Primeira halachá do Perek Dalet de Massechet Shabbat, que abre o quarto capítulo, Bameh Tomnin. A Mishná ensina em que se pode guardar a panela quente na véspera do Shabat, para que conserve o calor: não em gefet, zevel, melach, sid ou chol, úmidos ou secos, nem em teven, mochin, zogin ou ervas quando úmidos; mas sim em roupas, frutos, penas de pomba, estopa de linho e serragem fina, e Rabi Yehudá proíbe a fina e permite a grossa. A guemará explica que se proibiram as coisas que fervem e fazem ferver, porque quem as tira e devolve aumenta o calor; discute por que é proibido guardar quente depois do escurecer, se por causa da casa de estudo ou da suspeita, e enumera as proibições que se encadeiam umas nas outras até que se permitiu a água quente; traz a cinza quente e a filha de Rabi Yanai, que guardava os pratos no bagaço; pergunta sobre o que está misturado e o que apodreceu; explica a areia, que faz ferver o quente e esfria o frio, e a palha, que devolve o que recebe; compara a lista com o que se afasta da parede do vizinho, e as pedras de ouro, de cobre e de prata; trata dos secos que se umedeceram e do gefet novo e velho; e termina com a estopa e a serragem, que são uma só coisa. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 47b.
Mishná: Em que se tomnin (guarda-se a panela coberta, para conservar o seu calor para o Shabat), e em que não se guarda? Não se guarda a panela nem em gefet (bagaço de azeitona), nem em zevel (esterco), nem em melach (sal), nem em sid (cal), nem em chol (areia), sejam úmidos, sejam secos, porque todos estes acrescentam calor. Nem em teven (palha), nem em mochin (felpas), nem em zogin (cascas de uva), nem em asavin (ervas), quando estão úmidos; mas guarda-se neles quando estão secos. Guarda-se em kesut (roupas), em frutos, em kanfei yoná (penas de pomba), em neoret shel pishtan (estopa de linho) e em nesoret shel charashin (serragem de carpinteiros) fina. Rabi Yehudá proíbe na fina e permite na grossa.
Na Mishná: “Em que se guarda e em que não se guarda” etc. Proibiram aquelas coisas porque essas coisas fervem e fazem ferver, isto é, são quentes em si e aumentam o calor da panela; e ele as tira de cima da panela, e elas tashim (enfraquecem, esfriam) dentro da sua mão, e ele as devolve sobre a panela, e elas acrescentam fervura. Por isso proibiram guardar a panela nelas. E isto é conforme Rabi Elazar ben Azariá, pois Rabi Elazar ben Azariá disse: “O cesto, inclina-o sobre o seu lado e tira a panela”, para não tirar o material que a cobre. E como fica conforme os rabanan de lá, da Babilônia? Eles dizem: se era uma yorá (um caldeirão grande), é permitido. E lá ensinamos: “Se há dúvida se escureceu, dúvida se não escureceu”, e ali se ensina que ainda se guarda a água quente. Permite-se porque não escureceu; mas, se escureceu, é proibido guardar a panela nelas, mesmo nas coisas que não acrescentam calor. Por quê? Lá dizem: por causa do bitul beit hamidrash (a interrupção do estudo na casa de estudo). Disse Rabi Ba: por causa da suspeita, pois, se lhe dizes que é permitido, também ele não as fará todo o necessário enquanto ainda é dia, isto é, não acabará de cozinhar a comida; por tu lhe dizeres que é proibido, também ele o fará todo o necessário enquanto ainda é dia. O que sai entre eles, isto é, qual é a diferença prática entre as duas razões? Guardar neve e tzonin (coisas frias). Na opinião de Rabi Ba, é permitido, pois ali não há comida por cozinhar; e na opinião dos rabanan de lá, é proibido, pois também isto toma o tempo da casa de estudo. Proibiram a temina (o guardar quente) por causa da kirá (o fogareiro); proibiram a kirá por causa da temina. Proibiram a kirá cujo calor é pouco por causa da kirá cujo calor é muito. Proibiram o tavshil (a comida cozida) que se cozinhou todo o necessário por causa do tavshil que não se cozinhou todo o necessário. Proibiram o chamin (a água quente) por causa do tavshil que se cozinhou todo o necessário. Depois voltaram e permitiram o chamin.
Ensina-se: “Não se guarda a panela em remetz (cinza quente, com brasas).” Disse Rabi Zeira: isto diz que cinza que esfriou, é permitido guardar nela. E é como isto: a filha de Rabi Yanai servia diante do seu pai, e trazia diante dele pratos ferventes. Disse-lhe o pai: como isto foi feito? Disse-lhe: com mará (pá; segundo outra leitura, “guardando”) e gefet, isto é, pus a panela diretamente no bagaço. Disse-lhe: não faças assim, mas põe a panela com a mará dentro de um cesto, e põe o cesto sobre o gefet. Disse Rabi Zeira: nisto Rabi Chanina diverge, pois Rabi Achá expôs em nome de Rabi Chanina: se há gefet por baixo e teven daqui e dali, é proibido; e nisto Rabi Yanai concorda com ela, porque ali o bagaço está dentro do próprio cesto.
Avin perguntou: se os misturou, as coisas permitidas com as proibidas, o que são? Ouçamo-lo disto: “Guarda-se em kesut, em frutos e em kanfei yoná.” Rabi Yossi ben Pazi disse em nome de Rabi Yossi bar Chanina: isto que dizes vale quando não aumentou a sua podridão; mas, se aumentou a sua podridão, é proibido guardar a panela neles, porque o que apodrece se aquece.
Na Mishná: “Nem em chol.” Mas lá ensinamos a respeito do morto: “Põem-no sobre a areia, para que se conserve”, e assim a areia parece esfriar. A resposta é: esta areia faz ferver o fervente e esfria o frio, por isso é proibida para guardar quente. Quanto à teven, ela é como um baal pikadon (depositário): quanto tu lhe dás, tanto ela te dá, pois apenas conserva o calor que recebe.
Toda coisa que se afasta da parede do vizinho, é proibido guardar a panela nela, porque produz calor. Disse Rabi Yossi: pelo que ensinamos, “teven, guarda-se nela”, isto diz que não se afasta a palha da parede. Objetou Rabi Chagai: e não se ensina: “E quem aluga uma casa ao seu companheiro, não a faça depósito de cereais”? Por que razão? Não é por causa do motz (a palha miúda, que aquece e estraga a parede)? Disse Rabi Chananiá: não, mas por causa dos ratos. Disse Rabi Pinchas beRabi Chanina: se fosse por causa dos ratos, que se ensinasse mesmo depósito de qualquer coisa! Conclui-se: bem objetou Rabi Chagai. Objetou Rabi Shamai: eis que os selaim (as pedras), afasta-os da parede; agora, então, é proibido guardar a panela neles? Disse Rabi Yossi: não é que os selaim façam ferver, mas eles fazem ferrugem e estragam a base da parede. E não se ensina: “Não se guarda em selaim”? Explica-o com selaim de prata, que aquecem. Há tanaim que ensinam: guarda-se em selaim; e há tanaim que ensinam: não se guarda. Disse Rav Chisda: quem diz “guarda-se” fala dos de ouro, dos de cobre; e quem diz “não se guarda” fala dos selaim de prata.
A Mishná diz “quando estão úmidos”, e não somente os que são úmidos, mas mesmo os secos que se umedeceram. Isto se aprende destes mochin, pois os mochin não são como secos que se umedeceram? Rabi Yochanan bar Shila disse: isto diz que aquele que guarda quente uma ayda (panela, caldeirão) precisa deixá-la faltando um pouco, porque talvez ele venha tirá-la, e ela entorne sobre o material e o faça ferver. Lá ensinamos sobre o forno: “Assim também com gefet nova, mas com a velha, o forno é puro”, porque já não exsuda líquido. E qual é a nova, e qual é a velha? Rabi Yossi beRabi Bun disse em nome de Rabi Yochanan: a nova, dentro de doze meses; a velha, depois de doze meses.
Na Mishná: “Guarda-se em kesut, em frutos e em kanfei yoná.” Rabi Yudá bar Pazi disse em nome de Rabi Yirmeyá bar Chanina: isto que dizes vale quando não aumentou a sua podridão; mas se aumentou a sua podridão, é proibido guardar a panela neles, pois então produzem calor.
Na Mishná: “E em neoret shel pishtan e em nesoret shel charashin.” Nós ensinamos na nossa Mishná: nesoret, serragem. Os tanaim da casa de Rabi ensinam: neoret, estopa. Isto diz que esta é aquela, aquela é esta, isto é, quanto à lei as duas são uma só coisa.
Esta é a primeira halachá do Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin, que corresponde à Mishná Shabbat 4:1 da Mishná avulsa. O Perek Guimel terminou com o recipiente que se põe sob a vela para receber as faíscas. O Perek Dalet passa à hatmaná: na véspera do Shabat, tira-se a panela do fogo e envolve-se em algum material para que conserve o seu calor até a refeição do Shabat. É proibido envolvê-la num material que, por si mesmo, produz calor, porque isto se parece com cozinhar; por isso a Mishná separa o que se pode usar do que não se pode. A segunda Mishná do capítulo, a das peles e das lãs, fica para a halachá seguinte.
Referências conferidas. Na seção 01, as palavras de Rabi Elazar ben Azariá, “o cesto, inclina-o sobre o seu lado e tira”, estão na Mishná Shabbat 4:2, onde ele dá a razão: para que não tire a cobertura e não possa devolvê-la. A Mishná citada com “lá ensinamos”, a da dúvida se escureceu, é, na numeração do Sefaria, a Mishná Shabbat 2:7, que permite ainda guardar a água quente; Guggenheimer a chama de 2:6. Na seção 02, o Bavli, em Shabbat 34b, dá como razão da proibição de guardar quente o receio de que se guarde em cinza com brasas; e, em Shabbat 47b, Rabi Zeira diz em nome de alguém da casa de Rabi Yanai que o cesto em que se guardou a panela não se coloca sobre bagaço de azeitona, o contrário do conselho de Rabi Yanai aqui. Na seção 04, a Mishná do morto que se põe sobre a areia para que se conserve é a Mishná Shabbat 23:5; o Bavli, em Bava Batra 19a, diz da areia, pela boca de Rava, que aquece o quente e esfria o frio; Guggenheimer diz que ali isto se diz das pedras, mas, no texto do Sefaria, o assunto da frase é a areia. Na seção 05, a regra do que se afasta da parede do vizinho é a Mishná Bava Batra 2:1, que manda afastar três palmos o bagaço, o esterco, o sal, a cal e as pedras; a baraita de quem aluga uma casa e não pode fazer dela depósito de cereais está na Tosefta Bava Metzia 8:13. Na seção 06, a Mishná do bagaço novo e do velho é a Mishná Kelim 9:5, que trata do forno aceso com cacos que absorveram líquidos impuros; e o Bavli, em Shabbat 49a, também pergunta como os mochin podem estar úmidos. Na seção 08, o Bavli, em Shabbat 49a, pergunta se a proibição de Rabi Yehudá se refere à serragem ou à estopa, e conclui pela estopa, a partir da baraita que está na Tosefta Shabbat 4:13: “estopa de linho fina é como esterco”.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi põe os mochin antes dos zogin e a estopa antes da serragem; a Mishná avulsa diz “zagim” e põe a ordem inversa nos dois casos; conservamos o hebraico como está. Na seção 01, a palavra “tashim” é entendida por Guggenheimer como “esfriam”; e ele lê a frase sobre os rabanan de lá, os sábios da Babilônia, como uma pergunta, o que seguimos; ele confessa que não está claro o que eles permitiram na yorá. Na seção 02, o hebraico diz “bemará” duas vezes; Guggenheimer traduz entre parênteses “com uma pá”, como no manuscrito, e propõe, com Lonzano, Azulai, o Korban HaEdá e Lieberman, ler “kemará”, “guardando quente”; traduzimos o hebraico e indicamos a outra leitura. Na seção 03, o hebraico diz “Rabi Yossi ben Pazi em nome de Rabi Yossi bar Chanina”, e na seção 07 a mesma frase vem em nome de “Rabi Yudá bar Pazi em nome de Rabi Yirmeyá bar Chanina”; Guggenheimer considera correto o nome Rabi Yehudá ben Pazi e suspeita do nome Rabi Yirmeyá bar Chanina; mantivemos os nomes como estão em cada lugar. Na seção 06, o hebraico escreve “ayda”; Guggenheimer lê “ayra”, um caldeirão, e observa que “ayday” no aramaico babilônico significa “por causa de”.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Na seção 01, o hebraico diz “Rabi Ba”, que Guggenheimer chama Rabi Abba. Na seção 05, Guggenheimer não traduz a frase “conclui-se: bem objetou Rabi Chagai”, que está no hebraico e foi traduzida; e ele entende os selaim como minérios de ouro, de cobre e de prata. Na seção 08, Guggenheimer observa que as duas palavras vêm de raízes diferentes, serrar e sacudir, e que a igualdade vale para a prática.
Com esta halachá, abre-se o Perek Dalet de Massechet Shabbat, Bameh Tomnin (בַּמֶּה טוֹמְנִין).