Segunda halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá. A Mishná ensina com que mais o animal pode sair no Shabat: o jumento com a albarda, quando está amarrada a ele; os carneiros com a proteção de couro; as ovelhas com o rabo amarrado para cima ou para baixo, ou envoltas para proteger a lã; e as cabras com as tetas atadas. Rabi Yossi proíbe tudo isto, exceto as ovelhas envoltas, e Rabi Yehudá só permite atar as tetas das cabras para secar o leite. A guemará exige, com Shmuel, que a albarda esteja amarrada desde a véspera do Shabat; traz o costume de Rav com os kleisterin e a baraita da corda que se amarra à vaca e ao cocho, e discute o uso dos lados do animal no Shabat, com Rabi Shimon ben Elazar; explica os levuvin como um couro diante do coração do carneiro; as duas leituras, shechuzot e shuzot, com os versículos que as explicam, e a terra de Kavul, que não dá frutos; e termina com Rabi Yehudá ben Beteirá, que proíbe as cabras atadas de qualquer modo, porque ninguém pode distinguir para que foram atadas. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 52b.
Mishná: O jumento sai (ao domínio público, no Shabat) com a mardaat (albarda, a manta de pano posta sobre o seu dorso) quando ela está amarrada a ele. Os machos (os carneiros) saem levuvin (com uma proteção de couro). As ovelhas saem shechuzot (com o rabo amarrado para cima), kevulot (com o rabo amarrado para baixo) e kevunot (envoltas para proteger a lã); e as cabras, tzrurot (com as tetas atadas). Rabi Yossi proíbe sair com todos estes, exceto as ovelhas kevunot. Rabi Yehudá diz: as cabras saem tzrurot para secar (o leite, para que deixem de dar leite), mas não para o leite (para guardá-lo nas tetas).
Na Mishná: “O jumento sai com a mardaat” etc. Shmuel disse: a Mishná fala do caso em que ela está amarrada a ele desde a véspera do Shabat. Chanin de Goftiyá disse diante de Shmuel: Rav Chiya bar Ashi não costuma agir assim, mas amarra a albarda no próprio Shabat. Ele lhe disse: Rav costumava agir assim com os kleisterin (uma peça que se amarra aos carneiros, de sentido incerto), pois se ensina numa baraita: “Os machos saem com kleisterin.” Objetou Rabi Achá bar Papa diante de Rabi Zeira: e não se ensina assim: “Uma corda que está amarrada à vaca, amarra-se ao cocho; a que está amarrada ao cocho, amarra-se à vaca”? Está bem que a corda da vaca se amarre ao cocho; mas que a corda do cocho se amarre à vaca, e não se acha ele usando os lados do animal no Shabat, o que é proibido? Disse Rabá: explica-o com nós que não são permanentes. Disse Rabi Yossi: e acaso há diferença, quanto aos lados do animal, entre um nó que é permanente e um nó que não é permanente? Num caso e no outro ele se apoia no animal. Disse Rabi Shamai: explica-o conforme Rabi Shimon ben Elazar, pois se ensina: “Rabi Shimon ben Elazar diz: é permitido usar os lados do animal no Shabat.” A regra dos lados do animal é a mesma dos lados da árvore. Disse Rabi Mana: eu a sustentei (a baraita) no caso de quem junta corda a corda, sem tocar no próprio animal.
Na Mishná: “Os machos saem levuvin”: isto é, que se põe sobre o carneiro um couro mibursinin (dos curtidores, couro curtido) diante do seu coração, e ele lhe serve de escudo contra a fera que o ataca.
Na Mishná: “As ovelhas saem shechuzot.” Há tanaim que ensinam “shechuzot”, e há tanaim que ensinam “shuzot”. Quem diz “shuzot” entende: meatdan (preparadas, enfeitadas para o macho), como tu dizes: “Em traje de meretriz e de coração guardado” (Mishlei 7:10), onde “shit”, o traje, soa como “shuzot”. Quem diz “shechuzot” o entende como tu dizes: “Não se afia a faca” (Mishná Beitzá 3:7), onde “mashchizin”, afiar, tem o mesmo som. Kevunot: envoltas por causa da lã fina, para que fique limpa. Kevulot: amarradas para que o macho não suba sobre elas. Rabi Avun disse em nome de Rabi Chiya: assim está escrito: “E chamou-a terra de Kavul” (Melachim I 9:13), uma terra que não produz frutos; assim também a ovelha kevulá não concebe.
Na Mishná: “Rabi Yehudá diz: as cabras saem tzrurot para secar, mas não para o leite.” Ensina-se numa baraita: Rabi Yehudá ben Beteirá diz: quer para secar, quer para o leite, é proibido. Bem disse Rabi Yehudá ben Beteirá. E qual é a razão dos rabanan (dos sábios, que distinguem entre secar e o leite)? Rabi Yossi beRabi Ba disse em nome de Rav Yehudá, e Rabi Yochanan o atribui a Rav: a halachá é conforme as palavras de quem diz: quer para secar, quer para o leite, é proibido, por causa de: quem decide qual cabra está atada para secar e qual para o leite?
Esta é a segunda halachá do Perek Heh de Massechet Shabbat, Bameh Behemá, que corresponde à Mishná Shabbat 5:2 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com a coleira do cavalo, que se imerge no seu lugar quando está frouxa, e não quando está apertada. Esta passa do que serve para guardar e conduzir o animal ao que serve para protegê-lo ou para cuidar dele: a albarda do jumento, o couro dos carneiros, as ovelhas amarradas ou envoltas e as cabras com as tetas atadas. Nada disto é carga para o animal, mas parte do seu cuidado, e por isso a Mishná o permite; Rabi Yossi, porém, só permite as ovelhas envoltas. A Mishná seguinte, que começa “e com que não sai”, abre a halachá 5:3.
Referências conferidas. Na seção 01, o Bavli, em Shabbat 53a, abre a guemará com as mesmas palavras de Shmuel: “e isto, quando está amarrada a ele desde a véspera do Shabat”. A baraita da corda amarrada à vaca e ao cocho está na Tosefta Shabbat 13:17; o Bavli a traz em Shabbat 113a, onde Rabi Achá bar Papa a opõe a Rabi Abba, que dissera em nome de Rav Chiya bar Ashi, em nome de Rav, que se pode trazer uma corda de casa e amarrá-la à vaca e ao cocho. A baraita de Rabi Shimon ben Elazar sobre os lados do animal e os lados da árvore aparece também no Yerushalmi, Eruvin 3:3, e no Yerushalmi, Shabbat 13:7; o Bavli discute os lados do animal e da árvore em Shabbat 154b e 155a, onde conclui que os lados são proibidos. Na seção 02, o Bavli, em Shabbat 53b, traz as explicações de Rav Huna e de Rav Nachman bar Yitzchak, e a de Ulla, segundo a qual levuvin é um couro que se amarra diante do coração dos carneiros para que os lobos não os ataquem, como aqui. Na seção 03, os versículos são Mishlei 7:10 e Melachim I 9:13, e a frase sobre a faca está na Mishná Beitzá 3:7: “não se afia a faca no Yom Tov”. A Tosefta Shabbat 5:1 explica as três palavras da mesma maneira: kevunot, por causa da lã fina; shechuzot, para que o macho suba sobre elas; kevulot, para que não suba. O Bavli, em Shabbat 53b e 54a, explica shechuzot pelo versículo de Mishlei, kevulot pela terra de Kavul e kevunot pela lã fina. Na seção 04, o Bavli, em Shabbat 54a, traz a palavra de Rabi Yehudá ben Beteirá, “mas quem decide qual é para secar e qual é para o leite?”, e a decisão de Shmuel, ou de Rav Yehudá em nome de Shmuel, de que a halachá é conforme ele; ali, Rav diz que a halachá é conforme Rabi Yehudá, e Rabin traz em nome de Rabi Yochanan que a halachá é conforme o primeiro tana.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi diz “hazecharim”, com artigo, “recheilot”, com yod, “vehaizim”, com vav, e “izim yotzin”, com nun final, onde a Mishná avulsa diz “zecharim”, “rechelot”, “haizim” e “yotzot”; e “harechelim”, onde ela diz “harechelin”. Na seção 03, o hebraico cita a Mishná com “rechelim”, e na seção 04 com “yotzot”; conservamos o hebraico como está. Na seção 01, o hebraico diz “Rabá”, onde Guggenheimer lê Rabi Abba, nome que o Bavli, em Shabbat 113a, liga a esta discussão; traduzimos o hebraico. Na seção 03, o hebraico cita o versículo com “vaikra lah”, e chamou-a, onde o versículo diz “vaikra lahem”, e chamou-as; e explica kevunot antes de kevulot, embora a Mishná as nomeie na ordem inversa.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer diz que não está claro o que são os kleisterin, propõe o grego κλεῖστρον, tranca, e observa que o Rosh lê no lugar uma cesta de forragem; mantivemos a palavra transliterada. Na seção 03, ele traduz “meatdan” como “em enfeites”. Na seção 04, traduz “matei bah” como “inclina-o”, e nós, como “o atribui”; e traduz “mi mifis” como “quem dissolve”, e nós, com o paralelo do Bavli, como “quem decide”. Ele observa também que o Bavli atribui esta decisão a Rav Yehudá em nome de Shmuel, o que conferimos em Shabbat 54a.