Segunda halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá. A Mishná passa da kirá ao tanur, o forno, e ao kupach, o fogareiro pequeno: no tanur, mesmo aceso com kash e com gevavá, não se coloca nada, nem dentro nem sobre o seu dorso; o kupach aceso com kash e com gevavá é como a kirá, e aceso com gefet ou com lenha é como o tanur. A guemará traz a baraita de Bar Kapara, segundo a qual é proibido até encostar uma panela ao forno, e a objeção de Rabi Mana a Rabi Shamai; as mulheres que estendiam as suas roupas sobre o forno; as três pedras de Rabi Yudan beRabi Yishmael, ensinadas só em caso de necessidade e às escondidas das vizinhas; e termina com Rabi Yossi: no Shabat se segue o aquecimento, e na impureza, o fechamento. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 38b.
Mishná: Um tanur (forno) que alguém acendeu com kash (palha) e com gevavá (restolho): não se coloque uma panela, nem dentro dele nem sobre o seu dorso, porque o forno retém muito calor. Um kupach (fogareiro pequeno, com lugar para uma só panela) que alguém acendeu com kash e com gevavá, eis que é como kirayim (o fogareiro de duas panelas), e coloca-se sobre ele; se o acendeu com gefet (bagaço de azeitona) ou com lenha, eis que ele é como um tanur, e não se coloca nada nele.
Na Mishná: “Um tanur que alguém acendeu com kash e com gevavá” etc. Ensinou Bar Kapara numa baraita: mesmo encostar uma panela a ele é proibido. Rabi Shamai encostava a panela ao avira (o espaço de ar) do forno, junto dele, sem tocá-lo. Disse-lhe Rabi Mana: e não ensinou Bar Kapara: mesmo encostar uma panela a ele é proibido?
Rabi Mana amaldiçoava as mulheres que estendem as suas roupas sobre o avira do forno, para secá-las no Shabat com o calor que sobe dele. Rabi Yudan beRabi Yishmael ensinou, em caso de necessidade, a varrer as brasas do forno, a pôr três pedras e a colocar a panela sobre elas, como se fosse uma kirá; mas somente com a condição de que as vizinhas não o saibam, para que não tirem disso uma permissão. Disse Rabi Yossi: no Shabat, tu segues o seu aquecimento, e é ele que decide se o fogareiro é como um forno ou como uma kirá; e na questão da impureza, tu segues o seu gipuf (o seu fechamento, a forma em que o fogareiro é fechado).
Esta é a segunda halachá do Perek Guimel de Massechet Shabbat, Kirá, que corresponde à Mishná Shabbat 3:2 da Mishná avulsa. A halachá anterior terminou com Rabi Yochanan beRabi Maryá: a panela pendurada numa estaca e posta sobre um banco só pode ser devolvida quando ele não tirou a mão dela; se tirou a mão dela, é proibido devolvê-la. A Mishná desta halachá passa da kirá a dois outros fogareiros. O tanur é um forno de barro em forma de cone, aberto em cima, que concentra o calor; por isso, mesmo aceso só com palha ou com restolho, que se apagam depressa, não se coloca nele nada, nem dentro nem em cima. O kupach tem lugar para uma só panela: aceso com palha ou com restolho, segue a regra da kirá; aceso com bagaço de azeitona ou com lenha, segue a regra do tanur.
Na seção 01, a baraita de Bar Kapara proíbe até encostar uma panela à parede do forno, e Rabi Mana objeta a Rabi Shamai, que a encostava ao espaço de ar do forno. No Bavli, em Shabbat 38b, Rav Yosef pensou de início que a Mishná só proíbe colocar dentro do forno ou sobre ele, e que encostar é permitido; Abaie o refutou a partir da própria Mishná: o kupach aceso com bagaço ou com lenha “é como o tanur”, e isso só pode falar de encostar a panela a ele; é a mesma regra que a baraita de Bar Kapara ensina aqui. Segundo Guggenheimer, a palavra “avira”, o espaço de ar, pode ser lida no manuscrito também de outra maneira, “adira”, que significa eira, monte ou couro; seguimos o hebraico desta edição.
Na seção 02, Guggenheimer explica que as mulheres estendiam as roupas sobre o forno para secá-las no Shabat com o ar quente que sobe dele. Rabi Yudan beRabi Yishmael tratou o forno como uma kirá: depois de varrer as brasas, pôs três pedras e colocou a panela sobre elas; mas só o ensinou em caso de necessidade, e às escondidas das vizinhas. A palavra “kafin” é entendida por Guggenheimer como pedras, e “megiryat”, como as vizinhas. A regra de Rabi Yossi é explicada por Guggenheimer assim: para o Shabat, todo lugar onde o fogo produz uma corrente de ar quente para cima é tratado como forno, e, sem essa corrente, como kirá, qualquer que seja a sua forma; para a impureza, o que decide é o fechamento: se o fogareiro tem uma abertura embaixo para a entrada do ar, é forno; se é fechado e só tem abertos em cima os lugares das panelas, é kirá. No Bavli, em Shabbat 38b, Rabi Yossi bar Chanina define o kupach como o lugar onde se assenta uma só panela, e a kirá como o lugar onde se assentam duas; e Abaie cita a Mishná Kelim 7:3, sobre a impureza: a kirá que se partiu ao comprido é pura, e ao largo é impura; o kupach que se partiu, quer ao comprido, quer ao largo, é puro.
Observações de leitura. A Mishná do Yerushalmi apresenta grafias e leituras próprias, conservadas no hebraico: “shehisikó”, que alguém acendeu, no singular, onde a Mishná avulsa diz “shehisikuhu”, que acenderam; “gevavá” escrito com he final, onde a Mishná avulsa escreve com alef; “kupach” escrito com vav; e “com gefet ou com lenha”, onde a Mishná avulsa diz “com gefet e com lenha”. Na seção 01, a abreviação “matni’” indica a Mishná, e “kul’”, que traduzimos “etc.”, indica que a citação continua. Na seção 02, Rabi Yossi diz primeiro “atá”, tu, na forma comum, e depois “at”, na forma abreviada; as duas significam o mesmo.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer verte “kupach” como “single burner” e “gevavá” como “stubbles”. Na seção 02, ele traduz “midochak” como “com dificuldade”; nós traduzimos “em caso de necessidade”, que é o sentido da palavra na linguagem das decisões. A Mishná seguinte, Shabbat 3:3, começa: “Não se coloca um ovo ao lado do meicham.”