Segunda halachá do Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin. A Mishná ensina que se pode guardar a panela quente em peles cruas, que se movem no Shabat, e em tosões de lã, que não se movem; para tirar a panela dos tosões, sacode-se a cobertura, e eles caem; Rabi Elazar ben Azariá manda inclinar o cesto sobre o seu lado, e os sábios permitem tirar e devolver. A guemará distingue as peles e os tosões do dono da casa dos que estão no depósito; traz a esteira estendida sobre os tijolos, o ovo posto no yom tov e o lençol sobre o enxame de abelhas; as redes estendidas ao sol e a intenção de Rav; as pontas de troncos na casa de estudo de Bar Ulla; o que se precisa pensar ou amarrar para mover felpas, vigas, peles e ramos de palmeira; a barca do Jordão, que ninguém soube explicar em Yavne; e termina com as pedras lisas de Chamat Gader e os pares de opiniões. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 49a.
Mishná: Pode-se guardar a panela quente em shelachin (peles cruas), e elas se movem no Shabat, pois servem também para outros usos; e pode-se guardá-la em gizei tzemer (tosões de lã), e não se movem, porque são matéria-prima posta de lado. Como faz quem quer tirar a panela guardada nos tosões? Sacode a cobertura da panela, e eles caem por si. Rabi Elazar ben Azariá diz: a kupá (o cesto em que a panela está guardada), inclina-a sobre o seu lado e tira a panela, pois talvez a tire e não possa devolvê-la, porque o lugar dela se fecha. E os sábios dizem: tira e devolve, mesmo sem inclinar o cesto.
Na Mishná: “Guarda-se em shelachin, e movem-se.” Rabi Yudá ben Pazi disse em nome de Rabi Yonatan: isto que dizes vale para as peles que estão postas junto ao baal habayit (o dono da casa, que as usa para sentar-se); mas para as que estão postas na apotiki (o depósito, onde se guardam para a venda), não é assim, e elas não se movem. Na Mishná: “Em gizei tzemer, e não se movem.” Rabi Yudá e Rabi Yochanan disseram: isto que dizes vale para os tosões que estão postos na apotiki; mas para os que estão postos junto ao baal habayit, não é assim, e eles se movem.
Rav Yirmeyá disse em nome de Rav: estende-se uma esteira sobre as shayafot (fileiras) de tijolos no Shabat, para sentar-se sobre ela, embora os tijolos sejam material de construção, pois os tijolos mesmos não são movidos.
Disse Rabi Shimon beRabi: eu não o ouvi diretamente do meu pai; minha irmã me disse em nome dele: um ovo que foi posto num yom tov (dia de festa), e que por isso não pode ser movido, encosta-se a ele um recipiente de lado para que não role; mas não se emborca sobre ele o recipiente, porque não se move um recipiente por causa do que não se pode mover. E Shmuel disse: ao contrário, emborca-se sobre ele um recipiente. Disse Rabi Mana: e somente com a condição de que o recipiente não toque no corpo do ovo, para que o ovo mesmo não seja movido.
Ensinou Rabi Hoshayá: quanto a um nachil (enxame) de abelhas, estende-se sobre ele um lençol, no calor, por causa do calor, e nas chuvas, por causa das chuvas, embora as abelhas não possam ser movidas. Isto é como quem? Como Rav, que permite estender a esteira sobre os tijolos? Como Shmuel, que permite emborcar o recipiente sobre o ovo? Aqui, o enxame está por cima, pendurado; ali, o ovo está por baixo, no chão, e a diferença de posição distingue os casos.
Rabi Bisna disse em nome de Rabi Yossi bar Chanina: os chafei lessotot (segundo Guggenheimer, os rolos do tear de tecido fino), é proibido movê-los no Shabat. Certa vez, as redes de caça estavam estendidas, e elas se estragavam ao sol. Os donos vieram e perguntaram a Rav: o que é quanto a movê-las? Disse-lhes: pensai sobre elas, com a intenção de pô-las debaixo das vossas cabeças, e vos é permitido movê-las, porque assim se tornam travesseiros.
Rabi Zeira disse em nome de Rabi Yirmeyá: as pontas de kelonsiot (troncos, vigas) sobre as quais alguém pensou desde a véspera, para usá-las no Shabat, é permitido movê-las. Rabi Yona e Rabi Yossi subiram ao sidra (a casa de estudo) de Bar Ulla, pois havia ali uma revaá (uma reunião; segundo Guggenheimer, um banquete), e havia ali pontas de kelonsiot. Uns vieram e perguntaram-lhe: o que é quanto a movê-las? Disseram-lhes: se pensastes sobre elas desde a véspera, é permitido movê-las; e, se não, não vos é permitido movê-las, porque são muktze.
Ensinou Rabi Chalafta bar Shaul: mochin (felpas) sobre os quais alguém pensou desde a véspera, para usá-los no Shabat, é permitido movê-los. Ensinou Rabi Yossi ben Shaul: um tzever (monte) de vigas sobre as quais alguém pensou desde a véspera, é permitido movê-las. Rabi Yossi, Rabi Chanina, em nome de Rabi Yishmael beRabi Yossi; Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Yaakov bar Idi, Rabi Chanina, em nome de Rabi Yishmael beRabi Yossi, transmitem todos o mesmo: meu pai era shalcha (curtidor de peles), e nos dizia: atai para vós as pontas das giziot (peles com a sua lã), e vos é permitido movê-las amanhã, no Shabat, porque o nó mostra que as destinastes a sentar-se. Chizkiyá disse: mesmo se só malan (as prendeu frouxamente, sem nó firme). Rav disse: chariyot (ramos de palmeira) que alguém cortou para deitar-se sobre eles não precisam de amarração; para tendas, precisam de amarração. Rav Abba bar Chana disse: tanto para deitar-se como para tendas, precisam de amarração. Disse Rabi Chizkiyá: e não se assemelha a amarração de Rav, nas tendas, à amarração de Rav Abba bar Chana, nos utensílios. A amarração de Rav, nas tendas, só vale quando ele amarra todos os espinhos. A amarração de Rav Abba bar Chana, nos utensílios, vale quando há sobre eles a forma de um utensílio. Se tu dizes que também ali é preciso que amarre os espinhos, não há maasé (feitura) maior do que esta, pois isto já seria fabricar um utensílio completo, e não uma simples indicação.
Rabi Yaakov bar Idi disse em nome de Rabi Yonatan: jamais se impeça um homem de ir à casa de estudo, pois eis que muitas vezes foi perguntada esta halachá em Yavne: a arevat haYarden (a barca do Jordão, um barco pequeno de barro), por que ela é impura, se um barco é puro? E ninguém disse coisa alguma, até que veio Rabi Chanina ben Antigonos e a expôs publicamente na sua cidade: a arevat haYarden, por que ela é impura? Porque a enchem de frutos, como um recipiente, e a levam do mar para a terra seca, e da terra seca para o mar, e por isso ela é também um recipiente de terra, e não só um barco. E ainda outra coisa expôs ali: os chariyot que alguém cortou, tanto para deitar-se como para tendas, precisam de amarração, para que se possam mover no Shabat. Objetaram a ele: eis os nadirayya (palavra de sentido incerto; segundo Guggenheimer, os barcos raros) de Ashkelon, que não são impuros! Disse Rabi Yitzchak bar Elazar: é diferente, pois parte deles está no mar e parte deles na terra seca, e por isso não se comparam.
A opinião de Rabi Ba bar Chana vem conforme Rabi Chanina, pois disse Rabi Chanina: subíamos com Rabi (Rabi Yehudá HaNassi) a Chamat Gader (as fontes quentes de Gadara), e ele nos dizia: escolhei para vós chalakei avanim (pedras lisas), e vos é permitido movê-las amanhã, no Shabat. Rabi Zeira disse: só quando ele as desbastar com o machado. Os chaveraya (os companheiros, os estudiosos) dizem: só quando ele as polir. Os Tzipporaei (os sábios de Tzipori) dizem: basta quando ele pensar sobre elas. Rabi Yochanan disse: só quando houver sobre elas a forma de um utensílio. Tu encontras que se pode dizer: Rav Chana bar Abba, Rabi Yochanan e Rabi Yonatan têm uma só opinião; Rav, Rabi Zeira e Rabi Yishmael beRabi Yossi, uma; os Tzipporaei, Rabi Yossi ben Shaul e Rabi Chalafta ben Shaul, uma; os chaveraya não têm zug (par).
Esta é a segunda halachá do Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin, que corresponde à primeira parte da Mishná Shabbat 4:2 da Mishná avulsa. A Mishná avulsa 4:2 prossegue com a regra de quem não cobriu a panela enquanto ainda era dia e com a jarra que se põe debaixo do travesseiro; no Yerushalmi, essas cláusulas abrem a halachá seguinte, 4:3. A halachá anterior terminou com a estopa de linho e a serragem de carpinteiros, das quais se disse que esta é aquela e aquela é esta. Esta passa das peles e dos tosões de lã em que se guarda a panela à pergunta sobre o que se pode mover no Shabat: o que não foi preparado para uso antes do Shabat é muktze e não se move; mas basta, em muitos casos, que o dono tenha pensado desde a véspera em usá-lo, ou que lhe tenha feito um sinal, como um nó, para que possa ser movido.
Referências conferidas. Na seção 01, o Bavli, em Shabbat 49a, pergunta se a Mishná fala das peles do dono da casa ou das do artesão, e Rabi Chanina bar Chama traz ali, em nome de Rabi Yishmael beRabi Yossi, a frase “meu pai era curtidor de peles”, que se lê também na seção 07; em Shabbat 50a, Ravina diz que a Mishná fala dos tosões do depósito, e a baraita que o apoia está na Tosefta Shabbat 4:11: os tosões de lã do depósito não se movem, mas, se o dono da casa os preparou para usá-los, movem-se. As seções 02 a 05 aparecem também no Yerushalmi Beitzá 5:1. A esteira sobre os tijolos e o lençol sobre a colmeia estão no Bavli, em Shabbat 43a e em Beitzá 36a; ali, Rabi Yitzchak ensina, como Rabi Shimon aqui, que não se emborca um recipiente sobre o ovo. Na seção 07, o Bavli, em Shabbat 50a, traz a discussão de Rav, que exige amarrar, de Shmuel, que exige pensar, e de Rav Assi, que permite sentar-se mesmo sem uma coisa nem outra, e a baraita, ensinada ali por Rabá bar bar Chana, dos ramos de palmeira cortados para lenha, que precisam de amarração, contra Raban Shimon ben Gamliel; a mesma baraita está em Shabbat 125b. Na seção 08, o paralelo está em Kohelet Rabá 1:15, onde a frase é dita por Rabi Yaakov bar Achá em nome de Rabi Yochanan, o sábio que explica é Rabi Chanina ben Akavia, os de Ashkelon são chamados “os que descem a Ashkelon”, e a resposta é de Rabi Elazar ben Yossi; e no Bavli, em Shabbat 83b, Rabi Chanina ben Akavia explica que a barca do Jordão é impura porque é carregada em terra e descida à água, e a frase “jamais se impeça um homem de ir à casa de estudo” é dita ali por Rav Yehudá em nome de Rav. Que o barco é puro está na Mishná Shabbat 9:2, a partir do versículo “o caminho do navio no meio do mar”, Mishlei 30:19; e a Mishná Kelim 2:3 conta o barco de barro entre os utensílios de barro que são puros. Na seção 09, o Bavli, em Shabbat 125b, traz em nome de Rabi Chanina que Rabi encontrou uma fileira de pedras e disse aos seus alunos: “ide e pensai sobre elas, para que nos sentemos sobre elas amanhã”.
Observações de leitura. Na Mishná, o hebraico desta edição diz “noer”, sacode a cobertura, onde a Mishná avulsa diz “notel”, tira a cobertura; e diz “keitzad osse”, como faz, sem a palavra “hu”. Na seção 01, a segunda frase vem em nome de “Rabi Yudá e Rabi Yochanan”; Guggenheimer propõe ler, como na primeira, Rabi Yehudá ben Pazi em nome de Rabi Yonatan; mantivemos o hebraico. Na seção 03, o hebraico diz “Rabi Shimon beRabi”; o paralelo do Yerushalmi Beitzá 5:1 diz “Rabi Shimon beRabi Yanai”, e Guggenheimer acrescenta o nome a partir dali. Na seção 05, o paralelo de Beitzá traz antes da resposta de Rav as palavras “é proibido tocar nelas”, que Guggenheimer acrescenta; o hebraico desta edição não as tem, e não as traduzimos. Na seção 06, Guggenheimer observa que deveria ser Rabi Zeira em nome de Rav Yirmeyá, ou o inverso; e o hebraico diz “perguntaram-lhe”, no singular, e “disseram-lhes”, no plural, sem dizer quem respondeu. Na seção 07, o hebraico chama Rabi Chalafta “bar Shaul”, e na seção 09, “ben Shaul”. Na seção 09, o hebraico diz “Rabi Ba bar Chana” e depois “Rav Chana bar Abba”; Guggenheimer entende os dois como o Rav Abba bar Chana da seção 07. Ainda na seção 09, a opinião de Rabi Yonatan é a da seção 08, transmitida em seu nome por Rabi Yaakov bar Idi: os ramos de palmeira precisam de amarração tanto para deitar-se como para tendas.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 05, Guggenheimer traduz “metzadta” como os caçadores, e nós, com o hebraico, as redes. Na seção 08, o hebraico diz “em nome de Rabi Yonatan”, onde Guggenheimer traduz Rabi Yochanan; e o hebraico diz “do mar para a terra seca, e da terra seca para o mar”, na ordem que seguimos, onde Guggenheimer põe a ordem inversa; ele entende “nadirayya” como os barcos raros de Ashkelon, e a resposta de Rabi Yitzchak bar Elazar no sentido de que ali uns barcos ficam sempre no mar e outros sempre em terra. Na seção 04, ele explica que, segundo Shmuel, aqui se permite porque o enxame está pendurado num galho, e não pousado no chão como o ovo.