O daf continua diretamente de 147b, completando o ensinamento de Rav Chana de Bagdá em nome de Shmuel: a halachá é que se recoloca a fratura no Shabat. Rabba bar bar Chana, que não fora à preleção de Rav Yehuda em Pumbedita e foi trazido à força pelo atendente, cita essa tradição, e Rav Yehuda reconhece que, sem ele, não a teriam aprendido. Segue-se o caso de Rav Avya, cuja mão se deslocou diante de Rav Yosef, e a resposta de Rav Yosef de que a correção de Shmuel vale só para a fratura: “onde foi dito, foi dito”. Com isso se encerra o Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), com o hadran, e abre-se sem pausa o Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10). A nova mishná permite pedir emprestado no Shabat jarros de vinho e de azeite, ou pães, contanto que não se diga “faz-me um empréstimo”, deixando o manto como garantia quando não há confiança, e o mesmo vale para o cordeiro de Pessach em Jerusalém quando a véspera cai no Shabat. Na guemará, Abaie explica a Rava bar Rav Chanan que “faz-me um empréstimo” leva a escrever, e que no Shabat a distinção é reconhecível; e explica por que as mulheres que enchem os cântaros em Yom Tov não precisam mudar o seu modo. A discussão prossegue em Shabbat 148b.
…a halachá é: recoloca-se a fratura. Rabba bar bar Chana chegou a Pumbedita e não entrou na preleção de Rav Yehuda. Rav Yehuda enviou Ada, o atendente, e disse-lhe: vai, arrasta-o. Foi e arrastou-o. Veio e encontrou-o expondo: não se recoloca a fratura. Disse-lhe: assim disse Rav Chana de Bagdá, disse Shmuel: a halachá é: recoloca-se a fratura. Disse-lhe: eis Chana, que é nosso, e eis Shmuel, que é nosso, e eu não o ouvi; e não foi com justiça que te arrastei?!
“A halachá é: recoloca-se a fratura” — Shmuel entende que aprendemos na mishná: “recoloca-se”.
“Ada, o atendente” — menestral, em língua estrangeira: encarregado.
“Arrasta-o” — toma a sua roupa, até que venha.
“Veio” — Rabba encontrou Rav Yehuda etc.
“Eis Chana, que é nosso” — é do nosso lugar, e não ouvimos isto da sua boca até agora.
“E não foi com justiça que te arrastei” — em tom de espanto; pois, se não tivesses vindo, não teríamos aprendido.
O daf retoma a frase interrompida no fim de 147b: segundo Shmuel, a halachá é que se pode recolocar no Shabat um osso fraturado, pois na sua versão a mishná diz “recoloca-se”. Rabba bar bar Chana, de passagem por Pumbedita, não foi à preleção de Rav Yehuda, que mandou o seu atendente buscá-lo à força, tomando-lhe a roupa, segundo Rashi, até que viesse. Ao ouvir Rav Yehuda ensinar a proibição, Rabba bar bar Chana citou a tradição de Shmuel, e Rav Yehuda reconheceu que, sem a sua vinda, não a teriam aprendido. Aqui o transmissor é chamado Rav Chana de Bagdá, enquanto em 147b o texto do Sefaria diz Rabi Chana.
“Aquele cuja mão se deslocou etc.” Rav Avya estava sentado diante de Rav Yosef; a sua mão se deslocou. Disse-lhe: assim, o que é? Proibido. E assim, o que é? Disse-lhe: proibido. Entretanto, a sua mão sarou.
“A sua mão se deslocou” — a sua mão mudou do seu lugar; ashulshiner, em língua estrangeira.
“Assim, o que é?” — fazia o movimento de muitas maneiras e perguntava.
Rav Avya, com a mão deslocada, mostrava a Rav Yosef diversos modos de mover a mão e perguntava se cada um era permitido no Shabat; Rav Yosef proibia todos, e, enquanto isso, a mão voltou sozinha ao lugar.
Disse-lhe: o que te é duvidoso? Mas aprendemos: aquele cuja mão ou cujo pé se deslocou não os agite em água fria, mas banha-se do seu modo habitual, e, se sarou, sarou. Disse-lhe: e não aprendemos: “não se recoloca a fratura”, e disse Rav Chana de Bagdá, disse Shmuel: a halachá é: recoloca-se a fratura? Disse-lhe: tu as teceste todas numa só trama?! Onde foi dito, foi dito; onde não foi dito, não foi dito.
“Tu as teceste todas numa só trama” — num só tecido o teceste.
“Onde foi dito” — que não aprendemos a mishná com exatidão, foi dito.
Rav Yosef aponta a mishná, que proíbe tratar a mão deslocada agitando-a em água fria. Rav Avya objeta que também a cláusula da fratura foi corrigida por Shmuel, de modo que talvez a da mão deslocada também não seja precisa. Rav Yosef responde que as cláusulas da mishná não formam um só tecido: a correção vale apenas onde foi dita, isto é, para a fratura, e não se estende à mão deslocada. Com isso se encerra a guemará do Perek Vinte e Dois.
Com a resposta de Rav Yosef a Rav Avya, encerra-se todo o Perek Vinte e Dois, Chavit, nome tirado da sua mishná de abertura sobre o barril que se quebra, que se estendera de Shabbat 143b:1 a 148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria. Ao longo de quase cinco folhas, o perek percorreu o vinho salvo do barril quebrado, as frutas espremidas e os favos de mel, a impureza dos líquidos e do leite, o deixar de molho e o enxaguar em água quente, o barril perfurado e o furo do galinheiro, o cozido no poço e as roupas caídas na água, o banho em águas de caverna e de Tiberíades, as toalhas, a unção, as águas de Deyomset e, por fim, as curas proibidas e permitidas no Shabat, até a fratura e a mão deslocada. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula Hadran Alach Chavit, voltaremos a ti, Chavit, que no Sefaria ocupa o segmento 148a:4. Sem qualquer pausa no texto original, o daf prossegue imediatamente com a Mishná de abertura do capítulo seguinte.
MISHNÁ. Uma pessoa pede emprestado ao seu companheiro jarros de vinho e jarros de azeite, contanto que não lhe diga: “faz-me um empréstimo”. E assim a mulher, à sua companheira, pães. E, se não confia nele, deixa o seu manto com ele e faz as contas com ele depois do Shabat. E assim, na véspera de Pessach em Jerusalém que cai no Shabat, deixa o seu manto com ele, toma o seu cordeiro de Pessach e faz as contas com ele depois do Yom Tov.
“MISHNÁ. Pede emprestado. Contanto que não diga: faz-me um empréstimo” — explica-se na guemará.
“Que cai no Shabat” — e não se lembrou, desde a véspera do Shabat, de comprar.
“Depois do Yom Tov” — no terceiro dia.
Abre-se aqui o Perek Vinte e Três, cujo nome, Sho'el, pede emprestado, vem da primeira palavra da sua mishná, e que se estende de Shabbat 148a:5 a 153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria. A mishná permite pedir emprestado no Shabat jarros de vinho ou de azeite, ou pães, desde que não se use a expressão de empréstimo, que levaria a registrar a dívida por escrito. Se o dono não confia no outro, este deixa o seu manto como garantia, e as contas se acertam depois do Shabat. Da mesma forma, quando a véspera de Pessach cai no Shabat e alguém não comprou o seu cordeiro de antemão, deixa o manto com o vendedor, leva o cordeiro e acerta as contas depois da festa, que, segundo Rashi, é o terceiro dia, já que o Shabat é seguido pelo primeiro dia de Yom Tov.
GUEMARÁ. Disse Rava bar Rav Chanan a Abaie: em que difere “empresta-me”, e em que difere “faz-me um empréstimo”? Disse-lhe: “empresta-me”, não chega a escrever; “faz-me um empréstimo”, chega a escrever.
“GUEMARÁ. Faz-me um empréstimo” — implica um tempo longo; e estabelecemos no tratado Makot (Makot 3b): um empréstimo sem prazo é de trinta dias; e este credor chega a escrever no seu caderno: tanto e tanto emprestei, para que não esqueça.
Quem diz “empresta-me” pede o objeto para devolvê-lo em pouco tempo; quem diz “faz-me um empréstimo” sugere um prazo longo, de trinta dias quando não se fixa prazo, e por isso o credor tende a anotar a dívida, o que é proibido no Shabat.
Mas, já que no dia comum, às vezes, quer dizer-lhe “faz-me um empréstimo” e lhe diz “empresta-me”, e ele não se importa com isso, e chega a escrever, também no Shabat chegará a escrever! Disse-lhe: no dia comum, em que não há diferença quando lhe diz “faz-me um empréstimo” e quando lhe diz “empresta-me”, não nos importamos com isso, e chega a escrever; no Shabat, já que “empresta-me” é o que os Sábios lhe permitiram, e “faz-me um empréstimo” não lhe permitiram, a coisa é reconhecível, e não chega a escrever.
“Disse-lhe: e, já que no dia comum também, às vezes, quer dizer ‘faz-me um empréstimo’ e diz ‘empresta-me’, e não se importa com isso” — e é empréstimo.
“Também no Shabat” — quando diz ‘empresta-me’, pensa que é empréstimo e chega a escrever; e que sinal distintivo há?
Assim lemos: disse-lhe: no Shabat, já que ‘empresta-me’ os Sábios lhe permitiram e ‘faz-me um empréstimo’ não lhe permitiram, a coisa é reconhecível, e não chega a escrever.
Rava bar Rav Chanan objeta que, nos dias comuns, as duas expressões se usam indistintamente, e então também “empresta-me” poderia levar a escrever. Abaie responde que no Shabat, justamente porque só uma expressão foi permitida, ambas as partes estão atentas à diferença, e não se chegará a escrever. No texto do Sefaria, a primeira parte da resposta de Abaie, sobre o dia comum, aparece entre parênteses, e Rashi indica a sua versão, que começa diretamente com “no Shabat”.
Disse Rava bar Rav Chanan a Abaie: ora, os Sábios disseram: em todas as coisas de Yom Tov, tanto quanto é possível mudar, mudamos. Estas mulheres que enchem os seus cântaros de água, qual é a razão de não mudarem? Porque não é possível. Como fariam? As que enchem com um cântaro grande, que encham com um cântaro pequeno: eis que aumentam o andar. As que enchem com um cântaro pequeno, que encham com um cântaro grande: aumentam a carga.
“Disseram os Sábios” — no tratado Beitzá.
“Tanto quanto é possível mudar, mudamos” — pois dizemos: quem traz jarros de vinho não os traga no cesto nem na cesta grande etc. (Beitzá 29b).
Os Sábios exigem que, em Yom Tov, as tarefas permitidas se façam de modo diferente do dia comum sempre que possível, como ensina a mishná de Beitzá sobre os jarros de vinho. Às mulheres que tiram água, porém, não se exige mudança, pois qualquer alternativa aumentaria o esforço: um cântaro menor obrigaria a mais idas, e um maior, a uma carga mais pesada.