O daf abre completando a baraita que ficara interrompida no fim de 47a: depois de "isento" para as tábuas de encaixe da cama, o texto prossegue dizendo que ainda assim é proibido encaixá-las com força — e, se alguém as encaixou com força, é culpado de oferenda pelo pecado; mas Rabán Shimon ben Gamliel permite quando o encaixe fica frouxo. A Guemará ilustra essa opinião com um relato: na casa de Rav Chama havia uma cama enrolável, que se costumava recompor em dia de Yom Tov; um sábio questiona a Rava se isso não seria "construção pelo lado" — proibida ao menos rabinicamente, ainda que não biblicamente —, e Rava responde que segue a opinião mais permissiva de Rabán Shimon ben Gamliel. Encerrada essa sugya, o daf traz uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Guimel: coloca-se um utensílio sob a lâmpada para recolher as faíscas que caem dela, mas não se deve pôr água dentro desse utensílio, porque a água apagaria as faíscas. A Guemará questiona se isso não anularia o utensílio de sua designação própria, e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, responde que faíscas não têm substância real, não impondo tal restrição. Sobre a proibição de pôr água, a Guemará indaga se a Mishná segue a opinião mais restritiva de Rabi Yossei sobre causar indiretamente a extinção — mas rejeita a comparação, pois Rabi Yossei só teria falado a respeito do próprio Shabat, não da véspera, enquanto uma baraita mostra que a proibição de pôr água vale já desde a véspera; Rav Ashi resolve que a Mishná se sustenta mesmo segundo a opinião dos sábios, pois pôr água sob a lâmpada é uma extinção direta e iminente, diferente do caso mais indireto do incêndio. Com isso se encerra toda a sugya do Perek Guimel, Kirah, marcado pela fórmula tradicional "Hadran Alach Kirah". Imediatamente a seguir, sem qualquer intervalo no texto original, abre-se o Perek Dalet, Bameh Tomnin ("Com que se guarda quente"), com uma nova Mishná: não se guarda quente a comida com bagaço de azeitona, esterco, sal, cal ou areia, sejam eles úmidos ou secos; nem com palha, cascas de uva, trapos macios ou ervas quando estão úmidos — mas pode-se guardar quente com esses últimos quando estão secos. A Guemará levanta uma dúvida sobre se a proibição do "bagaço" se refere apenas ao de azeitonas ou também ao de gergelim, e tenta resolvê-la com uma citação de Rabi Zeira sobre um cesto usado para guardar quente que não pode ser colocado sobre bagaço de azeitonas — o que sugere que é do bagaço de azeitonas que se fala. O daf termina em texto interrompido, no meio da resposta final que distingue o efeito do bagaço de azeitonas e do de gergelim quanto a aumentar o calor, prosseguindo apenas no início de 48a.
(Continuação direta da baraita interrompida no fim de 47a, sobre as molduras, pernas e tábuas de encaixe da cama:) ...mas é proibido. E não deve encaixá-las com força; e, se as encaixou com força, é culpado de oferenda pelo pecado. Rabán Shimon ben Gamliel diz: se estava frouxo (o encaixe, sem necessidade de força), é permitido.
O daf abre completando exatamente a baraita que ficara interrompida no fim de 47a, na palavra "isento" referente às molduras, pernas e tábuas de encaixe da cama dos artesãos ambulantes. A baraita esclarece que, embora recolocar essas peças isente de oferenda pelo pecado — por não constituir um acabamento definitivo, já que a cama volta a ser desmontada com frequência —, o ato permanece proibido caso o encaixe exija força, pois isso se aproxima demais de fabricar um utensílio novo; e, se alguém de fato o fez com força, torna-se culpado da oferenda pelo pecado, como qualquer outra fabricação completa. Rabán Shimon ben Gamliel, porém, introduz uma distinção adicional: se o encaixe é frouxo, sem exigir força alguma, a ação é permitida de saída, e não apenas isenta de punição.
"Encaixar com força" — refere-se a encaixar as peças com força, por meio de pinos de madeira (cunhas) chamados, em francês antigo, "coinz".
Na casa de Rav Chama havia uma cama enrolável (gelalnita, de encaixe frouxo). Costumavam recompô-la em dia de Yom Tov. Disse-lhe um certo sábio a Rava: qual é a tua opinião (permitindo isso) — não seria isso "construção pelo lado"? Ainda que não haja aí proibição bíblica, há, ao menos, proibição rabínica! Disse-lhe: eu opino como Rabán Shimon ben Gamliel, que disse: se estava frouxo, é permitido.
A Guemará traz um relato prático que ilustra a aplicação da opinião de Rabán Shimon ben Gamliel: na casa de Rav Chama havia uma cama do tipo enrolável, cujas peças se encaixavam com folga, sem necessidade de força, e era costume recompô-la mesmo em dia de Yom Tov. Um sábio questiona Rava, que presumivelmente permitia ou tolerava essa prática, sugerindo que ela deveria ao menos ser proibida rabinicamente como "construção pelo lado" — um método de construir que, mesmo não constituindo a melachá bíblica de construção propriamente dita (pois não há, tecnicamente, "construção" em utensílios móveis), ainda assim se assemelharia o suficiente ao ato de construir para merecer uma proibição de origem rabínica. Rava responde que sua posição se apoia diretamente na opinião de Rabán Shimon ben Gamliel, citada na baraita anterior: como o encaixe dessa cama é frouxo, sem exigir força, ele é permitido de saída, sem qualquer restrição adicional, bíblica ou rabínica.
"Cama enrolável" (gelalnita) — chamada, em francês antigo, "tirandin"; e é semelhante à cama dos artesãos ambulantes.
"Pelo lado" — porque não fica encaixada e apertada com força, chama-se a isso "construção pelo lado", isto é, feita por meio de uma mudança (um modo diferente do usual de construir).
Mishná: Coloca-se um utensílio sob a lâmpada para recolher as faíscas (que caem dela); mas não se deve pôr água dentro desse utensílio, porque isso apaga (as faíscas ao caírem na água, o que constitui extinguir em Shabat).
Guemará: Mas não se está anulando um utensílio de sua designação própria (pois, ficando ali o dia todo para recolher faíscas, ele se tornaria base para elas, impedido de ser usado para outro fim)? Disse Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: as faíscas não têm substância real.
A Guemará questiona a própria Mishná à luz do princípio, já visto anteriormente no daf 47a, de que um utensílio colocado sob algo muktzeh se torna "base" para esse objeto proibido, ficando ele mesmo proibido de mover. Se o utensílio permanece o dia todo sob a lâmpada recebendo faíscas, ele deveria, por essa lógica, tornar-se base para as faíscas — que, sendo restos de combustão sem uso, seriam muktzeh — e o utensílio ficaria anulado de sua designação normal, tal como Rav Chisda havia proibido em um caso análogo no capítulo anterior. Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, resolve a dificuldade explicando que as faíscas, ao contrário das cinzas ou de outros resíduos, não têm substância física real: assim que se apagam, desaparecem por completo, sem deixar vestígio algum sobre o qual o princípio de base para o objeto proibido pudesse se aplicar.
Guemará: "Mas não se está anulando um utensílio de sua designação" — pois não poderá retirá-lo dali o dia todo, já que ele se torna base para as faíscas; diremos que isso viria a refutar Rav Chisda, que proibiu no capítulo anterior (43a)?
"Não têm substância" — assim que se apagam, é permitido retirar o utensílio dali.
"Mas não se deve pôr água dentro dele, porque isso apaga" — diremos que ensinamos essa Mishná de forma anônima segundo a opinião de Rabi Yossei, que disse: causar indiretamente a extinção é proibido?
A Guemará volta-se agora para a segunda cláusula da Mishná, sobre a proibição de pôr água no utensílio. Como colocar água ali não apaga diretamente a lâmpada, mas apenas as faíscas que dela caem — sendo a extinção, portanto, um efeito indireto, causado pela queda das faíscas na água, e não pelo derramar da água sobre a chama —, a Guemará sugere que essa Mishná estaria adotando, de forma anônima e sem citar seu autor, a posição mais restritiva de Rabi Yossei, segundo a qual até mesmo causar indiretamente a extinção de um fogo é proibido em Shabat — opinião mais rigorosa do que a dos demais sábios, que permitiriam ações cujo efeito extintor é apenas indireto.
"Segundo Rabi Yossei" — no tratado sobre Kol Kitvei HaKodesh (Shabat 16a), onde se ensina que se faz uma barreira com todos os utensílios, cheios ou vazios, para que o incêndio não avance; Rabi Yossei proíbe fazê-lo com utensílios de barro novos cheios de água, pois estes não suportam o calor do fogo e se rompem, apagando o incêndio (um efeito extintor indireto, que ele ainda assim proíbe).
Mas, poderias mesmo pensar assim? Diga-se que Rabi Yossei falou a respeito de Shabat (propriamente) — mas, a respeito de véspera de Shabat, disse ele algo? E se disseres que aqui também se trata de fazer isso em Shabat (e por isso a comparação se sustentaria), mas foi ensinado (em uma baraita): coloca-se um utensílio sob a lâmpada para recolher as faíscas em Shabat, e nem é preciso dizer em véspera de Shabat (onde é ainda mais óbvio que é permitido); e não se deve pôr água dentro dele, porque isso apaga, desde a véspera de Shabat, e nem é preciso dizer em Shabat (a proibição vale já antes de Shabat começar). Mas disse Rav Ashi: ainda que digas que a Mishná segue a opinião dos sábios (e não apenas a de Rabi Yossei), aqui é diferente — porque isso aproxima (precipita) sua extinção.
A Guemará refuta a comparação com Rabi Yossei: mesmo que ele proíba causar indiretamente a extinção, essa opinião foi dita apenas a respeito de Shabat propriamente, quando o próprio ato de apagar já constitui uma transgressão bíblica direta; jamais se ouviu Rabi Yossei proibir, já na véspera de Shabat, uma ação cujo efeito extintor só ocorrerá depois, de forma indireta. E uma baraita confirma que a proibição de pôr água no utensílio vale já desde a véspera de Shabat — o que não se encaixaria na opinião de Rabi Yossei, restrita ao próprio dia de Shabat. Diante disso, Rav Ashi propõe uma explicação diferente, que dispensa recorrer à opinião especial de Rabi Yossei: mesmo segundo a posição dos sábios em geral, mais permissiva quanto a causas indiretas de extinção, o caso da água sob a lâmpada é diferente, pois aqui a pessoa prepara e aproxima deliberadamente o momento da extinção das faíscas, tornando o ato mais parecido com uma extinção direta do que com uma causa meramente indireta e distante.
"Em véspera de Shabat" — como neste caso, em que se põe a água ainda de dia, no utensílio sob a lâmpada.
"E se disseres que aqui também" — a Mishná quer dizer: não se põe água nele em Shabat, e essa seria a opinião de Rabi Yossei.
"Mas foi ensinado" — que mesmo em véspera de Shabat é proibido; e, se comparas isso a causar indiretamente a extinção, nem mesmo segundo Rabi Yossei essa Mishná se sustentaria, pois, a respeito da véspera de Shabat, Rabi Yossei não disse nada.
"Mas disse Rav Ashi" — a Mishná se sustenta mesmo segundo a opinião dos sábios, pois não se compara a causar indiretamente a extinção: ali, no caso do incêndio, quando o fogo alcança os utensílios de barro cheios de água, é o próprio fogo que os faz estourar, sendo isso apenas uma causa indireta; mas aqui, quem põe a água mesmo sob a lâmpada apaga de forma direta e real, e decretou-se a proibição já desde de dia por causa de depois de escurecer.
"Porque aproxima sua extinção" — pois prepara a extinção de modo explícito e deliberado, e seria como apagar de forma real, caso pusesse a água em pleno Shabat.
Com a conclusão da sugya sobre o utensílio sob a lâmpada e a proibição de pôr água nele, encerra-se toda a sugya das faíscas e, com ela, o Perek Guimel inteiro, Kirah ("O fogareiro"), que abriu no daf 36b com a Mishná sobre o fogareiro aceso com palha ou lenha e a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel, e que atravessou, ao longo de mais de dez folhas, os temas do muktzeh, das melachot não intencionais, da lâmpada como base para o objeto proibido, e das camas desmontáveis. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula "Hadran Alach Kirah" ("Retornaremos a você, Kirah"). Sem qualquer interrupção no texto original, o daf prossegue imediatamente com a Mishná de abertura do capítulo seguinte.
Mishná: Com que se pode guardar quente (a comida, transferindo-a do fogo antes de Shabat), e com que não se pode guardar quente? Não se guarda quente nem com bagaço (de azeitona prensada), nem com esterco, nem com sal, nem com cal, nem com areia — sejam eles úmidos, sejam secos (pois todos esses materiais aumentam o calor). E nem com palha, nem com cascas de uva, nem com trapos macios, nem com ervas — quando estão úmidos; mas se pode guardar quente com eles quando estão secos (pois, secos, eles apenas mantêm o calor já existente, sem aumentá-lo).
Mishná: "Com que se pode guardar quente" — refere-se a quem vem retirar a panela de cima do fogareiro para guardá-la quente com outro material; e os sábios disseram que não se guarda quente com algo que aumenta o calor, mas apenas com algo que mantém o calor já existente; e qual material é o que aumenta o calor? esse é o proibido.
"Bagaço" (guefet) — o resíduo da prensa de azeite, que fica amontoado junto e é muito quente.
"Úmidos" — têm neles muito mais calor do que os secos.
"Cascas de uva" (zaguin) — o resíduo do lagar de vinho.
"Trapos macios" (mochin) — chama-se assim qualquer material macio, como algodão, tufos de lã macia de animal, e retalhos raspados de roupas velhas.
Guemará: Levantaram uma dúvida: será que ensinamos a Mishná a respeito do bagaço de azeitonas (especificamente), mas o de gergelim estaria bem (permitido, por ser menos quente)? Ou talvez ensinamos a respeito do de gergelim, e tanto mais o de azeitonas (estaria proibido, sendo o de gergelim o caso mais brando)?
Abre-se a Guemará da nova Mishná com uma dúvida sobre o alcance exato do termo "guefet" (bagaço), que a Mishná proíbe para guardar quente por aumentar o calor. Há dois tipos comuns de bagaço prensado: o de azeitonas, resíduo da produção de azeite, e o de gergelim, resíduo da produção de óleo de gergelim. A dúvida é se a Mishná se refere apenas ao bagaço de azeitonas — mais quente, por reter mais óleo residual — deixando o de gergelim permitido por ser mais fraco; ou se, ao contrário, a Mishná fala do caso mais brando, o de gergelim, e que o de azeitonas, sendo ainda mais quente, estaria proibido com maior razão.
Vem (e) ouve (uma resolução): pois disse Rabi Zeira, em nome de um dos discípulos da escola de Rabi Yanai: um cesto com o qual já se guardou quente (uma panela, usando trapos macios) — é proibido colocá-lo (depois) sobre bagaço de azeitonas (pois o calor do bagaço reaqueceria o conteúdo do cesto de modo proibido). Aprenda-se disso que é a respeito do bagaço de azeitonas que ensinamos (a Mishná, como o caso proibido).
A Guemará tenta resolver a dúvida trazendo um ensinamento transmitido por Rabi Zeira, em nome de um discípulo da escola de Rabi Yanai: mesmo um cesto já usado para guardar quente uma panela com um material permitido, como trapos macios secos, não pode ser colocado, depois, diretamente sobre bagaço de azeitonas — pois o calor intenso do bagaço voltaria a aumentar o calor do conteúdo, o que constituiria uma nova ação de guardar quente com material proibido. Como esse ensinamento fala especificamente de bagaço de azeitonas, conclui-se dele que é esse o material a que a Mishná original se refere como proibido, resolvendo a dúvida ao menos quanto a esse ponto.
Guemará: "Um cesto com o qual se guardou quente" — no qual se põem trapos macios, e nele se guarda quente a panela.
Ainda assim, posso te dizer: quanto à questão de guardar quente (hatmaná) — o (bagaço) de gergelim também é proibido; quanto à questão de…
A Guemará propõe uma última distinção, que permitiria manter a dúvida aberta mesmo diante da citação anterior: talvez, quanto à proibição específica de guardar quente a comida (hatmaná), tanto o bagaço de azeitonas quanto o de gergelim sejam igualmente proibidos, sem diferença entre eles — e a citação de Rabi Zeira sobre o bagaço de azeitonas seria apenas um exemplo, não uma exclusão do de gergelim. Mas, quanto a uma questão diferente — a de aumentar o calor de modo geral (hessek ha-haval) —, haveria uma distinção real entre os dois tipos de bagaço. O texto do daf se interrompe exatamente neste ponto, em pleno meio da frase, na palavra "quanto a" ("le-inyan"), sem completar a distinção prometida.
"Quanto à questão de guardar quente" — quanto a guardar a panela quente dentro do próprio bagaço.
O daf 47b termina em pleno meio da frase da Guemará, de forma interrompida, logo após a palavra "לְעִנְיַן" ("quanto à questão de") — a continuação aparece apenas no início de 48a: "אַסּוֹקֵי הַבְלָא — דְּזֵיתִים מַסְּקִי הַבְלָא, דְּשׁוּמְשְׁמִין לָא מַסְּקִי הַבְלָא" ("...aumentar o calor — pois o bagaço de azeitonas aumenta o calor, e o de gergelim não aumenta o calor"). A resposta completa, portanto, distingue as duas questões: quanto a guardar quente diretamente no próprio bagaço, ambos os tipos são igualmente proibidos; mas quanto ao efeito de aumentar o calor ao redor — relevante para saber se um material pode servir de camada intermediária sobre outro material já proibido —, apenas o bagaço de azeitonas de fato aumenta o calor, ao passo que o de gergelim não o faz. A sugya sobre os materiais de guardar quente prossegue então em 48a com o relato de Rabá e Rabi Zeira na casa do Reish Galuta, e a distinção entre "estabelecer" e "gerar" calor.