Primeira halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, que abre o quinto capítulo, Bameh Behemá. A Mishná ensina com que o animal pode sair no Shabat e com que não pode: o camelo com o cabresto, a camela com a argola no focinho, o burro líbio com o freio e o cavalo com a coleira; todos os animais que usam coleira saem com ela e são puxados por ela, e, se ela se tornou impura, asperge-se sobre ela e imerge-se no seu lugar. A guemará traz a baraita de Rabi Yishmael beRabi Yossi, segundo a qual quatro animais são puxados pelo cabresto, o cavalo, o mulo, o camelo e o jumento, com o versículo de Zecharyá como sinal, e a decisão de Rav conforme ela; discute o nome do burro líbio, livdekes ou ligdukas; pergunta se os prosélitos da Líbia esperam três gerações como os do Egito, e responde pelo feijão, que verde se chama líbio e seco se chama egípcio; ensina que, como na proibição, também na permissão a Mishná vale para todos os animais; pergunta como a coleira do cavalo recebe impureza, se os adornos do animal são puros, e como se permite puxá-lo, se a coleira faz um sulco no chão, e responde com Rabi Shimon e com a porta e a esteira que se arrastam; e termina com a imersão da coleira no seu lugar, que vale quando está frouxa. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 51b.
Mishná: Com que sai o animal (ao domínio público, no Shabat), e com que não sai? Sai o camelo com o afsar (cabresto), e a naká (camela) com o chatam (argola no focinho), e o livdekes (burro líbio) com a perumbiá (freio, focinheira), e o cavalo com o sheir (coleira, argola ao pescoço); e todos os baalei hasheir (os animais que costumam usar coleira) saem com o sheir e são puxados pelo sheir; e mazin (asperge-se a água da purificação) sobre eles, e tovlin (imergem-se no micvê) no seu lugar, sem tirá-los do pescoço do animal.
Na Mishná: “Com que sai o animal, e com que não sai” etc. Ensinou Rabi Yishmael beRabi Yossi, numa baraita, em nome do seu pai, Rabi Yossi: “Quatro animais são puxados pelo afsar, mesmo no Shabat, e são estes: o cavalo e o pered (mulo), o camelo e o jumento.” Disse Rabi Chizkiyá: e o sinal para guardar a lista na memória é o versículo: “E assim será a praga do cavalo, do mulo, do camelo e do jumento” (Zecharyá 14:15), que nomeia os mesmos quatro animais e na mesma ordem. Quanto à prática, Rav disse: a halachá é conforme Rabi Yishmael beRabi Yossi, e todos estes quatro podem sair no Shabat com o cabresto, porque para eles o cabresto é guarda, e não carga.
Na Mishná: “livdekes”. Há tanaim que ensinam: “ligdukas”. Quem diz “livdukas” dá-lhe o nome por causa de “e líbios e cuxitas nos seus passos” (Daniel 11:43), isto é, é o jumento que vem da Líbia. Quem diz “ligdukas” o explica como ambates. O que é ambates? Um chamor selak (jumento que monta, isto é, garanhão).
Rabi Yona disse: Rav Hoshayá perguntou: os prosélitos que vêm de Lubi (a Líbia), o que são quanto a esperar por eles três gerações, como se espera pelo prosélito egípcio, cujos descendentes só na terceira geração entram na congregação? Disse Rabi Yona ben Tzeruyá: pelo que nós vemos no mercado: aquele pula mitzráya (feijão egípcio), quando está verde, eles o chamam “lubi”; quando está seco, eles o chamam “pul mitzri”, isto é, feijão egípcio. Isto diz que um prosélito de Lubi precisa esperar três gerações; isto diz que ele é lubi, ele é egípcio, pois a Líbia e o Egito são uma só coisa. Rabi Yitzchak bar Nachman disse em nome de Rabi Oshayá: a halachá é conforme as palavras do talmid (o discípulo, na discussão sobre o cruzamento dos mulos). As palavras dos sábios são: todas as espécies de pirdot (mulas) são uma só, quer a mãe seja égua, quer seja jumenta.
Rabi Shmuel disse em nome de Rabi Zeira: como tu dizes na Mishná, a respeito da proibição, “e assim todos os demais animais” (Mishná Shabbat 5:3), assim também a respeito da permissão vale o “e assim”, isto é, o que a nossa Mishná permite ao camelo, ao cavalo e aos outros que nomeia vale também para todo animal semelhante, que precisa ser guardado da mesma maneira.
Na Mishná: “E o cavalo com o sheir.” E não se ensina assim: “Todos os adornos do homem são impuros, e os adornos do animal são puros”? Como pode então a Mishná falar de aspergir e de imergir a coleira, se ela não recebe impureza? Explica-o no caso dos que são feitos lehanotan (para conduzi-los), pois então a coleira é um utensílio que o homem usa, e não um adorno do animal. Mas, se o homem puxa o animal pela coleira, ela fica frouxa e arrasta-se pelo chão; e não faz ela um sulco? Diz-se então: só se explica conforme Rabi Shimon, pois se ensina: “Não arraste o homem a cama, a cadeira, o banco e a katedra (poltrona), porque ele faz um sulco; e Rabi Shimon permite”, porque o homem não tem a intenção de fazer o sulco. Disse Rabi Chinena: é como isto que se ensina: “Uma porta que se arrasta, uma esteira que se arrasta, um kinkilon (grade de treliça) que se arrasta, abre-se e fecha-se com eles no Shabat, e não é preciso dizer no Yom Tov.” E ensina-se assim também: “Uma esteira que está amarrada e pendurada no pilar, abre-se e fecha-se com ela no Shabat, e não é preciso dizer no Yom Tov.”
Na Mishná: “E asperge-se sobre eles, e imergem-se no seu lugar.” Lá ensinamos, a respeito dos fios no cabelo da mulher: “Não imerja com eles até que os afrouxe” (Mishná Shabbat 6:1), para que a água chegue a todo o cabelo. E aqui ele diz assim, que se imerge a coleira no seu lugar, presa ao pescoço do animal? Disse Rabi Mana: aqui, quando estão frouxos; lá, quando estão apertados, e a água não entra por baixo deles.
Esta é a primeira halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá, que corresponde à Mishná Shabbat 5:1 da Mishná avulsa. O Perek Dalet terminou com a panela guardada que se descobriu, sobre a qual se podem ainda acrescentar roupas e utensílios, e com o jarro de água fria que se põe debaixo da almofada. O Perek Heh passa dos alimentos aos animais: o Shabat manda descansar também o animal, e por isso não se deixa que ele saia ao domínio público levando carga. A Mishná separa o que serve para guardar e conduzir o animal, que não é carga e se permite, do que seria carga. A segunda Mishná do capítulo, a do jumento com a sua albarda, fica para a halachá seguinte.
Referências conferidas. Na seção 01, a baraita de Rabi Yishmael beRabi Yossi está na Tosefta Shabbat 5:1, que, em lugar do jumento, nomeia o burro líbio; o versículo dado como sinal é Zecharyá 14:15; e o Bavli, em Shabbat 51b, traz a mesma tradição dita por Rabi Yishmael beRabi Yossi diante de Rabi, em nome do seu pai, na forma “quatro animais saem com o cabresto”. Na seção 02, o versículo é Daniel 11:43; o Bavli, em Shabbat 51b, explica pela boca de Rav Huna que o burro da Mishná é o jumento líbio. As seções 02 e 03 aparecem também no Yerushalmi, Kilayim 8:3, a propósito da Mishná Kilayim 8:4, que proíbe atar o burro líbio aos camelos. A regra das três gerações do prosélito egípcio está em Devarim 23:8-9. A frase “a halachá é conforme as palavras do discípulo; as palavras dos sábios são: todas as espécies de mulas são uma só” pertence à discussão dessa Mishná de Kilayim, onde Rabi Yehudá distingue os mulos nascidos da égua dos nascidos da jumenta; o Bavli, em Chulin 79a, diz em nome de Shmuel que esta é a opinião de Rabi Yehudá, mas que os sábios dizem que todas as espécies de mulas são uma só. Na seção 04, a frase “e assim todos os demais animais” está na Mishná Shabbat 5:3, que proíbe o camelo com o saco pendurado, peado ou amarrado. Na seção 05, a regra de que os adornos do animal são puros aproxima-se da Mishná Kelim 12:1, segundo a qual o anel do homem é impuro e o anel do animal é puro; o Bavli, em Shabbat 52a e 52b, opõe essa Mishná à nossa com a mesma pergunta, e Rav Yossef responde ali que o homem puxa o animal pela coleira, como aqui. A baraita do arrastar a cama, a cadeira e o banco, em que Rabi Shimon permite, veio no Perek Guimel, na halachá 3:3, seção 02; o Bavli a traz em Shabbat 22a e 29b. A baraita da porta, da esteira e da grade que se arrastam está na Tosefta Beitzá 2:12, logo depois das palavras de Rabi Shimon, e no Yerushalmi, Eruvin 10:8, junto com a da esteira amarrada e pendurada; o Bavli a traz em Eruvin 101a, e a Tosefta Eruvin 8:6 diz das esteiras estendidas nas portas das lojas que, se estavam amarradas e penduradas, abre-se e fecha-se com elas. Na seção 06, a Mishná citada com “lá ensinamos” é a Mishná Shabbat 6:1, sobre os fios de lã e de linho no cabelo da mulher; a Tosefta Shabbat 5:4 acrescenta à nossa Mishná “desde que estejam folgados”; e o Bavli, em Shabbat 52b, pergunta se a coleira não seria uma interposição na imersão, e Rabi Ami responde que se trata de coleiras soldadas.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi escreve “baifsar”, onde a Mishná avulsa escreve “beafsar”; “vehanaká”, onde ela escreve “venaká” com alef; “vehalivdekes bafrumbiá”, onde ela escreve “velubdekis biprumbeyá”; e “yotzin” e “nimshachin”, com nun final, onde ela escreve com mem final; conservamos o hebraico como está. Na seção 02, o hebraico escreve o nome de três maneiras, “livdekes”, “ligdukas” e “livdukas”; no paralelo de Kilayim, a segunda leitura é “nivrakus”, e a Tosefta Shabbat 5:1 diz “dalubkos”. Na seção 03, o paralelo de Kilayim diz “Rabi Yona botzráya”, isto é, de Bostra, onde aqui se lê “Rabi Yona ben Tzeruyá”, e não tem a palavra “disse” depois do primeiro Rabi Yona; mantivemos o hebraico. Na seção 04, o hebraico diz “vechen kol shear habehemá”, e a Mishná Shabbat 5:3 diz “vechen shear kol habehemot”. Na seção 05, o hebraico escreve a palavra “arraste” com duas letras completadas pelo editor entre colchetes, que conservamos no texto hebraico; e a palavra “lehanotan” é lida por Guggenheimer, com Lieberman, como “lehanchotan”, para conduzi-los, porque na fala da Galileia as guturais não se pronunciavam.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 02, Guggenheimer traduz a segunda leitura como “não um lgdqs”, e lê “ambates” como o grego ἀμβάτης, garanhão; traduzimos o hebraico, que diz apenas “ligdukas”. Na seção 03, ele observa que a frase sobre o discípulo pertence à Mishná de Kilayim e não tem lugar aqui; e entende que a mãe ou o pai dos mulos, cavalo ou jumento, não importa para as leis de kilayim. Na seção 06, ele explica que o cavalo vivo não recebe impureza e não interpõe na imersão, e que a coleira que serve para conduzir o cavalo não pode estar apertada.
Com esta halachá, abre-se o Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá (בַּמֶּה בְּהֵמָה).