Primeira halachá do Perek Kaf-Guimel de Massechet Shabbat, que abre o vigésimo terceiro capítulo, Sho'el (pede emprestado), assim chamado pela primeira palavra da sua Mishná. O capítulo trata do que se pode pedir e combinar no Shabat sem fazer negócio de dia comum, do contar os hóspedes e do tirar a sorte à mesa, do contratar trabalhadores e do esperar o escurecer junto ao techum (limite de Shabat), e das necessidades do morto no Shabat. A Mishná ensina que uma pessoa pede emprestados ao seu companheiro jarros de vinho e de azeite, contanto que não lhe diga halveini (faz-me um empréstimo); que assim também a mulher pede pães à sua companheira; que, se o outro não confia nele, deixa com ele o seu manto e acertam a conta depois do Shabat; e que assim também na véspera de Pessach em Jerusalém que caiu no Shabat. O Talmud Yerushalmi não traz guemará para esta Mishná, nem para todo este capítulo; por isso, esta página apresenta só a Mishná, e a discussão talmúdica está no Bavli.
Mishná: Uma pessoa pede emprestados ao seu companheiro jarros de vinho e jarros de azeite, contanto que não lhe diga: halveini (faz-me um empréstimo). E assim também uma mulher pede à sua companheira pães. E, se o dono não confia nele, o que pede deixa o seu talit (manto) com ele e faz a conta com ele depois do Shabat. E assim também na véspera de Pessach em Jerusalém que caiu no Shabat: deixa o seu manto com ele, com o dono do cordeiro, e come o seu pessach (sacrifício pascal), e faz a conta com ele depois do Yom Tov (dia festivo).
O Talmud Yerushalmi, tal como chegou até nós, não traz guemará para esta Mishná. Os Perakim 21 a 24 de Massechet Shabbat ficaram sem guemará no Yerushalmi: deles temos só o texto das mishnayot, e, no Sefaria, cada halachá desses perakim tem um único segmento, a Mishná. Assim foi nos Perakim Kaf-Alef e Kaf-Bet, e assim é também em todo o Perek Kaf-Guimel. Por isso, esta página apresenta só a Mishná, em hebraico e em português, com uma nota; não há seções de guemará, e não pusemos no lugar delas o texto do Bavli nem de outra obra. A discussão talmúdica desta Mishná está no Talmud Bavli. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 148a.
Esta é a primeira halachá do Perek Kaf-Guimel de Massechet Shabbat, Sho'el, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 23:1 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria; neste capítulo, a divisão das cinco halachot do Yerushalmi coincide com a das cinco mishnayot da avulsa, e conferimos o alinhamento pelo conteúdo de cada uma. As diferenças: o Yerushalmi diz אִשָּׁה לַחֲבֶירְתָּהּ, “uma mulher à sua companheira”, onde a avulsa diz הָאִשָּׁה מֵחֲבֶרְתָּהּ, “a mulher, da sua companheira”; diz עֶרֶב פְּסָחִים בִּירוּשָׁלֵם, no plural, onde a avulsa diz עֶרֶב פֶּסַח בִּירוּשָׁלַיִם; e diz וְאוֹכֵל אֶת פִּסְחוֹ, “e come o seu pessach”, onde a avulsa diz וְנוֹטֵל אֶת פִּסְחוֹ, “e toma o seu pessach”. Diz também לְאַחַר הַשַּׁבָּת e בַּשַּׁבָּת, com o artigo, onde a avulsa diz לְאַחַר שַׁבָּת e בְּשַׁבָּת; e escreve מֵחֲבֵירוֹ e הַלְוֵינִי, onde a avulsa escreve מֵחֲבֵרוֹ e הַלְוֵנִי; a avulsa tem também cinco vírgulas. Nenhuma dessas diferenças muda a lei; o “come” do Yerushalmi diz o fim daquilo que a avulsa diz pelo começo, o tomar o cordeiro. No hebraico do Sefaria, esta halachá tem um único segmento, a Mishná, e nenhum texto de guemará. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná”, que tiramos; dentro da Mishná, antes de עִמּוֹ חֶשְׁבּוֹן, há um marcador embutido do início da folha 92b da edição de Vilna, que também tiramos, sem mexer em nenhuma letra; não há colchetes nem parênteses no hebraico desta halachá.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná abre o capítulo Sho'el em Shabbat 148a, logo depois do fim do capítulo Chavit, e diz, como a avulsa, הָאִשָּׁה מֵחֲבֶירְתָּהּ, לְאַחַר שַׁבָּת, עֶרֶב פֶּסַח בִּירוּשָׁלַיִם e וְנוֹטֵל אֶת פִּסְחוֹ; com o Yerushalmi, escreve מֵחֲבֵירוֹ e הַלְוֵינִי. A guemará começa ali mesmo, em 148a: Rava bar Rav Chanan pergunta a Abaye que diferença há entre “empresta-me para uso” e “faz-me um empréstimo”, e Abaye responde que quem diz “empresta-me para uso” não vem a escrever, mas quem diz “faz-me um empréstimo” vem a escrever.
Observações de leitura. Segundo a Bartenura, não se diz “faz-me um empréstimo” porque o empréstimo dá a entender um prazo longo, e o empréstimo sem prazo é de trinta dias; por isso, o que empresta viria a escrever no seu caderno quanto emprestou a fulano, para não esquecer. O Rambam, no seu comentário à Mishná, dá a mesma razão: é uma precaução, para que não escreva. Sobre o manto deixado na véspera de Pessach, a Bartenura explica que, se o dono não confia nele, ele deixa o manto e toma o cordeiro e o consagra no Shabat, porque as obrigações que têm tempo fixo podem ser consagradas no Shabat. “Pede”, “o dono” e “o que pede” completam a frase; “com o dono do cordeiro” segue a Bartenura. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz שׁוֹאֵל por “may ask from”, הַלְוֵינִי por “lend me” e טַלִּיתוֹ por “his toga”; mantivemos “pede emprestados”, “faz-me um empréstimo” e “manto”, e a distinção entre os dois pedidos fica nesta nota. Ele traduz וְאוֹכֵל אֶת פִּסְחוֹ por “eats his Passover sacrifice”, como nós, e explica em nota que é quem está em Jerusalém e não comprou o cordeiro antes do Shabat, e que acerta a conta depois do dia de festa.
A Mishná seguinte, Shabbat 23:2, na numeração do Sefaria, começa מוֹנֶה אָדָם אֶת אוֹרְחָיו, “uma pessoa conta os seus hóspedes”; no Bavli, ela está em Shabbat 148b.
Com esta halachá, abre-se o Perek Kaf-Guimel de Massechet Shabbat, Sho'el (שׁוֹאֵל).