Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Heh · Halachá 3
שַׁבָּת

Ubameh einá yotzá: a metutelet do camelo, o animal atado e as cordas dos camelos

Perek Heh, Bameh Behemá, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Terceira halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá. Depois de enumerar aquilo com que o animal pode sair no Shabat, a Mishná passa àquilo com que não sai: o camelo não sai com a metutelet, nem akud, nem ragul, e assim todos os demais animais; e não se atam camelos uns aos outros para puxá-los, mas o condutor pode segurar as cordas na mão, contanto que não as enrole. A guemará compara a metutelet a uma almofada curva que iguala a corcova e explica akud e ragul pelas patas atadas; traz a razão de Rabi Ba, por causa da suspeita, e a de Assi, por causa de kilayim; registra as duas tradições em nome de Shmuel sobre a corda que pende da mão do condutor ou do pescoço do animal, uma por causa da carga no Shabat e a outra por causa do repouso do animal, que a Torá ordena como o do homem; e termina com a baraita do palmo de corda, a pergunta de Rabi Zeira sobre o que resta permitido e a resposta de Rabi Yochanan bar Maryá, que manda conduzir o animal como o cavalo sarraceno. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 54a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

וּבַמָּה אֵינָהּ יוֹצְאָה. לֹא יֵצֵא גָמָל בַּמְּטוּטֶלֶת לֹא עָקוּד וְלֹא רָגוּל וְכֵן שְׁאָר כָּל הַבְּהֵמוֹת. לֹא יִקְשׁוֹר גְּמַלִּים זֶה בָזֶה וְיִמְשׁוֹךְ. אֲבָל מַכְנִיס חֲבָלִים לְתוֹךְ יָדוֹ וְיִמְשׁוֹךְ וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִכְרוֹךְ:

Mishná: E com que o animal não sai no Shabat? O camelo não sairá com a metutelet (almofada ou carga presa à cauda), nem akud (com a pata atada), nem ragul (com as pernas atadas); e assim também todos os demais animais. O condutor não atará camelos um ao outro e assim os puxará em fila; mas introduz as cordas dentro da sua mão e puxa os camelos, contanto que não yichroch (enrole as cordas umas nas outras).

A Halachá · הֲלָכָה ג

01A metutelet, akud e ragul
Yerushalmi · Shabbat 5:3
וּבַמָּה אֵינָהּ יוֹצְאָה. לֹא יֵצֵא גָמָל בַּמְּטוּטֶלֶת. כְּהָדָא כֵיפְה דְהִיא מַשְׁוִיָּא גַבִּינְתָהּ. עָקוּד. בְּיָדוֹ אַחַת. רָגוּל. בִּשְׁתֵּי רַגְלָיו.

Na Mishná: “E com que não sai? O camelo não sairá com a metutelet.” A metutelet é como esta keifá (almofada curva) que iguala a sua corcova. E quanto a “akud”: quando está atado por uma só das suas patas dianteiras. E quanto a “ragul”: quando está atado pelas suas duas patas traseiras.

02Os camelos atados e a corda na mão ou no pescoço
Yerushalmi · Shabbat 5:3
לֹא יִקְשׁוֹר גְּמַלִּים זֶה בָזֶה וְיִמְשׁוֹךְ. אָמַר רִבִּי בָּא. מִפְּנֵי הַחֲשָׁד. שֶׁלֹּא יְהוּ אוֹמְרִים. אִישׁ פְּלוֹנִי יָצָא לָעֲשׂוֹת מְלַאכְתּוֹ בַּשַׁבָּת. אַסִּי אָמַר. לְכִלְאַיִם נִצְרְכָה. רַב יְהוּדָה בְשֵׁם שְׁמוּאֵל אָמַר. מִיָּדוֹ אָסוּר וּמִצַּוָּאר בְּהֵמַה מוּתָּר. שֶׁאֵין לִבְהֵמָה כָּרוּךְ אֶל צַוָּאר בְּהֵמָה אָסוּר. מְשׁוּלְשָׁל מִצַּוָּאר בְּהֵמַה מוּתָּר. רַב הוּנָא וְרַב יְהוּדָה תְּרֵיהוֹן בְשֵׁם שְׁמוּאֵל. חַד אָמַר. מִיָּדוֹ אָסוּר וּמִצַּוָּאר בְּהֵמַה מוּתָּר. וְחוֹרָנָה מַחֲלִף. מָאן דָּמַר. מִיָּדוֹ אָסוּר. מִשּׁוּם מַשּׂוּי בַשַּׁבָּת. וּמִצַּוָּאר בְּהֵמַה מוּתָּר. שֶׁאֵין לִבְהֵמָה מַשּׂוּי בַשַּׁבָּת. וּמָאן דָּמַר מִיָּדוֹ מוּתָּר. מִפְּנֵי שֶׁאֵיפְשָׁר. וּמִצַּוָּאר בְּהֵמַה אָסוּר. שֶׁהוּא מְצוֶּה עַל שְׁבִיתַת בְּהֶמְתּוֹ כָּמוֹהוּ. שֶׁנֶּאֱמַר לְמַעַן יָנוּחַ שׁוֹרְךָ וַחֲמוֹרֶךָ כָּמוֹךָ.

Na Mishná: “Não atará camelos um ao outro e os puxará.” Disse Rabi Ba: é proibido por causa da suspeita, para que não digam: “Fulano saiu para fazer o seu trabalho no Shabat.” Assi disse: a regra das cordas na mão foi necessária para o caso de kilayim (mistura de espécies, como cordas de lã e de linho). Rav Yehudá disse em nome de Shmuel: se a corda pende da sua mão, é proibido; e se pende do pescoço do animal, é permitido, pois o animal não tem carga no Shabat. Se está enrolada no pescoço do animal, é proibido; se está pendurada do pescoço do animal, é permitido. Rav Huna e Rav Yehudá, ambos falaram em nome de Shmuel. Um disse: se pende da sua mão, é proibido, e se pende do pescoço do animal, é permitido; e o outro inverte as duas regras. Quem diz “da sua mão, é proibido” o diz por causa de carga no Shabat, pois é ele quem carrega a corda; “e do pescoço do animal, é permitido”, porque para o animal não há carga no Shabat. E quem diz “da sua mão, é permitido” o diz porque é impossível conduzir o animal de outro modo; “e do pescoço do animal, é proibido”, porque ele é ordenado a guardar o repouso do seu animal como o seu próprio, pois está dito: “Para que descanse o teu boi e o teu jumento como tu” (Shemot 23:12; Devarim 5:14).

03O palmo de corda e o cavalo sarraceno
Yerushalmi · Shabbat 5:3
תַּנֵּי. טֶפַח מִיָּדוֹ לְצַוָּאר בְּהֵמָה אָסוּר. אָמַר רִבִּי זְעִירָא. מִיָּדוֹ אָסוּר וּמִצַּוָּאר בְּהֵמָה אָסוּר. טֶפַח מִיָּדוֹ לְצַוָּאר בְּהֵמָה אָסוּר. וְאֵי זוֹ הִיא שֶׁהוּא מוּתָּר. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן בַּר מַרְיָיא. מָאן דַּעֲבִיד טַבָּאוּת נְגִיד לָהּ בְּהָדֵין סוּסְיָא סַרָקַיָיא.

Ensina-se numa baraita: se a corda pende um palmo da sua mão até o pescoço do animal, é proibido. Disse Rabi Zeira: segundo um, da sua mão é proibido; segundo o outro, do pescoço do animal é proibido; e segundo a baraita, um palmo da sua mão até o pescoço do animal é proibido; qual é, então, o modo que é permitido? Disse Rabi Yochanan bar Maryá: quem quer fazer tabaut (o que é bom, agir corretamente) conduza-o como se conduz este cavalo sarakaya (sarraceno).

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá, que corresponde à Mishná Shabbat 5:3 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com a halachá segundo quem diz que, quer para secar, quer para o leite, é proibido sair com as cabras atadas, porque ninguém pode decidir qual cabra está atada para secar e qual para o leite. Esta passa das coisas com que o animal pode sair às coisas com que não pode: a metutelet do camelo, o animal atado pelas patas e os camelos atados uns aos outros. A Mishná seguinte, que começa “o jumento não sai com a albarda quando ela não está amarrada a ele”, abre a halachá 5:4.

Referências conferidas. Na seção 01, o Bavli, em Shabbat 54a, ensina numa baraita que o camelo não sai com a metutelet amarrada à sua cauda, mas sai com ela quando está amarrada à cauda e à corcova; e ali Rav Yehudá explica akud como a amarração da pata dianteira com a traseira, como a de Yitzchak filho de Avraham, e ragul como a pata dianteira dobrada sobre o antebraço e atada. A Tosefta Shabbat 5:3 trata também da metutelet presa à corcova do camelo e explica akud como dobrar uma pata dianteira e uma traseira e amarrá-las, e ragul como dobrar as duas patas dianteiras uma com a outra, ou as duas traseiras uma com a outra, e amarrá-las. Na seção 02, o Bavli, em Shabbat 54a, dá outra razão para não atar camelos uns aos outros: Rav Ashi diz que parece quem vai a uma feira; e o mesmo Rav Ashi diz que a permissão de segurar as cordas na mão só foi ensinada a respeito de kilayim, como Assi aqui, e conclui que se trata de kilayim das próprias cordas, desde que não as enrole e amarre. Os versículos são Shemot 23:12, “para que descanse o teu boi e o teu jumento”, e Devarim 5:14, que termina “como tu”; o Yerushalmi junta os dois numa só citação. Na seção 03, o Bavli, em Shabbat 54a, traz Shmuel: contanto que a corda não saia um palmo por baixo da sua mão; a escola de Shmuel ensina dois palmos, e Abaye explica que Shmuel veio ensinar a halachá prática; e em Shabbat 54b traz a baraita de que se deve levantar a corda um palmo do chão, que se refere à corda entre a mão e o animal.

Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi diz “bamtutelet”, com artigo, onde a Mishná avulsa diz “bimtutelet” e o Bavli “bimtultelet”; e escreve “yikshor”, “yimshoch” e “yichroch” com vav. Na seção 02, a frase de Rav Yehudá em nome de Shmuel começa com as palavras “da sua mão, é proibido, e do pescoço do animal, é permitido, pois o animal não tem”, que voltam logo depois na tradição dupla de Rav Huna e Rav Yehudá; a frase hebraica se interrompe em “pois o animal não tem”, e completamos com “carga no Shabat”, como diz a continuação. Guggenheimer põe estas palavras entre parênteses como uma duplicação fora de lugar; traduzimos o hebraico como está. Ainda na seção 02, o Yerushalmi explica a proibição de atar os camelos pela suspeita, e o Bavli, pela aparência de quem vai a uma feira.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer entende a keifá como a almofada com que um corcunda disfarça a sua corcova; o hebraico diz apenas “a sua corcova”, e traduzimos assim. Ele traduz ragul como atado pelas duas patas traseiras, o que seguimos. Na seção 02, ele lê “Rabi Abba”, onde o hebraico diz “Rabi Ba”; traduzimos o hebraico. Na seção 03, ele chama o autor da última frase de “Rabi Yochanan ben Marius”, onde o hebraico diz “bar Maryá”, e observa que não se sabe o que significa conduzir como o cavalo sarraceno; mantivemos as palavras tabaut e sarakaya transliteradas, com o seu sentido literal.