Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Kaf-Bet · Halachá 1 (abertura do capítulo)
שַׁבָּת

Chavit: a ânfora que se quebrou e os líquidos que saem dos frutos

Perek Kaf-Bet, Chavit, Halachá 1 (abertura do capítulo), no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Primeira halachá do Perek Kaf-Bet de Massechet Shabbat, que abre o vigésimo segundo capítulo, Chavit (ânfora), assim chamado pela primeira palavra da sua Mishná. O capítulo trata do que se salva de uma ânfora quebrada, dos líquidos que saem dos frutos, do que se põe em água quente e do que se faz para esfriar ou aquecer, do banho, do enxugar-se e das curas no Shabat. A Mishná ensina que, da ânfora que se quebrou, se salva alimento para três seudot (refeições), e se diz aos outros que venham salvar para si, mas não se absorve o vinho com uma esponja; que não se espremem os frutos para tirar deles mashkin (líquidos), e o que sai por si é proibido; que, segundo Rabi Yehudá, o que sai dos frutos destinados a comer é permitido; e que, dos favos de mel esmagados na véspera do Shabat, o que sai por si é proibido, e Rabi Lazar permite. O Talmud Yerushalmi não traz guemará para esta Mishná, nem para todo este capítulo; por isso, esta página apresenta só a Mishná, e a discussão talmúdica está no Bavli.

Abre-se Perek Kaf-Bet de Massechet Shabbat · Chavitחָבִית

A Mishná · מַתְנִיתִין

חָבִית שֶׁנִּשְׁבְּרָה מַצִּילִין מִמֶּנָּה מְזוֹן שָׁלשׁ סְעֻדּוֹת וְאוֹמֵר לַאֲחֵרִים בּוֹאוּ וְהַצִּילוּ לָכֶם וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִסְפֹּג. אֵין סוֹחֲטִין אֶת הַפֵּרוֹת לְהוֹצִיא מֵהֶן מַשְׁקִין וְאִם יָצְאוּ מֵעַצְמָן אֲסוּרִין. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אִם לָאוֹכָלִין הַיּוֹצֵא מֵהֶן מוּתָּר. וְאִם לְמַשְׁקִין הַיּוֹצֵא מֵהֶן אָסוּר. חַלּוֹת דְּבַשׁ שֶׁרִיסְּקָן מֵעֶרֶב שַׁבָּת יָצְאוּ מֵעַצְמָן אֲסוּרִין וְרַבִּי לִעֶזֶר מַתִּיר:

Mishná: Uma chavit (ânfora) que se quebrou: salva-se dela alimento para três seudot (refeições), e diz aos outros: vinde e salvai para vós; contanto que não o absorva com uma esponja. Não se espremem os frutos para tirar deles mashkin (líquidos); e, se saíram por si mesmos, são proibidos. Rabi Yehudá diz: se os frutos são para ochalin (alimentos), o que sai deles é permitido; e, se para líquidos, o que sai deles é proibido. Favos de mel que ele esmagou na véspera do Shabat: se os líquidos saíram por si mesmos, são proibidos; e Rabi Lazar permite.

A Halachá · הֲלָכָה א

Sem guemará no Yerushalmi

O Talmud Yerushalmi, tal como chegou até nós, não traz guemará para esta Mishná. Os Perakim 21 a 24 de Massechet Shabbat ficaram sem guemará no Yerushalmi: deles temos só o texto das mishnayot, e, no Sefaria, cada halachá desses perakim tem um único segmento, a Mishná. Assim foi no Perek Kaf-Alef, e assim é também em todo o Perek Kaf-Bet. Por isso, esta página apresenta só a Mishná, em hebraico e em português, com uma nota; não há seções de guemará, e não pusemos no lugar delas o texto do Bavli nem de outra obra. A discussão talmúdica desta Mishná está no Talmud Bavli. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 143b.

Nota

Esta é a primeira halachá do Perek Kaf-Bet de Massechet Shabbat, Chavit, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 22:1 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria; neste capítulo, a divisão das seis halachot do Yerushalmi coincide com a das seis mishnayot da avulsa, e conferimos o alinhamento pelo conteúdo de cada uma. As diferenças: o Yerushalmi diz מִמֶּנָּה, onde a avulsa diz הֵימֶנָּה, ambos “dela”; diz יָצְאוּ מֵעַצְמָן, sem vav, dos favos de mel, onde a avulsa diz וְיָצְאוּ מֵעַצְמָן, “e saíram por si mesmos”; e diz וְרַבִּי לִעֶזֶר, onde a avulsa diz וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר. Escreve também שָׁלשׁ, בּוֹאוּ, רִבִּי, לָאוֹכָלִין, מוּתָּר e שֶׁרִיסְּקָן, onde a avulsa escreve שָׁלֹשׁ, בֹּאוּ, רַבִּי, לְאֳכָלִין, מֻתָּר e שֶׁרִסְּקָן; e a avulsa tem onze vírgulas. Nenhuma dessas diferenças muda o sentido; sem o vav, a frase dos favos de mel fica como uma condição, e por isso “se os líquidos” vai em itálico. No hebraico do Sefaria, esta halachá tem um único segmento, a Mishná, e nenhum texto de guemará. O Sefaria abre a Mishná com o rótulo “mishná”, que tiramos; não há marcador embutido de folha da edição de Vilna nem de coluna da edição de Veneza, nem colchetes ou parênteses no hebraico desta halachá. רִבִּי יְהוּדָה é “Rabi Yehudá”, como nas halachot anteriores deste tratado; רַבִּי לִעֶזֶר é “Rabi Lazar”, a forma que o Yerushalmi usa, aqui escrita com רַבִּי e não com רִבִּי, como o Sefaria a traz.

Referências conferidas. No Bavli, a Mishná abre o capítulo Chavit em Shabbat 143b, logo depois do fim do capítulo Notel Adam et Beno, e diz, como a avulsa, הֵימֶנָּה, וְיָצְאוּ מֵעַצְמָן e וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר מַתִּיר. A guemará começa com uma baraita: לֹא יִסְפּוֹג בְּיַיִן וְלֹא יְטַפֵּחַ בְּשֶׁמֶן, שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה כְּדֶרֶךְ שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בַּחוֹל, “não absorva o vinho nem recolha o azeite com a mão, para que não faça como faz nos dias comuns”. Ali mesmo, em 143b, Rav Yehudá diz em nome de Shmuel que Rabi Yehudá concorda com os Sábios sobre as azeitonas e as uvas, cujo líquido é proibido mesmo quando foram destinadas a comer, e Rav Nachman bar Yitzchak diz que eles discordam sobre as amoras e as romãs. Sobre os favos de mel, em 145b, Rav Hoshaya traz de Neharde’a uma baraita: azeitonas e uvas esmagadas na véspera do Shabat, cujo líquido saiu por si, são proibidas, e Rabi Elazar e Rabi Shimon permitem. A guemará desta Mishná segue até 145b, onde começa a Mishná seguinte.

Observações de leitura. Segundo a Bartenura, salva-se alimento para três refeições mesmo em muitos utensílios, e cada um dos outros salva também para si alimento para três refeições; o “contanto que não absorva” quer dizer que não ponha uma esponja para sugar o vinho e espremê-lo de novo, mesmo que a esponja tenha cabo, para que não faça como nos dias comuns; o Rambam, no seu comentário à Mishná, dá a mesma razão. Espremer os frutos é, segundo a Bartenura, uma derivação do debulhar, e o que sai por si é proibido como precaução, para que não venha a espremer. Rabi Yehudá distingue pelo destino dos frutos: se foram recolhidos para comer, a pessoa não quer o líquido que escorre, e por isso ele é permitido; se foram recolhidos para os líquidos, ele é proibido. A Bartenura e o Rambam dizem que a lei é como Rabi Yehudá. Os favos de mel esmagados, segundo a Bartenura, deixam o mel escorrer por si da cera, e não se costuma espremê-los; por isso Rabi Eliezer permite, e a lei é como ele, dizem a Bartenura e o Rambam. “O absorva com uma esponja” traduz יִסְפֹּג, “absorver com esponja”, e “o” é o vinho ou o azeite da ânfora; “os frutos são” e “se os líquidos” completam a frase. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz חָבִית por “amphora”, יִסְפֹּג por “absorb it in a sponge” e לָאוֹכָלִין por “solid food”; mantivemos “ânfora”, “absorva com uma esponja” e “alimentos”. Ele traduz רַבִּי לִעֶזֶר por “Rebbi Eliezer”, como na avulsa; mantivemos “Rabi Lazar”, que é o que o hebraico do Yerushalmi escreve, e a identificação com Rabi Eliezer fica nesta nota. A sua remissão à Mishná 16:3 do Yerushalmi, sobre o alimento de três refeições salvo do incêndio, foi conferida e está correta; a Bartenura remete ao mesmo capítulo, Kol Kitvei HaKodesh.

A Mishná seguinte, Shabbat 22:2, na numeração do Sefaria, começa כָּל שֶׁבָּא בַחַמִּין מֵעֶרֶב הַשַּׁבָּת, “tudo o que entrou em água quente na véspera do Shabat”; no Bavli, ela está em Shabbat 145b.

Com esta halachá, abre-se o Perek Kaf-Bet de Massechet Shabbat, Chavit (חָבִית).