Terceira halachá do Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin. A Mishná continua as medidas mínimas pelas quais é culpado quem transporta no Shabat: o couro, o suficiente para fazer um amuleto; o duchsustus, para escrever uma mezuzá; o klaf, para escrever a menor porção dos tefilin, Shemá Yisrael; a tinta, para escrever duas letras; o kochal, para pintar um olho; o piche e o enxofre, para fazer um furo; e a cera, para tapar a boca de um furo pequeno. A guemará distingue o couro mole, com que se faz o amuleto, do duro, com que se cobre; contrapõe o klaf ao duchsustus, que se mede pelas duas porções da mezuzá; ensina que a tinta levada num utensílio pede mais do que a da pena; discute por que a medida do kochal é de um só olho, entre a mulher que sofre de um olho, a que esconde o outro e a cega de um olho; e explica o furo do piche e a fresta da cera. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 79a.
Mishná: Quem transporta or (couro) de um domínio a outro no Shabat é culpado se transportar o suficiente para fazer um kamia (amuleto); duchsustus (a camada interna do couro dividido), o suficiente para escrever sobre ele uma mezuzá (o pergaminho do batente da porta); klaf (pergaminho, a camada externa), o suficiente para escrever sobre ele a pequena porção dos tefilin (filactérios), que é Shemá Yisrael; tinta, o suficiente para escrever com ela duas letras; kochal (pintura dos olhos), o suficiente para pintar um olho; zefet (piche) e gofrit (enxofre), o suficiente para fazer um nekev (furo); cera, o suficiente para pôr sobre a boca de um furo pequeno.
Na Mishná: “Couro, o suficiente para fazer um kamia” etc. Há tanaim (recitadores de baraitot) que ensinam: “o suficiente para pôr sobre o kamia”. Quem diz “o suficiente para fazer um kamia” fala deste couro mole; e quem diz “o suficiente para pôr sobre o kamia”, deste couro duro.
Na Mishná: “Klaf, o suficiente para escrever sobre ele a pequena porção que está nos tefilin, que é Shemá Yisrael.” Isto que dizes é quando se descasca a face do couro; mas, sobre este duchsustus, a medida é o suficiente para escrever as duas porções da Torá que estão na mezuzá.
Na Mishná: “Tinta.” Transportou tinta: se está numa kulmos (pena de cálamo), o suficiente para escrever duas letras; se está num utensílio, é preciso mais. Ali ensinamos: “Quanto deve haver na água para que haja nela o suficiente para uma hazaá (aspersão)?” Rabi Yirmeyá perguntou: não é razoável: se está num utensílio, é preciso mais?
Na Mishná: “Kochal, o suficiente para pintar um olho.” Disse Rabi Bun bar Chiya: a medida é de um olho porque assim uma mulher pinta um dos seus olhos e sai ao mercado. Disse Rabi Avun: nem mesmo a mais prostituta das prostitutas faz assim! Antes, é porque assim uma mulher que sofre de um dos seus olhos pinta o outro olho e sai ao mercado. Disse Rabi Mana: acaso a Mishná ensinou “que sofre”? Antes, é porque assim uma mulher pinta um dos seus olhos, esconde o outro olho e sai ao mercado, como está escrito: “Cativaste-me o coração com um dos teus olhos.” Os rabanan de Kessarin (sábios de Cesareia), em nome de Rabi Bun bar Chiya: porque assim uma mulher cega de um dos seus olhos pinta o outro olho e sai ao mercado.
Na Mishná: “Zefet e gofrit, o suficiente para fazer um furo.” Rabi Yossi bar Chanina disse: ensinaram isto sobre um mezanek (o que esguicha).
Na Mishná: “Cera, o suficiente para pôr sobre a boca de um furo pequeno.” Rabi Chiya ensinou numa baraita: “O suficiente para pôr sobre a boca de uma sedek (fresta) pequena.”
Esta é a terceira halachá do Perek Chet de Massechet Shabbat, HaMotzi Yayin. A sua Mishná não coincide com a da Mishná avulsa. A Mishná Shabbat 8:3 da Mishná avulsa vai de “couro, o suficiente para fazer um amuleto” até “kochal, o suficiente para pintar um olho”, e não traz o duchsustus; a Mishná do Yerushalmi acrescenta, depois do couro, “duchsustus, o suficiente para escrever sobre ele uma mezuzá”, e acrescenta, no fim, o piche e o enxofre e a cera, que na Mishná avulsa estão em 8:4. O resto da Mishná avulsa 8:4, isto é, a cola, que nela vem antes do piche, e a argila, o farelo e a cal, que vêm depois da cera, abre a Mishná da halachá 8:4 do Yerushalmi. No Bavli, as Mishnayot 8:2, 8:3 e 8:4 da Mishná avulsa formam uma só Mishná, e a guemará sobre a parte correspondente a esta halachá vai de Shabbat 79a, “couro, o suficiente para fazer”, até Shabbat 80a, onde se discutem a tinta, o kochal, a cera e o piche.
Referências conferidas. Na Mishná e na seção 02, o duchsustus está na Tosefta Shabbat 8:13, na numeração da edição Lieberman no Sefaria: “klaf e duchsustus, o suficiente para escrever sobre ele a mezuzá; yeriá, o suficiente para escrever sobre ela uma porção pequena”; e o Bavli, em Shabbat 79b, traz a mesma baraita, “klaf e duchsustus, o suficiente para escrever sobre ele uma mezuzá”, e resolve que o duchsustus se mede pela mezuzá e o klaf pela porção pequena dos tefilin, e cita a halachá dada a Moshé no Sinai: “os tefilin sobre o klaf e a mezuzá sobre o duchsustus”. Shemá Yisrael é a porção de Devarim 6:4–9; as duas porções da mezuzá são Devarim 6:4–9 e 11:13–21. Na seção 03, a citação é da Mishná Pará 12:5, que responde: “o suficiente para que mergulhe as pontas dos talos e asperja”; o Bavli, em Shabbat 80a, ensina, ao contrário, “duas letras na tinta, duas letras na pena, duas letras no tinteiro”, sem distinguir entre a pena e o utensílio. Na seção 04, o versículo é Shir HaShirim 4:9, “cativaste-me o coração com um dos teus olhos”, que o Yerushalmi cita como o keri, “beachat”, onde o ketiv tem “beechad”; o Bavli, em Shabbat 80a, pergunta “um olho só? não se pinta assim!”, e Rav Huna responde: “porque as recatadas pintam um olho”; e traz a baraita de Rabi Shimon ben Elazar, “kochal, se para remédio, o suficiente para pintar um olho; se para enfeite, os dois olhos”, que está também na Tosefta Shabbat 8:33, na mesma numeração. Na seção 05, o Bavli, em Shabbat 80a, ensina sobre o piche e o enxofre: “o suficiente para fazer um furo pequeno”. Na seção 06, o Bavli, em Shabbat 80a, ensina sobre a cera: “o suficiente para pôr sobre a boca de um furo pequeno de vinho”.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi escreve “kamia” e “kochel”, como está vocalizado, onde a Mishná avulsa escreve “kamea” e “kechol”; conservamos o termo usual kochal na tradução. Na Mishná, “escrever com ela duas letras” traduz “lichtov alav”, ao pé da letra “escrever sobre ele”; e a guemará, na seção 02, cita “shebatefilin” e “shehi”, onde a Mishná diz “shel tefilin” e “shehu”; na seção 03, diz “shtei otot” onde a Mishná diz “shtei otiot”; conservamos o hebraico como está. Na seção 01, “mole” e “duro” estão no feminino singular aramaico, “rakichá” e “kashyá”, e referem-se ao couro. Na seção 02, “quando se descasca a face do couro” traduz “bekolef penei haor”, e o sentido é que o klaf é a camada que se descasca do couro. Na seção 03, não é claro se a pergunta de Rabi Yirmeyá se refere à água da aspersão ou à tinta; traduzimos a frase como está. Na seção 04, “sai” traduz “yotze”, no masculino, como está no hebraico; e a frase “acaso a Mishná ensinou ‘que sofre’?” traduz “ma tana, choshéshet”. Na seção 05, “mezanek” é de sentido incerto; a raiz indica o que esguicha ou jorra, e entende-se um vaso furado de que o líquido escorre, cujo furo se tapa com piche.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na Mishná, Guggenheimer traduz “laasot nekev” por “consertar um furo”, onde o hebraico diz “fazer um furo”. Na seção 04, chama o primeiro sábio de “Rebbi Abun bar Ḥiyya”, onde o hebraico diz “Rabi Bun bar Chiya”; e explica que o outro olho fica coberto pelo véu. Na seção 05, explica que se trata de um conserto de emergência numa ânfora. Na seção 06, diz que o Bavli, em Shabbat 80a, cita a fresta de Rabi Chiya para o piche e o enxofre; mas o Bavli, ali, diz “furo pequeno” para o piche e o enxofre e “furo pequeno de vinho” para a cera, e não menciona a fresta.