Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Vav · Halachá 8
שַׁבָּת

Hakitea yotze bekav shelo: o amputado e a sua perna de pau

Perek Vav, Bameh Ishá, Halachá 8, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Oitava halachá do Perek Vav de Massechet Shabbat, Bameh Ishá. A Mishná ensina que o kitea, o amputado, sai no Shabat com o seu kav, a perna de pau, segundo Rabi Yossi, e que Rabi Meir o proíbe; trata da impureza do kav que tem beit kibul, receptáculo, para os chumaços, dos samochot, os apoios, com os quais se sai no Shabat e se entra na azará, da kisé, a cadeira, com a qual não se sai nem se entra, e dos ankatomin, que são puros. Na guemará, Shmuel diz que se sai com o kav por ser sandália e que, ainda assim, se entra com ele no pátio do Templo; Rabi Yanai objeta, Rabi Ba’a e Rabi Mana trazem a própria Mishná para a discussão, e Rabi Abahu explica o que são os ankatomin. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 66a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַקִּיטֵּעַ יוֹצֵא בְקַב שֶׁלּוֹ דִּבְרֵי רִבִּי יוֹסֵי וְרִבִּי מֵאִיר אוֹסֵר. אִם יֶשׁ לוֹ בֵית קִיבּוּל כְּתִיתִין טָמֵא. סָמוֹכוֹת שֶׁלּוֹ טְמֵאִין מִדְרָס וְיוֹצְאִין בָּהֶן בַּשַּׁבָּת. וְנִכְנָסִין בָּהֶן לָעֲזָרָה. כִּסֵּא וְסָמוֹכוֹת שֶׁלּוֹ טְמֵאִין מִדְרָס וְאֵין יוֹצְאִין בָּהֶן בַּשַּׁבָּת וְאֵין נִכְנָסִין בָּהֶן לָעֲזָרָה. אֳנָקַּטֹמִין טְהוֹרִין וְאֵין יוֹצְאִין בָּהֶן:

Mishná: O kitea (amputado), aquele a quem foi cortada a perna, sai no Shabat com o seu kav (perna de pau), que tem para ele a condição de calçado; são palavras de Rabi Yossi; e Rabi Meir proíbe. Se ele tem beit kibul (receptáculo) de katitin (chumaços), onde se apoia o coto da perna, o kav é impuro, como recipiente de madeira. Os seus samochot (apoios), que calça aquele que anda sobre os joelhos, são impuros de midras (impureza de pisar), e sai-se com eles no Shabat, e entra-se com eles na azará (pátio do Templo). A kisé (cadeira) daquele que não consegue andar e os seus apoios são impuros de midras, e não se sai com eles no Shabat, e não se entra com eles na azará. Os ankatomin (de sentido incerto: figuras de burro ou máscaras) são puros, pois não são recipientes, e não se sai com eles no Shabat.

A Halachá · הֲלָכָה ח

01Shmuel: sai-se com o kav por ser sandália
Yerushalmi · Shabbat 6:8
שְׁמוּאֵל אָמַר. יוֹצְאִין בּוֹ מִשׁוּם סַנְדָּל וְנִכְנָסִין בּוֹ לָעֲזָרָה. רִבִּי יַנַּאי מַקְשֶׁה. יוֹצְאִין בּוֹ מִשׁוּם סַנְדָּל. וְהוּא סַנְדָּל. נִכְנָסִין בּוֹ לָעֲזָרָה. וְאֵינוֹ סַנְדָּל. אָמַר רִבִּי בעא. עַד דִּי הַוָות מַקְשֶׁה לָהּ עַל דִּשְׁמוּאֵל קַשְׁיָיתָהּ עַל דְּמַתְנִיתִין. סָמוֹכוֹת שֶׁלּוֹ טְמֵאִין מִדְרָס. יוֹצְאִין בָּהֶן בַּשַּׁבָּת וְנִכְנָסִין בָּהֶן בָּעֲזָרָה. אָמַר רִבִּי מָנָא. אֱמוֹר סוֹפָהּ דְּלֵית הִיא פְלִיגָא עַל דִּשְׁמוּאֵל. כִּסֵּא סָמוֹכוֹת שֶׁלּוֹ טְמֵאִין מִדְרָס. אֵין יוֹצְאִין בָּהֶן בַּשַּׁבָּת וְאֵין נִכְנָסִין בָּהֶן לָעֲזָרָה. אֳנָקַּטֹמִין טְהוֹרִין וְיוֹצְאִין בָּהֶן. מָהוּ אֳנָקַּטֹמִין טְהוֹרִין. אָמַר רִבִּי אַבָּהוּ. הוֹנוֹס קַטֹמִין חַמְרָא דְיָידָה.

Shmuel disse: sai-se com ele, com o kav, por ser sandal (sandália), e entra-se com ele na azará, embora ali não se entre calçado. Rabi Yanai objeta: sai-se com ele por ser sandália, e então ele é sandália; entra-se com ele na azará, e então ele não é sandália? Disse Rabi Ba’a: em vez de estares objetando isso contra a palavra de Shmuel, objeta-o contra a palavra da nossa Mishná, que diz: “Os seus apoios são impuros de midras; sai-se com eles no Shabat e entra-se com eles na azará”, pois também ali o mesmo objeto conta como calçado para o Shabat e não conta como calçado para a azará. Disse Rabi Mana: dize o final dela, da Mishná, que não diverge de Shmuel, onde se ensina: “A cadeira, os seus apoios, são impuros de midras; não se sai com eles no Shabat e não se entra com eles na azará. Os ankatomin são puros, e sai-se com eles.” O que são os ankatomin que a Mishná declara puros? Disse Rabi Abahu: honos katomin (palavras gregas: burro sobre o ombro), chamra deyada (em aramaico, burro da mão), isto é, uma figura de burro que se leva no corpo.

Nota

Esta é a oitava halachá do Perek Vav de Massechet Shabbat, Bameh Ishá, e a penúltima do perek, que tem nove halachot; corresponde à Mishná Shabbat 6:8 da Mishná avulsa. A halachá anterior tratou da mulher que prende o manto sobre a pedra, a noz e a moeda, e terminou com Rav Ada bar Ahava mostrando que Raban Shimon ben Gamliel concorda com Rabi Meir: coisa que é mitaltel, que pode ser movida no Shabat, é permitida. Esta passa do que a mulher leva preso ao manto para aquilo que o amputado e o aleijado usam no lugar do pé: a perna de pau, os apoios e a cadeira. A pergunta é a mesma de todo o perek: se o objeto é parte da vestimenta ou do calçado, sai-se com ele no Shabat; se não é, quem sai com ele estaria carregando. A Mishná seguinte, a dos meninos que saem com nós, fica para a halachá 6:9.

Referências conferidas. A Mishná desta halachá é Mishná Shabbat 6:8. No Bavli, ela começa como matnitin no fim de Shabbat 65b e termina no início de Shabbat 66a, onde a guemará a discute: Rava pergunta a Rav Nachman como se ensina a Mishná e qual é a halachá, e ele responde que não sabe; Shmuel e Rav Huna ensinavam “ein hakitea”, o amputado não sai; e Rava bar Shira conta que, quando se ensinou diante de Rav que Rabi Meir proíbe e Rabi Yossi permite, Rav fez sinal para inverter, e Rav Nachman bar Yitzchak deu o sinal mnemônico “samech, samech”: Yossi e oser, proíbe, têm ambos a letra samech. Em Shabbat 66b, um tanna ensinou diante de Rabi Yochanan que com a cadeira e os seus apoios se entra na azará, e Rabi Yochanan o corrigiu para “não se entra”, porque, para ele, a mulher pode fazer a chalitsá com esse apoio, que conta como calçado; é a mesma questão de calçado e de azará que move a discussão da seção 01. Também em Shabbat 66b, Rabi Abahu explica as luktamin, como o Bavli as chama, como chamra deakafa, burro do ombro, e Rashi ali explica que é um burro carregado nos ombros, feito pelos gracejadores, de modo que quem o leva parece estar montado nele; Rava bar Pappa diz que são pernas de pau, e Rava bar Rav Huna, que são peramei, que Rashi explica como máscara atada ao rosto para assustar as crianças. O Yerushalmi atribui a Rabi Abahu a mesma explicação do Bavli, com palavras gregas e aramaicas.

Observações de leitura. Na Mishná do Yerushalmi, a atribuição é inversa à da Mishná avulsa e à do Bavli: aqui Rabi Yossi permite e Rabi Meir proíbe, ao passo que a Mishná avulsa diz “palavras de Rabi Meir, e Rabi Yossi proíbe”. Traduzimos o hebraico do Yerushalmi como está. O próprio Bavli, em Shabbat 66a, conhece uma versão na qual Rabi Yossi permite, aquela que foi ensinada diante de Rav, e conta que Rav mandou invertê-la; o Yerushalmi conserva, portanto, uma versão que também circulava na Babilônia. A Mishná do Yerushalmi escreve ainda “hakitea” com yod, “katitin”, onde a avulsa diz “ketutim”, “bashabat”, onde a avulsa diz “beshabat”, e “laazará”, onde a avulsa diz “baazará”; e escreve “ankatomin”, onde a avulsa diz “ankatmin” e o Bavli “luktamin”. Conservamos o hebraico como está. Na seção 01, o nome de quem responde a Rabi Yanai está escrito “רִבִּי בעא”, sem vogais; pode ser uma grafia do nome Rabi Ba, ou, como entende Guggenheimer, a palavra “perguntou”, com o nome do amora caído; segundo ele, um fragmento da Guenizá lê ali Rabi Mana. Por isso transliteramos Ba’a, sem decidir. Na mesma seção, a citação da Mishná que Rabi Ba’a faz diz “e entra-se com eles na azará”, como a Mishná; e a citação que Rabi Mana faz do final da Mishná diz “a cadeira, os seus apoios”, sem “e”, e termina com “e sai-se com eles”, onde a Mishná desta mesma halachá diz “e não se sai com eles”. Traduzimos as duas citações como estão no texto. A frase de Rabi Mana, “dize o final dela, que não diverge de Shmuel”, é elíptica; mantivemos a ordem das palavras do hebraico. Quanto a “honos katomin”, Guggenheimer o lê como o grego “ónos kat’ ômon”, burro sobre o ombro, o que concorda com o “burro do ombro” do Bavli; “chamra deyada” é aramaico, burro da mão. O sentido exato do objeto é incerto, e por isso deixamos ankatomin transliterado.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz a palavra do nome que responde a Rabi Yanai como “perguntou” e a corrige para Rabi Mana, segundo o fragmento da Guenizá; nós mantivemos a palavra do texto, transliterada. Na citação de Rabi Ba’a, ele traduz “e não se entra com eles na azará”, mas o hebraico diz “e entra-se com eles”; seguimos o hebraico. Ele traduz a frase de Rabi Mana como pergunta, “o final dela não diverge de Shmuel?”, e explica que o final da Mishná contradiz Shmuel; mantivemos a frase como está, sem acrescentar a pergunta. Ele traduz “kisé” como cadeira de rodas, e “ankatomin”, na Mishná, como figuras de burro; na sua nota, diz que segundo Rashi seriam máscaras e, segundo Rabenu Chananel, uma prótese para o braço perdido. Nós traduzimos kisé como cadeira e deixamos ankatomin transliterado. Na sua remissão ao Bavli, ele indica Shabbat 66b, onde de fato está a explicação de Rabi Abahu; a conferimos e assim a indicamos.