Primeira halachá do Perek Kaf-Dalet de Massechet Shabbat, que abre o vigésimo quarto e último capítulo do tratado, Mi Shehechshich (aquele sobre quem escureceu), assim chamado pelas primeiras palavras da sua Mishná. O capítulo trata de quem é surpreendido pelo anoitecer da véspera do Shabat no caminho; do alimentar dos animais no Shabat, com os feixes, a forragem, o camelo, os bezerros, as galinhas e as pombas; do cortar das abóboras e da carcaça diante dos cães; e, por fim, da anulação dos votos e do tapar, do medir e do amarrar no Shabat. A Mishná ensina que aquele sobre quem escureceu no caminho entrega a sua kis (bolsa) ao nochri (gentio), e, se não há gentio com ele, coloca-a sobre o jumento; e que, chegando ao pátio exterior, retira os utensílios que se movem no Shabat, e, para os que não se movem, desata as cordas, e os sacos caem. O Talmud Yerushalmi não traz guemará para esta Mishná, nem para todo este capítulo; por isso, esta página apresenta só a Mishná, e a discussão talmúdica está no Bavli.
Mishná: Aquele sobre quem escureceu no caminho na véspera do Shabat entrega a sua kis (bolsa) ao nochri (gentio); e, se não há com ele um gentio, coloca-a sobre o jumento. Chegou ao pátio exterior, o primeiro lugar guardado: retira os utensílios que se movem no Shabat; e, quanto aos que não se movem, desata as cordas, e os sacos caem por si mesmos.
O Talmud Yerushalmi, tal como chegou até nós, não traz guemará para esta Mishná. Os Perakim 21 a 24 de Massechet Shabbat ficaram sem guemará no Yerushalmi: deles temos só o texto das mishnayot, e, no Sefaria, cada halachá desses perakim tem um único segmento, a Mishná. Assim foi nos Perakim Kaf-Alef, Kaf-Bet e Kaf-Guimel, e assim é também em todo o Perek Kaf-Dalet, o último do tratado. Por isso, esta página apresenta só a Mishná, em hebraico e em português, com uma nota; não há seções de guemará, e não pusemos no lugar delas o texto do Bavli nem de outra obra. A discussão talmúdica desta Mishná está no Talmud Bavli. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 153a.
Esta é a primeira halachá do Perek Kaf-Dalet de Massechet Shabbat, Mi Shehechshich, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 24:1 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria; neste capítulo, a divisão das cinco halachot do Yerushalmi coincide com a das cinco mishnayot da avulsa, e conferimos o alinhamento pelo conteúdo de cada uma. As diferenças: o Yerushalmi diz לַנָּכְרִי, com o artigo, onde a avulsa diz לְנָכְרִי; diz מַנִּיחוֹ, onde a avulsa diz מְנִיחוֹ; diz הַנִּיטָּלִין בַּשַּׁבָּת, onde a avulsa diz הַנִּטָּלִין בְּשַׁבָּת; diz só וְשֶׁאֵינָן נִיטָּלִין, “e os que não se movem”, onde a avulsa repete בְּשַׁבָּת; e termina em וְהַשַּקִּין נוֹפְלִין, “e os sacos caem”, sem מֵאֲלֵיהֶם, “por si mesmos”, que a avulsa traz. A avulsa tem também sete vírgulas. Nenhuma dessas diferenças muda a lei; o “por si mesmos”, que pusemos em itálico, completa o sentido, e é o que a avulsa diz. No hebraico do Sefaria, esta halachá tem um único segmento, a Mishná, e nenhum texto de guemará. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná”, que tiramos; não há marcador embutido de folha da edição de Vilna nem de coluna da edição de Veneza, nem colchetes ou parênteses no hebraico desta halachá. Em וְהַשַּקִּין, o Sefaria traz a letra sin sem o ponto; reproduzimos o texto como está.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná abre o capítulo Mi Shehechshich em Shabbat 153a, e diz לְגוֹי e גּוֹי onde o Yerushalmi diz לַנָּכְרִי e נָכְרִי; diz, com o Yerushalmi, הַנִּיטָּלִין בַּשַּׁבָּת, mas repete בַּשַּׁבָּת depois de “os que não se movem”, diz מַתִּיר הַחֲבָלִים, sem a partícula אֶת, e traz no fim, entre parênteses no texto do Sefaria, “por si mesmos”. A guemará começa ali mesmo, em 153a: por que os sábios lhe permitiram entregar a bolsa ao gentio? Porque estabeleceram que uma pessoa não se contém diante da perda do seu dinheiro; se não lho permitires, virá a carregá-la quatro amot (côvados) no domínio público. E Rava diz que isso vale só para a sua bolsa, e não para um objeto achado.
Observações de leitura. Segundo a Bartenura, ainda que o gentio seja aqui o enviado do judeu para carregar a bolsa no Shabat, os sábios o permitiram, porque, se não o permitissem, ele mesmo viria a carregá-la quatro côvados no domínio público. Havendo um gentio com ele, entrega-a ao gentio, e não ao jumento, porque sobre o descanso do jumento a pessoa é ordenada, e sobre o descanso do gentio não. E, quando a coloca sobre o jumento, coloca-a enquanto ele anda e a retira quando ele quer parar, para que o animal não faça o levantar e o pousar; de outro modo, o dono seria mechamer (o que conduz o animal carregado) no Shabat, o que é proibido. O pátio exterior é, segundo a Bartenura, o da cidade, o primeiro lugar guardado, e é um assunto à parte, que não fala da bolsa; as cordas que se desatam são as da albarda. O Rambam dá a mesma razão, de que a pessoa se aflige pelo seu dinheiro, e acrescenta que, se não tem consigo nem animal nem gentio, ele mesmo a leva, andando menos de quatro côvados de cada vez. “Na véspera do Shabat” e “o primeiro lugar guardado” seguem a Bartenura; “quanto aos” e “por si mesmos” completam a frase. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz מִי שֶׁהֶחְשִׁיךְ בַּדֶּרֶךְ por “if somebody is caught on the road when it gets dark” e explica em nota que é a noite de sexta-feira; traduz כִּיסוֹ por “his wallet”; mantivemos “aquele sobre quem escureceu no caminho” e “bolsa”. Ele explica que não se deve aumentar a carga do jumento quando há um gentio disponível, porque a pessoa é responsável pelo descanso do seu animal, como a Bartenura; e que o pátio exterior é o primeiro lugar onde os bens podem ser guardados até o fim do Shabat. Também ele traduz o fim da Mishná com “by themselves”, ainda que o hebraico do Yerushalmi não o diga.
A Mishná seguinte, Shabbat 24:2, na numeração do Sefaria, começa מַתִּירִין פְּקִיעֵי עָמִיר, “desatam-se os feixes de cereal”; no Bavli, ela está em Shabbat 155a.
Com esta halachá, abre-se o Perek Kaf-Dalet de Massechet Shabbat, Mi Shehechshich (מִי שֶׁהֶחֱשִׁיךְ), o último do tratado.