Terceira e última halachá do Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin. A Mishná ensina que quem não cobriu o alimento guardado enquanto ainda era dia não o cubra depois que escurecer; que, se o cobriu e ele se descobriu, é permitido cobri-lo de novo; e que se enche o jarro e se põe debaixo da almofada ou do travesseiro. A guemará trata da panela tirada do seu lugar antes do Shabat, da cavidade que se estragou e da água quente que se levava a Rabi Chiya HaGadol e se devolvia ao fogareiro; proíbe passar a panela do fogareiro para a temina e da temina para o fogareiro, e deixa em aberto a passagem de uma temina para outra; ensina que se acrescentam roupas e utensílios sobre o que já está coberto desde a véspera, mesmo que seja só um pano; e termina com a neve e a água fria, que Rabi permite guardar, e com o jarro debaixo do travesseiro. Com ela se encerra o Perek Dalet, Bameh Tomnin; o tratado continua no Perek Heh, Bameh Behemá. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 51a.
Mishná: Se a pessoa não o cobriu (o alimento guardado) enquanto ainda era dia, não o cubra depois que escurecer. Se o cobriu, e ele se descobriu depois, é permitido cobri-lo de novo, mesmo no Shabat. Enche-se o kiton (o jarro de água fria) e põe-se o jarro debaixo do kar (a almofada) ou debaixo do keset (o travesseiro), para tirar o frio da água.
Se a tirou (a panela, do lugar em que estava guardada) enquanto ainda era dia, devolve-a enquanto ainda é dia; se a tirou depois que escureceu, devolve-a depois que escureceu. Se a tirou enquanto ainda era dia, e o dia se santificou sobre ela (entrou o Shabat antes que a devolvesse), o que se diz? Rabi Ba disse em nome de Rav Yehudá: se se estragou a gumá (a cavidade em que a panela estava envolta, que se fechou), é proibido devolvê-la. E de uma kirá (fogareiro) para outra kirá é permitido, como se aprende daquilo que disse Rabi Eliezer em nome de Rabi Yehoshua: eu servia a Rabi Chiya HaGadol, e levava para ele a água quente do diyuti (o andar) de baixo para o diyuti de cima, e devolvia-a à kirá de baixo. E disse Rabi Yirmeyá beRabi Shimon: mesmo de uma kirá cujo calor é pouco para uma kirá cujo calor é muito, é permitido devolver.
Passar a panela de uma kirá para uma temina (o lugar em que se guarda a panela envolta, para conservar o calor) é proibido no Shabat; de uma temina para uma kirá é proibido; de uma temina para outra temina, tzerichá (é questão que precisa de exame).
Se o alimento guardado se descobriu enquanto ainda era dia, cobre-o enquanto ainda é dia; se se descobriu depois que escureceu, cobre-o depois que escureceu. Se se descobriu enquanto ainda era dia, e o dia se santificou sobre ele (entrou o Shabat antes que o cobrisse), o que se diz? Sobre isso se ensinou numa baraita: não se guardam as chamin (as águas quentes) depois que escureceu, mas acrescentam-se sobre elas roupas e utensílios. Quanto há de haver sobre elas desde antes do Shabat, e seja permitido cobri-las no Shabat? Rabi Zerikan disse em nome de Rabi Chanina: mesmo uma mapá (um simples pano). Disse Rabi Zeira: contanto que seja uma coisa que é útil para conservar o calor. Disse Rabi Chinena: todas as coisas são úteis. Disse Rabi Matanyá: e está certo, pois, se alguém tomasse um martut (um trapo) e o pusesse sobre a sua cabeça na hora do frio, porventura não venceria o frio?
Assim como não se guardam as chamin depois que escureceu, assim não se guardam nem neve nem tzonin (águas frias), para conservar o seu frio; e Rabi (Rabi Yehudá HaNassi) permite guardá-las. Shmuel bar Abba objetou sobre esta primeira opinião, a anônima: e eis que se ensinou: “Enche um homem o kiton de água e põe debaixo do kar ou debaixo do keset”, o que mostra que se pode guardar a água fria! Antes, esse ensino é conforme Rabi, pois Rabi permite. Aqui, no jarro debaixo do travesseiro, trata-se de guardar a água por uma hora; aqui, na proibição, de deixá-la ficar por muito tempo.
Esta é a terceira e última halachá do Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin. A sua Mishná corresponde à segunda parte da Mishná Shabbat 4:2 da Mishná avulsa, que é também a última Mishná do capítulo: a primeira parte, a das peles e dos tosões de lã e do cesto inclinado sobre o seu lado, foi a Mishná da halachá 4:2. A halachá anterior terminou com as pedras lisas de Chamat Gader e com a lista dos sábios que têm uma só opinião: Rav Chana bar Abba, Rabi Yochanan e Rabi Yonatan; Rav, Rabi Zeira e Rabi Yishmael beRabi Yossi; os Tzipporaei, Rabi Yossi ben Shaul e Rabi Chalafta ben Shaul; e os chaveraya, que não têm par. Esta volta à panela guardada: o que se faz quando ela é tirada do seu lugar ou quando se descobre, e o que se pode acrescentar sobre ela depois que escurece. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 51a, e o capítulo Bameh Tomnin termina ali em Shabbat 51b.
Referências conferidas. A seção 01 aparece também no Yerushalmi, Shabbat 3:1, no Perek Guimel: ali, depois das mesmas três frases sobre a panela tirada de dia ou depois que escureceu, Rabi Simon deTerei diz em nome de Rabi Hoshayá que, se a pôs no chão, é proibido movê-la, e é Rabi Lazar quem diz, em nome de Rabi Hoshayá, “eu servia a Rabi Chiya HaGadol”; segue-se a mesma frase de Rabi Yirmeyá beRabi Shimon. A frase de Rabi Ba em nome de Rav Yehudá não está nesse paralelo. No Bavli, em Shabbat 38b, Rabi Oshaya conta que certa vez estavam junto de Rabi Chiya Rabá e levaram para ele uma chaleira de água quente do andar de baixo para o andar de cima, serviram-lhe o copo e a devolveram ao seu lugar, e ele nada lhes disse; e em Shabbat 50b, Rabi Abba diz, em nome de Rabi Chiya bar Ashi, em nome de Rav, que todos concordam que, se se estragou a cavidade, é proibido devolver. Na seção 02, Guggenheimer remete ao Bavli, Shabbat 38b, onde fica sem resposta uma pergunta próxima, a de Rav Ashi sobre quem passou a água de uma chaleira para outra. Na seção 03, a baraita está na Tosefta Shabbat 4:12: não se guardam as águas quentes, de início, no Shabat, mas acrescentam-se sobre elas utensílios; e Raban Shimon ben Gamliel diz que se tira o lençol e se põe o manto, ou se tira o manto e se põe o lençol. O Bavli a traz em Shabbat 51a, com as mesmas palavras de Raban Shimon ben Gamliel. Na seção 04, a primeira frase está na Tosefta Shabbat 4:15, sem a opinião de Rabi; o Bavli a traz em Shabbat 51b, com as palavras “Rabi permitiu guardar a água fria”; e em Shabbat 51a o Bavli conta que Rabi proibia guardar a água fria, até que Rabi Yishmael beRabi Yossi lhe disse que o seu pai a permitia, e Rabi respondeu: “o ancião já decidiu”. Ali também Rav Yossef cita, contra quem precisava ensinar que é permitido guardar a água fria, as palavras da nossa Mishná: “enche um homem o jarro e põe debaixo da almofada ou debaixo do travesseiro”.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi começa com “im”, se, que a Mishná avulsa não tem; escreve “mishetechshach” com patach, onde a Mishná avulsa escreve com kamatz; e “hakeset” com segol, onde a Mishná avulsa escreve “hakaset”. Na seção 01, a palavra “hayom” vem escrita com sheva sob o he, e na seção 03 com patach; a palavra “havalah” leva dois kamatz sob o bet; “vamar” é a forma contraída de “veamar”; e “diyuti” vem com dois yod. Conservamos todas essas grafias no hebraico. Ainda na seção 01, Guggenheimer observa que os nomes de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua não podem estar certos, porque eles foram da primeira geração dos tanaim, e Rabi Chiya viveu na passagem dos tanaim aos amoraim; segundo ele, devem-se aceitar os nomes do Perek Guimel, Rabi Lazar em nome de Rabi Hoshayá. Mantivemos o hebraico. Na seção 03, a regra das roupas e dos utensílios, que se acrescentam sobre a cobertura que já estava ali desde a véspera, responde ao caso do alimento que se descobriu de dia e foi alcançado pelo Shabat. Na seção 04, o hebraico escreve “velo” com chirik sob o lamed, e também isso conservamos; e as duas palavras “aqui” do fim não dizem a qual caso se refere cada uma: entendemos, como Guggenheimer, que a Mishná fala só de guardar a água por pouco tempo.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, Guggenheimer escreve “Rebbi Abba” onde o hebraico diz Rabi Ba, e entende a cavidade estragada como o lugar da panela, que se encheu com o material que a envolvia. Na seção 02, ele traduz “tzerichá” como problemático, isto é, uma questão que fica sem decisão. Na seção 04, a sua nota sobre Rabi repete por engano a nota do alimento guardado da seção 03; e ele remete ao seu próprio comentário sobre a Mishná, que diz que não há proibição de tornar morna a água fria.
A Mishná seguinte, Shabbat 5:1, abre o Perek Heh, Bameh Behemá: “Com que sai o animal, e com que não sai”, isto é, que arreios e adornos o animal pode levar ao sair no Shabat.
Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin (בַּמֶּה טוֹמְנִין).