Quarta e última halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá. A Mishná termina a lista daquilo com que o animal não sai no Shabat: o jumento, com a mardaat que não está amarrada, com o sino tapado, com o sulam no pescoço ou com a correia na pata; os galos, com fios e correias; os carneiros, com o carrinho debaixo da cauda; as ovelhas chanunot; o bezerro, com o gimon; e a vaca, com a pele de ouriço ou com a correia entre os chifres, como saía a vaca de Rabi Elazar ben Azariá, contra a vontade dos Sábios. A guemará trata do passeio no pátio e do ikuf que aquece o jumento; compara o sulam aos feixes de palha, ao amuleto comprovado e à atadura sobre a ferida; explica as ovelhas chanunot pela touca de lã ou pela raiz yachnuná, e o gimon pelo pequeno jugo, pela tabuinha ou pelo espeto; traz o boi bravo com a perumbiá e o cão com a focinheira; e termina com a vaca de Rabi Elazar ben Azariá, que Rabi Idi diz ter sido a sua mulher, e com a lição de Rabi Kiris: quem pode protestar e não protesta responde pela ruína do outro. Com ela se encerra o Perek Heh, Bameh Behemá; o tratado continua no Perek Vav, Bameh Ishá. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 54b.
Mishná: O jumento não sai no Shabat com a mardaat (albarda, manta acolchoada) quando ela não está amarrada a ele; nem com o zug (sino), ainda que esteja pakuk (tapado, para não soar); nem com o sulam (escada, armação de varetas que protege a ferida) que está no seu pescoço; nem com a retzuá (correia) que está na sua pata. Os galos não saem com fios, nem com correias que estão nas suas patas, postas como sinal do dono. E os carneiros não saem com a agalá (carrinho) que está debaixo da sua cauda; e as ovelhas não saem chanunot (tratadas com o yachnun); e o bezerro não sai com o gimun (pequeno jugo); nem a vaca com a pele de kupad (ouriço), nem com a correia que está entre os seus chifres. A vaca de Rabi Elazar ben Azariá saía com a correia que está entre os seus chifres, mas contra a vontade dos Sábios.
Na Mishná: “O jumento não sai com a mardaat” etc. Ensina-se numa baraita: mas o jumento passeia com ela no pátio, mesmo sem estar amarrada. Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira: também quanto ao ikuf (sela de carga) é assim, pode passear com ele no pátio. Ensina-se numa baraita: sai o jumento com o seu ikuf para aquecê-lo, mas o dono não atará o masrochei (cilha de carga) e não abaixará a correia que está debaixo da sua cauda. Rabi Yirmeyá perguntou diante de Rabi Zeira: de onde vêm estas palavras, que permitem uma coisa e proíbem outra? Pois ensinamos na Mishná: “As leis do Shabat são como montanhas suspensas por um fio de cabelo” (Mishná Chaguigá 1:8); e tu dizes assim, pedindo uma fonte? Ele poderia objetar-lhe: que diferença há entre o sulam e os kishushot (feixes de palha atados sobre uma fratura)? A resposta é que o sulam tem substância, e por isso é carga; os kishushot não têm substância. Disse Rabi Chanina: ele poderia objetar-lhe: que diferença há entre os kishushot e o kamea mumche (amuleto comprovado)? Pois se ensina: é proibido ao animal sair com amuleto comprovado. Disse Rabi Avdimi: ele poderia objetar-lhe: que diferença há entre os kishushot e a atadura que está sobre a ferida? Há tanaim (recitadores de baraitot) que ensinam: não se sai com kishushot; há tanaim que ensinam: sai-se com eles. Disse Rabi Chiya bar Ada: são opiniões de tanaim diferentes. Quem diz “sai-se com kishushot” diz também que se sai com a atadura que está sobre a ferida; e quem diz “não se sai com kishushot” diz também que não se sai com a atadura que está sobre a ferida.
Na Mishná: “E os carneiros não saem com a agalá que está debaixo da sua cauda.” É proibido porque o carrinho faz um charitz (sulco) no chão, por onde é arrastado.
Na Mishná: “E as ovelhas não saem chanunot.” Rav Yehudá disse: é uma kipá (touca) de lã, posta sobre a cabeça da ovelha. Rabi Yassa em nome de Rabi Chama bar Chanina: é uma raiz, e o seu nome é yachnuná. Rabi Zeira perguntou diante de Rabi Yossi: não diz isto que, se a raiz é proibida, é proibido ao animal sair com amuleto comprovado? Disse-lhe: sim, babilônio, tu que te puseste de pé sobre isto, isto é, que o compreendeste bem.
Na Mishná: “O bezerro não sai com o gimon.” Rav Huna disse: é um bar nirá (pequeno jugo). Rav Chisdá disse: é uma pinaksá (tabuinha). Abba bar Rav Huna disse: é uma shartuá (espeto). Há tanaim que ensinam “gimon”; há tanaim que ensinam “gimol”. Quem diz “gimon” apoia-se no versículo: “Acaso é para curvar como um junco a sua cabeça?” (Yeshayahu 58:5). Quem diz “gimol” apoia-se no versículo: “E ela o fez subir consigo, quando o desmamou” (Shmuel I 1:24). Quem diz gimon apoia Rav Chisdá; quem diz gimol apoia Abba bar Rav Huna e Rav Huna.
Na Mishná: “Nem a vaca com a pele de kupad.” Trata-se do caso em que o dono põe a pele de kupad entre as suas tetas, para que ela não amamente o seu filhote, pois os espinhos o afastam.
Na Mishná: “A vaca de Rabi Elazar ben Azariá saía com a correia que está entre os seus chifres, contra a vontade dos Sábios.” Rabi Ba e Rabi Shmuel, ambos dizem: segundo as palavras dos Sábios, mesmo para a vaca ser puxada por ela é proibido. Rabi Ba em nome de Shmuel: se o seu chifre estava kedudá (perfurado), é permitido sair com a correia. Disse Rabi Yossi: apresentei a dificuldade diante de Rabi Ba, e ele disse: não ensinamos na Mishná senão “a naká (camela) com o chatam (argola no focinho)” (Mishná Shabbat 5:1), e não outros arreios. Rabi Zeira em nome de Shmuel: o boi cujo comportamento é mau sai com a sua perumbiá (freio, focinheira); e os nossos mestres que estão na Golá (Babilônia) costumam fazer assim. Rabi Ila, Rav Yehudá em nome de Shimon bar Chiya: o cão sai com o seu soguer (focinheira). Se é para esperar com ele, é proibido; se é para que o cão não coma o seu afsar (cabresto), é permitido.
Ganiva disse: como halachá ele vinha ensinando isto. Mas então, como se entende isto que ensinamos: “contra a vontade dos Sábios”? Ensinou Rabi Yudá bar Pazi, em nome de Rav Delayá: disseram-lhe: ou retira-te do meio de nós, ou tira a correia do meio dos seus chifres. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: disseram-lhe isso porque ele se escudava contra eles, desafiando-os abertamente. Disse Rabi Chananiá: uma vez ela saiu assim, e escureceram os seus dentes por causa dos jejuns que ele fez em penitência. Disse Rabi Idi deChutrei: era a sua mulher, e não uma vaca. E de onde se aprende que a sua mulher é chamada “novilha”? Do versículo: “Se não tivésseis lavrado com a minha novilha, não teríeis achado o meu enigma” (Shoftim 14:18). Lá, na Babilônia, dizem: era a vaca da sua vizinha. E acaso um homem é punido por causa da sua vizinha? Disse Rabi Kiris deDidma: isto vem para te ensinar que todo aquele que tem a possibilidade nas suas mãos de protestar e não protesta, a ruína que o outro causa fica pendurada nele.
Esta é a quarta e última halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá, e corresponde à Mishná Shabbat 5:4 da Mishná avulsa, que é também a última Mishná do capítulo. A halachá anterior terminou com a baraita do palmo de corda e com a palavra de Rabi Yochanan bar Maryá: quem quer agir corretamente conduza o animal como se conduz o cavalo sarakaya. Esta encerra a lista do que o animal não pode levar ao sair no Shabat: arreios soltos, adornos, sinais de dono e remédios que não o protegem de um perigo. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 54b, e o capítulo Bameh Behemá termina ali em Shabbat 56b.
Referências conferidas. Na seção 01, a baraita do passeio no pátio está na Tosefta Shabbat 5:5 e no Bavli, em Shabbat 53a, mas ali o passeio no pátio é dito do sino tapado; aqui o hebraico diz “com ela”, no feminino, que combina com a mardaat, e traduzimos assim. A baraita do ikuf está na Tosefta Shabbat 5:2, onde o primeiro tanna proíbe o ikuf mesmo amarrado e Raban Gamliel o permite quando amarrado, para aquecer o jumento, contanto que não ate a cilha nem passe a correia debaixo da cauda; o Bavli, em Shabbat 53a, traz a mesma permissão em nome de Raban Shimon ben Gamliel. As montanhas suspensas por um fio de cabelo estão na Mishná Chaguigá 1:8. A proibição do amuleto comprovado para o animal e a permissão da atadura sobre a ferida e dos kishushin sobre a fratura estão juntas na Tosefta Shabbat 5:5, que segue, portanto, os tanaim que permitem; a Tosefta Shabbat 5:9 define o amuleto comprovado como o que curou uma, duas e três vezes. Guggenheimer cita a Tosefta pela edição de Lieberman, capítulo 4; no Sefaria, a numeração é a do capítulo 5. Na seção 02, a expressão “faz um sulco” aparece também no Bavli, em Beitzá 23b, a respeito de arrastar objetos sobre o chão. Na seção 03, o Bavli, em Shabbat 54b, traz outras explicações de chanunot, entre elas a de Rav Huna: uma árvore chamada yachnun, da qual se põe uma lasca no focinho da ovelha. Na seção 04, os versículos são Yeshayahu 58:5 e Shmuel I 1:24; o Bavli, em Shabbat 54b, também traz Rav Huna, “bar nirá”, e Rabi Elazar com o versículo “curvar como um junco a sua cabeça”. Na seção 05, o Bavli, em Shabbat 54b, explica a pele de ouriço de outro modo: para que as sanguessugas não a suguem. Na seção 06, a naká com o chatam é da Mishná Shabbat 5:1; o Bavli, em Shabbat 52a, traz a disputa de Rav e Shmuel sobre a correia entre os chifres, se é proibida tanto como enfeite quanto para guardar o animal, ou só como enfeite; ali também se ensina que a cabra cujos chifres foram entalhados sai com o afsar, e que o jumento de mau comportamento sai com a perumbiá, conforme Chananiá; e em Shabbat 51b Chananiá diz que o animal sai com o soguer. Na seção 07, o versículo é Shoftim 14:18; o Bavli, em Shabbat 54b, ensina que a vaca não era dele, mas da sua vizinha, e que, por ele não ter protestado, foi chamada pelo seu nome; e logo depois ensina que quem pode protestar contra a gente da sua casa e não protesta é apanhado pela culpa deles.
Observações de leitura. As seções 06 e 07 aparecem também no Yerushalmi, Beitzá 2:8, com algumas diferenças. Na seção 06, ali se lê “Rabi Ba: Rav e Shmuel, ambos dizem”, e aqui “Rabi Ba e Rabi Shmuel, ambos dizem”; ali o cão é proibido “se é para bater com ele”, e aqui o hebraico diz “para esperar com ele”, que traduzimos como está; ali a cadeia é Rabi Ila e Rabi Yehudá, e aqui o hebraico escreve “Rabi Liyá”, forma abreviada de Ila, que traduzimos Rabi Ila, e Rav Yehudá. Ali também há um ensino a mais, o do jumento de mau comportamento com a perumbiá. Na seção 07, ali Rabi Yona de Botzra pergunta: se como halachá ele vinha ensinando, é isto que ensinamos, “contra a vontade dos Sábios”? Aqui não há nome nem pergunta introduzida, e por isso traduzimos sem atribuir a pergunta a ninguém. Ali se lê “Bar Delayá”, “Chutra”, “Irmá” e “dos jejuns e do jejum”; aqui o hebraico diz “Rav Delayá”, “deChutrei”, que soa como “do seu bastão”, e “deDidma”, e mantivemos esses nomes como estão. Na seção 06, o hebraico escreve “Rabi Zeirá” com he no fim, e na seção 07 “kirtzon” com kaf, onde a Mishná diz “birtzon”. A Mishná do Yerushalmi escreve “gimun” com shuruk e “kupad” com dalet, onde a Mishná avulsa e o Bavli dizem “gimon” e “kupar”; na halachá, o hebraico diz “gimon”. Na seção 04, a última frase liga “gimon” a Rav Chisdá e “gimol” a Abba bar Rav Huna e a Rav Huna, embora o pequeno jugo de Rav Huna seja o que faz curvar a cabeça; Guggenheimer observa que o copista escreveu primeiro “Huna” e o corretor o trocou; traduzimos o hebraico como está.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Nas seções 06 e 07, Guggenheimer corrige o texto pelo de Beitzá e traduz as leituras corrigidas; traduzimos o hebraico desta halachá e registramos as diferenças acima. Na seção 01, ele entende que a resposta sobre as montanhas suspensas é de Rabi Zeira; o hebraico não diz quem responde, e não acrescentamos o nome. Na seção 03, ele propõe ler Rabi Yassa no lugar de Rabi Yossi, e entende que a raiz não é comida, e por isso fica pendurada como amuleto; mantivemos Rabi Yossi. Na seção 04, a tabuinha e o espeto seguem a sua explicação: pinaksá é a palavra grega pínax, e o espeto, como a tabuinha, pendia do pescoço do bezerro para desmamá-lo. Na seção 06, ele entende o chifre kedudá como pontudo e perigoso, de modo que a correia é uma precaução; o hebraico diz “perfurado”, e traduzimos assim. Na seção 07, ele entende que o pedido para retirar-se veio porque Rabi Elazar ben Azariá desafiava abertamente a opinião da maioria.
A Mishná seguinte, Shabbat 6:1, abre o Perek Vav, Bameh Ishá: “Com que sai a mulher, e com que não sai”, isto é, que adornos e roupas a mulher pode levar ao sair no Shabat.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá (בַּמֶּה בְּהֵמָה).