo a qual, para os sábios, a abstinência foi feita na quinta-feira, e para Rabi Yosi, na quarta-feira, e todos concordam que os Dez Mandamentos foram dados no Shabat; e, já que foram dados no Shabat, forçosamente imergiram na noite de Shabat, e não pela manhã, como se explica mais adiante, para que não fosse que uns estivessem imergindo enquanto outros já caminhavam para receber a Torá. Portanto, está bem explicado Rabi Elazar ben Azaria, segundo os sábios, que dizem que na quinta-feira fizeram a abstinência, ainda que alguns só tenham se abstido ao anoitecer; e, visto que imergiram na noite de Shabat sem se preocupar que ainda pudessem emitir, disso se aprende que a que emite no terceiro dia é pura, e que uma parte do dia da relação conta como o dia inteiro. "'E Rabi Yishmael'" — que diz que no terceiro dia é impura e no quarto é pura, entende que a abstinência foi feita no quarto dia, como Rabi Yosi, pois a noite de Shabat era o quarto dia contado desde a relação; mas há quem não se tenha abstido senão perto do anoitecer, e não há senão quatro períodos completos — noite de quinta e quinta, noite de sexta e sexta —, e ainda assim, desde que imergiram, sua emissão é pura, pois a Torá não se preocupou senão com a contagem dos dias. "'Mas Rabi Akiva'" — que diz que durante todos os cinco períodos é impura se emitir, segundo quem ele fala, e de onde aprende que o verso se preocupa com períodos, se está escrito "dias", e sustentamos que uma parte do dia conta como o dia inteiro? "'Na verdade'" — Rabi Akiva segue Rabi Yosi, e conforme a regra de Rav Adda, que disse que todas as subidas de Moshe foram de madrugada e todas as suas descidas foram de madrugada; portanto, a descida de que está escrito "e desceu Moshe do monte ao povo, e santificou o povo" — que é a ordem de abstinência — foi na madrugada do quarto dia; e, visto que precisou ordenar a abstinência de madrugada, disso se aprende que o verso se preocupa com cinco períodos completos.

Por que Moshe precisou ordenar a abstinência? As leniências do quarto escuro e do talit · לְמָה לֵיהּ לְמֵימְרָא לְהוּ

58Por que precisou ordená-lo, já que Israel é santo e não tem relações de dia? Leniência do quarto escuro; e do sábio que se cobre com o talit
A Guemará; Rav Huna; Rava; Rav Pappa
לְמָה לֵיהּ לְמֵימְרָא לְהוּ, וְהָא אָמַר רַב הוּנָא: יִשְׂרָאֵל קְדוֹשִׁים הֵן וְאֵין מְשַׁמְּשִׁין מִטּוֹתֵיהֶן בַּיּוֹם! הָא אָמַר רָבָא: אִם הָיָה בַּיִת אָפֵל — מוּתָּר. וְאָמַר רָבָא וְאִיתֵּימָא רַב פָּפָּא: תַּלְמִיד חָכָם מַאֲפִיל בְּטַלִּיתוֹ, וּמוּתָּר.

Pergunta a Guemará: por que precisou Moshe dizer-lhes para se absterem, se a relação do dia já não seria de se temer? Mas não disse Rav Huna: os filhos de Israel são santos e não têm relações de dia! Objeta a Guemará: mas não disse Rava: se a casa estava escura — é permitido ter relações de dia, e portanto a ordem de Moshe ainda era necessária, para vedar também essa possibilidade? E disse Rava, e alguns dizem que foi Rav Pappa: o discípulo dos sábios que deseja ter relações de dia se cobre com seu talit, tornando-se como se estivesse à noite, e é permitido.

Nota — a folha se fecha aqui, com este ponto discutido

A Guemará levanta uma dificuldade: se, segundo Rav Huna, os filhos de Israel já tinham por costume não ter relações conjugais durante o dia (por modéstia e santidade), por que Moshe precisou ordenar expressamente a abstinência antes da entrega da Torá — não seria essa ordem redundante? A resposta, trazida por meio do ensinamento de Rava, é que o costume de evitar relações de dia admite uma exceção: numa casa escura, é permitido, pois a escuridão equivale à noite quanto à modéstia. Por isso a ordem de Moshe continuava sendo necessária, pois vedava também essa exceção, garantindo abstinência completa nos três dias antes da entrega da Torá. Rava acrescenta ainda (e alguns atribuem a mesma frase a Rav Pappa) que o próprio discípulo dos sábios, se precisar ter relações durante o dia, pode se cobrir com seu talit, criando artificialmente a escuridão que torna a relação permitida. Esta discussão sobre relações conjugais de dia continua na folha seguinte, 86b, que retoma o tema da entrega da Torá com uma nova pergunta sobre os que se banharam mas ainda aguardavam o anoitecer (tevulei yom).